Viagem extenuante, meus amigos. O vôo foi mais complicado do que eu havia dito. De São Paulo fui a Cidade do Leste, no Paraguai, em escala. Depois a Assunção, onde desembarquei e permaneci por duas horas à espera da conexão para Cochabamba, na Bolívia, onde o avião faria uma escala antes de chegar a Santa Cruz de la Sierra. Foram mais de 12 horas em trânsito.
Uma das empresas com as quais tenho negócios mandou um funcionário me esperar no desembarque do aeroporto Viru Viru, em Santa Cruz, para me trazer ao hotel. Trata-se de um boliviano branco, de mais ou menos um metro e sessenta e cinco de altura e muitos quilos acima do peso, na faixa dos quarenta e tantos anos.
Puxei conversa sobre a situação política. Costumo fazer isso sempre que visito um país. Em geral, são os taxistas que me dão as primeiras impressões políticas, mas o tal Jorge, o motorista que foi me buscar no aeroporto, teve que servir. E serviu.
Quando perguntei como estava a situação política, assumiu um tom panfletário e, exaltado, começou a proferir impropérios contra Evo Morales. “Traficante”, “despreparado”, “comunista”, “analfabeto”...
Apesar de ter o estereótipo físico da elite cruzenha – branco, com traços europeus -, o homem está longe de ser dessa elite, ao menos economicamente. Trabalha como motorista. Sua revolta contra Evo me pareceu genuína e não produto de um tipo de discurso político que a classe média baixa chilena, por exemplo, adota “oficialmente” para não desagradar os patrões.
Logo descobri que o sujeito era petroleiro até que Evo nacionalizasse a produção de gás e petróleo. Segundo ele, foi despedido porque a Petrobrás teria reduzido drasticamente as perfurações depois da nacionalização, em 2005, e, agora, tem que trabalhar como motorista, profissão na qual ganha muito menos.
Perguntei se a “autonomia”, aprovada no último dia 4, valia ou não valia, e obtive a resposta de que vale, que logo que ocorrerem os outros referendos nos outros estados que compõem a “Media Luna” (Pando, Tarija e Beni) os impostos serão retidos em cada uma das regiões que supostamente se tornarão “autônomas”.
Esse é um dado importante, porque é óbvio que tal medida não seria aceita pelo governo central...
Sobre a convocação de um referendo por Evo no qual os bolivianos serão chamados a dizer se querem ou não que os “prefeitos dos departamentos” (como são chamados os governadores dos estados) e o presidente da República continuem nos cargos, garantiu que não acontecerá, que Evo fala só por falar, porque não terá coragem. Afirmou que o presidente não ganha nem na região da Cordilheira, onde se supõe que tem maior apoio.
Então, fiz ao motorista a pergunta que sempre faço aos cidadãos dos países que visito, sobre as razões para gostarem ou desgostarem do governo. Ele hesitou um pouco, mas logo começou a enumerar seus motivos para odiar Evo Morales.
Começou dizendo que o dólar caiu muito e, assim, estaria reduzindo a lucratividade das exportações, ou seja, do gás que a Bolívia vende aos vizinhos. Perguntei se achava que Evo era o culpado por isso e, um pouco confuso, o sujeito respondeu afirmativamente, mas sem prolongar o assunto.
Perguntei do salário mínimo. Ele disse que é “uma miséria”. Pareceu ficar irritado quando lhe perguntei quanto é hoje e se antes de Evo era mais baixo. Novamente ele desconversou. Insisti na pergunta sobre os valores e ele mudou de assunto. Começou a falar do desemprego e da pobreza, mas voltou a desconversar quando perguntei se antes de Evo era pior.
Sem que eu perguntasse sobre o assunto, como que justificando sua aversão a Evo começou a falar da relação dele com Hugo Chávez.
Abordou a recente declaração do presidente venezuelano de que atacaria a Bolívia se o presidente constitucional do país fosse derrubado. Explicou-me que Chávez protege Evo porque este o paga “com droga”. Garantiu-me que aviões e mais aviões decolam estufados de “droga” rumo à Venezuela. Perguntei se era cocaína e o homem resmungou alguma coisa que não pude entender. Achei melhor deixar assim.
Perguntei, finalmente, se, para ele, seria melhor separar a Bolívia em Ocidental e Oriental, ou Leste e Oeste, e foi aí que pude perceber um viés racista. Respondeu que seria difícil, que resultaria numa guerra civil. Insisti para que me dissesse, sendo possível ou não, se gostaria disso e ele afirmou que seria o melhor, mas que os colhas (os índios) não iriam querer, porque a “Media Luna” os “sustenta” já que toda riqueza está nesta região.
O motorista branco – que, segundo me revelou, é descendente de espanhóis -referiu-se aos índios como se fossem de outro país. Afirmou que são a “praga” da Bolívia. Achei melhor não confrontá-lo com o fato de que ele, e os brancos como ele, é que são uma restrita minoria dos bolivianos...
Obviamente que não estou contando novidade nenhuma. Todos sabem que boa parte dos cruzenhos repudia Evo Morales e que não são apenas os ricos que repudiam. Creio, porém, que poderei demonstrar a irracionalidade de um discurso que tergiversa, tergiversa, mas não diz as verdadeiras razões da aversão a Evo Morales e ao processo que está implementando no país.
Domingo, 11 de maio, embarco para a Bolívia às 8 da manhã. Saio do Aeroporto internacional de Cumbica, em Guarulhos (SP). Farei escala no aeroporto Silvio Petirossi, em Assunção do Paraguai. De lá, pego a conexão para o aeroporto Viru Viru, em Santa Cruz. Demorarei 8 horas para fazer isso.
Tive que pegar esse vôo doido para poder viajar no domingo. Não havia alternativa viável (inclusive economicamente) nesse dia.
Viajarei pela temível TAM, de tantas "histórias"... Mas, dentro das probabilidades de acidentes em viagens, os acidentes aéreos devem ser os menos freqüentes. Certo?
Terei uma semana de visitas a clientes em Santa Cruz de la Sierra. Como sempre, será uma pedreira. Como se não bastasse o fato de que, por conta da valorização do real, meus preços estarão cerca de 10% mais caros do que na viagem anterior, em junho do ano passado, ainda tem a situação política explosiva do país, que se supõe que deveria pôr o ambiente de negócios no mínimo em compasso de espera.
Explicar 10% de aumento em dólar é difícil? Era. Hoje não é mais. A moeda boliviana, que, obviamente, chama-se boliviano, também se valorizou frente ao dólar. Para os preços relativos internos na Bolívia, meus produtos estarão rigorosamente dentro do último preço em bolivianos que lhes vendi, talvez até mais baratos. A valorização do boliviano diante do dólar compensará o aumento na moeda americana.
O problema, no entanto, reside na concorrência estrangeira. A moeda argentina, por exemplo, vale bem menos do que o real. E a Argentina tem uma indústria atuante e em processo de qualificação, processo que se impõe devido ao sucateamento do parque industrial do país durante a década passada, permeada, aqui, pelo fernandismo made in Sorbonne, e lá, pelo menemismo punguista mesmo.
Mas o grande problema são os chineses. Eles matavam a pau antes com produtos a preço de nada, porém sem qualidade. O diabo é que começam a fabricar produtos melhores e com uma diferença de preços ridiculamente baixa.
Que não se pense, porém, que é a desvalorização do dólar que ampara os chineses, porque eles são vítimas da queda do dólar tanto quanto qualquer outro país. Ao menos no que tange as exportações. O diferencial deles é o trabalho diligente e o entendimento que os grandes ganhos comerciais contemporâneos residem nos negócios em escala.
Quais são os grandes multimilionários chineses? Que existam, mas não são os maiores e muito menos em dimensão proporcional ao tamanho da economia chinesa. Não se fica rico na China como se fica no Brasil.
O Ocidente capitalista é caracterizado pelas mega fortunas que só se acumulam com um plus nas margens de lucro que termina sendo o que nos torna menos competitivos do que os chineses, mas não só eles. Nossas margens são maiores do que as dos argentinos, por exemplo. E de muitos mais. No segmento em que atuo (autopeças), chegamos a perder até dos italianos.
Culpam o câmbio, mas não é. Claro que um câmbio favorável poderia nos tornar até mais baratos, mas seria somente para ocultar uma ineficiência e uma visão do que seja rentabilidade diferenciada da de vários outros países exportadores.
Dirão que é porque nossos impostos são mais altos, o que é mentira. E onde houver alguma diferença maior da carga tributária brasileira, não justifica, matematicamente, sermos tão mais necessitados de margens de lucro.
Para exportar é preciso, antes de tudo, aprimorar qualidade, produtividade e custos. E não é pela via do achatamento salarial, pois para exportar é preciso bons profissionais em toda cadeia produtiva. É pela via do esforço empresarial, que, no Brasil, ainda é comodista ao extremo, muito mais do que na maioria dos outros países industrializados.
Contudo, aqui ou em qualquer parte o empresário sempre precisará de homens como eu para vender seus produtos. Gente que sai pelo mundo, afastando-se da família, arriscando-se com os imprevistos que caracterizam as viagens para trazer negócios aos produtores, empregos à sociedade e, no meu caso, divisas ao país. Então vamos à luta. Se quiserem, venham comigo. Não faltarão informações neste blog.
Querem saber de uma coisa?, paremos um pouco de permitir que "eles" nos pautem e ouçamos, no vídeo acima, um vencedor, um guerreiro, um homem que sobrepujou tudo e todos aqueles que fizeram o possível e o impossível para humilhá-lo desde que, por meio de sua inteligência inata, despontou como uma das maiores lideranças políticas da história e, assim, tornou-se o homem mais poderoso do país, valendo-se apenas da força de sua verdade e de sua abençoada inteligência intuitiva, que relegará os almofadinhas empertigados e arrogantes da aristocracia tupiniquim a um canto escuro da história, perplexos, sem saber explicar, não só a inteligência política desse estadista que é Luiz Inácio Lula da Silva, mas sua competência, sua visão, seu conhecimento de quais realmente são os problemas deste país. E não se tratam dos problemas da elite, de seus caprichos e de sua frustração ao constatar repetidamente o muito que a riqueza não lhe pode trazer, mas dos problemas daqueles que só podem contar mesmo é com um Estado gerido de forma humana, voltado para a redução da iniqüidade revoltante que, até que Lula chegasse ao poder, era empurrada com a barriga. Assistam ao vídeo acima e juntem-se ao presidente da República, digam a essa elite sanguessuga que ela realmente é composta por aqueles que o presidente bem denominou meros burros, com sorte, mas burros mesmo, que confundem a sorte de terem nascido em famílias abastadas com a inteligência que Lula esbanja e da qual não se cansa de dar provas. Claro que não perceberão a própria estupidez pois são casos perdidos, porque, além de burros, são arrogantes. Mas esse é um problema deles, não nosso. Aliás, para a democracia é até uma benção que tenham a visão tão obliterada por seus preconceitos, porque são eles que terminaram por permitir a este povo que se levantasse depois de tantos séculos de opressão e de escárnio.
Está sendo apresentado pela imprensa, em bloco, um "laudo técnico" feito para a Casa Civil na investigação dos computadores do Palácio do Planalto na investigação sobre quem vazou o que os meios de comunicação chamam de "dossiê com os gastos da presidência no governo Fernando Henrique". Quem deu o furo foi o Jornal Nacional, segundo quem "a investigação mostra que as informações sigilosas foram divulgadas por um funcionário da Casa Civil".
O destaque dado pela imprensa ao fato de que a documentação saiu da Casa Civil esconde o que realmente revela de novo o laudo do Instituto de Tecnologia da Informação (ITI) , ou seja, que a divulgação dos dados sigilosos foi mesmo obra do senador pelo PSDB paranaense Álvaro Dias, pois nunca houve dúvida de que os dados tinham saído do Palácio do Planalto, pois é lá que esses dados estavam armazenados e isso nunca foi negado pelo governo federal.
Outro dado novo é o nome do responsável pelo computador de onde saíram os dados sobre os gastos de FHC. José Aparecido Nunes Pires é secretário de controle interno da Casa Civil e enviou o material para André Eduardo da Silva Fernandes, assessor do senador Álvaro Dias, do PSDB.
Segundo o Jornal Nacional dá a entender, a Globo já estava de posse dos dados há dois dias e só os divulgou ontem à noite. A retenção das informações é mais significativa do que elas próprias. E o que dá a entender que houve tal retenção foi a seguinte locução da reportagem do JN: "Na terça-feira, Zé Aparecido prometeu entregar cópias dos e-mails trocados com André para provar que o anexo do e-mail não era o dossiê". O assunto, portanto, já vinha sendo desenrolado nos bastidores antes de vir a público.
Ao contrário do tom do noticiário, a revelação do nome de quem entregou a documentação a Álvaro Dias e a confirmação de que foi do senador tucano que partiu a divulgação do "dossiê" para a imprensa é que são os fatos novos. E mais: esses fatos complicam muito mais a oposição do que o governo, porque, apesar do tom que está sendo ditado por jornais como Folha e Globo, foi a própria Casa Civil quem divulgou quem vazou para quem as informações furtadas do Palácio do Planalto.
Nesse aspecto, a manchete de primeira página mais correta, ou menos deturpada, é a do Estadão, que diz o seguinte: "Casa Civil diz que aliado de Dirceu vazou dossiê anti-FHC". Sim, foi a Casa Civil quem divulgou o que está sendo apresentado como denúncia, pois a investigação é da Casa Civil, não da imprensa.
Contudo, a manchete do Estadão tampouco é 100% correta, porque destaca que funcionário que trabalhava na Casa Civil quando o ministro-chefe da pasta era José Dirceu é o responsável pelo vazamento, quando o que se sabe é que foi do computador dele que partiu um e-mail supostamente contendo os dados sigilosos. A especificação de qual mensagem enviada daquele computador é acusada de conter anexados os dados furtados faz supor que já se possa comprovar que foi numa mensagem do ex-assessor de Dirceu José Aparecido para o assessor de Álvaro Dias André Eduardo que os dados foram vazados, mas o notíciário deixa dúvidas de que já seja possível comprovar isso.
De qualquer maneira, a pergunta que mais interessa neste momento é a seguinte: por que José Aparecido enviou os dados para, no fim das contas, Álvaro Dias? Esses dados foram pedidos pelo senador ao seu assessor para que os obtivesse de José Aparecido ou foi este que os ofereceu ao parlamentar tucano? Com que intenção? Foi para chantagear o PSDB ou para comercializá-los com o partido?
Para afirmar que foi para chantagear, é preciso provas. Não dá para afirmar isso porque pode ter sido o PSDB que supostamente corrompeu José Aparecido a fim de armar uma cilada para destruir a candidatura que o partido acreditava que estava sendo promovida por Lula usando o lançamento de obras do PAC, a candidatura de Dilma Rousseff.
Existe um princípio investigativo que deve sempre ser observado para descobrir culpados por crimes. Recentemente, aludi a esse princípio em um texto sobre o caso Isabella Nardoni. Trata-se da expressão em latim "Cui Prodest", ou seja, a quem interessa, e o vazamento dos dados interessa aos dois fins.
Há duas hipóteses completamente antagônicas sobre a razão de, supostamente, José Aparecido ter enviado a Álvaro Dias - no fim das contas - os documentos que, bem orquestrados, poderiam gerar a criminalização da ministra Dilma Rousseff. A de isto ter ocorrido ou a de que o que ocorreu tenha sido o contrário, de que houve esse envio de dados para intimidar o PSDB. Nenhuma das duas hipóteses, porém, pode ser descartada numa investigação policial. A mídia quer transformar a segunda hipótese em fato, mas, legalmente, ambas as hipóteses são admissíveis e precisam ser igualmente investigadas. E serão, não tenham dúvidas.
Ao que parece, a demora de dois dias da Globo em divulgar essa notícia pode ter se devido também à emissora querer esperar o depoimento de Dilma Rousseff ao Senado na quarta-feira, a fim de corroborar as acusações que ali lhe seriam feitas. Contudo, o fator José Agripino Maia frustrou os planos globais ao paralisar as acusações da sessão do Senado em que a ministra foi perquirida. Então, pode ter sido criada uma fórmula para inverter a natureza da notícia, tirando Álvaro Dias da linha de fogo e colocando "os culpados de sempre", ou seja, José Dirceu, sempre chamado a responder pelas acusações dos braços midiáticos do PSDB.
O senador Álvaro Dias diz, candidamente, que "não sabia quem tinha enviado o dossiê ao seu assessor, mas que agora sabe". Segundo a Globo, porém, "O senador não quis pronunciar o nome de André Eduardo da Silva Fernandes, o funcionário de seu gabinete que recebeu o dossiê. Mas confirmou que se trata dele mesmo".
Álvaro Dias teria dito que “O nome que a Globo tem" ele confirma e que essa pessoa o autorizou a confirmar seu nome. Contudo, a emissora diz também que "O senador não soube explicar por que o dossiê foi parar na mão dele, que é de oposição". O tucano teria dito que "não imagina o porquê" e que "certamente houve uma alteração de cronograma, houve um atravessamento, não era hora de vazar esse dossiê, não era isso que estava estabelecido por quem ordenou", e que "O mais importante agora é saber quem mandou fazer esse dossiê e por que mandou fazer”.
Essa é a versão de um dos principais envolvidos no caso, e não os fatos. Álvaro Dias pode muito bem ter orquestrado a obtenção dos dados valendo-se da amizade de seu assessor com o ex-assessor de Dirceu. Essa é uma hipótese tão boa quanto a que está sendo veiculada pela mídia como se fosse fato, à revelia de que ainda não há provas que favoreçam nenhuma das duas versões.
O que se espera, no entanto, é que essas provas ainda surjam. Por isso, a mídia se arrisca muito ao bancar a versão de um dos lados, do lado tucano da investigação. O mais lógico seria ela aproveitar o factóide para diminuir a banho que Dilma Rousseff deu na oposição na quarta-feira e deixar o assunto de lado, mas isso seria o mais lógico e a mídia tem desprezado a lógica reiteradamente, agindo sempre de forma emocional diante dos gols que vem tomando do governo Lula.
É claro como água e óbvio como um dia depois do outro que ainda é cedo, ou melhor, bem mais do que cedo para tirar qualquer conclusão dos movimentos do mercado financeiro depois da reclassificação do Brasil na análise de risco de uma das três mais importantes agências do mundo, Standard & Poor's, Moody's e Fitch Ratings.
A S&P subiu a nota brasileira há só uma semana. Estão sendo ridículos, pois, os que afirmam que a alta do dólar e a queda da Bovespa nesta semana constituiriam "prova" do erro das previsões catastrofistas de que a melhora do conceito do Brasil no mercado financeiro internacional significaria um passo de gigante rumo ao déficit comercial. Estão sendo tão ridículos quanto os que previram o caos diante de uma ótima notícia, mas que não dá motivos para o ufanismo que se viu.
A oscilação da palpitaria entre o catastrofismo e o ufanismo causam prejuízos ao Brasil ao gerar inquietude no mercado financeiro e seu notório coração de passarinho. Mas que não se diga que o mercado está errado nessa sensibilidade extremada, porque ela decorre do conhecimento dele sobre o poder que a política tem de influir na economia. Tanto o catastrofismo quanto o ufanismo decorrem de injunções políticas, não da racionalidade com que o aumento da nota brasileira deveria ser tratado, e o mercado teme que essas injunções influam na condução da política econômica.
Quando prego a separação amigável entre a economia e a política, não me refiro apenas à política partidária, mas também à política do mundo dos negócios.
No caso da política partidária, governistas andaram pregando o grau de investimento como panacéia, e os oposicionistas, que perceberam que não iria colar tentarem atribuir o mérito da melhora da classificação de risco do Brasil a FHC, decidiram partir para a pregação do caos.
Já no caso da política do mundo dos negócios, a sede legítima de lucros maiores e o comodismo pernicioso do empresário brasileiro podem assustar os investimentos produtivos que poderão vir se nos portarmos com sobriedade. Porém, quando os exportadores exigem a facilidade do câmbio favorável em vez de aumentarem a produtividade, enveredam pelo pior dos caminhos, por um que nem a muleta do dólar caro os ajudará a trilhar.
Delfim Neto cunhou uma frase sobre a palpitaria cambial que acho magnífica: "Quem acha que está bem informado sobre o câmbio, está apenas mal informado".
Acreditar que dá para prever o fim do saldo comercial positivo no comércio exterior brasileiro a partir de um fenômeno em escala mundial que faz o dólar perder fôlego em toda parte, é uma bobagem.
Inquietudes externas desta semana fizeram o dólar subir; a tranqüilidade que certamente sobrevirá no dia seguinte, quando surgir a visão de que o bicho não era tão feio, tampouco está amparada em nada mais do que na conjuntura. E, como se sabe, conjunturas são assim chamadas por serem mutáveis.
Por outro lado, atentem para o seguinte: quem achar que pode ganhar mercados externos por meio da variável preço, está viajando na maionese. Trabalho com exportações há quase duas décadas. Posso falar de cadeira. Hoje em dia, tentar se firmar em qualquer mercado através de preço é inviável devido à China, por exemplo, que vence qualquer um nesse quesito.
Aliás, as "soluções" propostas para segurar a cotação do dólar, são risíveis. Prega-se, por exemplo, uma imediata imposição de "regras" para os capitais voláteis com vistas a enxugar o afluxo de dólares que faz o real se fortalecer. Ora, essas regras até poderiam frear a entrada de dólares voláteis, mas em que proporção isso aconteceria e qual o efeito dessa interrupção abrupta do fluxo de dólares? E se o preço do dólar disparasse diante dessa interrupção? Que faríamos com a inflação que sobreviria? Ou será que uma maxidesvalorização do real não geraria uma subida da inflação igualmente abrupta?
A palpitaria dos especialistas que não estão no governo colide com o fato de que não dispõem de muitas das informações de que precisariam para palpitar, por mais que sejam especialistas. Claro que não é por isso que se irá dizer amém a tudo que faça a equipe econômica. Governos já erraram como loucos na condução da economia. Quando tudo está dando errado, como vinha acontecendo até há alguns anos, a palpitaria tem o mérito de apontar caminhos para quem não está sabendo que caminho tomar. Porém, quando tudo vem dando tão certo, achar que todos no governo são umas bestas e os palpiteiros são os iluminados não me parece lá muito coerente.
Querem uma opinião para se posicionarem? Ignorem os interesses políticos e comerciais que estão por trás da maioria dos ufanistas e catastrofistas. Vamos prestar atenção no filme. Esse que está passando parece que ainda não vimos. Se assim for, tentar adivinhar seu "final", sendo o enredo tão complexo, não tem lógica.
Dossiê
Muitos virão aqui em busca de uma opinião sobre o novo "escândalo" dentro do "escândalo do dossiê". Falarei sobre o assunto no decorrer do dia, em post específico.
Por enquanto, segurem a ansiedade. O PIG só tenta reagir ao golpe que levou anteontem no Senado transformando informações preliminares em informações conclusivas.
A pergunta óbvia é sobre que relação pode haver entre o "aliado" de José Dirceu e o tucano Álvaro Dias que fez um enviar os dados ao outro.
O senador pelo "Democratas" do Rio Grande do Norte José Agripino Maia, iniciou sua carreira política em 1979 no PDS, sigla em que se converteu a Arena, o partido da ditadura militar. Tinha, então, 34 anos. Era, portanto, um homem feito, que, em seu juízo perfeito, filiou-se ao partido que dava sustentação ao "regime de exceção" que ele, enquanto interrogava a ministra Dilma Rousseff, disse ter medo de que estivesse "voltando", ao insinuar que ela mente quando diz que não mandou fazer qualquer dossiê sobre os gastos do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, pois disse, um dia, que "mentiu muito" àqueles que a torturaram na flor de sua mocidade, aos 19 anos.
Manchete do portal UOL veiculada no dia do fato que ora comento, dizia que Dilma "se exaltou" com a pergunta do ex-correligionário dos torturadores do regime militar. Eu não diria que ela "se exaltou". Falou com segurança e domínio do verbo, mas permitiu que a indignação, diante de tal absurdo, de tal inversão da verdade e da lógica, permeasse sua fala.
Não é fácil mentir ao torturador. Digo isso não por experiência própria, porque, graças a Deus, ao tempo em que as pessoas eram presas e torturadas por suas opiniões eu ainda era criança. Quando atingi a mocidade, os correligionários políticos de Agripino Maia ainda torturavam, mas era muito mais raro. Além disso, não me envolvi com política na mocidade. Contudo, não me faltam amigos que viveram o que viveu aquela jovem de 19 anos que teve uma coragem que muito poucos homens feitos tiveram, de mentir a torturadores.
A tortura, segundo me foi revelado por vítimas dela que conheci, faz o torturado compactuar de tal maneira com cada desejo do torturador que até pode mentir, sim, mas para satisfazê-lo. Contudo, quando o torturador quer extrair informações e não consegue, porque o torturado mente, mente muito, como Dilma declarou um dia que fez nos porões da ditadura, é preciso que a vítima tenha uma fibra, um apreço a ideais e à democracia que está ao alcance de muito poucos, repito. Sobretudo se o torturado for tão jovem quanto era a ministra.
Alguém que se uniu a um grupo político que dava sustentação a ditadores criminosos, que compactuavam com atos como os que vitimaram Dilma Rousseff e a tantos outros acusar uma das vítimas de sua cumplicidade criminosa de praticar atos que tal acusador praticou um dia, ainda que por vias tortas, deveria afrontar qualquer pessoa decente. Foi assim que me senti ao ver o vídeo acima: afrontado.
O ato de Agripino Maia tentando pôr uma de suas vítimas no lugar que ele mesmo ocupou um dia não foi só desprezível, foi revelador do tipo de gente que compõe a oposição ao governo Lula.
Mandem o Agripino Maia...
O leitor Gustavo Borges, fotógrafo do Rio, deu uma sugestão que poderia desopilar nossos maltratados fígados. Vejam:
"Eduardo, segundo a página do senado o e-mail do "Menguele" tupiniquim é jose.agripino@senador.gov.br . Escreverei uma mensagem a ele, mas acho que coletivamente haveria mais força. Use sua capacidade de liderança sobre seus leitores e aglutine as adesões. Este ato não pode passar sem Barulho"
Já mandei meu e-mail a Agripino Maia e ao PIG. Vocês deveriam fazer o mesmo. Se quiserem usar este post, sintam-se à vontade.
Quem viveu a Ditadura
Leiam o comentário da minha amiga Vera Pereira, socióloga e professora aposentada do Rio de Janeiro, cujos sentimentos diante dessa indignidade que aconteceu ontem se coadunam com os que me possuíram:
"Perfeito, Eduardo. Senti no seu texto a mesma emoção indignada que também me fez chorar aqui em casa, diante da televisão, sozinha, mas com o coração lá, em Brasília, ao lado da Dilma, e junto de tantos brasileiros e brasileiras da mesma geração da ministra, que, tenho certeza, também se emocionaram. Uma emoção que mistura a lembrança da dor - que não sofri pessoalmente, mas que muitos amigos meus, vivos, sofreram, e que outros, mortos, não puderam dizer - e a revolta contra aqueles seres abjetos que saíram das tocas, ávidos para destruir uma ministra que acreditavam poder botar novamente no pau-de-arara. E que ela reduziu à dimensão insignificante que têm diante de todo o pais, sem precisar de nenhuma outra arma a não ser a dignidade, a competência, o trabalho, a franqueza e a coragem."
Faz alguns dias, comuniquei que viajaria à Bolívia, mas, devido à situação política do país, cogitei adiar a viagem. Contudo, notícias que estou obtendo sobre a situação por lá revelam que do conflituoso processo eleitoral em Santa Cruz não estão decorrendo maiores problemas.
A impressão que estou extraindo dos contatos à distância que estou fazendo em preparação da missão comercial que empreenderei, é a de que não há expectativa de maiores conseqüências da polêmica votação de domingo passado. As Forças Armadas apóiam o governo. A população de Santa Cruz está dividida. O resultado do pleito, além de não ser confiável devido às denúncias de fraudes, foi distorcido pela abstenção dos que divergiram de sua realização.
Apesar do show que acaba de ocorrer no país andino, o que parece é que o pretenso separatismo late, late alto, mas não morde. Provavelmente, não terá passado de um gigantesco factóide que dificilmente terá maiores conseqüências além da convulsão episódica que todos vimos.
Duvido de que a elite cruzenha e sua massa de manobra sequer cogitem tentar fazer valer o tal "estatuto autonômico". O que buscaram os pretensos separatistas foi tentar acuar o governo para negociarem a nova carta constitucional do país em posição de menor debilidade. Como a oposição a Morales não tem representação legislativa sólida, está tentando uma chantagem.
Diante desses fatos, minha viagem está mantida. Embarco para Santa Cruz de la Sierra no próximo dia 11.
Estou traçando um plano de trabalho para que me sobre algum tempo para buscar informações para vocês. Nenhum noticiário pode se comparar à visão in loco de uma outra sociedade. Procurarei, então, transmitir uma visão particular dos fatos que possa agregar alguma coisa ao que já se sabe.
Este ano, ainda viajarei muito. Em junho, vou à Venezuela; em julho, à Costa Rica; e ainda em 2008 devo ir a São Tomé e Príncipe, na África. Contudo, não tenho traçados os planos para o segundo semestre. Só o que sei é que na segunda metade do ano a prioridade será viajar a países nos quais ainda não fiz prospecções.
Como sabem os leitores mais antigos do Cidadania, quem lê este blog sempre viaja comigo, pois jamais descuido de atualizá-lo esteja eu onde estiver. O compromisso com você, leitor, em minha escala de valores, equivale à importância que dou ao meu ganha-pão.
A cobertura do referendo popular na Bolívia no último dia 4 de maio feita pela grande imprensa brasileira foi marcada por uma diferença fundamental em relação às coberturas que essa mesma imprensa tem feito das eleições nos países latino-americanos em que o candidato vitorioso foi o da esquerda.
Nos últimos anos, elegeram-se os presidentes da Argentina, da Bolívia, do Chile, do Equador, do Paraguai, do Peru, da Venezuela e outros que não me ocorrem no momento.
O que caracterizou o trabalho da imprensa brasileira nesses pleitos foi, em grande parte, a atenção que deu a acusações de fraude pelos que perderam essas eleições e à presença maciça de observadores internacionais, com destaque para os observadores da Organização dos Estados Americanos (OEA) e da União Européia.
No caso de uma votação crucial em um país fronteiriço com o qual o Brasil tem profundas relações comerciais e culturais, como é o caso da Bolívia, e na qual se decidia aprovação ou rejeição de proposta polêmica de uma virtual separação do resto do país da região oriental boliviana, a cobertura foi incompreensivelmente acrítica diante da contundente opacidade daquele processo eleitoral.
Reproduzirei neste texto, mais abaixo, uma reportagem da Folha de São Paulo em 2006, imediatamente após a reeleição de Hugo Chávez, e outra do processo eleitoral recém ocorrido na Bolívia.
O tom da reportagem mais recente, como se poderá notar, foi de completa indiferença quanto ao não-reconhecimento pelo mundo do plebiscito separatista. Vale notar, também, a displicência da matéria quanto à escandalosa ausência de observação internacional.
Houve evidências generalizadas de fraudes por parte dos separatistas. Num bairro pobre de Santa Cruz, urnas contendo votos depositados nelas antes da abertura do processo eleitoral foram apreendidas e a imprensa internacional foi chamada para registrar o fato. Todos os votos falsos eram pelo sim, favoráveis aos separatistas. Contudo, a imprensa brasileira omitiu as denúncias de fraude, dizendo apenas que o "sim" havia vencido.
Esse tom da Folha de São Paulo reproduziu-se em todo noticiário da mídia eletrônica e da grande imprensa escrita brasileiras sobre o processo eleitoral boliviano.
A comparação das duas reportagens exemplifica o que aconteceu em toda grande imprensa e comprova notada diferença de comportamente, gerando necessário questionamento das razões dessa diferença de enfoque jornalístico, ainda que tais razões sejam mais do que óbvias.
REELEIÇÃO DE CHÁVEZ EM 2006
"Folha de São Paulo, 4 de dezembro de 2006
Hugo Chávez é reeleito presidente da Venezuela
Apuradas 78% das atas, socialista tinha 61% dos votos, ante 38% de Rosales
Observadores estrangeiros apontam normalidade, e participação é estimada em 62%; Chávez celebra 'vitória de Bolívar e do amor
SÉRGIO DÁVILA ENVIADO ESPECIAL A CARACAS
Hugo Chávez foi eleito ontem para mais seis anos na Presidência da Venezuela. Com 78,3% dos votos computados, segundo o Conselho Nacional Eleitoral, o socialista tinha 61%, ou 5,94 milhões de votos, ante 38%, ou 3,7 milhões de votos, de seu maior concorrente, o moderado Manuel Rosales. Estimativas oficiais colocam o comparecimento em 62% --o voto não é obrigatório no país.
Assim que o resultado foi lido, rojões e gritos podiam ser ouvidos pelas ruas de Caracas. "Viva a Venezuela! Viva Bolívar! Viva a revolução socialista", disse Chávez da sacada do palácio Miraflores, no centro, depois de cantar, acompanhado por milhares que esperavam o anúncio, sob a chuva fina.
'Aqui está Cristo de braços abertos! É a vitória de Bolívar e do amor!', declarou. "Os venezuelanos não votaram em Chávez, mas em um projeto que tem nome, o socialismo bolivariano, o socialismo venezuelano. Que ninguém tenha medo do socialismo."
O ex-para-quedista Hugo Rafael Chávez Frías, 52, obteve a vitória com programas sociais eficientes e bons índices econômicos (ambos bancados pela alta do petróleo), apesar da recente onda de violência na Venezuela, das denúncias de corrupção no governo e de algumas ações arbitrárias. Agora, promete implantar a segunda etapa de sua "revolução socialista bolivariana", que prevê uma revisão constitucional que poderá lhe dar a possibilidade de reeleição sem limites.
Pela manhã, Chávez já falava como presidente reeleito. Disse que membros do governo entraram em contato com a oposição e elogiou "bons sinais" vindos dos EUA, com os quais quer 'manter boas relações'.
Teodoro Petkoff, chefe de campanha de Rosales, veio a público dizer que seu candidato só falará ao país "no momento oportuno, como deve acontecer com um candidato à presidência." O governador licenciado do Estado de Zulia teve o mérito de unir uma oposição até então dividida e dar voz a uma classe média e alta que se sente excluída pelo chavismo.
Atrasos
O boletim do CNE com os resultados parciais das eleições foi lido à 22h04 locais de ontem (0h04 de hoje de Brasília), horas após o esperado. O motivo da foi uma série de problemas técnicos, que atrasou a votação, provocou filas e troca de acusações entre Chávez e Rosales.
"Tenho relatos de problemas em 36% dos centros de votação que historicamente votam na oposição e em apenas 5% dos que votam no governo", disse Rosales, ao votar pela manhã em Maracaibo. 'Não quero pensar que seja manipulação, mas peço ao CNE que verifique e ao eleitor que tenha cuidado.'
Logo depois, ao votar em Caracas, o presidente venezuelano responderia. "Tudo anda normalmente', disse. 'Espero que não seja alguém se sentindo derrotado que comece cedo dizendo isso e aquilo'.
Os venezuelanos foram despertados já na madrugada por rojões que os convidavam a votar. Muitos foram para as filas já às 4h da manhã, duas horas antes de aberta a votação. Às 12h, milhares continuavam ali.
Às 16h, com o encerramento oficial, as filas persistiam, e os que esperavam começaram a gritar: 'Queremos votar!'. Parte da culpa era de máquinas eletrônicas que não funcionavam ou davam comprovantes em branco. Outra parte reside no complicado sistema de votação venezuelano, pensado para um país em que ambos os lados do espectro político acusa o outro de fraude. São sete etapas.
'Vi grandes filas, mas não vi nada impróprio', disse à Folha o veterano observador norte-americano Martin Garbus. Havia cerca de 1.200 observadores internacionais na Venezuela ontem. 'Vimos paz e tranqüilidade', disse Billy Meyer, representante da União Européia. 'Incidentes são normais em uma eleição desse tamanho.' "
REFERENDO SEPARATISTA NA BOLÍVIA
"Folha de São Paulo, 5 de maio de 2008
Santa Cruz aprova autonomia em pleito rejeitado por La Paz
Governador da oposição vê 'conquista histórica' em projeção de vitória ampla
Morales diz que estimativa de abstenção alta torna a consulta, organizada pelo departamento sem aval judicial, 'fracasso rotundo'
Autonomista empunha estaca contra simpatizante de Morales
FABIANO MAISONNAVE ENVIADO ESPECIAL A SANTA CRUZ DE LA SIERRA (BOLÍVIA)
Um controvertido estatuto que amplia os poderes do governo do departamento boliviano de Santa Cruz, controlado pela oposição, foi aprovado por cerca de 85% dos votos válidos, segundo pesquisas de boca-de-urna. Enquanto o governador Rubén Costas qualificou o resultado de "a conquista mais importante da história republicana" da Bolívia, o presidente Evo Morales desconheceu o referendo, que chamou de 'rotundo fracasso'.
'Estamos aqui para celebrar a conquista mais importante da nossa história republicana. Vocês, com seu voto, consolidaram o início da reforma estrutural de maior transcendência em nossa pátria', discursou Costas no início da noite, diante de milhares de pessoas com bandeiras brancas e verdes, as cores de Santa Cruz.
Minutos depois, Morales fez um pronunciamento pela TV no qual buscou minimizar o resultado do referendo. 'Esta consulta sobre o estatuto autonômico fracassou rotundamente. Esta consulta ilegal e anticonstitucional não teve o sucesso esperado por algumas famílias, alguns grupos de Santa Cruz', disse Morales. 'A abstenção de uns 39%, o "não" e os votos nulos fazem praticamente uns 50%.'
De acordo com a boca-de-urna do jornal 'La Razón', a abstenção -defendida pelos partidários de Morales- ontem chegou a 40%. O referendo foi considerado ilegal pela Corte Nacional Eleitoral e pelo Tribunal Supremo. Em nota divulgada ontem, as Forças Armadas reafirmaram que o estatuto autonômico 'afeta a segurança e a defesa nacional do Estado boliviano'.
O estatuto autonômico, escrito por uma comissão oposicionista, prevê que o governo departamental de Santa Cruz, o mais rico do país, assuma várias áreas hoje nas mãos de La Paz. Um dos pontos mais criticados pelo governo é o controle sobre a política de terras. Para Morales, o objetivo é proteger os latifúndios da região.
O processo eleitoral foi realizado pelo Conselho Departamental Eleitoral (CDE). Controlado pela oposição, foi o responsável pela distribuição das urnas, organização da segurança e contagem dos votos -o resultado oficial deve ser divulgado a partir de hoje. A jornada não contou com observadores eleitorais tradicionais, como da União Européia e da Organização dos Estados Americanos.
Depois de Santa Cruz, outros três departamentos governados pela oposição -Pando, Beni e Tarija-, pretendem realizar referendos autonômicos, em junho. Os quatro governadores prometem implantar os estatutos de forma simultânea, embora a viabilidade disso seja questionada (veja quadro à pág. A11) e analistas avaliem que seu objetivo seja negociar com Morales de uma posição de força.
Na noite de ontem, Costas entregou uma bandeira ao governador de Beni, Ernesto Suárez, simbolizando que é a sua vez de realizar um referendo."
Acrescentei aos sites indicados por este blog o link para o blog que o Azenha passou a ter no Terra Magazine, o "Blog Américas". Coloquei como "Azenha no Terra".
Como sempre, o jornalista apóia este blog. Colocou em seu novo blog o link para este blog.
Gostaria, também, de recomendar a vocês a leitura do artigo do Azenha sobre o Paraguai profundo, publicado na edição retrasada da Carta Capital. O material mostra a capacidade dele, o que torna incompreensível que a Globo tenha perdido um profissional desse calibre.
Aliás, até o PIG tem se rendido à competência do Azenha. A coluna Toda Mídia, de Nelson de Sá, na Folha de São Paulo, cita continuamente o Vi o Mundo, que, a meu juízo, junto do Vermelho.org são os dois melhores sites de política da internet.
Quero concluir dizendo a vocês do orgulho que me dá a amizade com esse profissional e ser humano fantástico que é o Azenha. É um alento ver que ele está conseguindo dar a volta por cima depois de ter dado um pé no traseiro da Globo.
Tenho quase cinco décadas de vida. Sou consumidor voraz de informação desde os 14 anos. Nunca, em minha vida, vi tantas pessoas, de todas as partes do país, de todas as classes sociais repudiarem com tal ardor os impérios de comunicação deste país.
Acredito que essa aversão começou a ser gestada no limiar do regime militar. Já havia surgido antes sentimento análogo das massas. Foi à época em que Getúlio Vargas suicidou-se - ou será que foi "suicidado"?
De qualquer maneira, "nunca antes neste país" tantos repudiaram com tal veemência e paixão a esses que tantos danos já causaram ao Brasil, como o de ajudar a atirá-lo na feroz ditadura que o estuprou seguidamente durante duas décadas, e que, ao fim do estupro, o deixou completa e literalmente falido.
Homens e mulheres morreram de formas terríveis graças aos caprichos e interesses das famílias Marinho, Frias, Civita, Mesquita e mais algumas outras poucas. Governos nefastos foram eleitos ao tempo em que a mídia conservava o poder de influir nas decisões políticas dos brasileiros.
Escrevo após um dia terrível, no qual viajei mais de 300 quilômetros. Cheguei à minha casa, compartilhei de uma ceia frugal com a família e corri a este blog para atualizá-lo, porque é isso que vocês e eu mesmo esperamos de mim, que eu faça minha parte para combater esse poder amaldiçoado.
A boa notícia, que compensa tanto esforço, é que ele começa a frutificar...