Lista negra da imprensa
 
Eduardo Guimarães
 
  Qual é o preço da consciência de um homem? Para alguns, dizer aquilo em que não acredita ou deixar de manifestar sua opinião real em troca de privilégios, é fácil. Para outros, é complicadíssimo. Em que categoria você se enquadra?
 
  Durante os últimos doze anos venho manifestando, por escrito, minhas opiniões à imprensa escrita. E de uns dez anos para cá, pela internet também. Cheguei a estar entre os leitores mais publicados por vários e importantes jornais nas colunas que disponibilizam aos seus leitorados. De uns dois anos para cá, porém, meu espaço nas colunas de leitores foi minguando. Hoje, apenas o jornal do Brasil publica uma ou outra manifestação minha.
 
  Isso aconteceu porque a imprensa escrita tem listas negras que usa para ameaçar seus leitores. A possibilidade de aqueles que enviam cartas a jornais e revistas serem incluídos numa lista que torna o eleitor impublicável fez com que muitos desses leitores assumissem uma postura diferente da que desejariam.
 
  Os assuntos proibidos, o tipo de manifestação determinante da inclusão de leitores nas listas negras da imprensa são todos de ordem política, ideológica. O principal assunto que determina o boicote da imprensa ao leitor, porém, é a crítica a ela. A imprensa não quer discutir-se. E quem deseja fazê-lo acaba sendo visto como uma espécie de "marginal" opinativo.
 
  Por várias vezes pensei em deixar a política e a ideologia para lá. Gosto de escrever e poderia tratar de outros assuntos. Aliás, uma carta de leitor bem escrita e contendo elogios àquele órgão de imprensa faz milagres em termos de probabilidades de tal leitor ter seus textos publicados.
 
  Não é a qualidade do texto ou sua originalidade que determinam se uma carta será ou não publicada por um jornal ou revista. Já vi muitas publicadas que quando as recebi antes pela internet de seus autores me espantou a mediocridade do texto, tanto do ponto de vista gramatical quanto do da idéia intrínseca da manifestação.
 
  Dê-se ao trabalho de ler algumas dessas colunas de leitores e ficará espantado em constatar como via de regra são repetitivas, como ficam martelando as opiniões do veículo em que são publicadas. É claro que algumas destoam, mas só se o leitor for "bem-comportado", isto é, se não for dos que criticam a imprensa sistematicamente como faço. Essas escassas manifestações divergentes pretendem ser um salvo-conduto da imprensa contra acusações de manipulação. Porém, a simples existência da lista negra de leitores "mal-comportados" nega qualquer pretensão de essa imprensa se dizer democrática.
 
  Alguns órgãos de imprensa reagirão à minha acusação dizendo que eu, por exemplo, já os insultei. De fato fiz isso. Após ser chamado, em mais um exemplo, de "descerebrado", "idiota de plantão" e outros mimos, chamei a imprensa de canalha. Ora, é uma escalada. Jornalistas covardes valem-se da possibilidade de dizerem o que querem sem contestação, e os silenciados, muitos perdem as estribeiras. Desculpa perfeita para a imprensa, que pode boicotar manifestações que a desagradam não pelo conteúdo "ofensivo", como alega, mas por desmontarem-lhe os argumentos.
 
Sinto engulhos só de imaginar que alguém possa deixar de dizer aquilo que tem vontade a fim de não entrar na lista negra da imprensa. Agir dessa forma está fora de meu alcance. Por isso, quero dizer a esses veículos de comunicação que integrar-lhes a lista negra é um orgulho para mim e para todos os outros que, como eu, são censurados por dizerem a verdade.


 Escrito por Eduardo Guimarães às 12h45
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Você os quer de novo governando o Brasil?

José Serra, Aécio Neves, Tasso Jereissati e FHC em jantar no restaurante Massimo, em SP

A foto acima ilustra a primeira página da Folha de São Paulo de sábado (18/02). É incrível como uma simples foto pode dizer mais do que qualquer texto. A foto coloca em discussão se o Brasil, nas eleições de outubro, irá escolher voltar ao tempo de FHC.  Fica claro, para quem a vê, o que significará votar no candidato do PSDB à Presidência. De uma forma ou de outra, acredito que muito petista, a esta hora, está comemorando a primeira página da Folha.  



 Escrito por Eduardo Guimarães às 11h21
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Denuncismo anti-Lula é antigo

Eduardo Guimarães

  Lula sempre foi vítima de denúncias em anos eleitorais. Querem ver? Em 1989, sua ex-mulher, Miriam Cordeiro, ressentida e gananciosa, foi paga por Collor para denúnciar no programa eleitoral do então candidato pelo PRN à Presidência da República que Lula tinha uma filha com ela. Depois, Collor passou anos sustentando Miriam. Em 1994 não foi necessário. O plano Real teria eleito até um poste. Mas em 1998, com o país quebrado, tucanos, pefelês e sua imprensa vociferaram denúncia sobre a compra do apartamento em que Lula tem sua residência de fato até hoje.
 
  Dizem que recordar é viver, então voltemos a 1998 para ver uma denúncia gravíssima contra o hoje presidente da República. Uma denúncia tão "grave" que, passada a eleição, as investigações terminaram mostrando que não tinha havido irregularidade alguma na transação imobiliária da residência do petista. Com as senhoras e os senhores deixo reportagem do Jornal Folha de São Paulo de 14 de agosto de 1998. Vejam como funciona o denuncismo anti-Lula pré-eleitoral.
 

Folha de São Paulo, 14/08/98

 
Denúncia contra Lula paralisa campanha

Origem do texto: Da Reportagem Local
Editoria: BRASIL Página: 1-6 8/5627
Edição: Nacional Aug 14, 1998
Observações: COM SUB-RETRANCAS
Vinheta/Chapéu: SUCESSÃO
Selo: ELEIÇÕES 98
Assuntos Principais: ELEIÇÕES 98; ELEIÇÃO PRESIDENCIAL; LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA; APARTAMENTO; COMPRA; DENÚNCIA; REDE BANDEIRANTES /EMISSORA DE TV.

Candidato petista diz que processará emissora de TV que fez reportagem sobre a compra de seu apartamento

Denúncia contra Lula paralisa campanha

da Reportagem Local

As acusações de irregularidades em operação envolvendo a compra do apartamento do candidato a presidente Luiz Inácio Lula da Silva paralisaram a campanha do petista ontem.
Lula passou o dia tentando se explicar, mas se recusou a entrar em detalhes sobre a aquisição da cobertura em São Bernardo para a qual está em mudança.
Reportagem exibida anteontem pelo "Jornal da Band", da Rede Bandeirantes, mostrou cheque depositado pelo advogado Roberto Teixeira, compadre de Lula, na conta do petista no valor de R$ 10 mil. Segundo a emissora, o cheque seria "resultado de uma transação suspeita que envolve Teixeira, empresários e o então prefeito petista de São Bernardo".
O cheque poderia "estar na origem do apartamento que o candidato petista comprou e para onde se muda daqui a alguns dias", conforme a Bandeirantes. Foi depositado em julho de 95, no mesmo período em que Lula comprou seu apartamento.

Custo

A reportagem da Bandeirantes afirma que "Lula pagou pouco pelo imóvel porque ele foi construído por uma construtora que tem relações íntimas com Roberto Teixeira".
A construtora Dalmiro Lorenzoni teria se beneficiado pela suspensão de processo de desapropriação de um terreno pela Prefeitura de São Bernardo, então administrada pelo PT (veja quadro nesta página).
Lula acusou a Rede Bandeirantes de estar a "serviço de outra candidatura". "A matéria da Bandeirantes é o samba do crioulo doido. Onde querem chegar? Querem a vinculação de um cheque depositado na minha conta quando todo mundo sabe que vendi um carro Omega em quatro parcelas de R$ 10 mil", disse Lula.
O candidato petista à Presidência da República não foi claro em suas explicações. Primeiro afirmou desconhecer se o pagamento do carro havia sido feito em cheque.
"Nunca me preocupei se o cara ia pagar com cheque ou não. Ele tinha de depositar na minha conta a prestação equivalente ao valor do carro e não quero saber de quem era o cheque", disse.
Depois, Lula afirmou que não havia surpresa alguma com o aparecimento do cheque. "Foi um só? Tem quatro cheques de R$ 10 mil", declarou.



 Escrito por Eduardo Guimarães às 01h44
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(continuação)

Omega

De acordo com o candidato, o dinheiro resultante da venda do Omega serviu para dar a entrada no pagamento do apartamento. "Fazer ilações a partir daí é imprensa marrom, que está a serviço do adversário", afirmou Lula.
Em nota divulgada no começo da noite, assinada por José Dirceu, presidente do PT, e Tarso Genro, coordenador jurídico da campanha petista, o partido anunciou que pedirá direito de resposta à Rede Bandeirantes, primeiro diretamente e, depois, se necessário, entrará com ação na Justiça.
Os petistas informam que Lula autorizou os advogados João Roberto Egydio Piza Fontes e Márcio Thomaz Bastos a "tomarem medidas judiciais de natureza penal e também a solicitarem o ressarcimento por danos morais".
A nota afirma que, em 1995, Lula vendeu um automóvel da marca Omega para Roberto Teixeira, que o pagou em quatro parcelas. "Uma delas foi paga pelo advogado com cheque de terceiro, depositado na conta de Lula por meio de endosso", diz a nota.
Na entrevista coletiva, Lula se referiu à pessoa que comprou o Omega como ''o cara''. Não disse que era Roberto Teixeira, o que só foi divulgado à noite na nota do PT.

Irmãos

O cheque de R$ 10 mil que apareceu na conta de Lula é de Sérgio Lorenzoni, irmão de Dalmiro Lorenzoni, proprietário da empreiteira supostamente beneficiada na paralisação do processo de desapropriação pela então prefeitura petista de São Bernardo. Lula afirmou ser amigo de Dalmiro.
Na entrevista, ao perceber a participação de um repórter da Rede Bandeirantes, Lula interrompeu sua fala e, num gesto brusco, pegou o microfone do repórter, abaixou-o e afirmou que não daria declarações à emissora.
"Com a Bandeirantes a conversa vai ser na Justiça", disse.
Mesmo com os repórteres argumentando que uma simples explicação sobre a maneira utilizada para comprar o apartamento poderia esclarecer o assunto, Lula não quis detalhar sua participação no caso.
"Minha vida está declarada no Imposto de Renda", afirmou. "O que não é possível é esquentar uma marmita como a Bandeirantes fez. Isso tudo já foi publicado pelo 'Jornal da Tarde', em julho do ano passado", acrescentou.
Lula insistiu em que não acredita em prejuízo eleitoral gerado pelo caso. Em todas as frases, deixou transparecer que encara o episódio como uma questão pessoal entre ele e a emissora.
Lula conversou com os jornalistas brasileiros depois de uma entrevista coletiva concedida a correspondentes de veículos de comunicação estrangeiros. Nenhum dos correspondentes fez perguntas sobre a reportagem da Rede Bandeirantes.


Teixeira

Ademar Gianini, advogado de Roberto Teixeira, afirmou ontem que seu cliente não tinha informações privilegiadas sobre o possível cancelamento da desapropriação.
"Como poderia haver informação privilegiada, se a prefeitura iria desapropriar 40 áreas? Informação privilegiada para 40 proprietários? Isso é ridículo. Desde que esses terrenos foram declarados de utilidade pública, em 1975, as prefeituras nunca pagaram, então as pessoas lutavam para ter o dinheiro ou reverter a desapropriação", disse Gianini.
Ele informou ainda que o cheque de R$ 10 mil, depositado na conta de Lula e assinado por Sérgio Lorenzoni, foi uma das quatro parcelas do pagamento do Omega que o petista vendeu para o compadre.
"Ter encontrado esse cheque na conta do Lula é prova de boa-fé", disse. Ele afirmou que os R$ 10 mil foram pagos por Dalmiro a Teixeira porque o empresário estava devendo honorários a seu advogado.
A Construtora Dalmiro começou a erguer os prédios no terreno em São Bernardo, mas entrou em falência e, com a ajuda de Teixeira, passou a obra para outra empresa que assumiu os débitos: a Perfil, também cliente do compadre de Lula.
Gianini diz que não vê nada demais nessa triangulação. "Se você tem um cliente que está numa situação ruim e outro que está bem, você faz essa conciliação."


Bandeirantes

O diretor-geral de jornalismo da Rede Bandeirantes, José Antônio Severo, 55, negou que a emissora esteja "a serviço de outra candidatura" _como afirmou Lula.
"Não tenho nada contra o Lula. A Bandeirantes não favorece a candidatura de Fernando Henrique Cardoso ou de qualquer outro", disse Severo.
Segundo ele, um exemplo de isenção da rede é uma entrevista que Lula deu ao programa "Fogo Cruzado", de Paulo Henrique Amorim, no início de maio.
"A entrevista teve grande repercussão e o pessoal da campanha do Lula nos disse que foi a melhor oportunidade que Lula teve para expor suas idéias."
"Se o Lula tiver algo a dizer sobre o caso, é só ele vir aqui que a gente bota ele no ar. Ele pode falar o tempo que necessitar para explicar o caso", disse Severo.



 Escrito por Eduardo Guimarães às 01h40
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Perguntas, perguntas...
 
Eduardo Guimarães
 
  Há uma perguntinha que não cala e que, portanto, quero colocar no ar: sabem qual é a diferença entre o "agrado" que a mídia está dizendo que a Telemar fez a Lula ao financiar-lhe um projeto do filho e a Daslu contratar a filha do governador Geraldo Alckmin como vendedora e depois promovê-la direto para diretora? Resposta: no caso da Daslu, a empresa foi beneficiada pela secretaria da Fazenda de São Paulo, comandada por Alckmin, pois essa secretaria não lhe suspeitou da contabilidade fantasiosa, na qual vestidos vendidos por R$ 10 mil apareciam como tendo sido comprados por R$ 10. Já no caso da Telemar, até agora ninguém tem uma vírgula para dizer sobre favorecimento de qualquer espécie do governo federal à empresa. 


 Escrito por Eduardo Guimarães às 17h00
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Um presente: artigo espetacular do escritor Urariano Mota, publicado na edição desta semana no site Observatório da Imprensa.

Os desfazedores da opinião pública

Urariano Mota (*)

  Vamos falar baixinho, para que não nos escutem. Os colunistas, os repórteres, os mais bem pagos jornalistas brasileiros moram bem longe do povo do Brasil. Ouviram com os olhos e ouvidos abertos, raros leitores? O povo no Brasil reconhece na grande imprensa um estranho, quando não um inimigo, que lhe sopra afirmações sem nexo, sem valor, sem crédito. E aqui, talvez mais que em outra parte, e aqui, neste caso de divórcio, bem se exibe a sociedade de classes que nos oprime. Aqui estamos diante de mundos diferentes em um mesmo território. Aqui... aos fatos, aos fatos, já, para que não nos acusem de texto opinativo sem fundamento algum na realidade. 

  Acompanhem por favor as últimas notícias da semana que, ninguém notou, já foi embora.

** No Jornal da Record de quarta-feira (8/2): "Lei Seca no Planalto: ministro revela que o presidente Lula está sem beber há 40 dias".

** No dia seguinte, no jornal O Estado de S.Paulo: "Bar no Aerolula? ‘Ele não bebe há 40 dias’..." .

** No jornal O Globo, no mesmo dia: "Lula está abstêmio há 40 dias, revela Furlan" – e mais revelaram as repórteres, que teriam ido cobrir a viagem do presidente ao continente africano: "Animado com a dieta à base de proteínas que já lhe fez perder 12 quilos, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva abriu mão de um de seus prazeres confessos, a cachacinha".

  Lindo, não? Antes que adentrem a intimidade presidencial, e revelem outros prazeres inconfessos, prazeres até maiores, mesmo para um viciado em álcool, vejam que da viagem presidencial, dos acordos que firmou, do estreitamento da política externa com países antes sequer visitados, vejam que o fato jornalístico mais importante foi o fato de um alcoólatra, por acaso e injustiça na presidência da República, estar angustiosa e ansiosamente sem álcool há terríveis e tenebrosos 40 dias.

  Isto que acabamos de escrever não é uma inferência, não é um livre interpretar, como o fez Clóvis Rossi, na Folha de S.Paulo (8/2):

"A ópera-bufa Brasil

Uma vez iniciada a ação judicial que o PT quer propor contra Fernando Henrique Cardoso por ter dito que ‘a ética do PT é roubar’, as coisas desenvolver-se-iam assim, conforme a Folha apurará: FHC convoca Luiz Inácio Lula da Silva como testemunha de defesa. O juiz estranha. FHC explica: ‘Bom, não foi o Lula quem disse, no horário nobre da TV, que o PT estava desmoralizado? Ninguém fica desmoralizado por ter comportamento ético irreprochável, certo? Então, Lula está dizendo o mesmo que eu disse, com mais conhecimento de causa porque é um dos fundadores do PT e seu presidente de honra’.

O juiz cede à lógica fernandohenriquista e chama Lula, que acusa o governo FHC de ter sido também corrupto. FHC se defende: ‘Minha corrupção foi pontual, não foi sistêmica como a sua’.

O juiz estranha. Corrupção é corrupção, acha, mas toca o bonde, que afinal ele é juiz, não candidato.

Lula, furioso, grita: ‘Mas eu não sabia, eu não sabia, eu juro que eu não sabia. A culpa é do PT."

  A citação acima é um pouquinho mais que o livre-inferir. Com mais propriedade, dir-se-ia um livre-ferir. Observem que nesse passo, em nome da independência, que depende da política da empresa, um colunista de um dos maiores jornais brasileiros manda aos infernos um dos deveres sagrados da grande imprensa – o de ser objetivo, o de se ater ao acontecido. E tamanha é a gana que não se vexa em danar a recomendação de citar os fatos sem falsificar o contexto.

  Compreensível, dirão, aqui o colunista exerce a sua veia de ficcionista, com a devida licença de Machado de Assis. Compreensível, mas nos importa mais destacar que em nome da luta política, que neste ano assume o papel de uma luta eleitoral, a imprensa brasileira vai do acessório, que obedece a um preconceito, ao livre-ferir, que obedece a velhos conceitos. E nisto, reconheçamos, há um improviso que raia a criação, porque repórteres e colunistas já têm a notícia pronta, antes até da realidade. É coisa de gênio o que conseguem escrever com as idéias que têm antes do conhecimento de qualquer fato. Vejam se há engano.

(continua abaixo...)



 Escrito por Eduardo Guimarães às 16h57
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( continuação do artigo de Urariano Mota )

Além de bêbado, supersticioso, bruxo

  Depois de resistir à tentação de beber até cair, no avião e do avião, o presidente conseguiu chegar ao segundo destino na África. Para quê? Para receber os títulos de algumas, com o devido perdão da palavra, reportagens do sábado (11/2).

** No Jornal do Brasil:

"Lula fecha o corpo contra a ‘urucubaca’ no governo

Presidente participa de ritual vodu em Benin, na África, e se diz ‘mais leve’

Com o Portal do Não Retorno ao fundo, no vilarejo praiano de Ouidá, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva ganhou ontem uma ajuda contra a ‘urucubaca’ que diz atrapalhar o seu governo. Esteve num ritual de vodu, fechou o corpo e afirmou que ficou ‘mais leve’."

** O Globo, mesmo dia:

"Lula participa de ritual vudu no Benin

Os tambores da África bateram forte ontem pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Se estava preocupado com a urucubaca lançada pelos adversários no Brasil, como disse recentemente, ele pode ter saído do Benin, berço do vudu, com o corpo fechado para enfrentar a ferrenha disputa eleitoral. O presidente passou a tarde toda sendo reverenciado com orações e danças feitas por feiticeiros vudus, líderes tribais e pelos descendentes de escravos brasileiros que formam uma espécie de colônia em Ouidá, nos arredores de Cotonou, capital do paupérrimo Benin."

  Com a devida ressalva do vodu que se enfeitiçou num "vudu", deveríamos acrescentar esse título do colunista Josias de Souza , em seu blog (11/2), "Lula ‘corpo fechado’ da Silva", para maior glória da informação e notícia. E, se a inteligência do leitor permite, esta pérola:

"Há coisa de um mês e meio, Lula queixara-se de que seu governo vinha sendo alvo de ‘urucubaca’. Pois Sua Excelência tratou de aproveitar a visita à África para ‘fechar o corpo’. De passagem pelo vilarejo de Ouidá, no litoral do Benin, o presidente tomou parte de um ritual vodu".

  Permitam, não se trata aqui de um passeio masoquista por uma imprensa provinciana – esta, sim, digna do maior banho de alfinetes, fetiches, magias e vodus. Estamos falando, estamos nos referindo aos maiores jornais de um país que honra o mundo por sua diversidade e cultura. Estamos nos referindo a profissionais de imprensa com mais de 40 anos de exercício, e que ainda assim se referem aos leitores como...

"...Os descerebrados da teoria da conspiração deveriam incluir nela o ministro Luiz Fernando Furlan. Cada vez que vai ao exterior, produz uma frase que nem a oposição imaginaria utilizar. Primeiro, foi o reconhecimento de que o país estava ‘desanimado’ (dezembro). Depois, que o Brasil perdera o momento internacional, atropelado por China e Índia (janeiro).

Agora, devolve ao noticiário a questão etílica, ao dizer que Lula não bebe há 40 dias. Bom, e antes?, é a pergunta inevitável seguinte. Que, por sua vez, remete ao episódio Larry Rother, como bem lembrou Nelson de Sá em sua coluna de ontem. Parece inesgotável a capacidade do governo de fabricar trapalhadas". (Clóvis Rossi, Folha de S.Paulo, 10/2)

  Colunistas assim não levantam o cérebro da cadeira e desenvolvem suas colunas a partir do que os repórteres montaram em reportagens, que estão prontas antes que se escrevam. Em que situação, qual foi mesmo a resposta, em que contexto foi dito que o presidente não bebe há 40 dias? Não importa. O que se disser, quer apenas dizer: o presidente é um desqualificado, e isto quer dizer, é um analfabeto, um alcoólatra, e agora, por cima, burro, estúpido, que viaja ao continente africano com o objetivo de mergulhar numa sessão de bruxaria. Um típico homem do povo, corrupto e corrompido.

  Quem não vê isso é um descerebrado, isso, um doido que acredita em teoria de conspiração das classes dominantes, um paranóico que julga a grande imprensa uma defensora dos interesses do velho capital. Descerebrados e paranóicos que jamais compreenderão o jogo da barganha: "Se perdoas minhas dívidas, se me concedes crédito que jamais pagarei, então terás a imprensa que sonhas".

"Desconstrução" da imagem

  Em mais de um sentido, alguns repórteres e colunistas se tornam desfazedores da opinião. Em um sentido familiar, nordestino, desfazem de, zombam, diminuem, depreciam a opinião pública. A verdade, acreditam, é aquilo que o jornal noticiar. A verdade é a sua versão, repetida até o limite que sature, até um limite que, aí sim, gere descerebrados. "O sucesso de um jantar é o que sair no jornal." Ou seja, o leitor é um perfeito idiota, uma tábula rasa, que receberá passivo a imagem e as palavras que lhe forem impressas. A opinião pública é a opinião da imprensa, acreditam.

  Em outro sentido de desfazer, ela, a grande imprensa, crê que possui a força da destruição, de reduzir a pó o que estava feito, construído, ou em processo de construção. Existe até uma nova palavra para isso, "desconstruir". Esta é a opinião dos mais sábios, dos colunistas, dos editores aos publicitários, a crença no poder destruidor, desfazedor da mídia. Um aventureiro, qualquer um, pode se tornar um caçador de marajás, e governar depois com todos os marajás e jóias que caçar, para estar a seu lado.

  Em um e outro sentido, do mais radical ao mais ponderado, colunistas, editores, repórteres, a partir do poder de fogo dos seus veículos acreditam que constroem, que fazem opinião, que fazem cabeças. É até possível que em muitas situações assim aconteça. Se estiverem como peixes no oceano, se os valores que pregam e difundem, sim, os jornalistas fazem opinião. Melhor dizendo, reforçam, estimulam e fazem crescer como fermento a massa de crenças da população. Mas jamais conseguirão impor a índios nas selvas, imersos nas selvas, por exemplo, o valor da beleza das modelos das passarelas. Dirão, os homens e mulheres indígenas, "aqui em nossa tribo essa mulher não conseguiria marido". Magras, esquálidas, pálidas, altas e com aquele andar, nos caminhos da selva, não.

  Isto é o que nos passa, por vezes, a "desconstrução" da imagem de Lula no meio do povo brasileiro. Uma profunda inadequação de valores, de querer passar desqualificação para um homem que ainda retira o seu peso do que representa para os "desqualificados". Para os que gostam de beber, para os que freqüentam terreiros de pais e mães-de-santo, para os trabalhadores que sonham um dia vestir também um terno com a sua "galega", com a sua nega ao lado. Em Canudos, nunca é demais lembrar, frades capuchinhos, contra o Conselheiro, chegaram pregando jejum, a forte e pesada abstinência de tudo, menos de comer bacalhau e farinha. Os sertanejos caíram na gargalhada, e gritaram para os santos frades:

– Isto para nós é fartura!

(*) Jornalista e escritor



 Escrito por Eduardo Guimarães às 16h57
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Pesquisas insuflam oposição
 
Eduardo Guimarães
 
  A reação da oposição e da mídia às pesquisas que dão vitória a Lula sobre qualquer adversário, tanto no primeiro quanto no segundo turnos da eleição de outubro, não tardou. Edição da revista Época que chega às bancas apresenta uma denúncia contra o filho do presidente - e, por extensão, contra o próprio - que poderia ser feita a centenas, talvez milhares de políticos em cargos públicos neste país. Às pressas, na falta de coisa melhor requentaram as denúncias contra aquele que a revista chama de "Lulinha", aquela história da Telemar... de novo.
 
  Entretanto, a revista acaba concedendo a fragilidade da acusação. Vejam:
 
  "Desde o ano passado a oposição tem batido na tecla de que a Telemar não está interessada nos programas de games [da empresa do filho de Lula], mas em ganhar a simpatia do presidente Lula. Concessionária de serviços públicos, a operadora não recebeu, pelo que consta até o momento, nenhuma vantagem extraordinária do governo que não tenha sido oferecida às outras empresas de telefonia"
 
  Esse açodamento da coalizão tucano-pefelê-midiática prevejo que dará em nada. A população parece cada vez mais consciente de que está em curso um processo de desmoralização do presidente da República devido à luta pela Presidência da República. Além disso, estão acusando um cidadão de ter sido favorecido por uma empresa privada por ser filho de um governante, mas não têm um único motivo para dizer que esse governante beneficiou a tal empresa. Que acusação é essa?
 



 Escrito por Eduardo Guimarães às 23h10
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Venezuelização a toda
 
Eduardo Guimarães
 
  Não agüento, minha gente (ops!), preciso escrever. É tudo tão evidente, tão claro, tão fácil de ser notado... E vejam que não sou só eu que noto. A maioria da população, ao ignorar o massacre de Lula pela mídia, parece concordar comigo. Certo?
 
  Ha! É de morrer de rir! Agora que os tucanos aparecem mal nas pesquisas, eles e seus capachos dizem que são falsas! Patético, não?
 
  Eu não vinha dizendo que a política e a mídia brasileiras estavam se venezuelizando? E a venezuelização está à toda. Vejam que as elites são iguais em toda parte. Na Venezuela, por exemplo, até hoje não aceitam o resultado do referendo revogatório do ano passado. Dizem que houve fraude onde todos os observadores internacionais viram lisura.
 
  Aqui também. Tudo que é contra o PSDB, é falso. A lista de Furnas é falsa, as pesquisas em que Serra e Alckmin aparecem caindo são falsas... E o pior é que diante da divergência gritante, escandalosa entre as pesquisas CNT-Sensus, Datafolha e Ibope, dizem que falsa é a pesquisa que mais favorece Lula. Por que aquelas que o favorecem menos não são falsas? Perguntas, perguntas...
 
  Sabem o que acho? Que todas essas pesquisas são falsas. Na Venezuela aconteceu exatamente a mesma coisa. As pesquisas apontavam Chávez ao rés do chão da aprovação popular até que a eleição começasse a se aproximar. Daí, diante da constatação de que ele não caía, começaram a refletir a realidade. Como aqui. Faz tempo que eu vinha dizendo que isso iria acontecer. Lembram-se?
 
  Podem ir anotando os indícios de venezuelização: massacre do presidente da República por uma mídia que não o aceita, pesquisas falsificadas, recusa da oposição em aceitar a vontade popular... Tudo, absolutamente tudo igual ao que vi - inclusive in loco - acontecer na Venezuela. E, se Deus quiser, o desfecho dessa vergonheira será igual também.
 
  PS: tudo igual, menos a violência que as elites e a mídia venezuelanas provocaram no país vizinho, claro.
 


 Escrito por Eduardo Guimarães às 18h18
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Arte de Eduardo Guimarães
 
 
Fragmentos de Memória
 
Eduardo Guimarães
 
  Um tempo presente desalentador muitas vezes nos remete ao passado. Fugimos para momentos agradáveis de nossas vidas, tempos em que a vida nos era mais leve ou nos quais vivemos um simples e singelo momento de paz ou de alegria, que acomodamos carinhosamente em algum canto acolhedor de nossas mentes guardando-o para dia em que precisaremos de uma boa lembrança.
 
  Revirando a memória lembrei-me de uma manhã gloriosa há pouco menos de dez anos. Era julho e eu estava num hotel encravado na Cordilheira dos Andes, no Chile. O termômetro marcava menos 9º, e o relógio, nove da manhã. Na verdade, não sei bem se os dois noves estão corretos, mas é deles que me lembro. E havia o céu onde um sol gigantesco e alaranjado se levantava e já tingia de luz quase por completo as montanhas geladas que me cercavam pelos quatro Pontos Cardeais.
 
  Essa imagem que me veio foi de um momento em que abandonei o restaurante onde desjejuava, desesperado para fumar. Desci por uma trilha de terra batida recém aberta que levava a lugar nenhum. Afastei-me do hotel por meio dela, descendendo, e percebi que se estendia pela floresta branca diante de mim ziguezagueando vertiginosamente.
 
  Foi uma manhã memorável de domingo. Nada de especial aconteceu, apenas me lembro da paz, do frio revigorante, do gosto do café ainda quente em minha boca e da primeira e ansiada tragada no cigarro, que teimava em apagar-se entre uma baforada e outra. 
 
  Em busca de conforto encontrei essa preciosidade que me é a lembrança daquele dia, e então me senti compelido a retratá-la. E agora enviei o resultado a vocês.


 Escrito por Eduardo Guimarães às 18h14
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Arte de Eduardo Guimarães



 Escrito por Eduardo Guimarães às 17h58
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"Isso não te pertence maaais !!!"

Eduardo Guimarães

  Qualquer assunto polêmico discutido pela metade, ou seja, sob o ponto de vista de apenas um dos lados tenderá a permanecer polêmico, a acirrar posições, porque o lado que não puder expor suas razões ficará irritado ao extremo e, dessa maneira, será impossível resolver o problema.
 
  Assim tem sido no debate sobre cotas étnicas e econômicas nas universidades. Qualquer pesquisa minimamente honesta nas seções opinativas da imprensa escrita, onde o debate é travado em maior profundidade, confirmará o que afirmo, isto é, que o setor da sociedade contrário às cotas vem sendo privilegiado nesses espaços.
 
  Essa discussão sobre as cotas deveria ser travada em cima das várias experiências de sua implantação que já existem no Brasil há um bom tempo, só que aí descobrir-se-ia ser falacioso o tão repisado argumento sobre  poderem vir a causar "prejuízo acadêmico" às universidades.
 
  Tenho bradado contra as interdições do debate que predominam nas seções opinativas da imprensa escrita, mas tenho falado para as paredes. Ela parece acreditar que impedindo o debate conseguirá impor sua opinião na marra, mas, como diz uma humorista da TV, "Interdição do debate?, isso não te pertence maaais!"
 


 Escrito por Eduardo Guimarães às 14h39
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