Roubos culturais

Foi dado grande destaque ao furto de obras de arte no MASP (Museu de Arte de São Paulo). Relatou-se a falta de segurança no museu, que se deveria aos problemas financeiros de uma instituição que já chegou a ter luz e água cortadas por falta de pagamento. Mas essas notícias deixam órfão o consumidor de informação, porque não se sabe a quem responsabilizar pela situação de penúria em que se encontra um dos mais importantes museus do mundo.
Apesar de ser uma instituição de direito privado, em qualquer parte o apoio do Estado é essencial para a Cultura. Claro que num país como o nosso, em que esse mesmo Estado não consegue cumprir com suas obrigações básicas como a de dar Saúde, Educação ou Segurança aos contribuintes, falar de investimentos em Cultura cheira a irrealismo. É preciso, no entanto, mensurar que preço é aceitável que a Cultura pague num país em que falta até o que comer a setores da sociedade.
Em que escala de prioridades deve ficar a formação da identidade cultural do brasileiro? Como investir em museus enquanto os serviços públicos vivem à mingua?
Essa argumentação seria lícita se os cofres públicos financiassem só o que é estritamente básico em qualquer área. Porém, a primeira olhada que se dá nos gastos do Estado brasileiro (no níveis federal, estadual e municipal) com Cultura, revela que se fossem gastos em preservação de museus, por exemplo, o que se gasta em convescotes "culturais" para a elite e para autoridades, casos absurdos como o do roubo no MASP não ocorreriam.
Foi-me curioso ver esse roubo num museu da avenida Paulista, porque dias antes passei por outro monumento histórico naquela avenida em que estava ocorrendo um sarau promovido pelo governo do Estado. Foi na Casa das Rosas, um imóvel localizado na Avenida Paulista, em São Paulo. O casarão foi projetado pelo escritório de Ramos de Azevedo pouco antes de sua morte e tombado pelo patrimônio histórico na década passada. A Casa com belíssimos jardins abriga a primeira biblioteca do país especializada em poesia e uma livraria da Imprensa Oficial do Estado de SP.
O tal evento na Casa das Rosas certamente custou aos cofres públicos dinheiro que poderia ter impedido o furto de obras de arte do MASP. Segundo o jornal Folha de São Paulo, o sistema de alarmes que falta ao museu custa cerca de R$ 30 mil. O convescote para os amigos do rei na Casa das Rosas, não deve ter custado muito menos.
Advogo, pois, pelo fim dos convescotes "culturais" com dinheiro público, que deveria deixar de ser gasto nesses eventos para pedantes de todo tipo exibirem seus "dotes" culturais, pois um Estado que não tem sobra de caixa para investir o mínimo do mínimo em Cultura não deve usar os parcos recursos de que dispõe para fomentar vaidades e rega-bofes cuja contribuição efetiva para a Cultura é menor do que zero.
Escrito por Eduardo Guimarães às 13h11
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Nós e Ele
Termina o segundo ano de existência do blog Cidadania. Este ano termina como aquele em que este espaço, por força dos acontecimentos, acabou ganhando uma dimensão muito além da que qualquer um de nós, que vimos aqui todos os dias, jamais suspeitava que poderia ganhar.
No blog Cidadania, apesar da inexpressividade de seu signatário em termos de influência nos grandes debates nacionais, foram veiculadas opiniões, daquele signatário e de seus leitores, que, sim, fizeram por acrescentar questões importantes ao debate nacional. E não foi por outras razões que textos deste blog - sempre baseados, também, na interlocução deste que escreve com seus leitores - foram reproduzidos em importantes espaços de debates na internet.
No segundo semestre de 2007 foi que o blog Cidadania acolheu a essência de um sentimento latente na sociedade brasileira, de questionamento sobre a forma como o "mercado" da comunicação no Brasil é explorado pelas grandes empresas familiares que dominam a comunicação no país. O uso desse "mercado" para tentar transformar em fatos as idiossincrasias políticas e ideológicas de empresários como os Marinho, Frias, Civita, Mesquita e congêneres foi, pela primeira vez em décadas, questionado de forma pública e amplamente difundida graças ao surgimento do Movimento dos Sem-Mídia.
Não foi por outra razão que houve o pronto reconhecimento da importância dessa iniciativa apartidária e espontânea da sociedade civil por influentes e renomados jornalistas e veículos da dita "mídia alternativa", como, por exemplo, Luiz Carlos Azenha, Paulo Henrique Amorim, Lula Miranda, Ricardo Kauffman, Renato Rovai e outros, e pelas revistas Fórum e Caros Amigos, pela Agência Carta Maior, pelo Observatório da Imprensa, pelo portal Terra, pelo portal IG (que anunciou em sua primeira página o ato do MSM diante da Folha), pelo site Conversa Afiada, pelo jornal Hora do Povo (que deu matéria de página inteira reproduzindo o Manifesto dos Sem-Mídia, originalmente publicado aqui neste blog) e por tantos outros importantes espaços na internet e na imprensa.
Não poderia deixar que chegasse o fim deste ano para agradecer a todos vocês pela audiência e pela confiança. Aos leitores que não comungam das opiniões e iniciativas deste blog, mas que sabem professar suas discordâncias de forma civilizada, quero dizer que, por mais que às vezes o calor dos debates os torne mais intensos e polêmicos do que o necessário, inclusive por minha culpa e dos leitores que pensam como eu, esses debates foram importantes para que as questões propostas fossem aprofundadas. Não negarei que muitas críticas me fizeram refletir, e acredito até que soube retroceder em algum ponto em que vi razão nelas.
Estamos às portas da que talvez seja a mais importante data festiva do Ocidente, o Natal. E é nesta época em que, ao menos o espírito dos homens, deveria se desarmar. Poderíamos refletir sobre como atingirmos nossos objetivos e defendermos nossas idéias da forma que Cristo nos ensinou, ou seja, através do amor, da compreensão e da generosidade. Claro que muitos adversários - e até os que se julgam inimigos - poderão rir do que estou propondo, pois só pensam na luta político-ideológica ensandecida em que mergulharam os poderosos de toda parte para manterem privilégios e a opressão aos desfavorecidos. Mas declaro que estou entre aqueles homens que sempre vêem uma chance para a conciliação e para a concórdia.
Mais de dois milênios se passaram desde que nasceu Jesus Cristo, um revolucionário que marcou para sempre a humanidade. E foi isso que Jesus representou para todos nós: a revolução dos sentimentos humanos, do conceito de humanidade. Ele propôs o amor como meio, o perdão como método e a paz como objetivo. E esse homem, mesmo para quem não acredita em seus dons divinos, não se pode negar que caminhou sobre a Terra. Suas idéias e palavras, seus métodos, seus ensinamentos e sua trajetória foram reproduzidos em milhares de escrituras. Foi retratado como nenhum outro ser vivente de sua época e de todas as outras. Em suma: existiu um Jesus Cristo, e estamos às portas de seu 2007º aniversário. Este, pois, deveria ser um momento de reflexão para a humanidade. Que Deus queira que assim seja.
Escrito por Eduardo Guimarães às 12h06
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"DA AGÊNCIA FOLHA, EM SOBRADINHO - O bispo de Barra (BA), dom Luiz Flávio Cappio, 61, foi internado ontem à noite na Unidade de Tratamento Intensivo do Hospital Memorial, em Petrolina (PE), após greve de fome de 22 dias e dez horas contra o projeto de transposição das águas do rio São Francisco."
Um dos malefícios gerados pela falta de confiança na mídia pode ser encontrado na notícia acima. Um homem, um religioso que coloca sua vida em risco pelo ideal de impedir a transposição das águas do rio São Francisco, é alguém que, no mínimo, precisa ser respeitado.
Contudo, para bem avaliar com quem está a verdade - se com dom Cappio ou com os defensores do projeto -, é preciso uma profunda reflexão, porque o que a mídia divulga, sabe-se que sempre pretende conduzir a opinião pública para algum lado. Pode até ser para o lado certo, mas essa indução de opiniões jamais será certa. As pessoas têm que formar suas opiniões autonomamente. Devem-lhes ser oferecidas opiniões e fatos esgrimidos pelos dois lados. E tudo deve ser reportado ou opinado de forma didática, para que a informação e as tomadas de posição possíveis sejam facilmente compreendidas por qualquer um que seja efetivamente alfabetizado.
Mas, e a atitude do bispo? Que faremos para tomar uma posição sobre ela e sobre a polêmica que a desencadeou?
A atitude do religioso é perigosa. Pretende criar uma situação de fato consumado para todo um país. E o que é pior: pela vontade de um único homem. Nesse aspecto, Ciro Gomes escreveu uma carta à atriz Letícia Sabatella, defensora das posições de dom Cappio, que foi publicada hoje em O Globo. Além de uma consistente argumentação, Ciro propõe à moça uma reflexão: imagine-se que outro religioso decida iniciar uma greve de fome A FAVOR da transposição do São Francisco. Como é que ficaria? Que vida, entre as de um e de outro religioso, iríamos escolher?
As razões do bispo, entretanto, não são bem divulgadas. Nem as do governo. Uma avalanche de dados e contra-dados se amontoam nas páginas dos jornais e não temos confiança no que é dito para tomarmos uma posição. É impossível que essa polêmica seja tão difícil de ser colocada para a opinião pública de uma forma mais inteligível. Os danos ambientais e sociais e os efeitos econômicos da obra são tratados pelos dois lados de formas absolutamente díspares.
A argumentação de Ciro para Letícia é interessante. Ao lê-la, você percebe o quão desinformado está sobre o assunto. A mídia divide-se entre criticar o governo e o bispo, mas a questão de fundo - o interesse das populações atingidas pela obra - não fica clara, pois a discussão é travada no nível técnico e os lados envolvidos dispõem de argumentação consistente. Apesar disso, Ciro, em sua carta à atriz, relata o quanto esse projeto foi debatido com a sociedade civil. Porém, esses debates não foram compilados de forma a informar a sociedade. A preocupação da mídia em fazer política relega os mais importantes debates a segundo plano. A mídia hoje prioriza, acima de tudo, acusações e denúncias - em 90% do tempo - contra o governo. O resto é o resto.
Daí você é obrigado a tentar entender um assunto dessa complexidade assim, de chofre. Porém, podemos pensar no seguinte: é absurdo imaginar que o governo planeje fabricar uma catástrofe ambiental e social. Haveria grande comoção na sociedade e forte pressão internacional. Poder-se-ia imaginar o Green Peace e outras organizações fazendo denúncias públicas. A mídia brasileira não desperdiçaria tal oportunidade de desmoralizar o governo.
Se nada disso está acontecendo, o que parece é que dom Cappio optou por um projeto messiânico, certamente desvinculado de razões mundanas, mas embebido de um desejo do bispo de se converter num mártir, o que parece interessar à Igreja Católica num momento em que ela vem sendo tão questionada. Um ato desses, de auto-imolação por uma causa tão poética, mostra uma Igreja na qual militam homens de profunda convicção religiosa e filosófica. E é bem verdade que a Igreja Católica abriga homens e mulheres de grande fé e idealismo. Porém, o apoio de membros da cúpula dessa Igreja a um ato suicida, chega a assustar. Nenhuma sociedade pode ser coagida dessa forma pelo ato de um único homem.
A solução para tal dilema seria a mídia colocar essa polêmica para a sociedade com o mesmo didatismo com que tentou vender a ela a tese do "mensalão" e da "maior corrupção da história". O país precisa saber o que faz um homem se colocar às portas da morte para impedir uma obra de engenharia que vem sendo anunciada como redentora de milhões de pessoas atingidas pela seca no semi-árido nordestino. É nesses momentos que percebo como este país precisa desesperadamente de meios de comunicação confiáveis e de como eles são importantes para as democracias. Nesses momentos, convenço-me ainda mais da importância da causa de se trabalhar por uma mídia séria, ética, plural e responsável.
Escrito por Eduardo Guimarães às 11h01
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Aviso
Comunico aos amigos que só voltarei a postar amanhã (quinta) devido a viagem inesperada que tive que fazer hoje.
Escrito por Eduardo Guimarães às 17h17
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Ninguém merece
Ontem à tarde, o portal UOL informava que "o banco de investimentos Morgan Stanley rebaixou sua recomendação de classificação de risco para o Brasil, passando de 'igual à referência do mercado de ações' para 'abaixo da referência'. Isso se deveria a que "os investidores observam os movimentos do governo para saber como será compensada a perda de arrecadação com a CPMF, tributo que o Senado decidiu na semana passada não prorrogar". Já o "banco de investimentos Goldman Sachs avalia que o Brasil pode demorar mais para ganhar o grau de investimento dependendo da forma como o governo reagir à extinção do tributo".
Não é uma belezinha de notícia, turma? Viram só o que esses irresponsáveis da oposição e da mídia fizeram? E sabem por que? Porque o Brasil alcançar o investment grade (grau de investimento) significaria redução nas taxas de juros internacionais que paga por empréstimos e tomada de financiamentos pelos setores público e privado no exterior. Traduzindo: o país pagará mais caro pelo dinheiro externo que pedir emprestado porque a perda da receita expressiva da CPMF gerou dúvidas não só quanto à nossa capacidade de manter o superávit primário (espécie de poupança que o Estado brasileiro faz para garantir o pagamento de suas dívidas internas e externas), mas, também, quanto à capacidade do governo de implementar sua política econômica.
Eu já previra tudo isso aqui neste blog, no post "Por entre as pernas", que ainda pode ser encontrado nesta mesma página, abaixo. Vejam o que escrevi em 13/12 às 11:02 hs.: "O investidor não quer saber se o governo tem culpa ou não de não ter feito o que era preciso, e sim se esse governo tem força para fazer o que é preciso."
Dito e feito. Mas não pensem que tenho bola de cristal, não. Era apenas previsível que o país perderia em variados flancos pela decisão tresloucada que seu Senado tomou ao eliminar receita tão expressiva do Orçamento da União de forma tão abrupta. O Senado poderia ter eliminado o imposto sobre o cheque, mas poderia tê-lo feito para o Exercício de 2009. Retirar tão expressiva fonte de recursos num momento em que o governo desenvolve um plano de crescimento econômico que, inclusive, como mostram notícias recentes já começa a dar frutos, é sabotagem. E não é sabotagem contra o governo, mas contra o Brasil.
Quem pagará a conta, como vêm sugerindo a oposição e a mídia, será o povo. Meios de comunicação já pedem menor aumento do salário mínimo para compensar a perda de receita. Beleza, não é? Assim, o quesito distribuição de renda fica comprometido na avaliação futura do atual governo, de forma a não humilhar ainda mais o governo FHC na comparação dos números perante a história, que jamais levará em conta a explicação cara-de-pau de que o governo tucano teve desempenho estatístico tão inferior por conta de "crises internacionais".
Um leitor da Folha escreveu uma carta antológica que o jornal, surpreendentemente, publicou. Vejam:
"Rejeitada a proposta de prorrogação da CPMF pela oposição, sintonizada com os interesses da Fiesp e com a amargura de FHC, fica clara a necessidade de cortes no Orçamento da União.
O editorial "Depois da queda" (Opinião, 14/12) trata dessa realidade inescapável.
Os editorialistas poderiam sugerir, por exemplo, o corte nos gastos com rolagem da dívida, reduzindo-se a taxa de juros mais alta do planeta. Mas qual o quê! Também sintonizados com o patamar superior da sociedade, conhecida como "elite", preferiram encontrar um caminho mais "racional': seria necessária a suspensão de gastos novos previstos para 2008, "tais como aumentos reais para servidores e salário mínimo". Brilhante! É claro que alguém tem que pagar a conta.
Os mais pobres já perderam os recursos que iriam para a saúde e para o Bolsa Família, e agora, por conta da sugestão da Folha, ficam sujeitos também a perder parte de seus parcos rendimentos com o salário mínimo. Afinal, o ganho da Fiesp e dos rentistas é sagrado!
A decisão do Senado na quinta e o editorial da Folha na sexta são o retrato acabado de uma elite egoísta e insensível para as necessidades dos mais vulneráveis.
O Brasil não merece vocês!"
JORGE LUÍS BREDER (Campinas, SP)
Realmente, o Brasil não merece a mídia e a oposição que tem. Vocês concordam comigo e com o Jorge Luís Breder?
Escrito por Eduardo Guimarães às 12h11
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Faltam 32 milhões
Terminamos o fim de semana com uma notícia interessante. Segundo a Folha de São Paulo de domingo, o crescimento da economia tirou vinte milhões das classes D e E durante os cinco anos do governo Lula. Essas classes, para quem não sabe, são as que abrigam, respectivamente, os paupérrimos e os miseráveis. As pessoas que deixaram de ser paupérrimas e miseráveis tornaram-se de classe média baixa, da classe C.
A que se deve isso? A matéria em questão afirma que essa escalada social de duas dezenas de milhões de brasileiros se deve ao "crescimento da economia". Nada que ver com os programas sociais, segundo a Folha. Ao menos nos últimos anos.
Agora, tem uma coisa que eu não entendo: toda grande imprensa afirma que o crescimento do Brasil, além de medíocre, é igual ao da era FHC. Mas alguém aqui leu alguma vez, quando o tucano governava, que tantos milhões de pessoas tinham ascendido socialmente em período de tempo tão curto?
Se o crescimento da era FHC fosse igual ao da era Lula, não haveria mais classes D e E no Brasil, pois se somarmos os cinco anos de Lula aos oito do tucano, obteremos um total de treze anos. Ora, se em cinco anos do petista vinte milhões deixaram a pobreza extrema e a miséria, isso dá quatro milhões por ano. Multiplicando quatro milhões por treze anos, chegaremos a 52 milhões de pessoas.
Não dá para entender por que o crescimento dos oito anos tucanos, sendo igual ao dos cinco anos petistas, como diz a imprensa, não tirou 32 milhões da pobreza extrema e da miséria. Mas jornal, hoje em dia, não serve para fazer ninguém entender nada. Serve só para vender teses político-ideológicas, embrulhar peixe e forrar a casinha do cachorro.
Escrito por Eduardo Guimarães às 23h55
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