O tempo não pára
 
 
 
 
 
Esses feriados prolongados - e, entre eles, o das festas de fim de ano - criam em mim a impressão de que o mundo caiu num lapso de tempo. Quem gosta de ficção científica, sabe o que é isso. Os mais "rodados" devem se lembrar da antiga série americana "O Túnel do Tempo", grande sucesso da tevê mundial nos anos 1960 / 1970, em que dois cientistas viajam ao passado e ao futuro através de máquina do tempo construída por um dos lendários projetos secretos dos EUA. De vez em quando, os heróis caíam em "lapsos de tempo", o que seja, num ponto do tempo entre um átimo e outro, em que ele (o tempo) não corre.
 
Porém, isso é só uma "alucinação", um trote mental que o ócio e as ressacas gastronômica ou a etílica - que, no meu caso, nem houve - me pregam nestas épocas. E no Carnaval, é a mesma coisa.
 
Onde quero chegar é a que o nível de paralisação do mundo numa época como esta, não sei se é inteligente. Todos os serviços, toda estrutura do mundo moderno e a própria humanidade costumam mergulhar nessas catarses coletivas. Todos querem esquecer os problemas, a luta pela sobrevivência, em suma, a realidade como um todo, mas nada disso desaparece. Os problemas, os desafios insuperáveis da humanidade continuam todos lá e, de certa maneira, assusta-me imaginar que, por um segundo sequer, nos permitamos achar que não é assim.
 
Podem me chamar de cricri, mas vejam que a internet, a audiência das tevês e a venda de jornais, nesta época, denota o estupor generalizado que se apossa de nós. Ninguém quer lembrar de nada que não seja conversa fiada entre parentes, orgias gastronômicas, ócio prolongado e uma certa tristeza. As pessoas brincam, riem nos momentos "certos", mas depois da comilança, das trocas de presentes, das comemorações, tornamo-nos sorumbáticos e pensativos, pois nos damos conta de que aquela possibilidade de parar a vida e os problemas, é falsa.
 
Uma maneira de não tornar mais dura a queda na realidade que sucede o idílio de épocas como a das festas de fim de ano, é não mergulhar muito fundo nesse "lapso de tempo" imaginário que descrevi, mantendo um mínimo de conexão com aquela realidade a que se terá que voltar fatalmente. Porque, vez por outra, ao fim de tudo constata-se que a ressaca realista descompensa o porre da fuga mental a que nos entregamos.


 Escrito por Eduardo Guimarães às 11h42
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Seja o Natal
 
 
 
 
Este deverá ser um dos "natais" mais "gordos" da história para o comércio. Sucedem-se as notícias sobre recordes de vendas dos setores que exploram a mais importante data festiva do Ocidente.
 
Multidões apinham-se nas ruas comerciais de todo país. Aflitos e apressados, formamos filas nos caixas de lojas, magazines, supermercados, mal suportando a demora insuportável que põe à prova a determinação das pessoas de chegarem à meia noite de hoje com suas opulentas ceias completas, com seus presentes, com suas roupas novas.
 
Os salões de beleza não têm mais "hora" para suas clientes. Alguns tipos de iguarias esgotaram-se nos supermercados. Certos brinquedos tampouco podem ser encontrados.
 
Há pouco, num "hortifruti" perto de casa, li que o estabelecimento ficará aberto até às 21 horas. Os funcionários que se submetem a trabalhar duro no feriado para saciarem a sede de consumo da clientela, talvez cheguem em suas casas na periferia a tempo de trocarem presentes e degustarem as iguarias que o "boom" econômico que vive o Brasil está permitindo a muitos mais. 
 
Bem, pelo menos o consumismo desenfreado do Natal está excluindo menos gente...
 
O que me dói um pouco é que, por mais que a gastança e o consumismo sejam benéficos para a economia e estejam sendo permitidos a mais pessoas, muito poucos terão um Natal de verdade. O espírito da comemoração, como sabemos, é o que menos importa hoje em dia, pois perde em importância para presentes, comidas e vaidades.
 
Não vou nem falar da famigerada caridade natalina, dessa hipocrisia a que se entregam alguns nesta época ao fazerem doações simbólicas de presentes, comida etc. aos economicamente carentes, a fim de saciarem suas consciências fazendo num único dia do ano o que deixam de fazer nos outros 364 dias. Falo de atitudes generosas de verdade, mesmo que seja com aqueles que estão em torno de nós.
 
Há, nesta época de festas, uma disputa exacerbada de vaidades que suplanta a que acontece no resto do ano. Poucos pensarão em um gesto de boa vontade para com aqueles que desprezam por esta ou aquela razão. E quantos irão tentar conciliação com quem brigaram, ou tratarão com mais respeito aqueles que tentam se aproximar de nós, mas que são repelidos, muitas vezes, porque nos julgamos acima ou melhores do que essa pessoa?
 
Generosidade, boa vontade, tolerância, humildade, perdão, são todos sentimentos que deveriam ser gastos à farta no Natal. Em lugar deles, gastamos dinheiro, investimos em roupas, compramos presentes para os outros, mas o verdadeiro presenteado é o nosso ego.
 
Se você estiver lendo isto antes da meia noite de hoje, portanto, quero lhe propor uma coisa: medite. Atue, ao menos nesta noite de luz, de acordo com o espírito natalino. Perdoe alguém que quer ser por você perdoado. Adote um gesto de generosidade qualquer, como o de dar um sorriso e um pouco de atenção àqueles aos quais você nunca dispensa mais do que um olhar de soslaio e um cumprimento frio.
 
Tenha, desta vez, um Natal de verdade. Seja generoso, caloroso, tolerante. Seja você o Natal.


 Escrito por Eduardo Guimarães às 15h17
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Olhai por eles
 
 


Quero hoje fugir um pouco dos temas que abordo comumente aqui. Este post foi escrito em prol de cidadãos que, a meu juízo, são os que mais necessitam de ajuda, mas pelos quais ninguém olha.

A criança que vocês vêem acima é minha filha Victoria, de nove anos. Ela é uma das vítimas de um país que não respeita a si mesmo.

Victoria, apesar de bela, como vocês vêem que é, nasceu com Síndrome de Rett, uma doença gravíssima, degenerativa, decorrente de mutação genética e que só afeta meninas. Ela, apesar do olhar vivo, é incapaz de fazer qualquer movimento voluntário com seus membros; não fala, não anda, é totalmente dependente até para comer.

Mas minha filha é uma criança de sorte. Nasceu numa família de classe média que lhe pode oferecer o mínimo em termos de terapias que lhe ajudam a melhorar a qualidade de vida. Não todas, obviamente, porque custariam milhares de reais. Mas ela tem sorte, sim, pois há centenas de milhares de crianças deficientes neste país que não têm a quem recorrer.

O Estado brasileiro não apóia os deficientes. E não há um grande esforço nacional por essas vítimas do destino. Vejam que tenho lutado para conseguir uma instituição que ofereça à minha filha, a preços razoáveis, terapias que lhe seriam vitais. Procurei a APAE, mas não a aceita porque, além de deficiente mental, é deficiente física; a AACD não a aceita porque, além de deficiente física, é deficiente mental...

Conversa fiada. Essas instituições se regem por critérios inclusive políticos, pelo famoso Q. I. (quem indica). Mas ao menos posso lhe dar o mínimo. Pior do que a situação dela é a de centenas de milhares de deficientes que nem um plano de saúde podem ter.

Uma sociedade que não olha pelos mais frágeis entre os frágeis, como são os deficientes físicos e mentais, é uma sociedade doente. E a sociedade brasileira não olha. Vejo ricos fazendo festas de aniversário para cachorros enquanto crianças como a Victoria vão definhando por falta de recursos. O Estado praticamente nada oferece, sobretudo para enfermidades mais específicas como a da Victoria.

Só me resta pedir ao Deus em que creio que olhe por essas vítimas da insensibilidade da sociedade brasileira e da irresponsabilidade do Estado.


 Escrito por Eduardo Guimarães às 20h37
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 Escrito por Eduardo Guimarães às 16h01
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