Lancelotti, Nassif e nós
 
 
 
 
 
 
Há dois assuntos dos quais estava adiando a abordagem devido à importância que têm. Por paradoxal que pareça, explico: com a sucessão de crises que vêm tomando conta do noticiário, e com o processo de formatação da denúncia que o Movimento dos Sem Mídia fará ao Ministério Público para que investigue se meios de comunicação cometeram crime de alarma social ao disseminarem a hipótese de que haveria uma epidemia de febre amarela urbana no país, achei por bem esperar uma brecha entre as catarses provocadas pela mídia para abordar em maior profundidade dois assuntos da maior importância.
 
 
Primeiro assunto
 
 
Um desses assuntos é o massacre moral de que foi vítima o padre Júlio Lancelotti.
 
Como os leitores mais antigos sabem, esse homem foi importante para mim e para minha família há pouco menos de vinte anos. Eu morava próximo de sua paróquia e ele nos ajudou quando ficamos em situação difícil por conta de um acidente de carro que sofri.
 
Padre Júlio foi manchete de todos os jornais durante alguns dias no fim do ano passado. Segundo essas manchetes, ele  havia denunciado que estava sofrendo extorsão por parte de um ex-interno da Febem com quem teria mantido  "relacionamento sexual" quando aquele interno ainda era menor de idade. E o noticiário ainda levantava dúvidas sobre o dinheiro da chantagem que o padre denunciou que estava sofrendo. Eram quantias vultosas, e a insinuação era a de que a ONG que Lancelotti integrava, que recebia dinheiro público, teria sido desfalcada por ele para que pudesse pagar o chantagista, que, na verdade, estaria ameaçando o religioso de revelar publicamente os supostos atos de pedofilia que teria praticado.
 
Antes de começar a escrever este texto, fui procurar no Google matérias que aludem ao assunto. Fiz a busca simplesmente como "Júlio Lancelotti", a fim de que tudo que tivesse sido divulgado sobre ele aparecesse pela ordem do volume de acessos àquele texto. O primeiro resultado que apareceu, porque é o mais lido, foi matéria da Folha de São Paulo de 17 de outubro do ano passado, no caderno Cotidiano, em que o jornal apenas começava a campanha que, a exemplo de outros jornais paulistas - e alguns de outros Estados -, moveu contra o padre, o que resultou em prejuízos irreparáveis à sua imagem, que, até então, sempre havia se mantido acima de qualquer suspeita.
 
Alguns ainda não devem ter entendido por que fiz essa busca no Google. O motivo é o seguinte: a reportagem sobre o padre Júlio que deveria aparecer em primeiro lugar não aparece nessa posição porque foi divulgada pela imprensa sem qualquer destaque. Na verdade, alguns diriam que foi mais escondida do que divulgada. A verdade ganhou notinhas de rodapé nos jornais que deram manchetes de primeira página a mentiras contra aquele que estava sendo vítima de um crime. Trata-se de uma nota do mesmo jornal que tem no começo de sua campanha contra Lancelotti a matéria mais lida na internet sobre ele.
 
A nota de 22 de fevereiro deste ano que foi publicada no caderno Cotidiano da Folha de São Paulo, diz o seguinte:
 
"PADRE JÚLIO É CONSIDERADO VÍTIMA DE EXTORSÃO
 
O Ministério Público de São Paulo considerou o padre Júlio Lancelotti vítima de extorsão da quadrilha formada pelo ex-interno da Febem (atual Fundação Casa), Anderson Batista, sua mulher, Conceição Eletério e os irmãos Evandro e Everson Guimarães. As conclusões se assemelham às considerações finais do advogado do padre, Luiz Eduardo Grenhalgh, assistente de acusação. A condenação deve sair na semana que vem."
 
O que aconteceu foi o seguinte: as acusações do chantagista contra o padre, de que ele teria cometido atos de pedofilia consigo, foram frontalmente descartadas, e a acusação do padre contra o chantagista foi efetivamente comprovada. Mas quem fizer alguma busca na internet para saber alguma coisa sobre o padre Lancelotti fatalmente dará de cara com a matéria em que começa a ser linchado pela mídia, em vez de ser com a que mostra que o padre é inocente das acusações que os meios de comunicação martelaram contra si por dias a fio.
 
 
Segundo assunto
 
 
O segundo assunto diz respeito à tão alardeada (pela mídia) liberdade de imprensa. Refiro-me aos processos que funcionários da editora Abril, bem como a própria, estão movendo contra o jornalista Luis Nassif por conta de ele ter divulgado um dossiê em que faz denúncias gravíssimas contra a revista Veja.
 
O dossiê é um material complexo e denso. Faz acusações contundentes contra a publicação da Abril. Entretanto, não difere em nada das notórias matérias-denúncias da revista, que sempre qualificou como atentado à liberdade de imprensa qualquer processo que alvos de suas matérias movessem contra si. E se diferença há - e há - é na solidez da argumentação de Nassif, que é tal que a Veja não ousa contestar, preferindo a intimidação.
 
A estratégia da revista foi a de bombardeio de saturação. Tem usado tática parecida com a que a Folha de São Paulo condena na Igreja Universal, que, segundo o jornal, estaria usando fiéis para moverem contra si vários processos simultâneos a fim de dificultar a defesa do processado. A Abril e seus funcionários estão provocando uma chuva de processos contra Nassif com o óbvio intento de calar as denúncias contundentes que tem feito. Fazem isso, repito, em lugar de contestar cabalmente o dossiê de Nassif.
 
Como se não bastasse a intimidação de um jornalista - e aqueles que a estão praticando deveriam ser os primeiros a combater tal prática -, todos os grandes meios de comunicação optaram por censurar as denúncias de Luis Nassif contra a revista Veja. A Folha, por exemplo, tem respondido aos leitores que a questionam, através de seu ombudsman, que não considera o assunto relevante para ser tratado pelo jornal.
 
Paralelamente às chicanas jurídicas, a Abril tem usado um seu colunista e o blog dele, hospedado no site da revista Veja, para insultar pesadamente a Nassif, lançar boatos, fazer insinuações até sobre a vida privada do jornalista, com o óbvio propósito de desgastá-lo emocionalmente.
 
 
Conclusões sobre os assuntos
 
 
Eu esperava o momento certo para abordar estes assuntos. E o momento certo é este porque caímos numa espécie de calmaria em meio ao bombardeio midiático. Esfriou a crise na América Latina e a dos cartões corporativos... A das ONGs ainda está em compasso de espera. Parece-me o momento certo para propor aqui algumas ações da sociedade civil em relação a dois casos que afrontam todo aquele que preza o Estado de Direito e a liberdade de expressão.
 
No caso do padre Júlio, minha proposta é a de que o Movimento dos Sem-Mídia, entidade jurídica perfeitamente constituída, também provoque o Ministério Público para que investigue o linchamento público a que aquele homem foi submetido e denuncie os meios de comunicação que o lincharam, de forma a que sejam condenados a divulgar a constatação da inocência do padre com a mesma intensidade com que publicaram as insinuações sobre ele.
 
No caso de Luis Nassif e a Veja, penso que o que é possível fazer, neste momento, é uma manifestação pública que peça aos meios de comunicação que publiquem o dossiê Veja. O recurso da Abril ao Judiciário, por mal intencionado que seja, é legítimo. Já a censura do material divulgado por Nassif, é inaceitável. A sociedade precisa saber da natureza do questionamento que o jornalista está fazendo aos métodos de um dos maiores e mais importantes meios de comunicação do país.
 
A partir de agora, o Movimento dos Sem-Mídia e este blog começarão a tratar dos dois assuntos que trouxe à apreciação dos leitores deste espaço.
 
Neste sábado, 8 de março, haverá uma reunião da diretoria da ONG que presido, com a finalidade de tratar dos últimos detalhes da denúncia que será feita ao Ministério Público na questão da disseminação de pânico pela mídia na questão da febre amarela. Pretendo levar para essa reunião também os casos do padre Júlio Lancelotti e de Luis Nassif.
 
Como prometi que faria na assembléia constitutiva da ONG Movimento dos Sem-Mídia, tenho tentado exercer o cargo de presidente da Organização com o maior empenho possível. Tenho ainda cerca de um ano e meio de mandato como presidente. Até o último dia desse mandato, naqueles momentos em que atitudes contra abusos da mídia tiverem que ser tomadas e não estiverem sendo, adotarei, sem pensar, a iniciativa de tomá-las, valendo-me do instrumento que mais de uma centena de filiados à ONG me deu no ano passado.


 Escrito por Eduardo Guimarães às 19h18
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PIB de Lula humilha FHC
 
 
 
 
"O ministro da Fazenda, Guido Mantega, disse nesta sexta-feira [7/2] que o PIB (produto interno bruto) do Brasil cresceu entre 5,2% e 5,3% no ano passado. A afirmação foi feita em um evento do Instituto Internacional de Finanças, realizado no Rio de Janeiro." (Agência Reuters)
 
 
O crescimento do Brasil na era Lula já ameaça envergonhar o dos governos anteriores de uma forma como não se via há muito tempo, apesar de que um dado sobre o crescimento da economia "escondido" (?) no gráfico acima mostra que o crescimento petista já vinha deixando o tucano na poeira há muito tempo.
 
O gráfico supra mencionado foi extraído do site do Instituto Brasileiro de Geografia Estatística (IBGE). Mostra, ano a ano, não só a evolução do PIB desde o primeiro ano do primeiro governo FHC até o último ano do primeiro mandato de Lula, mas, também, a evolução do PIB percapita nesse período.
 
Analisando-se o simples crescimento da economia nos primeiros mandatos dos dois presidentes, chega-se às seguintes médias de evolução do PIB nos dois períodos:
 
FHC (1995 / 2002 - 4 anos) - 2,57%
 
Lula  (2003 / 2006 - 4 anos) - 2,65%
 
Aparentemente o primeiro governo tucano e o primeiro petista foram similares, do ponto de vista do crescimento. Porém, comparando a evolução do PIB percapita do período em tela, percebe-se uma clara vantagem petista. Comparem as médias das evoluções dos PIBs percapitas durante o primeiro mandato de FHC e o de Lula:
 
FHC (1995 / 2002 - 8 anos) - 1%
 
Lula (2003 / 2006 - 4 anos) - 1,17%
 
Mas se pegarmos o período completo de oito anos de FHC e compararmos com o de cinco anos do governo Lula é que se verá a superioridade do crescimento econômico petista sobre o tucano. Vejam como fica, primeiro, a simples comparação das médias das evoluções do PIB nos dois períodos, já levando em conta o anúncio do ministro Guido Mantega de que o PIB de 2007 deverá ter subido 5,2%.
 
FHC (1995 / 2002 - 8 anos) - 2,33% 
 
Lula (2003 / 2007 -  5 anos) - 3,16%
 
Se o crescimento econômico continuar mais ou menos no ritmo em que está - e todos os prognósticos econômicos dizem não só que continuará, mas que aumentará -, poderemos ter um PIB da era Lula que seja o dobro ou o triplo do da era FHC.
 
Infelizmente, não se tem a evolução do PIB percapita de 2007, pois esse indicador mostra, de alguma maneira, como ficou a qualidade de vida da população. Mas, fazendo a comparação das médias de crescimento do PIB percapita durante oito anos do governo FHC contra quatro anos do governo Lula, percebe-se como a população melhorou bem mais de vida sob o governo petista, o que explica o fato de Lula, a esta altura, depois de cinco anos governando, ser muito melhor aprovado do que era FHC no quinto ano em que estava no poder.
 
Comparem as médias dos PIBs percapitas dos períodos.
 
FHC (1995 / 2002 - 8 anos) - 0,78%
 
Lula (2003 / 2006 - 4 anos) - 1,17%
 
Claro que a argumentação tucana será sempre a de que Lula colhe hoje o que FHC plantou ontem, como se o que FHC colheu enquanto governava não fosse o que ele mesmo plantou, ou seja, o real sobrevalorizado, que deprimiu tanto o PIB e exacerbou a concentração de renda, dado implícito na evolução do PIB percapita. Mas, enfim, eles têm que dizer alguma coisa, não é mesmo?


 Escrito por Eduardo Guimarães às 12h00
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Diversionismo midiático
 
 
 
 
CPMF, epidemia imaginária de febre amarela, cartões corporativos, apagão energético imaginário, crise econômica americana, "guerra" na América do Sul... De crise em crise, o tempo vai passando e o país anda alheio ao fato de que estamos em ano eleitoral.
 
Há controvérsias sobre a importância de eleições municipais. Questiona-se a influência de seus resultados finais (quem ganhou mais prefeituras) na disputa pelo filé político (eleições federais) e a própria probabilidade de a mera mudança de nome e de partido de prefeitos vir a melhorar mais rapidamente os municípios.
 
Sou dos que acham que a influência das eleições municipais - que acontecem separadas das eleições estaduais e federais, que ocorrem juntas - em processos eleitorais de outras esferas de poder, é pequena.
 
Em 2000, dois anos antes da eleição que conduziu Lula ao poder, o PT arrasou nacionalmente, conquistando  as prefeituras mais importantes do país; em 2004, dois anos antes da eleição em que Lula se reelegeu com tanto apoio quanto na primeira vez, o PT perdeu aquelas prefeituras.
 
Sobre o efeito mais visível que mudar nomes e partidos no comando de prefeituras pode ter ao menos no curto e médio prazos, sou cético.
 
O governo Marta Suplicy foi talvez o melhor que São Paulo teve desde a redemocratização do país. Mas as melhoras no transporte público, na qualidade de vida nas periferias etc. só começaram a aparecer no fim daquele governo, começo do governo seguinte.
 
São Paulo foi relegada a ser administrada por José Serra por controle remoto. Por isso o governo paulistano é ruim. Adota medidas de impacto ao estilo Maluf, como retirar publicidade das ruas - quem não se lembra do cinto de segurança do Maluf? -, mas sobre políticas públicas mais profundas, não se sabe nada. Além disso, já se acusa sensível piora no transporte público paulistano, mas essa bomba deverá estourar na mão do próximo prefeito.
 
De tudo isso, depreende-se que a qualidade administrativa de um governo só se materializa plenamente no governo subseqüente. Vejam que o desastre FHC perdurou durante quase todo o primeiro governo Lula. Foi só a partir do fim daquele governo e meados deste que se está podendo notar melhoras debitadas às políticas do primeiro mandato petista.
 
Cumpre-me destacar, reiterando, a singularidade das eleições municipais deste ano. Os olhos do Partido da Imprensa Golpista e da direita tucano-pefelista estão voltados para São Paulo. Aqui será travada a disputa que mais terá que ver com a próxima sucessão presidencial.
 
A vitória ou a derrota de Gilberto Kassab, atual prefeito de São Paulo, refletirá diretamente na imagem de "gerente" ultra-competente que, desta vez, a mídia tenta pregar em Serra, depois de não ter conseguido pregar em Alckmin no ano retrasado.
 
Alckmin é o plano B da direita paulista. Na falta de Kassab, consolar-se-á com manter o controle estadual e municipal do mais importante Estado da Federação (ao menos economicamente) via "picolé de chuchu".
 
As perspectivas de devolver São Paulo a um grupo político realmente preocupado em mitigar seus dramas sociais, são pequenas. A capital paulista só perde em ignorância política para o interior do Estado.
 
Em São Paulo, o preconceito racial, de classe e geográfico é o mais exacerbado do país. Contudo, não se pode negar o fato de que aqui surgiu a liderança política que apeou a direita do poder nacional. Vale a pena lutar para melhorar São Paulo, portanto, porque assim se melhora o Brasil.


 Escrito por Eduardo Guimarães às 09h58
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Reunir a Gran Colombia
 
 Atualizado às 23:25 hs de 6 de março de 2008
 
Chega a ser irônico que países que um dia formaram uma só nação estejam conflagrados entre si. Um dia, o Vice-reino de Nova Granada (hoje Colômbia), a Capitania Geral da Venezuela e a Real Audiência de Quito (Equador), reunidos por Simón Bolívar, formaram a "Gran Colômbia", que também incluía parte do Panamá, a parte norte do atual Peru, pequena parte do sul da atual Costa Rica e uma pequena parcela do atual estado brasileiro do Amazonas.

Como vocês sabem, no ano passado dediquei-me a viajar a negócios aos países andinos, indo até à Venezuela, ocaso da Cordilheira dos Andes, e ao Panamá. O que me chamou a atenção, conhecendo e comparando as culturas daqueles países naquela seqüência alucinante de viagens que os leitores mais antigos sabem que empreendi à região, foi como é artificial a divisão da nação grã-colombiana.

A região está presa aos laços de sangue, às expressões idiomáticas, aos costumes que a caracterizam. Na Venezuela está a maior quantidade de colombianos vivendo fora de seu país na atualidade. Os saborosos ceviches peruano, colombiano, equatoriano ou venezuelano, ou o popular termo chevere (legal, bacana), comuns àqueles países todos, denunciam a diáspora da nação grã-colombiana.
 
Eu mesmo conheço vários equatorianos ou venezuelanos que devem estar sofrendo, apreensivos, com a possibilidade de serem separados pela política de suas famílias em território colombiano, e vice e versa.
 
A política produz muitas aberrações, mas a pior, seja na América Latina, seja no Oriente Médio ou em qualquer outra parte, é seu dom de provocar aberrações como a que se vê neste momento, no qual uma única nação - e não nos esqueçamos de que o conceito de nação é muito mais importante do que o de país - se vê fragmentada por interesses políticos.
 
Talvez não seja para esta geração, mas um dia os povos de países como Colômbia, Equador e Venezuela entenderão uma verdade inegável: reunirem-se novamente sob a mesma bandeira seria a decisão mais lógica a tomar.
 
 
*


O ombudsman da Folha de São Paulo, Mário Magalhães, está se tornando, de longe, o mais corajoso entre todos os ombudsmans que ocuparam o cargo.
 
Para que se tenha uma idéia, ele fez algumas perguntas em sua crítica interna na internet em 6 de março que, sozinhas, dão matéria-prima para um debate de horas.

A primeira pergunta que Magalhães fez, e que o jornal jamais responderá, foi a seguinte:
 
"Ao conhecer [graças ao esmiuçamento dos poderes bélicos de Colômbia, Equador e Venezuela pela mídia] os efetivos e equipamentos militares dos países agora em choque, surpreendi-me: a Colômbia é disparado o país mais bem armado. E a tal escalada [armamentista] de Chávez?"

A segunda pergunta, é mais um soco no estômago do produtor de manchetes da Folha.

"A reportagem "Chávez agora diz querer 'paz verdadeira'" (pág. A17) afirma que "não é possível informar quantos militares foram deslocados para a área" da fronteira com a Colômbia. (...) Por que o "agora" do título? Antes Chávez dizia não querer a paz? Se for isso, seria preciso explicar."

Vale comentar que esse "agora" a que se refere o ombusman permaneceu e incomodou-me durante toda quinta-feira na primeira página do UOL. O problema é que um mero advérbio, naquele contexto, equivaleu a um editorial.

Mário Magalhães é um jornalista que honra a profissão. Pena que a Folha o faça sentir-se como "peito de homem", segundo ele mesmo relatou recentemente. É bom informar, aliás, que a analogia deve-se ao fato de que peito de homem não serve para nada.
 


 Escrito por Eduardo Guimarães às 20h43
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Colômbia foi condenada
 
José Miguel Inzulza, secretário-geral da OEA
 
 
O secretário-geral da OEA, José Miguel Inzulza, disse hoje que, apesar do acordo entre Colômbia e Equador conseguido ontem naquele organismo, a Colômbia violou, sim, a soberania do Equador, e que ainda falta muito para resolver o conflito entre os países. "O problema não está resolvido e teremos que trabalhar muito para solucioná-lo", sublinhou Inzulza, em declarações feitas de Washington
 
José Miguel Insulza encabeçará uma missão da OEA que examinará in loco os detalhes do incidente entre Colômbia e Equador Para ele, o interesse do Conselho Permanente da OEA é tratar do assunto sem colocar lenha na fogueira e sim baixando o nível de tensão entre os países.
 
Porém, quando foi perguntado sobre a aparente ambigüidade da declaração aprovada ontem na OEA, que reafirma que o território de um Estado é "Jurisdição Inviolável", mas que, assim mesmo, não condenou a Colômbia por sua ação em território do Equador, Inzulza disse o seguinte: "Não cabia senão declarar que houve uma violação do artigo 21 da Carta da OEA, porém, ao mesmo tempo, o Conselho Permanente quis buscar uma forma de aproximação entre Colômbia e Equador e, assim, evitou usar palavras duras.
 
Em outras palavras: a OEA usou tucanês para condenar a Colômbia, pois se condenou seu ato como violador do tal artigo da Carta da OEA isso representa uma condenação de quem praticou esse ato. A Colômbia foi, sim, condenada pelo ato que praticou; só não foi usada a palavra condenação.
 
O problema é que a mídia brasileira - e as de outros países onde a mídia atua como partido político - trata de ler literalmente ou subjetivamente os fatos de acordo com as circunstâncias. Neste caso, a leitura está sendo literal.
 
Em 17 de março haverá reunião dos chanceleres dos países integrantes da OEA. Cumpre a esses países irem estabelecendo consenso para que um recado duro seja dado aos EUA e à Colômbia naquela reunião. O documento assinado ontem não deve ser mais do que um paliativo para esfriar a crise. Contudo, no fórum adequado, o ato de guerra de Uribe e Bush deve ser condenado para proteção de todo continente americano.


 Escrito por Eduardo Guimarães às 12h18
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STF e a esperança
 
 
 
 
A menina da foto é minha quarta filha, Victoria. Ela nasceu dez anos depois do André, meu terceiro filho, e tem nove anos. Eu e minha mulher descobrimos que seríamos pais pela quarta vez no verão de 1998. Nossos três outros filhos já estavam praticamente criados. O caçula tinha 10 anos, a segunda filha 12 e a primeira, 16 anos.
 
Aquele momento, quando nossa família descobriu que mais uma de nossa linhagem viria ao mundo, foi o mais sublime, o mais terno, o mais emocionante da minha vida. Nem o nascimento da primeira filha continha a poesia que teria o da Victoria. Daí, inclusive, o nome que demos a ela, pois criar nossos três outros filhos, superar todas as dificuldades para dar a eles educação de qualidade, cultura e transmitir-lhes os valores que os tornariam os cidadãos que são hoje foi uma luta, e a pequena seria a nossa vitória.
 
Nossa menina nasceu no dia 6 de outubro de 1998. Eu assisti o parto. Foi a primeira vez. Eu nunca tinha visto de perto o nascimento de um ser humano. Fiquei maravilhado com a obra de Deus. O milagre da concepção...
 
A vida sorrira à minha família. Tudo caminhava bem. Os negócios, o amor com a mulher da minha vida, os filhos maiores florescendo, tornando-se adultos, e a pequena seria o consolo para um homem e uma mulher que se dedicaram com a alma a criar sua prole e, de repente, temiam ficar meio que "sem função" na vida diante dos filhos que já deixavam de depender de nós.
 
Até completar seu primeiro ano de vida, Victoria se desenvolveu como qualquer outra criança. A partir dali, entretanto, comecei a notar sinais de que havia algo terrivelmente errado com ela. Não começava a engatinhar, a balbuciar palavras ou a tentar pegar as coisas com as mãozinhas. E uma noite, em meu quarto, com ela sobre os joelhos, olhando-lhe os olhos profundamente eu entendi tudo: ela tinha alguma doença mental.
 
Quando manifestei minhas suspeitas ao resto da família, a reação foi terrível. Ficaram zangados comigo. Como alguém poderia ter pensamentos tão doentios como o de que uma fatalidade daquela ordem pudesse ter ocorrido conosco? Querendo acreditar no que me diziam, que tudo não passava de catastrofismo meu, decidi me tranqüilizar e esperar que Victoria começasse a se desenvolver, apesar de que eu estava sendo pai pela quarta vez e, no fundo, sabia que aquilo jamais aconteceria.
 
O tempo foi passando e agora já não havia mais dúvidas: alguma coisa de muito errado acontecia com a Victoria, sim. Começamos, então, uma via crucis, de neuropediatra em neuropediatra, até que um deles descobriu - ou teve a coragem de nos revelar - o que tinha a nossa menina: Victoria era portadora de uma mutação genética chamada Síndrome de Rett, enfermidade gravíssima que só acomete meninas e que junta-se a outras deficiências que costumam chamar de "paralisia cerebral".
 
Direi, sendo sincero, que o nosso mundo desmoronou naquela tarde de setembro de 2000, quando o neuropediatra deixou boquiabertos a mim, à minha mulher e à babá da Victoria, que a segurava no colo. Estávamos sentados um ao lado do outro, diante dele, do médico, sem saber o que fazer, procurando nos convencer de que o que acabáramos de ouvir fazia parte de um pesadelo. Os três deixamos o consultório em silêncio, olhos cheios de lágrimas.
 
Desde então, diariamente penso no que não deveria, mas que não posso evitar: minha Victoria jamais entrará pela porta com um namorado, jamais passará num vestibular, jamais me dará netos... E todos os dias, desde aquele dia, eu choro por isso.
 
Se já houve algum alento nesses quase oito anos para a minha dor e a da minha mulher e filhos, foi nas poucas vezes em que li sobre as possibilidades maravilhosas que as pesquisas com células-tronco prometem àqueles que já não tinham mais esperança. Por isso, imploro à Suprema Corte do meu país que olhe pela Victoria e por todos os que, como ela, só têm uma esperança, a dessas pesquisas de Deus, que estou certo de que porão fim a muito sofrimento. Deus não pode ser contra isso.


 Escrito por Eduardo Guimarães às 21h58
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Bom acordo
 
 
Com furo deste blog na internet brasileira - pois publicou, em primeira mão, as notícias do site do jornal colombiano "El Tiempo" que deram conta do acordo fechado entre Colômbia e Equador no Conselho Permanente da OEA -, chegamos à seguinte conclusão: foi melhor assim.
 
É claro que a condenação da Colômbia, explicitamente pela OEA, seria o que todos (os mentalmente sãos) gostaríamos de ver, mas ao deixar a Uribe a saída "honrosa" de seu governo reconhecer que errou e de pedir desculpas formais ao Equador, acaba se chegando a importante vitória sobre o país que desencadeou toda essa crise.
 
As razões para tal afirmação, são as seguintes:
 
1ª  - Ao pedir desculpas formais ao Equador, a Colômbia se contradiz nas acusações que fez de que aquele que agrediu foi agredido porque seria culpado de dar suporte às Farc, ou seja, de que Rafael Correa teria permitido a livre movimentação da guerrilha colombiana em seu território.
 
2ª - O acordo interessa aos países sul-americanos governados pela esquerda, que estariam todos ameaçados por uma Colômbia em guerra, armada e sustentada por Washington. A partir de vitória militar sobre o Equador, poderia atacar Venezuela ou Bolívia, de forma a facilitar a derrubada de Hugo Chávez ou Evo Morales. Lula poderia ser um "brinde" num processo descontrolado.
 
3ª - A Colômbia não poderá reincidir no crime. Daqui por diante, qualquer deslize na questão de inviolabilidade territorial acarretará isolamento do país por seus vizinhos e fatal condenação da OEA.
 
4ª - A reunião dos ministros das relações exteriores dos países filiados à OEA ainda poderia, em tese, censurar oficialmente a Colômbia.
 
5ª - Foi dado um alerta à comunidade sul-americana de nações no que diz respeito à Colômbia e às suas relações, digamos, carnais com os EUA.
 
Claro que os tanques de Hugo Chávez ainda estão na Fronteira da Venezuela com a Colômbia, mas é preciso ir resolvendo um problema de cada vez, não é mesmo?


 Escrito por Eduardo Guimarães às 16h40
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       "El Tiempo" antecipa
acordo na OEA
 
 
Alvaro Uribe, presidente da Colômbia
 
 
O diário colombiano El Tiempo, de linha oficialista, está divulgando em seu site na internet acordo que teria sido fechado entre Colômbia e Equador no Conselho Permanente da OEA, reunido para analisar a crise entre os países. Segundo o jornal, o acordo já estaria fechado e sua aprovação seria certa, ainda que não tenha sido votada pelo Conselho.
 
Traduzi a notícia e a reproduzo abaixo. E vos consulto sobre se acham que essa seria - ou que será, segundo o "El Tiempo" - uma solução justa.
 
"ELtiempo.com / política – 05/03/2008

Colômbia aceitará acusação de violação da soberania do Equador  e não receberá sanção da OEA.

Bogotá - Esta é a síntese do acordo a que chegaram os dois países no Conselho Permanente da OEA, ao meio dia de hoje em Washington. A reunião de chanceleres foi convocada para 17 de março próximo.

O que mais chama atenção na resolução da OEA é que não condena a Colômbia como pretendia originalmente o Governo do Equador.
Em troca disso, a Colômbia terá que reiterar suas desculpas e aceitar a convocação de uma comissão que irá a ambos os países analisar o que aconteceu. Porém, não se trata de uma comissão de verificação nem de investigação, mas de análise, que inspecionará os lugares que ambos os países indiquem para buscar informações.

Um dos propósitos da Colômbia é mostrar, a partir do lado norte da fronteira, a presença das Farc em território do Equador. A comissão da OEA será encabeçada pelo secretário-geral do organismo, José Miguel Inzulza, e os embaixadores de Panamá e Brasil. Os outros dois representantes serão escolhidos durante a sessão do Conselho da OEA.

As conclusões e recomendações dessa comissão que ajudará a solucionar a crise serão apresentadas ao plenário de Ministros da OEA, convocado para 17 de março.

A resolução que pede tal solução ainda não foi votada, porém se dá como certo que será aprovada. De uma vez que seja aprovada, iniciar-se-á  um novo debate na mesma sessão do Conselho Permanente da OEA, para debater o apoio que alguns estados dão ao terrorismo na Colômbia.

O acordo foi conseguido depois de intensas negociações na OEA, que começaram ontem à tarde e se estenderam até altas horas da madrugada, e, depois de um recesso, foram retomadas esta manhã."


 Escrito por Eduardo Guimarães às 14h48
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União sul-americana já
 
 Atualizado às 08:14 hs. de 5 de março de 2008
 

Locução da apresentadora do Jornal da Globo Christiane Pelajo na última segunda-feira, durante a apresentação das imagens do dia, comentava que a Colômbia invadiu território equatoriano, mas, em seguida, engatou uma pergunta: o que o telespectador faria se um ladrão invadisse sua casa e corresse para o quintal do vizinho?

Foi dessa forma que a apresentadora e seu companheiro Willian Waack começaram a dar as últimas notícias do dia sobre a crise protagonizada pelos presidentes da Colômbia, Alvaro Uribe, do Equador, Rafael Correa, e da Venezuela, Hugo Chávez.

A cobertura do telejornal foi toda marcada pela aceitação tácita das acusações do presidente Uribe de que Correa e Chávez seriam aliados das Farc.

O interessante nessa forma de fazer jornalismo é que ela dispensa fundamentos para tomadas de posição por quem a pratica. Pode-se influir na opinião do consumidor desse tipo jornalismo sem se preocupar em ter certeza se o que se está fazendo é informar ou desinformar.

Em seguida, aparece Arnaldo Jabor, com seus cabelos de cientista maluco, gesticulando, ocupado com suas facécias, obviamente dando conotação ideológica à notícia:

"O problema todo é a herança sagrada de Lenin. O Mao Tsé-Tung matou milhões, Stalin mais ainda, mas ainda há uma pretensa "santidade" nos socialistas.(...) Querem que o Paquistão seja aqui. Marx, quem diria, acabou como bandeira do tráfico de cocaína."
 
Para o telespectador alheio ao fato de que os meios de comunicação brasileiros deformam as notícias de acordo com suas convicções, não resta dúvida: a Colômbia invadiu o Equador e reagiu como o cidadão que é assaltado dentro de casa e persegue o criminoso até o quintal do vizinho, com o agravante de que o vizinho é cúmplice do assaltante. Vejam só. E, como se não bastasse, ainda fica sabendo que Hugo Chávez e Rafael Correa são traficantes de drogas.
 
O Jornal Nacional, no dia seguinte, faz extensa reportagem em que as acusações da Colômbia a Hugo Chávez e a Rafael Correa predominam, mas, de forma geral, apresenta todas as versões sobre o conflito. No entanto, esconde, deliberadamente, o isolamento da Colômbia na América do Sul, onde Brasil, Argentina, Bolívia, Chile e outros condenaram a invasão colombiana. Em vez disso, o telejornal opta por dar grande destaque ao apoio dos EUA àquela invasão.
 
A ação colombiana é daqueles crimes que não há como suavizar. É o crime do ladrão ou do estuprador que deixam suas marcas indeléveis no local do crime ou no corpo da vítima.
 
O próprio conceito de nação fundamenta-se na premissa de inviolabilidade territorial. A diplomacia, os tratados internacionais, os organismos multilaterais, tudo que se refere ao conceito de Estados Nacionais está baseado na soberania dos povos sobre seus territórios.
 
A mídia brasileira, embriagada pela ideologia, trata de relativizar o que é pétreo, imutável entre a comunidade das nações. Difunde, assim, a ignorância, a burrice, gerando mentalidades como a daquele leitor que disse, em comentário aqui neste blog, que "não vê nada demais" num país invadir outro e cometer assassinato em massa.
 
Como o lado agressor afirma isto ou aquilo sobre o lado agredido para se justificar, o jornalismo brasileiro diz que bastam essas acusações para justificar a agressão, sem investigação, sem fatos, só com base em suposições, testando hipóteses.
 
Os EUA, acostumados a ignorar tratados e convenções internacionais e, ao arrepio até da ONU, invadirem nações, massacrarem inocentes e roubarem suas riquezas, apóiam a Colômbia contra praticamente toda América do Sul, que já condenou a Colômbia.
 
Está se agravando a guerrilha ideológica armada pelos Estados Unidos na América Latina. E como se sabe que a potência hegemônica não titubeia ante o que for necessário para impor seus interesses, Brasil, Argentina, Bolívia, Chile, Equador, Venezuela, Peru, Uruguai, Paraguai, todos precisam se unir e condenar publicamente a Colômbia e os EUA num documento único. Do contrário, a invasão do Equador terá sido só o começo.
 
 
*
 
 
E a Globo continua enganando descaradamente seu público, assim como a Folha, o Estadão etc. No Bom dia Brasil desta quarta-feira, Alexandre Garcia volta a misturar fatos com suposições e mentiras para justificar o ato de guerra da Colômbia contra o Equador.
 
Segundo o comentarista global, invadir a fronteira do Equador não pode, mas dar abrigo aos guerrilheiros das Farc, também não pode, então a invasão do Equador pela Colombia seria esse um jogo de soma zero, ou seja, a Colômbia estaria desculpada por invadir território equatoriano porque o Equador teria dado abrigo à guerrilha colombiana.
 
Quando você, leitor, ouvir ou ler essa desculpa da mídia vassala, não de Alvaro Uribe, mas de George Bush, que é quem puxa os cordéis de seu fantoche sul-americano, saiba que não existe prova alguma de que os guerrilheiros das Farc estavam em território equatoriano sob permissão do governo. Inventaram isso e difundem como se já fosse fato comprovado.
 
Aliás, a direita brasileira também acusa Lula de ser aliado das Farc. Para a direita, é sempre muito fácil violar direitos humanos ou apoiar atos de guerra como o da Colômbia: fabrica razões para "justificar" seus crimes. Transforma boatos e suposições em fatos e manda bala - às vezes, literalmente.
 
 
*
 
 
Rafael Correa deu um show na entrevista improvisada à tevê brasileira. Fez uma pergunta que ninguém responderá: Se a Colômbia, mesmo com os 3 bilhões de dólares por ano e com toda tecnologia dos EUA, até com ajuda de satélites, não consegue impedir que as Farc controlem 70 mil quilometros de seu território, por que o Equador tem que conseguir que nenhum guerrilheiro viole suas fronteiras?
 
 
*
 
 
Leitores perguntam minha opinião sobre as Farc.
 
Os presidentes Lula, Chávez ou Correa negam apoio às Farc. Na Colômbia, onde estive em outubro do ano passado, filiados e militantes do Polo Democrático, que é o PT colombiano, um partido de esquerda, são unânimes em rejeitar qualquer ligação com a guerrilha. O apoio interno às Farc na Colômbia despencou, tanto entre os políticos de esquerda quanto entre a própria população.
 
Durante a semana que passei em Bogotá em outubro último pude constatar quanto as Farc perderam apoio, de uma forma que explica por que os presidentes acusados de aliança com elas rejeitam tal aliança.
 
É voz corrente entre a população colombiana que as Farc deixaram de ser um grupo pautado pela ideologia e abraçaram o tráfico de drogas como negócio. Não encontrei ninguém que as apóie nessa viagem que fiz à Colômbia. E procurei. Conheci pessoas do partido que mais se opõe a Uribe - e que tem cada vez mais chances de substituí-lo no poder - e todas rejeitaram peremptoriamente as Farc.
 
Não ficarei aqui fazendo campanha contra a guerrilha colombiana, até porque já temos toda a mídia brasileira fazendo isso, mas não posso concordar com os métodos e meios das Farc. Sou um humanista.
 
Não sei se resta ideologia às Farc, mas quando o ônibus em que eu viajava, no fim do ano passado, numa viagem entre Bogotá e Bucaramanga, foi abordado pela guerrilha, que vasculhou o coletivo em busca sei lá do que - e me disseram que era de estrangeiros como eu, para seqüestrar -, tive certeza de que as Farc não estão ajudando em nada a causa progressista. Pelo contrário, dão argumentos aos reacionários.
 


 Escrito por Eduardo Guimarães às 20h06
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Xadrez sul-americano
 
 
 
Apesar de subentendido por todos, não custa nos debruçarmos um pouco mais sobre o jogo estratégico que está sendo travado neste momento na América do Sul, pois alguns aspectos do que está na mesa precisam sobressair-se dentre outros.
 
Colocando os pingos nos is:
 
1 - Um país invadiu outro com armas e matou quase duas dezenas de pessoas, violando todos os tratados da região sobre respeito a fronteiras e sobre não-agressão entre os países vizinhos. E pouco importa se eram guerrilheiros ou monges tibetanos, porque estavam fora do alcance das leis do país agressor.
 
2 - O tópico número um está sendo suprimido do noticiário, em benefício de reações fortes de Chávez e de Correa, que passam a ser os agressores na mídia, quando o agredido é o Equador, pois teve sua integridade territorial violada criminosamente.
 
3 - O uso de recursos estratégicos e bélicos americanos pela Colômbia e a própria presença de americanos na região do conflito não deixam dúvida de que os EUA, depois de décadas, voltaram a interferir com violência na América do Sul.
 
4 - Ninguém duvida de que o ataque colombiano ao Equador constitui o primeiro de novos passos belicistas que têm, à esta altura, possibilidade altíssima e inaceitável de ser dados.
 
5 - Pôr em guerra uma América do Sul em que há um franco opositor dos EUA como Chávez traria para os americanos outra cruzada patriótica que cairia como uma luva para o grupo político que ocupa o poder na potência hegemônica, com suas chances eleitorais cadentes.
 
6 - Uma situação excepcional na América do Sul cairia como uma luva para os grupos político-midiáticos brasileiro, venezuelano, boliviano, argentino etc. Pode ser esse o cavalo encilhado que passaria para levar embora governos de esquerda indesejáveis para Washington e para a elite latino-americana, em pé-de-guerra contra esses governos há anos.
 
7 - Refrear a Colômbia pode ser a única chance dos governos de esquerda dos países vizinhos dela, se é que chegarem ao final está em seus planos.
 
8 - O Brasil é o único país da região que, por sua importância em todos os aspectos, pode liderar um processo de enquadramento do belicismo ianque-colombiano.
 
9 - Hugo Chávez precisa ser contido pelos amigos para não fazer o jogo dos inimigos.
 
10 - O mesmo vale para Rafael Correa
 
Essas são as pedras do jogo. Jogá-lo com inteligência e seriedade é o que cabe aos jogadores do lado de cá, porque os jogadores do lado de lá não estão brincando.


 Escrito por Eduardo Guimarães às 22h34
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Ministro francês diz
que morte de Reyes
não é boa notícia
 
 
 
 


Segundo disse hoje o ministro das relações exteriores da França, Bernard Kouchner, a morte de Raúl Reyes, nº 2 das Farc, decorrente de ação das forças armadas colombianas em território equatoriano, não é uma "boa notícia".

Para Kouchner, é preciso redobrar os esforços pela libertação dos reféns das Farc.

"Não é uma boa noticia" que Reyes, "o homem com quem negociávamos e tínhamos contato, tenha sido assassinado", afirmou o chefe da  diplomacia francesa na emissora "France Inter".

Hoje, Kouchner disse que "o problema, agora, é tirar todos os reféns, sobretudo Ingrid Betancourt. O que necessitamos já é um acordo humanitário como um gesto das Farc, porque temos uma emergência médica e humanitária".


 Escrito por Eduardo Guimarães às 10h15
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Nada de guerra
 
 
A tensão nas fronteiras de Colômbia, Equador e Venezuela produz um quadro extremamente delicado numa região que sofre mais intensos os efeitos da guerra ideológica que se espalhou por toda América Latina, ganhando contornos dramáticos nos países em que a esquerda chegou ao poder.
 
A ingerência norte-americana na Colômbia, sob a desculpa da guerrilha esquerdista Farcs, representa um componente explosivo no desentendimento entre Colômbia e Equador. Automaticamente está arrastando Hugo Chávez para o conflito, que não precisava do igualmente explosivo Rafael Correa, seu aliado e meio que discípulo, para deixar claro que pode, sim, haver choques armados entre dois países sul-americanos pela primeira vez em décadas.
 
Evidentemente que a Colômbia saberia bem o que estaria fazendo se tivesse realmente invadido o território equatoriano para matar o número dois da guerrilha interna. Tal ousadia remete à possibilidade de algum endosso de Washington àquela ação. Essa é, pois, a receita para uma ocorrência absolutamente inaceitável e ameaçadora no continente.
 
Por mais que o Equador tenha razões de sobra para reagir à investida do país vizinho, e por mais que a agressão desse vizinho constitua ameaça ao estado venezuelano devido às divergências recentes entre estes, a retórica de Hugo Chávez falando em guerra não ajuda a que se evite uma situação altamente danosa a uma região que desfruta de um momento de grande prosperidade.
 
Este é o momento de o Brasil assumir a liderança da intermediação desse conflito, seguindo a melhor tradição da diplomacia brasileira, sobretudo a recente, que já obteve êxitos importantes na mediação de conflitos e que não pode permitir que a situação degringole como, inclusive, acredito que desejam interesses estrangeiros extra América do Sul.


 Escrito por Eduardo Guimarães às 22h27
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Denúncia ao MP
 

Nos últimos dias de dezembro do ano passado e na primeira semana deste ano, meios de comunicação de massa passaram a veicular notícias alarmistas sobre uma pseudo epidemia de febre amarela urbana, sobre uma modalidade de disseminação da doença que não ocorria no país havia mais de 60 anos. Essas notícias induziram milhões de brasileiros a acorrerem desesperados a postos de saúde e de vacinação para tomarem a vacina contra a moléstia, uma vacina da qual o Brasil é o maior produtor mundial.

Durante o período supra mencionado, jornais, tevês, portais de internet da grande mídia, colunistas, repórteres, editorialistas, apresentadores de programas de rádio e tevê produziram material (sobretudo manchetes espalhafatosas) que induziu o país ao pânico. Por conta disso, os estoques de vacina do governo federal praticamente se esgotaram. Exportações da vacina foram paralisadas; postos de saúde e de vacinação foram invadidos por multidões apavoradas com a epidemia imaginária criada pela mídia; outros países começaram a exigir vacinação contra febre amarela para seus cidadãos que pretendessem viajar ao Brasil.

A partir da segunda semana de janeiro, depois de pronunciamento em rádio e tevê do ministro da Saúde, José Gomes Temporão, pedindo calma à população e assegurando que não havia epidemia de febre amarela, infectologistas e médicos começaram a reagir ao alarde da mídia; começaram a dar declarações como a do doutor  Celso Francisco Granato, chefe do laboratório de virologia da UNIFESP, que rejeitou assim comentário da colunista Eliane Cantanhêde, da Folha de São Paulo, em que ela exortava as pessoas a se vacinarem contra a febre amarela fossem de onde fossem e antes que fosse tarde: "Deus me livre!".

Cantanhêde escreveu o seguinte:

"Vacine-se contra a febre amarela! Não deixe para amanhã, depois, semana que vem... Vacine-se logo! Senão, Lula, o aedes aegypti vem, pica e mata sabe-se lá quantos neste ano --e nos seguintes."

A reação, ao menos na mídia, começou com manifestações do dr. Granato aos meios de comunicação, dizendo que havia "chance menor do que zero" de ocorrer uma epidemia de febre amarela em áreas urbanas.
Nesse processo, o jornalista Luiz Carlos Azenha saiu na frente da mídia corporativa e publicou podcast de entrevista com o dr. Granato na qual lhe foram apresentadas questões inéditas e lhe foi dado um espaço que até então não havia existido. Azenha, muito habilmente, leu o texto de Cantanhêde para Granato, perguntando se deveria publicá-lo, ao que o infectologista respondeu o seu já famoso "Deus me livre!".
 
A reação da classe médica começou porque pessoas começaram a adoecer sob suspeita de reações adversas à vacina contra a febre amarela. E duas pessoas morreram sob as mesmas suspeitas. Daí em diante, a mídia começou a ser mais cautelosa ao difundir sua contagem macabra de casos e mortes suspeitos de terem ocorrido por febre amarela. Além disso, as ressalvas de que só deveria tomar vacina quem fosse viajar a áreas de risco começaram a ser feitas, mas o alarmismo da contagem das mortes por febre amarela continuou sobrepujando as informações sobre quem deveria se vacinar ou não.
 
Quando a classe médica já gritava a plenos pulmões que não havia epidemia nenhuma e os casos de superdosagem da vacina e de vacinação imotivada já superavam numericamente os de febre amarela, a mídia parou de difundir pânico, mas já era tarde demais: dezenas de pessoas adoeceram e ao menos duas morreram por conta de reação adversa à vacina.
 
Como se pode notar no trecho de texto da jornalista Eliane Cantanhêde, há um aparente objetivo político no alarmismo da mídia, que pretenderia desgastar o governo insuflando as pessoas a se vacinarem aleatoriamente e, com isso, esgotarem estoques de vacina. A decorrente falta do medicamento e as mortes e adoecimentos por suspeita de febre amarela seriam debitados pela mídia a insuficiência de ações governamentais no combate à doença. Lula teria trazido de volta uma doença erradicada dos centros urbanos havia mais de 60 anos.
 
Mortes, adoecimentos, prejuízos financeiros, traumas de todo tipo ocorreram porque alguns meios de comunicação, com finalidade aparentemente política, desencadearam pânico entre a população e esse é um crime previsto no Código Penal, o crime de promoção de alarma social.
 
Como sabem os leitores mais antigos, no fim do ano passado este blog deu origem à criação de uma Organização Não Governamental, o Movimento dos Sem-Mídia (MSM), que é presidida por mim. Uma das razões da criação desse Movimento é a de combater abusos da mídia como esse acima relatado. De maneira que nós, sem-mídia, não poderíamos ficar inertes diante de um atentado contra a ordem e contra a saúde pública como esse que acabo de relatar.
 
Vários jornalistas, blogueiros independentes, leitores de blogs, de sites da mídia dita alternativa (confinada à internet) clamaram por uma tomada de ação pelo Ministério Público por conta de um alarmismo da mídia corporativa que tantos prejuízos causou ao país, mas, até o momento, o MP nem ao menos tocou no assunto. Caminha-se, assim, para o esquecimento do crime de lesa-pátria que pessoas como eu acreditam que foi cometido, a menos que alguém tome alguma atitude.
 
A ONG que propus aqui neste blog que fosse criada - e que, no ano passado, realizou manifestações diante das sedes da Folha de São Paulo e da sucursal paulista das Organizações Globo - anunciou, aqui neste espaço, há algumas semanas, que havia enviado ao seu setor jurídico um estudo sobre a possibilidade de se fazer uma denúncia ao Ministério Público para que investigue se o noticiário dos grandes meios de comunicação, tal como foi descrito acima, provocou pânico, esgotamento de vacinas para quem precisava, tumulto no serviço público de saúde, adoecimento e morte de pessoas.
 
Antes de viajar à África, pedi a diretores do MSM e a colaboradores independentes que começassem a preparar documentos probatórios da tese de que houve alarmismo criminoso dos grandes meios de comunicação. Esses estudos avançaram durante minha viagem e já temos material para começar a preparar a denúncia. Para tanto, haverá uma reunião minha com essas pessoas na sede da ONG no próximo sábado, 8 de março, para detalharmos o documento que será apresentado aos Ministérios Públicos estadual e federal.
 
Diante do fato que acabo de expor, convoco a diretoria do Movimento dos Sem-Mídia a comparecer à sede da ONG no próximo sábado, dia 8 de março de 2008, às 11 horas, a fim de tratarmos dos detalhes da denúncia que apresentaremos ao Ministério Público para tentarmos evitar que ocorra novamente o atentado ao país e aos cidadãos que foi cometido pela grande mídia por razões que podem ter sido - e que nos parece que efetivamente foram - eminentemente políticas.


 Escrito por Eduardo Guimarães às 10h34
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