Mídia precisa de lei
 
 
De hoje até a próxima segunda-feira, quero discutir com vocês um assunto específico, o conceito de liberdade imprensa. Antes, porém, quero dizer que acusar alguém da minha geração de pregar "censura", se esse alguém não for um dos tarados que declaram admiração pelo regime criminoso que se abateu sobre o Brasil há mais de quarenta anos, é uma blasfêmia.
 
Chego a lamentar, às vezes, que os jovens da geração que se prepara para governar o país não tenham vivido o que vivi na mocidade, quando alguém que nutria simpatia por idéias de esquerda tinha que se calar, sob pena de desaparecer da face da Terra de uma hora para outra. Essa moçada valorizaria mais os ideais e a liberdade de expressão.
 
Dito isso que vocês leram acima, quero declarar que não acho que o uso que os grandes meios de comunicação fazem da sagrada liberdade de expressão seja mero exercício dessa liberdade. Pretendo provar que estão usando de forma desonesta esse conceito tão vital para a democracia.
 
Nas últimas décadas, com o Brasil tendo mergulhado definitivamente nas liberdades democráticas, de forma a garantir a inviolabilidade plena do direito à opinião, e tudo isso acontecendo em plena era da informação, os olhos de setores cada vez mais amplos da sociedade foram se voltando para aqueles que controlam o poder de informar as massas.
 
A partir do terceiro ano do governo Lula, porém, foi que se começou a constatar como as novas tecnologias tinham afetado os grandes empresários da comunicação. Essas tecnologias colocaram em  xeque o poder que eles sempre tiveram, um poder que ajudara a mergulhar o Brasil numa ditadura de mais de vinte anos.
 
Não é segredo para ninguém a forma como algumas famílias abastadas conseguiram se sobrepor ao Estado durante décadas incontáveis, valendo-se do poder discricionário que a propriedade de grandes jornais, revistas, tevês e rádios lhes conferia.
 
Porém, a tecnologia, notadamente a internet, e a possibilidade que gerava de cada vez mais pessoas poderem acessá-la, foi mostrando àqueles que não aceitavam o poder da mídia que surgira uma forma de qualquer pessoa que tivesse o que dizer difundir suas idéias em larga escala.
 
A internet foi a grande vilã para aquelas famílias que sempre dominaram o Brasil por terem como gritar mais alto, graças aos verdadeiros amplificadores de suas vozes em que se constituíram os jornais, tevês e congêneres de sua propriedade. Seus jornais foram decaindo em credibilidade e tiragem, suas tevês começaram a chegar atrasadas em relação à internet. Mas o pior para as famílias donas da mídia são as críticas que sempre sofreram, e que, agora, têm como ser divulgadas.
 
Foi só de uns três anos para cá, no entanto, que a internet começou a mostrar mais seu potencial democrático. Cidadãos comuns e membros rebelados do Status Quo midiático decidiram usá-la para questionar as contradições daquelas poucas empresas familiares que controlavam - e que ainda controlam - a difusão da informação no país. Nesse processo, terminaram por descobrir um poder muito maior do que jamais se suspeitou.
 
Blogs e sites, correntes de e-mail, tudo isso tem sido muito importante para denunciar para setores cada vez maiores da sociedade que os donos dos grandes meios de comunicação, à diferença da imagem de "santos" que difundem, têm seu lado "diabólico".
 
Contudo, ao mensurarmos o potencial de causar danos ao país que o poder de informar tem, descobrimos que esse potencial continua extremamente grande, inconvenientemente grande e tragicamente efetivo, apesar da internet.
 
Que ninguém duvide de que o Brasil poderia estar crescendo muito mais, de que suas desigualdades e chagas sociais poderiam estar diminuindo de forma bem mais acentuada se esse poder de informar não tivesse decidido que o governo que a maioria do país escolheu não poderia dar certo.
 
No desespero para se manterem agarradas ao poder decadente que têm, as famílias midiáticas passaram a cometer verdadeiros crimes de lesa-pátria. Ao manterem o Congresso paralisado, perdido em CPIs e escândalos de cunho político-eleitoral, atrasaram projetos de interesse de uma nação gigantesca que já começa a abandonar a prostração econômica em que permaneceu durante tanto tempo.
 
Contudo, a partir deste ano, a mídia, cada vez mais desesperada, começou a apelar para qualquer estratégia que achasse que poderia ajudá-la a manter seu eterno poder de escolher governantes e de, na seqüência, fazer com que fossem eleitos. Nesse afã, porém, chegou ao ponto de matar ou causar danos à saúde das pessoas.
 
No começo deste ano, os gigantescos veículos de comunicação dessas famílias criaram uma epidemia fictícia de febre amarela que fez milhões e milhões de pessoas agirem como loucas, permanecendo horas a fio em filas quilométricas para tomar vacina contra a moléstia sem qualquer necessidade. Dessa vacinação decorreram mortes e adoecimentos.
 
Apesar de estarem perdendo poder e sendo contestadas, as famílias midiáticas continuam tendo poder para criar catarses coletivas, paralisar o Poder Legislativo e pautar o Poder Judiciário. Riem um riso nervoso diante das leis e dos direitos daqueles que a elas se opõem.
 
Chegamos a um ponto em que é preciso dizer, com todas as letras, que não adianta você ter poder para criticar um assassino publicamente se não existirem leis para puni-lo - ou existindo, se não forem usadas.
 
Criando, mudando ou aplicando as leis, precisamos delas para que as famílias que controlam a informação no Brasil façam um uso responsável e sério desse poder. São poucos, no entanto, os cidadãos que podem criar leis para regular a atividade dos grandes conglomerados midiáticos. Contudo, qualquer cidadão pode pedir que as leis que já existem sejam aplicadas.
 
É inconcebível permitir que perdure uma situação na qual um pequeno grupo de famílias se coloca acima das leis, pretendendo desfrutar de absoluta imunidade contra qualquer questionamento de atos que já pertencem à esfera criminal.
 
A mídia precisa de leis novas? Talvez. Mas também precisa se submeter às leis que já existem. E qualquer um de nós pode exigir a submissão da mídia ao império da lei.


 Escrito por Eduardo Guimarães às 00h15
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Inércia tem preço
 
 
Era um gato gordo, lento, mas diabolicamente furtivo o que atemorizava a comunidade dos ratos. Era gordo porque devorava muitos deles. Surgia do nada, abocanhava-os e os levava para um canto, onde se dedicava a degustá-los.
 
O terror, o terror... Famílias inteiras de roedores tinham sido dizimadas pelo felino insaciável e furtivo. Se não conseguissem pensar numa forma de neutralizá-lo, os ratos teriam que ir embora, porque, naquele ritmo, acabariam extintos.
 
Uma assembléia foi convocada para discutir se haveria como lutar ou se seria melhor desistir e irem embora dali.
 
Das discussões do conclave dos ratos nasceu a luz. O gato gordo só conseguia pegá-los porque nunca sabiam de onde atacaria. Era preciso engendrar algum tipo de alarme que os avisasse quando o felino se aproximasse.
 
Os ratos pensaram em todo tipo de solução.
 
Alguém sugeriu que um fio muito fino, difícil de ser visto, fosse estendido em volta da área por onde teriam que circular. O fio seria amarrado a uma sineta, que seria acionada quando a fera o tensionasse, avisando-os de sua aproximação.
 
Outro sugeriu que um deles sempre montasse guarda para avisar o grupo sobre a aproximação do gato. Montariam guarda, em sistema de rodízio, 24 horas por dia.
 
E um terceiro criticou as duas idéias anteriores, mas propôs a sua.
 
Lembrou que o fio não funcionaria, porque, como se sabe, os gatos enxergam muito bem. Além disso, mesmo na remota hipótese de que o gato não visse os fios, depois da primeira vez em que fossem usados ele aprenderia a evitá-los.
 
Quanto à sentinela, o sistema era risível, pois o poder do gato estava justamente em surpreender suas vítimas. Por que a sentinela seria exceção?
 
A terceira proposta era a de colocarem uma sineta no próprio gato, assim sempre saberiam onde ele estava. Aliás, uma sineta, não, um guizo, aquela esfera oca de latão com bolinhas de ferro dentro que ficaria percutindo ininterruptamente.
 
Contudo, como é comum a assembléias, a qualquer assembléia, logo surgiu alguém para discordar:
 
"Mas por que vamos nos expor, nos arriscar a tomar uma atitude tão frontal, se podemos agir à distância? Podemos fazer uma rede maior de sentinelas ou de fios, mas pôr o guizo no gato é muito arriscado. A menos que o proponente da idéia queira fazê-lo..."
 
A assembléia dos ratos chegou à solução para o dilema que a fez reunir-se, mas, como ninguém se dispôs implementá-la, os ratos resolveram deixar sua toca de vez. Porém, jamais encontraram um lugar no qual não houvesse um gato que gostasse de saborear ratos.


 Escrito por Eduardo Guimarães às 23h41
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O Globo 'surtou'
 
 
 
Matéria de primeira página do jornal o Globo de hoje tenta manter viva a decrépita cantilena sobre baixa taxa de crescimento brasileiro mesmo diante do anúncio da maior taxa de crescimento do Produto Interno Bruto do país em cerca de duas décadas.  
 
Essa é uma daquelas notícias produzidas exclusivamente para quem não entende nada, nem ao menos o mínimo, de economia. Mistura alhos com bugalhos, ao opor um aumento extremamente alto - para os padrões brasileiros - da economia a uma alta da arrecadação tributária que fica no patamar do irrisório.
 
Segundo O Globo, o "PIB avança 5,4% mas carga tributária cresce mais ainda". A matéria relata que "estudo do Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário mostra que cada brasileiro pagou, em média, R$ 4.943 em impostos, tributos e contribuições para as três esferas de governo", quando, no ano anterior, "o valor era de R$ 4.379, o que produziu um aumento real (descontada a inflação) de 7,2%.
 
A matéria ainda trata do crescimento do PIB em 2007 de forma negativa. Segundo o jornal, "ainda" somos a 10ª economia do mundo, e somos o "lanterninha" entre os Brics, grupo dos maiores países "emergentes" - quais sejam, Brasil, Rússia, Índia e China - que tiveram, todos, taxas de crescimento maiores do que a nossa. Para arrematar, o jornal lembra que crescemos menos do que Venezuela ou Argentina.
 
Fica complicada a situação do leitor totalmente leigo em economia. Apesar de estar percebendo que há mais empregos e negócios no país, que há mais atividade econômica, a pessoa "descobre" que poderia haver muito mais negócios. A mídia vende uma hipótese, de que o mundo vive uma era de ouro e o Brasil não está "aproveitando".
 
Além disso, a reportagem tenta vender a teoria - apesar de que reportagens não deveriam vender nada; deveriam apenas informar - de que a "carga tributária aumentou". Não aumentou nada. O jornal confunde carga tributária com arrecadação. E não se refere só à arrecadação federal, mas a das três esferas de governo (federal, estadual e municipal). Carga tributária é alíquota, percentual, não arrecadação percapita.
 
Subiu a arrecadação? Por que foi? Simples: maior fiscalização contra sonegação e maior atividade econômica. Por isso o 1,8 ponto percentual que cresceu a arrecadação a mais do que o aumento do PIB.
 
Sobre o crescimento dos Brics, e de países com realidade mais próxima da nossa, tais como Argentina e Venezuela, e sobre o nosso crescimento não ser o que poderia, tudo isso é uma enorme balela.
 
Primeiro que o Brasil está crescendo com inflação controlada, à diferença da maioria dos países mencionados. Aliás, nos países latino-americanos mencionados pelo Globo, a inflação já ameaça explodir e é justamente por conta do crescimento vistoso. Mas países como uma Venezuela, montada em petróleo, com o barril deste a mais de cem dólares, até podem crescer a essas taxas, porque importam tudo.
 
O Brasil não têm uma indústria capacitada a prover uma demanda que aumente mais do que está aumentando. Não dá para o País crescer mais porque geraria risco de desabastecimento e teria-se que recorrer a importações, que poderiam diminuir drasticamente o superávit das contas externas.
 
Vou lhes contar uma coisa: quando vejo esses jornais pedindo maior crescimento do que o atual e redução "corajosa" dos juros, chego a pensar que essa gente quer ver o circo pegar fogo...
 
Comentava esse assunto agora há pouco, por telefone, com uma das jornalistas mais premiadas do Brasil na área de Saúde - e que não gosta de "aparecer". Ela me dizia, literalmente, que o jornalismo brasileiro "acabou". Eu prefiro pensar que está renascendo, com a morte lenta do jornalismo apodrecido e mercenário e a ascensão de profissionais menos incensados e, portanto, menos arrogantes, mais humanos, que se disponham a fazer jornalismo em vez de política.
 
De qualquer maneira, às vezes tenho a impressão de que a mídia está indo ao desespero com o sucesso do governo federal e de que isso acaba lhe provocando surtos como esse que acometeu O Globo hoje.


 Escrito por Eduardo Guimarães às 13h01
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Globo: 'Não somos racistas'
 
 
 
 
 
 
A dramaturgia da Globo é como o Carnaval: provoca paixões e ódios com a mesma intensidade exacerbada. Mas as novelas e "minisséries" da emissora carioca, há que reconhecer, apaixonam pessoas de todas as partes do Brasil e do mundo. Essa receita de sucesso é baseada numa fórmula que transforma modelos em "atores" graças a uma edição e a um ritmo das cenas que minimizam a falta de intimidade da maioria amadora dos elencos globais com os palcos. Tudo isso, regado a orçamentos hollywoodianos, faz da dramaturgia global um dos produtos mais exportados pelo Brasil.
 
Durante décadas a fio, essa dramaturgia de êxito - e de mentira - moldou a mentalidade nacional. A Globo está acostumada a vender todo tipo de comportamento - modismos, conceitos e até pré-conceitos - com seus folhetins encenados.
 
Mesmo sabendo disso tudo, fiquei surpreso, na noite da última terça-feira (11/03), ao ver uma personagem da novela Duas Caras, a mulata e ex-BBB Juliana Alves (Gislaine), lendo um livro que denuncia a estratégia da emissora naquela trama. A moça estava lendo "Não Somos Racistas", de Ali Kamel.
 
Antes de você, leitor, criticar o fato de eu assistir a nada mais, nada menos do que a uma das estúpidas novelas que a tevê brasileira impõe a um público sequioso por lixo televisivo, e de dar seu depoimento de que jamais assistiria a tal porcaria, quero lembrá-lo de que ignorar uma arma de difusão de comportamentos e de mentalidades obtusas como é uma novela das oito da Globo não mudará o fato de que essa arma vem sendo muito efetiva no sentido de falsear a realidade nacional e imbecilizar as pessoas.
 
Enquanto se torce o nariz à mera possibilidade de levar a sério qualquer coisa que saia do Projac, a Globo vai fazendo a festa. Essa novela, por exemplo, a tal "Duas Caras", vem fazendo um dos trabalhinhos mais sujos que já vi na vida. Às vezes fico me perguntando o que sente um favelado que vê uma novela na qual brancos ricos são habitués de favela chamada "Portelinha", a qual, à diferença de qualquer gueto como são as favelas, não abriga tráfico de drogas e adota padrões de organização comunitária quase nórdicos, com ruas limpas, casas bem cuidadas etc.
 
 
 
Favela cenográfica "Portelinha"
 
 
No Brasil fictício da Globo, brancos ricos estão doidos para se casar com favelados negros. Em Duas Caras, Barretinho (Dudu Azevedo) e Júlia (Débora Falabella), filhos do riquíssimo e ultra-racista advogado Barreto (Stênio Garcia), derretem-se, respectivamente,  por Sabrina (Cris Vianna) e Evilásio Caó (Lázaro Ramos), e Claudius (Caco Ciocler) por Solange (Sheron Menezes).
 
 
 
Barretinho e Sabrina
 
 
 
Evilásio Caó e Júlia
 
 
 
Claudius e Solange
 
 
No mentiroso folhetim da Globo, favelas têm mais brancos do que negros, e alguns negros são riquíssimos. Favelados pobres chegam a estudar nas mesmas universidades que brancos ricos. A mesma instituição abriga as negras da portelinha Gislaine e Solange, a perua Maria Eva (Letícia Spiller) e o negro mau-caráter Rudolf Stenzel (Diogo Almeida), que fala a favor de cotas para negros e sobre discriminação racial e, naturalmente, é cabalmente desmentido pela realidade dramatológica global.
 
 
 
Maria Eva
 
 
 
Rudolf Stenzel
 
 
A imagem - e a propaganda descarada - do livro de Ali Kamel tem um propósito. Negros e brancos de Duas Caras interagem de acordo com cada vírgula contida na odiosa obra do manda-chuva do jornalismo da Globo.  Na verdade, a sensação que tive foi a de uma pretendida afronta a quem se revolta com o cinismo de "Não Somos Racistas". É como se a Globo dissesse: podem falar mal, mas nós temos a televisão que entra em 90% dos lares brasileiros a referendar nossa teoria sobre como amamos nossos irmãos negros.
 
Eles (a elite branca e sua mídia) dizem que não são racistas. E, como prova, disseminam pelo mundo um país em que não se vê miséria, em que não se vê os indicadores sociais dramáticos dos negros ante os indicadores muito melhores dos brancos, ou os salários inferiores dos negros ante os dos brancos, ou a maior mortalidade infantil dos negros ante a muito menor dos brancos. Eles são racistas, sim, porque tentam frear a luta por oportunidades iguais para os negros no mercado de trabalho e nas universidades afirmando descaradamente que essas oportunidades existem. Além de racistas, são mentirosos.


 Escrito por Eduardo Guimarães às 11h06
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Cidadania é exercê-la
 
 
Reafirmar princípios nunca será demais em tempo algum, mas por razões que logo ficarão claras aos que me honram com sua leitura devo reafirmar o que me motiva a tomar atitudes, a pôr o guiso no gato mesmo quando a prudência e a luta pela sobrevivência recomendam o contrário.
 
Há quem goste de dizer que certas atitudes contundentes tomadas sob o argumento de que visam o interesse público não passam de demagogia. Nunca se deve descartar hipóteses sobre temas controversos, mas é preciso que a hipótese encerre um mínimo de verossimilidade e de coerência para que seja levada a sério.
 
Quando se afirma que alguém toma determinada atitude por razões diferentes das que alegou ao tomá-la, deve apontar que benefício o autor da suposta farsa auferiu por conta dela.
 
Um coisa é certa: tomar atitude contra interesses poderosos, ricos, influentes, se não for tomada por interesses igualmente poderosos e sim por um mero cidadão ou por grupo de cidadãos sem maior expressividade e recursos, dificilmente será atitude com segundas intenções, pois o mais fraco não procura briga com o mais forte - é arrolado nela por ele
 
O que acontece, no entanto, é que quando os mais fracos estão todos do mesmo lado, e acontecendo o mesmo com os mais fortes, se nenhum "fraco" conclamar seus congêneres a se juntarem a ele para que, juntos, ganhem força para enfrentá-los, estes continuarão se fortalecendo até que sua ousadia comece a ganhar contornos ditatoriais.
 
Não dá para mudar uma realidade inabalável sabida pela humanidade há milênios: quanto mais a gente se abaixa, mais o rabo aparece...
 
Criar um blog chamado Cidadania não foi um acidente ou uma inspiração inconseqüente e momentânea. Foi meticulosamente pensado o que eu pretendia com este espaço, e o que eu pretendia era despertar o senso de dever das pessoas, no que diz respeito a deixarem o papel de espectadores inertes e/ou impotentes e assumirem o de elementos ativos da vida em sociedade.
 
Cidadania é um conceito de alguma forma difuso, ainda. Muitos o associam a cobrança ao governo, às autoridades constituídas. Não é comum encontrar quem saiba completamente que ser cidadão é também chamar para si a responsabilidade pelo bem comum, e não questionar só a governos, mas todos aqueles que, devido ao poder que têm, influem decisivamente na vida social.
 
Quando criei este blog, se considerasse que atitude de um verdadeiro cidadão é apenas malhar o governo, eu não o teria criado. Só fiz o que fiz porque, tanto ontem quanto hoje, acredito que há um poder incontrolável que progressivamente está sendo usado de forma danosa à sociedade. Refiro-me ao poder da mídia.
 
Assim, este espaço vem se dedicando a pôr o guiso no gato, a tomar atitudes, a incentivar que outros a tomem, e seu signatário gosta de pensar que nesses mais de dois anos de existência do Cidadania, ele ajudou a que ganhasse corpo, na internet e nas ruas, questionamento a esse poder tão definitivo e incontrolável que é o poder dos meios de comunicação.
 
Por enquanto, é o que eu tinha a dizer. Porém, peço aos leitores que acompanham diariamente este blog que mantenham em mente as razões aqui expostas. Eventualmente saberão por que as expus.


 Escrito por Eduardo Guimarães às 14h52
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Atalhos para a felicidade
 
 
 
 
Domingo à noite peguei um filme na locadora e alguma coisa me impeliu a escrever sobre o que assisti. Quem sabe vocês concordam comigo que a história que ele conta tem algo que ver com o que se discute aqui.
 
"The Devil and mr. Webster" é um bom filme, apesar da obviedade do título. Mas o que em inglês já era pobre, na versão em português ficou paupérrimo. Traduziram o título para "O Julgamento do Diabo".
 
Vá lá...
 
O problema é que também há que aturar a inexpressividade e a canastrice de alguém da família Baldwin (Alec). Mas Anthony Hopkins e Jennifer Love Hewitt compensam o sacrifício de aturá-lo.
 
O filme conta a história de Jabez Stone (Alec Baldwin), um escritor lutando para se consagrar, mas que já no ocaso da terceira década de vida ainda não conseguiu nada.
 
Stone forma um trio com dois escritores na mesma situação que a sua: Julius Jenson (Dan Aycroyd) e Mike Weiss (Barry Miller). Em dado momento, Jenson consegue um gordo contrato com o maior editor de livros do país (Daniel Webster / Anthony Hopkins). O protagonista do filme vai à loucura, ainda mais porque seu irmão, empresário de sucesso, faz questão de esfregar-lhe esse sucesso na cara.
 
Mas Stone tem um plano. Vai à editora de Webster e pede para falar com o presidente dizendo ser o famoso diretor Robert Stone. É recebido, mas quando depara com Daniel Webster, ante sua surpresa por a visita não ser quem disse que era, a "segurança" acorre para expulsar o farsante enquanto este suplica ao executivo para que o receba. Webster manda a "segurança" soltar Stone e o atende. Durante a reunião, o pretenso escritor descobre que o editor lera o romance que lhe enviara. Porém, só
consegue dele o conselho para "escrever algo melhor".
 
Stone retoma seu dia a dia. Para viver, trabalha como vendedor numa loja de roupas masculinas caras. Ao se indispor com o gerente por ter atendido bem um cliente sem condições de comprar ali, é demitido. Enquanto deixa o local de trabalho, nota a linda mulher de vermelho que o gerente queria que atendesse em lugar do cliente sem posses olhando para si...
 
Voltando para casa, Stone é assaltado. Os meliantes levam seu "lep top", que continha a única cópia de seu último romance.
 
Chega em casa desesperado, machucado pelos ladrões e cai em depressão. Em meio ao arrebatamento depressivo, diz para si que venderia a alma ao diabo para trocar de lugar com o amigo escritor que conseguira vender um romance ao poderoso Daniel Webster.
 
Em dado momento, Stone tem um acesso de fúria e atira a máquina de escrever pela janela. Para seu horror, ouve um grito no local em que a máquina caiu. Corre para a janela e se desespera ao ver que a máquina que atirou atingiu uma mulher idosa, que jaz morta nos braços do marido, que se volta e vê de onde veio o ataque que a matou.
 
O pânico aumenta quando a campainha toca. Stone resiste a abrir porta, mas as batidas parecem prestes a derrubá-la. Então abre.
 
É a mulher da loja. Linda, feminina e jovem. Sua sensualidade, porém, sobrepõe-se à beleza. Ela sorri ironicamente e, em resposta à pergunta do alarmado escritor sobre em que podia ajudá-la, informa-o de que a questão é se ela pode ajudá-lo.
 
Stone ouve as sirenes dos carros de polícia se aproximando. Corre à janela e vê o homem que teve a esposa morta pela máquina de escrever voadora falando com a polícia e apontando para o seu apartamento.
 
A visita ordena, calmamente, que ele se esconda no armário e vai atender os policiais à porta. Deixa-os entrar e constatarem que a janela arrebentada pela máquina atirada pelo escritor possesso, estava intacta. O escritor, perplexo, vê o prodígio de dentro do armário.
 
Depois da saída dos policiais, a mulher diz a Stone que é o diabo e que pode dar a ele o que ele mais quer. E para provar seu poder, manda que olhe pela janela. Ele vê a mulher que matara levantando-se e abraçando o marido enquanto a polícia deixa o local.
 
O diabo faz a pergunta a Stone: o que, realmente, ele quer? O escritor fracassado não precisa pensar muito. Responde como se sempre tivesse sabido o que trocaria por sua alma: ele quer, apenas, o sucesso. E por ele se dispõe a trocar sua alma imortal.
 
Stone também descobre que não assinaria um contrato com o próprio sangue. O pacto é fechado fazendo sexo com o diabo em forma de mulher.
 
Tendo feito o acordo certo, tendo se disposto a trocar o esforço para vencer pelos próprios méritos por um "atalho" para felicidade, as portas se abrem para Stone. As mulheres se jogam em cima dele. O dinheiro jorra e ele vai morar como convém a um escritor de sucesso.
 
Stone mal podia esperar para comemorar com os amigos escritores, sobretudo com Jenson, que lhe provocara ciúme com o contrato que conseguira. Mas encontra-o desesperado, porque a editora quer que devolva o adiantamento que recebeu pelo livro, porque haveria provas de que era plagiado. Então procura o diabo para dizer que não pedira a ruína do amigo, mas é informado de que para cada sucesso tem que haver uma ruína.
 
Os anos passam e a vida de Stone mergulha na monotonia. Não há desafios. Ele consegue tudo o que quer. Apesar de os críticos massacrarem seus livros, eles vendem cada vez mais. Ele sabe, porém, que os críticos estão certos, e essa ciência lhe rouba o prazer de desfrutar do falso e constante sucesso em que se transformou sua vida.
 
Stone vai ficando desesperado. Nada, nem o dinheiro, nem a fama, nem as mulheres ou qualquer luxo compensam o fato de que é um escritor de livros medíocres que vendem como pão quente.
 
A gota d'água que o leva a pedir ao diabo para romper o acordo, no entanto, é a decadência física e moral do antigo amigo Mike Weiss,que acaba lhe ocasionando a morte pouco depois de ter procurado Stone para pedir que repensasse sua vida e, em vez de atenção, recebeu uma oferta de dinheiro.
 
O diabo não aceita romper o contrato e diz a Stone que desfrute de sua parte do acordo, porque chegará a hora de pagar por ele.
 
O escritor maldito decide procurar Daniel Webster para pedir conselhos e acaba descobrindo que ele é o único homem que derrotou o diabo. Webster também havia feito um acordo com o diabo, mas o rompera num tribunal sobrenatural. O grande editor, então, decide enfrentar seu velho inimigo em um julgamento que definirá se Jabez Stone ficará com sua alma ou não.
 
Webster vence a causa. Convence um juri espectral, formado por lendas como Hernest Hemingway e Truman Capote, de que o diabo enganou Stone aproveitando-se de um seu momento de desespero em que tudo parecia perdido, e vendeu a ele um sucesso insípido, falso, sem mérito.
 
O filme, a meu ver, constitui uma metáfora impiedosa sobre aqueles que acreditam que há um atalho para a felicidade, para quem acha que o sucesso que advém de hipotecar a consciência é igual ao sucesso legítimo, que tem que ser arrancado da vida com o calejar das mãos, com o suor do rosto.


 Escrito por Eduardo Guimarães às 21h13
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CPIs? Não em SP...
 
 
Como estamos em ano eleitoral e como a eleição será dos que administram os municípios brasileiros, penso que o debate que mais deveria estar ocupando a sociedade seria sobre como as cidades estão sendo administradas por prefeitos e vereadores.
 
Por mais que pareça uma enorme obviedade o que acabo de escrever, o debate a que me referi não está ocorrendo. Contrariando outros tempos, cidades da importância de uma São Paulo simplesmente estão ignorando o debate político que deveria preceder as eleições deste ano. Não sei o que a mídia está esperando... Ou sei?
 
Entendo que o debate sobre o pleito municipal em São Paulo, à primeira vista, não parece ser assunto para um blog que tem leitores nos quatro cantos do país. Entretanto, como venho dizendo há algum tempo, a eleição paulistana reveste-se de uma singularidade própria, devido ao fato de que o principal nome da oposição tucano-pefelista para a sucessão de Lula será efetivamente afetado pelo resultado daquele pleito.
 
Para quem não leu o que expliquei sobre a afirmação acima, explico de novo: o governador de São Paulo, José Serra, candidato natural da direita à sucessão de Lula em 2010, elegeu-se prefeito da capital paulista, em 2004, prometendo cumprir até o fim o mandato que lhe estava sendo outorgado pelos paulistanos. Porém, Serra só permaneceu no cargo pouco mais de um ano. Rompeu sua promessa e se candidatou a governador em 2006, deixando São Paulo nas mãos de seu vice, Gilberto Kassab, de maneira que a forma como São Paulo se manifestar sobre seu atual prefeito influirá decisivamente na imagem de Serra.
 
Para que os paulistanos e todos os outros eleitores brasileiros possam decidir sobre a pretensão de Serra de ser presidente da República daqui a menos de 3 anos, e como é ano de eleição municipal, este blog fez um levantamento na Câmara Municipal de São Paulo sobre os pedidos de CPI que se encontram parados naquela casa. Alguns desses pedidos estão parados há anos, devido à total falta de interesse dos meios de comunicação e da majoritária bancada governista, ligada a Kassab e Serra, de investigar o uso do dinheiro público. 
 
O levantamento que vocês lerão a seguir, ofereço como sugestão ao "jornalismo investigativo" dos meios de comunicação de São Paulo, como tevês e, sobretudo, veículos da imprensa escrita, tais como Folha de São Paulo, Estado de São Paulo ou revista Veja, todos sediados na capital paulista.
 
E ofereço o levantamento também ao prefeito Gilberto Kassab, que poderia interferir junto à bancada que o apóia na Câmara Municipal para que parasse de impedir as investigações propostas ao mesmo tempo em que seus aliados na esfera federal dedicam-se sistematicamente a pedir CPIs para investigar o governo do país. Isto é, se não for de Kassab - e de Serra, que detém o "joystick" que controla o prefeito - a ordem para não deixar que CPIs sejam instaladas.
 
Aliás, devido ao padrão ético tucano-pefelê, que tanto na Câmara Municipal paulistana quanto na Assembléia Legislativa paulista não permite investigações sobre si, ao mesmo tempo em que as exige para seus adversários, no que tange essas duas Casas posso estar perdendo meu tempo com este material, mas não perco tempo ao informar eleitores de que a permanência tucano-pefelista no poder significa ausência de fiscalização do Executivo tanto pelo Legislativo quanto pela Mídia.
 
A seguir, a lista de CPIs que a Câmara Municipal não consegue instalar. Para ganhar tempo, escaneei o material que me foi passado. Ao lado da discriminação de cada CPI pedida está seu número de registro. Algumas poucas CPIs foram instaladas, conforme informação contida no material abaixo. Que cada um julgue a relevância de cada pedido de investigação e a atitude de parte daquela Casa de não colaborar para que as comissões sejam instaladas.
 
 
PEDIDOS DE CPI - CÂMARA MUNICIPAL DE SP - 2005 A 2007
 
 
 


 Escrito por Eduardo Guimarães às 11h21
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