Pausas para reflexão. Esse é um mal do qual padeço desde a juventude. É só eu ter um tempinho livre e a sós comigo para ser arrastado a processos reflexivos. Escrevo isto num desses momentos.
Para ser sincero, não escreverei nada que já não tenha dito aqui. Mas, periodicamente, repito, porque gosto de deixar claras minhas posições políticas, religiosas, enfim, todas, sempre em respeito ao leitor, que tem o direito de ler o que escrevo sabendo o que esperar de mim.
Direi agora sobre mais um dos vários direitos que nos estão sendo roubados pelo complô político transnacional da direita contra a esquerda, que se assenta na partidarização e na ideologização dos meios de comunicação de massa, em benefício dos interesses constituídos do diminuto grupo social que se beneficia da desigualdade terceiro-mundista.
A conjuntura política tem roubado de muita gente que coloca o interesse público acima do partidarismo político-ideológico o direito de criticar (construtivamente) o governo Lula. E há que notar que criticar é, também, uma forma de colaborar, desde que a crítica seja bem-intencionada.
Às vezes, porém, incomoda-me criticar apenas a imprensa e a direita tucano-pefelista, pois ninguém bom dos miolos irá negar que, enquanto não começarmos a eleger anjos, em qualquer governo sempre haverá o que criticar, e que criticar governos com honestidade é, mais do que um direito, um dever de todo aquele que queira merecer o título de cidadão.
Recuso-me, porém, a me debruçar sobre as deficiências do governo Lula enquanto essa súcia golpista, integrada pelas famílias Marinho, Civita, Frias e Mesquita, bem como pelo PSDB e pelo PFL, continuar sabotando o país ao tentar sabotar o governo Lula em vez de lhe fazer uma oposição decente e honesta.
Exercer a cidadania, este é o mote deste blog. Criei este espaço para incentivar as pessoas a tomarem atitudes, a conscientizarem-se de que o cidadão pode muito desde que conheça e exerça seus direitos. Ao convocar manifestações públicas ou ao fazer denúncia ao Ministério Público contra meios de comunicação irresponsáveis, tento mostrar que qualquer um pode agir, pois não passo de um cidadão como qualquer outro.
Eu gostaria de poder pressionar o governo Lula nos pontos em que acho que deve ser pressionado, de cobrar o que acho que deve ser cobrado, mas não posso. E os admiradores da imprensa golpista que vão tirando seus cavalinhos da chuva, porque não direi nenhuma dessas críticas ao governo petista numa conjuntura como esta.
Mas, às vezes, fico amargurado com a impossibilidade de exercer minha cidadania em sua plenitude. Se eu pudesse, a despeito de minhas preferências políticas, tratar de política, ao menos neste blog, com distanciamento, creio que estaria prestando um melhor serviço ao país. Ao me obrigar a agir partidariamente, a imprensa golpista rouba parte significativa da minha cidadania.
Quantas vezes - e em quantos grandes meios de comunicação do PIG - você leu, nos últimos dias, que a "candidatura" de Dilma Rousseff à Presidência estaria literalmente morta e enterrada por conta da fabricação midiática do "dossiê" anti-FHC?
Antes de se perguntar "que candidatura?", lembre-se de que a mídia cria o que quer e diz que foi criado por quem ela quer, então a candidatura que nem Dilma, nem Lula, nem o PT lançaram a mídia disse que existia e que havia sido destruída junto à opinião pública, porque, no dizer do PIG, a sociedade estaria "revoltada" com o "ataque" da ministra à mais sagrada instituição brasileira (para o PIG). E, sim, a "instituição" a que me refiro é Ele mesmo, FHC.
Parafraseando o escritor americano Mark Twain (1835 + 1910), que comentou a publicação surpreendente de seu obituário num jornal informando em carta pública que as notícias sobre sua morte tinham sido "um tanto quanto exageradas", acho que exageraram além da conta a morte do que ainda não tinha nascido, mas que nasceu pelas mãos do Partido da Imprensa Golpista (Veja, Folha, Globo, Estadão e ramificações): a candidatura Dilma Rousseff.
Foi nisso que pensei lendo, nos comentários de leitores do post anterior, participação da leitora Ana, advogada de Fortaleza (CE), que me avisou de nota publicada hoje (12/04) no insuspeito (de ser simpático ao governo Lula) Jornal do Brasil, conforme a nota do veículo que publico a seguir.
Até agora, eu vinha me eximindo de comentar o caso Isabella Nardoni, a menina de cinco anos que morreu depois de ter sido atirada do sexto andar do prédio em que vive seu pai, Alexandre Nardoni, e sua madrasta, Anna Jatobá. Mudei de idéia depois de, na noite em que escrevo, ter constatado, provavelmente pela vigésima vez, ou coisa parecida, como a sociedade age de forma irracional diante de crimes bárbaros.
Não suporto mais ver as pessoas ditando veredictos sobre o caso, anunciando a comprovação da culpa do casal antes que as investigações tenham chegado ao fim. Acabei discutindo com um jovem amigo de uma de minhas filhas, que disse que mesmo que Alexandre e Anna não tenham matado a garota são culpados de qualquer jeito, porque "é dos país a obrigação de zelar pelos filhos" (!?).
Escrevo isto no dia em que o pai e a madrasta de Isabella foram beneficiados por habeas corpus, concedido num despacho no qual o juiz concedente criticou duramente o açodamento da prisão temporária do casal. Escrevo por conta do que me passou pela cabeça quando vi os rostos assustados dos acusados durante sua libertação: como ficará se, ao fim e ao cabo de tudo isso, ambos forem considerados inocentes?
Diferentemente do que possa parecer, não estou emitindo juízo de valor sobre o caso. Ainda não entendi como é que a criança pôde ser atirada pela janela do apartamento de Alexandre sem ele ver ou por que razão ele teria assassinado a criança, pois a história sobre ele não querer que a filha fosse matriculada numa escola não constitui motivo lógico para o crime ter sido cometido.
Antes que comecem a me informar de detalhes sobre o crime que deixei escapar, digo que devem ter sido muitos, porque, até agora, vi apenas sensacionalismo midiático em busca de audiência e, portanto, não dei muita bola para o assunto, à espera de que alguma coisa concreta surja, pois acho que o crime só será esclarecido mais adiante e que tudo que vem sendo dito até agora não passa de especulação.
O problema, ainda que muitos venham a não entender, é a hipótese, a mera hipótese de Alexandre e Anna serem inocentes. Se isso se concretizar, terão passado por esse castigo antecipado todo num momento de dor extrema. Trata-se de um sofrimento insuportável que não desejaria ao meu pior inimigo.
Eu sempre digo que é muito melhor absolver mil culpados do que punir um único inocente. Não existe prática judicial mais hedionda e desumana do que punir alguém antes de se ter certeza de que o punido merece a punição. Essa é uma ameaça a todo e qualquer cidadão. Se esse tipo de "erro" do processo legal não for combatido, amanhã poderá acontecer com você...
Um assessor do gabinete da vereadora paulistana Soninha, vereadora que era do PT e agora está no PPS, andou publicando uns ataques à blogosfera e a este que escreve. Fui avisado disso pelo Renato Rovai, editor-chefe da revista Fórum, por e-mail.
Rovai foi atacado pelo tal assessor. O sujeito tem um blog. O Rovai respondeu em seu blog ao ataque do assessor de Soninha. Ela respondeu à resposta do Rovai. Foi doce e civilizada. Mas seu assessor...
A vereadora Soninha é Soninha Francine, aquela moça bonita que era apresentadora da Tevê Cultura e que foi demitida pela emissora em 2001 por ter afirmado publicamente que fumava maconha.
Não vi com bons olhos a mudança radical que ela impôs à própria vida, depois daquilo. Tudo começou quando ela aceitou deixar de falar de política em seu blog no UOL. Depois, Soninha elegeu-se vereadora pelo PT. Em 2004. Mas terminará seu mandato filiada ao PPS...
Fui conferir o blog do assessor. Ele atacou a vários blogueiros, além de a mim. Cobrou que não condenamos a TV Brasil pela demissão do jornalista Luiz Lobo, que saiu da emissora acusando-a de ter tentado "censurá-lo" em benefício do PT.
O sujeito faz cobranças ao Luiz Nassif, ao Luiz Carlos Azenha, ao Mello e a mim, bem como a mais alguns blogueiros da dita blogosfera. Ataca também o site Vermelho, do PC do B.
Não vou comentar as cobranças porque tudo que eu tinha a dizer sobre o caso Luiz Lobo / TV Brasil, eu já disse. Se tiver mais alguma coisa a dizer, direi. Mas não será o assessor da Soninha ou qualquer outro que irá me pautar.
Finalmente, quero lembrar que, quando o assessor de um político começa a fazer ataques àqueles que divergem da linha política daquele a quem serve, fica difícil dissociar o político do assessor. Quando Soninha diz que nada tem que ver com o assessor, não cola.
Esta semana, Lula deu uma declaração sobre a qual a oposição parece que refletiu. O presidente disse que o PSDB e o DEM estão "sem rumo" e que levarão "uma sova" nas urnas. Hoje, a oposição anunciou que na próxima segunda-feira haverá uma "reunião de cúpula", comandada por FHC e por Bornhausen, que tentará "refinar" a estratégia oposicionista.
Além dos caciques tucano e "democrata", reunir-se-ão Sérgio Guerra, presidente do PSDB, e os líderes Arthur Virgílio (Senado) e José Aníbal (Câmara). Pelo DEM, também irão ao encontro o presidente do partido, Rodrigo Maia, e os líderes José Agripino Maia (Senado) e ACM Neto (Câmara).
Até a mídia já admitiu que a oposição está "desnorteada" e que essa é a razão da "reunião de cúpula" da semana que vem. A falta de "norte" oposicionista, no entanto, constitui um inexplicável paradoxo. A oposição ao governo federal conta com uma das maiores máquinas de apoio político na imprensa que há em todo continente americano. Acredito que apoio dessa magnitude a partidos de oposição só se encontra hoje na Venezuela.
Para que se tenha uma idéia do grau de apoio na mídia que tem a oposição brasileira, a maior emissora de tevê do país usa sua programação, de ponta a ponta, para desmoralizar o presidente da República. São novelas, programas humorísticos, telejornais e talk shows que trabalham incansavelmente para ridicularizá-lo e tachá-lo de corrupto, ignorante e "populista".
Na imprensa escrita, os quatro maiores veículos do país (Veja, Folha, Globo e Estadão) dedicam-se incessantemente a fazer denúncias que envolvem até os gastos mais comezinhos da manutenção do principal palácio da República, num nível de "fiscalização" do poder federal que jamais se viu desde o Descobrimento.
Com todo esse arsenal eleitoral, só poderia ser de espantar a situação de desorientação em que se encontram os partidos de oposição, sobretudo o PSDB. E mais espantoso ainda são os índices de aprovação do governo mais pichado na mídia em toda história, depois (talvez) do de Jango Goulart. Nem o governo Collor permaneceu tanto tempo sob fogo tão cerrado.
Mas quando se vê o discurso da oposição e a renitência espalhafatosa da má vontade com este governo na mídia, entende-se tudo.
Note-se que até nos estratos mais ricos e escolarizados da sociedade o governo Lula desfruta de amplo apoio. Segundo a última pesquisa Ibope, por exemplo, 47% dos que ganham mais de 10 salários mínimos e que têm curso superior acham o governo bom ou ótimo. Os desse estrato social que acham o governo ruim ou péssimo, somam magros 17%.
O que ocorre no Brasil é exatamente o que ocorreu na Venezuela. Diante da cristalização do conceito de que os grandes meios de comunicação de massa fazem o jogo da oposição contra o governo, as pessoas passaram a buscar parâmetros próprios para mensurar a quantas anda aquele governo.
No caso do Brasil, só estando dopado pela própria subjetividade para não enxergar como o país melhorou de 2003 para cá. E só a prática renitente do auto-engano para não reconhecer que este governo é que merece os louros pelo que de bom está colhendo.
As contradições da oposição e da mídia são escandalosamente evidentes. Primeiro, acusam erros imensos na condução da economia. Ridicularizaram a política externa do país quando, no começo do governo Lula, o presidente foi à Ásia e à África fazer acordos de comércio. Atribuíram todos os sucessos até aqui obtidos à bonança na economia mundial. Predisseram catástrofes econômicas por conta do dólar desvalorizado e da crise americana. Acusam o governo de ter implantado "a maior corrupção da história".
Atualmente, a maioria esmagadora da população brasileira não suporta política e escolhe governantes de acordo unicamente com seu grau de satisfação com a própria vida. Ficou para trás no tempo (no ocaso dos anos 1990) a época em que o sujeito enxergava sua própria realidade com os olhos do patrão ou da imprensa.
O brasileiro sofreu muito depois da Redemocratização. Foram crises e mais crises que custaram o próprio sangue dos brasileiros. A última grande crise foi em 1999, depois de, no ano anterior, o brasileiro ter acreditado na mídia e na direita quando disseram que se FHC fosse eleito haveria "consolidação" do Plano Real. O que acabou acontecendo foi um forte baque econômico por conta da maxidesvalorização. Desemprego, recessão, aumento da violência, da pobreza e da desigualdade.
Depois de um início conturbado, gerado pela assunção do governo Lula num momento em que o país estava afundado em dívidas e extremamente frágil em suas contas externas, o brasileiro viu a própria vida vir melhorando ano a ano, cada vez mais. Quem não conseguia emprego, conseguiu; quem não consumia, passou a consumir; quem jamais sonhou em se formar, entrou no ensino superior.
A recusa da sociedade em dar novo voto de confiança à mídia e à direita, depois de 1999, levou oposicionistas e os grandes grupos de mídia a um estado de pura catarse. O discurso começou a se tornar alucinado, virulento, elitista, intolerante e, em alguns momentos, até racista.
Os insultos reiterados ao presidente da República o vitimizaram. Um colunista da Veja chegou a publicar um livro em que, no título, chama o presidente de "anta". Esse ato de agressão à instituição Presidência da República, mais do que ao seu eventual ocupante, veio na esteira da desqualificação, pela mídia e pela oposição, de qualquer um que não fosse "dotô".
Os anúncios reiterados de que tudo estava errado na economia chocaram-se com o discurso de que o que se estava fazendo era o que era feito à época de FHC. O catastrofismo chocou-se com o aumento do consumo, do emprego e da renda.
O preconceito racial emergiu com toda força diante da política de cotas. Apesar da massa de manobra, entre a comunidade negra, que se dispôs a entoar o cântico da elite branca sobre uma política pública que permitiria que negros pobres começassem, pela primeira vez na história, a ocupar vagas no ensino superior, 9 de cada dez negros vibraram com a possibilidade de almejar na vida mais do que cargos servis. Detalhe: metade dos brasileiros são negros.
A oposição e seus aliados na grande mídia, no entanto, fizeram uma aposta no velho modelo de demonização da esquerda e, embalados pelos setores sociais historicamente beneficiados pela desigualdade, sempre ruidosos e com amplo espaço para se manifestar, apesar de serem poucos, continuaram refratários ao tal "refinamento" de estratégia que agora pretendem. Preferiram a estratégia grosseira da desqualificação total, pura e simples.
Anibal nega qualquer mérito a este governo, chamando para o governo FHC todos os louros pelo bom momento econômico por que passa o país. Recusa-se terminantemente a enxergar um único fio de competência na administração do país. Os benefícios que vimos colhendo, para Anibal, são inerciais, vindos da época em que o PSDB governava. É ridículo. Ninguém dá crédito a tal sandice.
Você deve ler a entrevista supra mencionada. Ela sintetiza fidedignamente a estratégia grosseira que os caciques tucanos e pefelês pretendem "refinar" na semana que vem.
Mas o que eu recomendaria como "estratégia" para a oposição, então? E vale a pena ler uma recomendação de alguém que se opõe tão visceralmente àqueles a quem faz essa recomendação? Não vou me justificar, mas se eu fosse a oposição refletiria sobre o que vou escrever agora.
Primeiro, por conta do que entendo sobre fazer oposição na condição de "povo", acho que oposicionismo é necessário quando o opositor trabalha para melhorar a vida das pessoas pressionando e fiscalizando o governo. Quando fica claro que a oposição quer atrapalhar a condução do país, os mais sensatos se perguntam: o que é que eu tenho a ganhar com isso? E, por via das dúvidas, o povo sempre teme sabotagens que possam vir a pôr fim ao bom momento do país.
Trocando em miúdos: enquanto a oposição pensa que está abafando, a sociedade está temerosa de que a possibilidade de o país melhorar esteja ameaçada de sabotagem.
Então vou dizer como vejo a prática oposicionista sadia, boa para o país, para todos nós. Não vou entrar em detalhes. Direi apenas as premissas-mestras.
1 - Não peça ao governo aquilo que não concedeu quando era governo
2 - Não dificulte a governabilidade. Travar o Congresso com investigações politizadas mostra que você quer ver o circo pegar fogo, e circo pegando fogo só interessa a você, não ao povo, que paga o pato sempre que há um mínimo foco de incêndio "no circo".
3 - Apresente alternativas. Se ficar só criticando o que não funciona, o eleitor fica se perguntando o que é que você faria se estivesse lá.
4 - Se não tiver um projeto alternativo para o país, fique calado. Não tente vender vento. O povo não se baseia mais em discursos; agora olha, primeiro, para como está sua vida.
5 - Quando você diz que o projeto que está dando certo é seu, o eleitor reflete que pode até ser seu, mas está funcionando com outro, porque com você não funcionou.
6 - Procure o que realmente está errado na governança do país. Se não encontrar nada muito errado e que valha a pena denunciar, não se desgaste tentando fabricar erros alheios. As pessoas percebem, porque erros de governança que não causam danos, não existem. Então, essas pessoas não sentem o que você diz que está acontecendo.
7 - Construa um projeto de país que você realmente julgue sério. Não tente ser espertinho. O povo está calejado. Para trocar um projeto que está dando certo por outro igual, fica com o original; para trocar por outro diferente, é preciso que seja provado que é factível. Falar não basta.
Não concebo um país, qualquer país, sem oposição. O governo Lula não estaria sendo tão bom se não fosse acossado como é. O assédio oposicionista-midiático atrapalha a governabilidade e atrasa melhoras? Sim, mas, em contrapartida, obriga o governo a se esmerar em eficiência e probidade, pois sabe que tentarão transformar até acertos em erros, quanto mais os erros verdadeiros.
Oposição que só pensa "naquilo" (em voltar ao poder), mas que não quer se esforçar para merecer o poder de volta e que toma o caminho fácil da desqualificação pura e simples de tudo que o adversário faça, não serve para nada. Portanto, não é assim que se faz oposição. É da forma que acabo de expor. Fazer oposição, se não for com seriedade, é muito mais difícil do que ser governo.
Apesar do tom jocoso do título, este texto trata de um assunto muito sério.
De uns tempos para cá, a mídia começou a noticiar uma "queda de popularidade" do presidente da Venezuela, Hugo Chávez, em seu país. Para variar, foram divulgadas pesquisas de institutos venezuelanos bem conhecidos dos venezuelanos - e de gente como eu, que se interessa pelo resto do mundo, mas, sobretudo, pela América Latina.
Anteontem, o Luiz Carlos Azenha publicou notícia de que de acordo com um dos poucos institutos venezuelanos de pesquisa que costumam acertar previsões eleitorais, Chávez continua com a popularidade a todo vapor.
Muitos de vocês não leram um material que publiquei neste blog em 2 de janeiro de 2007. É um levantamento que fiz nos arquivos do jornal Folha de São Paulo na internet.
Fui "pinçando" notícias sobre a popularidade de Chávez entre janeiro de 2002, pouco antes de ser desfechada uma tentativa de golpe de Estado na Venezuela, até agosto de 2004, logo após a vitória do presidente venezuelano num referendo popular convocado pela oposição e pela mídia daquele país. Era um referendo "revogatório", que pretendia apear Chávez do poder.
A mera leitura da seqüência de matérias da Folha mostra manipulação das mídias daqui e da Venezuela, que pretendiam manipular venezuelanos e brasileiros. Manipular, sim, porque nas Folhas daqui e de lá não se viu nenhuma das pesquisas que acertaram tudo o que as pesquisas venezuelanas de que a mídia brasileira gosta não previram.
Divirtam-se.
*
Folha de São Paulo, 09/01/2002 Origem do texto: DA REDAÇÃO; DAS AGÊNCIAS INTERNACIONAIS Editoria: MUNDO Página: A11 "(...) Uma pesquisa realizada em dezembro pelo instituto privado Consultores 21 e divulgada ontem pelo "Nacional" mostra que a popularidade do presidente [Hugo Chávez]está caindo. Segundo a pesquisa, 54% dos entrevistados votariam contra Chávez num plebiscito para revogar o mandato do presidente. Em agosto, apenas 36% apoiavam a idéia (...)"
Folha de São Paulo, 24/01/2002 Origem do texto: DA REDAÇÃO; DAS AGÊNCIAS DE NOTÍCIAS Editoria: MUNDO Página: A10 "(...) De acordo com as últimas pesquisas, realizadas em dezembro, Chávez conta com o apoio de apenas 35% dos entrevistados (...)"
Folha de São Paulo, 19/02/2002 Origem do texto: DA REDAÇÃO; DAS AGÊNCIAS INTERNACIONAIS Editoria: MUNDO Página: A12 "(...) Chávez, coronel do Exército que participou de uma tentativa frustrada de golpe militar em 1992, foi eleito presidente em 1998 e assumiu o governo com mais de 90% de aprovação. De acordo com as últimas pesquisas, sua popularidade já caiu abaixo de 30% (...)"
Folha de São Paulo, 13/04/2002 Origem do texto: DA REDAÇÃO Editoria: MUNDO Página: A15 "(...) O apoio popular a Chávez, que chegou a cerca de 90% na época de sua posse para o primeiro mandato, no início de 1999, caiu para menos de 30%, segundo as últimas pesquisas, em razão principalmente da sua incapacidade em cumprir com suas principais promessas eleitorais (...)"
Folha de São Paulo, 13/04/2002 Origem do texto: ENVIADO ESPECIAL A CARACAS Editoria: PRIMEIRA PÁGINA Página: A1 Militares depõem Chávez; civil toma posse e dissolve Poderes "Depois de derrubarem na madrugada de ontem Hugo Chávez Frías, 47, os militares venezuelanos empossaram como presidente interino o principal líder empresarial do país, Pedro Carmona Stanga, 60. Carmona dissolveu o Congresso, destituiu todos os membros da Suprema Corte e prometeu convocar em até um ano eleições presidenciais e, em prazo menor, legislativas (...)"
Folha de São Paulo, 14/04/2002 Origem do texto: DE NOVA YORK Editoria: MUNDO Página: A29 " 'Estou maravilhado', diz o economista Jeffrey Sachs (...)"
Folha de São Paulo, 14/04/2002 Origem do texto: DO ENVIADO ESPECIAL A CARACAS Editoria: MUNDO Página: A25 Emissoras censuram cenas de protesto "(...) Após apoiarem ostensivamente as manifestações que precipitaram a queda do presidente Hugo Chávez, as principais emissoras privadas de TV da Venezuela fizeram ontem um acordo para não exibir nem mencionar os protestos a favor do presidente deposto. Nove pessoas morreram e 45 ficaram feridas ontem em protestos contra o golpe que derrubou Chávez, segundo o prefeito de Caracas Alfredo Peña, adversário do presidente deposto. Seis delas teriam morrido quando um caminhão esmagou um carro pouco depois de favelados chavistas fecharem a estrada que liga Caracas ao aeroporto Simon Bolívar (...)"
Folha de São Paulo, 14/04/2002 Origem do texto: DO ENVIADO ESPECIAL A CARACAS Editoria: MUNDO Página: A24 Ricos festejam queda do presidente "Chuca Taberna de Obregón, 50, mulher de um dos maiores empresários do ramo imobiliário de Caracas, é a típica venezuelana por trás da deposição do presidente Hugo Chávez.Católica fervorosa e descendente de espanhóis, Chuca deixou que suas duas filhas fossem às manifestações de dezembro passado e a da última quinta-feira "desde que levassem celular e se o motorista as levasse e as trouxesse de volta". O ódio de Chuca a Chávez é tamanho que, ao voltar de uma temporada em Miami na última sexta-feira, juntou-se a outros venezuelanos que hostilizaram o ex-chanceler Luis Alfonso Davila no aeroporto Simon Bolívar, nos arredores de Caracas (...)"
Folha de São Paulo, 15/04/2002 Origem do texto: DO ENVIADO ESPECIAL A CARACAS Editoria: MUNDO Página: A9
Pobres exigiram volta de 'seu' presidente
"Eles desceram dos morros ao redor de Caracas a pé, de bicicleta, em motos e caminhões. Alguns usavam chinelos, outros cruzaram descalços os bairros de classe média que separam seus bairros pobres do palácio presidencial Miraflores. A maioria era mestiça, tinha pele e cabelo de índio. Traziam cartazes e faixas com inscrições como "Devolvam nosso presidente", "Quero ver meu presidente", "Viva a Revolução Bolivariana" e "Chávez não renunciou".
Outras faixas traziam ameaças aos que chamam de "ricos", um grupo heterogêneo de cerca de 20% da população formado por trabalhadores de classe média ou empresários que concentraram propriedades e bens de consumo durante o boom do petróleo na Venezuela nos anos 70. Para eles, essas elites tentaram arrancar seu presidente do poder. Uma das inscrições ameaçadoras dizia "Viva Chávez e morte aos porcos esganiçados", numa referência à expressão usada pelo presidente para denominar os endinheirados.
Foram se juntando ao redor palácio na manhã de sábado para protestar contra a deposição de Chávez. No início, havia só cem ou 200 deles. Também havia opositores do presidente, mas eles logo saíram. No fim da tarde, quando tropas leais a Chávez tomaram o palácio, eram de 10 mil a 15 mil.
Às 22h, quando a multidão quase bloqueava todos os portões de acesso à área interna do palácio, eram dezenas de milhares. Às 2h56 de domingo, quando um helicóptero trouxe o presidente Hugo Chávez, já eram centenas de milhares de pessoas. Era impossível contar. Por questões de segurança, os portões do palácio foram fechados. Ninguém podia sair, ninguém podia entrar.
Na área entre a grade de proteção e o palácio, cerca de três mil pessoas dividiam um espaço para 500. Eram soldados leais a Chávez da Guarda Nacional, jornalistas estrangeiros (os locais ficaram com medo de sair por medo de serem hostilizados) e populares.
O helicóptero de Chávez pousou atrás do palácio. O presidente veio caminhando, cercado de seguranças. Usava roupas civis, uma camisa azul. Fez um trajeto de 40 metros em quase uma hora.
Começaram a cantar a "Glória ao Bravo Povo", hino da Venezuela. Parou para conversar com cada soldado. Não se podia ouvir tudo que dizia, mas o que era possível entender se chocava com o discurso conciliatório que fez oficialmente ao ser reempossado horas depois. "A grande campanha de manipulação acabou e agora precisamos mostrar a eles a seriedade da revolução bolivariana."
"Os meios [de comunicação] são a maior corrupção do mundo. É preciso fazer alguma coisa, pois eles funcionam com licenças que são do povo, desse povo que deu uma lição histórica a essa elite. Há dois mundos na Venezuela, o real e o que aparece nas TVs privadas. Hoje o mundo real deu uma lição ao mundo de fantasia."
Chávez exibiu seu carisma habitual. Beijou o crucifixo que, segundo ele, manteve sua paz nas 48 horas em que esteve preso. Soldados perguntaram a ele como fora tratado. Contou que, enquanto detido, lavou as próprias cuecas e, em conversas com seus carcereiros, teve uma aula de vida. "Estive detido, mas com companheiros. Refleti muito."
Chávez conversou com um radialista colombiano e mandou beijos para o público do lado de fora. Despediu-se e entrou (...)"
Folha de São Paulo, 15/04/2002 Editoria: MUNDO Página: A8 POR QUE CHÁVEZ CAIU "Incapaz de cumprir suas principais promessas de campanha _o combate à corrupção e à pobreza que atinge 70% da população_ Chávez perde popularidade. Dos 90% de apoio que tinha após sua primeira eleição, em 1998, conservava apenas 30%, segundo as últimas pesquisၡs de opinião"
[nota do editor: Apesar de a sociedade venezuelana ter se levantado contra o golpismo da elite, a Folha falava da impopularidade de Chávez no exato momento em que os fatos a desmentiam]
Folha de São Paulo, 17/11/2002 Origem do texto: DA REDAÇÃO Editoria: MUNDO Página: A21 "Anteontem, o Conselho Nacional Eleitoral decidiu que a proposta feita no início do mês pela opositora Coordenação Democrática para um referendo, num abaixo-assinado que recolheu 1,5 milhão de assinaturas, é legal. (...) Se essa consulta fosse feita hoje, Chávez seria rechaçado por cerca de 65% dos venezuelanos, segundo as últimas pesquisas (...)"
Folha de São Paulo, 21/11/2002 Editoria: MUNDO Página: A17 Edição: São Paulo Nov 21, 2002 "Pesquisa de opinião do instituto Consultores 21, divulgada ontem, indica que 60% dos venezuelanos votariam pela saída do presidente Hugo Chávez caso houvesse um referendo no país (...)"
Folha de São Paulo, 03/12/2002 Editoria: MUNDO Página: A10 "(...) Chávez perdeu apoio popular _segundo as pesquisas, caiu de 90%, logo após a posse, para menos de 30% (...)"
Folha de São Paulo, 03/12/2002 Editoria: MUNDO Página: A10 Popularidade em queda "(...) Popularidade [de Chávez cai] dos 90% que tinha após a eleição para menos de 30%
Folha de São Paulo, 06/12/2002 Editoria: MUNDO Página: A12 Popularidade em queda "(...) Chávez vê sua popularidade cair dos 90% que tinha após a eleição de 1998 para menos de 30% (...)"
Folha de São Paulo, 08/12/2002 Editoria: MUNDO Página: A23 Edição: São Paulo Dec 8, 2002 Apoio popular "(...) Chávez perdeu apoio popular _segundo as pesquisas, caiu de 90%, logo após a posse, para menos de 30% (...)"
Folha de São Paulo, 11/12/2002 Origem do texto: DA REDAÇÃO; DAS AGÊNCIAS INTERNACIONAIS Editoria: MUNDO Página: A11 "(...) Segundo as pesquisas, cerca de 65% dos venezuelanos votariam contra Chávez em um referendo (...)"
Folha de São Paulo, 21/02/2003 Editoria: MUNDO Página: A11 Popularidade em queda "(...) A aprovação a Chávez cai de 90%, em 1998, para menos de 30% (...)"
Folha de São Paulo, 21/08/2003 Origem do texto: DA REDAÇÃO; DAS AGÊNCIAS INTERNACIONAIS Editoria: MUNDO Página: A16 "(...) Ainda que o referendo ocorra antes do ano que vem, os analistas vêem grandes dificuldades para que a oposição consiga afastá-lo [Chávez], apesar de as pesquisas indicarem que entre 65% e 70% dos venezuelanos rechaçam sua administração (...)"
Folha de São Paulo, 11/03/2004 Autor: OTAVIO FRIAS FILHO Editoria: OPINIÃO Página: A2 Ditadura em gestação "(...) Pesquisas de opinião indicam hoje que Chávez não é respaldado por mais de um terço da população (...)"
Folha de São Paulo, 12/07/2004 Origem do texto: DA REDAÇÃO; DAS AGÊNCIAS INTERNACIONAIS Editoria: MUNDO Página: A10 "(...) Diversas pesquisas de opinião indicam que Chávez perderá no referendo (...)"
Folha de São Paulo, 31/07/2004 Origem do texto: DA REDAÇÃO; DAS AGÊNCIAS INTERNACIONAIS Editoria: MUNDO Página: A12 "(...) A duas semanas de um plebiscito convocado pela oposição que pode tirar Hugo Chávez do poder, duas pesquisas eleitorais divulgadas ontem mostram que o presidente venezuelano sairia vencedor (...)"
Folha de São Paulo, 09/08/2004 Origem do texto: DA REDAÇÃO; DAS AGÊNCIAS INTERNACIONAIS Editoria: MUNDO Página: A8 Ato pró-Chávez reúne centenas de milhares "A uma semana da realização do plebiscito sobre a retirada ou não de Hugo Chávez do poder, Caracas assistiu ontem a uma manifestação que reuniu centenas de milhares de pessoas em apoio ao presidente (...)"
Folha de São Paulo, 15/08/2004 Editoria: OPINIÃO Página: A2 A VENEZUELA DECIDE "CERCA DE 14 milhões de venezuelanos estão habilitados para votar hoje no plebiscito que vai decidir o destino do presidente Hugo Chávez. Se a oposição conseguir reunir mais de 3,8 milhões de escrutínios, Chávez deverá deixar o posto, e um novo pleito será convocado para escolher quem concluirá o restante de seu mandato, previsto para acabar em janeiro de 2007. Embora o quadro esteja indefinido, a evolução das pesquisas de intenção de voto sugere que Chávez tem boas chances de conservar-se no poder (...)"
Folha de São Paulo, 17/08/2004 Origem do texto: ENVIADO ESPECIAL A CARACAS Editoria: PRIMEIRA PÁGINA Página: A1 Chávez vence plebiscito e fica no poder "(...) O presidente da Venezuela, Hugo Chávez, venceu o plebiscito de anteontem, convocado pela oposição para abreviar seu mandato. A vitória foi anunciada oficialmente pelo Conselho Nacional Eleitoral. De um total de 94,49% dos votos apurados, Chávez obteve 58,25%, contra 41,74% que votaram a favor de sua saída (...)"
Com a morte lenta do factóide do "dossiê" no noticiário corporativo, volto ao assunto da re-reeleição de Lula, conforme prometi.
Mais algumas dezenas de comentários somaram-se à mais de uma centena deles que foram produzidos pelo post do último sábado, no qual, diante da aparente disposição da mídia de bombardear qualquer pré-candidatura à sucessão de Lula que esteja ligada ao próprio, como acaba de ocorrer no caso de Dilma Rousseff, considerei que a hipótese de um terceiro mandato do atual presidente deveria ser a resposta democrática àquela prática antidemocrática, golpista e desonesta dos meios de comunicação.
Os leitores deste blog, então, deram-me uma verdadeira aula de argumentação inteligente, isenta, preocupada com os interesses do país. Apesar de a tese da re-reeleição de Lula ter prevalecido na esmagadora maioria dos comentários pró e contra o terceiro mandato, esses comentários sempre mencionaram o interesse público no que diz respeito a qualquer mudança na Constituição para reformular a regra eleitoral de eleição de presidentes e duração de seus mandatos.
Foi nas opiniões minoritárias, entretanto, que encontrei o argumento mais forte da discussão, e uma preocupação que deveria nortear o debate para além da mera preocupação política conjuntural. A despeito dos interesses difusos da maioria lulista e dos interesses concentrados e organizados da minoria tucano-midiática, qual é a solução que melhor atende aos interesses do país?
Precisamos ter em mente que a regra constitucional sobre duração do mandato presidencial não pode continuar variando de acordo com os interesses conjunturais do grupo político mais forte naquela conjuntura específica. A despeito desse fato, porém, no Brasil a duração do mandato presidencial sempre foi alterada ao sabor dos interesses conjunturais dos poderosos da hora.
As constituições que o Brasil já teve abrigaram mandatos de 4, 5 e 6 anos, com reeleição e sem reeleição. Na Constituição de 1937, o mandato presidencial era de 6 anos; na de 1946, 5 anos; na de 1967, 6 anos; na de 1988, 5 anos; e, na emenda constitucional patrocinada em 1997 pelo governo Fernando Henrique Cardoso, o mandato presidencial foi encurtado para 4 anos com direito à reeleição.
FHC, no entanto, não foi o primeiro presidente da pós-redemocratização do país a alterar a Constituição para se beneficiar pessoalmente. O primeiro presidente civil depois de mais de 20 anos de ditadura militar, José Sarney, manipulou a Constituinte de 1988 para aumentar o próprio mandato.
O mandato de Sarney, oficialmente, era de seis anos quando ele assumiu. Era o previsto na Constituição dos militares. Porém, a classe política havia estabelecido o consenso de que seu mandato deveria ser decidido pela Constituinte de 1988. E a comissão constitucionalista que tratava do assunto havia aprovado quatro anos. Sarney, então, negociou a não-redução total de seu mandato, que ficou em 5 anos, sob o argumento de que estava abrindo mão de um mandato de seis anos.
Foi amplamente difundido que Sarney, a exemplo de FHC (contra quem surgiram fortes evidências de que teria mandado subornar parlamentares para votarem a favor da emenda constitucional que lhe permitiria reeleger-se), concedeu favores a um grupo de parlamentares que compunham o chamado Centrão.
Sempre houve um "motivo maior" para justificar a mudança das regras do jogo com este em andamento, para adaptar a regra que define o tempo que cada governante eleito terá para implementar seu programa de governo por conta de "aquele" projeto "precisar de mais tempo".
Na campanha promovida por FHC e pela mídia em 1997, venderam ao povo a tese de que o tucano era "imprescindível" para "manter a estabilidade" alcançada pelo Plano Real, e que, portanto, era preciso reformar a Constituição para que ele pudesse se recandidatar à Presidência. Ainda me lembro dos editoriais caudalosos e apaixonados do Estadão, entre outros, defendendo a teoria da reeleição. Agora, mudar a regra eleitoral para favorecer o ocupante do poder virou "golpismo". Ninguém, na mídia corporativa, considerou "golpista" a emenda da reeleição.
Os leitores que apóiam e que não apóiam o governo Lula e que comentaram minha adesão à tese da re-reeleição dele levantaram uma outra questão bem interessante e válida: o Brasil não pode depender exclusivamente de Lula. Ele se tornou uma espécie de instituição da República, o campeão do povo contra a iniqüidade consolidada que impera no Brasil. Seria preciso - e acho que efetivamente é preciso -, no entanto, permitir que surjam novas lideranças, ainda que Lula seja jovem e possa voltar a postular a Presidência, por exemplo, em 2014, mesmo se não fizer seu sucessor.
O problema é que ninguém racional tem dúvidas de que muitas das conquistas das massas desorganizadas fatalmente seriam postas abaixo por um eventual governo José Serra. Quem defende hoje que o tucano seja o próximo presidente da República é visceralmente contra, por exemplo, o Bolsa Família, a reforma agrária, as políticas que estão permitindo a jovens negros e pobres finalmente cursarem o ensino superior. Aliás, é contra até o combate sem tréguas da Polícia Federal a grandes corruptos, freqüentemente aliados da elite tucana de São Paulo, como no caso da Daslu...
A aposta de grande parte da maioria esmagadora que aprova o projeto de país de Lula é a de que ele estará esbanjando popularidade em 2010 devido aos excelentes indicadores econômicos do presente e das projeções - de 9 entre 10 economistas - de que o que hoje é bom, em 2010 deverá estar ótimo. Assim, na próxima eleição presidencial Lula teria poder para "eleger até um poste", pois transferiria a quem apoiasse todos os votos que tem junto à maioria massacrante do eleitorado que hoje o brinda com a maior popularidade que um presidente já teve à esta altura de um governo.
Por outro lado, temos uma decisão clara, cristalina, inequívoca dos grandes impérios de comunicação do país de elegerem José Serra presidente em 2010 a qualquer preço. Penso que o caso recente do "dossiê", em que todos os grandes jornais, rádios e tevês trataram de criminalizar previamente a ministra-chefe da Casa Civil, que supõem candidata de Lula à própria sucessão, mostra que não haverá limites para o que os barões da mídia farão para eleger o tucano daqui a menos de três anos.
Novamente o Brasil se encontra numa situação que sempre foi bastante comum em sua história: está diante do dilema de alterar ou não as regras do jogo em benefício de um grupo político, pois o país estaria ameaçado pela possibilidade de graves prejuízos se a parte social e econômica do atual programa de governo for descontinuada.
Nesse contexto, não podemos nos esquecer de que se os tucanos estivessem no poder o Brasil, agora, estaria se contorcendo numa grave crise econômica, pois não teria se voltado para a Ásia ou para a África, de forma a compensar a queda de negócios com o exterior que estaria vendo ocorrer se tivesse permanecido na situação pré-Lula, na qual dependíamos exclusivamente de Estados Unidos e Europa. E, para comprovar isso, basta ler Folhas, Vejas, Estadões e Globos do início do governo Lula, que atacaram duramente a busca de novas parcerias comerciais que começou a ser empreendida.
De qualquer maneira, voltamos a viver uma situação bastante banal no decorrer de nossa história. Poderemos ter que, mais uma vez, alterar a Constituição por conta de uma conjuntural "razão maior". Do contrário, teremos que permitir que um grupo de bilionários do setor de comunicações tente impor sua escolha política ao país.
Refleti muito e cheguei à conclusão de que não há conclusão possível, ainda. Por isso, suspendo, temporariamente, minha decisão sobre o terceiro mandato de Lula. Acho que ainda há tempo para mais discussão no país sobre o assunto, e que o fórum para essas discussões deverá ser o Congresso, onde há propostas de se fazer plebiscito para decidir a questão da re-reeleição e da duração do mandato presidencial, o que me parece o único caminho aceitável para a re-reeleição. Plebiscitos e referendos são constitucionais e vêm sendo subutilizados no Brasil.
Mas claro que tudo depende do comportamento da mídia nos próximos meses. Se persistir a decisão dos grandes grupos de mídia de tentarem inviabilizar qualquer nome, além do de José Serra, que desponte como forte na disputa da sucessão de Lula, penso que estaremos, novamente, diante de um impasse político-institucional que obrigará o país a estruturar a lei de acordo com a conjuntura. Pior do que inibir o surgimento de novas lideranças progressistas e do que alterar as regras do jogo com este em andamento seria permitir que meia dúzia de bilionários manipule o país a seu bel prazer.
*
Da leitora Vera Pereira:
"Custa-me crer que pessoas experientes e cultas não se dêem conta de que o que de fato “blinda” Lula não é o sigilo de gastos da Presidência (indispensável e constitucional em qualquer país do mundo, pelo que me consta), nem sua base aliada, mas dois fatores convergentes.
De um lado, o extraordinário talento político do presidente, sua incrível “inteligência política” – assim como se fala em inteligência emocional, inteligência musical – e, de outro lado, a incapacidade da oposição de formular um programa de ação alternativo e coerente.
E esse dom de Lula não se manifesta apenas, como insiste a oposição, no carisma, na admirável capacidade de empatia e comunicação com o povo, mas na lucidez de definir algumas prioridades de suas políticas públicas:
1 - A ampliação das relações comerciais para fora da dependência americana;o reforço da integração latino-americana; 2 - a estabilização econômica; 3 - a expansão do mercado interno; 4 - o respeito absoluto à democracia, seja na lide com os setores sociais, seja com a mídia; 5 - a busca da intermediação de interesses de classe em conflito, e acima de tudo, como prioridade máxima, o resgate das condições de vida da população mais pobre, de sua auto-estima e consciência de cidadania.
Isso só não enxerga quem se deixou cegar pela inveja, pelo ódio de classe, pelo interesse egoísta míope que só vê o próprio bolso, e pela falta de “grandes ambições” (como diz Gramsci) ou de visão do país.
A inteligência política de Lula, ao contrário do que alardeia a oposição e o PIG, não lhe caiu dos céus, mas foi aprimorada em quarenta anos de atividade sindical e partidária, na sagacidade para ouvir e aprender com o povo e com aqueles que dispõem dos conhecimentos técnicos e intelectuais que lhe faltam, sobre a qual não faltam depoimentos de quem já discutiu com o presidente.
Evidente que ainda não se vislumbrou no horizonte político de hoje ninguém que possua dom comparável ao de Lula, mas defender que ele é único e insubstituível é uma tese despolitizadora da sociedade nacional, que só serve para estimular a crença de que a esquerda brasileira e o PT, principalmente, não existem, não têm projeto próprio, sobrevivem tão-somente à sombra e à custa de um líder carismático, não são produtos do processo histórico do país, não construíram há décadas raízes profundas na sociedade brasileira, de cujas bases pelo menos grande parte dos petistas provêm, e, portanto, desenvolveram a duras penas uma capacidade de ouvir e de expressar necessidades e opiniões do povo, certamente diversificadas e às vezes antagônicas, porque a sociedade não é e nunca será homogênea.
Acreditam os líderes da oposição, cuja capacidade de análise e percepção política das mudanças que o governo Lula vem imprimindo no tecido social brasileiro parece ter se esgotado precocemente devido às décadas de menosprezo com que as classes dominantes tratam as populações pobres, que basta derrubar o presidente, impedi-lo, definitiva ou provisoriamente, de governar, para retomarem o poder e restaurarem tudo o que o país rejeitou em duas eleições sucessivas. Esquecem, porque não vêem ou não querem ver, que a redistribuição da renda, as políticas sociais, o respeito à cidadania, o prestígio internacional do Brasil, obtidos pelo povo brasileiro durante o governo Lula, são hoje fatos irreversíveis.
Mas como jamais criaram um discurso que “fale ao povo”, recorrem ao velho e desgastado moralismo de classe média, aos centenários “dossiês” e à aliança com os meios de comunicação de massa e seus grandes empresários.
Nesse pôquer em que vem se envilecendo a política e a mídia brasileira nos últimos tempos, com lances espetaculares de factóides, blefes, chantagens e coações, mirando a influir no processo eleitoral, o que me choca é verificar que a cartada mais danosa a longo prazo pode ser a desmoralização de duas instituições essenciais à democracia: os partidos e seus políticos, e a mídia e seus profissionais e órgãos.
Como a oposição imagina que poderá governar sem um Congresso respeitado e que se respeite, com uma imprensa destruída e desmoralizada, ainda que o faça pela via de um golpe inconstitucional ou de um impeachment constitucional?
E o que me espanta ainda mais é que próceres da base e do partido do governo (movidos até, quem sabe, por oportunismo político ou por uma concepção equivocada da conjuntura) se aliem na proposição de um terceiro mandato de Lula sem perceber que essa idéia representa a mesma desqualificação da política, dos partidos e do PT como instituições que a oposição e o PIG desejam fazer.
Pior: significa uma rendição ao medo de perder o governo, uma falta de confiança em tudo o que Lula e seus auxiliares e partidos já construíram no país, uma falta de confiança na firmeza do apoio popular. E uma abdicação do seu dever maior, ante a proximidade do pleito presidencial de 2010, que é o de consolidar um projeto de nação e um programa de governo, discutido e construído internamente ou com possíveis aliados, e apoiar um nome que seja indicado majoritariamente como o mais qualificado para concorrer ao pleito presidencial quando chegar a hora certa.
Mesmo que essa pessoa não tenha 20% das qualidades pessoais de Lula, cabe ao PT e aos partidos aliados defendê-la e apoiá-la em respeito aos laços e compromissos que o governo Lula já criou com grande parte da população brasileira."
A Polícia Federal apreendeu ontem os seis computadores da Casa Civil que teriam sido usados para montar o dossiê sobre os gastos com cartões corporativos e contas B do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e da ex-primeira-dama Ruth Cardoso. Nunca a PF chegou tão perto do gabinete ocupado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva em uma investigação.
Durante a operação da PF, o agitador grevista dos anos 1980 permaneceu o tempo todo de pé, com as mãos encostadas à parede de seu gabinete, com as pernas separadas, juntamente com a ex-terrorista Dilma Rousseff, que foi nomeada pelo governo populista de Lula para comandar o que o grupo terrorista-marxista-leninista-trotskysta-uisquista-sindicalista-petista chama de "Casa Civil", como se o Palácio do Planalto ainda fosse uma instituição da República, como se não tivesse se tornado um sofisticado "aparelho comunista".
Além da apreensão dos computadores, o delegado responsável pelo inquérito, Sérgio Menezes, foi ao Palácio do Planalto para levantar informações básicas sobre o funcionamento do setor de onde partiram informações que alimentaram o dossiê. Na falta dessas informações, foi obrigado a arrestar o presidente Lula e a fichá-lo (vide foto acima). O delegado queria, basicamente, saber quem tinha acesso aos computadores, que tipo de informações passavam pela área e como eram armazenadas. Lula ainda se encontra nas instalações da PF. Há notícias de que está "abrindo o bico".
*
Parece gozação o que você leu acima? Ainda bem que você notou... Fiquei com medo que alguém acreditasse, porque o quadro que o texto anterior pinta dá a impressão de que toda essa gozação aconteceu mesmo. E isso por conta da manchete principal do Estadão de hoje, de que a Polícia Federal "apreendeu" computadores da Casa Civil. E do tom do texto a que a manchete remete.
Lendo a matéria, porém, toma-se conhecimento de que o que o jornalão chamou de "apreensão" não passou de retirada dos computadores da Casa Civil a pedido da Casa Civil. O termo apreensão poderia ser usado na situação fantasiosa que pintei acima, mas nunca para relatar um fato sem importância e ainda numa manchete principal de primeira página. Aliás, o anúncio de que os computadores da Casa Civil seriam periciados pela PF havia sido feito bem antes. Foi uma manchete sobre nada.
Agora, garanto a vocês que alguns dos que vêm a este blog por puro masoquismo, porque não suportam o que eu digo e que seja eu quem o diga, deleitaram-se com a "notícia" em primeiro plano neste post, e provavelmente chegaram a orgasmos ideológicos, se é que existe isso.
*
Pedido de leitor
JOSÉ LUIZ COUTO | São Paulo - Capital | Professor | 09/04/2008 16:38
Oi Eduardo. Dê uma olhada no jornalismo republicano praticado pela TV BRASIL. Estão lá os dois lados: FHC, Heráclito Fortes, Arthur Vigilio a Dilma Roussef, José de Alencar etc. Os fatos falam por si. PS.: Poderia postar este vídeo, abaixo, em destaque para os seus leitores?
A última notícia do caderno Brasil da Folha de São Paulo de hoje permite uma discussão instigante sobre o conceito de liberdade de imprensa dos grandes meios de comunicação privados e sobre que contribuição eles dão para que tal conceito seja válido para todos, inclusive para eles mesmos.
Primeiro, a nota da Folha:
"MÍDIA
Petista critica cobertura da Folha sobre o caso do dossiê
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA
O deputado Fernando Ferro (PT-PE) criticou na tribuna da Câmara a cobertura jornalística da Folha sobre o dossiê com gastos do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (1995-2002). Segundo ele, há confusão de 'liberdade de imprensa com liberdade de empresa'.
O pretexto para a crítica foi uma reportagem da Folha relatando acusação de um ex-funcionário da TV Brasil de que foi demitido por pressão do governo. 'Não se tratou de perseguição política, mas inapetência para o trabalho', disse ele, emendando: 'É curioso que a mesma Folha traz a notícia de que o ombudsman, o jornalista Mário Magalhães, foi demitido por não concordar com o procedimento que a Folha exige, para
que ele não seja muito crítico com o que o jornal escreve.'
Magalhães não foi demitido. Em coluna na Folha, o jornalista afirmou que o contrato não foi renovado por discordância em relação ao fim da publicação na internet da crítica diária do ombudsman à edição. Ele escreveu que teve "liberdade para escrever o que quis'."
Para você que está chegando agora ao planeta Terra e não tomou conhecimento da polêmica ampla contida nessa nota, rememoro alguns fatos.
Fato 1 - No último dia 3 de abril, foi publicada a última "crítica interna" do agora ex-ombudsman da Folha de São Paulo Mário Magalhães. Segundo informações do próprio jornalista, ele não foi demitido, deixou o cargo de ombudsman, mas continuará trabalhando na sucursal do Rio de Janeiro do jornal. Magalhães informa que a condição da Folha para que ele continuasse no cargo era a de parar de publicar sua crítica diária na internet. Essa exigência foi feita pelo jornal no dia seguinte à publicação, no site do ombudsman, de coluna em que teceu fortes críticas à cobertura da Folha na crise do suposto "dossiê", que teria sido feito na Casa Civil da Presidência da República, sobre gastos do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.
Fato 2 - O ex-editor do jornal Repórter Brasil, da TV Brasil, controlada pelo governo federal, Luiz Lobo, foi demitido. Segundo a emissora, ele foi demitido por se recusar a assinar contrato de trabalho e por chegar às 16 horas, quando seu cargo pedia que chegasse antes. Lobo argumenta que foi demitido por não se submeter a censura prévia de seus chefes diretos, que o estariam pressionando sobre seus textos, por exemplo querendo impedir que usasse o termo "dossiê" para se referir aos dados sigilosos da Casa Civil que foram "vazados" para a revista Veja e para a Folha de São Paulo.
O interessante na nota da Folha é que ela não contém nenhuma mentira, mas mente descaradamente. De fato, Magalhães não foi demitido, mas, para continuar ombudsman, teria que parar de divulgar críticas ao jornalismo da Folha na internet, ficando apenas com a coluna na edição impressa do jornal no domingo, na qual jamais conseguiria expor ao público nem sequer uma fração do que expunha. E isso acontece justamente no momento em que o jornal vem travando uma "guerra santa" no caso do que afirma ser um "dossiê" criminoso preparado pelo governo, um momento no qual Magalhães tinha acabado de dar tremenda munição para esse governo ao qualificar a cobertura do jornal, nesse caso, de "unilateral" e "desprovida de fundamentos".
O caso do jornalista da TV Brasil que supostamente (no dizer do demitido) estaria sendo coagido a escrever suas matérias de acordo com orientação política da emissora, pois estaria sendo impedido de chamar os dados sigilosos furtados da Casa Civil de "dossiê", produz uma situação meio esquizofrênica.
Onde é que está escrita a lei que manda chamar os dados sigilosos de "dossiê"? Por que critério pode-se chamar dados que, até prova em contrário, foram FURTADOS da sede do governo brasileiro como sendo compilação de dados desse governo da exata forma como foram divulgados pela imprensa, na forma de um "dossiê"? Não existe, nessa visão, uma interpretação particular da imprensa de que o governo mandou reunir aqueles dados da forma como a revista Veja e a Folha divulgaram? Aliás, onde é que estão as provas de que o governo mandou reunir os dados daquela forma? Ah, não foram conseguidas "ainda", não é? Bem, então não se pode chamar, "ainda", o produto das reportagens da Veja e da Folha de "dossiê".
Mas o mais interessante em tudo isso, é o seguinte: será que há na Folha, que "denunciou" que o jornalista da TV Brasil foi coagido a chamar o "dossiê" de "banco de dados" - ou coisa que o valha -, a ordem aos seus repórteres, colunistas e articulistas de chamarem os dados furtados da Casa Civil de "dossiê"? Alguém consegue localizar na Folha outra referência do jornal aos documentos furtados que não seja a um ainda não caracterizado "dossiê"?
A Folha argumentará que é uma empresa privada e que, por isso, pode escrever o que quiser, pode chamar os dados furtados da Casa Civil como quiser, mas que a TV Brasil é pública, sustentada com dinheiro público, e, por isso, não pode obrigar seus jornalistas a seguirem a visão do comando do veículo de comunicação. Ou seja: a Folha, por ser privada, pode impor ao seu público a sua visão dos fatos, independentemente de estar comprovada ou não essa visão, mas a TV pública tem que... falar a verdade? E o pior, é que "a verdade" é a da Folha, mesmo não estando "ainda" sustentada por provas.
Pelo que entendo de tudo isso, se realmente o jornalista Luiz Lobo foi pressionado a não usar o termo "dossiê" - e não há prova de que isso ocorreu, há apenas a versão do demitido contra quem o demitiu - e, sim, "banco de dados", ou coisa que o valha, tal pressão foi por um jornalismo apartidário, restrito aos fatos. Chamar de "dossiê" o que não se tem prova de que seja isso e não apenas dados pinçados dos arquivos do Palácio do Planalto e retirados de lá criminosamente é que é injunção política. O jornalista que faz isso está tomando partido de uma versão dos fatos que carece de comprovação probatória.
Não se pode dizer, no entanto, que a Folha não saiba o que é um jornalismo isento e atido aos fatos e não a opiniões sectárias. Seu ombudsman a vinha pressionando para que retomasse esse caminho. Ela prefere dizer que Lobo foi demitido porque não seguiu a orientação da TV pública, mas o ombudsman não foi demitido, apenas foi colocado diante da escolha de mutilar seu trabalho em sua quase totalidade.
O que a Folha não explica, é o seguinte: apesar de Magalhães ter dito, em sua coluna de despedida na Folha, que teve "liberdade para escrever o que quis", ele mesmo está enganado. Se tivesse liberdade, o jornal não extinguiria sua crítica diária na internet por estar insatisfeito com o que escrevia, empurrando-o para a demissão. Magalhães teve liberdade até o momento que quis exercê-la. Daí perdeu a liberdade. E o cargo.
Post publicado aqui no último sábado, que teve como tema a hipótese de um terceiro mandato para o presidente Lula, produziu mais de uma centena de comentários. Dezenas e dezenas de leitores, de todas as partes do Brasil, opinaram favorável ou desfavoravelmente sobre uma hipotética re-reeleição do presidente.
Prometi que voltaria ao assunto e, agora, cumpro a promessa. Antes de mais nada, porém, comento que, de sábado para cá, algumas coisas mudaram, ou melhor, podem ter mudado.
Explico: é que o presidente Lula disse ontem que romperá com o PT se for pressionado a disputar um terceiro mandato. Petistas que estão articulando a PEC (Proposta de Emenda Constitucional) da re-reeleição, no entanto, não se dão por vencidos e prometem "convencer" o presidente a disputar a própria sucessão.
Muitos, inclusive os próprios membros do partido de Lula, parecem acreditar que ele só está fazendo "charme". A fala de Lula, se for verdade o que li no UOL, porém, parece-me que pôs fim à questão.
Acho que o presidente é um tipo de homem que não faria esse teatro. Lula não é José Serra, que assinou, a poucos metros de mim, numa sabatina na Folha, em 2004, compromisso de que permaneceria no cargo de prefeito de São Paulo até o fim de seu mandato, se fosse eleito, e depois rompeu a promessa. Lula é um homem sério.
Aliás, dou razão a Lula. Ele já fez muito, já se expôs muito às calúnias, às chacotas, aos insultos, às maledicências, à inveja, sobretudo de seus adversários. Vem sendo saco de pancadas da mídia desde 1989. Expuseram sua família, seus filhos, sua mulher, ridicularizaram-no como puderam, inventaram e continuam inventando todo tipo de mentiras sobre ele... Lula tem o direito de pensar em si depois de 2010.
Contudo, Luiz Inácio Lula da Silva é, antes de tudo, um homem que, a meu juízo, ama seu povo, seu país e que, por isso, talvez tenha que vir a entender que mais de cem milhões de brasileiros precisam da continuidade de seu programa de governo, e que as forças que querem impedir que esse programa tenha continuidade estão dispostas a tudo para lograr seu intento. Talvez Lula não tenha escolha.
Mas vamos ao debate. E esse debate é de vocês, leitores, que, como se poderá constatar abaixo, produziram opiniões de altíssimo calibre. No entanto, por questão de espaço tive que selecionar apenas algumas, as que me chamaram mais a atenção.
Fiquei inclinado a me curvar aos fortes argumentos de ambos os lados. Minha opinião, no entanto, tem que ser uma só. Assim, essa opinião ficará para um último post sobre o assunto, depois que este post gerar outros bons subsídios (comentários) de vossa parte, para que eu possa revelar o efeito que tantas opiniões consistentes causaram na minha própria opinião.
Falem, leitores:
[Antonio Arles] [ São Paulo/SP] [Estudante]
Edu, desta vez vou discordar de você. Não acho apropriado a tese do Terceiro Mandato. É muito melhor o Lula fazer um ótimo governo até o final deste seu segundo mandato, depois eleger um sucessor e ver como as coisas ficam. Se houver risco de o sucessor escolhido por Lula não se reeleger, aí o Lula pode ser candidato novamente. O problema é que, para o Brasil tornar-se realmente um país desenvolvido, as práticas benéficas que o grupo de Lula está fazendo têm que ser mantidas por, pelo menos, 20 anos. Se o Lula for para um terceiro mandato seguido, podem acontecer duas coisas: ou ele vira de vez um sujeito insubstituível, e aí a democracia será ameaçada mesmo, pois não podemos depender de pessoas, mas, sim, de projetos, ou conseguem derrubar ele no terceiro mandato, alegando que é um ditador.
[Moacyr] [Indaiatuba/SP] [Engenheiro] Não sou favorável a um terceiro mandato. Acho necessária a renovação periódica de lideranças políticas, mesmo internamente ao bloco de forças que governa o Brasil no momento.Um candidato apoiado pelo Lula tem totais condições de ganhar a eleição e estará muito mais motivado. Acho que a Dilma crescerá neste episódio e sairá fortalecida inclusive dentro das hostes petistas. E. T.: se o plebiscito for realizado votarei a favor da continuidade, pois aí haverá confronto e o meu lado é o do atual governo.
[Ozias] [Cariacica/ES] [Técnico em meteorologia] Discordo. O PT foi contra na época do FHC e, por uma questão de coerência, eu não posso concordar com uma alteração das regras com o jogo em andamento. Não é por parâmetro alheio que vou aferir o meu. É isso!!
[Andre] [São Paulo/SP] [Estudante] Você tem toda a razão. Zé Araponga Serra não permitirá um jogo limpo. Adotará o mesmo método que adotou contra Roseana Sarney para tirar do páreo qualquer candidato que, do ponto de vista dos tucanos e do polo midiático, possa lhe provocar algum perigo de não ser a próxima pessoa a governar este país. Assim não há outra saída senão a população começar a se movimentar no sentido de, através da legalidade, ou seja, de uma petição popular, autorizar Lula a concorrer novamente. Se Jesus vier a se apresentar como candidato pelo PT, vão acusá-lo de ter comprado um quilo de tapioca na padaria e vão fazer o maior escarcéu em cima disso. Quanto aos recursos minerais dados de mão beijada por FHC, no caso a Vale, nenhuma linha na falsimídia.
[Romério Rômulo] [Ouro Preto/MG] [Professor universitário] Eduardo: a Constituição já prevê mudanças pela via do plebiscito. Não vejo problemas na sua proposta.
[Dário Lopes] [São Paulo/SP] [Consultor de TI] Também era contra a uma possível re-reeleição, pelo temor de que, da mesma maneira que Lula poderia se beneficiar dela, um tucano também poderia. Mas, pelas argumentações apresentadas pelo Eduardo, mudaria minha opinião, até porque é preciso dar um voto de confiança ao eleitorado brasileiro, que talvez já tenha adquirido um grau de discernimento capaz de repudiar veementemente a forma de governar e agir dos tucanos-pefelês. Creio que um governo ao estilo tucano-paulista (onde se concentra o que há de pior nesse partido, se é que há algo bom por lá) não passaria de um mandato, o suficiente para as pessoas perceberem o grau de destruição que trariam à economia e aos serviços públicos. Pela democracia vale sim o terceiro mandato.
[Rosalvo Maciel] [Parobé/RS] [Médico] Meu caro Eduardo: em uma empresa não há "alternância de poder" se a condução dos negócios vai bem. Não vejo por que deva ser cassado o direito de ser votado de um cidadão apenas porque exerceu duas vezes consecutivas a Presidência da República. Creio que a única condição que deve existir é a de que não haja fraude. O resto é deixar o povo decidir se o presidente merece ou não continuar dirigindo a nação.
[Carlos Junqueira] [Rio de Janeiro/RJ] [Engenheiro] Acho o continuismo perigoso no sistema presidencialista, mas não quero os tucanos-pefelês novamente no poder. O país perderia em duas semanas tudo o que conquistou com Lula em oito anos. Penso que Lula deve apoiar um(a) candidato(a) que seguirá com suas propostas e retornar (ou tentar) depois. Sou contra esse terceiro mandato. Mas não acho que quem defenda essa idéia esteja defendendo ditadura ou caudilhismo, como querem alguns "notáveis" do PIG.
[Carlos Junqueira] [Rio de Janeiro/RJ] [Engenheiro] Comentário pinçado do Painel do Leitor, da Folha: "Terceiro mandato - Eu acredito que boa parte dos brasileiros somos contra um hipotético terceiro mandato para o presidente Lula. Mas o que isso tem a ver com democracia ou falta dela em nosso país, como afirmam alguns? Franklin D. Roosevelt foi eleito quatro vezes. Os republicanos, casuisticamente, emendaram a Constituição. Na França, e em vários outros países europeus, não há limite para o número de mandatos do presidente da República. O povo decide. E ninguém diz que nesses países não há democracia. Por que lá é democracia e aqui seria caudilhismo ou ditadura? RAFAELLA KASSEN (São Paulo, SP)" É o que eu penso também.
[Paulo Camargo] [São Paulo/SP] [Professor universitário] A democracia parece ser a questão. Será que o nosso povo só é democrático quando vota nas eleições. A democracia deve ser participativa também, quando a população tensiona o Estado em suas reivindicações. Creio que antes de falar em terceiro mandato, há que verificar o que a sociedade demanda. Ou ela deve sempre se subordinar às leis de Estado?
[Nilza] [Salvador/BA] [Advogada] Indago: O que é democracia? É o sistema político de governo do povo, para o povo e pelo povo. Portanto, sempre considerei antidemocrático proibições à reecandidaturas, seja em que nível fosse. Se existe democracia, deixe que o povo decida...Que falta de confiança no povo! Podem dizer que essa é uma visão ingênua, mas tenho convicção de que, sejam quais foram as decisões que o povo toma, fazem parte do seu processo de amadurecimento político. Até mesmo quando foram induzidos a saírem em passeata apoiando o golpe militar. Portanto, deixem que o povo decida se quer reeleger nosso presidente. Em situação bem adversa, nós, povo, elegemos Lula e depois o reelegemos. Se quisermos, reelegeremos de novo.Mas só se quisermos!
[Vera Pereira] [Rio de Janeiro/RJ] [Professora aposentada] Sou contra. Não é ilegal nem inconstitucional convocar plebiscito para mudar a Constituição ou ouvir a opinião majoritária da nação. Muitas democracias, como a nossa, prevêem essa possibilidade. Zé Alencar apenas comentou o óbvio: com a aceitação que Lula tem no país, o povo até pode querer que ele continue. Não lançou nem endossou a proposta. Mas a idéia é inoportuna e politicamente equivocada neste momento e para esse tema. Embora a oposição tema um terceiro mandato de Lula, teria muito a lucrar com a instalação de uma grande discussão nacional em torno do assunto, que geraria uma enorme bagunça no quadro político nacional, já dominado pela mídia golpista, com repercussões negativas no plano internacional, tudo muito conveniente para quem não tem projeto de nação, proposta alternativa de governo, realizações a demonstrar e discurso para a grande maioria da população, e ainda enfrenta uma visível cisão interna. Pior: seria corroborar as afirmações de que o PT e a esquerda no país dependem de uma só pessoa. O governo tem de achar nomes ou coalizões que permitam avançar, mais que continuar, o que Lula já está fazendo.
[Antonio Carlos Rocha Braga] [Curitiba/PR] [Engenheiro] Eduardo, em tese a alteração da Constituição para um terceiro mandato é válida, desde que seja introduzida por um plebiscito, que é um instrumento válido de consulta ao povo de uma nação. Mas não acho conveniente convocar um plebiscito só para saber se o povo quer "mais Lula". Poderia parecer casuísmo. O certo seria propor, no mesmo plebiscito, uma Constituinte exclusiva para fazer a Reforma Política e Tributária completa, que renovasse os péssimos costumes e estruturas políticas do Brasil, acabando com distorções. Barba, cabelo e bigode.
[André Gruber] [SP/SP/BR] [Avaliador] [10] Caro Eduardo, eu gostaria de enxergar onde está o atentado à Democracia quando se sugere a possibilidade do terceiro mandato. Danoso à Democracia é rasgar a Constituição e demolir o Estado de Direito, como foi feito no passado. Se há previsão constitucional para se alterar, então que o Povo decida. E coloque-se à prova os 65% do Datafolha que são contra um terceiro mandato.
[Luiz Carlos Cavalcante] [São Paulo/SP] [Funcionário Público] Caro Eduardo, acho que o que determina se uma medida é ou não democrática é se o povo a apóia ou não. Se a maioria da população quiser eleger um cidadão seu presidente por duas, três ou duzentas vezes, isso será democrático. Os perdedores sempre irão reclamar, isso é perfeitamente compreensível, mas não quer dizer que eles tenham razão. Aliás, no nosso caso os perdedores não têm razão mesmo. Os perdedores, ou seja, a oposição e o pig não têm moral para falar de democracia. Até porque, eles querem mudar o significado da palavra. Eles acham que, se a maioria da população tomar uma decisão que os beneficie, é democrático, mas, se ao contrário, se ela os prejudicar, será antidemocrático. Isso é que é arrogância. A coisa só é democrática se for a favor deles, do contrário eles podem inventar uma crise por mês, mentir descaradamente, tentar um golpe atrás de outro para tentar derrubar um governo eleito por mais de 60% da população. Logo eles tentarão nos convencer de que a palavra grega “Demo” significa elite, ou PSDB, ou PFL, ou Mídia Golpista. Parece que eles botaram isso na cabeça e passaram a acreditar nisso. Mas nós não precisamos concordar com eles. Nós sabemos que a palavra “Demo” significa Povo e que Kracia significa governo, portanto Democracia significa governo do povo, ou seja, o povo é quem manda. Se o povo brasileiro quiser eleger o Lula por três, quatro vezes, será totalmente democrático. E o choro para a oposição será livre, isso também e democrático.
[Leonardo Luiz Verleun] [Petrópolis] [Empresário] Caro Eduardo, sempre votei no PT e no presidente Lula e vou continuar votando. Mas você não acha que seria mais interessante para todos e para o próprio presidente Lula pensar em 2014? Imagine que este mandato terminaria com altíssima aprovação e 2010 poderia ser um risco, lembrando sempre que FHC incorreu neste erro (com toda a aprovação do PIG) na aprovação da reeleição. Penso que o PIG, PFL e tucanos sabem que não haverá terceiro mandato, mas é mais um factóide e, como tal, vira motivo de discução inócua.
[Ocator] [São Paulo/SP] [Professor] Considero o presidente atual o melhor que o Brasil teve, mas não se pode legislar em causa própria. Isso o colocaria no mesmo nivel dos Cardoso, Menen, Fujimori etc. Não podemos pensar que porque o outro fez ele deve fazer. Acho o Lula um mito e mudar as regras, como aqueles outros fizeram, atentaria contra sua grandeza. Além disso, estar no cargo dá muita força para a reeleição. No caso do Lula isso poderia até ser bom, mas, no caso de outros traficantes de poder, isso seria uma tragédia para o país.
[CARLOS ] [Rio de Janeiro ] [Professor] A oposição é perversa, maligna e profissional e vive "safadeando" os amadores esquerdistas. Uma vez um parlamentar da "base aliada", depois de uma vitória do governo no Congresso, disse que "agora, sim, o governo estava sendo profissional". Pois é isso aí, precisamos ser profissionais, porque lutamos contra forças profissionais. Nós não temos espaços nos jornais do PIG porque eles não são bobos de nos deixarem falar. Eles não estão nem aí para a democracia participativa. Bloqueiam-nos rindo e pronto, " quem vai nos encarar"? Eles nunca cederão nada, a não ser que sejamos, acima de tudo, profissionais. Sem essa de falar de ética para eles. Eles zombam dessa palavra. Quando o presidente LULA encerrar o mandato, estaremos totalmente entregues a essas forças por falta de profissionalismo. O presidente LULA é um fenômeno. Talvez a história o coloque entre os três maiores presidentes que o país já teve. Estaremos órfãos. A mídia sórdida terá mais poder, porque sempre será profissional.
Notícia que acaba de ser publicada no site do Luiz Carlos Azenha sobre alta na aprovação de Hugo Chávez chega num momento em que a mídia vinha reproduzindo pesquisas dos institutos venezuelanos "Datos" e "Alfredo Keller" dando conta de "queda" na popularidade do presidente da Venezuela.
Pesquisando na internet, você descobre que esses dois institutos de pesquisas vêm patrocinando há tempo pesquisas desfavoráveis para o governo venezuelano, referentes a percepção de corrupção etc.
Já o instituto que detectou, segundo notícia no site do Azenha, "Taxa de aprovação de Hugo Chávez superior a 66%", é o "Instituto Venezolano de Análisis de Datos" (Ivad), instituto que, à diferença dos outros dois, costuma acertar previsões eleitorais.
Azenha esteve recentemente na Venezuela, por ocasião do referendo sobre mudança constitucional, e deve saber da confiabilidade desse instituto.
Nos últimos anos, tenho escrito freqüentemente sobre o processo de venezuelização da política brasileira. Eu venho escrevendo que a parte mais dramática desse processo é no que diz respeito às pesquisas de opinião, que, na Venezuela, sempre foram manipuladas, tendo como auge da manipulação a época do referendo revogatório de 2004.
Depois da tentativa de golpe de Estado na Venezuela, e antecedendo o referendo revogatório de 2004, as mídias brasileira e venezuelana davam, insistentemente, notícias de que Chávez tinha somente 30% de aprovação do eleitorado. Publiquei aqui neste blog pesquisa que fiz nos arquivos da Folha de São Paulo entre 2001 e 2004 que mostra que o jornal reiteradamente afirmava isso. Chávez venceu o referendo com 66% dos votos e, até poucas semanas antes da eleição, prevalecia o noticiário sobre ele ter só os tais 30%.
Esses institutos de pesquisa, como o "Datanálisis" ou os tais "Datos" e "Alfredo Keller", estão entre os que sempre trataram de noticiar baixa popularidade de Chávez e são sempre os escolhidos pela mídia brasileira para reportar "impopularidade" do presidente venezuelano.
Divergência gritante e recente entre as pesquisas dos institutos Datafolha e Ibope sobre a sucessão municipal em São Paulo somam-se ao histórico brasileiro de manipulações de pesquisas. Dessas manipulações, destaco as do final de 2005, quando todos os grandes institutos davam que Lula perderia de Serra na eleição presidencial no ano seguinte e que sua popularidade havia sofrido grave golpe com as denúncias do mensalão. As notícias começaram no fim de 2005 e morreram em janeiro de 2006, quando o CNT-Sensus publicou pesquisa que mostrava disparada de Lula em popularidade e na corrida presidencial.
Dali em diante, a mídia parecia ter recuado da falsificação de pesquisas, mas o caso Datafolha X Ibope demonstra que o desespero da mídia aumentou e ela está apelando para qualquer bruxaria possível e imaginável, tendo chegado ao ponto de a Folha praticamente demitir seu ombudsman.
A mídia está pegando pesado. Está extinguindo todos os espaços sobre os quais tem controle e que eram usados para divergir dela. Apagaram o Paulo Henrique Amorim e o ombudsman da Folha. Estão tentando emplacar censura à blogosfera durante a campanha eleitoral, para que só os grandes meios possam fazer suas considerações políticas "isentas".
O processo de venezuelização da política brasileira continua irrefreável, incólume, e chego a temer que ainda não tenhamos chegado à fase do golpe de Estado, pela qual a Venezuela já passou.
Depois da, digamos assim, desconstrução pela blogosfera da última "nova" denúncia da Folha de São Paulo contra a ministra Dilma Rousseff, a própria Folha, a Globo e seu jornal, o Estadão e os demais jornais, rádios, tevês e revistas apêndices deles passaram a atuar em sincronia mecânica entre si.
Foram adotadas, pelos mega meios de comunicação, as seguintes regras:
1 - Manter sempre uma manchete vistosa, seja em jornais ou em telejornais, falando do "dossiê"
2 - Repetir, incessantemente, que o governo "só" quer investigar o vazamento de dados da Casa Civil e não "quem fez o dossiê"
3 - Repetir sempre que "o dossiê da ministra Dilma Rousseff" era "contra o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e sua senhora"
5 - Repetir, sem parar, que "agora" o governo isto, "agora" o governo aquilo, tentando caracterizar inconstância nas declarações governamentais sobre "o dossiê".
6 - Tentar mostrar o governo "acuado", a ministra "desequilibrada" e "assustada" com a "descoberta" dos "planos contra o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e sua senhora"
7 - Selecionar, cuidadosamente, os trechos de manifestações do governo, e evitar ao máximo o assunto Álvaro Dias.
8 - Sempre opinar sobre o assunto, seja em reportagens ou em editoriais.
9 - Tentar construir uma imagem de vítima de FHC e de "sua senhora", de modo a despertar no leitor, no telespectador ou no ouvinte "solidariedade" para com o tucano.
10 - Barrar o contraditório, barrar qualquer racionalização sobre a falta de lógica da tese pró-oposição da mídia
O noticiário unificou-se e intensificou-se no tratamento do furto de dados confidenciais da Casa Civil. Tenta passar a idéia de que uma instituição da República foi afrontada, a "instituição" Fernando Henrique Cardoso. Querem caracterizar o "dossiê contra FHC" como se fosse violação da memória de Tiradentes, por exemplo.
No mundo real, no entanto, pode ser que a grande maioria das pessoas, de todas as partes do país e de todas as classes sociais, esteja achando tão ridículo tudo isso quanto nós achamos. Apesar de a mídia apresentar FHC e "sua senhora" como vítimas, o ex-presidente é um dos políticos mais rejeitados de todos os tempos.
O que acontece é que a mídia aposta na burrice das pessoas. Na falta de memória do povo, em falta de capacidade do povo de se perguntar, nesse caso, "E eu com isso? O que é que FHC fez por mim? Por que tenho que ser solidário com ele?"
Quem choraria por FHC hoje, se ele batesse as botas, além dos barões da mídia? Posso imaginar Frias, Marinho, Civita e assemelhados em fila, em prantos, inconsoláveis diante do esquife do tucano, mas não consigo visualizar o povo fazendo filas para prestar-lhe a última homenagem. Ou será que estou enganado?
Nós, da blogosfera, ao contrário do Partido da Imprensa Golpista (PIG), preferimos apostar na inteligência popular, na capacidade do povo de notar o excesso, a insistência num assunto para o qual ninguém está dando a menor bola. Todo mundo já percebeu a insistência histérica da mídia no assunto. E ninguém agüenta mais ouvir falar em "dossiê" e em FHC. Eles não aprendem a não exagerar.
A mídia tenta criar um clima de opressão, tenta passar a impressão de que pode passar sobre as discordâncias como se fosse um rolo compressor ao impedir qualquer divergência, produzindo, incessantemente, essas manchetes editorializadas. Contudo, em algumas semanas a mídia fará nova pesquisa de opinião para ver se "colou" e, como tem sido a regra, constatará que não colou.
E resta, ainda, a investigação sobre como o senador tucano Álvaro Dias (PSDB-PR) conseguiu tirar aqueles dados da Casa Civil e entregá-los à revista Veja e à Folha de São Paulo. Agora a Polícia Federal está no caso. Ao contrário da impressão que a mídia tenta passar, em bloco, de que a investigação pela PF foi aberta à revelia do governo, isso não é verdade. A mídia está é com medo.
*
Tive uma idéia que quero dividir com vocês. Está mais do que na hora de começarmos a mandar fazer uns adesivos para colocar nos vidros dos carros. Adesivos com frases como:
"Mídia não deixa o Brasil melhorar"
"Globo = FHC = Serra"
"Veja = FHC = Serra"
"Folha = FHC = Serra"
"Estadão = FHC = Serra"
"Mídia quer derrubar Lula"
"Globo quer derrubar Lula"
"Veja quer derrubar Lula"
"Folha quer Derrubar Lula"
"Estadão quer derrubar Lula"
"Que a mídia fale, mas não me cale"
E por aí vai.
Milhares de pessoas estão visitando este blog. Muitos milhares mais visitam a blogosfera. São pessoas de cada canto do país. Grande parte delas concorda com as premissas da blogosfera. Se esta sugestão se espalhar e vingar, poderemos cobrir o Brasil com esses adesivos. É a contra-informação, é David contra Golias, com uma funda mortal, a blogosfera e o boca a boca.
Pare de só reclamar. Converse com as pessoas. Mande fazer os tais adesivos. Faça panfletos. Quem precisar de redação, pode pedir que eu escrevo alguma coisa. Eles querem nos calar e esmagar com suas manchetes monocórdicas? Vamos mostrar a eles que não podem mais fazer isso. Agora o povo tem como se comunicar entre si. Temos a internet, e com ela vamos derrotar o rolo compressor da imprensa golpista.
Há tantos assuntos importantes sobre os quais seria preciso nos debruçar... Pouco falamos de economia, a não ser para contestar alguma nova crise alarmista e inventada ou previsões catastrofistas sem fundamento, porque podem causar danos ao país.
Educação? Só se for nas comparações entre o que era bom ou ruim na época de FHC e o que é bom ou ruim hoje.
Saúde? Inventam epidemias e nos dedicamos a desmenti-las, mas não falamos do assunto como é preciso.
Habitação? Segurança? Mortalidade infantil? Projetos de país? Nada. É só escândalo depois de escândalo.
É preciso mostrar que o Brasil avança, que temos não uma ou duas, mas dezenas de janelas de oportunidades se abrindo e, em vez de tentarmos olhar por elas, ao menos para avaliar a paisagem, ficamos olhando para aquele canto da sala nacional em que uma coisa fica se contorcendo e regurgitando ódio, egoísmo, despeito, preconceito e cobiça.
Pensei nessas coisas depois de ler alguns jornais e grandes portais de internet no decorrer do dia de hoje. O computador fica em minha mesa ligado ininterruptamente e entre um telefonema e outro vou passando os olhos pelo noticiário na internet. Às vezes, por instantes, meu interlocutor ao telefone fica falando sozinho...
Dia após dia tento entender por que não podemos simplesmente aproveitar um momento tão bom para o país e um governo que tem dado certo e, nesse momento, avançaríamos com toda força, todos colocando questões partidárias de lado, fazendo uma trégua para que aqueles que sofrem dores indizíveis possam ser alentados, para que crianças parem de cair no crime, nas drogas, na prostituição, para que estudemos e fiquemos todos mais cultos, não só alguns, pois um país com mais gente culta tem melhores chances de solucionar seus problemas...
Dirão que estou sonhando. Deve ser isso mesmo. Mas, convenhamos, vocês não acham que o que essa gente está fazendo com o Brasil, é um crime?!
Chega a ser espantoso que alguém que se diz brasileiro coloque a política acima do bem estar geral da nação, tentando criar crises de confiança no comando do país nos momentos mais cruciais, quando todos deveríamos, juntos, estar discutindo com seriedade o que é que está falho na administração do Estado, mas sem crucificar ninguém, discutindo soluções, não buscando dividendos sobre adversários políticos.
Olhar o momento magnífico por que passa o Brasil e dizer: "Perdemos décadas sem crescer, aumentando a desigualdade, aumentando todos os problemas que temos hoje, e agora a conjuntura, seja por mérito de quem for, se de Lula ou de FHC, permite-nos uma janela de oportunidade que não surgia nesta parte do mundo havia décadas. Vamos aproveitar logo, pois essa janela pode se fechar a qualquer momento - ou não. O importante, no entanto, é que ela está aí e precisamos nos atirar por ela. De cabeça".
Qual nada. Enquanto tentamos atravessar a ventana, um nos segura pelo braço, outro pela perna e alguém, mais exaltado, pelos cabelos, dizendo: "Se eu não passar primeiro, você não passa". Não querem saber se quem passar pela janela em primeiro ou em segundo lugar irá passar por ela de qualquer jeito e poderá vir a ser o primeiro a passar pela próxima. Não querem. Querem esta, já. São egoístas. Não querem oportunidades para todos. Querem que este continue sendo um país de poucos habitado por muitos.
Danem-se. Vamos passar pela janela de oportunidade que está diante de nós. Eles virão junto. E um dia, quando este país estiver bem melhor, mais justo, mais seguro, mais próspero, mais educado e civilizado, eles nos agradecerão.
O post do último sábado neste blog, devido ao grande número de comentários que gerou, acabou se convertendo em uma espécie de "pesquisa de opinião" sobre a hipótese de um terceiro mandato para o presidente Lula.
Como eu esperava, o tema confirmou-se candente e provocou dissenso até entre aqueles que apóiam o governo Lula. E, claro, contou com um número pequeno daqueles que, por definição, serão sempre contra tudo que venha do atual governo do país.
O debate estabelecido pelos leitores foi magnífico. Opiniões bem construídas, de parte a parte, tornaram a discussão inteligente e de alto nível.
Até a hora em que escrevo isto, o post gerou 113 comentários, sendo 74 deles de pessoas que atenderam à convocação do post e responderam "sim" ou "não" à possibilidade de Lula se candidatar à re-reeleição; 22 pessoas discorreram sobre outros temas e 17 comentários são de considerações adicionais de comentaristas que tinham se manifestado.
O sim venceu com 55 votos, ou seja, 74% dos votos; o não teve 19 votos, ou 26% do total.
A votação por Estado - que, obviamente, não tem valor científico, mas serve para tomar-se o pulso da opinião pública - ficou assim:
Alagoas 1 voto sim
Amazonas 1 voto sim
Bahia 3 votos sim
Brasília 1 voto não
Ceará 1 voto não
Espírito Santo 2 votos sim - 1 voto não
Exterior 1 voto sim
Goiás 4 votos sim - 1 voto não
Minas Gerais 8 votos sim
Paraná 5 votos sim
Pernambuco 3 votos sim - 1 voto não
Rio de Janeiro 5 votos não - 2 votos sim
Rio Grande Sul 4 votos sim
Santa Catarina 1 voto não
São Paulo 20 votos sim - 8 votos não
Contudo, o assunto mal começa a ser tratado neste blog. Nos próximos dias, abordarei aqui as questões levantadas pelos leitores de ambos os lados. Acredito que é assim que poderemos ajudar no debate público sobre tão premente questão. É assim, debatendo com serenidade, seriedade e inteligência questões de interesse público que se exerce, também, a cidadania.
De toda essa massa amorfa de assuntos candentes que estão aí para ser analisados, deslindados e comentados, é preciso pôr alguma ordem em tal caos, de maneira que se possa fazer a dura escolha de um entre esses tantos temas carentes de abordagem.
A escolha, a meu ver, deve sempre recair no que for mais urgente, e, neste momento, é urgente relatar a vocês que o instituto de pesquisas Datafolha acaba de ser contrariado severamente pelo Ibope.
Os dois institutos, num intervalo de dois dias, apresentaram resultados expressivamente diferentes sobre os candidatos à sucessão municipal na capital paulista. A diferença excede a margem de erro das pesquisas.
Vejam os números:
DatafolhaIbope
Marta Suplicy 29% 31%
Geraldo Alckmin 28% 23%
Gilberto Kassab 13% 16%
Por que eu digo que o Datafolha foi posto em xeque? É que o Datafolha publicou sua pesquisa primeiro e o Ibope publicou a sua depois. E daí? E daí que o Ibope não iria escolher manipular sua pesquisa justamente depois de um intervalo de dois dias posteriores à pesquisa de instituto concorrente que deu números totalmente antagônicos.
Testando hipóteses - e temo que esteja começando a gostar de fazê-lo -, poder-se-ia dizer que o Ibope resolveu não entrar na mesma canoa furada do Datafolha e manter a saúde de seu negócio, que é fazer pesquisas de opinião, simplesmente continuando a fazer pesquisas de opinião e não propaganda política, como a concorrência.
Gostaram? Não? É teoria conspiratória? Ok, então eu me entrego: por que é, diabos, que as duas pesquisas apresentam resultados tão diferentes?
De qualquer forma, penso que pode ser a virtual destruição do transporte público em São Paulo, cometida pela gestão Serra-Kassab, a responsável pelo despertar dos paulistanos para o fato de que a cidade piorou muito sob o consórcio tucano-pefelê.
*
Explicação:
Edu, no blog do Mello ele tá dizendo que o Ibope fez a pesquisa antes do Datafolha, mas você pôs que foi depois José Bernardo M Filho | sp | contabilista | 07/04/2008 12:57
Resposta:
Zé, eu não escrevi que o Ibope fez a pesquisa depois, mas que PUBLICOU depois do Datafolha.
Escrevo no momento em que acabo de ser surpreendido pela notícia indigesta, divulgada no blog de Luis Nassif, de que o ombudsman da Folha de São Paulo, Mario Magalhães, deixou o cargo porque não aceitou parar de publicar sua "crítica interna" diária na internet. Pelo que pude entender, o jornal deveria estar pretendendo que o jornalista só se manifestasse na coluna do ombudsman na edição impressa de domingo.
Venho acompanhando o trabalho dos ombudsmans da Folha desde 1998. Li, creio, uns 80% das críticas diárias dos quatro últimos ombudsmans, Renata Lo Prete, Bernardo Ajzemberg, Marcelo Beraba e Mário Magalhães. Com exceção de Lo Prete, que hoje assina a coluna Painel, nenhum dos outros ombudsmans, com a óbvia exceção de Magalhães, escreveu mais no jornal.
Isso se explica porque Ajzemberg, Beraba e Magalhães, à diferença de Lo Prete, que se "comportou bem" e foi mantida, foram críticos duros do jornal. E um dos pontos em que todos eles bateram reiteradamente, durante seus mandatos, foi na diferença com que a Folha sempre tratou petistas e tucanos. Estando o PT na oposição ou no governo ou o PSDB na oposição ou no governo, ambos recebiam o mesmo tratamento diametralmente diferente do jornal em relação a cada um, no dizer desses três jornalistas: mão pesada contra petistas e mão leve (com trocadilho) para os tucanos.
Quero testemunhar, no entanto, que nunca, jamais algum dos ombudsmans da Folha, além de Magalhães, teve a coragem que ele teve de escrever aquela coluna que publiquei aqui no dia 31 de março e que ainda pode ser encontrada nesta página, intitulada "Um dossiê e muitas incertezas". Aquela foi a gota d'água de um trabalho íntegro, irremediavelmente independente, cirurgicamente preciso, impassivelmente sereno e equilibrado desse jornalista com jota maiúsculo que desponta nesta época de tanta escassez desse tipo de jornalista.
Magalhães escreveu, por exemplo, um dos mais importantes textos jornalísticos que juntei à representação do Movimento dos Sem Mídia entregue ao Ministério Público Federal em 17 de março passado, que pede que meios de comunicação, dentre eles a Folha, sejam responsabilizados por promoverem alarma social na questão da febre amarela.
No texto do agora ex-ombudsman da Folha, para que se tenha uma idéia ele chega a comentar, depois de cobrar a conduta alarmista da redação do jornal, que não lhe foi explicado por ela a diferença entre a cobertura serena que o veículo produziu em 2000, quando José Serra era ministro da Saúde e morreram 85 pessoas de febre amarela, e a cobertura histérica deste ano, quando o número de mortes está sendo muito menor.
Magalhães ousou demais. Fez o que nunca outro ombudsman da Folha fez. E o jornal, ao fazer o que fez com ele, desmoralizou o cargo de ombudsman do qual sempre se gabou de ter criado, comunicando aos seus leitores que aquele cargo não é para valer. "Excesso" de transparência e de independência nas críticas, não. Muito democrático. É a cara do PIG. Opaco, autocrático, truculento. E covarde.
*
Leiam, abaixo, a última crítica interna do ombudsman, publicada no dia 3 de abril, no dia seguinte à já antológica coluna "Um dossiê e muitas incertezas". Considerem essa minha homenagem a esse grande jornalista que acaba de despontar no cenário nacional e que alentou minha fé nesse tão nobre ofício que é o jornalismo, que eu só abraçaria se fosse para exercê-lo como faz Mário Magalhães.
Título da Folha na sexta feira passada (alto da pág. A7, edição São Paulo): "Para governo, caso é grave e exige resposta rápida da ministra".
Abertura: "A cúpula do governo avalia que a situação política da ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, se agravou e que ela precisa dar uma resposta rápida. Do contrário, corre risco de cair. Segundo apurou a Folha, essa resposta seria a demissão dos servidores da Casa Civil que elaboraram um dossiê sobre gastos secretos do governo Fernando Henrique Cardoso". Mais: "Um ministro de Lula classificou a informação [sobre o 'documento vazado para a imprensa'] de gravíssima".
Ou a ministra é forte demais e dá de ombros à "cúpula do governo", ou a história, integralmente baseada em fontes não nomeadas, parece não estar bem amarrada. Mais que isso, sugere que adversários de Dilma no governo aproveitaram o anonimato para alvejá-la.
Manchete do "Estado" no domingo: "Planalto vai tirar Dilma da vitrine eleitoral".
É outra informação que, pelo menos até agora, não se confirmou, pelo contrário. Os dois episódios exemplificam os riscos da cobertura das crises e intrigas brasilienses.
Hoje a Folha cometeu, creio, um erro ao omitir na primeira página o confronto de ontem no Congresso. O senador Álvaro Dias admitiu ter visto o dossiê antes de sua divulgação. Dar destaque ao fato não implica tomar partido no noticiário, mas reconhecer a importância da declaração.
O "Estado" titulou na parte superior da capa: "Governistas acusam tucano de vazar dossiê dos cartões".O senador afirmou ontem: "Na segunda, logo após a circulação da revista 'Veja' no domingo, desta tribuna afirmei ter visto o dossiê".
Hoje o título (de sentido dúbio) da Folha é "Aliados pressionam tucano que admitiu ter visto dossiê" (alto da pág. A6). Se Dias conta a verdade, por que a Folha --e o conjunto ou parcela significativa do jornalismo-- não publicou a declaração do senador assim que ele a fez? Por que só agora?
O senador tem razão: ele está protegido por garantia constitucional de não revelar a fonte que lhe permitiu acesso ao dossiê. Essa prerrogativa deve ser defendida pela democracia. Ela assegurou revelações importantes, oriundas de parlamentares, que os cidadãos conheceram por meio do jornalismo.
Dúvida: Dias avisou FHC sobre o dossiê? Se não avisou, como houve chantagem? Quem foi chantageado?
Seis dias atrás, a Folha manchetou: "Braço direito de Dilma montou dossiê".
O relato continua a carecer de comprovação, e o jornal o flexibiliza. Hoje diz que a assessora "deu ordem para a compilação de dados". Ou que ela "assumiu a ordem para a confecção de um 'banco de dados'". O "furo" da sexta virou, também, a "ordem para elaborar o banco de dados".
O banco de dados não é o dossiê. O dossiê de 13 páginas foi elaborado a partir de informações do banco de dados. Pelo menos é o que eu entendi da cobertura.
O quadro "Perguntas e respostas" (pág. A6) confunde, em uma passagem: "A Folha chama o arquivo de dossiê". Até aqui, a rigor, o jornal chamou o relatório de 13 páginas de "dossiê", e não o "arquivo paralelo ao sistema oficial de controle de gastos".
O jornal já afirmou que a Casa Civil assumira a autoria do dossiê (considero como dossiê o relatório de 13 páginas). Na edição de sábado, entretanto, Dilma disse o contrário: sua pasta reconhecia a produção da "base de dados", da qual foram retiradas as informações que constam do dossiê.
Quem contradiz a ministra, hoje, é o seu chefe. Lula afirmou que alguém "roubou peças de um documento de um banco de dados". Ou: "Nunca saberemos quem foi que pegou o documento de um banco de dados e vendeu como se fosse dossiê".
Segundo Lula, as 13 páginas são um documento do "banco de dados". A ministra dissera que as 13 páginas não foram elaboradas por sua equipe, mas confeccionadas por alguém de identidade ignorada a partir de informações classificadas na Casa Civil.
Na sexta, a Folha informou que teve acesso ao dossiê e publicou trecho dele em fac-símile. Por que não permitiu que os leitores conhecessem, pelo menos na internet, a íntegra do documento, para tirarem suas próprias conclusões? O blog do Noblat faz isso agora. Ainda é tempo de o jornal fazer.
O noticiário de hoje reforça a impressão de que governo e oposição se empenham no desgaste mútuo, mas nenhum está, realmente, disposto a investigar os gastos palacianos das gestões atual e passada. Se Álvaro Dias conheceu e repassou? um documento que considerava manipulação de informações sigilosas por funcionário público para fim de divulgação e chantagem, por que não denunciou o fato à Polícia Federal e pediu abertura de inquérito?
O mesmo vale para o governo, que qualificou como criminoso o vazamento de informações da Casa Civil protegidas por sigilo. Por que o Planalto não pediu inquérito à PF? Em vez disso, o Ministério da Justiça se moveu em sentido contrário, para abafar o caso.
Mantêm-se muitas dúvidas. Sobre quem, a partir da dita "base de dados", montou o relatório de 13 páginas. Quem vazou o dossiê para fora do Planalto. E quem fez uso dele --embora essa resposta tenha começado a ser delineada ontem.
Outra incerteza permanece: o dossiê é incapaz de causar dano a FHC; como instrumento de chantagem, é inexpressivo (a não ser, repito, que sinalize o conhecimento sobre outras despesas, cabeludas); ele faz mal, mais que ao governo, a Dilma Rousseff; por que a ministra o patrocinaria?
É bom que o jornal, mesmo com o silêncio da primeira página, tenha recuado na cobertura de tom unilateral.
Como se vê nas páginas da Folha, há mais perguntas que respostas no caso do dossiê.
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Reproduzo, abaixo, os trechos mais relevantes da última coluna dominical de Mário Magalhaes como ombudsman da Folha de São Paulo. Antes, porém, explico que, por ter estabilidade de seis meses no cargo em caso de demissão, conforme é previsto nos estatutos do jornal, Magalhães continuará trabalhando na sucursal da Folha no Rio de Janeiro. Certamente será demitido ou se demitirá quando terminar o prazo de estabilidade - ou antes.
Folha de São Paulo, domingo, 06 de abril de 2008
MÁRIO MAGALHÃES - OMBUDSMAN
Despedida
A Folha condicionou minha permanência ao fim da circulação das críticas diárias na internet; não concordei; diante do impasse, deixo o posto
NO ANO QUE passou, quando as noites de domingo se insinuavam, e tantas famílias saíam para o último passeio do fim de semana, a minha sabia que ficaríamos em casa -ou pelo menos não iríamos todos. Era hora de eu começar a longa e solitária jornada madrugada adentro para terminar de esquadrinhar jornais e revistas. De manhã, com as olheiras a denunciar o sono roubado, leria as edições do dia e escreveria a mais encorpada crítica semanal, a da segunda-feira. Hoje à noite, se alguém me chamar, terá companhia. Esta é a 51ª e derradeira coluna dominical que escrevo como ombudsman da Folha. Assumi em 5 de abril de 2007, e o meu mandato se encerrou anteontem. Embora o estatuto autorize a renovação por mais dois períodos, não houve acordo com a direção do jornal para a continuidade.
A Folha condicionou minha permanência ao fim da circulação na internet das críticas diárias do ombudsman. A reivindicação me foi apresentada há meses. Não concordei. Diante do impasse, deixo o posto. Oitavo jornalista a ocupar a função, torno-me o segundo a não prosseguir por mais um ano. Todos foram convidados a ficar. Sou o primeiro a ter como exigência, para renovar, o retrocesso na transparência do seu trabalho.
A crítica da quinta foi a última que circulou na Folha Online, com acesso a não-assinantes da Folha e do UOL. A partir de agora, os comentários produzidos pelo ombudsman durante a semana só poderão ser conhecidos por audiência restrita, de funcionários do jornal e da empresa, que os recebe por correio eletrônico. Os leitores perdem o direito. Era assim nos primórdios do cargo, criado em 1989. A internet engatinhava. Por oito anos, os leitores puderam monitorar a atividade cotidiana de quem tem a atribuição de representá-los. Não poderão mais.
Regressão
A despeito desse cenário, a restrição imposta configura regressão na transparência. O projeto editorial da Folha diagnostica "um jornalismo cada vez mais crítico e mais criticado". Reconhece que "o leitor fiscaliza a pauta de compromissos" do jornal.
O ombudsman deve ser um instrumento dos leitores. Se 80% dos pronunciamentos semanais ficam inacessíveis (as críticas de segunda a quinta; não escrevo às sextas), reduz-se a fiscalização dos leitores sobre aquele cuja atribuição é batalhar em nome deles. Essa peleja não implica, em um exemplo, advogar o alinhamento do jornal com partidários ou opositores das pesquisas com células-tronco embrionárias, mas incentivar o equilíbrio no noticiário e nos espaços de controvérsia.
O ombudsman incapaz de zelar pela manutenção da transparência do seu ofício carece de autoridade para combater pela transparência do jornal. Como cobrar o que se topou diminuir? A tendência mundial é de expansão da transparência das organizações jornalísticas. A novidade da Folha aparece na contramão.
Diante da gravidade dos fatos, conclamo os leitores deste blog a enviarem e-mail à Folha protestando. O e-mail é leitor@uol.com.br