Voltar para eles

 

 

 

 

 

Pesa-me a consciência quando uso este espaço, que é de todos nós, para extravasar meus sentimentos e idiossincrasias. Os assuntos, aqui, devem ser de interesse público. Rogo, entretanto, que me relevem a fraqueza, porque dessa família da foto já morro de saudades, por poucos que sejam os dias que nos separam.

 

Viesse eu postar qualquer outro assunto aqui e agora, estaria mentindo, pois minha mente está no que motiva estas palavras, minha volta para casa neste sábado, seis dias depois de ter deixado esses seres tão amados.

 

Não deveria nem reclamar. A viagem foi curta. Como os leitores mais antigos sabem, costumo ficar fora sempre duas semanas. Mas aqui, sozinho, hoje, na véspera do retorno ao aconchego do lar, pensei em dividir com vocês a imagem desses que são minha razão de existir.

 

Pena que faltam na foto minha primogênita, a Carla, e seu marido, o Fábio, um outro filho, apesar de que meus filhos biológicos são cinco, incluindo a netinha.

 

Da esquerda para a direita, vocês vêem meu filho André, o prolongador da estirpe dos Guimarães; a minha Cristina, a Tina, minha amada, a mulher de minha vida, que mantém até hoje cada um dos votos que me fez no altar há 28 anos; o Alexandre, esse rapaz fantástico, mais um filho, mas que é noivo de minha filha Gabriela, que vocês vêem ao lado dele; no colo dela, minha quarta filha, Victoria, aquela que cuidarei com alegria até fechar meus olhos de vez; e a Letícia Maria, minha neta, a coisinha mais sapeca que vocês já viram.

 

Ah, e não posso esquecer da Kimie, uma poodle que pensa que é uma pitbull, quando está diante de estranhos, mas que é uma gatinha com a família.  

 

Em 24 horas, a partir da hora desta postagem, estarei com eles. Até lá, contarei cada um dos segundos, minutos e horas que nos separam. A saudade é tanta que chega a doer.



 Escrito por Eduardo Guimarães às 23h14
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Geopolítica e política local

 

 

Leiam o comentário abaixo, feito no post anterior a este. Depois comento.

 

(Max Suel) (São Paulo – SP) (Engenheiro)

E o que me interessa saber disso? Vai mudar o mundo se aquilo se tornar um país? Isso é problema deles. Quero ver agora como aquele vagabundo e bandido Evo Morales, o “zacariasª boliviano, vai se sair dessa. Canalhas!!!

16/05/2008 08:23

 

Vejam bem, tirando a estupidez e o racismo desse sujeito, o que me preocupa é que até as pessoas mais sensatas e de boa índole têm dificuldade de entender as implicações da geopolítica na vida interna das nações.

 

Precisamos começar a entender a interconexão do mundo contemporâneo. Muitos pensam o mesmo: como os acontecimentos políticos num país pobre e sem peso internacional como a Bolívia, interferirão em minha vida?

 

Basta notar que a América Latina inteira vem caminhando política e ideologicamente na mesma direção para se perceber como a indiferença que a política externa gera nos brasileiros é equivocada, produto, talvez, do isolamento em que este país se encontra, não só por conta de seu tamanho, mas por barreiras como cultura e idioma.

 

Noto, por toda internet, que as pessoas se preocupam muito mais com a política paroquial do que com fatos de extrema importância para a América Latina, como os conflitos boliviano ou venezuelano, entre outros.

 

Lembram-se das ditaduras dos anos 1970? Outra prova de que o que afeta a um dos países da região – e, em alguns casos, o fenômeno é mundial - afeta a todos é o fato de que essas ditaduras se abateram em bloco sobre esta parte do mundo.

 

Insisto com vocês neste assunto pouco popular, fora do fla-flu “tucanalhas X petralhas”, porque precisamos começar a enxergar o mundo para além de nossa sala de estar. Só a integração latino-americana nos fará fortes diante das potências estrangeiras, de forma que possamos ficar com parte mais justa do bolo.



 Escrito por Eduardo Guimarães às 11h47
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Governo de Santa Cruz cria

“Assembléia Legislativa”

 

 

 

 

 Prefeito de Santa Cruz, Rubén

   Costas, dá  entrevista em frente

à sede do palácio do governo

 

 

 

Nasce o governo e a Assembléia Legislativa

 

Assumindo competências do Estatuto (autonômico), prefeito de Santa Cruz de la Sierra se converte em governador, e os conselheiros, em deputados estaduais - Hoje, o prefeito Rubén Costas se converteu, oficialmente, em governador, e o Conselho Departamental em Assembléia Legislativa, a mesma que, em uma histórica sessão, a partir das 9 horas, assumirá as competências transitórias do Estatuto Autonômico – aprovado em 4 de maio passado com 85% (dos votos) – para exercer funções legislativas e, em uma antecipação (à cerimônia de hoje), ontem foi criada a Delegação de Comércio Exterior, Exportações e Importações em um ato no Palácio da Prefeitura, no qual reluzia (à porta do palácio) um letreiro dizendo Casa do Governo (...)

 

A notícia que vocês acabaram de ler acima, traduzi de matéria de primeira página de um dos mais importantes jornais bolivianos, o “El Nuevo Dia”, de Santa Cruz de la Sierra.

 

Desci ao lobby do hotel em que estou hospedado em busca de mais detalhes num dos jornais do dia que são colocados à disposição dos hóspedes depois de, enquanto almoçava no restaurante do hotel, ter visto, na tevê de 50 polegadas que há no local, a notícia num telejornal da tevê cruzenha Unitel, a Globo boliviana, que, à semelhança de sua congênere brasileira, faz oposição ferrenha ao governo federal.

 

Notem, na “notícia”, a expressão “histórica sessão”, pois ela reproduz a forma solene com que a tevê anunciou um ato de um governo estadual que, se tivesse maiores conseqüências, constituiria a separação factual de Santa Cruz de la Sierra do resto da Bolívia.

 

Para que se tenha uma idéia, a chamada do telejornal, que me fez ir buscar um jornal impresso para saber mais detalhes, anunciava que acabara de nascer oficialmente “o primeiro estado autônomo da Bolívia”.

 

Se essa notícia fosse verdadeira, não teria nascido um “estado autônomo”, mas um país, porque só um estado nacional pode ter uma instância que regule o comércio exterior. E não foi à toa que o primeiro ato do “estado autônomo” de Santa Cruz foi instalar um órgão de governo que regule o comércio exterior, pois é esse o principal objetivo da tal “autonomia” que quer a oposição ao governo Evo Morales.

 

Os artífices dessa descomunal palhaçada, sem qualquer valor legal ou efeito prático – como demonstrarei adiante -, são grandes latifundiários como Branko Marinkovic, que lidera os devaneios separatistas, ou Osvaldo Monasterio, dono da “Globo” boliviana. Eles decidiram se embrenhar nessa aventura depois que o governo Evo Morales baixou um decreto restringindo as exportações de óleo de soja devido aos altos preços internos do produto, e esses artífices se dedicam exatamente à produção desse produto.

 

Mas o que intriga, mais do que repugna, é o fato de que nada do que aconteceu hoje aqui em Santa Cruz terá qualquer conseqüência prática.

 

Em primeiro lugar, é bom deixar claro que a tal “histórica sessão” transformou em parlamentares estaduais gente escolhida pelo governador de Santa Cruz, Rubén Costas. Eles não foram eleitos, foram designados, são parlamentares biônicos, por assim dizer.

 

O mais importante a ressaltar, porém, é o fato de que nem o pseudo ministério das relações exteriores ou o de comércio exterior são reconhecidos por país nenhum, por empresa nenhuma, nem pelo sistema financeiro boliviano, nem pela ONU, pela OEA e nem, inclusive, pelo próprio governo americano, ou seja, por ninguém além dos tarados que engendraram essa enorme farsa, que está consumindo milhões de dólares nesse processo “autonômico”.

 

Imaginem, por exemplo, que o governo de São Paulo quisesse passar a regular as exportações paulistas e criar representações diplomáticas do Estado. Tudo isso virando as costas para a Constituição brasileira, para os acordos de comércio internacionais etc.

 

Vejam bem, países, para exportar, precisam emitir certificados para as vendas de seus exportadores. A Bolívia, por conta de seus acordos de comércio com outros países, tem que emitir um certificado de cada exportação através de um órgão nacional chamado Senasag. Sem esse documento, os países destinatários das exportações bolivianas não as aceitam.

 

Não vamos nem falar da permissão do ministério do comércio boliviano para cada operação de exportação ou importação, que, neste país, leva o nome de “Poliza de Exportación” (apólice de exportação). Suponhamos que o governador Costas mande capangas – porque a polícia, na Bolívia, é controlada pelo governo federal – prenderem os funcionários da aduana boliviana na fronteira com o Peru, para onde este país exporta vários produtos, e essa “exportação” passe a fronteira do lado boliviano à revelia das leis federais. Se isso ocorresse, a aduana peruana não deixaria a carga passar, pois não reconheceria a validade da documentação.

 

Tem mais: os produtores bolivianos de qualquer produto exportável – no caso, o óleo de soja, centro da polêmica -, diferentemente do que acontece no Brasil, recuperam os impostos pagos na compra de insumos para seus produtos através de um bônus emitido pelo governo federal que pode ser convertido em dinheiro pelo exportador, depois de concluído cada embarque, apresentando o documento a algum banco. Afinal, não se exporta impostos.

 

Ora, nenhum banco aceitaria um bônus emitido por Santa Cruz, porque quem recolhe os impostos e tem o dinheiro para quitar os bônus dos exportadores é o governo central, não os estaduais. Assim, só se os bancos resolvessem pagar os bônus de seus próprios bolsos, o que não acontecerá, porque o sistema bancário já declarou que não irá se insurgir contra o governo central, até porque este tem o poder de cassar licenças de funcionamento de bancos.

 

Toda essa pantomima não levará os cruzenhos a lugar nenhum. Cada vez menos entendo para que serve toda essa encenação. O povo de Santa Cruz está sendo enganado. Pelo menos a maioria. Os empresários que apóiam essa loucura sabem disso. Como se não bastasse, montanhas de dinheiro público estão sendo gastas pelo governo de Santa Cruz num processo inócuo.

 

E o pior é que a imprensa brasileira não diz um A sobre tudo isso. Mas, pelo menos, posso dizer, sem pestanejar, que nem a elite, nem a mídia, no Brasil, são malucas a esse ponto. Como vocês podem ver, nem sempre a grama do vizinho é mais verde.



 Escrito por Eduardo Guimarães às 23h53
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Visita ao ombudsman

 

 

 

 

Contrariando minhas previsões – e a de vários leitores deste blog –, o ombudsman da Folha de São Paulo acabou marcando a reunião que tinha me proposto há algumas semanas.

 

Para os leitores novos, explico que, diante de críticas que andei fazendo ao novo ombudsman da Folha e ao jornal, o homem me convidou para debatê-las pessoalmente consigo na sede do veículo, em São Paulo.

 

Eu havia aceitado o convite, mas ele pedira um tempo para se organizar, pois havia acabado de assumir o cargo. Duvidei de que essa reunião fosse acontecer, mas, pelo visto, enganei-me.

 

Peço aos leitores que tiverem interesse, que formulem questões para que eu apresente a ele. Detalhe: só serão levadas em conta sugestões que se coadunem com as normas da civilidade e da boa educação.

 

Reproduzo, abaixo, a mensagem que recebi hoje de Carlos Eduardo Lins da Silva, o novo ombudsman da Folha, e comento que aceitei o convite para o dia e hora por ele marcados.

 

Caro Sr. Eduardo,

 

poderia recebê-lo no próximo dia 20, terça-feira, às 15h00. Seria possível?


Carlos Eduardo Lins da Silva


Ombudsman - Folha de S.Paulo



 Escrito por Eduardo Guimarães às 18h27
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Questão agrária é matriz

do conflito boliviano

 

  

Juan Carlos: “Essa gente enlouqueceu!”

 

 

O engenheiro Juan Carlos (foto) é o único de meus clientes na Bolívia favorável ao governo do país. É um homem de fala mansa e modos de cavalheiro. Define-se como partidário de uma ideologia que chama de “democracia social de mercado”.

 

Não é ligado a nenhum partido político. Explica suas posições político-ideológicas como decorrentes do horror que sente pela miséria “dolorosa” dos donos do país, os índios. Apesar de ser branco e um homem de posses, emociona-se ao discorrer sobre a situação desse povo tão sofrido.

 

 

14 horas de hoje no centro de Santa Cruz. É hora da “siesta” na Bolívia.

Comércio fechado, ruas vazias. A parada vai das 12 âs 15 horas.

O povo vai para casa dormir e depois volta para trabalhar.

 

 

Por outro ângulo

 

Na verdade, quem se emociona mesmo quando eu e Juan Carlos nos reunimos é este vosso serviçal das letras. E isso porque ele é tão “incompreensível” quanto dizem que sou, ao ousarmos divergir do modo de pensar padrão dos que navegam pelo mundo dos negócios.

 

Hoje (terça-feira), tive o prazer de me reunir novamente com ele. Sabendo que nossas reuniões envolvem bem mais do que meramente negócios, reservei-lhe a manhã inteira.

 

De nossa conversa, resultou a teoria que intitula este texto, ou seja, de que o que realmente quer a elite boliviana é frear o processo decidido de reforma agrária que a aprovação da nova constituição deste país em que me encontro deverá desencadear.

 

Para explicar o que gerou tal conclusão, porém, será preciso reproduzir a troca de idéias que nos levou a ela.

 

Apesar da placidez característica de Juan Carlos, a política incendeia-lhe os olhos, a voz e as demais expressões do rosto. “Essa gente enlouqueceu!”, considera com uma veemência atípica.

 

Não é para menos. Ele até concorda comigo que a idéia do referendo era pressionar o governo para negociar a nova constituição em posição de força, mas explica que a proposta do estatuto econômico é tão absurda que fica difícil entender por que não a formataram de uma maneira que não escandalizasse não só os organismo multilaterais internacionais como a OEA, mas até aqueles que a direita boliviana pretensamente defende.

 

A indiferença da comunidade internacional em relação ao referendo da qual reclamam os opositores de Evo Morales congregou até bancos bolivianos e estrangeiros e as empresas petroleiras transnacionais que atuam na Bolívia. Ambos fizeram questão de declarar publicamente que não fariam nenhum acordo com nenhum governo departamental (estadual). E, de quebra, ainda denunciaram a insegurança jurídica gerada por uma proposta tão absurda que pretendia que a mais alta instância do poder judiciário boliviano fosse a de cada departamento, o que transformaria a suprema corte de justiça do país em mero enfeite.

 

Aliada a essa maluquice, a uma proposta de um tipo de organização institucional que não existe em nenhum país civilizado, transpareceu o evidente intuito fraudulento de um processo eleitoral em que seus organizadores não buscaram nenhuma observação internacional, que se tivesse existido teria provado ao mundo que o resultado de tal processo refletiu a vontade do povo de Santa Cruz.

 

É evidente que os gastos da receita do gás e do petróleo da Bolívia com a empobrecida população indígena desagradam à elite deste país tanto quanto políticas iguais do governo Lula desagradam à elite brasileira, mas nem esta chegaria a se expor a tamanho ridículo diante do mundo só para impedir as cotas para negros ou o Bolsa Família.

 

O grande interesse contrariado pelo governo Evo Morales, num país em que as riquezas estão no solo mais do que em qualquer outra parte, é a promessa desse governo, inserida na constituição do país que está em gestação, de redistribuir terras. Isso fica evidente quando se presta atenção a quem foram os cabeças do referendo separatista de 4 de maio.

 

Vejam o caso de Branco Marinkovic, por exemplo, líder do Comitê Pró Santa Cruz e principal líder da proposta de “autonomia departamental”. Filho de imigrantes yugoslavos, é um dos maiores produtores de óleo de soja da Bolívia e um grande proprietário de terras. Ele não as cultiva todas, mas não quer abrir mão de nenhum pedacinho delas, provavelmente devido a planos de expansão futura de suas plantações de soja.

 

 

Branko Marinkovic

 

Outro que esteve por trás do tal referndo foi Osvaldo Monasterio Añez, empresário de Santa Cruz de la Sierra que é grande criador de gado e produtor de soja. Ele presidiu a Comissão Política Econômica do Senado durante as privatizações bancadas pelo ex-presidente Gonzalo Sánchez de Lozada em seu primeiro mandato, de 1993 a 1997. É dono da rede de tevês Unitel, a equivalente da TV Globo na Bolívia.

  

O que impressiona, tanto na Bolívia quanto no Brasil, é o poder que esse tipo de gente tem de engajar parte tão expressiva da classe média numa luta insana por seus interesses particulares.

 

Sabem aquele gerentinho de banco reacionário, fã ardoroso de FHC e de Serra, leitor de Reinaldo Azevedo e de Diogo Mainardi, da Folha, do Globo, do Estadão ou da Veja, que assiste ao Jornal Nacional e sai repetindo as falas de Willian Bonner como se estivesse dizendo as “idéias” mais originais do mundo? O que é que esse sujeito ganha para defender os interesses dos Marinkovic ou Monasterios?

 

Em geral, são pessoas com instrução, leitoras de jornais e livros, com acesso à internet, mas que, a despeito disso, não conseguem entender que estão sendo usadas. Aliás, quando lhes dizem isso, ficam iradas, muitas vezes ao ponto de partirem, no mínimo, para a agressão verbal. No mínimo.

 

 

Milícia pró autonomia no bairro cruzenho Plan 3000 em 4 de maio

 

Bem, era isso por hoje, pessoal. Ainda quero ver se antes de voltar ao Brasil visito o bairro cruzenho onde ocorreram os maiores conflitos no dia do referendo, e no qual foram detectadas as maiores fraudes eleitorais de 4 de maio. Refiro-me ao bairro paupérrimo Plan 3000. Quero ouvir as pessoas de lá sobre o que aconteceu. Só para contar para vocês.



 Escrito por Eduardo Guimarães às 23h13
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Até quando?

 

 

Do site Vermelho.org:

 

Folha muda de opinião sobre obra para agradar gestão demo-tucana

 

Pode uma obra viária ser duramente criticada em editorial por um jornal, que a qualifica de projeto extravagante e desnecessário, e três anos depois, na sua inauguração, receber os maiores elogios deste mesmo veículo de comunicação? Se esse jornal é a Folha de S. Paulo, isso não só pode acontecer como se tornou realidade, na semana passada, na inauguração da ponte estaiada sobre o rio Pinheiros, na Zona Sul, batizada de Octávio Frias Filho, nome do falecido dono do jornal. 

 

A incoerência da Folha foi revelada pelo blogueiro Luis Favre em post publicado no Blog Leituras Favre.

 

Há três anos, editorial da Folha atacava a construção da ponte, contratada na gestão da ex-prefeita Marta Suplicy. Dizia o jornal na época que o então prefeito José Serra agiu corretamente em deixar de lado a construção da ponte estaiada, por ser uma obra "cara", "desnecessária" e "extravagante".

 

Saliente-se que a gestão Marta licitou a ponte por R$ 147 milhões, mas a "competência administrativa" da gestão demo-tucana fez o custo final da construção saltar para R$ 260 milhões. Além disso, o governo PSDB/DEM pagou R$ 2,2 milhões de multa à empreiteira responsável, por atrasar deliberadamente em 90 dias o início da obra. em 2005.

 

Não bastasse quase duplicar o custo da obra e atrasar a construção, a gestão Serra/Kassab, bem ao estilo tucano de governar, suspendeu a parte socialmente mais importante do projeto, que era a construção de 8.500 moradias populares para as favelas do entorno, assim como a junção com a Imigrantes, desafogando a Av Bandeirante. Do projeto, só a ponte foi concluída após 4 anos da atual gestão. E a justiça teve que intervir para que os moradores da favela Real Parque não fossem despejados sem qualquer moradia, pela administração Kassab.

 

Na última sexta-feira e sábado (data em que a ponte foi inaugurada), a Folha só faltou pedir aos seus leitores para que esquecessem tudo que havia escrito no editorial de três anos atrás. Cobriu de elogios a ponte e destacou que "é a maior obra do governo do democrata Gilberto Kassab" que, "gentilmente" batizaram a ponte estaiada com o nome do dono e falecido fundador da Folha de São Paulo, Octavio Frias de Oliveira.

 

Octavio Frias de Oliveira, carioca nascido em 5 de agosto de 1912, se destacou nos ramos imobiliário e financeiro antes de adquirir a empresa Folha da Manhã, que publica, entre outros, a Folha de S. Paulo. Com ela, construiu um império de comunicação e revolucionou o modo de produção de notícia, industrializando-a.

 

Ele pregava como ideal a imparcialidade, mas tornou seu jornal um dos porta-vozes do conservadorismo e das elites. Combateu bandeiras progressistas e bancou políticas de privatização no país. Seu jornal, hoje, cria factóides e planta crises por não se ver representado no governo federal (ao contrário da situação em São Paulo, onde tem seu candidato a tudo no poder)".

 

Outra homenagem suspeita

 

Além da ponte, para agradar os donos da Folha e retribuir todas as gentilezas e omissões com as quais o jornal brinda o governador tucano desde que ele era colunista do jornal, Serra ordenou que mudassem também o nome do de Instituto Dr. Arnaldo, que passou a ser chamado de Instituto do Câncer de São Paulo Octavio Frias de Oliveira.

 

Assim como a ponte estaiada, o custo da obra do Instituto também cresceu assustadoramente nas mãos da gestão tucana. A obra consumiu R$ 96 milhões entre 1990 e 1994. Outros R$ 170 milhões foram gastos para a conclusão do edifício e a compra de equipamentos hospitalares. Há várias suspeitas de desvio de verbas na construção da obra.

 

Fonte: www.pt.org.br, Blog do Favre e Blog do Petta

 

Leia, abaixo, o editorial da Folha de S. Paulo de 13 de maio de 2005:

 

PROJETO EXTRAVAGANTE

 

É acertada a decisão do prefeito José Serra (PSDB) de retomar as obras que ligam as avenidas Jornalista Roberto Marinho (antiga Água Espraiada) e a marginal Pinheiros, deixando de lado a construção de duas pontes sobre o rio Pinheiros, na zona sul da cidade, previstas no projeto original aprovado pela administração da ex-prefeita Marta Suplicy. A justificativa apresentada por José Serra é que a construção dessas pontes estaiadas (suspensas por cabos de aço) encareceria desnecessariamente a obra.

 

A cautela e a mudança do projeto original são procedentes. Com as pontes endossadas por Marta, toda a empreitada custaria nada menos que R$ 147 milhões. Sem elas, o custo total -que inclui outras alterações na malha viária, além da construção das alças- cai para R$ 85 milhões.

 

É duvidoso, ademais, que a venda em leilões dos Cepacs (Certificados de Potencial Adicional de Construção), títulos que dão direito de construir além dos limites estabelecidos em certas áreas da cidade, possa gerar recursos suficientes para arcar com as despesas previstas inicialmente no projeto. No ano passado, os leilões desses papéis, realizados para angariar fundos para a construção das pontes, não conseguiram amealhar mais do que R$ 35 milhões, soma muito aquém da estimada para a conclusão das obras.

 

Além de cara, a construção dessas pontes suspensas está longe de ser uma prioridade para aquela área da cidade. A ligação da avenida Roberto Marinho com a marginal Pinheiros pode continuar a ser feita, sem maiores transtornos, através de duas outras pontes já existentes a apenas 800 metros do local. Essa circunstância, aliás, torna ainda mais extravagante -e suspeito- o projeto deixado pela gestão petista, para o qual, até aqui, não foram apresentadas justificativas convincentes.



 Escrito por Eduardo Guimarães às 17h03
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Referendo de Evo deixa

oposição desnorteada

 

 

 

No último domingo à noite, a emissora boliviana de Santa Cruz de la Sierra Megavisión apresentou um programa de “debates” políticos chamado “Rayos X” – pronuncia-se raios équis. Coloquei a palavra debates entre aspas porque de debate não vi nada ali.

 

Os quatro convidados do programa foram os deputados do partido de oposição Podemos Antonio Franco e Walter Arrazola, a escritora Centa Reck e o “analista político” Jorge Landivar. Eles não debateram coisa alguma, apenas se limitaram a praticar o esporte preferido da mídia privada de Santa Cruz, descer a lenha no governo Evo Morales, “debatendo” se ele é mais ou menos “corrupto”, “despreparado”, “ditatorial” etc.

 

 

A elegante avenida Monsenhor Riveros, no centro de Santa Cruz

 

Não foi só disso que trataram. Eles disseram muito mais, mas para dizer o que foi é preciso dar algumas explicações antes, explicações que os grandes meios de comunicação brasileiros, que são os que têm estrutura para cobrir detalhadamente a política em outros países, estão escondendo.

 

O fato principal que o programa me revelou é o de que o “referendo autonômico” que ocorreu em Santa Cruz no último dia 4 de maio converteu-se num enorme tiro no pé da oposição ao governo boliviano. Explicarei como percebi isso no programa e como confirmei minhas suspeitas depois, mas garanto que o que acabo de afirmar é o que se ouve aqui em qualquer lugar, em qualquer esquina – menos na mídia, claro.

 

 

Os caros barzinhos da Monsenhor Riveros

 

O que acontece é que Morales reagiu ao referendo sobre autonomia dos estados da rica região da Media Luna  – que fica no lado leste do país e compreende as províncias de Santa Cruz, Beni, Tarija e Pando – com uma medida que surpreendeu a todos e desorientou totalmente a oposição. Para entender como o presidente boliviano fez isso, é preciso, antes, que se entenda a verdadeira razão do referendo oposicionista.

 

O referendo autonômico que já ocorreu em Santa Cruz e ocorrerá nas províncias restantes da Media Luna foi um processo ilegal, tão ilegal que os principais organismos internacionais, como a ONU e a OEA, não reconheceram, o que gerou a desculpa que está sendo usada pela oposição para tal processo não ter sido fiscalizado por observadores internacionais.

 

 

Restaurante El Arriero, onde se reúne a elite cruzenha

 

Mas, então, por que fazer um plebiscito sobre a virtual separação da Média Luna do resto do país se esse referendo não tinha nenhuma validade legal?

 

A intenção oculta era, com uma vitória “esmagadora” do “sim” à autonomia nas quatro regiões mais ricas da Bolívia, colocar o governo central contra as cordas na negociação sobre a nova constituição do país, que está sendo votada desde o ano passado na assembléia constituinte. Não se pretendia separar a Media Luna do resto do país ou implementar de fato sandices como uma “receita federal” estadual, que, como consta do “estatuto autonômico”, passaria a regular as exportações da região, tendo poder até para conceder permissões para exportar, por exemplo.  As forças armadas são totalmente leais a Morales. Elas certamente coibiriam qualquer tentativa de sedição.

 

 

Cliente Sylvia: “Morales promove o racismo”

 

 

   Sylvia em retrato na tela de seu computador com seu

amigo Duston Larsen, o “mister Bolívia”, filho do

    latifundiário que expulsou à bala ministro de Morales

 

 

Só que Morales, num ato de extrema confiança no apoio que tem entre a população, desmontou a “vitória” fraudulenta da oposição em 4 de maio ao propor, poucos dias depois do referendo, que seja feito, em agosto, um outro referendo, só que agora revogatório. Trata-se de uma convocação da população de todo país para decidir se o presidente da república e os governadores de estado devem ou não permanecer nos cargos. E a oposição não tem como recusar o referendo revogatório, pois afirma que Morales é hoje altamente impopular, sobretudo na Media Luna, pois teria perdido o referendo autonômico por margem esmagadora.

 

 

Cliente Gilberto e filhos: “não ganhamos nada com o referendo”

 

O problema é que o referendo revogatório de agosto próximo não apenas será legal, mas contará com os observadores internacionais que o governo de Santa Cruz não quis que fiscalizassem seu referendo separatista e fraudulento. E, pelo que se diz aqui, mesmo nesta parte do país os opositores de Morales foram derrotados, apesar dos tais 85% de vitória do estatuto autonômico.

 

A mídia brasileira não explicou, mas o fato é que antes do referendo autonômico, o governo central, de um lado, e o governo estadual, de outro, propuseram, respectivamente, que a população não fosse votar e fosse votar. Como a abstenção chegou a 40% e – supondo-se que o resultado daquela votação fosse legítimo – 15% votaram pelo não ao estatuto, os que o rejeitaram somaram 55%.

 

 

Eu com meu cliente Freddy: “Fora, collas, menos mamita y papito”

 

Comecei a perceber isso no tal programa “Rayos X” quando, contrariando a lógica de quem tem largo apoio popular, os convidados do programa começaram a atacar frontalmente o referendo revogatório e, como desculpa, disseram que “não queriam” que o processo eleitoral colocasse Morales para fora do poder, porque ele foi eleito legitimamente e, portanto, teria que cumprir seu mandato até o fim.

 

Quando ouvi aquilo, comecei a rir sozinho. Ora, além do fato de que eles fariam até um pacto com o diabo para se verem livres do presidente, esse mesmo grupo político acusou a vitória de Morales em 2005 de ser fraudulenta, mas agora dizem que foi legítima.  Mas a confirmação de minhas suspeitas sobre aquele “legalismo” dos “debatedores” do programa “Rayos X” veio nas visitas que fiz ontem aos meus clientes.

 

Todos os que visitei, no primeiro dia desta semana, são contrários a Morales e dizem que ele não tem mais o apoio da maioria dos Bolivianos, mas não querem o referendo revogatório que, nessas condições, permitiria a eles se verem livres do presidente que detestam. Um deles, porém, reconheceu que não ganharam nada com o referendo autonômico e que ainda podem perder o controle de algumas províncias.

 

Estou há pouco mais de 24 horas na Bolívia e já obtive essa montanha de informações. E fiz isso enquanto fazia meu trabalho (visitando meus clientes) ou assistia televisão. Se a mídia brasileira não nos dá essas informações, ou é muito incompetente ou quer esconder fatos de nós. Que opção vocês preferem?



 Escrito por Eduardo Guimarães às 03h10
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Primeiras impressões

 

 

Viagem extenuante, meus amigos. O vôo foi mais complicado do que eu havia dito. De São Paulo fui a Cidade do Leste, no Paraguai, em escala. Depois a Assunção, onde desembarquei e permaneci por duas horas ­à espera da conexão para Cochabamba, na Bolívia, onde o avião faria uma escala antes de chegar a Santa Cruz de la Sierra. Foram mais de 12 horas em trânsito.

 

Uma das empresas com as quais tenho negócios mandou um funcionário me esperar no desembarque do aeroporto Viru Viru, em Santa Cruz, para me trazer ao hotel. Trata-se de um boliviano branco, de mais ou menos um metro e sessenta e cinco de altura e muitos quilos acima do peso, na faixa dos quarenta e tantos anos.

 

Puxei conversa sobre a situação política. Costumo fazer isso sempre que visito um país. Em geral, são os taxistas que me dão as primeiras impressões políticas, mas o tal Jorge, o motorista que foi me buscar no aeroporto, teve que servir. E serviu.

 

Quando perguntei como estava a situação política, assumiu um tom panfletário e, exaltado, começou a proferir impropérios contra Evo Morales. “Traficante”, “despreparado”, “comunista”, “analfabeto”...

 

Apesar de ter o estereótipo físico da elite cruzenha – branco, com traços europeus -, o homem está longe de ser dessa elite, ao menos economicamente. Trabalha como motorista. Sua revolta contra Evo me pareceu genuína e não produto de um tipo de discurso político que a classe média baixa chilena, por exemplo, adota “oficialmente” para não desagradar os patrões.

 

Logo descobri que o sujeito era petroleiro até que Evo nacionalizasse a produção de gás e petróleo. Segundo ele, foi despedido porque a Petrobrás teria reduzido drasticamente as perfurações depois da nacionalização, em 2005, e, agora, tem que trabalhar como motorista, profissão na qual ganha muito menos.

 

Perguntei se a “autonomia”, aprovada no último dia 4, valia ou não valia, e obtive a resposta de que vale, que logo que ocorrerem os outros referendos nos outros estados que compõem a “Media Luna” (Pando, Tarija e Beni) os impostos serão retidos em cada uma das regiões que supostamente se tornarão  “autônomas”.

 

Esse é um dado importante, porque é óbvio que tal medida não seria aceita pelo governo central...

 

Sobre a convocação de um referendo por Evo no qual os bolivianos serão chamados a dizer se querem ou não que os “prefeitos dos departamentos” (como são chamados os governadores dos estados) e o presidente da República continuem nos cargos, garantiu que não acontecerá, que Evo fala só por falar, porque não terá coragem. Afirmou que o presidente não ganha nem na região da Cordilheira, onde se supõe que tem maior apoio.

 

Então, fiz ao motorista a pergunta que sempre faço aos cidadãos dos países que visito, sobre as razões para gostarem ou desgostarem do governo. Ele hesitou um pouco, mas logo começou a enumerar seus motivos para odiar Evo Morales.

 

Começou dizendo que o dólar caiu muito e, assim, estaria reduzindo a lucratividade das exportações, ou seja, do gás que a Bolívia vende aos vizinhos. Perguntei se achava que Evo era o culpado por isso e, um pouco confuso, o sujeito respondeu afirmativamente, mas sem prolongar o assunto.

 

Perguntei do salário mínimo. Ele disse que é “uma miséria”. Pareceu ficar irritado quando lhe perguntei quanto é hoje e se antes de Evo era mais baixo. Novamente ele desconversou. Insisti na pergunta sobre os valores e ele mudou de assunto. Começou a falar do desemprego e da pobreza, mas voltou a desconversar quando perguntei se antes de Evo era pior.

 

Sem que eu perguntasse sobre o assunto, como que justificando sua aversão a Evo começou a falar da relação dele com Hugo Chávez.

 

Abordou a recente declaração do presidente venezuelano de que atacaria a Bolívia se o presidente constitucional do país fosse derrubado. Explicou-me que Chávez protege Evo porque este o paga “com droga”. Garantiu-me que aviões e mais aviões decolam estufados de “droga” rumo à Venezuela. Perguntei se era cocaína e o homem resmungou alguma coisa que não pude entender. Achei melhor deixar assim.

 

Perguntei, finalmente, se, para ele, seria melhor separar a Bolívia em Ocidental e Oriental, ou Leste e Oeste, e foi aí que pude perceber um viés racista. Respondeu que seria difícil, que resultaria numa guerra civil. Insisti para que me dissesse, sendo possível ou não, se gostaria disso e ele afirmou que seria o melhor, mas que os colhas (os índios) não iriam querer, porque a “Media Luna” os “sustenta” já que toda riqueza está nesta região.

 

O motorista branco – que, segundo me revelou, é descendente de espanhóis -referiu-se aos índios como se fossem de outro país. Afirmou que são a “praga” da Bolívia. Achei melhor não confrontá-lo com o fato de que ele, e os brancos como ele, é que são uma restrita minoria dos bolivianos...

 

Obviamente que não estou contando novidade nenhuma. Todos sabem que boa parte dos cruzenhos repudia Evo Morales e que não são apenas os ricos que repudiam. Creio, porém, que poderei demonstrar a irracionalidade de um discurso que tergiversa, tergiversa, mas não diz as verdadeiras razões da aversão a Evo Morales e ao processo que está implementando no país.



 Escrito por Eduardo Guimarães às 19h43
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