Obama é um político

Este é um dos textos mais importantes que já escrevi. Não pelo que diz e por como diz seu autor, pois a relevância desse conteúdo cabe ao leitor decidir. A importância à qual me refiro é a do assunto que o texto aborda, o processo eleitoral americano.
A luta política exacerbada no Brasil tem feito muitos dos que se interessam por política desprezarem a geopolítica. Há ausência de entendimento de que os embates entre o governo Lula e o consórcio tucano-midiático decorrem, em alguma medida, de um jogo de poder e da exaltação de uma ideologia pelos que se convencionou chamar "falcões de Washington", o grupo político que governa o mais poderoso país em toda história da humanidade e que usa tal poder para intimidar o mundo.
O título que encima estas palavras parece óbvio ao dizer que o candidato do partido Democrata à presidência dos EUA é, no fim das contas, um político. Não é óbvio. O título lembra um fato sobre Barack Obama a fim de atenuar o impacto de notícia sobre a retórica política do candidato democrata durante discurso proferido por ele na sexta-feira na Fundação Nacional Cubano-Americana, em Miami, discurso no qual endossou a invasão do território equatoriano por militares colombianos e recitou a teoria da direita americana, brasileira, venezuelana etc, de que Hugo Chávez seria o capeta, em suma.
A leitura do discurso de Obama, porém, revela diferenças fundamentais entre a visão do democrata e a do presidente Bush e seu candidato à presidência, John MacCain. Tirar conclusões sobre Obama por ele ter dito o que a influente comunidade cubana de Miami queria ouvir, uma comunidade que tem em Fidel Castro e em Hugo Chávez suas concepções, em carne e osso, do diabo, é não perceber que as palavras do democrata não passaram de estratégia eleitoral, e que o conteúdo mais profundo de tal discurso colide com a estratégia bushiana de demonizar o presidente da Venezuela e o regime cubano e de os EUA imporem seus desígnios à humanidade por meio da força.
A retórica eleitoral de Obama não se restringe apenas à comunidade cubana de Miami, um grupo de ex-beneficiários da ditadura de Fulgencio Baptista, posta abaixo por Fidel Castro no ano e no mês em que eu nasci, e de imigrantes cubanos que fugiram para os EUA em busca das delícias do capitalismo, abandonando família e valores para poderem comprar bens de consumo que em Cuba não é possível comprar. O discurso de Obama pretende garantir que, apesar de ele ser negro e filho de imigrantes, irá trabalhar não só para manter a hegemonia e o modo de vida americanos, mas para fortalecê-los.
Obama, no entanto, propõe uma mudança fundamental de rota nas relações dos EUA com o mundo e até na administração dos conflitos sociais internos da potência hegemônica. Para compreender o extraordinário avanço que a candidatura do político democrata pode significar para o mundo se for vitoriosa, há que analisar em profundidade seu discurso de sexta passada.
Os EUA e as três Américas
As promessas dos sucessivos presidentes americanos de se voltarem para a América Latina nunca passaram de retórica. Em época de eleição, prometem tudo que lhes pareça eleitoralmente proveitoso, mas essa atenção dos EUA ao seu quintal nunca passou de conversa mole. Obama, porém, parece diferente, ao menos no perfil.
Barack Hussein Obama Jr. é atualmente senador pelo estado de Illinois. É o único senador com ascendência africana na atual legislatura. Nasceu no Havaí quando seu pai, o economista muçulmano queniano Barack Obama e sua mãe, Ann Dunham, estudavam na Universidade do Havaí. Seus pais se divorciaram quando era pequeno e por quatro anos viveu em Jacarta (Indonésia) com sua mãe e o novo marido, este indonésio. Aos dez anos, Obama voltou a viver no Havaí.
Os outros presidentes dos EUA, ao menos na história recente, tinham como características a pele branca e, no mais das vezes, a origem aristocrática. George W. Bush, por exemplo, nasceu no estado de Connecticut. É filho de George e Barbara Bush. Seu avô paterno, Prescott Bush, foi um influente senador e empresário. É de família rica, representante e adepto do fundamentalismo cristão americano, racista, homofóbico, belicista. Algo como a TFP (Tradição, Família e Propriedade) brasileira.
Creditar as idéias de alguém à sua etnia pode ser bobagem e até racismo, mas não se pode desprezar a influência que a origem de um homem tem sobre suas idéias, sobretudo quando essa pessoa adere ao serviço público. É nesse contexto que cito como Obama abriu seu discurso de sexta-feira em Miami.
"É meu privilégio participar das comemorações do Dia da Independência, esta semana, e render homenagem àqueles que defenderam a liberdade cubana com coragem e convicção. Vou aproveitar essa oportunidade para falar de Cuba e também da política dos EUA em relação às Américas, de maneira mais ampla (...)"
Não desprezem essa promessa tão cedo. Obama fez um discurso profundo defendendo teorias que desagradam profundamente ao fundamentalismo patrimonialista cristão americano e à visão generalizada do povo americano sobre o papel dos EUA no mundo, sobre como preservar a hegemonia da potência nortista. Obama, no discurso em questão, faz propostas que não devem ser encobertas pelos afagos localizados que fez à retórica reacionária anti-Chávez, por exemplo.
Passo a reproduzir trechos reveladores do discurso de Obama.
Exaltação da pluralidade étnica, cultural e geográfica
"De muitas maneiras, Miami é um símbolo de esperança no que é possível nas Américas. A promessa de liberdade e oportunidade de Miami vem atraindo gerações de imigrantes para cá, imigrantes que às vezes trazem nada mais que a roupa do corpo. Foi uma esperança semelhante que fez meu pai atravessar o oceano, em busca da mesma promessa de que nossos sonhos não precisam ser adiados em função de quem somos, qual é nossa aparência ou nosso lugar de origem."
Denúncia do maior fracasso americano
"Colonizados por impérios, [as nações da América] compartilhamos histórias de libertação. Confrontados com nossas próprias imperfeições, nos une o desejo de construir uma união mais perfeita. Embora ricos em recursos, ainda nos falta derrotar a pobreza."
Os EUA e a América Latina
"Se formos sinceros, reconheceremos que em alguns momentos deixamos de tratar a população da região [América Latina] com o respeito que é devido a um parceiro"
Condenação da aventura no Iraque
"Desde que a administração Bush lançou uma guerra equivocada no Iraque, sua política para com as Américas tem sido negligente em relação a nossos amigos, ineficaz com nossos adversários, indiferente aos desafios que importam na vida das pessoas e incapaz de promover nossos interesses na região"
Chávez : produto da incompetência americana
"Não surpreende que demagogos como Hugo Chávez tenham ocupado esse vazio. Seu misto previsível mas perigoso de retórica antiamericana, governo autoritário e diplomacia de talão de cheque oferece as mesmas promessas falsas das ideologias testadas e fracassadas do passado. Mas os EUA estão tão alienados do resto das Américas que essa visão ultrapassada foi aceita sem ser desafiada"
América latina mudou; EUA perderam poder
"A situação nas Américas mudou, mas nós não acompanhamos essa mudança. Em lugar de dialogar com as populações da região, vimos agindo como se ainda pudéssemos ditar regras de modo unilateral"
O que é bom para os EUA
"Minha política com relação às Américas será guiada pelo princípio simples de que o que é bom para a população das Américas é bom para os Estados Unidos. Isso significa medir o sucesso não apenas por acordos entre governos, mas também pelas esperanças da criança nas favelas do Rio"
O diferencial Obama
"Passei parte de minha infância na Indonésia. Era uma sociedade que lutava para conquistar a democracia significativa. O poder às vezes era indisfarçado e indiscriminado. Com demasiada freqüência, o poder vestia uniforme e não respondia ao povo por seus atos. Algumas pessoas ainda tinham bons motivos para temer uma batida em suas portas"
Diplomacia em lugar de ameaças
"John McCain anda percorrendo o país falando do quanto eu quero me reunir com Raul Castro, como se eu estivesse querendo um encontro social. Nunca foi isso o que eu disse, e John McCain sabe disso. Depois de oito anos das políticas desastrosas de George Bush, é hora de fazermos diplomacia direta, com amigos e adversários igualmente, sem condições prévias"
Cuba Libre
"Permitirei imediatamente as viagens de familiares e o envio de dinheiro à ilha [Cuba], sem limites. É hora de deixar que os cubano-americanos se encontrem com seus pais e mães, seus irmãos e irmãs"
Bush tenta derrubar Chávez
"Hugo Chávez é um líder democraticamente eleito. Mas também sabemos que ele não governa democraticamente. Ele fala do povo, mas seus atos promovem apenas seu próprio poder. No entanto, as ameaças vãs da administração Bush e suas tentativas desajeitadas de solapar Chávez apenas o têm fortalecido"
Abaixo o extremismo de Bush
"Washington tem estado presa num pensamento convencional com relação à América Latina e o Caribe. Da direita, ouvimos falar em insurgentes violentos. Da esquerda, ouvimos sobre paramilitares. É um debate previsível que parece algo dos anos 1980 que se congelou no tempo. Ou você é tolerante para com o comunismo ou é tolerante com esquadrões da morte"
Violência não tem ideologia
"A pessoa que convive com o medo da violência não se importa se está sendo ameaçada por um paramilitar de direita ou um terrorista de esquerda; ela não se importa se é ameaçada por um cartel de drogas ou por uma polícia corrupta. Ela se importa apenas com o fato de estar sendo ameaçada e de que sua família não pode viver e trabalhar em paz"
"Direito" de invadir
"Vamos apoiar o direito da Colômbia de atacar terroristas que buscam abrigo seguro para além de suas fronteiras"
Aqui faço um comentário: esse "apoio" a violações de fronteira parece mais retórica eleitoral do que intenção, pois a substituição da força pela diplomacia e cooperação que Obama defende não comportam ações militares ilegais de um país contra o outro.
Usar a força não resolve
"Se há algo que aprendemos com nossa história nas Américas, é que a verdadeira segurança não pode advir unicamente da força"
A guerra que importa
"Uma guerra de tipo diferente é travada todos os dias em toda parte das Américas --não contra exércitos estrangeiros, mas contra a ameaça mortal da fome e da sede, das doenças e da desesperança. Este não é um futuro que devamos aceitar --nem para a criança em Porto Príncipe ou para a família do planalto peruano. Podemos fazer melhor. Precisamos fazer melhor"
A boa globalização
"Não podemos ignorar o sofrimento que ocorre ao nosso sul, nem devemos representar a globalização da barriga vazia. A responsabilidade cabe aos governos da região, mas nós também precisamos fazer nossa parte"
EUA têm que aprender com o Brasil
"O Brasil vem crescendo aos saltos (...) Podemos aprender com os progressos feitos num país como o Brasil e, ao mesmo tempo, fazer das Américas um exemplo para o mundo"
Como tratar a América Latina
"No século 21, não podemos tratar a América Latina e o Caribe como sócio minoritário, do mesmo modo como nossos vizinhos ao sul precisam rejeitar o palavreado bombástico dos fanfarrões autoritários. Uma aliança das Américas só irá funcionar se for fundamentada num alicerce de respeito mútuo. É hora de virar a página da arrogância de Washington e do antiamericanismo em toda a região, que criam obstáculos ao progresso. É hora de ouvirmos uns aos outros e aprendermos uns com os outros"
Abandonar arrogância e ameaças
"Poderemos conquistar o apoio não apenas dos governos, mas dos povos das Américas. Mas isso só será possível se deixarmos o discurso arrogante e ameaçador para trás"
Esperar que um político americano fuja de alguns valores intrínsecos de seu povo é esperar que ele nunca chegue ao poder. No entanto, se compararmos o discurso de Obama com o discurso dos falcões de Washington, podemos perceber claramente que os EUA estão percebendo como o governo Bush solapou a liderança americana no mundo, exacerbou o antiamericanismo e não conseguiu absolutamente nada em troca. Barack Obama é a melhora possível nos EUA. John MacCain, por sua vez, "herói" de guerra, significa a continuidade do belicismo, das ameaças e da arrogância dos falcões de Washington. Prefiro Obama, hoje uma esperança para o mundo.
Escrito por Eduardo Guimarães às 12h24
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Unasul: obstáculo aos EUA

Hoje, em Brasília, durante a abertura da reunião da União de Nações Sul-Americanas (Unasul), o presidente Lula propôs realizar no Brasil, no segundo semestre deste ano, uma reunião com o fim de estabelecer o funcionamento e os objetivos precisos do Conselho Sul-Americano de Defesa
Segundo o mandatário brasileiro, "Os valores e princípios comuns, como o respeito à soberania, à autodeterminação, à integridade territorial dos Estados e à não-intervenção em assuntos internos por parte de outros países devem se articular para a criação do Conselho Sul-Americano de Defesa"
Sobre a assinatura constitutiva do Tratado da Unasur, Lula enfatizou que servirá como instrumento jurídico para avançar em áreas prioritárias como a integração financeira, energética, as melhoras na infraestrutura rodoviária e ferroviária, em uma agenda de cooperação em políticas sociais e no Conselho Energético, entre outras metas buscadas.
Num momento em que a Quarta Frota americana vem fazer não se sabe o que no Brasil e no qual aviões de espionagem americanos invadem o espaço aéreo da Venezuela, a reunião de Brasília pode significar um freio à eterna espada de Dâmocles que pesa sobre várias nações sul-americanas.
Evidentemente que não me refiro à hipótese de toda a América do Sul junta poder se opor ao poder bélico norte-americano em caso de o gigante do Norte inventar umas "armas de destruição em massa" por aqui e, enquanto as procura, aproveitar para mandar para o espaço alguns governantes locais pouco colaborativos, sobretudo com as necessidades petrolíferas de um país que se contorce diante dos preços internacionais do ouro negro.
A possibilidade de resistência gerada pela Unasul encontra vigor na política. Todas essas nações unidas, sobretudo num Conselho de Defesa - que, obviamente, rechaçaria qualquer intervenção armada americana nesta parte do continente, ainda que politicamente - aumenta o custo de eventual intervenção dos EUA.
Vale atenção quanto à posição da mídia no que tange a Unasul. Os poucos ensaios que vi aludem a "perigo" no entendimento sul-americano contra aventuras belicistas da potência hegemônica. O perigo, porém, é para os aventureiros. O perigo de terem que manter suas garras fora desta parte do mundo.
Escrito por Eduardo Guimarães às 16h12
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O inferno são os outros
Esse episódio envolvendo o ombudsman da Folha envolveu-me num processo reflexivo do qual custo a sair. Não é exatamente a indignação - que meus leitores sabem que me atormenta - com o mau uso da comunicação de massas, praga que perdura em todas as partes do mundo, que me pôs em reflexão, mas a idiossincrasia humana, o solipsismo inato de nossa espécie, ou seja, a forma de ver o mundo segundo a qual "só existem, efetivamente, o eu e suas sensações, sendo os outros entes (seres humanos e objetos) partícipes da única mente pensante, meras impressões sem existência própria" [Wikipedia].
Veio-me a mente até esta composição de Branco Mello, Charles Gavin e Tony Bellotto para o grupo musical Titãs:
O Inferno São Os Outros
Não quero rotina, nem disciplina, Não tenho hora, pra ir embora Não vou pro trabalho, não ganho dinheiro Não ando na moda, não olho no espelho
Não tenho endereço, casa, nome e sobrenome Não tenho documento, carro, conta e telefone Se todo mundo acha, que estou errado, eu acho que não Se todo mundo acha que estou louco, eu acho que não
O problema não é meu O paraíso é para todos O problema não sou eu O inferno são os outros, o inferno são os outros
Não tenho amigo, nem inimigo Não me engano mais Ninguém vive em paz Não uso relógio Não escondo a idade Não ouço conselho E nem falo a verdade
Não tenho endereço, casa, nome e sobrenome Não tenho documento, carro, conta e telefone Se todo mundo acha que estou errado, eu acho que não Se todo mundo acha que estou louco, eu acho que não
O problema não é meu O paraíso é para todos O problema não sou eu O inferno são os outros, o inferno são os outros
O conceito do outro contido no existencialismo de Jean-Paul Sartre explica com racionalidade o que a música dos Titãs explica com intuitivismo: "As outras pessoas são fontes permanentes de contingências. Todas as escolhas de uma pessoa levam à transformação do mundo para que ele se adapte ao seu projeto. Mas cada pessoa tem um projeto diferente, e isso faz com que as pessoas entrem em conflito sempre que os projetos se sobrepõem" [Houaiss].
Penso que nessa reflexão filosófica que acabo de expor reside a essência da situação político-ideológica do mundo contemporâneo. A demonização do outro, do contrário, nunca esteve tão em voga.
Alguns dirão que sempre foi assim, que o egoísmo - no fim das contas - sempre foi a característica humana que nos assemelha aos animais. Não tente explicar a um leão ou a um felino doméstico o que é justo quando eles têm que partilhar a mesma comida ou escolherem o melhor sítio para repouso. Não peça a um homem que abrace o projeto comum da humanidade pondo totalmente de lado seus anseios, ambições e instinto de sobrevivência.
O que difere o homem dos animais no solipsismo comum às espécies são as exceções humanas que fazem com que um punhado de homens que se pode contar nos dedos de duas mãos, quando muito, seja capaz de escapar do egoísmo.
E o egoísmo se manifesta de todas as formas e em todas as questões que nos afligem o ato de viver. O egoísmo intelectual provoca o animal dentro de nós, o predador, ansioso por destruir obstáculos - nunca vistos como direitos do outro - de divergir, de pensar diferente.
Saber respeitar o contrário, ver as coisas pelo ponto de vista do que é melhor para todos está ao alcance de muito poucos. A honestidade intelectual de entender que o que é melhor para todos pode ser uma conjunção de pontos de vista e não apenas um deles é rara em nossa espécie, mas existe nela como não existe em nenhuma outra de forma consciente. O espírito comunitário das abelhas, por exemplo, reflete a necessidade de se manterem juntas para se manterem vivas.
Estive com um homem, na quarta-feira passada, que pensa muito diferente de mim. O ombudsman da Folha, Carlos Eduardo Lins da Silva, porém, não é o meu inferno. É alguém de carne e osso. Sua capacidade de encarar a divergência, apesar de divergirmos, fez-me refletir até que ponto eu faria o mesmo. Alguns dirão que essa disposição ao contraditório decorreu de interesses escusos. Eu direi que não tenho certeza disso.
A única certeza que tenho, neste momento de minha vida, é a de que, para cada um de nós, o inferno são os outros.
Escrito por Eduardo Guimarães às 11h25
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Lins da Silva e o Roda Viva
Na recente entrevista que fiz com o ombudsman da Folha de São Paulo, Carlos Eduardo Lins da Silva, ele explicou a razão do convite que me fez para eu ir ao seu escritório conversar consigo. Foi para debater uma crítica que lhe fiz quanto à sua mediação de uma edição do programa Roda Viva, da TV Cultura, pouco antes de ser convidado para ser o novo ombudsman do jornal. Nesse programa, o entrevistado foi o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim. Critiquei o fato de que os entrevistadores do Roda Viva dificultaram a livre manifestação do entrevistado ao interrompê-lo sistematicamente, cassando-lhe a palavra em várias ocasiões e sem que o mediador (Lins da Silva) coibisse esse comportamento.
O ombudsman negou que tivesse feito isso e me chamou para debater o assunto. Como a reunião acabou se transformando na entrevista do jornalista que reproduzi aqui na quarta-feira, ele me entregou uma fita do programa e pediu que eu a assistisse e apontasse onde foi que ele fez o que eu disse que fez. Esta é a razão deste texto. Passo a apontar, agora, a razão de minhas críticas ao simpático e democrático ombudsman da Folha, Carlos Eduardo Lins da Silva, que deu a alguém sem maiores credenciais a oportunidade de questioná-lo de frente, olho no olho.
A edição do Roda Viva em questão teve os seguintes entrevistadores:
Cláudio Camargo, editor de "Brasil" da revista IstoÉ; Marcelo Cavallari, editor de "Internacional" da revista Época; Eliane Cantanhêde, colunista do jornal Folha de São Paulo; Maria Lucia Pádua Lima, coordenadora de Relações Internacionais da escola de Direito da Fundação Getúlio Vargas; Lourival Sant'anna, repórter especial do jornal O Estado de São Paulo; Demétrio Magnoli, sociólogo e especialista em relações internacionais e editor do jornal Mundo, Geografia e Política Internacional.
O programa transcorreu normalmente até meados do segundo bloco. Desde a primeira pergunta da bancada de entrevistadores, no entanto, ficou patente qual era o tema que pretendiam tratar, e a conversa girou em torno do conflito entre Colômbia, Equador e Venezuela por conta da invasão do território equatoriano por um grupo militar de assalto, tudo por ordem do presidente da Colômbia, Álvaro Uribe.
Os entrevistadores que mais se destacaram foram Lourival Sant'anna, do Estadão, Eliane Cantanhêde, da Folha, e o sociólogo Demétrio Magnoli. Destacaram-se, em minha opinião, não devido à pertinência de suas questões, mas pelo tom irônico e professoral usado para se dirigirem ao ministro das Relações Exteriores do Brasil, diplomata com décadas de experiência e reconhecimento internacional amplificado.
Até aí, nenhum problema. O Roda Viva é conhecido pelas posições duras dos mesmos entrevistadores de sempre, da Folha, do Estado, da Veja, do Globo, da Época, da IstoÉ e mais alguns poucos veículos privilegiados, que, no entanto, só são duros quando o entrevistado é ligado ao governo Lula. Até certo ponto do segundo bloco do programa, não haveria por que Lins da Silva intervir, apesar do ridículo de colunistas de jornal quererem dar aulas a um diplomata da envergadura de Amorim falando em nome próprio em vez de citarem fontes credenciadas para suas críticas à política externa nacional.
Contudo, a partir daquela metade do segundo bloco do Roda Viva, a coisa começou a esquentar. Depois de Amorim ter rechaçado as ironias e dado uma explicação eminentemente técnica ao questionamento comum dos entrevistadores supra mencionados, no sentido de que a Venezuela deveria ser excluída do Mercosul devido à retórica "incendiária" de Chávez, Magnoli desferiu a primeira "pergunta" inaceitavelmente desrespeitosa, que, se nesse ponto do programa seu mediador tivesse feito um aparte pedindo comedimento aos entrevistadores, talvez o espetáculo deprimente que se viu a seguir não tivesse ocorrido.
Vejam a "pergunta" do sociólogo Demétrio Magnoli ao chanceler brasileiro:
"O senhor tem a tendência de, quando se coloca a discussão das políticas da Venezuela, dizer que ela é retórica. Eu acho que nós precisamos discutir com os espectadores, com a opinião pública brasileira, de uma maneira transparente. O presidente Chávez, ele declarou... Ele qualificou a Colômbia - eu vou citar entre aspas - como 'Israel da América Latina'- fecha aspas. Qualificou ainda a Colômbia como - abre aspas - : 'Um estado terrorista subordinado ao governo dos Estados Unidos' - fecha aspas. No mesmo pronunciamento, o presidente Chávez disse que a Colômbia... Disse o seguinte: A Ayacucho deste século, é a Colômbia - ele se referiu à batalha de Ayacucho, quando os independistas hispano-americanos, em 1824, derrotaram a Espanha, o general Sucre. Um pouco depois, ele fez um minuto de silêncio em homenagem a Raul Reyes, o 'número dois' das Farc, que foi morto no ataque no Equador, recentemente. Eu não qualifico isso como retórica, qualifico..."
Nesse ponto, houve interrupção de Amorim à pergunta que já se fazia absurdamente longa, parecendo mais um discurso.
Com um gestual caracterizando o que iria ordenar ao ministro, Magnoli ordenou:
"Deixa eu fazer minha pergunta; a minha pergunta é a seguinte... Eu pergunto: isso é ou não é uma interferência de um país sobre um outro país soberano, é ou não é um apoio político da Venezuela à guerrilha degenerada, que mata e seqüestra, na Selva da Colômbia? Será que esse tipo de interferência não exige uma posição do Brasil?"
Amorim respondeu que sim, que exigia "uma posição do Brasil" e que "o Brasil discordou totalmente do presidente da Venezuela em relação às Farc". No entanto, mal havia completado a frase e Magnoli já foi interrompendo uma fala do ministro que ainda não tinha atingido nem a terça parte do espaço que ele concedera à pergunta que lhe estava sendo feita.
"Mas o Brasil não disse que a Venezuela não deve interferir nos assuntos da Colômbia", contestou Magnoli.
Amorim perguntou ao seu agora debatedor se ele queria que o Brasil interferisse nas palavras do presidente Chávez e, encobrindo com a voz nova interrupção de Magnoli, explicou que seu objetivo era buscar a conciliação, e que precisava também se posicionar quanto ao fato de que o presidente da Colômbia "matizou" a questão da integridade territorial dos países e que ele (Amorim) e o presidente Lula não poderiam, a cada momento, ficar discutindo o comportamento de cada um dos chefes de Estado envolvidos num princípio de beligerância.
Magnoli voltou a interromper, mas Amorim não deixou e completou seu pensamento.
Seguiu-se um renitente processo de perguntas-discursos sobrepostas umas às outras, com alguns dos entrevistadores ganhando, aqui e ali, a primazia para interromperem a formulação de respostas pelo entrevistado, que não conseguia falar, sem interrupção, mais do que um minuto ou dois. As interrupções eram sempre de alguém da tríade Cantanhêde, Magnoli, Sant'anna. A entrevista transformou-se num debate no qual Amorim só conseguia formular algumas frases, sendo abafado pelo coro em seguida.
Magnoli começa a monopolizar as interrupções. Não deixa o ministro falar. Amorim, em dado momento, diz exatamente isso a ele: "Você não me deixa falar. Você faz muitas considerações. Você deveria estar sentado aqui e eu, aí.". Então pede para responder sem interrupção. Magnoli, contrariado, abaixa a cabeça e, como que se contendo, passa a escutar.
Com a pausa nas interrupções de Magnoli, o representante da Época faz sua questão. Amorim responde até o fim, agora sem interrupções. A calmaria durou cerca de 5 minutos. Lins da Silva, mediador do programa, chama os comerciais, encerrando o segundo bloco. Não faz uma única menção ao abafamento das respostas do ministro por seus entrevistadores, apesar da reclamação do entrevistado de que não o estavam deixando falar.
Começa o terceiro bloco do programa. Lins da Silva apresenta uma nova questão: a presença do Brasil no Haiti. Em seguida, é apresentada uma reportagem previamente gravada. Ao fim, Lins da Silva faz uma pergunta sobre a pretensão do Brasil de passar a integrar o Conselho de Segurança da ONU, dizendo que essa chance era pequena. Amorim começa a responder. Lins da Silva o interrompe rapidamente. O entrevistado volta a falar. A questão não levanta polêmica como a do conflito entre Venezuela, Colômbia e Equador e o ministro consegue concluir sua fala.
Perguntas de leitores são feitas. O ministro responde até o fim. Sant'anna, do Estadão, volta a fazer afirmações em vez de perguntas. Amorim tenta fazer as suas, Sant'anna faz uma interrupção. Amorim volta a responder até o fim.
Agora é o jornalista da revista IstoÉ que pergunta. Amorim consegue, novamente, concluir seu raciocínio.
Magnoli volta a fazer considerações, mudando de assunto. Fala de direitos humanos e que se orgulha de ter lutado por eles durante a ditadura. Diz que a política brasileira de direitos humanos "nos últimos anos" faz "vistas grossas para violações de direitos humanos nos mais diversos países". Não é uma pergunta, é uma afirmação. Amorim tenta começar a responder, mas Magnoli não dá bola e continua o discurso. E finalmente, depois de mais um extenso discurso, faz uma pergunta ao ministro das Relações Exteriores.
Amorim começa a responder. Magnoli tenta interromper de novo. Amorim não deixa e continua falando. Consegue se manifestar por cerca de um minuto. Outra interrupção de Sant'anna. Amorim pára, ouve e retoma sua resposta. Comentários de Magnoli continuam paralelamente à manifestação do ministro.
A representante da FGV muda de assunto. Agora o assunto é comércio exterior. Lins da Silva complementa a pergunta. Amorim responde até o fim. Nova pergunta sobre o mesmo assunto é feita pelo representante da IstoÉ. Amorim responde e discorre sobre o mérito da política de comércio exterior no Brasil, que o imuniza hoje em relação à crise americana. Magnoli retoma as interrupções, falando junto com o ministro, que tenta falar junto com Magnoli e acaba vencendo a disputa. O terceiro bloco do Roda Viva termina sem que o mediador do programa repreenda os entrevistadores, sobretudo Magnoli, pela conduta deles.
Começa o quarto bloco. O mediador, Lins da Silva, começa aludindo a críticas à gestão do entrevistado, de que estaria tornando o Brasil "fominha" na tentativa de obter cargos internacionais. O ministro começa a responder. À certa altura, Lins da Silva o interrompe. O ministro fala junto com ele por alguns segundos, mas consegue terminar seu raciocínio.
Agora voltam perguntas de telespectadores. O assunto são os brasileiros que estão sendo barrados na Espanha. O ministro dá sua explicação completa. O jornalista do Estadão pergunta se a adoção de retaliação aos turistas espanhóis no Brasil não seria "um tiro no pé". Amorim diz que os jornalistas estão "sempre prontos a defender os interesses de outros países". Levanta-se o coro de vozes interrompendo o que ele ia dizer. Amorim sobrepõe sua voz. Ao fundo ouve-se resmungos.
Magnoli volta a "perguntar" com a ironia que já se caracterizou. Trata do assunto Cuba e direitos humanos. Amorim tenta começar a resposta, pois a "pergunta" do sociólogo já se estende além da conta. Magnoli interrompe. Amorim abre os braços e reclama de que o entrevistador não o deixa falar. Magnoli diz que deixa, então. Amorim começa a responder. Magnoli continua interrompendo. Junta-se a ele o coro de vozes, mas a que sobressai, agora, é a de Eliane Cantanhêde. Sempre no assunto Cuba. Estabelece-se a confusão. Falam o ministro e a jornalista. Ele a deixa concluir e começa a responder. Magnoli volta a interromper. O ministro se irrita e reclama da natureza de suas perguntas. Começa um bate-boca. Os dois falam juntos. Amorim abre os braços e se cala. Ambos recomeçam a falar ao mesmo tempo.
Eliane Cantanhêde propõe nova questão ao ministro e depois lhe ironiza a resposta. Voltam as perguntas de leitores, formuladas por uma jornalista encarregada de recebê-las e formulá-las. Amorim responde até o fim.
O jornalista da IstoÉ volta a perguntar. O assunto: eleições americanas. Amorim responde sem problemas.
A representante da FGV pergunta, porém considerando, com ironia, que o ministro responde de forma "efusiva". Quer saber se o Itamarati continua discreto e conduzindo políticas de Estado e não de governo ou se "não é exatamente isso". Amorim responde até o fim.
IstoÉ volta a perguntar. Amorim responde sem interrupções.
Magnoli volta a perguntar. Quer saber se o Brasil não deveria intervir numa negociação comercial entre Argentina e Uruguai. Voltam as interrupções de Magnoli e do coro de vozes. Amorim se cala até ser possível falar e conclui a resposta.
Cantanhêde se manifesta. Quer fazer uma pergunta que qualifica como "assim bem básica". É sobre a escolha de um diplomata por Amorim para determinado cargo, apesar de esse diplomata "não ter experiência". Ambos começam a falar ao mesmo tempo. Levanta-se o coro de vozes. Cantanhêde continua falando junto com o ministro.
Lins da Silva comunica que o programa está chegando ao fim e faz uma última pergunta, que o ministro deverá responder em 45 segundos. Quer saber se o Brasil não deveria voltar a exportar produções cinematográficas. Amorim responde e o mediador do Roda Viva termina o programa sem um único questionamento às interrupções renitentes que desrespeitaram o ministro das relações exteriores do Brasil.
Escrito por Eduardo Guimarães às 13h58
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Entrevista ao Azenha
Recebi, na noite de hoje (quarta-feira), ligação do Luiz Carlos Azenha. Conversamos longamente. Eu, aqui em São Paulo, e ele, lá emWashington.
É sempre um prazer trocar impressões com o Azenha, mas o objetivo da chamada foi gravar nova entrevista comigo.
Entre o tempo que investimos na entrevista gravada e o papo fora do ar, lá se foi mais de uma hora.
A primeira parte da entrevista você pode conferir clicando AQUI
A segunda parte da entrevista você pode conferir clicando AQUI
A terceira parte da entrevista você pode conferir clicando AQUI
Escrito por Eduardo Guimarães às 22h59
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Ombudsman da Folha
fala ao Cidadania
Alameda Barão de Limeira, centro de São Paulo, pontualmente às 15:20 hs de 20 de maio de 2008. Aproximei-me do balcão da portaria do Jornal Folha de São Paulo, dei meu nome à recepcionista, dizendo que tinha uma reunião com o ombudsman do jornal, Carlos Eduardo Lins da Silva. Fui anunciado por telefone e, em seguida, recebi um crachá e fui convidado a subir ao 8º andar do prédio, sem mais delongas.
O escritório do ombudsman é espartano, bem como os corredores da Folha, como convém a um veículo que se diz "a serviço do Brasil". Lins da Silva é muito simpático. Fala pausadamente, em tom de voz moderado e é um excelente ouvinte.
Optei por iniciar nossa reunião fazendo a ele uma exposição sobre quem era eu e quais eram meus motivos para estar ali. Falei do Movimento dos Sem Mídia, da manifestação do MSM diante da Folha no ano passado, da qual ele disse nunca ter tomado conhecimento, e falei, também, da representação que a ONG fez ao Ministério Público Federal. Finalmente, manifestei as críticas e indagações dos leitores deste blog e minha visão sobre a Folha e o resto da grande imprensa. Fui ouvido atentamente.
Por conta da honestidade intelectual que tanto prezo, sou obrigado a reconhecer que, apesar de várias teorias conspiratórias que surgiram, e as quais eu mesmo cheguei a considerar, não acredito que o convite que recebi de Lins da Silva tenha tido qualquer outra motivação além da que ele alegou.
Devido ao fato de que sou amador em termos de jornalismo, levei para a entrevista um pré-histórico gravador de fita cassete que pedi emprestado. O aparelho, arcaico, gravou em volume extremamente baixo nossa conversa, o que me gerou grande trabalho para fazer sua transcrição. Daí a demora em sair este post.
Reproduzo, a seguir, textualmente, a explicação que Lins da Silva me deu para a razão de seu convite. Antes, porém, explico que essa razão já me tinha sido explicada em e-mail que recebi dele há algumas semanas. Essa razão teria sido crítica que lhe fiz sobre sua atuação como mediador do programa Roda Viva, da TV Cultura, durante uma entrevista concedida pelo ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim.
Eis a explicação do ombudsman:
"Eu o convidei, primeiro, porque eu queria que você me mostrasse onde eu tinha sido parcial na condução da entrevista [com o ministro Celso Amorim] e também por ver uma possibilidade de diálogo que poderia ser enriquecedora para mim e, quem sabe, para você. A fita da entrevista está aqui [entregou-me a fita em DVD] e gostaria que você me apontasse onde eu fui parcial contra o ministro. Eu acho que eu não cometi isso. Eu conheço o ministro há muitos anos, temos uma excelente relação e dias antes, 72 horas antes do programa, ele estava em Washington, ele não tinha que estar em São Paulo aquele dia, ele veio especialmente para o programa. Eu acho, pela reação do ministro e de seus assessores ao fim do programa, que eu não fui parcial, que eu não fui antagônico ao ministro. Todo jornalista tem que ser duro nas perguntas com qualquer entrevistado, porque senão vira assessoria de imprensa, não é jornalismo. Eu acho que fiz algumas perguntas duras, mas eu acho que tentei manter a imparcialidade e coibi alguns ataques que eu achei que eram excessivos, que não deixavam que ele completasse seu raciocínio. Por isso, eu gostaria que você me mostrasse onde foi que eu errei e, se eu me convencesse, se eu vier a me convencer de que eu errei, vou pedir desculpas ao ministro e eu vou rever aquilo que eu fiz. De resto, sobre as observações que você me fez aqui, até agora, eu tenho muitos pontos de concordância e outros dos quais eu discordo. Agora, eu só queria deixar claro para você a minha disposição de ouvir, a minha disposição de pensar. Não sou petista, não sou antipetista, não sou de partido, como você também não é".
Como eu disse anteriormente, a impressão que tive da mediação de Lins da Silva naquele Roda Viva foi a de que ele não coibiu adequadamente as tentativas dos jornalistas ali presentes de impedirem Amorim de se manifestar com tranqüilidade. Não fosse assim, as interrupções, as tentativas de cassar a palavra do ministro, não teriam prosseguido até o último minuto do programa. Entretanto, por desencargo de consciência, obrigo-me a assistir ao DVD que Lins da Silva me entregou, a fim de especificar melhor minhas críticas à sua atuação como mediador daquele programa.
Após a explicação do ombudsman sobre o convite que me fez e sobre qual acredita ter sido sua postura no tal programa, entreguei a ele os comentários dos leitores deste blog e pedi que concedesse uma entrevista ao Cidadania.com, no que fui prontamente atendido. Abaixo, segue nossa conversa. Por enquanto, limitar-me-ei a reproduzir a entrevista. Os comentários sobre as opiniões de Lins da Silva, por enquanto deixo para vocês. Depois, em outro post, farei os meus comentários.
Eis a entrevista que gravei hoje com o ombudsman da Folha de São Paulo.
Cidadania - Eu gostaria de lhe fazer uma pergunta sobre a sua coluna do último domingo. É sobre a Ponte Estaiada, sobre a resposta dada pela redação da Folha de São Paulo sobre sua mudança de posição aparente em relação à obra, porque, em 2005, sobre a obra licitada pela prefeita Marta Suplicy, a Folha a considerou cara e supérflua. Hoje, a administração Gilberto Kassab deu à ponte o nome do patrono do jornal, o sr. Otávio Frias de Oliveira, e a Folha fez uma "belíssima" cobertura, com gráficos, falou sobre a solenidade, com a presença de parentes do sr. Frias, tudo muito bem, fez uma reportagem extensa, com explicações sobre tudo, mas, apesar de você dizer na sua coluna do último domingo que a Folha mantém sua opinião, e que seria descortês ela...
Lins da Silva - Eu não disse, a Folha disse.
Cidadania - Então, a Folha disse... A Folha alega que mantém a sua opinião sobre a obra, mas que não iria fazer uma desfeita ao poder público. Na verdade, esse "poder público" é um grupo político...
Lins da Silva - Não foi isso que disse a Folha, também.
Cidadania - Então vamos ver aqui, na sua coluna de domingo...
Lins da Silva - A Folha não disse que não iria fazer uma desfeita ao poder público. A Folha disse que o poder público iria fazer uma homenagem ao sr. Frias e que não seria o caso de não aceitar a homenagem.
Cidadania - O que você escreveu, Carlos Eduardo, foi o seguinte: "Seria descabido que a Folha e a família Frias rejeitassem uma homenagem ao seu líder". Essas são suas palavras textuais.
Lins da Silva - Minhas, não, da Folha.
Cidadania - Sim, da Folha, conforme você relatou. A explicação da redação, não é isso? Mas, enfim, é o seguinte: não seria o momento para que a Folha reafirmasse suas críticas à ponte na reportagem?
Lins da Silva - Sim, e você sabe que eu disse isso na coluna de domingo. Minha opinião é a de que a Folha deveria, na reportagem, ter feito a mesma observação [contra a ponte] que ela fez anteriormente [em 2005, quando o jornal elogiou a decisão de Serra de suspender a obra, apesar de que ela foi retomada e concluída].
Cidadania - Então você considera que realmente a Folha omitiu [na reportagem sobre a inauguração da ponte Estaiada] essa postura dela pretérita e não deveria ter feito isso.
Lins da Silva - Não, não deveria ter feito isso.
Cidadania - Você tem alguma idéia do por que a Folha fez isso?
Lins da Silva - Não, não tenho. Eu disse, em minha coluna, que a Folha recebeu 23 questionamentos [de leitores]. Mas a Folha não escreveu nenhum editorial dizendo que a ponte é boa, que a ponte foi barata, mas eu acho que a Folha deveria ter colocado na reportagem uma nota dizendo que continua achando que a ponte é supérflua e cara.
Cidadania - Você concorda com a premissa de que se a ponte é supérflua e cara, é uma obra ruim para São Paulo?
Lins da Silva - Não necessariamente. Duas coisas: primeiro, a ponte está pronta. Eu não estou falando em nome da Folha, é minha opinião pessoal. Não teria cabimento pedir que se derrubasse a ponte. Segundo, eu acho que, em princípio, se ela é supérflua e cara, ela é ruim para a cidade, por esse aspecto. Por outro aspecto, ela pode, como estão dizendo, vir a se tornar um cartão postal da cidade. Pode, de alguma maneira, vir a aliviar o trânsito e isso pode ser benéfico.
Cidadania - Porém, Carlos Eduardo, num município de recursos escassos, uma obra que consome 250 milhões de reais, uma obra que consome tantos recursos... Ela está aí? Está aí, mas ela se torna um mau uso de recursos públicos. Não um uso desonesto, mas um uso ruim e incompetente, porque, sempre segundo a Folha, se uma obra "supérflua e cara" foi feita num município carente de recursos, seria dessa maneira. Na sua opinião, associar a imagem do patrono da Folha a uma obra supérflua, cara e que, por conseqüência, é ruim para São Paulo, não é um contrasenso?
Lins da Silva - Acho que essa é uma questão pessoal da família [Frias]. Mas, pessoalmente, eu acho que homenagens, em princípio, não se recusa, a menos que seja uma homenagem, assim, pornográfica. Eu não aceitaria, por exemplo, uma medalha do Pinochet. Eu não tenho uma opinião como ombudsman... Acho que essa é muito mais uma questão da família do que do jornal.
Cidadania - Um outro assunto. Numa entrevista que você deu à Folha no dia 20 de abril [pouco antes de assumir o cargo de ombudsman], você disse que a imprensa brasileira não perdeu a credibilidade, mas perdeu o poder de influenciar politicamente o povo...
Lins da Silva - Eu não disse que não consegue influir, mas que influi menos.
Cidadania - Ok, influi menos, exatamente. Influi menos politicamente. Você deu até o exemplo da eleição do presidente Lula, em que a mídia não conseguiu impedir a eleição do presidente, do que se pode entender que você admite que ela tentou impedir...
Lins da Silva - Eu não disse exatamente assim, eu disse que provavelmente, se a influência fosse maior, o presidente não seria reeleito.
Cidadania - Bem, provavelmente os proprietários da Folha, da Globo ou do Estadão não são, assim, exatamente simpáticos ao governo...
Lins da Silva - Eu não tenho como afirmar isso, peremptoriamente, porque eu não conheço...
Cidadania - Você não tem como afirmar... Você, vendo o viés de toda imprensa, você não vê que há, assim, uma animosidade em relação a este governo?
Lins da Silva - Eu acho que existe uma animosidade em relação ao governo Lula como havia contra o governo Fernando Henrique, contra o governo Itamar, contra o governo Collor...
Cidadania - A posição da Folha contra o governo Lula é igual à que ela tinha contra o governo Fernando Henrique?
Lins da Silva - É muito similar. Para dizer se é igual ou não é igual, teria que se fazer um estudo muito detalhado, porque é muito difícil você ter parâmetros de medição.
Cidadania - Há estudos sobre isso, não é? Há o estudo do Doxa / Iuperj...
Lins da Silva - Eu sou doutor em comunicação. A vida inteira eu me dediquei ao estudo da comunicação.
Cidadania - Mas você conhece esses estudos do Doxa?
Lins da Silva - Conheço.
Cidadania - Certo. Então...
Lins da Silva - Veja, eu acho que existe animosidade contra o governo Lula como eu acho que existia antes. Eu sou testemunha disso por ter trabalhado na Folha durante os governos Sarney e Fernando Henrique.
Cidadania - Confrontado com exemplos que mostrem claramente que o viés, a disposição da Folha de criticar o governo Lula, apesar de este governo estar obtendo resultados muito melhores para o Brasil do que o governo anterior, e se pudesse ser provado para você que a intensidade das críticas ao governo Fernando Henrique era muito menor do que é hoje, você se disporia a reconhecer que a Folha mudou de viés em relação a governos que tiveram resultados diferentes e, por isso, os tratamentos a eles deveriam ser inversos ao que são?
Lins da Silva - Seria preciso ver o estudo, a metodologia...
Cidadania - E, concordando com a metodologia, você assumiria isso publicamente, pois, como ombudsman, seria até sua obrigação. Mas você reafirma que a imprensa mantém a credibilidade, porém perdeu uma parte de sua influência...
Lins da Silva - ...Que eu acho que nunca nunca foi grande.
Cidadania - Nunca foi grande... Você acha que a imprensa, em outros momentos da vida nacional, não teve grande poder de influir nas decisões políticas do povo?
Lins da Silva - Eu digo que [esse poder] sempre foi menor do que as pessoas imaginam. Minha tese de doutorado tenta demonstrar isso e eu acho que demonstra com sucesso. Existe uma farta literatura que eu posso lhe passar.
Cidadania - Você acha que a mídia ajudou a eleger o Collor?
Lins da Silva - Alguma coisa, mas muito pouco. Meu estudo mostra isso.
Cidadania - E em que se baseia esse estudo?
Lins da Silva - Eu posso lhe mandar o estudo.
Escrito por Eduardo Guimarães às 23h39
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Instabilidade sul-americana
e o "diferencial" brasileiro
Olhados isoladamente, os países sul-americanos que, nos últimos anos, optaram por governos de esquerda aparentam estar mergulhados em meros conflitos locais entre progressistas e conservadores. Ao menos é assim que as mídias do continente os têm retratado, o que, à maioria das pessoas, parece produto de embates ideológicos naturais e históricos.
As próprias análises mais aprofundadas da mídia alternativa não explicam ou enveredam por hipóteses mais concretas sobre a origem dos problemas. O que parece que ela diz é que a origem de tudo seria a ideologia e, nesse contexto, as idiossincrasias norte-americanas.
Conhecendo a realidade dos países nossos vizinhos, porém, o que se pode deduzir é que o processo que ocorre em bloco na América do Sul deriva da desigualdade generalizada que, na América Latina, está entre as maiores do mundo, perdendo somente para a da África, onde castas se mantêm vivendo nababescamente às custas da miséria exacerbada da quase totalidade das populações. Nos países africanos, contudo, não há, como na América Latina, uma origem racial na desigualdade, com exceção da África do Sul.
As políticas redistributivas de alguns países sul-americanos, no entanto, têm sido combatidas com tentativas de desestabilização mais ou menos intensas, de acordo com a intensidade da disposição de cada governo de atacar essas desigualdades e, assim, contrariar os detentores locais da parte do leão das riquezas.
Em países como Argentina, Chile e Uruguai, três dos oito países sul-americanos que elegeram governos de esquerda, o processo de redução das desigualdades tem sido mais tranqüilo e a oposição da mídia, mais civilizada. Não se tem notícias de grandes crises políticas que tenham chegado perto de levar à deposição dos governos desses países, apesar de movimentos isolados como o do agronegócio argentino, ocorrido recentemente, mas que diminuiu de virulência, à diferença do que acontece em outros desses oito países, nos quais, em quatro, a situação é mais tensa, e no quinto restante, ainda é cedo para saber que rumo as coisas tomarão.
Esses cinco países restantes são Bolívia, Brasil, Equador, Paraguai e Venezuela. Estes, dividem-se, de acordo com seus embates entre os governos de esquerda e as direitas locais, em três grupos.
Brasil e Equador integram o grupo dos países em que a situação é mais grave do que na Argentina, no Chile e no Uruguai, mas bem menos grave do que as situações do grupo mais crítico, composto por Bolívia e Venezuela, nos quais processos de ruptura institucional já tiveram ou estão tendo curso. E o Paraguai, obviamente, é o país de situação ainda indefinida, apesar de que é possível prever que essa situação irá se agravar. Afinal, a gravidade da concentração de renda, por lá, provavelmente só perde para a da Bolívia e a do... Brasil, o qual, aparentemente, tem uma situação política menos complicada do que a dos vizinhos.
Se eu disser, no entanto, que a gravidade da confrontação de classes - e é disso que se tratam, no fim das contas, os conflitos nos países citados - é maior no Brasil do que até numa Venezuela, em que tentativa de golpe de Estado foi desfechada há quatro anos, ou numa Bolívia, onde um processo separatista explosivo está em curso e pode se converter numa guerra civil se a direita local decidir, além de tentar montar um estado paralelo, montar um exército paralelo, dirão que estou por fora, mas se a análise se der com calma, poder-se-á ver um diferencial importantíssimo que faz do Brasil um país em que as instituições correm grave risco no caso de se tentar implementar um processo de redução da desigualdade mais efetivo e célere, como fizeram os países com situação política supostamente mais instável.
Nos países em que, supostamente, a confrontação político-ideológica é mais grave, ou seja, na Bolívia e na Venezuela, ou no Equador, onde o governo de esquerda tem problemas externos, com a fronteiriça Colômbia e com os EUA, mas goza de grande poder internamente, tendo praticamente destruído a oposição eleitoralmente na eleição de uma Assembléia Nacional Constituinte no ano passado, e muito mais na Argentina, no Chile e no Uruguai, onde a mídia ruge mais baixo e a elite se comporta melhor, até por conta das menores desigualdade e pobreza, bem, apesar de tudo isso os militares de todos esses países adotaram uma linha estritamente legalista.
Hugo Chávez, Evo Morales e Rafael Correa podem até ter oposição e mídia mais virulentas contra si, mas são apoiados incondicionalmente pelas forças armadas. No Chile, na Argentina e no Uruguai, aliás, os crimes das ditaduras dos anos 1960 e 1970 começam a ser punidos e os militares têm chegado até a fazer meas-culpas. E, no Paraguai, ainda não se sabe como eles se comportarão. O Brasil é o único desses países em que os militares ainda rugem e fazem coro com a direita.
Nos últimos anos (inclusive neste), os militares brasileiros têm feito desaforos para o governo. Recentemente, no caso dos conflitos na reserva indígena Raposa / Terra do Sol, as declarações de chefes militares chegaram a soar como ameaça ao governo do país. Hoje mesmo, os militares declararam que "não pretendem desempenhar o papel de guardas florestais" naquela região. Um absurdo, pois eles não têm a prerrogativa de dizer que missões pretendem ou não aceitar, pois a competência final sobre suas missões é, em última instância, do presidente da República, que, constitucionalmente, é o chefe supremo das Forças Armadas.
Como se não bastasse o fato de que os militares brasileiros, diferentemente do que acontece em qualquer dos outros países sul-americanos em que a esquerda chegou ao poder, permanecem sofrendo de comportamentos golpistas, temos ainda uma Suprema Corte de Justiça que vem sendo presidida por aliados políticos da oposição conservadora, gerando insegurança jurídica quanto a decisões que eventualmente viabilizem processos golpistas.
Por incrível que pareça, o diferencial brasileiro na instabilidade sul-americana é o de que neste país temos as condições mais "adequadas" para que um processo de ruptura institucional tenha curso, via, por exemplo, um golpe de Estado, que, novamente, seria desfechado pela direita contra um governo de esquerda sendo amparado pelos militares e pela mídia. Para que esse processo seja desencadeado, basta que, em vez de um conciliador como Lula, tenhamos um presidente de esquerda e de sangue mais quente, como, por exemplo, um Ciro Gomes.
Escrito por Eduardo Guimarães às 23h14
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Reunião com o ombudsman
A semana começa assaz interessante, por assim dizer. Como relatei na semana que passou, nesta terça-feira tenho uma reunião com Carlos Eduardo Lins da Silva, ombudsman da Folha de São Paulo, na sede do jornal, às 15:20 hs da tarde.
O anúncio dessa reunião gerou umas boas dezenas de comentários, contendo "perguntas" que deixarei com o jornalista em questão quando me reunir com ele. Algumas delas, dentre todas as que vocês fizeram, predominaram: afinal, o que é que ele quer comigo? Por que, dentre tantos críticos da Folha, sobretudo blogueiros, fui chamado? E para que fui chamado?
Lins da Silva havia me feito um convite para assistirmos juntos a uma edição do programa Roda Viva veiculada pela TV Cultura pouco antes de ele ser convidado pela Folha para ser seu ombudsman. Naquele programa foi entrevistado o chanceler Celso Amorim. Eu critiquei a condução do programa por Lins da Silva, pois ele não interviu severamente quando os jornalistas do PIG ali presentes mal deixavam o entrevistado exercer seu direito de expressão, sobretudo na condição de entrevistado do programa. O ombudsman diz que não foi assim e quer debater o assunto.
Contudo, como vocês viram no convite que ele me fez e que reproduzi aqui, ele me convidou assinando-se como ombudsman da Folha e para uma reunião na sede do jornal. Ora, é óbvio que aí tem. Sobretudo devido ao fato de que o convidado (eu) é justamente quem tomou a iniciativa de fazer uma representação ao Ministério Público Federal em nome da ONG Movimento dos Sem Mídia, na qual se pede investigação para o que acredito ter sido promoção de alarmismo na questão da febre amarela, uma questão sobejamente conhecida.
São muitos os que têm questionado a Folha e seu novo ombudsman. A virtual demissão do ex-ombudsman Mário Magalhães, que a Folha diz que não demitiu, mas que, a rigor, empurrou para a demissão ao, sob justificativa implausível, retalhar seu trabalho eliminando a publicação de sua crítica interna diária na internet, bem como as primeiras declarações de Lins da Silva, como a de que os blogs não têm importância e de que a mídia perdeu influência, mas não credibilidade, tornarão o debate interessante.
Nesse aspecto, vale a pena ler o que o ombudsman escreveu em sua última coluna dominical, publicada na Folha deste domingo, 18 de maio, e que versa sobre a incoerência do veículo por ocasião da inauguração da "Ponte Estaiada", sobre o rio Pinheiros, em São Paulo, pelo prefeito Gilberto Kassab e pelo governador José Serra. A opinião da Folha mudou radicalmente sobre a obra licitada em 2005 pela prefeita Marta Suplicy, quando, então, foi duramente criticada pelo jornal, mas agora a obra foi coberta de termos edificantes por quem antes a criticava, tendo tais criticas sumido, obviamente devido ao fato de que a administração paulistana deu à ponte o nome do fundador da Folha.
Lins da Silva abordou o assunto em sua última coluna pública. Vejam:
"Folha de São Paulo, domingo, 18 de maio de 2008
por Carlos Eduardo Lins da Silva - ombudsman
A memória da ponte
O ombudsman recebeu 23 questionamentos sobre a cobertura da inauguração da ponte Octavio Frias de Oliveira no domingo passado.
Todas para saber por que o jornal, que três anos antes havia publicado editorial para condenar a obra, agora a noticiava sem nenhuma crítica à construção.
Nas mensagens, era possível perceber motivações diversas. Havia desde pessoas claramente sinceras no seu desejo de esclarecer o que lhes parecia uma contradição até indisfarçáveis articulações de cunho político-partidário.
A Folha teria se poupado desse desgaste previsível se tivesse publicado na página que registrou a solenidade uma simples retranca para lembrar sua posição sobre a obra no passado e agora.
Instada pelo ombudsman, a Secretaria de Redação enviou a seguinte nota: 'A Folha considerou e considera que a obra, dispendiosa, não é prioritária. Essa era a opinião pessoal do próprio sr. Octavio Frias de Oliveira. Hoje, a ponte é uma realidade. Foi completada, aliás, num período em que as finanças da prefeitura melhoraram. Essas considerações não têm relação com o fato de, agora, o poder público homenagear o sr. Frias batizando a ponte com seu nome. Seria descabido que a Folha ou a família Frias rejeitassem uma homenagem a seu líder'.
Parece-me uma explicação justificável. Deveria ter constado do noticiário de domingo. Assim como também poderia ter sido lembrado pela reportagem que a ex-prefeita Marta Suplicy, responsável pelo início do projeto, não foi convidada para a inauguração."
Antes dessas considerações, na primeira parte da coluna de domingo 18 de maio o ombudsman fez a primeira crítica óbvia e inevitável à Folha desde que assumiu. Foi na questão do tratamento que o jornal tem dado ao vazamento de dados da Casa Civil contendo informações sobre os gastos pessoais da família Fernando Henrique Cardoso quando este ocupava o Palácio da Alvorada.
Confiram:
"Jornal não é corte de Justiça
Ao se arvorar na condição de tribunal, a Folha incorre em risco de cometer injustiças, confundir o público e perturbar o andamento da Justiça
IMPRENSA não é tribunal. Quando um veículo de comunicação se arvora nessa condição incorre em risco de cometer injustiças sérias, confundir o público e perturbar o andamento da Justiça.
A Folha trilhou este perigoso caminho ao longo da semana ao designar José Aparecido Nunes Pires como "vazador" ou "responsável pelo vazamento" do dossiê sobre gastos do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, antes mesmo de ele ter sido indiciado pelo crime de violação de sigilo funcional.
O 'Manual da Redação' deste jornal é claríssimo, no verbete 'acusações criminais' (página 155), ao determinar: 'Até que seja condenada em definitivo pela Justiça, a pessoa deve ser tratada como suspeita, acusada, ré ou condenada em determinada instância. Esse procedimento visa evitar prejulgamentos e preservar a imagem de personagens do noticiário'.
Essa resolução tem sido quase sempre estritamente cumprida desde a primeira edição do 'Manual', há quase 25 anos. No passado, nem réus confessos de homicídio foram chamados de assassinos pelo jornal antes do seu julgamento. Desobedecê-la agora é um precedente temerário.
Ao longo da semana, registrei muitas vezes na crítica interna à Redação meu desassossego com o assunto. Requisitei formalmente à Secretaria de Redação que explicasse as razões do procedimento.
A resposta foi que o jornal 'tem certeza' de sua apuração. Para mim, essa justificativa não é aceitável. Decisões sobre culpabilidade de acusados de crimes não se tomam com base em "certezas" de indivíduos.
O comportamento do jornal é particularmente incompreensível por ser concomitante com sua posição editorial exemplar no caso da prisão dos acusados pela morte da menina Isabella.
Em 9 de maio, a Folha definiu assim o que chamou de 'humilhação' a que foram expostos o pai e a madrasta da garota: 'punição cruel e indelével, impingida antes e a despeito do pronunciamento da única fonte legítima para atribuir culpa neste caso, o Tribunal do Júri.'
Se o jornal acusa a Justiça de prejulgamento do casal, o que deve fazer em relação à sua própria atitude de resolver, porque tem 'certeza' de sua apuração, que José Aparecido Nunes Pires é culpado antes do indiciamento?
Uma tentativa para compreender essa evidente contradição poderia ser supor que haja diferença qualitativa de tratamento para acusados de crimes 'violentos' e acusados de crimes 'políticos'.
Não creio que essa distinção seja cabível. Ao contrário até: crimes cometidos por motivação política deveriam ser tratados de maneira ainda mais cuidadosa pelo jornalismo, devido aos danos institucionais que podem resultar deles e da maneira como a sociedade lida com eles.
As relações entre jornalistas e agentes do Ministério Público e da Polícia Federal em casos que envolvem política são extraordinariamente complexas e freqüentemente deletérias. Vazamentos seletivos de informações têm sido feitos por motivações diversas: da busca da notoriedade à promoção de ideologias, partidos ou grupos corporativos com a conseqüência, às vezes, de vidas e reputações arrasadas injustamente."
Vão-se os anéis, ficam os dedos. Como vocês puderam perceber, para "absolver" a Folha da vergonhosa incoerência na questão da ponte Estaiada, o ombudsman faz ao jornal algumas críticas que podem ser melhor relativizadas. O objetivo é aparentar "isenção" que o credencie a decretar a "plausibilidade" de a Folha criticar duramente a obra ontem e endossá-la hoje.
A contradição é escandalosa. Ontem, a Folha descia o pau na obra; hoje, comparece em peso para prestigiá-la. Não faltou só a Folha esclarecer que antes criticava a obra, faltou também ser coerente com o que o ombudsman diz continuar sendo sua opinião, ou seja, dizer, na reportagem que tratou da inauguração, que a obra é "cara e desnecessária". O momento da inauguração teria sido perfeito para denunciar não só o que o jornal diz que é desnecessário e caro, mas a ultrapassagem expressiva do custo previsto do projeto.
Acompanhei intensamente o trabalho dos três ombudsman anteriores a Lins da Silva. Com o antepenúltimo, Bernardo Ajzemberg, a relação foi além. Em 2002, ele me indicou, junto com mais dois leitores da Folha, para representar o leitorado do jornal nas sabatinas dos presidenciáveis Lula, Serra, Garotinho e Ciro Gomes no teatro Folha. Com Marcelo Beraba, o penúltimo, apesar de não ter estabelecido um contato mais estreito pude me aprofundar bem em seu trabalho. E com Mário Magalhães o contato foi ainda mais superficial, mas todos lhe acompanhamos o trabalho com grande atenção e admiração.
Não adianta muito fazer questionamentos sobre a Folha ao ombudsman. Ele já os recebe às pencas diariamente e sempre poderá usar a estratégia de dizer que enviou a questão à redação e reproduzir alguma sua resposta lacônica. Acho que a concentração de meu esforço deverá se dar na atuação do próprio ombudsman. As contradições de Lins da Silva continuam e pretendo explorá-las.
Aliás, gravarei a entrevista com o ombudsman pondo um gravador entre nós desde o momento em que adentrar sua sala..
Escrito por Eduardo Guimarães às 22h43
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Blogueiro em pane
Peguei o vôo de Santa Cruz para o Brasil às 15 horas de sábado, com escala em Cochabamba e conexão para São Paulo via Assunção do Paraguai, com nova escala em Cidade do Leste.
O vôo de Assunção para São Paulo decolou às 18:30 horas de sábado, mas eu não estava nele.
Provavelmente, foi alguma coisa que comi que me provocou um mal estar justamente quando meu vôo estava embarcando os passageiros. Enquanto isso, eu estava no banheiro pedindo a Deus que me matasse para terem fim náuseas que não me lembro da última vez que senti tão fortes.
Perdi o vôo e tive que ficar das 17 horas de sábado até às 5:45 hs do domingo perambulando pelo aeroporto de Assunção.
Não quis ir para um hotel porque, com a sorte que eu estava, alguma coisa me disse que eu perderia o vôo seguinte para o Brasil.
Resultado: comecei a viajar às 13 horas do sábado e cheguei em minha casa às 11 horas do domingo.
Estou arrebentado. Mas ainda hoje (domingo) retomo as postagens. Antes, porém, preciso dormir. Eu, pelo menos, não consigo fazê-lo em aviões ou saguões de aeroportos.
Escrito por Eduardo Guimarães às 13h20
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