A novela “Duas Caras”, que os que se opuseram à minha proposta de encaminhar denúncia ao Ministério Público Federal contra o folhetim político-ideológico do novelista Aguinaldo Silva por uso de uma concessão pública com finalidade político-partidária dizem que “ninguém vê”, bate recordes de audiência.
De acordo com a Folha Online, “O antepenúltimo capítulo de "Duas Caras" (Globo), exibido na noite de quinta-feira (29/05), bateu o recorde de audiência da novela de Aguinaldo Silva. A trama marcou 51 pontos no Ibope, com 70% dos televisores ligados sintonizados na Globo”.
A novela fez intensa propaganda contra o governo Lula, trazendo para seus capítulos denúncias do PSDB e do PFL contra esse governo. Além disso, teorias da oposição contrárias a políticas do governo federal tais como cotas para negros nas universidades e a teoria do diretor de jornalismo da Globo, Ali Kamel, de que não há racismo no Brasil, ganharam força na novela do seu começo até o fim.
A novela “Duas Caras” foi intensamente criticada em montes de artigos de sociólogos, jornalistas e historiadores. Apesar disso, uma defesa esdrúxula da “liberdade de expressão artística” contaminou até aqueles que se deram conta das intenções ilegais da dramaturgia global.
Por se tratar de uma obra ficcional (pero no mucho), a pregação contra a tomada de alguma atitude por medo de acusações de “tentativa de censura” impôs constrangimento à única reação proposta contra esse uso ilegal de uma concessão pública para propagandear ataques políticos e teorias racistas que negam o racismo, a proposta que fiz aqui durante a última semana de encaminhar representação ao MPF.
O resultado da inação dos que vêem o malfeito sendo cometido, mas temem o discurso espertalhão sobre “censura” que a mídia saca do bolso do colete toda vez que é questionada, já começa a produzir efeitos.
A nova novela das oito da Globo, “A Favorita”, de João Emanuel Carneiro, já começa mal. Sua propaganda anuncia um personagem, composto pelo ator negro Milton Gonçalves, que já mostra que as preferências políticas e ideológicas da Globo continuarão sendo impingidas ao público.
Gonçalves fará um político corrupto que alardeia sua origem pobre (quem será que políticos com origem pobre lembram?) para ganhar apoio do eleitorado. Sua filha, incorporada pela atriz Taís Araújo, será uma ninfomaníaca maldosa, que assume que veio ao mundo para fazer os homens sofrerem.
Escrevo isto pelo seguinte: presido uma ONG, o Movimento dos Sem Mídia. Semana passada, propus que a ONG fizesse uma representação ao Ministério Público Federal, para que investigue uso de uma concessão pública com fins político-partidários e ideológicos. Contudo, a própria assessoria jurídica da ONG discordou de mim, bem como vários leitores de meu blog e de outras páginas na internet que repercutiram a possibilidade de se fazer a representação.
Acabei recuando de minha proposta porque a oposição a ela veio com força e decisão, de maneira que me deixei influenciar.
A finalidade deste texto é reiterar que o uso político-ideológico da teledramaturgia pela Globo começa a adquirir uma dimensão escandalosa. A aposta da emissora nessa nova arma de luta político-ideológica não está sendo feita à toa. Pesquisas devem mostrar a efetividade do estratagema.
Peço, pois, àqueles que se opuseram à minha proposta de representar contra a novela “Duas Caras” no MPF que acompanhem a teledramaturgia global, pois tenho certeza de que alguém terá que tomar uma atitude. É um abuso de uma concessão pública que, mesmo que não tivesse sucesso em sua pretensão doutrinadora de mentalidades desavisadas, nem por isso deixaria de ser inaceitável.
A apatia da sociedade foi o que transformou a grande mídia no poder avassalador e corrupto que é hoje. Venho lutando contra essa apatia, mas quando ela assola até aqueles que têm clareza do papel nefasto dos barões da mídia neste país, sinto o desânimo se apossando de mim.
Leitor cobrou de mim um texto em comemoração à aprovação das pesquisas com células-tronco embrionárias pelo STF. Farei mais do que isso, porque, para quem é pai de uma criança com paralisia cerebral, como é meu caso, essa aprovação, como dizem os jovens, foi “tudo de bom”.
Quero tratar do que obriga nações a discussões absurdamente demoradas em questões que o bom senso requer que sejam resolvidas rapidamente. Quero falar da mistura do Estado com uma única religião.
Vale ressaltar que fui criado com os valores da religião católica. Estudei durante minha infância e em boa parte da mocidade em escolas católicas. Casei-me na Igreja Católica e nela batizei meus filhos.
Mas, nessa questão das células-tronco e em outras, acho revoltante que a religião de alguns paute as vidas de todos. As pesquisas genéticas, sejam com células-tronco, embrionárias ou não, sejam de que natureza forem, podem pôr fim, um dia, a dramas terríveis, a sofrimentos indizíveis.
Temos outros direitos dos cidadãos sendo violados por leis que se pautam por dogmas católicos. O impedimento da união civil entre pessoas do mesmo sexo, o mal chamado “casamento gay”, por exemplo. Quem tem preferências sexuais e afetivas que o catolicismo, entre outras religiões, não aceita, é tratado como cidadão de segunda classe.
E não é apenas socialmente. Dois homens ou duas mulheres decidem constituir uma vida em comum, constroem um patrimônio comum e a parte do casal gay que não for titular de tal patrimônio, se a parte titular vier a falecer, poderá perder o direito ao que ajudou a construir.
Apesar disso, homossexuais têm que pagar tantos impostos quanto os heterossexuais. A lei, influenciada pela religião da maioria, mas que não é a de todos, impõe deveres aos homossexuais comuns a todos os cidadãos, mas não lhes garante direitos que todos têm
Há, também, a inexplicável lei contra o aborto. Centenas de milhares de mulheres morrem ou ajudam a lotar o esgotado sistema de saúde pública depois de serem levadas à beira da morte por práticas abortivas insalubres praticadas por charlatães.
O pior, na questão do aborto, é que os fanáticos religiosos que querem impor suas idiossincrasias a todos sabem que não estão impedindo que seja praticado. Sabem que apenas estão levando mulheres pobres à morte ou complicando um sistema de saúde pública exaurido, pois a mulher que sofre complicação num aborto mal feito vai parar em hospitais públicos quando poderia fazer o procedimento abortivo nesses hospitais, em segurança.
A batalha das pesquisas com células-tronco no STF, foi absurda. A suprema corte do país perdeu tempo, gastou dinheiro e atrasou pesquisas só porque alguns dos juízes se acharam no direito de impor a todo um país seus valores religiosos particulares.
Quem é de outra religião ou não tem religião, em países como o Brasil tem sua vida absurdamente afetada por crenças abstratas das quais não compartilha. É uma violência.
O princípio da laicidade do Estado deve ser objeto de discussões no Congresso. Deve-se retirar das leis brasileiras a influência de qualquer religião. Não pode existir religião “oficial”. Esse é um conceito da Idade Média, absurdo e atrasado.
Fazendo Media
Há um jovem jornalista que faz um belo trabalho produzindo um jornal com a cara e a coragem. Seu nome é Marcelo Salles, do Fazendo Media. Quero sugerir a vocês que visitem o site do Marcello. Está “linkado” neste blog. Ele está fazendo uma campanha para angariar assinaturas de seu veículo - muito bem editado, por sinal. Vale a pena conhecer.
No dia 24 de maio de 2008, faleceu Benedito Lapa Trancoso, meu compadre, padrinho de minha segunda filha, Gabriela. Não pude comparecer às suas exéquias, mas hoje, penúltimo dia do mês, fiz questão de participar de sua Missa de Sétimo Dia.
Conheço esse homem há quase trinta anos. É marido de Cândida Clemente Lapa Trancoso, prima de minha mulher.
Foi um homem pacificado. Não era loquaz, apesar de ser um jurista, um desembargador aposentado. Falava pouco, ouvia sempre. E sempre com atenção. Assentia-nos às frases com um menear de cabeça e uma expressão complacente.
Benê e Cândida sempre foram um casal extremamente religioso. Católicos fervorosos, colaboraram de todas as formas - e por décadas e décadas - com a paróquia de Santa Generosa do bairro do Paraíso, em São Paulo.
A comunidade que se une nessa paróquia, os amigos e parentes de Benê, muitos foram os que compareceram a um culto bonito, porém breve e singelo. Os presentes, emocionamo-nos repetidas vezes.
O canto dos fiéis preencheu o ambiente. A melodia, afinada pela familiaridade da comunidade que ali estava, transportou os presentes. Senti tristeza, mas também uma serenidade que não soube precisar de onde vinha. Talvez da ciência do destino de todos nós, que se faz presente em momentos como aquele.
Benê partiu bem. Alguém comentou, durante a cerimônia, que se sabe o que alguém representou de bom para sua família e para sua comunidade vendo quantos vão lhe prestar a última homenagem. Muitos foram os que compareceram à derradeira homenagem a ele.
Cândida subiu ao púlpito e disse algumas poucas e emocionadas palavras. Atribuiu ao Senhor o afluxo de tantos para homenagear seu esposo. As lágrimas que verteu, verteram de muitos outros olhos. Inclusive dos meus.
Benê partiu bem. E talvez seja o que importa, deixar amor, amizade e saudade do lado de cá da vida. E ele deixou.
A segunda elevação da nota do Brasil por mais uma agência de classificação de risco pertencente à tríade de agências americanas que, por assim dizer, comandam esse "mercado" de análise de quais são os países mais ou menos seguros para investimentos estrangeiros (Moody's, Standard & Poor's e Fitch Ratings), elevação feita, agora, pela Fitch, é uma boa notícia ou agrava a perspectiva de catástrofe que disseram que sobrevirá depois da elevação da nota Brasil pela S&P há algumas semanas?
A teoria do caos é a de que o grau de investimento acabará por tornar deficitária a balança comercial (exportações menores que importações), porque atrairá ainda mais dólares para o país, provocando uma valorização ainda maior do real. Com o dólar cadente, os produtos brasileiros continuarão se tornando cada vez mais caros em dólar, ainda que mantidos seus preços em reais. Em conseqüência de preços cada vez menos competitivos, as exportações diminuiriam e as importações aumentariam, produzindo déficit na conta do comércio exterior.
A questão é bem menos complicada do que parece aos não-iniciados em economia. O que dificulta seu entendimento é o economês da mídia. Vamos tentar, então, traduzir essa polêmica para bom português.
Em primeiro lugar, é bom termos em mente que as exportações brasileiras não estão caindo, o que está diminuindo o saldo comercial (a diferença entre exportações e importações) são as importações, que vêm aumentando porque dólar barato estimula a indústria e o comércio a substituírem produtos e insumos (matérias-primas) nacionais por importados.
Eu trabalho com comércio exterior (exportação). Nesse contexto, posso citar um exemplo do que está acontecendo: uma indústria concorrente de uma das que represento no exterior suspendeu a produção de alguns de seus produtos que sofrem grande concorrência tanto no mercado interno quanto no externo, mas continua produzindo os produtos de maior rentabilidade, os que compensa ela fabricar.
À primeira vista, portanto, a valorização do real deveria estar gerando desemprego, além de outros males. Se parte dos produtos dessa empresa deixaram de ser fabricados no Brasil, sendo agora importados (da China), os operários que produziam o que deixou de ser fabricado teriam que ser postos no olho da rua. No entanto, não foi o que aconteceu, pois a maior demanda interna fez não só com que o quadro de funcionários da empresa fosse mantido como a obrigou a contratar mais gente, a fim de ter como produzir os produtos que ainda é rentável fabricá-los no Brasil e que estão sendo mais vendidos.
Porém, alguns analistas econômicos acham que o processo de valorização do real é irrefreável, porque o Brasil continua atraindo dólares para o mercado financeiro devido às taxas de juros que, por aqui, ainda estão entre as mais altas do mundo. E com o grau de investimento agora mais consolidado, porque duas das três agências de classificação de risco mais influentes estão garantindo aos investidores internacionais que é seguro investir aqui, a moeda americana iria inundar o mercado nacional tornando cada vez mais difícil a atividade exportadora, até o ponto em que começaremos a comprar mais no exterior do que vender.
Para nós, brasileiros, exportações menores do que importações sempre representaram "prejuízo", como se comprar mais dos outros países do que vender a eles equivalesse a perder dinheiro. Qualquer contador sabe, no entanto, que se uma empresa não tem liquidez mas tem patrimônio equivalente ao que não está em seu caixa, ela não teve prejuízo. Apenas não tem dinheiro em espécie, disponível a qualquer momento.
Em situações em que uma empresa está endividada, ela precisa de liquidez para saldar seus compromissos. No caso do Brasil, temos hoje mais dólares em caixa (reservas cambiais) do que dívidas com o exterior. É aí que reside a elevação da nota do Brasil por duas das três mais importantes agências de classificação de risco. A necessidade de liquidez do Brasil hoje é muito menor. E continuamos acumulando dólares que nos pertencem (não os provenientes de aplicações estrangeiras no mercado financeiro, mas decorrentes de ainda exportarmos mais do que importamos, apesar de esse saldo comercial ter diminuído), pois não temos mais a demanda pela moeda americana que tínhamos na década passada, quando precisávamos exportar muito mais do que importávamos para pagar a dívida externa.
Como o Brasil hoje deve menos ao exterior do que tem a receber, mesmo se o saldo comercial fosse zero não haveria, em tese, problemas, porque continuaríamos devendo o mesmo e tendo o mesmo a receber. Não necessitaríamos de sobra de dólares para pagar nossos credores. Além disso, a postura do governo Lula inovou em relação à do governo anterior. Lula, à diferença de FHC, não permitiu que a conjuntura política interferisse na política econômica, e essa nova atitude do Estado brasileiro inspirou a confiança que levou as agências de classificação de risco a dizerem ao mundo que o Brasil tem um governo sério, que não usa a economia do país para se fortalecer politicamente.
Vamos entender bem isso, porque é muito importante. FHC jogou o Brasil numa crise cambial (falta de dólares para pagar nossos compromissos externos, quando ainda éramos devedores, em vez de credores) ao manter o dólar desvalorizado por lei. Com o dólar desvalorizado, o brasileiro tem maior poder de compra e consumo. Porém, era insustentável aquela política. Precisávamos de sobra de dólares, porque devíamos cada vez mais ao exterior. Então FHC começou a vender estatais a estrangeiros. Com a receita, pagava a dívida externa. Porém, chegou um momento em que não havia mais estatais de peso para vender. Daí quebramos (em 1999). Resultado: tivemos que pedir 40 bilhões de dólares emprestados aos EUA, ao FMI e ao Clube de Paris para financiar ao menos o comércio exterior.
Enquanto FHC usou a economia do país para se reeleger, mantendo o real sobrevalorizado por lei, Lula separou totalmente a economia da política.
A teoria de alguns analistas econômicos é a de que, apesar de o desastre ser iminente, a nota de classificação de risco Brasil foi aumentada para propiciar ganhos a especuladores estrangeiros, que viriam se esbaldar aqui e fugiriam com nossos dólares assim que o desastre começasse a se consolidar. Essa é uma teoria conspiratória que se apóia exclusivamente em si mesma. A margem de manobra que o Brasil tem hoje é espetacular. Temos dinheiro sobrando em caixa e podemos decidir sobre juros e sobre a entrada de capital estrangeiro no mercado financeiro com grande tranqüilidade. A queda nas exportações é compatível com a menor necessidade de superávit na balança comercial. E daí a deixarmos de ser superavitários para nos tornarmos deficitários no comércio exterior, vai uma distância enorme.
Eu trabalho com comércio exterior há muito tempo. Só me lembro de os exportadores estarem contentes com o câmbio no fim do governo FHC, quando o dólar chegou a 4 reais. Para eles, o dólar sempre estará baixo. Dólar alto os dispensa de fazerem investimentos em tecnologia e produtividade. Aliás, o protegido mercado nacional ainda faz com que o industrial brasileiro possa se encostar nas tarifas aduaneiras para produtos estrangeiros para não investir. Mas isso está acabando. Um dos componentes de peso de nossas importações são máquinas e equipamentos. O dólar barato está obrigando a indústria brasileira a se modernizar.
O grau de investimento, agora reforçado pela Fitch Ratings, reflete um país que começa a se levantar no cenário internacional como nunca ocorreu. O catastrofismo, a choradeira dos exportadores é alta, estridente, mas não deve tirar o sono de ninguém. O grau de investimento é bom e mostra um país caminhando para se tornar uma das grandes potências deste século.
15 de setembro de 2007, uma data para lembrar. Naquele dia, cerca de 200 cidadãos de São Paulo e de outras cidades e até de outros Estados foram para diante do maior jornal do país para dizerem suas razões. Naquele dia, nasceu o Movimento dos Sem Mídia.
Reproduzo, abaixo, minha última troca de e-mails com Carlos Eduardo Lins da Silva que publicarei referente àquele assunto da entrevista que fiz com ele. O que mais for escrito aqui neste blog sobre a Folha e seu ombudsman, só conterá manifestações do mesmo se ele pedir para que sejam reproduzidas. Entretanto, minhas críticas à Folha e, se forem necessárias, ao seu ouvidor continuarão sendo feitas, separando amizade de interesse público.
Resposta de Lins da Silva à minha tréplica:
"Caro Eduardo:
Muito obrigado pela sua resposta, como sempre inteligente e cordial.
Sobre o Roda Viva, leve em consideração também que o Markun fez o programa durante dez anos e eu não cheguei a fazer por dez semanas. O do ministro Amorim foi o quarto da minha vida. Compreenda que, por mais maduro (ou velho) que seja o jornalista (ou o ser humano), o que é novo sempre assusta e, no mínimo, exige tempo para saber como lidar. Não sei se as minhas intervenções para conter o Demétrio foram audíveis no vídeo, mas eu as fiz no ar e, mais ainda, nos intervalos, quando – como eu reconheço – você não teria como saber. Acho desnecessário você assistir de novo só para notar a presença da professora do Rio que sempre concordava com o ministro (não me recordo do nome dela e não tenho como checar agora – estou fora do país participando da reunião mundial dos ombudsmans de mídia).
Realmente não acho importantes as omissões de nossa conversa. Você foi fiel ao que falamos e só isso importa.
Sobre os comentários de alguns de seus leitores, eles não são “mais duros”. Eles são ofensivos e desrespeitosos. Mas você tem razão: isso não é motivo para eu deixar de acessar o blog. Vou fazê-lo quando tiver a oportunidade. Em todo caso, se você puder me enviar o que você achar mais relevante, eu agradeço.
Quando quiser voltar a conversar pessoalmente, estou à sua disposição. Quem sabe da próxima vez fazemos durante um almoço? Será mais agradável e menos formal. Eu o convido (não a Folha).
Um abraço,
Carlos Eduardo Lins da Silva
Ombudsman - Folha de S.Paulo"
Minha resposta:
Caro Carlos Eduardo,
então está esclarecido o problema que ocorreu no Roda Viva. Entendo que é preciso um certo traquejo para lidar com uma mesa de entrevistadores sedentos por encurralar o entrevistado, o que seria natural se ocorresse com todos os entrevistados sobre temas políticos, mas que, lamentavelmente, só ocorre quando o entrevistado é ligado ao governo Lula e ao PT.
Devo dizer que sua postura amistosa é extremamente cativante. Pretendo, pois, a partir deste momento, separar a amizade, que você me oferece com tanta sinceridade, dos temas políticos relativos à Folha, à mídia em geral e de sua atuação no cargo de ombudsman. Assim sendo, peço que minhas eventuais críticas, inclusive as que eu me veja obrigado a fazer à sua atuação como ombudsman, sejam encaradas como contribuições e como imposições do dever cidadão que chamei para mim há alguns anos.
Sobre o convite para o almoço, sempre será um prazer ter um dedo de prosa com um amigo e, sobretudo, com alguém preparado, inteligente e que, por suas qualidades, sempre acrescenta algo àqueles com quem se relaciona. Agora posso atender a amizade que o nosso amigo comum, Luiz Carlos Azenha, dispensa a você. Dessa maneira, deixo-lhe a prerrogativa de marcar essa reunião amistosa, pois sei de suas atribuições profissionais, que limitam seu tempo.
Também quero abordar a questão do leitorado do meu blog. Esse leitorado, bem como o do público em geral das páginas políticas da internet, foi posto em pé-de-guerra por práticas da mídia que vêm insuflando os pró e anti governo a um processo de conflagração que só faz piorar. O ministro Franklin Martins, antes de deixar a Globo, fez uma recomendação à mídia que vale a pena repetir e que talvez seja responsável por sua demissão como analista da emissora:
"Envenenar o país é fácil. Difícil será desintoxicá-lo"
Meu caro Carlos Eduardo, como posso depreender de suas palavras sobre mim, penso que concorda com o fato de que não sou um dos "trogloditas", "hidrófobos", "descerebrados" ou "idiotas de plantão" aos quais o colunista Clóvis Rossi costuma se referir para caracterizar os que o criticam por estar escrevendo a mesma coluna diariamente desde que Lula chegou ao poder. Assim mesmo, o jornalismo da Folha, da Veja, do Estadão e dos Globos faz com que me sinta esbofeteado e desrespeitado.
O clima de fla-flu que se estabeleceu no país é que leva pessoas civilizadas a muitas vezes perderem a calma e o bom senso. Mas, como blogueiro e internauta, freqüentador assíduo da blogosfera política, posso lhe garantir que meus leitores estão entre os mais civilizados da internet. Inclusive, como você deve saber, se lê o Cidadania, tenho reproduzido nossas conversas via e-mail lá no meu blog - e esta é a última que reproduzo, porque é o desenlace de um assunto que eu havia tornado público - a fim de que meus leitores possam ver que é possível duas pessoas que pensam diferente sobre alguns assuntos, por mais candentes que sejam, divergirem com respeito.
Não quero, evidentemente, arvorar-me em doutrinador de ninguém, mas, na qualidade de formador de opinião, tento fazer minha parte para que o debate político volte a se dar, no Brasil, em nível mais alto.
Estou certo do didatismo que esta nossa troca de idéias irá gerar, no sentido de que se possa construir pontes, de uma maneira que permitisse chamar os ditos "barões da imprensa" à razão, a fim de que abandonem um processo xiita em que mergulharam, um processo que só lhes está causando prejuízos - sobretudo de credibilidade - e que está colocando brasileiros contra brasileiros, como se o país estivesse em guerra.
Por último, quero aproveitar esse almoço de que desfrutaremos para tratar com você de um debate público que está sendo organizado pela ONG que presido. Na última terça-feira, participei de um debate promovido na livraria Fnac de Pinheiros, no qual esteve presente o jornalista Luis Nassif, com quem tratei do mesmo assunto e ele se comprometeu a participar do evento que o Movimento dos Sem Mídia promoverá proximamente.
Quero reunir jornalistas de renome e de tendências políticas opostas. Pessoas inteligentes e civilizadas que poderiam discutir a mídia e o processo que ela desencadeou no país, para que essas mentes brilhantes possam consensuar que nenhum resultado prático está sendo produzido para o Brasil com essa guerra inventada. Mas trataremos disso pessoalmente, quando você me convocar para o almoço que sugeriu.
Como eu disse a vocês que faria, encaminhei à assessoria jurídica do Movimento dos Sem Mídia um pedido de análise da possibilidade de a ONG fazer outra representação ao Ministério Público Federal.
A primeira representação encaminhada este ano àquela assessoria versava sobre o suposto crime de alarma social cometido por grandes jornais, revistas e tevês no último mês de janeiro, quando a mídia instigou os cidadãos, indiscriminadamente, a se vacinarem contra a febre amarela. O parecer da assessoria foi favorável à representação e ela foi feita. Posteriormente, a representação foi aceita pelo MPF e a investigação foi aberta pela instituição.
A representação proposta desta vez à assessoria jurídica do MSM diz respeito à novela da Globo "Duas Caras". A tese que propus foi a de que a novela vem sendo usada pela emissora com finalidade política, pois alude a acusações ao governo federal e só a ele, ignorando acusações que pesam contra os adversários políticos desse governo, tão ou mais graves quanto.
O autor da novela, Aguinaldo Silva, e a própria Globo afirmam que o objetivo da novela seria o de "conscientizar" as pessoas quanto a desvios éticos de políticos, mas, devido às teses políticas unilaterais, repetidas à exaustão pela novela, fica claro que o objetivo não é esse. Trata-se de um ataque de uma emissora e de um novelista alinhados com a oposição ao governo Lula (PSDB e PFL), um grupo político que, como ficou demonstrado em posts anteriores, é totalmente poupado na novela de alusões a escândalos em que se envolveu ontem e hoje.
Apesar da significativa repercussão da proposta de representar contra "Duas Caras" no MPF, surgiram oposições à medida inclusive entre aqueles que concordam que a novela vem fazendo tudo o que eu disse. Um número minoritário - porém significativo - de leitores deste blog e do blog do Luiz Carlos Azenha - que, no mais das vezes, são os mesmos - observaram que a representação seria inócua, porque "Duas Caras" é uma obra ficcional e a medida jurídica contra ela poderia ser acusada de atentado à "liberdade de expressão artística".
Outros argumentos foram usados para contrariar a representação contra a novela no MPF, tais como o de que ela perdeu audiência justamente entre o público pobre e negro, que não se vê representado numa ficção que apresenta uma integração entre brancos ricos e negros pobres e favelados que não passa de um devaneio do novelista Aguinaldo Silva. E também o argumento de que, com novela e tudo, a popularidade do governo Lula só faz crescer em todas as classes sociais.
Tentei argumentar. Do meu ponto de vista, não importa se a novela teve ou não teve queda de audiência por conta da obra amalucada de Aguinaldo Silva ou se o governo Lula, à revelia da novela, tem 60% ou 100% de aprovação. O que importa é o mau uso de uma concessão pública.
Sobre a absurda acusação que poderia surgir de se querer atentar contra a "liberdade de expressão artística", basta lembrar que o ato de censurar depende de uma posição de força do censor em relação ao censurado, e não seria uma ONG que poderia ser acusada de ser mais forte do que o maior império de comunicação do país. Além disso, representar ao Ministério Público não seria censurar e sim submeter ao crivo de uma instituição da República, incumbida de analisar (também) o comportamento da mídia, se esse comportamento está sendo correto. Se a representação tivesse caráter censor, no mínimo esperar-se-ia que o MPF entendesse esse caráter e rejeitasse a representação.
Apesar de minha argumentação, a assessoria jurídica do MSM também entendeu que ainda não é o caso de representar contra a novela "Duas Caras". Segundo aquela assessoria, o país está entrando em período eleitoral e a novela em questão servirá como antecedente para uma representação que será feita se persistir o uso político da concessão pública da qual a família Marinho, dona da Globo, é detentora. Até porque, em época de eleições a veiculação de nova obra que procurasse induzir politicamente o público transformar-se-ia em crime eleitoral.
Não posso dizer que concordo totalmente com a assessoria jurídica do MSM ou com os leitores que pensam assim. Passei a acompanhar a novela nos últimos meses e tenho absoluta certeza de que é possível provar que ela foi escrita e vem sendo veiculada para atender a objetivos políticos e ideológicos dos proprietários da emissora carioca. Contudo, o Movimento dos Sem Mídia tem uma assessoria jurídica e é dessa assessoria a prerrogativa de decidir sobre ações como representar ao MPF.
E há, também, um argumento que, aí sim, considero válido: não se pode banalizar o instrumento das representações ao MPF, que serão uma das principais armas do MSM em sua luta por uma mídia plural e ética. Assim sendo, ao haver risco de ocorrer essa banalização é preciso ter cautela. Tratar com seriedade um instrumento dessa importância é o mínimo que se exige de quem envereda por uma luta desse calibre, de forma que não haverá representação contra a novela "Duas Caras". Ao menos por enquanto.
A propósito do post anterior, tenho uma boa questão para meu novo amigo Carlos Eduardo Lins da Silva, ombudsman da Folha de São Paulo
Hoje (quarta-feira), mais uma vez a Folha publicou sentença judicial contra fiel da Igreja Universal que havia tentado processar o jornal alegando ter se sentido ofendido por matéria jornalística supostamente ofensiva à sua religião. Vejam:
"Folha de São Paulo, 28 de maio de 2008
Juiz julga improcedente ação de fiel da Universal contra a Folha
DA REPORTAGEM LOCAL
O juiz Giancarlo Carminati Baretta, de Santo Ângelo (RS), considerou improcedente a ação de indenização movida por Jadson Tiago Roballo, pastor da Igreja Universal do Reino de Deus, contra a Folha e a repórter Elvira Lobato.
Com esta decisão, chegam a 34 as sentenças favoráveis ao jornal, de 89 ações ajuizadas por seguidores da Iurd.
Roballo alegou que a reportagem intitulada ‘Universal chega aos 30 anos com império empresarial difama os fiéis’ e que o texto insinua que a igreja é ‘composta por pessoas inidôneas’.
O magistrado rejeitou o argumento de que o autor teria sofrido discriminação religiosa e viu nas ações com alegações iguais, em diversas comarcas, ‘uma orientação superior’ da igreja para ‘obter uma vantagem financeira e impossibilitar a defesa’.
Segundo o juiz, cabia à igreja, ‘quando procurada pela reportagem, vir a público e esclarecer tais fatos’. Para Baretta, ‘a forma como os fiéis promoveram ações semelhantes’ leva a crer que ‘eles foram orientados a orquestrarem tais demandas’.”
...
É estranha a seletividade da Folha ao noticiar processos judiciais que a envolvem. No mesmo dia, houve outra decisão judicial envolvendo a Folha que o jornal não noticiou. Vejam abaixo se descobrem por que.
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Do Portal Imprensa
Publicado em: 28/05/2008
"Grupo Folha da Manhã é condenado a indenizar garoto envolvido no caso Escola Base
Redação Portal IMPRENSA
O Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP) condenou, 14 anos depois, o Grupo Folha da Manhã no caso da Escola Base. Para o TJ, o jornal usou uma manchete escandalosa e sensacionalista que extrapolou a liberdade de informar, e não resguardou a honra moral de uma criança de quatro anos.
Em março de 1994, o jornal Folha da Tarde, assim como outros veículos de comunicação, afirmou - com informações repassadas pelo delegado que conduzia o inquérito policial, a partir dos depoimentos de duas mães de alunos - que seis pessoas estavam envolvidas no abuso sexual de crianças numa escola de educação infantil, localizada no bairro da Aclimação.
O jornal saiu com a chamada de primeira página: "Perua escolar carregava as crianças para a orgia". A empresa terá de pagar indenização de R$ 200 mil para o garoto R.F.N, que hoje tem 18 anos. Ele foi apontado pelo jornal como vítima de abuso sexual dos próprios pais.
A empresa Folha da Manhã sustentou que a manchete se limitou a reproduzir as informações oficiais, tomando todo o cuidado para evitar pré-julgamentos ou especulações de ordem subjetiva, e que não existiria prova de dano moral. Mas a Justiça entendeu de forma contrária.
Outras empresas de comunicação já sofreram condenação pelas notícias divulgadas na época, que resultaram no fechamento da escola, na prisão e no julgamento público de inocentes. A Folha de S.Paulo e o Estado de S.Paulo foram condenados a pagar R$ 750 mil, a Rede Globo R$ 1,35 milhão, e a Editora Três, responsável pela publicação da revista IstoÉ, R$ 360 mil.
Na área cível, várias ações foram propostas. A primeira delas, contra o Estado, para pedir indenização por danos morais e materiais. Em 1996, o juiz Luís Paulo Aliende mandou o governo paulista pagar cem salários mínimos - R$ 30 mil em valores atuais - ao casal proprietário da escola e ao motorista Maurício Alvarenga. O advogado Kalil Rocha Abdalla, considerou o valor baixo e recorreu ao TJ paulista reclamando 25 mil salários mínimos.
O TJ paulista julgou o recurso o fixou o valor de R$ 100 mil para cada um, por danos morais, e uma quantia a ser calculada para ressarcir os danos materiais. Pela decisão, a professora Maria Aparecida Shimada iria receber, ainda, uma pensão vitalícia por ter sido obrigada a abandonar a profissão.
Reproduzo, a seguir, e-mail que recebi de Carlos Eduardo Lins da Silva, ombudsman da Folha de São Paulo. Na mensagem, ele comenta a entrevista que me concedeu na terça-feira da semana passada na sede do jornal e que reproduzi aqui. Em seguida, também reproduzo minha tréplica, que igualmente enviei por e-mail a ele.
"Caro Eduardo:
Gostei muito desse seu texto. Sartre é um dos formadores de minha mente. Os outros são Borges, Proust, Canneti e Calvino. De todos, li tudo que escreveram e foi publicado. E dessa leitura, ficou o que de melhor tenho em mim.
Li sua entrevista comigo e achei que ficou boa. Teria, como todo entrevistado, queixas sobre pedaços que ficaram de fora. Mas acho que foi justa.
Já quanto ao comentário sobre o Roda Viva, acho que você fez o que muitas vezes acusa a Folha, com razão, de fazer: foi um pouco tendencioso. A descrição dos fatos está basicamente correta, mas o que você deixou de lado ajudaria a compor uma imagem mais balanceada, como a entrevistadora que sempre concordava com o ministro, o fato de que eu várias vezes pedi ao Demétrio que deixasse o ministro falar. E há o que você não viu: o que eu disse nos intervalos. E há mais: o mediador do Roda Viva não é professor de jardim de infância. Nem o ministro precisava da minha condescendência para se defender nem o Demétrio é criança para levar descompostura em público. Mas também não vejo grande problema no que você escreveu.
Não sou uma pessoa muito intuitiva. Mas acho que minha intuição me ajudou quando me impeliu a convidá-lo a vir me visitar. Senti que você é uma pessoa inteligente, honrada e honesta. Acho que poderemos desenvolver uma boa relação, proveitosa para ambos.
Meu melhor amigo desde os 15 anos de idade é alguém com quem sempre discordei intensamente: no movimento estudantil, no movimento ecológico, na abertura política (eu na construção do PT, ele no PMDB), em temas como a pena de morte. Mas ele é a pessoa em quem eu mais confio e de quem eu mais gosto fora da família porque nós concordamos no que é essencial na vida, a meu ver: respeito, integridade, inteligência. Acho que eu e você temos esses valores em comum.
Será sempre um prazer para mim dialogar com você.
Infelizmente, não posso dizer o mesmo em relação a muitos dos que postam comentários no seu blog, sobre os quais, claro, você não tem nenhuma responsabilidade. Motivo pelo qual não vou mais acessar o seu blog e lhe peço que, quando tiver algo que queira que eu leia, mande-o diretamente para mim.
Um abraço,
Carlos Eduardo Lins da Silva Ombudsman - Folha de S.Paulo"
Agora, minha resposta:
"Caro Carlos Eduardo,
fico contente em saber que aprovou a reprodução que fiz de nossa conversa. Ansiava por saber desse resultado.
Quero comentar, porém, algumas das observações que fez, seguindo a ordem tópica de sua mensagem.
As partes de nossa conversa que ficaram de fora da entrevista que reproduzi são as partes que eu não gravei. Lamentei, posteriormente, não ter gravado a conversa desde o início, inclusive com uma câmera de vídeo que levei, mas que hesitei em usar. Não sei por que, pedir para gravar a conversa me pareceu deselegante. Quando vi que o assunto estava ficando complexo, decidi gravar. Porém, como você bem se lembra, antes de eu ligar o gravador quem falou mais fui eu, e não consegui me lembrar, ainda, de alguma coisa que você tenha dito na primeira parte da conversa que teria feito tanta falta. Mas o espaço para se manifestar sempre estará reservado para você no Cidadania.
Assisti ao CD do Roda Viva com que você gentilmente me brindou e não consigo me lembrar de quem era essa entrevistadora que concordava o tempo todo com o ministro Celso Amorim. Talvez eu deva assistir de novo...
Sobre você ter chamado atenção do Demétrio Magnoli devido às interrupções sistemáticas que fazia, chegando a usurpar o direito do entrevistado de responder ao que lhe era perguntado, no CD do programa isso não aparece. Se você o fez nos intervalos, eu não teria como saber.
Mas há um outro detalhe: à época do Paulo Markun como mediador do Roda Viva, ele sempre impediu que se estabelecesse no programa o clima que se estabeleceu naquele que ora discutimos. Ele dizia, mais ou menos, o seguinte: "Quando todos falam juntos, o telespectador não consegue entender. Peço que os entrevistadores deixem o entrevistado concluir suas idéias e façam suas perguntas um de cada vez". E Markun chegou a reproduzir queixas de telespectadores nesse sentido, quando o programa era ao vivo".
Outra, caro Carlos Eduardo: você não precisaria nem chamar a atenção especificamente de Magnoli, até porque não era só ele que interrompia o ministro; poderia fazê-lo genericamente, falando para todos. Não se trata nem de estilo, como chego a supor que você poderia argumentar, apesar de ser uma suposição temerária. Trata-se de facilitar a vida do telespectador.
Tendo você lido os textos em que abordei nossa conversa, torna-se desnecessário reafirmar meu apreço por sua postura democrática e pela forma serena, civilizada e respeitosa com que me tratou.
Sobre os comentários mais duros de alguns de meus leitores sobre você e sobre, por conta disso, você não querer mais ler meu blog, preferindo receber minhas eventuais opiniões por e-mail, quero lhe propor uma reflexão: o Clóvis Rossi tem insultado reiteradamente leitores que divergem dele valendo-se do espaço que tem na Folha. São adjetivos como "hidrófobos", "descerebrados", "idiotas de plantão" etc. A Eliane Cantanhêde igualmente usou sua coluna para me atacar, uma vez. Citando meu nome na página A2 da Folha, chamou-me de "Velhinha de Taubaté", querendo dizer que, apesar de eu não ser petista de carteirinha, sou um crédulo. Nem por isso, caro Carlos Eduardo, eu deixei de ler a Folha.
Penso que a internet, as novas tecnologias, meu caro, obrigam o jornalista moderno a desenvolver "anticorpos" contra agressões.
Fiz questão de deixar clara minha oposição a termos que foram usados em relação a você. Aliás, em meu texto que você elogiou, baseado na obra de Jean-Paul Sartre "O inferno são os outros", fiz questão de deixar claro que não aprovo a demonização de pessoas, mas o enfrentamento de idéias. Assim, sugiro a você que, se o que escrevo lhe interessa, que continue lendo o Cidadania sem ler os comentários. Mas, seja qual for sua decisão, quando o assunto disser respeito à Folha e a você eu lhe enviarei o que escrever.
Novamente agradeço a atenção e a gentileza que me foram dispensadas por você na Folha e coloco-me à disposição para reproduzir em meu blog qualquer objeção que você queira acrescentar à reprodução que fiz de nossa conversa, lembrando que tudo o que foi publicado por mim foi gravado. Só não reproduzi o que não gravei, pois não tendo como conferir se o que estava em minha mente foi dito como eu acho que foi, achei melhor não reproduzir sem ter certeza.
Conheci o jornalista e escritor Guilherme Azevedo no fim do ano passado, à época da formação do Movimento dos Sem Mídia. Ele foi à minha casa gravar uma entrevista em áudio e vídeo comigo, sobre a ONG que acabara de se constituir depois da manifestação diante da Folha de São Paulo. Dali em diante, tornamo-nos amigos.
Guilherme já trabalhou como repórter, redator, editor e colunista da Agência Folha, trabalhou na revista “Caros Amigos” e nas agências de publicidade "Giovanni+DraftFCB" e "AgênciaClick". Também escreveu o livro “As Aventuras de Alencar Almeida (o repórter)”. Atualmente, é editor do belo site "Jornalirismo", que se dedica a "comunicação e arte em suas muitas manifestações, como o jornalismo, a propaganda, a literatura e a fotografia".
Na noite de ontem (terça-feira), o Jornalirismo promoveu, na livraria Fnac, no bairro de Pinheiros, em São Paulo, um debate que contou com a presença do jornalista Luis Nassif, do cineasta Maurício Eça e do poeta Sérgio Vaz. O jornalista Pedro Dória, do grupo Estado, também havia sido convidado, porém não pôde comparecer devido a compromisso de última hora. Contudo, gravou em vídeo uma mensagem para os debatedores e a platéia.
Creio que o acontecimento merece um relato mais aprofundado, pois o debate acabou enveredando pelo tema que traz as pessoas a este blog (a mídia) e, principalmente, pelo fenômeno dos blogs. Nassif fez uma brilhante exposição sobre a blogosfera e deu até receitas para blogueiros. Antes de tratar do debate, porém, quero falar um pouco sobre os debatedores.
Dos debatedores
Luis Nassif é autor de Dossiê Veja, uma série de denúncias contra a revista Veja, do Grupo Abril. Em seu blog (leia aqui), Nassif vem publicando acusações de que a Veja usaria seu conteúdo editorial para favorecer negócios próprios e atacar adversários. Como fonte das denúncias, o jornalista utiliza a análise da própria revista e dicas de leitores.
Pedro Doria é colunista do caderno “Link” e repórter especial do caderno “Aliás”, do jornal O Estado de S.Paulo. Também publica um blog (leia aqui) sobre assuntos internacionais. Especialista em mídia digital, Doria é um dos precursores do jornalismo na Internet brasileira e participou da criação de sites jornalísticos que fizeram história, como o NO. e o NoMínimo.
O cineasta Maurício Eça já realizou mais de 100 videoclipes, entre eles, o premiado Diário de um Detento, para o grupo Racionais MC´s. Maurício é também autor de importante trabalho sobre a periferia das grandes cidades. No longa-metragem Universo Paralelo, de 2004, Maurício, Teresa Eça (irmã do cineasta) e o rapper Cobra acompanharam, por seis anos, a vida de moradores do bairro Capão Redondo, conhecido pela combinação explosiva de pobreza e violência, em São Paulo.
O poeta Sérgio Vaz é o criador e o organizador da Cooperifa (Cooperativa Cultural da Periferia), um dos movimentos culturais mais importantes da periferia de São Paulo. Toda quarta-feira, Vaz comanda o Sarau da Cooperifa, em que escritores de bairros pobres e a população em geral experimentam uma noite de poesia, apresentando seus textos. O poeta é autor, também, do livro Colecionador de Pedras (Global Editora) e publica um blog (leia aqui).
Do debate
Apesar das instigantes participações do cineasta e do poeta, acredito que a estrela do evento foi mesmo Luis Nassif. Graças à sua participação os temas imprensa - com destaque para o caso Veja - e blogs permearam a noite.
O debate começou a esquentar quando recebi uma deixa do editor do Jornalirismo, Guilherme Azevedo, que mediava o debate. Ele anunciou, ao microfone, minha presença na platéia. Foi uma senha para que eu disparasse a primeira pergunta do público.
Nassif acabara de fazer uma exposição sobre o dossiê Veja e sobre o comportamento dos quatro grandes meios de comunicação que lideram a reação conservadora ao governo Lula (Veja, Folha, Estadão e Globo). Pedi, então, para falar, e anunciei que faria "a pergunta do século", ou seja, "por que?". Essa pergunta refere-se ao seguinte: está claro o considerável prejuízo de credibilidade que a grande mídia está tendo com o processo em que mergulhou. Perda de audiência, inclusive, é apenas um dos resultados dessa perda de credibilidade. O que a mídia ganha com isso?
Minha pergunta foi ao Nassif e ele deu uma explicação longa, mas que, apesar do brilhantismo do jornalista, não me satisfez Em minha opinião, nem ele, um dos jornalistas mais experientes do país, que chegou a integrar o Conselho Editorial da Folha e que conhece "o sistema" por dentro, entende bem a razão de esses meios de comunicação terem mergulhado nesse processo suicida, que está causando perda de circulação aos jornais e revista e queda pronunciada da audiência da Globo.
Um dos pontos altos do debate foi a exposição do Nassif sobre o fenômeno dos blogs. Ele explicou como, a partir do seu blog, ele mesmo vai formando sua opinião, devido ao diversificado e altíssimo nível de seus leitores comentaristas. Exemplificou relatando o que aconteceu, por exemplo, durante a catarse que sucedeu o acidente com o avião da TAM, no ano passado. Em um dia, em resposta a provocação que fez em seu blog quanto ao desastre, relatou que publicou mais material pertinente sobre o assunto, via contribuições de seus leitores-comentaristas, do que a mídia havia feito em uma semana inteira. E é verdade. Aqui mesmo no Cidadania especialistas em aviação haviam se manifestado sobre o desastre, dizendo que a tese da falta de ranhuras (grooving) na pista de Congonhas, que a mídia dizia ser a causa do acidente, não explicava a tragédia.
Das receitas de Nassif para blogueiros, está a capacidade que devem ter de conviver com o contraditório sem permitir que as "abelhas assassinas" envenenem o ambiente, e até a capacidade de saber quando ceder, admitindo erros a que qualquer um que lida com comunicação está sujeito. Segundo Nassif, é essa "sintonia fina" que faz a diferença entre os blogs que valem a pena ser lidos e os que são dispensáveis.
Pessoalmente, digo que, apesar da profusão de blogs, poucos são os que valem a pena ser lidos, porque uma grande parte deles limita-se ao famoso "corte e cole", ou seja, a reproduzir conteúdos disponíveis na internet, uma prática que é válida, segundo Nassif, que acredita que o trabalho de um jornalista da internet hoje é, também, o de organizar a informação disponível. Contudo, Nassif produz conteúdo e acrescenta dados aos debates, dados relevantes. Quando blogueiros limitam-se a copiar conteúdos, muitas vezes sem dar crédito a quem os produziu, e descuidam do uso do idioma, nada acrescentando aos debates, seus blogs tornam-se dispensáveis.
Outros resultados
Outros resultados, como direi?, "bacanas" do meu comparecimento àquele evento foi poder ter tido um dedo de prosa com o Nassif, perguntando de sua disposição em participar do seminário sobre a mídia que o Movimento dos Sem Mídia irá promover. Nassif não só me prometeu participar, como debatedor, como também me ajudar a conseguir a participação de outras estrelas do jornalismo. Falei com ele sobre Olavo de Carvalho, de quem Nassif se diz amigo. Será importante para o debate a ser promovido pelo MSM que tenhamos participantes de todos os lados do espectro ideológico.
Aliás, sobre Olavo de Carvalho, Nassif me lembrou de um dado interessante. Apesar de ser conhecido por suas posições extremamente conservadoras, o editor do site Mídia Sem Máscara não embarcou na onda golpista da grande mídia. Com efeito, ao lado de figuras como um José Nêumanne, do Estadão, com quem já mantive intenso contato no passado, ou um Gaudêncio Torquato, outro conservador do Estadão, Olavo de Carvalho pertence à direita civilizada e inteligente. São pessoas das quais se pode divergir, mas que, à diferença de um Reinaldo Azevedo, podem contribuir para um debate de bom nível, interessante e instigante.
Ao fim do evento, meu amigo Guilherme Azevedo me permitiu ocupar o microfone para falar do Movimento dos Sem Mídia à platéia e aos debatedores. Acredito que foi possível despertar o interesse dos presentes e disso certamente advirão novos apoios.
Ao fim da noite, no entanto, depois de sair do evento, fui para casa dormir com a dúvida que nem um Luis Nassif conseguiu me esclarecer. Afinal, o que é, diabos, que leva jornais, revistas e tevês a se manterem num processo que lhes está exterminando o bem maior de um meio de comunicação, que é a credibilidade?
Hoje estarei fora de São Paulo. Os comentários serão liberados intermitentemente.
Mas não os deixo sem leitura. Vejam as idéias do autor da novela Duas Caras, Aguinaldo Silva, publicadas no fim do ano passado em seu blog. Seus pontos de vista explicam sua "obra" na Globo.
Do blog de Aguinaldo Silva:
"Escrito em: 10/11/2007
COM A BOCA CHEIA DE FORMIGAS
Em 1978, quando a ditadura já seguia em velocidade de cruzeiro e muitos intelectuais de esquerda haviam dado um jeito de mamar de novo nas tetas do governo que supostamente ainda condenavam, eu ganhei o I Prêmio Abril de Jornalismo no gênero 'melhor reportagem individual', com uma matéria intitulada 'Pobres Homens de Ouro'.
Os Homens de Ouro, se vocês não sabem, era o ovo da serpente do qual nasceu o Esquadrão da Morte e seus afiliados da época, todos de sinistra memória. Então, aos olhos de todos, inclusive os meus, os mocinhos (ou seja, a polícia) eram os bandidos.
Esse foi um cacoete que adquirimos naqueles tempos difíceis, e do qual muitos não se livraram até hoje: para estes, a polícia não presta. E os bandidos, mesmo aquele psicopata sedento de sangue do ônibus 174, são apenas heróis românticos, justiceiros dispostos a expropriar o que lhes pertence e que nós, a chamada 'elite', lhes roubamos, porque temos o atrevimento de trabalhar e ganhar dinheiro.
Naquela época, os Homens de Ouro, que eram sete e incluíam o famoso Mariel Mariscot, era o que havia de mais temível. Ao escrever sobre eles, e mostrar como eles progrediram na vida através do terror e da mão grande, eu fui premiado, mas causei preocupação aos amigos, que me perguntavam a toda hora: 'você não tem medo?'
Eu tinha. Então eu era – desculpem a falta de modéstia – uma das 'estrelas' dos jornais alternativos Opinião e Movimento, para os quais fazia matérias semanais Muitas vezes eu saía de madrugada de minha casa no então ameno bairro de Santa Teresa para entregar meus textos na redação dos jornais no Jardim Botânico. E enquanto atravessava a Rua das Laranjeiras, o Cosme Velho e o Túnel Rebouças no meu Fusca, tinha a nítida sensação de que estava sendo seguido. Em geral estava. Mas as ameaças nunca passavam disso.
Então eu já tinha sido preso (fiquei 70 dias na Ilha das Flores, 45 dos quais incomunicável), e também fui processado três vezes, sempre por delitos de opinião, que permitiam ao então Ministro da Justiça, o dr. Armando “no coments” Falcão, me enquadrar na Lei de Imprensa.
Podia, por causa da prisão e dos processos, ter pedido indenização ao governo atual, como fizeram muitos. Mas não acho que o povo tenha que pagar pelos agravos que sofri em virtude de minhas convicções políticas. Por isso prefiro viver às minhas próprias custas. E se tem alguma coisa da qual vou me orgulhar na hora da morte é de sempre ter vivido do meu trabalho e jamais ter mamado nas tetas de nenhum governo.
Sim, na época eu tinha medo. Mas por mais sangrenta que fosse a ditadura, as aflições que então sofríamos por causa disso não tinham tanto peso quanto têm as aflições de hoje, quando somos supostamente livres. É que na época os militares até podiam impor arbitrariamente sua vontade. Mas pelo menos não eram fundamentalistas, não achavam que tinham a missão divina de reorganizar e assim salvar o mundo. E agora...
Agora os que não concordam com o que está aí também sentem medo. E são seguidos na calada da noite. E são ameaçados. E têm suas contas bancárias secretamente devassadas. E recebem telefonemas sinistros disparados de celulares com IDs privados. E morrem sim, porque alguns, como aquele prefeito lá de Santo André, são mortos nunca se sabe porquê nem como.
Digo a vocês sem maiores rodeios. Neste momento eu sinto medo, e tenho sérias razões pra isso. A julgar pelo que dizem os telefonemas disparados dos tais celulares com IDs privados, por motivos alheios à minha vontade posso até nem terminar a novela DUAS CARAS, que tanta discussão está gerando.
Mas fica o aviso: se eu parar não será por minha própria vontade. E embora, no final de contas, o que eu faço seja 'apenas Chinatown', ou seja, uma novela, se eu não puder terminá-la porque amanheci, como dizem os tais telefonemas: 'com a boca cheia de formigas', espero que um dia Mamãe História se pronuncie e alguém venha a ser responsabilizado por isso.
Mas não se preocupem. Isso ainda não é uma despedida. Até o próximo texto!"
Comentário: seis meses depois, com toda tecnologia disponível hoje, jamais se comprovou algum telefonema ameaçador a Aguinaldo Silva. Ele denunciou à polícia? A polícia investigou sem ele denunciar? Mistério. Mas a insinuação era a de que José Dirceu o estava ameaçando. Alguma surpresa com o que se tornou a tal Duas Caras? Alguma dúvida de que Silva é inimigo político do PT?
Não se tem notícia de outra novela da Globo como Duas Caras. A novela inteira tornou-se um pretexto para veicular, através de uma concessão pública, as idiossincrasias político-ideológicas da família Marinho, dona da Globo.
A emissora nunca tinha enveredado por esse caminho. Claro que num ou noutro programa as teorias político-ideológicas dos detentores da concessão sempre apareceram, seja em telejornais, programas humorísticos ou em qualquer outro. Mas a obra de Aguinaldo Silva tem zero de dramaturgia e cem por cento de tentativa de doutrinação do público.
Minha preocupação com essa novela reside no fato de que, se não houver alguma reação da sociedade, a Globo perderá de vez qualquer pudor em usar um espaço que pertence a todos para difundir as opiniões de alguns.
A trama de Duas caras apóia-se majoritariamente na venda ao público de uma fantasiosa integração entre negros pobres e brancos ricos que não existe em lugar nenhum deste país, muito menos no Rio, onde se tem uma elite que pode ser qualificada como uma das piores do país, talvez até mais do que a de São Paulo. No entanto, a novela mostra socialites cariocas freqüentando uma favela, casando-se com favelados negros e até defendendo-lhes os direitos. Os racistas brancos e ricos da trama restringem-se ao advogado Barreto (Stênio Garcia), que, aos poucos, também ele vai deixando de ser racista.
Essa é, sem tirar nem pôr, a teoria do livro do diretor de jornalismo da Globo, Ali Kamel, em seu livro "Não Somos Racistas", que, inclusive, foi mostrado num dos capítulos da novela sendo lido pela ex-BBB Juliana Alves, que faz a personagem Gislaine, irmã de Evilázio Caó (Lázaro Ramos); é uma favelada que se opõe frontalmente a políticas como cotas para negros e defende outras teorias sobre racismo ao gosto de Ali Kamel e dos Marinho.
"Gislaine" lê o livro de Ali Kamel
Contudo, não são só as teorias sociológicas da família Marinho que a novela tenta inflar. O autor de Duas Caras, Aguinaldo Silva, mostrou, já nos primeiros capítulos da novela, que pretendia promover acusações contra o governo Lula e o PT. Não foi por outra razão que Clara Becker, ex-esposa de José Dirceu, tornou pública carta enviada ao autor na qual repudiava declarações do novelista de que o vilão de sua nova intriga televisiva, Marconi Ferraço, fora inspirado no ex-ministro chefe da Casa Civil. “Não posso negar que ele tenha me inspirado”, havia dito o novelista.
Mas não ficou por aí. A novela levou ao ar uma paródia do caso do suposto "dossiê" que a grande mídia diz que a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, teria feito contra o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, por exemplo. E, nos últimos dias, trouxe de volta o caso dos "dólares na cueca", no qual o assessor de um político do PT foi preso num aeroporto com dólares dentro das calças, e o movimento anti-Lula criado no ano passado por ricaços de São Paulo, o tal "Cansei", que, em Duas Caras, foi chamado de "Chega".
Obviamente que, diante de questionamentos, tanto a Globo como o autor de Duas Caras tentariam se escudar na boa e velha "liberdade de expressão artística". Qualquer tentativa de rebelião contra o uso de uma concessão pública, como é a faixa do espectro radioelétrico usada pelas emissoras da Globo para fazer ataques políticos ao governo do país, certamente seria acusada de ímpeto censor etc, etc.
Contudo, o argumento é fraco. Se o objetivo fosse pregar apenas contra a corrupção, Aguinaldo Silva poderia trazer de volta a compra de votos para a reeleição de FHC, por exemplo. Se quisessem um tema mais atual, poderiam pôr em evidência o escandaloso caso Alstom, multinacional que foi denunciada pela imprensa internacional e que está sendo investigada pela justiça européia por subornar políticos do governo de São Paulo, tendo sido doadora de fortunas para campanhas de políticos como Geraldo Alckmin, Gilberto Kassab e José Serra.
O propósito político-partidário de Duas Caras é claro e constitui uma bofetada no rosto da sociedade. A Globo atua sob concessão pública e não pode usar essa concessão para atingir objetivos políticos. Quem, como eu, tem opiniões políticas e ideológicas diferentes, porém, tem que engolir as opiniões dos Marinho e sem esperança de ver as suas representadas numa concessão que pertence a todos os brasileiros.
A meu juízo, esse é um abuso que precisa ser coibido pelo Judiciário brasileiro, a fim de que não se torne prática habitual da emissora carioca e de outras por todo país. Assim sendo, penso que deve ser estudada a possibilidade de uma representação ao Ministério Público Federal contra a novela Duas Caras, para que a instituição investigue se esse mau uso da concessão da Globo realmente está ocorrendo e, se estiver, que a emissora seja punida.
Em tempo
Boa lembrança do leitor Orlei. Duas Caras também abordou a questão dos cartões corporativos. Evidentemente que não se referiu aos de São Paulo, e sim aos do governo federal. Vejam o que escreveu o analista de RH de São Paulo:
"Além disso, a novela usou o caso dos "Cartões Corporativos" na tal da Faculdade dos riquinhos; não esqueçam"
Em tempo 2
Outro leitor, Miron, servidor público do Recife, lembra mais uma das muitas abordagens anti-governo Lula da novela Duas Caras.
"[A novela] usou não só o assunto cartões corporativos como também usou a "tapioca" - numa reunião da faculdade, em determinado capítulo, a diretora pede esclarecimentos sobre o uso do cartão corporativo da faculdade para comprar adivinhem o que... TAPIOCA !"
Em tempo 3
Mais uma contribuição de leitor. Vera Pereira, minha amiga, é socióloga e professora aposentada do Rio de Janeiro. Vejam o que ela nos informa:
"Lei no. 8713 de 30 de setembro de 1993, Art. 79: 'É vedada às emissoras de televisão e radiodifusão a veiculação ou divulgação, DURANTE o PERÍODO DA PROPAGANDA ELEITORAL gratuita, de filmes, novelas, minisséries ou qualquer outro programa, que faça alusão ou crítica que prejudique qualquer candidato ou partido político, mesmo que de maneira subjetiva. Parágrafo único. O partido político que se julgar prejudicado poderá solicitar ao Tribunal, que suspenderá de imediato a programação, devendo em cinco dias julgar a questão em definitivo.' "
Em tempo 4
Manifestação do 1º Secretário do Movimento dos Sem Mídia, Antonio Arles, estudante de História da USP de São Paulo:
"Deveríamos fazer a representação baseada no seu post e nos adendos de alguns comentaristas, mas o pedido que devemos fazer ao MPF é o de direito de resposta proporcional ao agravo, como definido na Constituição Federal, Art. 5º, inciso V:
'Art. 5º - Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes:
V - é assegurado o direito de resposta, proporcional ao agravo, além da indenização por dano material, moral ou à imagem'
Penso que todos os grupos representativos da sociedade que tenham se sentido ofendidos pela Novela teriam o direto de apresentar programas no mesmo horário e com a mesma duração (aproximadamente 8 meses) na Rede Globo, que é produtora/veiculadora do referido programa. Assim, estes grupos teriam o direito de apresentar o contraditório em grau de igualdade, reforçado ainda pelo caráter concessionário dos canais de TV aberta que, em última análise, são de caráter público.
A produção independente de conteúdos também seria contemplada, como estabelecido pelo Art. 221, inciso II da Carta Constitucional:
'Art. 221 - A produção e a programação das emissoras de rádio e televisão atenderão aos seguintes princípios:
II - promoção da cultura nacional e regional e estímulo à produção independente que objetive sua divulgação'
Não sei se isso seria possível do ponto de vista jurídico, mas acredito que é um caminho a ser examinado."
Em tempo 5
E os leitores continuam dando exemplos da politização da novela. Agora é sobre uma mentira de Aguinaldo Silva contra a ministra Dilma Rousseff, de que ela se "candidatou". Quem escreveu foi o advogado Odorico Carvalho, de Picos, no Piauí
"Eduardo, noutro capítulo a socialite Gioconda, convidada para ser candidata, diz textualmente: 'Por que não? Se a Dilma pode, eu também posso'. "
Em tempo 6
Leandro Conceição, jornalista de São Paulo:
"Tem outra. Durante a briga entre Juvenal (Antônio Fagundes) e Evilásio (Lázaro Ramos), o primeiro era mostrado como um 'ditador' cego pelo poder que comandava a favela a mãos de ferro, com tudo a seu gosto. O segundo, um homem 'bonzinho', democrático, moderno, que se importava realmente com a favela e não como Juvenal, que só se importava com ele mesmo, segundo mostrava a novela. Pois bem... os dois estavam brigados e disputavam votos a um cargo na Câmara Municipal. Num capítulo, Juvenal se preparava para seu comício e a sua volta... muitas bandeiras vermelhas... Na cena seguinte, surge Evilásio... de camisa azul e amarela... Alguma coincidência? Depois, os dois se aliaram 'pelo bem da favela'. Juvenal entendeu que Evilásio é 'mais preparado politicamente'. Nada a ver com o que pode acontecer em Minas Gerais. E o 'mais preparado, moderno' Evilásio, sempre aparece para os comícios e eventos políticos com uma camiseta azul e amarela. Cores que me lembram algum partido..."
Os leitores mais novos deste blog não acompanharam como uma ONG foi criada (conceitualmente) aqui no fim do ano passado. A esses leitores, esclareço que, das discussões que travamos no Cidadania naquela época, surgiu o consenso de que todo aquele que não se sente representado por impérios de comunicação como a Globo, por exemplo, é um sem-mídia.
O Movimento dos Sem Mídia (MSM) nasceu de uma manifestação que propus em setembro de 2007 em protesto contra as manipulações dos grandes meios de comunicação. Este blog começou a discutir formas de reação e acabamos optando por nos manifestar diante da Folha de São Paulo, pedindo uma mídia plural e ética.
Cerca de 200 pessoas se reuniram diante do jornal em 15 de setembro de 2007, quando foi lido um manifesto de sete laudas. Depois, o documento foi firmado por todas aquelas pessoas e entregue na portaria do jornal.
Houve cobertura de vários veículos da mídia dita "alternativa", tais como o site Conversa Afiada, de Paulo Henrique Amorim, o site de Luiz Carlos Azenha, o site do PC do B (Vermelho.org), o jornal Hora do Povo, a revista Fórum, o site da revista Caros Amigos, o Terra Magazine e outros.
Posteriormente, o MSM se manifestou de novo diante da sede da Globo em São Paulo. E, em 13 de outubro do ano passado, fizemos uma assembléia constitutiva da ONG, que foi então criada como pessoa jurídica.
Dali em diante, vimos dando passos lentos, mas constantes, para que essa ONG se consolide como um instrumento da sociedade, daqueles que se preocupam com o uso indevido do poder de informar as massas.
Em 17 de março, o MSM protocolou no Ministério Público Federal de São Paulo uma representação contra grandes impérios de comunicação, tais como as Organizações Globo, o Grupo Abril, o Grupo Folha etc. Pedimos ao MPF que investigue a responsabilidade da mídia nas mortes e internações hospitalares de pessoas que se vacinaram sem necessidade contra a febre amarela, movidas pelo noticiário.
A representação foi aceita e uma investigação foi instaurada, segundo carta que recebi do MPF na sede da ONG, que é também meu escritório profissional.
Devo esclarecer que cedi meu escritório à ONG devido a escassez de recursos que não lhe permitiria alugar um imóvel. O que acontece é que fiz inserir no Estatuto da ONG a proibição expressa de recebimento de doações de dinheiro público, apesar de a causa pela qual lutamos ser de interesse de toda sociedade.
Alguns foram contra abrirmos mão de um direito que é estendido a qualquer ONG, o de ser financiada com dinheiro público. A própria mulher de FHC tem uma ONG que recebe recursos públicos. Contudo, a credibilidade, em meu conceito, é mais importante do que dinheiro para a organização que fundei. Assim, quero mantê-la acima de acusações políticas, ainda que a maledicência sempre encontre seu caminho tortuoso.
Mas, voltando à representação ao MPF, acredito que já deve haver alguma novidade na tramitação do processo. A representação foi redistribuída para um outro procurador e já houve tempo para algum avanço na investigação. Assim, nesta semana que entra comparecerei à sede do MPF em São Paulo a fim de obter informações.
Novos passos do MSM
Também quero comunicar aos filiados e aos não-filiados os novos passos que a ONG deve dar.
Nos próximos dias, começarei contatos para a realização de um debate público sobre a mídia. Para esse seminário, pretendo buscar o comparecimento de personalidades da mídia dita alternativa e até da grande mídia.
O MSM precisará de apoio de jornalistas com os quais tenho mantido contato e de todos os seus filiados, no sentido de que compareçam ao evento, que terá entrada franca.
Penso que um debate dessa natureza deveria contar com jornalistas dos grandes meios de comunicação e com outros da mídia dita alternativa. E também políticos e líderes de sindicatos e movimentos sociais, como Sindicato dos Jornalistas, a CUT, o MST, a Fenaj etc.
Dos filiados e não-filiados à ONG, pedirei a colaboração via doações, a fim de podermos fazer frente aos gastos com a realização do evento. Uma das formas de colaborar será clicando no banner da revista Fórum nesta página e assinando a revista, pois parte da renda auferida será direcionada ao MSM.
Para quem não puder contribuir dessa maneira, uma alternativa para contribuir com valores menores será fazê-lo diretamente ao MSM. Quem quiser ajudar pode postar comentário aqui que darei mais detalhes.
Quem quiser se filiar e apoiar o MSM, difundindo a ONG e arregimentando filiados, que coloque comentário aqui que igualmente darei informações.
Nova representação ao MPF
Também quero comunicar que, nesta semana, encaminharei à assessoria jurídica do MSM um estudo sobre uma nova denúncia ao MPF sobre a qual adianto agora alguns detalhes.
As tevês abertas e privadas, as rádios, enfim, a mídia eletrônica administrada por particulares, de maneira nenhuma deixa de ser também pública, na medida em que a concessão de uso do espectro radioelétrico é pública.
É por essa razão que, em época de eleições, há proibição do TSE de veiculação de opiniões sobre políticos nos meios de comunicação. A teoria que fundamenta essa proibição é a de que as opiniões de meios de comunicação aliados ou adversários deste ou daquele grupo político podem constituir uso de um bem público com fins políticos sectários.
Está errado que essa proibição exista apenas em época de campanha eleitoral. Nos próximos dias, terminará a novela das oito da Globo, "Duas Caras", de Aguinaldo Silva. Essa novela vem se constituindo num panfleto político-ideológico que usa o espaço público concedido à família Marinho para veicular suas opiniões político-ideológicas.
Para que se possa mensurar a dimensão do uso político da concessão pública aos Marinho, a novela tem feito campanha contra cotas para negros em universidades públicas, começou a ser veiculada atacando o deputado cassado José Dirceu, o que gerou uma manifestação de sua ex-mulher, e agora faz apologia enviesada do movimento de classe média alta surgido no ano passado, o tal "Cansei"; fez alusão ao caso dos "dólares na cueca", de um petista, mas ignora escândalos de centenas de milhões de dólares como o da multinacional Alstom, em que esta fechou contratos fraudulentos com políticos do PSDB, tais como Covas, Alckmin e Serra, aos quais fez gordas doações para campanhas eleitorais.
Para que uma medida jurídica seja efetiva, ela deve ter foco. Se se fizer uma representação genérica ao MPF contra o uso político das concessões públicas que são as tevês e as rádios, a possibilidade de êxito diminui muito. Assim, pretendo encaminhar estudo ao setor jurídico do MSM no sentido de decidirmos se cabe uma representação contra a novela "Duas Caras", que está terminando.
O MSM caminha lentamente devido às dificuldades que já relatei, mas caminha. Que não se confunda a lentidão de nossos passos com interrupção da caminhada. A ONG é uma realidade jurídica e sonho com um dia em que se transformará num forte instrumento da sociedade civil para se contrapor ao abuso que as famílias Marinho, Frias, Civita, Mesquita e congêneres fazem do poder que têm, auferido, também, por meio da recepção de recursos públicos.
JORNALIRISMO
Se você é de São Paulo, não deixe de ir debater com jornalistas como um Luis Nassif ou um Pedro Dória na Fnac de Pinheiros, no evento promovido pelo excelente site Jornalirismo, do meu amigo Guilherme Azevedo. Eu estarei lá.