Desastres
&
responsabilidades
Em 13 de janeiro de 2007, a imprensa escrita de todo país relatava um desastre de proporções cataclísmicas em São Paulo que acontecera um dia antes. Ruiu uma rua inteira que passava ao largo de uma escavação onde está sendo construída uma estação do metrô. Sete pessoas morreram e dezenas e dezenas tiveram que abandonar suas casas, pois elas estavam ameaçadas estruturalmente por conta do desastre causado pela obra pública.
O noticiário, sobretudo as primeiras páginas dos jornais, bem como os telejornais, não veicularam uma só acusação em destaque contra o governo de São Paulo. Sobre o governador José Serra, jornalistas dos grandes meios faziam questão de reforçar o fato inegável de que ele acabara de ser empossado no cargo de governador do Estado e, portanto, não poderia ser cobrado pela tragédia.
Ao se querer cobrar o poder público pela tragédia, o governante a ser cobrado deveria ter sido o governador responsável pela contratação do Consórcio Via Amarela, Geraldo Alckmin, pois era obrigação do metrô, empresa subordinada ao governo do Estado, a responsabilidade de fiscalizar se o Consórcio em questão estava atuando como era sua obrigação.
Não houve questionamento de autoridade nenhuma. Notinhas esparsas saíram nas páginas internas dos jornais questionando as autoridades paulistas, mas não passou disso. Depois de algumas semanas, jornal ou telejornal nenhum tocava mais no assunto.
Na imagem abaixo, você vê o tom que a mídia deu ao que muitos passaram a chamar de “Buraco do Alckmin”, mesmo que a mídia tenha bloqueado a difusão dessa expressão.

Folha de São Paulo, 13 de janeiro de 2007
Em 17 de julho do mesmo ano, um avião da TAM não conseguiu parar na pista durante pouso no aeroporto de Congonhas, em São Paulo; atravessou a avenida que passa em frente ao aeroporto e se chocou com um prédio da própria empresa aérea. Cerca de 200 pessoas morreram.
À diferença da tragédia na obra do metro, a causa do acidente era absolutamente incerta. No caso da obra de engenharia que ruiu, só havia duas hipóteses para o desastre: catástrofe natural (furacão, terremoto etc) ou falha no projeto. Descartada a primeira hipótese, só sobrava a segunda. No caso do acidente aéreo, havia várias hipóteses, que iam desde a acusação que prevaleceu, de que a pista de Congonhas tinha problemas, até as hipóteses de defeito no avião ou de falha do piloto.
Nada disso foi empecilho para que a imprensa responsabilizasse o presidente Lula, pessoalmente, pelo desastre, pois ele, em ultima instância, seria o responsável pela Infraero e pela Anac, acusadas de serem as responsáveis.

Folha de São Paulo, 19 de julho de 2007
Na última quinta-feira, fui àquele almoço com o ombudsman da Folha para o qual relatei aqui que ele me convidara. Aproveitei a oportunidade para comentar com ele uma conduta de seu jornal que ele disse ter sido "um absurdo inexplicável", fora do padrão de erros "aceitáveis" que ele diz ser o de seu jornal.
O que o ombudsman considerou uma barbaridade jornalística foi a chamada na primeira página da Folha, em 19 de julho do ano passado, para artigo de um "psicanalista" que trabalhava - não sei se ainda trabalha - no encarte dominical do jornal dito “Revista da Folha”. O texto acusava o governo Lula de ter matado 200 pessoas.
Cerca de um ano e meio depois do desastre na obra do metrô em São Paulo, o tardio laudo do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), órgão vinculado ao governo paulista e que havia prometido o laudo para agosto do ano passado, diz que a culpa pelo desastre é do Consórcio Via Amarela.
Escarafunchando o interior das matérias que a imprensa de São Paulo está publicando sobre o assunto, descobre-se que o laudo do IPT "não isentou o metrô de responsabilidade". O noticiário, no entanto, evita qualquer viés político. O Consórcio de empreiteiras considerado culpado pelo desastre parece que não foi contratado pelo poder público e a responsabilidade pela contratação e fiscalização desse consórcio, no tom impresso pela mídia, não é de ninguém.
Não se tem notícias sobre a investigação do Ministério Público Estadual. A tragédia na obra do metrô em São Paulo caminha para a mais completa impunidade dos responsáveis e, à diferença do que aconteceu e continua acontecendo quando se trata do desastre com o avião da TAM, a mídia impede a politização do assunto.
Você pode decidir se a postura correta dos meios de comunicação é a do buraco do metrô ou a da tragédia aérea. Só não pode defender que os dois assuntos sejam tratados de formas distintas. Ou a mídia retira o viés político do acidente aéreo ou põe viés político no desastre de engenharia. O que a mídia já fez nos dois assuntos, porém, isso não será mudado. E é aí que reside minha indignação. Ficar o dito pelo não dito.
Escrito por Eduardo Guimarães às 12h29
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Para Obama se eleger
Foi comemorada por muitos, com justiça, a vitória de Barack Obama na disputa para ser o candidato do partido democrata à presidência dos Estados Unidos. É um fato histórico que um negro dispute o posto de homem mais poderoso da face da Terra.
Obama, no entanto, não ganhou nada ainda. Terá que se eleger contra a mãe de todos os PFLs, o partido Republicano, que o lingüista Noam Chomsky classificou recentemente como um partido sem escrúpulos, detentor de uma máquina difamatória que já lhe trouxe várias vitórias.
Não se pode esquecer do fato de que Obama terá que se mostrar disposto e empenhado em defender a hegemonia americana no mundo. Ninguém abre mão do título de dono do mundo assim, à toa, e garanto a vocês que os americanos não farão isso. E desconfio de que nós também não faríamos.
Surge, então, uma questão ética: deve Obama relativizar a soberania brasileira na Amazônia, defender a supremacia militar americana, as práticas protecionistas todas que mantêm os Estados Unidos como A potência hegemônica para que o eleitorado americano não pense que ele "enfraquecerá a América"?
Vale perguntar, então: até que ponto um político pode ceder em suas convicções a fim de ganhar uma eleição. Ou não deveria ceder em ponto nenhum? Se assim for, surge talvez a pergunta mais importante: é possível vencer uma eleição falando só a verdade?
Escrito por Eduardo Guimarães às 19h50
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No país de Hugo Chávez
Na noite de ontem, recebi chamada de meu amigo Renato Rovai, editor da revista Fórum. Ele me chamou para me fazer um convite: integrar uma das mesas de trabalho do Fórum Mídia Livre, que começa na semana que vem.
Renato, que é um dos organizadores do Fórum, pediu-me que registrasse, em nota neste blog, o convite, o que faço agora com prazer e gratidão pela lembrança de meu nome para participar de tão importantes discussões, mas o fato é que não terei como participar desse Fórum porque estou de partida novamente.
No próximo dia 15 embarco para Caracas, na Venezuela. Desta vez, porém, será uma viagem mais corrida. Além de o presidente de uma indústria ir comigo, visitarei, além de Caracas, várias outras cidades em vários estados. Assim sendo, as postagens serão menos aprofundadas na realidade venezuelana.
Em se tratando de Venezuela, porém, não é preciso procurar assunto. Eles saltam sobre você em cada esquina.
Escrito por Eduardo Guimarães às 10h18
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Enquanto isso, na
vida real...
Arte de Eduardo Guimarães
Escrito por Eduardo Guimarães às 22h52
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Editorial do ‘Vermelho’
critica ‘Duas Caras’
Ganhou repercussão a denúncia que fiz aqui sobre o uso político da novela Duas Caras. Paulo Henrique Amorim e o site “Vermelho”, do PC do B, repercutiram minha denúncia. Sobre o assunto, o “Vermelho” publicou anteontem um editorial significativo que deve fazer pensar os que lutam por uma mídia melhor neste país.
Quero esclarecer, ainda, que a diretoria jurídica do Movimento dos Sem Mídia não considera encerrado o caso da representação contra a Globo por uso político da concessão pública de que é detentora. Essa diretoria esclarece que apenas pediu cautela e mais tempo para estudar o caso.
Fiquem com o editorial do Vermelho:
“A descarada política da Globo com suas novelas
O Brasil assistiu, dia 31, ao último capítulo da novela ''Duas Caras''. Se houve novidade na trama, assinada por Aguinaldo Silva, ela ficou por conta do abuso nas referências a personalidades e fatos da vida política nacional, e pela ridicularização dos movimentos sociais, misturando realidade e ficção com clara intenção de construir um discurso ideológico conservador.
Essa politização explícita já estava presente desde os primeiros capítulos, quando o autor declarou que o personagem Ferraço (Dalton Vigh), o vilão da trama, foi inspirado na vida do ex-ministro José Dirceu. A referência provocou uma carta indignada da ex-esposa de Dirceu, Clara Becker, acusando o novelista de fazer uma comparação caluniosa para alimentar divergências políticas. Chegou também ao cúmulo de atacar os concorrentes da TV Record colocando, na trama, um grupo de evangélicos que, raivosos, atacou uma mulher grávida acusando-a de promíscua.
Além do embate com os evangélicos, colocou em cena, de forma desfavorável e mistificadora, ''fatos do cotidiano'', como as CPIs, tapiocas, dossiês, cartões corporativos, política de cotas, racismo, educação privada x ensino público, protagonismo político da elite, entre outros temas colhidos pelo autor no noticiário da imprensa conservadora, da qual a novela é uma espécie de outra face da moeda, como ferramenta para formar opinião - no caso, opinião conservadora, alienada.
Ao abusar da politização, a novela global rompeu a barreira delicada que separa o aceitável do inaceitável no uso da concessão pública dos meios de comunicação. Não se discute o direito da emissora retratar assuntos políticos e polêmicas nacionais em seus programas, mas sim se é ético e justo usar um programa de tamanha audiência para atacar adversários políticos e construir discursos favoráveis ou contrários a propostas e idéias em disputata na sociedade.
As regras do jogo democrático pressupõem condições equilibradas para a luta de idéias. Os meios de comunicação sempre foram apontados com um fator de desequilíbrio nesta disputa pois, concentrados na mão de grandes empresários, costumam jogar no campo da direita. Para controlar a manipulação, há uma série de regras para regular o conteúdo das emissoras, especialmente em período eleitoral. Mas elas estão concentradas basicamente no conteúdo jornalístico. Quando a manipulação salta da pauta jornalística para o roteiro da novela (que é uma obra de 'ficção''), o desequilíbrio piora pois a propaganda política disfarçada feita através dela é menos suscetível a processos legais.
Assim, protegida pelo chamado “manto sagrado da liberdade de expressão artística”, as novelas da Globo são um verdadeiro paralelo desregulado ao jornalismo televisivo da emissora para construir discursos favoráveis ao pensamento único neoliberal. E contrários às idéias avançadas historicamente defendidas pela esquerda, como a política de cotas, a liberalização do aborto, a descriminalização da droga, a proibição da pena de morte, a valorização dos movimentos sociais (claramente atacados e ridicularizados pela novela global), a defesa dos direitos humanos etc.”
Escrito por Eduardo Guimarães às 12h07
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Caso Alstom crescendo
O texto que reproduzo abaixo é do blog do jornalista Josias de Souza, da Folha Online, do grupo Folha. Seria um texto correto se não fosse pela mentira escancarada no título, de que o “PSDB imita o PT em SP”.
O texto do jornalista da Folha confunde as manobras regimentais do PT federal para rejeitar proposições governistas numa das várias CPIs conseguidas pela oposição na Câmara dos deputados, em Brasília, com a prática sistemática da bancada governista na Assembléia Legislativa de São Paulo de impedir CPIs às dezenas.
Recentemente, a própria Folha noticiou que parlamentares da oposição estão re-avaliando a estratégia de usar CPIs para brigas políticas. Não produzem nada de concreto, discutindo gastos de R$ 8,30 com uma tapioca, discutindo uso de cartões de pagamento de despesas administrativas, aluguéis de carro, enquanto, em São Paulo, além de esses gastos serem iguais e não se abrir CPI nenhuma, há acusações, não do PT, mas da justiça européia e da mídia internacional de que a transnacional Alstom deu prejuízos de centenas de milhões de dólares ao erário paulista e, por incrível que pareça, a imprensa local, à diferença do que faz com Lula, não ataca o executivo local, sobretudo o governador Serra, por impedir a CPI da Alstom.
A matéria do Josias, abaixo, sai na iternet, mas não sai na Folha ou na Globo. Quando a denúncia é contra o PT, sai nesse tom, abaixo, em todos os jornais e tevês. Aliás, sai muito mais dura.
Na internet, o PIG não bloqueia tanto o contraditório, porque é inútil. Quem lê o Josias (supostamente) mentir no blog dele, pode ir no blog seguinte e descobrir a mentira. Nos grandes jornais e nas redes de tevê, não. Inexiste o contraditório nesses meios de comunicação. E por falta de concorrência. É a tal concentração da mídia, que se dá nas mídias eletrônica e impressa, que recebem subsídios do Estado porque são grandes e são grandes porque recebem subsídio do Estado, via a famigerada publicidade oficial, bem resguardada em lei por quem montou esse sistema de concentração da mídia, lá atrás.
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Mas ao igualar a forma como PSDB age diante de denúncias contra si com a forma de o PT agir nesses casos, Josias ignora que foi o PT que propôs a CPI dos cartões corporativos. O jornalista está fazendo o mesmo proselitismo político pró-PSDB que faz a mídia impressa. Só que, na internet, é possível ser mais direto, digamos assim. Criticar o PSDB, ok, mas colocando o PT no mesmo nível, apesar de ser um absurdo fazer tal comparação diante da avalanche de CPIs que têm ocorrido no âmbito federal.
E também o post de Josias em questão constitui um álibi. Questionada por não denunciar Serra, Alckmin, Kassab, a Folha dirá: “olha o que o Josias escreveu!”. Na Folha imrpressa, no Estadão, no Jornal Nacional, porém, não saem opiniões como essa do Josias. Nem colocando PT e PSDB no mesmo saco. A notícia até sai, mas sem destaque ao fato de que a CPI da Alstom está sendo bloqueada na Assembléia Legislativa e sem críticas a Serra, que comanda o bloqueio da investigação. Falta, pois, a opinião crítica, o martelar diário que a mídia faz com relação a escândalos do PT que envolvem rombos muito menores do que esse dos governos paulistas nos últimos 13 anos.
Eis o texto de Josias de Souza em seu blog:
“Às voltas com o caso Alstom, PSDB imita PT em SP
No livro “A Prisioneira”, traduzido no Brasil por Manuel Bandeira e Lourdes Sousa de Alencar, Proust (1871-1922) ensinou:
“Habitualmente detestamos o que nos é semelhante e nossos próprios defeitos vistos de fora nos exasperam.”
Movidos por diferenças que os igualam, PT e PSDB cultivam uma relação de estudada antipatia.
Assim é que, em Brasília, PSDB e seu aliado DEM só faltam pegar em armas para abrir CPIs contra o PT. A última delas, a dos cartões corporativos, acaba de virar pó.
Em São Paulo, é o PT quem manuseia armas regimentais. Tenta arrastar para uma CPI da Assembléia Legislativa um escândalo de bico grande: o caso Alstom.
A exemplo do que faz o petismo na cena brasiliense, no teatro paulista o governo tucano não hesita em lançar mão da maioria parlamentar para esmagar investigações.
Nesta terça-feira (3), na falta de uma CPI exclusiva, o petismo levou a uma comissão já aberta sete requerimentos relacionados às malfeitorias associadas à Alstom.
Rejeitaram-se todos. Um a um. Num colegiado de nove deputados estaduais, só os dois do PT votaram a favor.
Por sorte, duas ramificações do Ministério Público –o braço estadual e o federal—já se ocupam de escarafunchar os negócios da Alstom com governos tucanos de Mario Covas e Geraldo Alckmin.
Documentos vindos da Suíça oferecem farta matéria-prima para bons inquéritos. Num deles, menciona-se um suposto lote de propinas de R$ 13,5 milhões. Teriam molhado mãos de políticos e autoridades.
Geraldo Alckmin, prestes a escalar os palanques municipais, diz ser a favor da instalação de uma CPI da Alstom. Desde que haja, diz ele, um fato concreto.
"Acredito que até o momento não houve um fato concreto. Mas se houver, os órgãos que estão investigando devem colocar a público. Se ficar comprovado [o pagamento de propina] deve haver punição. Mas precisa haver um fato concreto."
Poucas coisas parecem mais solidamente concretas do que malas de R$ 13,5 milhões. Em 2005, o tucanato sapateou sobre o PT, na CPI do Fim do Mundo, por muito menos.
Dizia-se à época que o partido de Lula recebera US$ 3 milhões de Cuba. Grana supostamente acondicionada em caixas de uísque.
Nada que tivesse, porém, a concretude dos documentos enviados ao Brasil pelo Ministério Público da Suíça. Maledicências? Só a luz do Sol pode dizer.
Não fosse o fenômeno de que falava Proust –“Habitualmente detestamos o que nos é semelhante e nossos próprios defeitos vistos de fora nos exasperam”—, o PSDB trataria de exigir, ele próprio, a solidez de pratos limpos.”
Escrito por Eduardo Guimarães às 11h16
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O homem que vestiu terno

Arte de Eduardo Guimarães
Ele veio garoto para o Sul. Um garoto pobre, uma família grande de nordestinos numa parte do país que os considerava um preço a pagar pela construção da São Paulo moderna. A São Paulo deles.
O menino nordestino tinha tudo para não ser nada na vida. Mas também tinha aquilo que é preciso para ser muito: coragem e capacidade de sonhar.
Num país em que tantos desistem antes de começar, e por razões muito boas, o garoto nordestino via na vida uma oportunidade em vez de um fardo.
Havia um sonho, no entanto, que lhe tomava as noites e o mergulhava em devaneio. Era um sonho que, para muitos, seria de uma banalidade ininteligível: era o sonho de simplesmente vestir um terno, que ele achava lindos, um símbolo de ascensão social impensável para os de sua origem.
O menino se tornou um homem e, então, um líder. Vestiu seu terno e chegou ao topo, dando a uma nação inteira muito mais do que um bom governo, dando aos meninos que sonham vestir ternos a certeza de que a qualquer um é possível vesti-los.
Escrito por Eduardo Guimarães às 00h24
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Amizades proibidas
O conceito de imprensa prevê que, para que ela tenha utilidade às sociedades, seja independente, pois a principal utilidade que se pretende que tenha é – ou deveria ser – a de fiscalizar o Estado.
A amizade, por sua vez, cantada em verso e prosa desde priscas eras, há casos nos quais pode se converter em elemento perversor da ética. Quando a amizade se mescla com a política, por exemplo, ela pode gerar anomalias institucionais, sobretudo se essa amizade se der entre políticos e aqueles aos quais se delega aquela prerrogativa fiscalizatória do poder.
Algumas amizades proibidas:
1 - Polícia e bandido
2 - Juiz e júri
3 - Juiz e réu
4 - Réu e júri
5 - Interesses público e privado
E por aí vai...
Se alguém quiser que eu defina o problema que vejo entre a imprensa de São Paulo (Editora Abril, Grupo Folha, Estadão, SBT, Bandeirantes...) e o PSDB, direi que, no mínimo, é a amizade que os donos desses veículos mantêm com esse partido.
A verdade é uma só: eles "se freqüentam". Por exemplo: Frias é amigo de Serra e Mesquita é amigo de FHC. Essas amizades esmaecem ou até impedem críticas mais contundentes das empresas jornalísticas dos barões dessa imprensa aos amigos políticos deles?
A resposta é tão ridiculamente óbvia que nem me darei ao trabalho de escrevê-la. O fato é que, no mínimo, essa relação de amizade deveria ser explicitada aos paulistas, se não a todo o país, pois esses veículos são acompanhados por todo este país.
Como se pode ver, até o nobre e belo instituto da amizade tem seu lado negro. Que dizer da política e do jornalismo, então?
Escrito por Eduardo Guimarães às 13h38
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Eduardo Castro, da EBC,
fala ao Cidadania
Eduardo Castro, gerente executivo de jornalismo da EBC - Empresa Brasil de Comunicação, fez contato comigo hoje (2/6). Ele lê este blog. Conversamos, por telefone, durante mais de uma hora. O papo acabou se convertendo em matéria-prima para este post devido ao cabedal de informações relevantes de que dispõe o jornalista, que, antes de ser convidado para trabalhar na TV Brasil, foi diretor de jornalismo da tevê Bandeirantes entre 2005 e 2008, tendo trabalhado na emissora paulista por 13 anos.
Castro passou a ler este blog à época em que foi publicado aqui um post sobre a saída do apresentador do telejornal da TV Brasil Luiz Lobo, que deixou a emissora acusando sua direção de ter pretendido obrigá-lo a noticiar o caso do dossiê que a mídia e a oposição tucano-pefelista disseram que a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, mandou fazer contra FHC, mas sob a ótica do governo federal.
Castro diz absurda a acusação. Lembra que o noticiário deu espaço igual às versões do governo e da oposição / mídia. Sem viés. E desafia que apontem onde, na cobertura “denunciada” por Lobo, houve qualquer manipulação. Segundo o gerente de jornalismo da TV Brasil, simplesmente o jornalista demitido pretendia tratamento diferenciado dos demais colegas de trabalho.
Foi uma conversa longa e, infelizmente, não a gravei, mas acredito poder reproduzir de memória o que conversamos, conversa que acabou se convertendo numa entrevista.
Segundo Castro, dois princípios pautam hoje o trabalho que a TV Brasil pretende fazer para que, ao fim do que qualificou como “um processo”, o país disponha de uma verdadeira tevê pública.
O primeiro princípio é o da pluralidade. Perguntado por mim sobre como a idéia que fundamentou a criação da EBC foi concebida no que tange a garantia de que ela não se converterá num instrumento de propaganda política do governo, seja deste ou dos próximos, Castro me ofereceu algumas informações que acredito serem de interesse público. São informações públicas, porém. Não estou revelando nenhuma novidade, mas os discursos políticos acabam vendendo a falsa teoria de que a TV Brasil será a “tevê do Lula”. Castro mostra que não.
A presidência da EBC, agora, tem mandato, diferentemente do que acontecia na Radiobrás e nas TVEs. O presidente da República, que representa o acionista majoritário da empresa EBC, a União, poderá indicar, sim, o presidente da tevê pública, mas não poderá tirá-lo do cargo. E "a escolha do próximo conselho da EBC será feita por um mecanismo a ser definido por ele próprio".
O risco de uso político sempre haverá, mas há instrumentos para a EBC resistir a eventuais cercos políticos dos governos, porque, além das dotações orçamentárias federais, poderá ir buscar recursos até no setor privado a título de "apoio cultural", ou seja, "não anunciará produtos e serviços a fim de fugir da lógica de vender anúncios e buscar desenfreadamente mais audiência; só divulgará o nome de quem a apóia". Segundo Castro, o risco de utilização política da TV Brasil, por conta disso, é menor do que de outros organismos de Estado.
O outro princípio básico que norteará a EBC, segundo seu gerente executivo de jornalismo, será “descer ao nível da explicação” nos programas jornalísticos. Castro deu um exemplo: ao noticiar as milícias que torturaram jornalistas no Rio, será feita uma matéria dentro da matéria explicando o que são essas milícias, tentando formar o entendimento do cidadão em um nível menos superficial.
Castro relata que, por conta da qualidade que se tenta imprimir ao jornalismo da emissora pública, as previsões dos inimigos da criação da TV Brasil de que ela daria “traço” de audiência, já foram frustradas. A emissora já consegue chegar, em vários programas, a 1 ponto de média na audiência, o que seja, do início ao fim de um programa, sobretudo no jornalístico Repórter Brasil. A tevê pública, portanto, já pontua, apesar de que começou com audiência na faixa de 0,27 ponto de média.
Note-se que, ao passo que um Jornal Nacional dá 26 pontos de média, o Repórter Brasil, da tevê pública, chega a um ponto apesar de seu sinal aberto só estar sendo captado em Brasília (canal 2), no Maranhão (canal 2) e no Rio (canal 2). Mas já se pode assisti-la pelas tevês a cabo Net (canal 4) e Sky (canal 116). A programação da emissora pública também é retransmitida pelas tevês estaduais de 20 Estados. Porém, ainda é uma pequena rede de difusão, diante dos grandes conglomerados privados de radiodifusão.
O Repórter Brasil, uma das apostas da EBC, também já pode ser assistido pela internet (www.tvbrasil.org.br), às 21 horas. Uma das diferenças que o noticioso da tevê pública tem em relação aos outros telejornais é sua duração: uma hora. O telejornal trará, ainda, entrevistas e debates sobre todos os assuntos, sobretudo políticos, e não haverá tempo pré-estabelecido para as matérias, ou seja, terão a duração que for necessária.
Castro fez questão de destacar, como exemplo do jornalismo sério que a tevê Brasil pretende fazer, o fato de que não fez uma única matéria ao vivo sobre o caso da menina Isabella, com exceção do dia em que o casal Nardoni foi preso. Sobre um assunto de interesse público, a TVB informou só o que havia de novo para informar, sempre em VTs de 1 minuto.
Perguntei a Eduardo Castro sobre em que prazo ele acredita que a tevê Brasil já terá uma cobertura de cem por cento do território nacional. O executivo da tevê pública não se compromete com prazos, mas espera que ela chegue ao fim do governo Lula “sendo notada”. Destaca, no entanto, o caráter conjuntural da iniciativa. Ou seja: tudo poderá mudar se mudar a orientação do governo federal. Esse, no entanto, é o risco que correm todas as empresas nas quais influi esse governo.
Pareceu-me que um instrumento importante para o país está sendo criado. Tanto quanto muitos outros. O que não se pode, neste país, é permitir que a raposa volte a tomar conta do galinheiro. Ou seria um pássaro?
Escrito por Eduardo Guimarães às 22h16
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Inflação, gargalos e
remédio
É bom ir preparando nossos espíritos, porque o país tem um problema sério a resolver e, por conta disso, muita politicagem será feita nas próximas semanas. Há alguns focos inflacionários que começam a se agravar. Notadamente, nos alimentos e nos aluguéis. Isso precisa ser resolvido.
Não é um problema exclusivamente brasileiro nem denota má administração da economia. A inflação, basicamente, é um fenômeno que sempre existiu e sempre existirá. E a América Latina, que atravessa uma fase de prosperidade inédita, está submetida a repiques inflacionários.
Alguns países latino-americanos, até por injunções políticas, deixaram o crescimento correr solto. Nesses países, o problema é ainda mais grave. Argentina e Venezuela, por exemplo, já têm taxas de inflação na casa dos dois dígitos (acima de 10%) e subindo.
O Brasil, com a moderação de suas taxas de crescimento via política monetária (taxa de juros), tem conseguido manter a inflação dentro do sistema de metas. Porém, tudo indica que os aumentos de preços já começam a se aproximar do teto da meta deste ano.
Há duas formas para conter inflação de demanda – e é esse o caso da inflação que já começa a se pronunciar no Brasil: política monetária e importações.
No caso das importações, elas visam combater os aumentos de preços dos produtores nacionais expondo seus produtos à concorrência de produtos externos. Esse “remédio” antiinflacionário já vem sendo usado, até por conta da valorização do real, que barateia as importações.
Mas há um limite para o uso da concorrência externa para conter preços internamente. O resultado de médio prazo da exposição da produção nacional à concorrência ilimitada com os importados é o desajuste nas contas externas.
O que resta ao Brasil, neste momento, é a política monetária. É preciso conter a inflação. O aquecimento da economia é cada vez maior. O desemprego vem caindo com velocidade cada vez maior.
Os gargalos da economia já começam a ficar mais visíveis. Só há, pois, uma forma de diminuir o fluxo de demanda que tenta passar por tais gargalos: é preciso aumentar os juros.
Não adianta nos iludirmos. O Brasil vem de décadas de crescimento medíocre e, ainda por cima, intercalado por estagnação e até por recessão. Esse baixo crescimento dos anos 1980 e 1990 fez com que a produção nacional ficasse bem aquém da necessidade do país.
Não temos um parque industrial e uma agricultura capazes de prover plenamente o país numa situação de consumo normal, ou seja, em que as pessoas consumam tudo o que precisam.
Quanto mais gente consegue emprego, maior é o contingente de consumidores. Aqueles que estavam fora do mercado de consumo, entram. Quem mal comia, passa a comer melhor; quem não comprava roupas novas, começa a comprar, e por aí vai.
A solução, se não produzimos tudo o que precisamos, é importar. É a alta do consumo e não o preço do dólar, como dizem, que está provocando redução do saldo em conta corrente (conta de todas as divisas que entram e saem do país) e que ameaça a balança comercial (exportações versus importações). Estamos exportando até mais, porém estamos importando muito mais para atender à demanda interna.
Alguns virão com aquela conversa mole sobre os gastos do governo. É balela. Falam de gastos do governo como se o governo estivesse jogando dinheiro fora. Só para vocês terem uma idéia, gastos do governo são Educação, Saúde, Segurança, políticas sociais etc.
É preciso moderar o crescimento da economia. E, para tanto, é preciso fazer uma sintonia fina, para que o remédio dos juros não mate o doente. Contudo, não dá para manter o atual nível de crescimento. Podemos crescer, mas temos que crescer mais devagar até que os investimentos em produção comecem a aparecer.
Haverá, em contrapartida, uma redução da oferta crescente de emprego. Contudo, é possível manter essa oferta crescendo, porém mais devagar. Se a sintonia fina for bem feita, poderemos manter um crescimento próximo ao do ano passado, mas que não exploda. Não dá para o Brasil crescer 7, 8 por cento. Ainda.
Agência Reuters:
02/06/2008 - 11h20
Superávit comercial sobe a US$ 4 bi em maio, maior valor do ano
BRASÍLIA (Reuters) - A balança comercial (registro das importações e exportações de mercadorias de um país) verificou em maio um superávit comercial de US$ 4,077 bilhões, o maior valor mensal do ano e superior ao saldo de maio de 2007, mostraram números do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior nesta segunda-feira.
No ano, superávit é de US$ 8,7 bi
As exportações totalizaram US$ 19,306 bilhões no mês, com saldo médio por dia útil de US$ 965,3 milhões. As importações ficaram em US$ 15,229 milhões, com média de US$ 761,5 milhões.
Em maio do ano passado, o superávit comercial foi de US$ 3,853 bilhões. Em abril deste ano, a balança teve saldo positivo de US$ 1,743 bilhões.
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O que significa o que você leu acima? É que estamos importando muito. Por que estamos importando muito? Porque estamos precisando de mais produtos. Não é o caso de os produtos nacionais estarem encalhados. Pelo contrário: não estão sendo produzidos em quantidade suficiente, em muitos segmentos de mercado.
Não dá mais para conviver com o atual nível de crescimento do consumo, até que os investimentos que estão sendo feitos, inclusive por estrangeiros, para aumentar a produção comecem a produzir os resultados para o qual foram feitos.
Escrito por Eduardo Guimarães às 10h53
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O álibi da Folha
Os contatos que mantive recentemente com o atual ombudsman da Folha de São Paulo geraram, em boa parte dos leitores que se identificam com minhas posições políticas, suspeitas e teorias conspiratórias sobre os motivos do ombudsman para se aproximar de mim.
O que gerou tais reações em parcela do leitorado do Cidadania foram:
1 - o convite que Carlos Eduardo Lins da Silva me fez para ir à sede do jornal para falarmos de sua atuação como mediador do programa Roda Viva antes de se desligar daquela função para se tornar ombudsman;
2 - os e-mails que ele e eu continuamos trocando depois de nossa reunião na Folha;
3 – um posterior convite dele para almoçarmos juntos
O que explica essas reações entre aqueles que, como eu, desaprovam, com maior ou menor intensidade, a partidarização da grande mídia, foi a forma como o antecessor do atual ombudsman foi levado pela Folha a deixar o cargo. Mário Magalhães fez duras críticas ao jornal e ao resto da grande mídia pela cobertura "jornalística" partidarizada no caso dos cartões corporativos e no do "dossiê" supostamente "anti-FHC". O jornal quis mutilar seu trabalho, mas ele não concordou e pediu demissão
Magalhães ganhou o respeito do público por praticamente acusar de partidarismo pró-PSDB o jornal que o empregava e que, por alguns meses, ainda o empregará, pois os ombudsmans da Folha têm estabilidade de seis meses depois de deixarem o cargo.
É compreensível e lógico, portanto, que esses leitores tenham visto na escolha de Carlos Eduardo como novo ombudsman uma escolha de alguém que seria "dócil" no cargo, que não criaria “problemas” ao jornal, como seu antecessor.
Eu mesmo, confesso que fui "armado" para a reunião com Carlos Eduardo e que, a princípio, achei que era fundamentada minha percepção e a de meus leitores sobre a natureza da escolha do novo ombudsman. Porém, desde o primeiro momento em que recebi o convite dele para ir ao jornal conversar consigo tentei manter a mente aberta para a possibilidade de estar enganado.
Tenho que fazer uma outra confissão a fim de explicar por que, apesar de a lógica apoiar a teoria sobre a "docilidade" do novo ombudsman da Folha, quis dar a ele o benefício da dúvida. O que acontece é que, quando Mário Magalhães assumiu o cargo e não saiu desancando o jornal logo de cara, escrevi um duro artigo - que, inclusive, foi publicado no Observatório da Imprensa - criticando o jornalista por suas colunas inicialmente contemporizadores com a conduta partidarizada do veículo.
Magalhães me fez quebrar a cara e se tornou um dos melhores - se não o melhor - ombudsman da Folha. A honestidade de seu reconhecimento do partidarismo da Folha e correção de sua conduta quando o jornal tentou mutilar seu trabalho e diminuir a contundência de suas críticas mostrou-me o erro do açodamento, da precipitação em julgar, da injustiça em não dar uma oportunidade às pessoas antes de condená-las peremptoriamente.
A coluna deste domingo do novo ombudsman da Folha mostra que, aos poucos, como seus antecessores ele vai entendendo por que seu jornal é tão criticado. A crítica que ele faz ao jornal tem um quê de desalento, mas mostra que, aos poucos, ele começa a entender quão ruim é o jornalismo praticado por seu atual empregador.
Carlos Eduardo faz alusão ao verdadeiro absurdo que foi reportagem da Folha que fez insinuações contra o PT na primeira página quando o próprio jornal tinha, nas páginas internas, prova de que a acusação que era feita àquele partido em destaque poderia ser feita com muito mais contundência ao seu principal adversário, o PSDB.
Vejam:
"Folha de São Paulo, 1º de junho de 2008
Doações a partidos
por Carlos Eduardo Lins da Silva
Em minha opinião e na dos 14 leitores que se manifestaram sobre o assunto ao ombudsman a reportagem que a Folha publicou na segunda sobre doações a partidos colecionou equívocos.
Ela mostra, com tom de denúncia, que grandes empresas que fizeram doações ao PT em 2007 receberam por serviços prestados ao governo federal no segundo mandato do presidente Lula quantia 54 vezes maior do que a doada.
As doações foram legais e são públicas. O jornal, ao questioná-las, pode passar a impressão de não aprovar esse tipo de operação prevista na legislação. Não preferirá, de certo, que se faça uso de caixa-dois e de clandestinidade.
Por serem grandes empresas, é natural que elas viessem a receber grandes contratos do governo federal. Se as licitações e concorrências que venceram também não apresentam irregularidades, não há razão para espanto.
Em todos os países em que doações a partidos políticos são permitidas pela lei, é comum que grandes corporações as façam a todas as agremiações políticas em condições de chegar ao poder. No Brasil, não é exceção.
Tanto é assim, que em retranca separada e menor, não mencionada na capa, o jornal registrou que ao menos algumas das mesmas empresas também doaram ao PSDB e receberam por serviços prestados aos governos de São Paulo e Minas Gerais.
O mais estranho é que quem se dispôs a fazer as contas descobriu que a relação entre o doado e o recebido no caso do PSDB é muito maior do que no caso do PT. Mas o destaque tanto na primeira página quanto nas internas foi para as doações ao PT."
A primeira coluna do novo ombudsman e até uma entrevista que deu à Folha pouco antes de assumir o cargo fundamentavam desconfianças, mas, a exemplo de seu antecessor, Carlos Eduardo parece que, aos poucos, vai sendo obrigado a reconhecer as práticas jornalísticas incorretas, partidarizadas e desonestas do jornal que o emprega.
Aqueles que, por uma razão ou por outra, assumiram o papel de defensores da mídia, dirão que é incoerente criticar a Folha por mau jornalismo enquanto se reconhece a correção dos ombudsmans que ela paga para criticá-la. À primeira vista, é um bom argumento. Ora, a Folha é o único grande meio de comunicação que permite que criticas ao seu partidarismo e às suas malandragens pseudo jornalísticas sejam feitas no próprio veículo.
A Folha, no entanto, tenta fazer uma omelete sem quebrar os ovos. Quer ser partidária e malandra, mas quer, ao mesmo tempo, posar de correta, imparcial e diferenciada.
A estratégia do jornal para atingir esse fim não chega a ser inteligente, mas é esperta. Ao escolher jornalistas sérios para o cargo de ombudsman, garante que ao menos as suas falcatruas intelectuais mais inegáveis serão reconhecidas. Como não dá destaque a elas, muitos de seus leitores não as percebem. E continua cometendo seus malfeitos, mas tendo sempre o argumento de que se auto-denunciou.
Ora, como o leitorado que interessa à Folha hoje é aquele mais engajado ideologicamente, mais conservador e adepto da esperteza, esse leitorado faz de conta que não vê ou até esfrega as mãos de satisfação diante de malandragens como a que Carlos Eduardo denunciou acima. Assim, o jornal sempre tem um álibi para esfregar na cara de seus críticos, seus ombudsmans corretos, mas as denúncias deles não chegam a causar estragos ou impedir malandragens.
Porém, como disse o próprio Mário Magalhães antes de ser defenestrado, os ombudsmans da Folha são como "peito de homem", ou seja, não servem para nada.
De qualquer maneira, fico satisfeito em ver que Carlos Eduardo, a exemplo de seus antecessores, está trilhando o caminho correto. Mesmo que sua caminhada não o conduza ao seu objetivo de fazer a Folha melhorar, ao menos ela produzirá as provas de que queixas de pessoas como eu e vocês são corretas. Dessa maneira, os livros de história nos farão justiça e colocarão esse mau jornalismo da Folha e de seus congêneres numa fétida lata do lixo.
Escrito por Eduardo Guimarães às 12h18
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