Houve andamento da Representação do Movimento dos Sem Mídia feita ao Ministério Público Federal em março deste ano, sobre alarmismo da mídia com base em aumento de casos de febre amarela. Optei por transcrever o andamento do processo a fim de facilitar a leitura do material.
Ministério Público Federal
Relatório Parcial
Peças informativas nº 1.34.001.002473/2008-63
O procedimento administrativo em epígrafe foi instaurado a partir de representação (fls. 3/11) da sociedade civil de direito privado Movimento dos Sem Mídia e diz respeito à divulgação de notícias sobre divulgação de casos de febre amarela por diversos veículos de imprensa.
De acordo com o representante, tais notícias, dotadas de alarmismo e sem base em dados concretos, teriam gerado alarme social infundado que redundou em busca anormal e injustificada pela vacina contra a referida doença. Tal procura, por sua vez, além de gerar lesões à saúde de diversos cidadãos com possível caso de morte, teria causado danos ao erário público.
Desta forma, o interessado requer que esta procuradoria investigue os fatos narrados, pedindo especificamente que se oficie com pedido de informações ao Ministério da Saúde. Requer, também, que se promovam responsabilizações civis ou penais eventualmente cabíveis.
Passo, então, a resumir as notícias relatadas pelo interessado (Anexo I – fls 12/78) dividindo-as por espécies de veículos de informação.
Jornais e revistas
Segundo o representante, que elabora clipping de manchetes obtidas no site www.radiobras.gov.br, as notícias sobre febre amarela se iniciaram em 29.12.2007, quando Jornal do Brasil, Folha de São Paulo e Correio Brasiliense divulgaram a morte de macacos com suspeita da doença no Parque Nacional de Brasília e os esforços do Ministério da Saúde para promover a vacinação na região.
A primeira notícia de morte de pessoa com suspeita da doença, caso ocorrido em Goiânia, foi dada pelo Correio Brasiliense em 6.1.2008. Na mesma data, os jornais O Globo e O Estado de São Paulo relataram os esforços de vacinação contra a doença no DF e em GO.
Em 8.1.2008, Folha de São Paulo e Correio Brasiliense noticiaram mais casos de suspeita da doença e de morte em Brasília.
Em 9.1.2008 notícias relatavam morte de Graco Carvalho Abubakir, caso confirmado de febre amarela pelas autoridades do Distrito Federal. Jornal do Brasil, Folha de São Paulo, O Estado de São Paulo, O Globo, Correio Brasiliense e Estado de Minas trazem notícia sobre o temor da população à doença, os esforços para distribuição de vacinas e a corrida aos postos de vacinação em diversos municípios do Planalto Central.
Em 10.1.2008, Jornal do Brasil, Folha de São Paulo, O Globo, Gazeta Mercantil e Correio Brasiliense relataram as declarações do ministro da Saúde de que não haveria risco de epidemia, os casos suspeitos da doença e os esforços do governo para distribuição de vacinas.
A partir desta data os veículos acima elencados e outros passam a relatar diariamente os casos de suspeitas e confirmações de contaminação ou morte por febre amarela, noticiam a procura pela vacina e as medidas adotadas pelas autoridades para garantir a demanda. Em 13.1.2008 Revista Época e Revista IstoÉ publicam matéria sobre a doença.
Destaca-se a noticiação pelo jornal do Brasil, Folha de São Paulo, O Estado de São Paulo, O Globo, Gazeta Mercantil, em 14.1.2008, das declarações do ministro da Saúde em rede de televisão de que a incidência de febre amarela não era anormal. De acordo com o relatório organizado pelo interessado [MSM], o Correio Brasiliense não se manifestou sobre as declarações do ministro, apenas informou sobre a incidência global da doença. (Febre amarela já alcança 45 países [...] ).
Em 16.1.2008 o Jornal do Commercio publica manchete sobre os casos confirmados da doença e em 20.1.2008 a revista Veja publica matéria sobre os casos com fortes críticas ao governo.
A febre amarela continuou nas manchetes de jornais diariamente. Em 1.2.2008 a Folha de São Paulo noticiou o primeiro caso de suspeita de morte por febre amarela VACINAL [grifo do editor do blog], acompanhado de texto opinativo criticando a postura de diversos órgãos de imprensa que não divulgavam notícias sobre os riscos da vacina.
Artigos de opinião
Eliane Cantanhêde, em 9.1.2008, na Folha On Line, conclama seus leitores a se vacinar em qualquer hipótese. Elio Gaspari publicou, em 13.1.2008, na Folha e n’O Globo, artigo criticando a postura do governo quanto às medidas preventivas.
De outro lado, o interessado cita, entre outras, matéria da jornalista Conceição Lemes sobre as reações adversas à vacina publicada em 14.1.2008 no site “Vi o Mundo” e o editorial da Folha de São Paulo de 15.1.2008, reconhecendo, com ressalvas, a normalidade dos índices de contágio pela doença.
Destacam-se, ainda, artigo de Paulo Henrique Amorim, publicado em 25.1.2008 no site “Conversa Afiada”, defendendo que o Ministério Público deveria processar o Correio Brasiliense e O Globo (fls. 47/48) e coluna do Ombudsman da Folha de São Paulo criticando o tratamento desigual conferido às manchetes sobre a doença em 2007 / 2008 e em 1999 / 2000, quando foram registrados índices maiores de contágio.
Mídia televisiva
O relatório do interessado aborda somente os telejornais exibidos pela Rede Globo. As reportagens descritas foram obtidas no site da emissora.
De acordo com o relatório, a Globo inicia cobertura dos casos de febre amarela em 28.12.2007 com matéria do Jornal Nacional sobre medidas adotadas em Brasília após a morte de macacos sob suspeita da doença. Segundo o interessado, o telejornal destaca a possibilidade de retorno da forma urbana de contágio.
A cobertura da Globo segue, então, ciclo parecido com o da imprensa escrita: relata diariamente a evolução de casos suspeitos ou confirmados de contágio ou morte, as medidas adotadas e declarações prestadas pelo governo, bem como a corrida da população aos postos de vacinação.
A última as matérias a que o interessado faz menção data de 10 de janeiro. Veicula declaração do ministro da Saúde, a morte de macacos, a remessa de vacinas a regiões de risco e, por fim, faz menção aos riscos de vacinação desnecessária.
O representante [MSM] ressalta que as notícias apresentadas são apenas exemplo do que foi divulgado pela mídia brasileira no período.
Finaliza seu relatório ressaltando o fato de que o tratamento conferido pela mídia brasileira no período abordado foi muito desigual ao de oito anos antes. Realiza exercício comparativo no qual afirma que, enquanto no surto de febre amarela de 1999 / 2000 a cobertura foi predominantemente propositiva e deu voz ao ministro da Saúde, na cobertura recente predomina aspecto negativo e alarmista, além de deslegitimar declarações do governo.
O interessado instrui sua representação com cópia de seu estatuto social (fls. 60/68), cópias de diversas matérias escritas (fls. 80/139) e com CD contendo as reportagens exibidas pelos canais de televisão (fls. 140) .
É o que tinha a relatar.
Conclusão
Nesta data, faço estes autos conclusos à Exma. Sra. Procuradora da República dra. Eugênia Augusta Gonzaga Fávero.
São Paulo 13 de maio de 2008
Lucas Cabette Fabio
Estagiário de Direito
No fim da transcrição dos fatos, a procuradora dra. Gonzaga Fávero escreve, à mão, seu despacho, conforme reprodução abaixo. Ao lado da imagem das anotações, está a transcrição do que ela escreveu.
Perdidos nos meandros tortuosos da disputa política e ideológica exacerbada que se abateu sobre o país, muitas vezes deixamos de lado avaliações que precisam ser feitas independentemente dessa disputa, pois o objeto dessas avaliações interfere na vida de todos, sejam tucanos ou petistas, conservadores ou progressistas.
Para quem a política é um princípio em vez de um meio de sobrevivência, ver que rumo está tomando o país, em questões econômicas, é de uma total obrigatoriedade. Mas só para quem quer permanecer atento ao que o futuro lhe reserva.
Para esses, escreverei sobre um vaticínio tenebroso, a meu ver exagerado, mas que é encampado por gente da maior respeitabilidade, por gente que, a meu ver, tenta separar suas idiossincrasias político-ideológicas dos fatos, da verdade.
Uma dessas pessoas é o jornalista Luis Nassif. Li, certa vez, entrevista de Mino Carta em que ele afiançava que Nassif é dos poucos jornalistas capazes de separar, com sucesso, sua visão de mundo dos fatos.
Nassif tem sido um crítico renitente da política econômica. Suas principais críticas se baseiam nas políticas cambial e monetária.
Quanto à política cambial, a oposição de Nassif se concentra mais nos resultados do que na causa, pois não esclarece que medidas o governo deveria tomar para desvalorizar o real a fim de provocar uma inflexão na deterioração aparente das contas externas.
Nassif pede, por exemplo, regras para os capitais especulativos, aqueles que vêm faturar nossa taxa de juros alta e que podem deixar o país na hora em que bem entenderem. Essa medida ajudaria a “enxugar” a quantidade crescente de dólares que vêm ingressando na economia.
O jornalista também pede não apenas a manutenção, em vez do aumento, da taxa básica de juros da economia, a Selic. Pede que ela seja reduzida, pois seria o principal fator de atração de dólares “especulativos”.
Hoje, Nassif, em seu blog, cita trecho da última ata do Copom que faz as menções às contas externas. O jornalista faz essa citação a fim de demonstrar que o Banco Central age como “avestruz” ao não fazer prognóstico sobre as contas externas no capítulo da Ata sobre Evolução Recente da Economia Brasileira.
Vejam o que diz a Ata do Copom:
A balança comercial continua registrando perda de vigor na margem, tendência já antecipada e que está em consonância com avaliações expressas em Relatórios de Inflação e em Notas de reuniões anteriores do Copom. (...) Como observado em Notas de reuniões anteriores, as importações vêm crescendo em ritmo mais acelerado do que as exportações, em razão tanto do fortalecimento do real como do maior nível de atividade econômica no país, a despeito das elevadas cotações de diversas commodities características da pauta exportadora brasileira. A redução dos superávits comerciais contribuiu para que o saldo em transações correntes registrasse déficit de US$14,7 bilhões em doze meses até abril de 2008, equivalente a 1,1% do Produto Interno Bruto (PIB). Por sua vez, os investimentos estrangeiros diretos chegaram, nos doze meses até abril, a US$37,2 bilhões, equivalente a 2,8% do PIB.
Segundo Nassif, a Ata é prospectiva em relação à inflação, aos efeitos da política monetária e aos investimentos internos, mas, quando entra no tema contas externas, vira descritiva, porque se for prospectiva “não haverá mais como deixar de lado o problema” dessas contas.
Em seguida, o jornalista formula algumas questões instigantes.
“Se as contas externas entrarem em parafuso, o câmbio explode. Ou não? Se o câmbio explodir, todo esse esforço gigantesco para segurar a inflação vai para o espaço. Ou não?
O custo fiscal desses anos todos de juros elevados, a enorme luta para a criação de uma curva de juros mais longa, os pontos de PIB (ou seja, de emprego, salário e renda) comidos ao longo de anos e anos terão sido em vão”
Não se pode dizer que as questões de Nassif são bobagem ou exageradas. Mas vamos traçar um outro quadro só para que se tenha uma idéia da complexidade do assunto e da total impossibilidade de ser tão taxativo nas propostas formuladas.
O consumo estava explodindo. O crescimento da economia, antes da retomada dos aumentos da Selic, já ameaçava subir à casa dos 7 ou 8 por cento ao ano. O país produz tudo o que precisa para agüentar esse crescimento sem fazer com que explodam as importações? Não. Assim, a explosão da demanda poderia ter o mesmo efeito nas contas externas que Nassif diz que terá o aumento dos juros, ou seja, o de aprofundar a desvalorização do dólar e o decorrente comprometimento das contas externas.
Por outro lado, se a deterioração da relação entre tudo que entra e sai de divisas do país fosse tão inevitável, se não houvesse a possibilidade de remessas de lucros, por exemplo, estarem por diminuir significativamente, de forma a diminuir o déficit nessa relação, e se o vislumbre de uma deterioração mais intensa nas contas externas não produzir uma maior procura por dólares, equilibrando o preço da moeda americana, penso que as boas notas dadas à economia brasileira pelas agências de classificação de risco não teriam ocorrido.
É nesse ponto que entram as teorias conspiratórias. As agências estariam a serviço de especuladores que querem se esbaldar com nossa taxa de juros. Estariam estimulando a entrada de dólares no Brasil para saquearem nossas divisas antes da quebra inevitável da economia.
Acontece que essas agências também estão fundamentando investimentos estrangeiros produtivos e de médio e longo prazos. Se a catástrofe é certa, portanto, essas agências estão levando muitos de seus clientes a se meterem numa armadilha. Duvido de que aconselharem investimentos que não poderão ser revertidos rapidamente em caso de quebra do Brasil venha a ser bom para os negócios dessas agências.
Em suma, os resultados da economia, até aqui, são excepcionais. O país está crescendo bem e com inflação baixa, com políticas cambial e monetária “erradas” e tudo. Graças a essas políticas acumulamos um colchão de reservas de dólares jamais obtido. A credibilidade da economia brasileira se encontra no patamar mais alto da história. A pobreza e a desigualdade diminuem. As exportações crescem, ainda que menos do que as importações, que poderão, sim, ser contidas pelo esfriamento da atividade econômica que deverá resultar da alta moderada que deverá experimentar a Selic até o fim do ano.
Penso que é útil esse debate, mas, se quiserem minha opinião, ninguém deve entrar em depressão diante dos prognósticos catastrofistas. Acho cedo demais para isso e, além disso, penso que esses prognósticos guardam íntima relação com desejos (legítimos) de exportadores de que o Estado lhes facilite mais a vida.
Quando decidi criar este blog, jamais imaginei que conseguiria a atenção de tantas pessoas para aquilo que eu sentia que precisava dizer publicamente. E tampouco imaginei que poderia aprender tanto com vocês. Os comentários que fizeram no post anterior me deixaram envergonhado por ter cedido a um desânimo injustificável.
Sim, a mídia grande diz o que quer, consegue fazer um barulho enorme, mas falhou miseravelmente em manter no governo do Brasil aqueles que queria. E ontem falhou miseravelmente em poupar os bolsos dos multimilionários da Fiesp de um imposto que ajudará a custear condições mais humanas na Saúde Pública brasileira.
Vocês, tanto quanto eu, são agredidos pelas manipulações imorais praticadas pela mídia, mas vieram aqui e me deram uma lição ao me dizerem que tenho obrigação de manter o sangue frio. Essa é a condição essencial para que alguém possa contribuir de alguma forma em vez de se omitir ou até de atrapalhar quem quer fazer alguma coisa.
Se não fossem vocês, eu já teria me deixado abater pela consciência de minha própria insignificância, que freqüentemente teima em se agigantar em mim. Se não fossem vocês, eu jamais teria feito nada aqui, se é que de fato consegui fazer alguma coisa em prol da causa em que acreditamos.
Obrigado pela aula de cidadania que me deram. Aprendi muito com vocês. Mais uma vez.
Como não sei se o meu estoque de paciência é tão grande quanto o vosso, quero consultá-los.
Deus sabe que tento e tento e tento me manter civilizado, educado nos debates. Dei ao ombudsman da Folha o benefício da dúvida. E continuo dando. Mas, depois de passar o dia vendo na internet o verdadeiro circo que armaram em Brasília para a tal Denise ir ruminar suas mágoas contra o governo enquanto o escândalo bilionário da Alstom simplesmente desapareceu do noticiário, sendo impossível encontrar qualquer notícia sobre o assunto, e quando vejo o próprio Lula não reunir a imprensa e cobrar dela o mesmo empenho no caso Alstom que tem tido nas fofocas da tal Denise, daí começo a perder o espírito esportivo.
Sinceramente, se Lula não toma uma atitude pessoalmente, por que é, diabos, que nós vamos ficar aqui nos esgoelando para defendê-lo? Somos insultados diariamente. A mídia nos faz de palhaços. Pratica os atos mais cara-duras que se possa imaginar e nós, que não temos voz, ficamos nos irritando, algumas pessoas mais idosas que freqüentam este blog chegaram a me relatar que até passaram mal de tanta indignação, e onde está aquele que poderia, em respeito a nós, dar voz à defesa que dele fazemos?
Meus caros leitores, eu estou meio farto. Às vezes tenho vontade de mandar tudo para o alto e ir cuidar da minha vida. Mas é o respeito a vocês que me mantém quebrando a cabeça aqui para produzir um material que possa ajudar a esclarecer melhor as pessoas sobre as tramóias midiáticas. Contudo, neste momento seria um bálsamo saber que em algum momento todos nós nos levantaremos de nossas cadeiras e iremos para diante de um desses veículos dizer em alto e bom som tudo o que está entalado em nossas gargantas.
Quanto falta para você tomar essa atitude junto comigo? Como anda sua paciência? Quanto mais você pretende aturar?
Por mim, não aturaríamos mais nada. Marcaríamos uma outra manifestação diante da Folha, por exemplo. Mas, provavelmente, sou eu que estou num mau dia. Não sei se quero me manifestar ou mandar tudo às favas. Provavelmente a maioria ainda tem paciência em estoque. A minha, porém, já acabou.
O “I Fórum de Mídia Livre”, a realizar-se no Rio no próximo fim de semana, constitui, a rigor, o que talvez seja a primeira grande concentração de esforços para discutir propostas para que o Brasil venha a ter um modelo de mídia menos concentrado e, portanto, mais plural e apartidário.
A própria atitude da mídia convencional diante de um fato dessa magnitude revela a necessidade de mudanças no “mercado” de comunicação. As grandes empresas de comunicação ignoram fatos que não lhes interessam difundir como se tivessem o direito de informar seletivamente o público.
Um evento que promete reunir cerca de um milhar de pessoas para discutir a mídia ser ignorado por essa mídia - que, por sua vez, recebe recursos públicos e, portanto, está obrigada a atuar de acordo com o interesse de todos e não apenas com o de alguns setores da sociedade – mostra, repito, a necessidade desse evento.
As discussões de redução da concentração da propriedade dos meios de comunicação via reordenação do direcionamento de recursos públicos para publicidade oficial, são um ponto polêmico e delicado.
No caso de uma Globo, por exemplo. Devido à emissora deter uma fatia extremamente alta da audiência, a lei atual obriga a que ela seja detentora de uma parte do bolo publicitário proporcional a tal audiência.
Esse é um modelo que se auto-alimenta. A Globo é grande porque tem muita audiência, recebe muito dinheiro dos cofres públicos porque tem essa audiência grande e, assim, mantém-se grande. Nesse processo, avilta-se a necessidade de que um poder como o de informar o que se quer e quando se quer seja submetido ao interesse público.
Seguramente, uma fatia das verbas oficiais para publicidade tem que ser direcionada para que o público disponha de fontes plurais de informação. É possível provar que uma Globo, por exemplo, usa as benesses oficiais, determinadas por lei, para aviltar o interesse público, ao partidarizar a difusão de notícias, e a pluralidade opinativa, inerente aos regimes democráticos.
O inimigo a derrotar, o monstro a expor, a discussão que deve ser travada, portanto, é a concentração do poder de informar, que depende de recursos. O esmagamento da concorrência pelos grandes grupos empresariais oprime iniciativas para dar a todos os grupos sociais a mesma possibilidade de difundirem fatos, entretenimento e publicidade. Privilegia-se, assim, grupos sociais específicos em detrimento de toda sociedade.
Vejo com muito bons olhos a realização do “I Fórum de Mídia Livre” e lamento muito não poder participar, pois viajo ao exterior no próximo domingo e só volto no fim deste mês. Porém, o Movimento dos Sem Mídia, convidado para participar dos debates no evento, estará muito bem representado por seu primeiro secretário, o futuro historiador Antônio Arles.
Exorto os leitores deste blog que tiverem condições a que participem do Fórum no Rio. Maiores informações poderão ser obtidas na página do evento na internet:
São curiosos, para dizer o mínimo, os critérios da chamada “grande imprensa” para priorizar este ou aquele escândalo envolvendo governantes.
Dois casos estão sendo fartamente noticiados: o caso Varig, em que a ministra Dilma Rousseff, mais uma vez, está sendo posta na berlinda, sem nem um intervalo entre a acusação anterior, que deu com os burros n’água, e a atual, e o caso da governadora do Rio Grande do Sul, Yeda Crusius, às voltas com denúncias de desvio de dinheiro público.
Eu diria até que as acusações a Yeda e a Dilma estão sendo noticiadas com a mesma intensidade. A diferença é que, quanto a Dilma, não há condicional, o tom é o de que ela é culpada e pronto, e, no que tange a Yeda, o tom é de cautela. Mas o volume do noticiário é parecido.
Sobre o caso Alstom, no qual pesam suspeitas sobre o governador do Estado, José Serra, contra seu antecessor, Geraldo Alckmin, e contra o prefeito da capital paulista, Gilberto Kassab, sobre esse caso está sendo muito difícil encontrar informações.
Os critérios da mídia são insondáveis. Se você perguntar ao PIG por que dá tanto destaque ao caso Varig e ignora o caso Alstom, ele dirá que é porque o caso Varig é federal e o caso Alstom é de São Paulo.
Uma informação: conversei mais uma vez com o ombudsman da Folha sobre isso e ele me deu essa explicação para a muito maior intensidade das críticas ao governo federal em contraposição à falta de críticas ao governo paulista.
Bem, mas como eu ia dizendo, antes de interromper a mim mesmo, dizem que a mídia pega mais pesado com o caso Varig do que com o caso Alstom porque o caso Varig é federal. Mas e o caso Yeda Crusius? Por que, então, é noticiado muito mais do que o caso Alstom se os dois são estaduais?
Para você que tem tido essas dúvidas e não tem sabido verbalizá-las – ou escrevê-las –, prestei-lhe o serviço de pôr em palavras, de forma simples, suas questões. Nem precisa me agradecer – o número da conta eu passo depois...
Mas não terminei ainda. Quero pedir aos leitores concordantes e discordantes que atentem para a substância das denúncias de cada um dos casos.
No caso Varig, não há nada concreto além das acusações de uma funcionária do segundo escalão do governo Lula. A moça não tem documento nenhum, nada além de sua palavra. E sabe-se que ela saiu descontente do governo.
No caso Alstom, a denúncia contra Alckmin, Kassab e outros não vem nem de brasileiros ou de pessoas físicas. Quem denunciou que a multinacional andou dando dinheiro para campanhas políticas em troca de gordos contratos com o governo de São Paulo foram o Wall Street Journal e a justiça suíça.
Já no caso Yeda Crusius, este está sendo noticiado bem dentro dos conformes e com fartura de provas. Quem acusa é o vice-governador do Rio Grande, integrante de um partido insuspeito de ser petista. E acusa COM provas.
O que está fora de lugar são os casos Varig e Alstom. Um está sendo noticiado além do que há de concreto, e o outro, muito, mas muito, mas muito aquém mesmo do que há de concreto.
Os critérios da mídia grande são insondáveis. Se perderem em mistério para outros critérios, só se for para os critérios do Todo-Poderoso. E olhem lá...
No próximo domingo embarco para a Venezuela e os preparativos da viagem estão me tomando o tempo. Por isso estou postando pouco. Mas quero comentar, rapidamente, alguma coisa sobre o assunto.
A grande mídia tem noticiado que despencou a popularidade de Chávez depois da derrota no plebiscito do ano passado, sobre reforma da constituição do país.
Hoje, no entanto, há pesquisas para todos os gostos na Venezuela. Há aquelas que dizem que a popularidade do presidente está nas alturas e outras que dizem exatamente o contrário.
A principal preocupação de quem viaje àquele país e queira reportar algum fato relevante, deve ser a de descobrir a verdade.
Não é fácil, para não dizer que é impossível, descobrir isso. As pesquisas se contrapõem. Pelo histórico das últimas eleições na Venezuela, no entanto, pode-se escolher alguns institutos que têm acertado mais, para, talvez, conseguir entrevistar alguém.
O amplo apoio a Chávez, hoje sabe-se que é real. Muitas vezes disseram que esse apoio era falso, que o governo venezuelano estaria fraudando eleições. Todas as observações internacionais das eleições vencidas e desta perdida por Chávez repudiaram tal acusação.
Parece-me difícil que o presidente da Venezuela tenha perdido tanto apoio quanto diz a grande mídia. Ele se sustenta em seus programas sociais e esses programas estão sendo aprofundados.
Para que se tenha uma idéia, Chávez tornou extremamente danoso que empresas descumpram obrigações trabalhistas. As que sofrem demandas judiciais de empregados têm problemas para importar. O governo nega permissão.
Porém, estou certo de que as pessoas que lêem o que escrevo esperam sinceridade e a verdade dos fatos. Se me for possível descobrir essa verdade, direi aos meus leitores seja ela qual for.
Como será uma viagem muito “corrida”, possivelmente terei que adiar para a volta, no fim do mês, um relato mais aprofundado.
Devido à relevância do assunto, reproduzo aqui vídeo que está em matéria lá no site do Azenha, a fim de destacar como até a imprensa internacional já se dá conta do que acontece no Brasil com as mídias dos Estados mais ricos, que se aliaram aos governos estaduais que se opõem ao governo do país.
O pior de tudo, é que vemos cidadãos que se dizem esclarecidos virem aqui dizer que não existe uma crise na imprensa que no resto do mundo está chamando atenção pela forma escandalosa com que está ocorrendo.
Agora mesmo, temos escândalos fragorosos que, em qualquer democracia séria, deveriam estar obrigando a dar explicações públicas os governadores e ex-governadores do PSDB, como a governadora do Rio Grande do Sul, o governador de Minas, o governador de São Paulo e o seu antecessor.
Ao invés disso, denúncias sem provas de pessoas com baixa credibilidade são transformadas pela imprensa partidarizada em provas cabais contra o governo federal.
Acusações sempre existiram e sempre existirão contra qualquer governo. Há que separar as acusações fundamentadas das suposições irresponsáveis. É difícil, no entanto, que, como quer fazer parecer a mídia, todas as acusações sérias sejam contra o PT e todas as infundadas sejam contra o PSDB.
O Caso Alstom, por exemplo, notabiliza-se justamente pela consistência dos indícios de que Alckmin e Serra têm relações suspeitas com essa empresa. A imprensa internacional e a justiça européia é que dizem isso. No entanto, a mídia foca apenas no caso Varig, que tem origem numa denúncia sem provas de uma burocrata do terceiro escalão ressentida com o governo Lula.
O que dá esperança são trabalhos jornalísticos como o que você viu acima, que, com o tempo, farão com que essas pessoas que se propõem a sair por aí atacando em nome dessa verdadeira máfia que é a grande imprensa brasileira acabem sendo sufocadas pela difusão, em nível planetário, da verdade sobre a mídia daqui.
Na década de 1920, ao estudar a produção de saliva em cães expostos a diversos tipos de estímulos palatares, Pavlov percebeu que com o tempo a salivação passava a ocorrer diante de situações e estímulos que anteriormente não causavam tal comportamento (como por exemplo o som dos passos de seu assistente ou a apresentação da tigela de alimento). Curioso, realizou experimentos em situações controladas de laboratório e, com base nessas observações, teorizou e enunciou o mecanismo do condicionamento
A idéia básica do condicionamento clássico consiste em que algumas respostas comportamentais são reflexos incondicionados, ou seja, são inatas em vez de aprendidas, enquanto que outras são reflexos condicionados, aprendidos através do emparelhamento com situações agradáveis ou aversivas simultâneas ou imediatamente posteriores. Através da repetição consistente desses emparelhamentos é possível criar ou remover respostas fisiológicas e psicológicas em seres humanos e animais. Essa descoberta abriu caminho para o desenvolvimento da psicologia comportamental e mostrou ter ampla aplicação prática, inclusive no tratamento de fobias e nos anúncios publicitários.
O tempo está tratando de mostrar o grande negócio que o Brasil fez ao preterir Geraldo Alckmin na escolha do último presidente da República. Político paroquial, oriundo de Pindamonhangaba, no interior de São Paulo, o ex-governador paulista é hoje um dos políticos sobre os quais pode-se afirmar, com boa dose de certeza, que precisam ser mantidos longe dos cofres públicos.
Alckmin virou alguém na política nacional graças ao seu padrinho político, o falecido ex-governador de São Paulo Mario Covas, de quem foi vice. Depois, elegeu-se governador e, desde então, transformou São Paulo num dos piores Estados do país.
Envolvido em escândalos sucessivos, todos abafados pela mídia paulista, Alckmin vem se mantendo impune apesar das graves acusações que pesam contra si. Contudo, a hora da verdade parece estar chegando para o ex-governador. Por conta do caso Alstom. Alckmin é um dos grandes beneficiários das doações de dinheiro da multinacional. A explicação: foi o tucano quem fechou o grosso dos contratos com a Alstom que a justiça européia e a imprensa internacional dizem ser fraudulentos.
Porém, a folha corrida de Alckmin é bem mais longa que isso.
No caso Daslu, por exemplo, a mega loja de luxo fez operações de importação fraudulentas, comparáveis a contrabando. A sonegação de impostos, a adulteração de documentos de importação foi considerada multimilionária. Até que a Polícia Federal se metesse no assunto, no entanto, a Secretária da Fazenda de São Paulo, comandada por Alckmin, nada havia detectado. O que é estranho diante da escandalosa contabilidade da Daslu, em que um vestido que aparecia como tendo sido comprado a dez reais no exterior era vendido na loja por mil reais.
Detalhe 1: a Daslu não trabalha com vestidos que custam dez reais. Só trabalha com artigos de alto luxo.
Detalhe 2: A filha de Alckmin, graças à amizade do pai com a família dona da Daslu, conseguiu emprego na loja. Entrou como vendedora, mas em poucos meses virou “diretora de novos negócios".
Um parêntesis: a amizade dos tucanos paulistas com o pessoal da Daslu é bem extensa. A mulher de Serra, por exemplo, vive metida na Daslu.
Outro escândalo envolvendo Alckmin que chegou até a ser denunciado, mas depois a mídia não informou mais nada, enterrando o assunto, é o caso Nossa Caixa. O banco estatal paulista anunciava em órgãos de imprensa simpáticos a Alckmin, como, por exemplo, a revista Primeira Leitura, de Reinaldo Azevedo. Contudo, anunciava sem licitação. Os valores dos contratos também foram questionados.
A Febem, sob Alckmin, transformou-se numa fábrica de horrores. Durante os tantos anos em que ele foi governador, foram centenas de rebeliões. Denúncias de torturas dos internos, assassinatos, decapitações, fugas em massa... O problema da Febem só começou a melhorar depois que Alckmin passou o cargo ao seu vice, Cláudio Lembo, para se candidatar à Presidência da República.
O metrô paulista, esse, sob Alckmin, virou caso de polícia. E não é só pelo fato de hoje a terceira maior cidade do mundo ter menos quilômetros de metrô que cidades com menos da metade do seu tamanho. A irresponsabilidade e a desonestidade com que o metrô paulista vem sendo administrado ocasionou, em janeiro do ano passado, um desastre de proporções cataclísmicas. Laudo recente do IPT, ligado ao próprio governo do Estado, diz que a tragédia ocorreu por uso de material inferior na construção da obra de engenharia que ruiu matando sete pessoas e desabrigando dezenas.
A Educação paulista também foi afetada pelo modo Alckmin de governar. Em avaliações nacionais e internacionais sobre a qualidade da educação pública no Estado mais rico do país, São Paulo conseguiu a proeza de ficar entre os últimos colocados.
Porém, foi na Segurança Pública que Alckmin se superou. Os crimes violentos contra a pessoa multiplicaram-se exponencialmente no governo dele. São Paulo chegou a ser sitiada pelo PCC em 2006, como resultado de um longo processo de fermentação que a organização criminosa experimentou por conta da desastrosa política de segurança do PSDB.
Agora, Alckmin disputa a prefeitura de São Paulo. Além de a cidade estar ameaçada pela continuidade da administração incompetente de Gilberto Kassab, o candidato de José Serra, o risco maior que corre é o de ver, além da incompetência, a volta da corrupção exacerbada inerente ao modo Alckmin de governar. Kassab ao menos, que se saiba, não está fazendo da prefeitura paulistana um balcão de negócios, em que pese que seu governo tem se limitado a medidas cosméticas como tirar publicidade das fachadas do comércio enquanto o trânsito da cidade se converte num inferno pior do que em qualquer outra época, e isso desde que Kassab assumiu.
Alckmin ocupa hoje o lugar que já foi de Maluf no cenário nacional. É um político paroquial, sempre envolvido em escândalos de corrupção, que só encontra eco maior às suas pretensões eleitorais dentre o provinciano eleitorado paulista.
Contudo, como ficou demonstrado em 2006, Alckmin representa uma ameaça a todo país. Já imaginaram se tivesse sido eleito presidente?
Por isso, uma das prioridades daqueles que querem que o país continue progredindo deve ser a de pôr fim à possibilidade de vôos mais altos de políticos como Alckmin. Por isso, o caso Alstom deve ser investigado com decisão e até o fim. Além disso - e também por isso -, o ex governador precisa ser derrotado na eleição deste ano. A qualquer preço.