Continuamos mergulhados naquela rotina de novos escândalos a cada semana, mas com uma variante: a coloração partidária dos envolvidos em escândalos passíveis de cobertura jornalística, começou a variar. Temos, no momento, um cardápio mais variado de escândalos e pseudo escândalos que envolvem políticos de expressão.
O natimorto escândalo do dossiê anti-FHC andou pondo o nariz para fora da tumba devido à morte da ex-primeira-dama Ruth Cardoso, mas está morto e disso não há dúvida. E o caso Varig já dá seus últimos suspiros. Mas agora, numa variação significativa do alvo das denúncias na mídia, há o caso Alstom e o caso Yeda Crusius, que, à diferença do que já tinha virado regra, envolvem a direita tucano-pefelê.
Infelizmente, essa ampliação do jornalismo de denúncias do fim do mundo, essa aberração tipicamente latino-americana que ganhou expressão com a ascensão ao poder de políticos de esquerda por toda a América Latina, ao menos no Brasil não decorre de mudança de mentalidade da mídia.
Tanto o caso Alstom quanto o caso Yeda Crusius estão tendo visibilidade na mídia porque são escândalos demolidores, repletos de provas contra os envolvidos. Portanto, enquanto você pensa que a mídia está se tornando mais equilibrada, pois passou a noticiar escândalos dos dois lados, na verdade ela continua diminuindo, para o PSDB, a importância de fatos que lhe são danosos.
Nesses dois escândalos tucanos que mencionei no parágrafo anterior, se a mídia usasse para eles os mesmos pesos e medidas que usa para escândalos que envolvem petistas, estaria havendo um linchamento das facções paulista e gaúcha do PSDB.
Mas temos que ter a perspectiva histórica da realidade política no Brasil para suportarmos melhor essa ditadura da informação que, venho constatando neste blog desde sua criação, chega a ser uma tortura psicológica para alguns.
Por mais que lhe pareça que as tentativas de domínio da sociedade através do uso da comunicação existam desde sempre, esse é um fenômeno recente - do ponto de vista histórico. E as alianças entre os mercadores da comunicação e uma das bandas do espectro político, são puramente conjunturais. O que hoje é uma aliança aparentemente sólida, amanhã pela manhã poderá ter virado pó.
A nova elite
Feitas considerações de cuja importância vocês perceberão a seguir, quero enveredar pelo tema central deste post. Quero lhes oferecer minha visão de que está surgindo uma nova elite no Brasil. Mais progressista, menos patrimonialista, menos preconceituosa.
O principal mérito do governo Lula, a meu juízo, está sendo o de indicar à sociedade que o capitalismo pode suportar muito mais empenho no social sem comprometer fundamentos capitalistas. Assim, apesar do discurso intolerante da velha elite branca quinhentista, há uma nova elite surgindo no Brasil, composta por segmentos do topo da pirâmide, tais como segmentos de empresários ou de profissionais liberais que já admitem que o atual nível de desigualdade precisa não apenas parar de crescer, mas diminuir, em benefício da convivência civilizada entre os brasileiros dos diversos estratos da pirâmide social.
Na última sexta-feira, estive no interior de São Paulo. Fui fechar contratos com indústrias que me procuraram para implantar nelas setores de exportação. E isso porque, do fim do ano passado para cá, tornei-me um consultor de exportação, mais do que tudo, porque comecei a oferecer a empresas que não exportam um pacote de serviços que envolve dos serviços burocráticos-administrativos até o serviço de representação comercial.
Fui à Região de Ribeirão Preto, uma das mais ricas do país. Eu, que trabalho com autopeças, localizei um segmento desse mercado que está sofrendo uma explosão de consumo, que é o de peças para tratores agrícolas e de construção, impulsionado pela expansão econômica do país, que tem na agricultura e nas obras de infra-estrutura um dos pólos de crescimento mais dinâmicos.
As cidades daquela região devem abrigar hoje mais empregos (proporcionalmente) do que a região metropolitana da capital paulista. Na cidade de Matão, por exemplo, dizem que só não trabalha quem não quer, pois a quantidade de indústrias que há naquela cidade as obriga a “importarem” mão de obra de outras cidades, pois a população local é insuficiente para prover a crescente demanda por mão-de-obra.
Os donos das empresas às quais começo a prestar serviços deixaram de ser tucanos e antipetistas fundamentalistas para se tornarem não só defensores do governo Lula, mas também da distribuição de renda e da qualidade dos empregos.
Nas duas empresas com as quais passo a trabalhar, pude constatar empregados sorridentes, ambientes de trabalho leves e patrões satisfeitos. Os empregados, durante o governo Lula, ganharam planos de saúde, refeições balanceadas, aumentos de salário, clubes de campo e outros benefícios. E a alta do consumo nas classes mais humildes já é vista por muitos patrões como um investimento do país que, em vez de reduzir os ganhos da elite, pode aumentá-los mais adiante, pois o país está criando novos consumidores.
Em Matão (SP), por exemplo, o prefeito é do PT e o patronato local, em significativa parte, virou petista. Pude ver capitães da indústria proferindo discursos que, guardadas as devidas proporções, caberiam na boca de qualquer sindicalista.
Essa nova elite, mais moderna e humanista, passou a existir a partir deste governo. Vários segmentos das classes dominantes já começam a pôr em dúvida a eterna preferência elitista brasileira de manter a renda concentrada, entendendo que o fenômeno não compensa a virtual guerra civil que a desigualdade implantou no país.
Venezuela
Como eu havia comunicado anteriormente, no domingo (29 de junho) embarco para a Venezuela, onde permanecerei até o dia 5 de julho, sábado que vem. Estou retomando, portanto, minhas viagens de negócios, que, neste ano, por conta de minha insatisfação com a empresa à qual prestava serviços até este mês, tinham diminuído.
Estou voltando à Venezuela dez meses depois da última viagem que fiz a um país em que o sucesso das políticas de distensão social de seu governo progressista, em vez de gerar um fenômeno como o da nova elite brasileira que acabo de descrever, aprofundou a divisão entre as classes sociais.
Como sabem meus leitores, este blogueiro freqüentemente se deixa levar por seu emocional e acaba clamando por reações do governo Lula aos ataques da velha elite midiática. Porém, como conhecedor da realidade dos países sul-americanos aos quais viajo quase todos os meses, devo reconhecer que a estratégia de Lula é a que tem produzido melhores resultados em todos os sentidos.
Talvez este governo não tenha conseguido resultados sociais tão vistosos quanto os que estão conseguindo Hugo Chávez ou Evo Morales, mas está conseguindo algo que nenhum deles, a despeito de feitos espetaculares como o fim do analfabetismo na Venezuela, jamais conseguiu: Lula está conseguindo mudar a mentalidade carcomida de parte da elite branca brasileira.
Uma viagem de negócios como a que começo a empreender a partir de amanhã, não se presta bem a um trabalho jornalístico como o que eu gostaria de fazer num país sobre o qual nos faltam informações confiáveis, mas estar num país, comer sua comida, falar sua língua, usar seu transporte público, caminhar por suas ruas, ouvir seu povo sempre permitirá ao visitante extrair impressões que de nenhuma outra forma poderiam ser extraídas.
Nos próximos dias, de lá da Venezuela, tentarei mostrar o clima político que reina no país. E farei isso sem manipulações, sem tentar provar esta ou aquela teoria. Dessa maneira, imbuído do desejo de apenas informar corretamente as pessoas, estou certo de que oferecerei a você, leitor, informações relevantes sobre aquele país tão conturbado. Fique comigo, então. Teremos muito o que discutir nos próximos dias.
Sempre, ao prevalecer o bom senso, será obrigatório pedir o diálogo em situações de dissenso. Ao mesmo tempo, todos nós teremos que, algum dia, pedir desculpas por, em algum momento, eventualmente termos cedido à radicalização.
Eu, por exemplo, não sou exceção. E isso porque sou humano, sou suscetível aos demônios que a todos nos afligem com maior ou menor facilidade. E o demônio da ira, por exemplo, anda em alta ultimamente.
Quero me ater, a título de exemplificação, a recente episódio que fez despertar a ira de ambos os lados políticos que dominam o debate político hoje no Brasil, o PT e o PSDB.
O episódio em pauta é o da morte da antropóloga e ex-primeira-dama Ruth Cardoso, mulher do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. A blogosfera viu surgir uma onda de comentários insensíveis detratando a falecida ou Lula e sua mulher, D. Marisa – principalmente esta.
No blog do Luis Nassif, por exemplo, aconteceu uma interessante discussão proposta por ele, em torno da radicalização que sucedeu o noticiário sobre a morte de D. Ruth. O Nassif postou uma nota dizendo-se impressionado com os insultos a D. Ruth e a D. Marisa num momento em que o esperável seria guardar obsequioso e sereno silêncio, se algo mais cristão, digamos, não pudesse ser dito.
Mas de onde vieram esses demônios que assolaram essas pessoas que se puseram a adotar essa conduta lamentável? São loucos ou tarados que se transformam em pedras de gelo humanas e estabelecem uma discussão desse nível do nada?
Escrevi aqui na quinta-feira um post afirmando que a mídia fez uso político da morte de D. Ruth. E acho que foi esse noticiário que fez comparações entre D. Ruth e D. Marisa, chegando a insinuar que a segunda envolveu-se com corrupção e que era uma inútil diante da excelência intelectual e do ativismo da ex-primeira-dama, o que insuflou esse ânimo beligerante e insensível nas pessoas.
É por isso que, apesar de às vezes quase me deixar envolver pelo clima de fla-flu, procuro sempre tentar me manter dentro dos limites da civilidade. Houve quem me criticasse, por exemplo, por me aproximar do ombudsman da Folha, Carlos Eduardo Lins da Silva, porque ele seria “o inimigo”. Pareceu-me que chegaram a dizer que me dispor a almoçar com ele seria como “confraternizar com o inimigo”.
A radicalização impede o diálogo e o debate. E sem diálogo e sem debate entre as forças políticas opostas hoje no Brasil poderemos dar sentido à máxima de que a guerra é a política por outros meios.
No caso do Carlos Eduardo, por exemplo, eu mesmo comecei a ter contato com ele acusando-o de ter atuado mal no programa Roda Viva, que mediava antes de ser convidado pela Folha para ser ombudsman.
Depois disso, ele me convidou para ir à Folha conversar consigo sobre a crítica que lhe fiz; depois, convidou-me para um bate-papo num almoço e, de lá para cá, temos mantido interlocução freqüente, com ele submetendo à minha análise alguns “avanços” que diz estarem ocorrendo na Folha. Até me convidou para almoçar novamente consigo.
Porém, quero provar que Carlos Eduardo está enganado. Quero provar sobretudo a ele, e quero provar porque acho que ele está tentando fazer o que é certo. Citou minhas críticas em sua coluna dominical da Folha, chegando a mencionar quem as fez, e reconheceu a procedência dessas críticas.
Se eu me mantivesse inatingível ao “inimigo”, se qualquer um de nós se mantiver assim, e se ficarmos à espreita da menor oportunidade de espicaçar o “inimigo”, inclusive agindo como a mídia age em relação a Lula e ao PT, seremos tão idiotas quanto ela.
Contudo, temos que entender que a mídia, a imprensa, o PIG, seja lá o que for, esse ente abstrato não é uma pessoa, um ombudsman, um colunista ou um dono de jornal, mas uma idéia, uma forma de proceder, um caminho adotado na luta política vale-tudo que se estabeleceu no país.
Sei que não depende só de nós, sensatos, mas também da mídia ter um pouco mais de respeito e bom senso. Na verdade, caberia à mídia levantar um clima de civilidade – e ressalte-se que não falo de capitulação, mas de um embate de idéias mais honesto e menos maniqueísta e pseudo moralista. Mas, se Maomé não vai à montanha...
Há algumas coisas nesta vida que o partido da imprensa golpista pode agüentar, mas há outras que fariam os Marinho, Civitas, Frias, Mesquitas e aspirantes a ser eles padecerem de um xilique potencialmente fatal. Por exemplo, se Marta Suplicy se eleger novamente prefeita de São Paulo.
Pesquisa Ibope que acaba de ser publicada mostra que a possibilidade de isso acontecer cresceu muito.
Há alguns meses, uma eventual candidatura Marta Suplicy parecia inviável numa das cidades mais petefóbicas do país. Esta última pesquisa, porém, revela Marta se distanciando bem de Alckmin no primeiro turno e virtualmente empatada com o ex-governador num eventual – e provável, dados os números da pesquisa – segundo turno.
A mídia paulista aceitaria qualquer um em lugar de Marta. Suas preferências são, pela ordem:
1º Gilberto Kassab
2º Geraldo Alckmin
3º Soninha
4º Paulo Maluf
5º Qualquer um que derrote Marta.
Uma derrota de Kassab e de Alckmin para Marta seria o golpe mais duro que a mídia e a oposição a Lula poderiam receber à esta altura do campeonato. Marta é talvez mais odiada pela imprensa paulista do que Lula e a campanha na qual o presidente mais irá se empenhar será na dela.
Marta é uma mulher forte. Não hesitou em, num mundo machista, numa sociedade que, em casos como o dela, chega a parecer misógina, dar um passo que, para os homens, é visto como normal, mas que, em pleno século XXI, ainda é visto como inaceitável para uma mulher: trocar o marido por outro homem.
Quem é de fora de São Paulo talvez não saiba, e sabendo pode ser que não acredite, mas Marta perdeu a eleição para Serra, em 2004, porque se separou de Eduardo Matarazzo Suplicy. Acredite quem quiser.
Kassab dificilmente se reelege. Sofre uma enorme rejeição e não tem carisma. Está na lanterna do primeiro pelotão de candidatos. A derrota de Serra na convenção do PSDB, por não ter conseguido emplacar uma união do partido em torno de Kassab, é praticamente certa na eleição.
Serra precisa da eleição de Kassab para que não fique caracterizado que o abacaxi que ele deixou para São Paulo, ao romper promessa que fez por escrito de permanecer à frente da prefeitura paulistana até o fim do mandato de prefeito que conseguiu nas urnas em 2004, foi rejeitado pelos paulistanos. Se Kassab não se reeleger, será uma rejeição dos paulistanos ao próprio Serra.
Alckmin, se se eleger prefeito de São Paulo, será um prêmio de consolação para Serra. Seu candidato terá sido rejeitado, mas ao menos um correligionário terá vencido a eleição. Contudo, as chances de Alckmin esbarram em alguns problemas:
A – O caso Alstom, até a eleição, deverá estar bombando até na imprensa paulista
B – Falta de carisma
C – O fogo amigo que deverá sofrer durante o primeiro turno, que o fará chegar desgastado ao segundo turno.
A eleição para prefeito de São Paulo será importantíssima para a eleição presidencial de 2010. Uma vitória de Marta pavimentará o caminho do candidato de Lula à sua sucessão.
Escrevo em defesa da cidadã Ruth Cardoso, que faleceu ontem. A mídia, desde o anúncio de seu passamento, passou a usá-la na morte de uma forma a que ela nunca se prestou em vida.
Apesar de usar para D. Ruth, dentre adjetivos mais pomposos e exagerados, a qualificação correta de “discreta”, a mídia a transformou em “alvo de luta política” por conta do “dossiê” que essa mesma mídia, em coro com o PSDB, afirma que foi feito pelo governo Lula contra a falecida e seu marido.
Não faltam manifestações políticas da mídia praticamente canonizando a correligionária tucana recém-falecida. A meu ver, ela não gostaria de ser canonizada nem por Roma, quanto mais pela mídia sensacionalista e partidarizada. A meu ver, mulher inteligente que era, apesar de menosprezada pelo marido, FHC, que teve filho com outra mulher pouco antes de se eleger presidente, D. Ruth preferiria exéquias discretas. Mas não é isso o que está acontecendo.
Já vi e ouvi dizerem que D. Ruth ocupava “cargo público” de “primeira-dama”
Já vi e ouvi dizerem que D. Ruth criou o Bolsa Família, e não Lula.
Já vi e ouvi compararem-na com D. Marisa Letícia, mulher de Lula
Já vi e ouvi dizerem que D. Ruth, ao contrário de “outras” primeiras-damas, não se meteu com “corrupção”.
Já vi e ouvi lembrarem que a recém-canonizada Ruth Cardoso era contra cotas para negros nas universidades...
Deveriam deixar que aliados e adversários políticos de D. Ruth dissessem palavras elogiosas e sentidas a seu respeito. Não deveriam usar a morte da ex-primeira-dama para atacar o governo Lula, seu titular, sua mulher, o partido de ambos e o eleitorado que os apóia. Deveriam deixar a cidadã Ruth Cardoso descansar em paz.
Dos três maiores jornais do país (Folha, Globo e Estado), só a Folha não deu na primeira página a notícia sobre estudo do Ipea que mostra que a desigualdade caiu, nos cinco anos do governo Lula, como não caía havia décadas.
Esse jornal publicou hoje matéria sobre o assunto em seu caderno de economia com uma manchete cifrada que parece trazer uma má notícia em vez de uma notícia boa: "Desigualdade só muda de patamar em 2016".
Como assim? A desigualdade, que durante a era do predileto da Folha, FHC, permaneceu intocada, teve uma queda mais do que consistente no governo Lula. Como é que só mudará de patamar em 2016 se o estudo mostra que mudou, e bem, de patamar?
Jornalismo de verdade é dar ao público a notícia limpa, sem vieses ou espertezas, para lhe dar condições de formar sua opinião estando de posse apenas dos fatos, evitando sempre dirigir o consumidor de informação para lá ou para cá.
A informação, desta vez, era a de que, pela primeira vez em décadas e décadas, os mais pobres tiveram crescimento de renda muito maior do que os mais ricos, num processo inverso ao que produziu a desigualdade impressionante em que ainda chafurda o Brasil
A Folha pode esconder a informação, deturpá-la, pode tentar enganar a sociedade, mas a melhora de vida é sentida pelos favorecidos por ela. Nenhuma manipulação mudará o fato.
Por último, nesse fato que a mídia minimizou ou escondeu é que reside a resistência da elite branca e golpista ao governo Lula. Nesse governo que a mídia diz que favorece “banqueiros”, quem está ganhando mesmo são os mais pobres.
Todos os dias venho aqui e escrevo sobre mau jornalismo. Hoje, inverterei tudo, escreverei sobre jornalismo bom.
Tive o privilégio de assistir ao documentário dirigido e reportado por Luiz Carlos Azenha para a TV Cultura de São Paulo. Eu sabia o que esperar, porque neste cerca de um ano em que fui me aproximando dele desde o primeiro momento vi que era um homem de bem.
Mas o documentário foi como que um corolário desse processo em que me aproximei do jornalista, primeiro, pela internet, depois, por telefone e, por fim, pessoalmente.
Foi um trabalho jornalístico estritamente correto. Ao fim do programa, considerei-me de posse de todas as informações necessárias para formar minha opinião sobre a disputa na reserva indígena Raposa / Serra do Sol, em Roraima.
Se alguém, ao fim do documentário, pendeu para um dos lados, é porque esse lado tinha melhores argumentos. Azenha deu espaço idêntico a todos. Não fez pegadinhas. Não omitiu, diminuiu ou aumentou alguns desses argumentos.
Todos disseram o que quiseram. Não houve lado sem ser ouvido. Justiça, grileiros, índios, população branca, índios que criticam índios, o Estado, as Forças Armadas... Todos os que tinham o que dizer sobre o assunto, disseram. A cada acusação uma resposta; a cada argumento um contra-argumento.
Por conta de tão boas informações que recebi, vou tentar simplificar a questão.
Suponhamos que os americanos resolvam ocupar áreas desocupadas em São Paulo. Dirão que estão trazendo o desenvolvimento porque têm mais condições do que os paulistas para promover esse desenvolvimento, e que defenderão o Estado de invasões ultramarinas, pois, afinal, somos todos americanos, ou seja, vivemos todos no continente americano.
Claro que o caso da disputa em Roraima não é bem esse. Usei uma metáfora para fazer prevalecer o conceito de nação. Alguns confundem nação com país. Não são a mesma coisa. O conceito de nação envolve a cultura, os laços e as raízes de um povo, e o conceito de país envolve basicamente a geografia e a política.
Os índios são os donos da América. Os brancos vieram, há alguns séculos, e os mataram, escravizaram e, por fim, submeteram aos seus desígnios. As reservas indígenas são um prêmio de consolação aos verdadeiros donos da América, mas os brancos não se conformaram em tirar-lhes quase toda a terra. Querem terminar o “serviço”.
Os grileiros deixam escapar a excelência da terra em Roraima e, sobretudo, na reserva Raposa / Serra do Sol. Mas não usam essa excelência como argumento para retalhar a reserva indígena. Preferem dizer que estão lá para “defender o Brasil de invasões estrangeiras”. E os militares que apóiam os grileiros não explicam por que não defendem o povoamento em outras regiões abandonadas de fronteira. Seria por serem menos atrativas do ponto de vista da agricultura ou da mineração?
O jornalismo pode ser belo. Pode exalar honestidade e decência ou desonestidade e perversão. Luiz Carlos Azenha escolheu a primeira opção.
Ok, eu não postei hoje o dia inteiro, mas tenho desculpa: estou para viajar (domingo que vem) e será uma viagem maluca. Farei pinga-pinga em três estados venezuelanos no decorrer de 7 dias. Destes, voarei em 5. Hoje não tive tempo nem de me coçar.
Está ficando duro de fazer aquelas viagens de duas semanas que eu vinha fazendo até o começo deste ano. Duro, aliás, é o termo que define a situação do viajante. No hay plata. Então tenho que tentar enfiar um ônibus (afazeres) dentro de um fusca (tempo).
Adiei esta próxima viagem que farei. Deveria ter viajado no dia 5, mas houve um imprevisto. Agora tenho que correr que o ano vai já pelo meio e os países a visitar estão lá, esperando para comprar do Brasil, na pessoa deste vosso criado.
Por outro lado, o blog está aqui, vivo, pulsante, pedindo empenho e respeito aos seus leitores. É um chamado irrecusável para aquele que pariu, do âmago da própria mente, esta elucubração. Antes que o dia termine, portanto, voltarei a postar.
Mas vejam que curioso: o capitalismo inclemente me obriga a levantar dinheiro para o arroz com feijão, mas o deleite do intelecto e da alma (atualizar este blog) me compele a saciar a sede dos leitores.
Segundo o ombudsman da Folha de São Paulo opinou neste domingo no espaço que tem nas edições dominicais do jornal, “Tem um quê de constrangedor para a imprensa paulista que as principais revelações sobre a suspeita de corrupção do governo de São Paulo pela multinacional Alstom venham sendo feitas pelo americano The Wall Street Journal".
Mas diante de quem o Wall Street Journal constrange a imprensa paulista (leia-se, sobretudo, Folha, Estadão e Veja)?
O público que paga para ler esses veículos foi imbecilizado por décadas de verdadeira lavagem cerebral ministrada por eles. Não será esse público, portanto, que abaixará a cabeça enquanto a move para os lados – sinalizando um não – e profere um “tsc, tsc, tsc...” ao se dar conta de que a imprensa brasileira (por que só a paulista?) noticia fatos relativos ao Brasil a reboque das imprensas americana e européia por puro partidarismo.
O constrangimento da imprensa brasileira no caso Alstom, entre outros, ocorre, a meu ver, diante das classes jornalística e acadêmica, sob aplausos e vaias da classe política. Mas é um constrangimento dos impotentes, no caso dos que reprovam a partidarização do jornalismo.
Essa é a realidade que fundamenta essa exibição pública e constante de perversão num ofício que, nesta parte do mundo, já perdeu não só o romantismo, mas a própria razão de ser num momento da história em que o jornalismo-cidadão (amador), como o praticado neste blog, consegue, sem grandes fontes e sem tirar a bunda da cadeira, dar “furo” jornalístico em impérios de comunicação.
Foi o caso deste blog na última quinta-feira. As notícias sobre um “intermediário” brasileiro que atuou entre a Alstom e os sucessivos governos paulistas que receberam propinas da multinacional para as campanhas dos políticos que controlam esses governos (Mário Covas, Geraldo Alckmin e José Serra) há 14 anos foram dadas aqui antes de em qualquer outro site, jornal ou telejornal brasileiro.
Eu não leio o Wall Street Journal e, portanto, não teria achado sozinho a notícia sobre a identificação de um tal Cláudio Mendes, que teria intermediado as negociatas entre os governos tucanos e a Alstom. Quem me passou a matéria do WSJ que reproduzi aqui foi Daniel Florêncio, um jornalista brasileiro radicado em Londres com quem estabeleci um canal de comunicação, e que prometeu me abastecer com informações do exterior sobre o caso Alstom, pois nas imprensas européia e americana o caso está bombando.
Aqui no Brasil, as notícias sobre a roubalheira da Alstom vão para as páginas internas da imprensa escrita e permanecem fora dos telejornais. Além disso, o governador paulista, José Serra, vai empreendendo uma enorme “operação abafa” na Assembléia Legislativa de seu Estado, coordenando o sepultamento da investigação naquela Casa.
A imprensa escrita paulista, sobretudo, limita-se a reproduzir notinhas sobre o caso. Não dá destaque sobretudo ao que Serra está fazendo para impedir investigações. E a imprensa eletrônica praticamente não toca no assunto.
Se o escândalo da Alstom envolvesse Lula e o PT, teríamos uma daquelas campanhas como a do dossiê, que, a rigor, não tinha um décimo da importância para a sociedade da que tem o caso Alstom, pois tratavam-se de acusações sem provas de um partido político contra outro, enquanto que no caso da multinacional corruptora dos governos Covas, Alckmin e Serra, as provas começam a brotar em profusão.
Aliás, um dos raros colunistas do PIG que se dignou a se indignar com a operação abafa de Serra, além do ombudsman Carlos Eduardo Lins da Silva, foi Elio Gaspari, que toca no assunto numa notinha na Folha. O resto do “colonismo” nacional faz cara de parede e finge que não vê ou sabe de nada.
O mais bizarro nesse caso é que ele caminha para um ponto em que veremos Serra e Alckmin (porque Covas já morreu) acusando as justiças da França, da Suíça e o Waal Street Journal – que, para quem não sabe, funciona em Nova Iorque – de terem se mancomunado com o PT, por acusarem os tucanos de ladrões de dinheiro público.
E há até um (pequeno) risco de a Justiça brasileira cobrar essa fatura dos políticos supra mencionados. No Brasil, a Justiça dificilmente vai às últimas conseqüências contra líderes políticos ou multimilionários. Porém, as investigações na justiça européia e na imprensa internacional parecem ainda ter muito fôlego. O constrangimento dito pelo ombudsman, portanto, tende a se aprofundar.