Reportagem - América Latina

Venezuela sem mentiras

 

Eu, diante do “Mercal Parroquia El Valle”, em Caracas

 

Ao fim da viagem que empreendo à Venezuela, tentarei pintar um quadro realista do país submetendo minhas idiossincrasias ao império da verdade. Caberá a você, leitor, dizer se obtive sucesso.

 

Estive no distrito federal da Venezuela (Caracas) e nos estados de Miranda, Mérida, Carabobo, Zulia e Lara.

 

O que me causou espanto aqui, foi a alta dos preços. E uma das razões principais disso, entendo que é o controle cambial que vige no país. A dificuldade que impõe aos importadores, num país que não produz praticamente nada, gera escassez de produtos, o que faz com que a lei da oferta e da procura funcione.

 

Outro fato a relatar, é sobre os programas sociais chavistas. No dia em que escrevo, estive com uma pessoa que, no ano passado, levou-me ao morro caraquenho “Propatria”. Trata-se de Henry, recepcionista do hotel em que costumo me hospedar em Caracas.

 

Henry Oviedo, recepcionista

 

Ano passado, quando estive neste país, não conseguia encontrar chavistas na Caracas baixa até que descobri Henry, o recepcionista do hotel em que me hospedei. Ele me revelou que os chavistas poderiam ser encontrados nos morros que rodeiam a cidade. Pedi que me levasse a um deles, naquele em que vive. Lá, ele e seus vizinhos atribuíram o apoio a Chávez a programas sociais como a missão “Barrio Adentro”, que instalou unidades médicas nos bairros pobres. São edificações em formato de silo, com dois andares. Ali, médicos cubanos moram na parte superior e, na parte inferior, dão atendimento médico. Decidi conhecer uma delas.

 

Unidade médica de “Parróquia El Valle”, em Caracas.

 

Enquanto fotografava a fachada da unidade, percebi movimentação de funcionários lá dentro. Logo, uma funcionária veio falar comigo e com o taxista de confiança que tenho em Caracas, que me levou até lá, Armando.

 

Armando Perez, taxista

 

A funcionária quis saber o que fomos fazer ali. Identifiquei-me como “jornalista brasileiro”. Pedi para conversar com o responsável pela unidade e para tirar algumas fotos lá dentro. A mulher pediu-me que parasse de fotografar e que esperasse do lado de fora. Entrou, deu um telefonema e voltou dizendo que não haveria permissão; justificou a recusa por conta das “mentiras de los medios”.Expliquei que não haveria mentiras, e que eu mesmo era simpático à “revolução”, o que pareceu acalmá-la. Não deu a permissão, mas revelou que ali atendem cerca de 40 pessoas por dia e apontou várias outras unidades espalhadas pelo bairro.

 

Vista dos morros no entorno do bairro popular “El Valle”

 

Despedi-me e fiquei esperando algum paciente sair. Uma senhora concordou em falar comigo: “La Misión Barrio Adentro es una bendición de Dios”, disse, apesar de acrescentar que é pouco, pois os médicos dali dão atendimento inicial ou emergencial, mas depois encaminham os pacientes aos péssimos hospitais públicos venezuelanos, que em nada superam os brasileiros.

 

Agora, pedi ao taxista Armando que me levasse a um “Mercal” - para quem não sabe, “Mercais” são mercados do governo Chávez nos quais se pode comprar alimentos mais baratos. O primeiro “Mercal” de “Parróquia El Valle” que visitei tinha uma longa fila à porta, que se formou devido à entrada ser controlada por funcionários, que só permitiam cinco pessoas por vez.

 

Fila à porta de um “Mercal” No bairro “El Valle”

 

Desta vez, obtive mais sucesso do que na unidade médica. A funcionária que controlava a entrada das pessoas foi simpática ao meu pedido para visitar e fotografar as instalações. Também foi consultar um superior, mas, desta vez, a permissão veio.

 

Prateleiras quase vazias no “Mercal”

 

Praticamente não havia mais produtos para vender. Os que estavam na fila, do lado de fora, certamente não teriam muito o que comprar ali.

 

Os consumidores do “Mercal” se encantaram ao saber que eu era “jornalista” e brasileiro. Aproveitando a deixa, perguntei se eram filiados ao partido de Chávez e se ali podia-se mesmo comprar produtos mais baratos. Negaram ser do partido do governo e disseram que, sim, podiam comprar produtos com “50% de desconto” ali, mas “só quando havia o que comprar”.

 

Rafael Hernández, desempregado: “Sem Mercais, eu passaria fome”

 

Eva Lucía Gimenez , dona de casa: “Preços, aqui, são a metade”

 

O taxista Armando complementou dizendo que só se formam filas quando há carne, frango ou leite. E, para provar, levou-me a outro “Mercal” próximo, no qual tais produtos estavam esgotados. Ali não havia fila.

 

Os programas sociais chavistas funcionam, mas têm deficiências. As leis econômicas draconianas do chavismo coíbem a sonegação, mas distorcem a economia. O povo venezuelano não teve seus problemas totalmente resolvidos, mas tem hoje situação melhor. Contudo, Chávez usa o Estado como se fosse seu e intimida adversários.

 

Esta é a Venezuela sem mentiras que tentei pintar. Posso não ter conseguido, mas ao menos tentei, o que é muito mais do que faz o PIG.



 Escrito por Eduardo Guimarães às 19h46
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Aviso

 

Amigos, está difícil blogar aqui na Venezuela. Estou pulando de cidade em cidade. Talvez consiga hoje (quinta) à noite, mas o mais provável é amanhã (sexta) no decorrer do dia.



 Escrito por Eduardo Guimarães às 19h15
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Política venezuelana

O pior inimigo de Chávez

 

 

El Vigía, estado venezuelano de Mérida, alta madrugada. Termina mais um dia de trabalho de um comerciante de autopeças numa das cidades mais “chavistas” da Venezuela.

 

Em El Vigia, à diferença do que aconteceu no conjunto do país no fim do ano passado, foi aprovada a reforma constitucional proposta por Hugo Chávez. Aqui, o presidente venezuelano jamais perdeu uma eleição. E o mesmo se repete na maioria das regiões agrícolas do pais: Chávez ainda é imbatível nessas regiões devido aos investimentos maciços que seu governo vem fazendo em agricultura. 

 

Vim aqui, não para vender, mas para encontrar uma forma de receber o pagamento de uma exportação que a nova empresa para a qual passei a prestar serviços fez há cerca de dois anos. Devido a uma tecnicalidade, o Cadivi, órgão que administra o controle cambial venezuelano, impediu meu cliente, um declarado e conhecido antichavista, de pagar o que deve àquela empresa.

 

O controle cambial foi implementado em 2005 devido a uma greve na PDVSA (estatal venezuelana de petróleo) desencadeada pela oposição a Chávez, em retaliação à sua vitória no referendo revogatório convocado por essa mesma oposição no ano anterior.

 

A greve na PDVSA, em 2005, afundou a economia venezuelana e gerou uma incontrolável fuga de divisas (dólares) do país. Chávez, então, implantou o controle cambial, não apenas para impedir a sangria de divisas, mas para submeter economicamente seus opositores, que três anos antes haviam tentado um golpe de estado contra ele. E num país que não fabrica nada, comerciante que não tem dólares para importar, está frito. 

 

Devido à guerra civil virtual que ainda vige na Venezuela, o controle cambial nunca mais foi levantado. Em parte, permanece para impedir que os ricos, em sua totalidade contrários ao governo, sangrem o país transformando seus bens em dólares e remetendo-os ao exterior, mas em parte constitui um dos vários “castigos” impostos pelo chavismo aos seus opositores.

 

Alguns poderão ficar chocados com algumas coisas que escreverei, pois não farei só elogios a Chávez, mesmo apoiando tantas de suas políticas. Tenho críticas reais a fazer a ele. Mas só ficará chocado quem não me conhece direito. Para os que me conhecem, surpresa seria se eu abdicasse de me render ao que é correto para não prejudicar minhas opiniões políticas e ideológicas.

 

É claro que Chávez enfrenta uma oposição desvairada tanto quanto Lula, Evo Morales e tantos outros mandatários de esquerda latino-americanos. É claro que a verdadeira sabotagem e o golpismo latente praticados pela mídia privada e pela oposição venezuelanas geram uma situação política distinta. Um presidente que chegou a ser seqüestrado por seus opositores não pode tratá-los a pão-de-ló. Contudo, o uso do poder do estado para retaliar inimigos políticos é uma conduta que não posso aceitar.

 

Um exemplo desse uso do estado para retaliar inimigos é o que está fazendo aqui o equivalente venezuelano ao Tribunal de Contas brasileiro, o “contralor”. Sob acusações de mau uso de dinheiro público, o “contralor” decretou a inelegibilidade de um número de políticos oposicionistas incompatível com uma situação em que governos de oposição ao governo central são ínfima minoria. E, “coincidentemente”, os que foram tornados inelegíveis são os oposicionistas que aparecem nas pesquisas eleitorais como favoritos na eleição de governadores e prefeitos que ocorrerá em novembro deste ano na Venezuela.

 

Por essas e outras medidas suspeitas é que Chávez perdeu, sim, parte do enorme apoio que tinha antes da derrota que sofreu no referendo do ano passado, quando viu ser derrotada sua proposta de reforma constitucional, que lhe permitiria candidatar-se à reeleição quantas vezes quisesse. Contudo, a perda de apoio que sofreu está longe de ser a que a mídia brasileira relata. Chávez, segundo o cliente que vim visitar aqui – um antichavista convicto, porém civilizado –, seria reeleito hoje com grande facilidade, ainda que com votação um pouco menor.

 

O que sustenta Chávez são seus programas sociais, que socorreram – esta é a palavra – milhões de venezuelanos pobres. Nesse contexto, um caso do qual tomei conhecimento nesta viagem mostra bem por que o presidente da Venezuela desfruta de apoio ainda tão forte. Um dos funcionários do cliente que mencionei é um sexagenário que estava ficando cego por estar com catarata. O homem nem estava trabalhando mais. Meu cliente, compadecido de sua situação, continua lhe pagando o salário assim mesmo.

 

A cirurgia de que o homem precisava custa cerca de 2 mil dólares e meu cliente se propôs a pagar metade do valor e emprestar ao funcionário a outra metade. Foi quando o homem decidiu buscar uma unidade da “missão bairro adentro”, programa social chavista que leva atendimento médico aos bairros pobres. Foi operado sem gastar um tostão.

 

Parece-lhe pouco? No Brasil, pode ser. Mas na Venezuela anterior a Chávez, benefícios como esse, concedidos pelo estado, eram impensáveis.

 

Quem nunca esteve na Venezuela dificilmente conseguirá dimensionar o que a parte pobre desta sociedade sente por Chávez. Tratado pela mídia privada daqui da Venezuela, daí do Brasil, enfim, de todas as partes do continente americano como se fosse um “ditador” e um psicopata, Chávez é idolatrado pela população pobre da Venezuela. Acreditem em mim quando digo que ele chega a ser visto como um homem santo entre praticamente toda a população pobre deste país.

 

Hugo Chávez, definitivamente, não é um santo. Porém, sua passagem pelo governo da Venezuela terá mudado para sempre este país. E para muito melhor. O povo venezuelano é hoje um dos mais politizados do planeta. Chego a ter vergonha dos brasileiros nesse quesito, em comparação com os venezuelanos.

 

No dia em que Chávez deixar o poder, provavelmente em 2012 – se não conseguir aprovar, mais adiante, a possibilidade de se candidatar de novo à presidência –, deixará um país que terá passado a exigir dos políticos o que talvez nenhum outro povo latino-americano exige. Contudo, o fantástico projeto de Chávez está ameaçado por sua crença em que o fim justifica os meios. O pior inimigo que ele precisa vencer – e que nunca venceu, até aqui –, é a si mesmo.     

 

ENDEREÇOS DA POSTAGEM

http://edu.guim.blog.uol.com.br/arch2008-06-29_2008-07-05.html#2008_07-02_12_43_35-3429108-0



 Escrito por Eduardo Guimarães às 11h43
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Atraso

 

Pessoal, agora pela manhã voltarei a postar.  O cliente só me liberou ontem depois do jantar, no fim da noite.



 Escrito por Eduardo Guimarães às 20h45
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Crônica

Blogueiro em trânsito

 

 

 

 

 

 

Bem, pessoal, estou de malas prontas. Poucas horas depois desta postagem (veja a hora ao pé deste texto) até as oito horas da manhã desta segunda-feira, passarei a purgar meus pecados em aviões e aeroportos – eu, que amava voar, hoje detesto. E não me venham com aquele papo de “caosaéreo”, porque voar está sendo um drama em qualquer parte do mundo, hoje em dia.

 

Meu vôo para Caracas sai à uma da manhã desta segunda-feira (30 de junho). Tenho, portanto, que fazer o check-in por volta das vinte e duas horas deste domingo. Para tanto, como embarco do aeroporto internacional de Guarulhos, tenho que sair de casa pelo menos uma hora e meia a duas horas antes...

 

Vejam vocês como está São Paulo. Quem precisa ou quer ser pontual, para evitar surpresas precisa se encaminhar para os seus compromissos com uma antecedência absurdamente grande.

 

Enfim, chego à capital venezuelana por volta das sete da manhã (hora brasileira). Às oito, embarco para o estado venezuelano de Mérida, para o aeroporto da capital desse estado, que também se chama Mérida.

 

Entre um vôo e outro, mal terei tempo de ir ao banheiro vestir o terno que levarei numa sacola, pois já chegarei à Venezuela trabalhando apesar da noite insone no avião, e não posso ir trabalhar amarrotado. A rapadura é doce, turma, mas não é mole, não.

 

Pedirei à minha filha Gabriela que monitore e publique os comentários. Eu, porém, lerei tudo que vocês comentarem, posteriormente. E quando eu mesmo puder liberar comentários, farei isso. Combinei com a minha filha que quem chegar antes libera o que vocês escreverem. 

 

Gabriela Guimarães

 

Mas, claro, será uma semana bem corrida, então escreverei para este blog à noite. Mas como estou sem lap top, dependerei de lan houses. Assim, pode ser que, em algum momento, por conta de algum jantar com cliente, por exemplo, eu não possa postar.

Mas farei o possível e o impossível para não falhar nem um dia. Este blogueiro, mesmo em trânsito, tem como que um pacto de sangue com vocês, leitores, de encarar este blog com a maior seriedade, como parte importantíssima de sua vida.

PS: quem, por falta de imaginação, quiser usar a foto abaixo do título deste post para dizer que sou um "mala", peço que considere, prestando atenção à foto, que pelo menos sou um "mala" COM alça.

ENDEREÇOS DA POSTAGEM

http://edu.guim.blog.uol.com.br/arch2008-06-29_2008-07-05.html#2008_06-29_13_08_31-3429108-0



 Escrito por Eduardo Guimarães às 12h08
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Crítica da mídia

Meu alvo favorito e

por que o escolhi

 

 

 

 

 

Para criticar qualquer coisa com eficiência e seriedade nesta vida, é imperativo conhecer o que se critica. Eu, por exemplo, critico a mídia, mas procuro me pautar por alguns veículos-chave, que, de acordo com percepção que fui construindo através dos anos, acabam sintetizando o grosso do comportamento midiático.

 

No Brasil, o tom político e ideológico da grande mídia é dado pelos quatro maiores veículos da imprensa escrita, Folha, Globo, Estadão e Veja. O resto da grande mídia acaba indo no vácuo desses veículos.

 

Para fazer uma crítica fundamentada desses órgãos de imprensa, preciso conhecê-los muito bem a fim de poder fazer afirmações peremptórias sem medo de estar cometendo injustiça, sobretudo por falta de conhecimento do que critico.

 

Desses quatro veículos supra mencionados, dois deles dispensam denúncias de partidarismo, pois são veículos assumidamente partidarizados. Esses veículos são a Veja e o Estadão. Este, aliás, é o que tem medos pudor em assumir seu partidarismo.

 

Pode-se, no entanto, acusar tanto a Veja, quanto o Estadão, quanto a Globo ou a Folha de deturparem e esconderem fatos, claro, mas a acusação de partidarismo é a que até os veículos que não tentam disfarçar esse partidarismo mais temem e rejeitam.

 

Dessa maneira, se eu tivesse que acompanhar a Veja ou o Estadão acabaria chovendo no molhado. Vou acusar de partidarismo quem é assumidamente partidário da oposição tucano-pefelê?

 

Então, restaram-me Globo e Folha. Como sou paulista, escolhi o jornal paulista. E, além disso, por ser o grande jornal de maior tiragem, esse é um fator que coroa minha escolha.

 

Isso sem falar que a Folha tem ombudsman e um ímpeto irrefreável de tentar aparecer como “isenta”, bem maior do que o de qualquer outro veículo. Aí está um prato cheio para um crítico da mídia, se ele se dispuser a conhecer o que critica.

 

Na Folha deste domingo, uma coluna e uma nota chamam atenção. Foram escritas, respectivamente, por Clóvis Rossi e pelo ombudsman do jornal, meu amigo recente Carlos Eduardo Lins da Silva, que vem se esforçando para não deixar passar batido os “descuidos” do jornal.

 

Começo pelo ombudsman. Mais uma vez ele agiu bem ao, mesmo tratando de outro assunto na parte principal de sua coluna dominical, não ter deixado de acusar uma atitude da Folha sobre a qual conversamos durante a semana.

 

Estudo do Ipea que apontou queda de 7% na desigualdade, na Folha foi tratado como má notícia, pois o jornal publicou um texto ambíguo que tinha como manchete a “má notícia” de que a “Desigualdade só deve mudar de patamar em 2016”.

 

O ombudsman não deixou de apontar esse paradoxo em sua coluna deste domingo na edição impressa do jornal, ainda que brevemente e de forma que poderia ter sido mais clara. Porém, apontou, numa seção que criou dentro de sua coluna dominical, chamada por ele de  “Tiros livres e diretos”. Vejam:

 

Enfoque dado a estudo que mostrou crescimento da renda dos mais pobres no país cinco vezes maior do que a dos mais ricos e redução da desigualdade social de 7% em seis anos foi claramente enviesado: registrou com destaque apenas que ainda levarão oito anos para a desigualdade superar estágios ‘primitivos’

 

Aliás, o outro texto da Folha deste domingo que destaco também diz respeito ao Estudo do Ipea sobre a expressiva queda da desigualdade na era Lula. É, como não poderia deixar de ser, de autoria do marido da presidente – ou seria ex-presidente? - do “PSDB Mulher”, o colunista Clóvis Rossi, que entrará para o Guinnes Book por ser o único colunista do mundo que conseguiu a proeza de escrever a mesma coluna durante cinco anos sem perder o emprego.

 

Leiam, abaixo, a coluna de Clóvis Rossi de 29 de junho de 2008. Depois dela, obviamente que a comento.

 

A perpetuação da lenda

SÃO PAULO - Pesquisa recentíssima do Ipea recolocou em circulação no noticiário a lenda da queda da desigualdade

Caiu apenas a desigualdade nos salários. Como informa o próprio Ipea, o índice divulgado dias atrás só mede a renda dos ocupados, que inclui os salários, aposentadorias e benefícios de programas de transferência de renda. Mas -atenção, crédulos- juros, lucros e remda da terra, por exemplo, não entram nessa conta.

Portanto, não dá nem para dizer que caiu a diferença de renda entre os assalariados. Afinal, é lógico supor que os mais bem remunerados, embora tenham perdido no salário, ganharam juros de suas aplicações financeiras, mesmo que seja uma modesta poupança. Já os de baixa renda, que viram seu salário aumentar, não têm, em geral, sobra para aplicar em instrumentos financeiros de qualquer raça. 

A imperdível coluna "Mercado Aberto" desta Folha já mostrou avaliação de Claudio Dedecca, professor do Instituto de Economia da Unicamp, que acaba de concluir pesquisa a respeito.

Dedecca confirma o que já foi dito repetidamente aqui: não há redução de desigualdade, porque só entram nas contas que a revelariam os ganhos salariais e com a rede de proteção social, como Bolsa Família e aposentadoria. Tais números equivalem a só 40% do PIB.

Não entra, portanto, "a renda com ganho de capital das classes A e B, à qual os pesquisadores não têm acesso". Pesquisadores do próprio Ipea já calcularam em 90% a omissão de dados sobre ganhos de capital na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios, mãe da lenda sobre queda da desigualdade.

Se Marcio Pochmann, presidente do Ipea, diz que o Brasil é "primitivo", mesmo com a queda apontada na desigualdade de salários, como qualificá-lo quando se verifica que não há queda na obscena desigualdade de renda?

Antes, Clóvis Rossi também dizia que não haveria "espetáculo do crescimento", mas teve que pôr a barba de molho num momento em que o governo está sendo obrigado a tomar medidas para conter o crescimento da economia, que já ameaçava chegar a patamares asiáticos.

 

Mas o que Rossi não pode admitir mesmo é a redução da desigualdade promovida pelo governo Lula, um feito internacionalmente reconhecido. Para contestar a frieza dos números, que mostram que este governo está distribuindo renda como nenhum outro, o colunista criou uma falácia de grande porte.

 

A teoria rossiana é a de que não é real a queda da desigualdade apontada pelo IPEA, porque os mais ricos escondem parte dos ganhos que têm no mercado financeiro. Assim, a evolução dos salários dos mais pobres apareceria integralmente, mas os ganhos dos mais ricos no mercado financeiro, não.

 

Essa teoria seria plausível se os mais ricos tivessem começado a esconder ganhos só depois que Lula chegou ao poder. Como isso não é verdade, o que o Ipea comparou foi situação anterior, em que os ricos escondiam parte de suas rendas, com a situação atual, na qual continuariam fazendo a mesma coisa.

 

Se os ricos escondiam antes parte de seus rendimentos e continuam escondendo, mas a relação entre os ganhos declarados deles com os salários mais baixos sofreu alteração favorável aos mais pobres, a teoria de Rossi teria que provar que hoje os ricos escondem mais seus ganhos do que escondiam antes.

 

Sabe-se, no entanto, que a fiscalização da sonegação aumentou no governo Lula, de forma que a teoria de Rossi pode funcionar, sim, mas no sentido inverso, ou seja, os ganhos dos mais ricos aparecem mais inteiros hoje do que ontem, o que significa que a redução da desigualdade pode ser até maior do que diz o Ipea.

Para desempatar esse jogo de suposições mal fundamentadas, pode-se recorrer ao juiz povão, que, como mostram pesquisas e eleições, parece achar que sua vida melhorou com Lula, enquanto que os mais ricos são os que mais reclamam do governo, o que torna minha teoria mais verossímil do que a de Rossi.

ENDEREÇO DA POSTAGEM

http://edu.guim.blog.uol.com.br/arch2008-06-29_2008-07-05.html#2008_06-29_11_41_05-3429108-0



 Escrito por Eduardo Guimarães às 10h41
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