Hoje, quero me dirigir a vocês, canalhas de todas as cepas, estelionatários e traficantes de drogas, piratas intelectuais, contrabandistas, falsificadores de dinheiro, assassinos de aluguel, cafetões, gigolôs...
Em suma, àqueles que fazem do crime seu modus vivendi, quero apontar o caminho para que deixem de ser discriminados e desrespeitados quando flagrados com a boca na botija.
Deixem de ser arrestados com violência, violadores da lei. Parem de ser algemados sem questionamentos do Supremo e da oposição tucano-pefelê mesmo quando, sabendo que “a casa caiu”, não oferecerem resistência à prisão.
Primeiro conselho: roubem, mas roubem muito. Mesmo quando delinqüirem por vingança, dêem um jeito de roubar muito dinheiro junto do crime principal. Mas tem que ser muito.
Precisam roubar somas estratosféricas se quiserem ter seus direitos existentes e fictícios respeitados e até inventados pela cúpula da Justiça.
E para serem julgados pela Suprema Corte, é claro, pois neste país há uma senha para aqueles que por aquela Corte são julgados: se chegaram até lá, é porque têm o que é preciso para serem imunizados contra a lei – ou seria “impunizados”?
Dirão vocês, ó gatunos e tarados, ó punguistas e ladrões de xampu em supermercado, ó apontadores de jogo do bicho, ó passadores de “bagulho”, que vocês não têm acesso às fortunas que um Daniel Dantas e congêneres têm, que não fizeram amizades com políticos e que não podem, por isso, contar com a boa vontade da mídia.
Sim, reconheço vosso obstáculo à impunidade e já havia pensado nele. E foi pensando nele que engendrei uma solução.
Por que não criarem uma cooperativa, pretensos gênios do mal? Se o que precisam é de muito dinheiro para comprarem o apoio do Supremo, da imprensa e de partidos políticos, uni-vos, ó trambiqueiros do Brasil.
Aliás, já que não se pode restaurar a moralidade nestas plagas, façamos como apregoou o Barão de Itararé: locupletemo-nos todos de uma vez por todas.
A polêmica que se ergueu na imprensa por conta de supostos “excessos” da Polícia Federal no que tange a prisão de figuras eminentes da sociedade numa operação policial de nome erudito, “Satiagraha”, que alude a conceito indiano de “verdade absoluta”, torna oportuna a análise sobre a natureza da Justiça de um país “descoberto” há mais de cinco séculos e que, desde então, persiste como um dos mais injustos do mundo.
Que não se tenha dúvida: este país não tem uma Justiça que diferencia cidadãos pela cor da pele ou pelo poder aquisitivo que têm apenas porque, no fim das contas, é intrinsecamente injusto; é o contrário, este país é tão injusto porque sua Justiça diferencia os cidadãos por tais critérios.
A Justiça obedece à Lei maior da Nação, que, em primeira instância, é sua atual Carta Magna, reconstruída há duas décadas. Todavia, a regulamentação dos artigos dessa Carta foi feita de forma a materializar uma hierarquia social excludente que a própria sociedade permitiu que sobreviesse da última Assembléia Nacional constituinte que o Brasil fez.
Essa interpretação da Constituição que formatou a Organização Jurídica da Nação acabou por se ramificar de uma maneira que a sociedade fosse literalmente dividida juridicamente, criando-se uma “Justiça” para cada um dos estratos sociais de acordo com o estereótipo - fundado em fatos - que se criou para a pirâmide social, ou seja, a sua divisão em classes baixa, média e alta, incluindo-se aí as “tonalidades” variantes em cada estrato.
Três casos recentes ilustram bem a divisão da peculiar Justiça brasileira, que deveria ser una, em três Justiças. Os casos Daniel Dantas e companhia, o caso Isabela Nardoni e o dos rapazes entregues pelo exército a traficantes no Rio mostram bem como há uma “Justiça” para cada estrato social.
No caso Dantas e companhia, o zelo da Justiça pelos direitos e pelos “direitos” dos acusados chega às raias do escândalo. Gente como Daniel Dantas ou Salvatore Cacciola foi literalmente agraciada com decisões de soltura que lhe facilitaram o caminho rumo à impunidade.
Os beneméritos de um Dantas ou de um Cacciola têm até nome. Os ministros da Suprema Corte Gilmar Mendes e Marco Aurélio de Mello atuam como advogados de partidos políticos e de corruptos eminentes com a maior desenvoltura e tomados até por uma “santa” indignação, e tal absurdo é aceito como se fosse a coisa mais natural do mundo, ao ponto que Mendes solta Dantas, a despeito das evidências de que está tentando interferir no processo de investigação, e o banqueiro é preso logo em seguida sob provas ainda mais contundentes do que as que geraram sua prisão pela primeira vez.
No caso dos Nardoni, mesmo ressalvados reiteradamente os direitos dos acusados por muitas vozes da sociedade, a Justiça termina por atender aos pedidos de punição antecipada que, de acordo com o texto constitucional, podem ser considerados precipitados. A Justiça, à diferença do que faz com o estrato superior da pirâmide, cede à gritaria condenatória.
No caso dos rapazes do Rio, os direitos das vítimas e a punição dos algozes se pauta pelo desprezo da Justiça aos mais fracos até quando são vítimas. Não se desconhece as ausências de punição e de focalização pela mídia de excessos policiais contra pobres. O que se conhece são questionamentos pontuais e descontinuados da defesa dos direitos dos mais humildes e a impunidade de seus agressores, que permitiu que se chegasse a excessos como o dos rapazes do Rio sem que a sociedade pare e se pergunte como é possível que as forças repressoras do Estado tratem dessa maneira cidadãos brasileiros.
Neste capítulo, o consenso dos estratos superiores de que é preciso reprimir os crimes contra o patrimônio e a pessoa praticados pelos pobres - sempre com uma dureza literalmente medieval – faz com que o criminoso pé-de-chinelo seja, muitas vezes, arrestado para muito além de sua pena, seviciado reiteradamente por iguais e por carcereiros e mantido preso em condições de vida subumanas, de forma intimidar as classes baixas, para que se afastem de uma criminalidade que, muitas vezes, torna-se, para elas, uma das poucas opções de sobrevivência.
A gradação da Justiça brasileira também tem critério racial. As prisões brasileiras mostram, no conjunto da obra, que o crime punível no Brasil tem cor, e que a aplicação das penas obedece a tal critério. O negro e os descendentes de negro, apesar de serem, no máximo, metade da população, representam uma maioria esmagadora daqueles que o Estado pune com pena de privação da liberdade física.
O processo civilizatório que o atual governo do país fez acelerar, para chegar a bom termo deve contemplar a divisão da Justiça brasileira pelos critérios supra mencionados. Chegamos a um ponto em que, se a Justiça não entender o processo de moralização das instituições em que o país está imerso, só nos restará retroceder em nossas aspirações de um país realmente civilizado, no qual todos sejam iguais perante a Lei, ou enquadrar, não a Justiça, mas os que falam em nome dela, porém agem em prol dos interesses de poucos.
Arnaldo Jabor lê o Cidadania?
Minha amiga e leitora Vera Pereira, socióloga do Rio, acha que Arnaldo Jabor lê este blog porque ele falou ontem (sexta) sobre a justiça o mesmo que escrevi neste post (acima).
“Edu, o Arnaldo Jabor lê seu blog! Acabei de ouvir o comentário dele no Jornal da Globo, no primeiro bloco do programa, logo depois da matéria sobre o Gilmar Mendes, e qual foi o mote de hoje? As três justiças do Brasil!! Pode?”
Não acredito, Vera, que Jabor leia o Cidadania, apesar de que já fui surpreendido ao saber de vários jornalistas eminentes que lêem o que escrevo.
O que acho é que o cronista da Globo e eu chegamos juntos a conclusões parecidas, até porque são conclusões óbvias.
Mas, enfim, é melhor que você julgue por si mesmo assistindo ao vídeo abaixo.
Se alguém, até alguns poucos anos atrás, dissesse que um dia eu veria banqueiros, advogados famosos, empresários de peso, políticos importantes, enfim, figuras proeminentes da sociedade sendo presas por atos de corrupção, dificilmente eu acreditaria.
Durante o governo Lula, essas operações impressionantes da Polícia Federal acabaram se tornando tão comuns que não nos damos mais conta delas, mas o fato é que o risco de se meter em corrupção no Brasil vai se tornando cada vez menos compensador.
A dimensão desses escândalos, a quantidade de dinheiro furtado ao país, o nível de conexões dos corruptos e dos corruptores com o poder sempre foram ao menos intuídos pela sociedade, mas, de repente, começamos a ver quem compra e quem se vende sendo expostos, acusados e até presos e processados.
Alguns dirão que ainda estamos longe de chegar “lá”, ou seja, ao ponto dos países civilizados, nos quais a cadeia para os grandes golpistas, para os que roubam muito, é realidade. E estarão dizendo a verdade.
Um dos dramas do país é que o combate à corrupção ainda acontece apenas por iniciativa do Poder Executivo federal. A Justiça ainda se dedica a soltar os grandes corruptos que a Polícia Federal prende. Que o digam Gilmar Mendes ou Marco Aurélio de Mello.
Mas ao menos um dos braços da lei está funcionando. Pior era quando o procurador-geral da República engavetava tudo o que incomodava o Executivo, a Polícia Federal não incomodava os grandes corruptos e corruptores e a Justiça era como infelizmente ainda é, ou seja, a porta por onde a corrupção se escafede.
Como bem disseram duas mentes brilhantes das quais pude “beber” recentemente a sabedoria em um jantar, os jornalistas Conceição Lemes e Luiz Carlos Azenha, o que nos separa hoje da escuridão é “apenas” o governo Lula. É muito pouca proteção.
Em 2010, corremos o risco de esse processo civilizatório ser interrompido. A volta dos tucanos ao poder pode representar o fim da liberdade de atuação da Polícia Federal ou a volta de algum “engavetador-geral da República”.
É por isso que luto neste blog, para fazer minha parte no sentido de mostrar às pessoas o que está acontecendo de maravilhoso neste país, não só em termos de moralização das instituições, não apenas em termos de boa administração da economia, não unicamente em termos de promoção de justiça social, mas no conjunto da obra.
Nosso trabalho ainda se tornará extremamente árduo, meus amigos, antes de podermos relaxar. Precisamos impedir que a direita volte ao poder a qualquer preço. Quando Lula se for, a única defesa do país contra seus predadores históricos deixará de existir, ou ao menos de ter meios efetivos de fazer o que é preciso. Precisamos construir uma alternativa.
Apesar de a grande mídia, como era previsível, ter tentado jogar Daniel Dantas no colo do PT, conforme se vê no vídeo acima, a coluna de Nelson de Sá, na Folha de São Paulo (outro veículo que tenta vincular o “gênio do mal” das privatizações ao partido do governo Lula), relata que jornalistas da Globo discordam da emissora e do resto da mesma grande mídia.
Vejam o que cada um diz:
Nelsón de Sá, Folha de São Paulo
Apresentada com enunciados on-line e de TV que destacavam o mensalão, a operação levou a entrevistas destacadas nos sites e depois nos telejornais com o ex-relator da CPI dos Correios, que chegou a anunciar que "muita coisa ainda vai acontecer".
Os blogs de Ricardo Noblat e Míriam Leitão não vêem assim. Postou ele que "estão misturando por aí", mas "nada a ver com o mensalão", aliás, "em termos de governo, o anterior, de FHC, é que tem razão para se preocupar". E postou ela que "fontes do governo explicam" que a ação "não tem nada a ver diretamente com mensalão".
Estão misturando por aí o escândalo do mensalão, o pagamento de propinas a deputados para que em 2005 votassem na Câmara como mandava o governo, com a operação que resultou, hoje, na prisão do banqueiro Daniel Dantas, dono do Grupo Oportunitty, do especulador Naji Nahas e do ex-prefeito de São Paulo Celso Pitta, entre outros.
O que havia sido apurado antes sobre o mensalão está na origem da investigação da Polícia Federal que mandou Dantas, Nahas e Pitta para a cadeia. Mas é só. A operação de hoje nada tem a ver com o mensalão, nada avançou em relação a ele, até porque esse não era seu objetivo. Portanto, falando em termos de governo, o anterior , de FHC, é que tem razão para se preocupar.
Fontes do governo explicam que prisão de Daniel Dantas foi decretada para "proteger as provas recolhidas e ouvir os indiciados". A prisão é temporária e por poucos dias. Segundo uma das fontes, não tem a ver diretamente com o escândalo do mensalão em si, mas é uma pista lateral seguida pela Polícia Federal, a partir das denúncias feitas ao banqueiro durante a apuração do escândalo do mensalão. As acusações são de evasão de divisas, lavagem de dinheiro e gestão fraudulenta.
De qualquer maneira, tudo está ainda muito obscuro até porque Dantas não foi denunciado no Caso Mensalão no Supremo Tribunal Federal.
Dantas é figura tão controversa que acabou citado com freqüência em vários escândalos dos últimos tempos.
A ofensiva da mídia tentando ligar Dantas ao “mensalão” e, portanto, ao PT, na verdade tenta intimidar o governo federal para que este coloque freio à ação da Polícia Federal, que, não nos esqueçamos, é comandada por esse governo.
Tal ofensiva midiática visa impedir o aprofundamento das investigações chantageando o governo, como se dissesse: “Se não pararem de investigar Dantas, divulgaremos que ele integra a corrupção petista em vez da tucana”. Só falta, porém, o PIG combinar essa estratégia com “os russos”, ou seja, com o governo, para que este não resolva pagar para ver...
Cacciola
Um outro caso de ofensiva do governo petista para solucionar escândalos como o de Dantas - que, como dizem os jornalistas da Globo acima mencionados, é oriundo das privatizações da era FHC - é o caso do banqueiro Salvatore Cacciola.
Ele está, vejam só, dizendo que não pode ser preso no Brasil porque as condições carcerárias daqui não são como as de Mônaco, onde está preso há meses. Lá, a cela tem 12 metros quadrados e vista para o mar. Cacciola está sozinho na cela. Aqui, bem, aqui vocês sabem como é uma prisão comum. E como Cacciola já foi julgado e condenado à revelia, terá que ficar preso sem qualquer privilégio.
É por isso que Cacciola está dizendo que a ofensiva do governo Lula para trazê-lo de volta tem motivações políticas, ou seja, para atingir o governo FHC, que deu bilhões de dólares ao banqueiro na antevéspera da maxidesvalorização do real, em 1999.
A edição do Jornal Nacional de terça-feira, 8 de julho de 2008, noticiou a prisão do banqueiro Daniel Dantas, do ex-prefeito Celso Pitta e do mega especulador Naji Nahas em operação da Polícia Federal ocorrida na mesma data.
Na reportagem, o telejornal tentou vincular Dantas ao PT e omitiu parte vital de sua trajetória no cenário nacional, à diferença do que fez com Nahas e Pitta, dos quais reproduziu as trajetórias na íntegra.
A apresentação dos três eminentes arrestados pela operação da PF na reportagem teve a seguinte peculiaridade:
1 - No que diz respeito a Pitta, a matéria apresentou sua origem no cenário político durante os anos 1990, quando foi secretário do ex-prefeito Paulo Maluf e, depois, tornou-se candidato dele à própria sucessão na prefeitura paulistana e acabou se elegendo.
2 – Já em relação a Nahas, o telejornal da Globo retrocedeu mais ainda no tempo, relatando que ele teria “quebrado” a Bolsa de Valores carioca no fim dos anos 1980.
3 – Quando chegou a Dantas, o JN limitou-se a apresentar sua história no século XXI, mais precisamente durante o período Lula na Presidência da República, nos últimos cinco anos.
A despeito de a televisão estar ocultando a trajetória de Dantas, ele ficou muito famoso no cenário nacional à época das privatizações do governo FHC, quando comprou parte do sistema Telebrás num negócio obscuro que gerou frase em conversa telefônica do então presidente da República, que foi grampeada e amplamente divulgada e que aludia ao negócio entre o Estado e o banqueiro ter sido feito “no limite da irresponsabilidade”.
O potencial de uso político do imbróglio Dantas pela mídia contra o governo Lula e o PT, no entanto, parece-me restrito. Dantas andou se envolvendo em negócios com a filha do governador de São Paulo, José Serra, e com o filho do presidente Lula. Teve participação nos bastidores do poder no governo FHC e continuou atuando no atual governo.
Até quando as relações de Dantas com o tucanato poderão ser escondidas se o caso continuar sendo usado politicamente contra o PT e o governo Lula? Desconfio de que se o PIG fizer isso, algum petista graúdo perderá a paciência e perguntará no ar à imprensa, em alto e bom som, por que ela omite a trajetória do banqueiro. E vocês, o que acham?
No último fim de semana, voltei da Venezuela para o Brasil pela Varig. Quando embarquei no avião, logo à porta havia um carrinho com várias revistas em espanhol, português e inglês. As únicas revistas em meu idioma que tratavam de temas que me interessam eram a Veja e a Exame. Como eu permaneceria por mais seis horas dentro da aeronave, resolvi dar uma conferida nas publicações da Abril.
Comecei a me torturar com a Veja e a primeira que a revista aprontava naquela edição era dizer, com todas as letras, qual é a aposta da vez da imprensa partidarizada de São Paulo e do Rio para evitar que a oposição tucano-pefelê seja esmagada por candidatos da base de apoio do popularíssimo governo Lula nas eleições deste ano, e essa aposta é a inflação.
A revista lembrava estudos que mostram que a popularidade dos governos federais tende a cair quando a inflação aumenta e perguntava alguma coisa como “Será que agora vai?”. Ou seja: “Será que agora, com aumento da inflação, Lula cai nas pesquisas e sua influência política diminui?”.
Jornal Nacional, Folha, Globo, Estadão, Willian Bonner, Fátima Bernardes, Eliane “vacine-se antes que seja tarde” Cantanhêde, Clóvis “PSDB Mulher” Rossi, Arnaldo “deixa que eu chuto” Jabor, Diogo “enfant terrible” Mainardi, Reinaldo “esgoto” Azevedo e companhia limitada tratam de enfatizar a alta de preços extraordinária de alguns gêneros alimentícios como se todos eles tivessem subido da mesma maneira, e já criaram até um bordão, “volta da inflação”, ou seja, a volta do terrível processo que acometeu o Terceiro Mundo durante as décadas de 1980 e de parte da de 1990.
Há algumas semanas, esses estudos vinculando taxa de inflação com popularidade dos governos federais durante a história recente do país precederam a nova estratégia do PIG. Entusiasmada com os estudos, a imprensa golpista mergulhou nessa de cabeça.
Nada a estranhar. A mídia sempre mergulha de cabeça em projetos de derrubada da popularidade do governo do país. Até em “projetos” anti-Lula muito mais furados como o caos aéreo ou a febre amarela ou o dossiê ou... Bem, você sabe onde mais, ela embarca sem pensar. De maneira que, neste “projeto” da inflação, que, aparentemente, tem boas possibilidades de sucesso, a alta mundial de preços dos alimentos soou como música aos ouvidos piguianos.
A mídia e a oposição tucano-pefelê fazem a aposta mas não verificam se todas as condições para o efeito desmoralizador de governos que a inflação gera estão presentes no atual processo inflacionário.
Os estudos que deram conta de queda da popularidade dos governos durante processos inflacionários mostram, também, que o aumento da inflação só tem esse efeito corrosivo quando está aliado a estagnação da economia e a queda da renda média da população, o que não está acontecendo.
Vejam que na última segunda-feira houve uma inflação de notícias sobre um dado da Fundação Getúlio Vargas que fundamentaria as esperanças jornalístico-oposicionistas, ou seja, o de que a inflação, para os mais pobres, foi muito maior nos últimos doze meses do que para os setores de renda mais alta, pois as classes C e D, por exemplo, chegam a gastar entre um terço e metade de seus orçamentos familiares com alimentação.
Esquecem o PIG, a tucanada e a pefelândia que é justamente nas classes C, D e E que houve o maior crescimento de renda durante o governo Lula. Segundo divulgou o presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), Márcio Pochmann, no último dia 23 de junho, houve forte redução da desigualdade no país. Os dados mostram que a renda da parcela mais pobre da população cresceu 22% nos últimos cinco anos, enquanto a renda dos mais ricos cresceu 4,9%.
O forte aumento do emprego formal, fator essencial nesse crescimento da renda e na forte ascensão social das classes D e E para a classe C, a meu ver, anula altas localizadas de preço que ocorreram. Ao contrário de todas as reportagens do Jornal Nacional que vêm mostrando que pobres estariam comendo menos por conta da inflação, há toneladas de estatísticas que mostram exatamente o contrário, ou seja, que os mais pobres estão melhorando de vida, comendo mais, comprando eletrodomésticos, conseguindo empregos com carteira assinada etc.
Um outro dado importante: entre os países que adotaram o regime de metas de inflação, só o Brasil e o Canadá estão conseguindo se manter dentro da meta. Nos outros países que estabelecem metas de inflação, todos estão fora da meta anual.
Na Venezuela, por exemplo, de onde voltei há poucos dias, o processo inflacionário cresce junto com a forte alta do PIB. Na última quarta-feira, almocei, no estado venezuelano de Mérida, na cidade que leva o mesmo nome do estado, com um empresário venezuelano e outro argentino. Ambos me deram os números impressionantes da alta da inflação em seus países e elogiaram muito o Brasil, o único país latino-americano que está conseguindo controlar a inflação.
O PIG deveria estar ressaltando o sucesso brasileiro no combate à inflação e o fato de que a alta na renda dos brasileiros anulou os efeitos da alta de preços localizada em determinados produtos, alta que deverá gerar um acréscimo na inflação para os mais pobres que, porém, não passará de alguns poucos pontos percentuais, o que dificilmente materializará a ficção que o Jornal Nacional vem apresentando ao exibir reportagens com pessoas pobres que estariam “comendo menos”.
Creiam-me, o PIG quebrará a cara de novo. Quem diz isso não sou eu, são os números da economia e o avanço social do excelente governo Lula, elogiado fora do Brasil até pelos maiores adversários de governos de esquerda, como os empresários com quem almocei na Venezuela, inimigos figadais de Chávez e dos Kirchner, bem como de todos os outros presidentes de esquerda latino-americanos.
Miguel do Rosário e a blogosfera
Não deixem de ler artigo do jovem escritor Miguel do Rosário no link abaixo. Imperdível.
Nunca pensei já ter visto de tudo em minha vida, pois, apesar de estar adentrando a segunda década dos “enta” na vida de um ser humano, certamente que ainda tenho muito que ver nos anos que me quedam. Entretanto, há certas coisas que nunca imaginei ver.
Querem um exemplo? É evidente que, nos regimes autoritários, a censura escandalosa, o favorecimento despudorado da opinião dos ricos e poderosos, em detrimento da dos mais humildes, é regra. O que não é regra, é isso acontecer onde nos dizem ser um Estado Democrático de Direito, ou, no caso, num país como o Brasil.
A Justiça Eleitoral acaba de materializar esse paradoxo. Nos próximos meses, é provável que eu leia um texto na Folha, por exemplo, descendo a lenha na minha candidata a prefeita, Marta Suplicy, e elogiando o candidato do aliado do Jornal,José Serra, mas, neste blog, não poderei fazer a mesma coisa.
Nem o blog nem a Folha são concessões públicas. Aliás, a Folha recebe dinheiro público, via publicidade oficial. Então, recebe dinheiro público. Mas meu blog, ah, este nunca viu – jamais verá – um único centavo de dinheiros dessa origem. Vejam só vocês...
Lei é lei e ninguém pode desacatá-la ao seu bel prazer. Tenho completo entendimento disso. Porém, a lei maior da nação, a Constituição Federal, estará do meu lado sempre que eu, simplesmente, vier a exercer minha sagrada liberdade de expressão.
Ora, não poderei fazer campanha para político nenhum porque nem sequer conheço algum político pessoalmente. Por outro lado, a Constituição me dá o direito de dizer o que penso publicamente para quem quiser me ouvir, contanto que eu me valha de meios lícitos para divulgar o que penso e não pregue ilegalidades.
Este blog, portanto, na condição de extensão da mente de seu autor, exercerá o direito de expressão, previsto no texto constitucional, em toda sua plenitude, sem pedir a ninguém que vote neste ou naquele candidato mas externando minha opinião sobre todos os candidatos em relação aos quais eu tenha ou vier a ter opinião.
Ninguém pode me processar ou penalizar por usar minha liberdade de expressão. A constituição mo garante e farei uso desse direito. Essa é minha posição sobre a legislação eleitoral concernente ao tema que abordei.
Como se pode ver no gráfico acima, retirado do site do instituto Datafolha, mantendo a tendência das outras pesquisas que vêm sendo divulgadas sobre a sucessão municipal em São Paulo, a última pesquisa Datafolha mostra que a candidata Marta Suplicy continua crescendo e, segundo aquele instituto, agora vence o candidato do PSDB a prefeito da capital paulista no primeiro turno da eleição por sete pontos e já empata estatisticamente com ele na projeção de um eventual segundo turno.
Nesse contexto, vale lembrar que Geraldo Alckmin vem de recente eleição para presidente, que disputou em segundo turno com o presidente Lula – e perdeu -, e, portanto, goza de grande “recall” (lembrança) entre a população.
Diante do que ocorreu com Marta Suplicy nos últimos anos em São Paulo, e conhecendo o viés conservador do eleitorado da cidade em que vivo, é extraordináriaa ascensão da ex-prefeita na preferência do eleitorado paulistano. Ainda mais quando nos lembramos de que ela disputa com o candidato a prefeito do dito candidato “mais forte” àsucessão de Lula, José Serra, e com o mais forte candidato da oposição nacional na última eleição presidencial, o ex-governador de São Paulo Geraldo Alckmin.
Surge, assim, a interrogação sobre como e por que Marta cresce tanto na preferência do eleitorado paulistano depois de ter sido execrada, no ano passado, quando proferiu a infeliz frase “relaxe e goze”, em relação à crise nos aeroportos brasileiros desencadeada por controladores de vôo depois do acidente com o avião da Gol, no final de 2005.
Marta vem subindo nas pesquisas e já pode ser considerada até com mais chances do que Alckmin de vencer a eleição para prefeito de São Paulo, e isso porque esse crescimento vem se mostrando constante, pesquisa após pesquisa, conforme vai se aproximando o pleito municipal deste ano.
Sobre por que Marta cresce, tendo vontade de enxergar os fatos não é difícil identificar a causa. Para quem mora em São Paulo, fica muito claro que a quebra da promessa de Serra, em 2004, de permanecer até o fim de seu mandato como prefeito, caso fosse eleito, legou um administrador apagado e desequilibrado, Gilberto Kassab, do DEM, que chegou a agredir um munícipe fisicamente ao empurrá-lo para fora de um posto de saúde em 2006, e que desarticulou os programas sociais da ex-prefeita, sem falar que logrou a “façanha” de reverter os benefícios que a administração dela gerou para as camadas mais pobres da população no transporte público.
Por outro lado, o ex-governador Geraldo Alckmin vem sofrendo desgaste público por conta de envolvimento de seu nome em graves acusações de corrupção que, ainda que noticiadas pela mídia de forma velada, já começam a se tornar incontrolavelmente conhecidas, como no caso Alstom, do qual já se vê até motoristas de táxi comentando em São Paulo, sobretudo no que diz respeito ao abafamento pelo governador José Serra das investigações do escândalo na Assembléia Legislativa do Estado.
PIG bate em Crivella sem parar e ele... cresce!
Segundo o mesmo Datafolha, “Na segunda pesquisa de intenção de voto realizada pelo Datafolha este ano no Rio de Janeiro, Marcelo Crivella (PRB) aparece com 26% das intenções de voto para prefeito, abrindo vantagem sobre Jandira Feghali (PC do B), que alcança 17%.”.
É outro dado impressionante devido à execração pública que Crivella vem sofrendo por parte das imprensas paulista e carioca por conta de seu controvertido projeto “cimento social”, estopim da violência do exército contra moradores de favelas cariocas.
Daqui a pouco, vai ter tucano e demo brigando com o PIG para ver se apanha dele... e cresce.
Na última quarta-feira (3/7) à noite, num hotel de quinta em Caracas – o único em que, de última hora, consegui um quarto, pagando a “módica” diária de 100 reais –, assisti, num aparelho de tevê sem conexão com cabo de nenhuma espécie e sem antena, a um show do presidente da Colômbia, Álvaro Uribe Vellez, no qual ele utilizou a operação da “Fuerza Pública” (exército) colombiana que libertou a franco-colombiana e ex-candidata a presidente Ingrid Betancourt de uma forma clara a se promover politicamente, tudo com os beneplácitos da venezuelana Televen e da CityTV, do grupo colombiano El Tiempo.
Uribe atuou como que apresentador do que parecia um programa dominical de auditório, conforme vocês vêem no vídeo acima. E não foi para menos que montou esse show: nos dias seguintes, a prória Ingrid trataria de retroceder em suas palavras e nas de sua mãe, Yolanda Pulecio, que, em dezembro do ano passado, chamou o presidente da Colômbia, Álvaro Uribe, de "desalmado" por não negociar com as Farc a libertação de sua filha.
Agora, Ingrid defende até o terceiro mandato de Uribe, o que talvez fosse compreensível diante de ter sido libertada pela operação que ouvi dizerem, nos dias em que estive na Venezuela, que não foi “perfeita” coisa nenhuma e sim negociada entre Uribe e as Farc ao preço de 20 milhões de dólares. Seria compreensível se não fosse o fato de que Ingrid é uma política e, pelo que também ouvi na Venezuela, continua tendo projetos políticos, mesmo após o cativeiro. Se é uma postura elogiável ou oportunista, porém, só o tempo dirá.
As mídias de toda América Latina desandaram a tecer loas à operação e a repercutir uma suposta “vitória moral” de um presidente que vinha enfrentando dificuldades no Legislativo, onde cerca de 60 congressistas de partidos situacionistas são investigados por envolvimento com os “paras", milícias de extrema direita cujas atividades ilícitas incluem chacinas e narcotráfico. Aliás, três dezenas de políticos estão presos hoje na Colômbia, incluindo um primo de Uribe considerado seu “estreito colaborador”. E, mais recentemente, o presidente viu-se envolvido em denúncias de compra de votos para aprovar a emenda constitucional que permitiu sua reeleição, em 2006.
Sem estardalhaço nas tevês, como acontece quando se fala nas eventuais re-reeleições de um Lula ou um Chávez, e críticas pontuais nos jornais, tendentes a se amainar enquanto o caudilho colombiano vai tratando de semear a terra em que arrancará para si um terceiro mandato.
Enquanto isso, a Quarta Frota americana vai tratando de se instalar no cangote de Hugo Chávez, trazendo de volta para a América do Sul um poder que não tinha se feito conhecer desde a era dos golpes militares no subcontinente, nos anos 1960 / 1970. Pelo visto, o show do capo Álvaro Uribe está apenas começando.
As palavras acima são de Carlos Eduardo Lins da Silva, ombudsman da Folha, que, em sua coluna de hoje no jornal faz uma crítica que eu queria ter feito e, por falta de tempo na semana passada, não fiz.
Quero, aqui, cumprimentar o Carlos Eduardo de público por ter tocado num ponto nevrálgico da cobertura da imprensa paulista no que concerne à greve dos professores da rede pública, tratada com picardia e irresponsabilidade pela imprensa local.
A partidarizada imprensa de São Paulo atacou aqueles que reclamam das condições de trabalho numa área em que o Estado, a despeito de ser o mais rico da Federação brasileira, vem aparecendo entre os piores em termos de Educação em todo o país e em todo o mundo.
Carlos Eduardo fez uma crítica honesta, arrancada do fundo da própria indignação e contida por sua natureza conciliadora, mas que, nem por isso, perde a contundência e o poder de exigir do criticado que, se não se explicar, ao menos tome medidas para que esse tipo de jornalismo tenha fim, em nome da decência.
“Aos mestres, sem carinho
Por Carlos Eduardo Lins da Silva
A FOLHA tem tratado os professores do ensino público que ficaram em greve em São Paulo por três semanas sem nenhuma boa vontade. Posicionou-se em editorial contra a paralisação, publicou colunas agressivas contra eles e, no noticiário, tratou do assunto mais como empecilho adicional e desnecessário ao caótico trânsito da cidade do que como problema sério de políticas públicas.
Até aí, tudo relativamente bem. O jornal e seus colunistas têm pleno direito de manifestar as opiniões que julgam as mais acertadas. As páginas informativas, que nunca podem ser contaminadas pelas de opinião, não chegaram a se engajar em campanha contra os grevistas. De resto, a categoria dos professores do ensino público e seus representantes sindicais estão longe de não merecerem críticas.
A questão importante é outra. A greve é excelente oportunidade para a imprensa fazer levantamento detalhado das condições da educação, que a Folha desperdiça.
Dezenas de leitores se dirigiram ao ombudsman para reclamar da cobertura da greve. Nenhum a elogiou. Nas queixas, não identifiquei ranço ideológico ou partidário.
Há consenso nacional sobre a importância da educação para melhorar o futuro do país. Mas quando é necessário demonstrar concretamente esse compromisso, poucos dizem presente. Para um jornal ir além da retórica precisa investir em reportagens minuciosas sobre os problemas que travam a melhora da educação.
Pelo que a Folha publicou desde o início da greve, não é possível concluir se ela foi justificável ou não.
Nem questões básicas, comoo número de faltas permitidoforam resolvidas (um leitor explica quesão 32 faltas / aula, cinco ou seis dias por ano, não 32 dias, como deu a Entender o noticiário)
Não foi feita discussão profunda sobre o decreto que detonou a greve. Não se chegou nem perto de uma radiografia de dificuldades como: violência de alunos contra professores, existência de equipamento didático necessário nas escolas, incentivo para aperfeiçoamento profissional, tamanho de turmas em salas de aula, adequação de carga horária e currículo, acesso a internet, realização de excursões, qualidade de bibliotecas, laboratórios e sals de arte.
Não houve diagnóstico das condições salariais médias do professor: qual porcentagem de sua remuneração é salário e qual são bônus e gratificações, como se compara o pagamento do professor paulista com os de outros Estados e países, quantas horas semanais precisa trabalhar (em sala de aula e fora dela) para ganhar uma remuneração minimamente compatível com sua formação e a importância estratégica de sua profissão.
Pedi à Secretaria de Redação uma auto-avaliação da cobertura. Ela respondeu considerá-la "correta, mas é claro que sempre é possível melhorar". Disse ter sido este jornal que primeiro questionou o valor do reajuste anunciado pelo governo (foi de apenas 5,41%, não de 12% como apregoado). Sua resposta não me convenceu de que a Folha tenha ido bem.
Ou a educação é um tema prioritário para o jornal ou não é. Houve época, meados da década de 70, em que sem dúvida foi, apesar de muitos erros. Agora, não é mais. Deveria ser. A greve lhe dá uma chance para que seja de novo.”
Carlos Eduardo Lins da Silva é o ombudsman da Folha desde 24 de abril de 2008. O ombudsman tem mandato de um ano, renovável por mais dois. Não pode ser demitido durante o exercício da função e tem estabilidade por seis meses após deixá-la. Suas atribuições são criticar o jornal sob a perspectiva dos leitores, recebendo e verificando suas reclamações, e comentar, aos domingos, o noticiário dos meios de comunicação.