Crônica

A beleza feminina

 

 

 

Todos nós, em algum momento de nossas vidas, seremos atacados pelo inevitável cansaço de viver, pelo peso dos anos, pelas desilusões, por sentimentos daninhos que acabam nos tomando um a um, ainda que, em boa parte das vezes, por pouco tempo.

 

Com o fluir dos anos, porém, a desilusão que esmaga ressurge a períodos cada vez mais curtos na maioria dos seres humanos. Até com razão, num mundo em que nós e nossos semelhantes teimamos em empanar o brilho do ato de viver - uns mais, outros menos e pouquíssimos de nós, nada. Buscar o lado belo e estimulante da vida, pois, é a atitude para enfrentar esse mal democrático, sem classe social ou idade.

 

Em vez de ver quanta maldade há por aí, descobrir a bondade que consegue subsistir numa época e num mundo em que cada vez mais de nós têm que dividir os mesmíssimos recursos naturais do planeta que havia disponíveis aos nossos ancestrais. Ou até menos, em termos de oportunidades na vida.

 

Em vez de nos deprimir com o extermínio lento e infatigável do planeta por aqueles que dele dependem, maravilharmo-nos com a obra da Criação, com as belezas que a natureza nos pôs para deleite dos olhos e da alma.

 

Um pôr do sol, um dia frio de chuva, a exuberância verdejante de um bosque... Clichês? Não, esses são ícones das maravilhas da Natureza que só se tornaram clichês para os poetas e literatos em geral por terem sido criados um dia, inspirados no fato único e insofismável de existirem.

 

Das belezas que a Natureza criou, não é só no Reino Vegetal que as podemos encontrar. No Reino Animal, a beleza entre as belezas foi bafejada nas fêmeas humanas. As mulheres são a obra prima entre os seres vivos. Os seres mais belos, dotados de um poder de encantar como não tem nenhum outro ser além dos anjos.

 

A beleza lânguida dessa morena jovem do vídeo acima não se encerra em si mesma, é simbolismo da beleza feminina, que, de uma forma ou de outra, caracteriza a toda e qualquer mulher, das infantes às anciãs, das que dizem lindas ou até daquelas que não correspondem ao padrão de beleza vigente, e até na mulher completamente despida de atributos físicos, pois então a beleza se esconde no coração feminino, terno, piedoso, maternal da humanidade.

 



 Escrito por Eduardo Guimarães às 22h56
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Política internacional

  A “Veja” colombiana

 

 

 

 

 

Como se não bastasse uma revista Veja nesta galáxia, ontem acabamos descobrindo que a mercenária publicação brasileira tem uma sucursal na Uribelândia, o “paraíso” andino pintado pela mídia tupiniquim, onde, sob o presidente direitista Álvaro Uribe – e segundo vive afirmando o PIG –, abunda segurança nas ruas – que piada! - e vigem “soluções” como a aberração que é o “metrô” sobre rodas bogotano, uma trapaça enorme que vi in loco no ano passado e que posso atestar que não resolve em nada o tráfego caótico da capital colombiana.

 

A tal publicação, como muitos já devem ter intuído, é a revista colombiana “Cambio”, de propriedade do irmão do ministro da Defesa da Colômbia, Juan Manuel Santos, que, como Uribe, é um dos principais críticos da "utilidade" do Conselho Sul-Americano de Defesa, proposta encampada pelo ministro da Defesa brasileiro, Nelson Jobim, e que se dispõe a formular uma estratégia conjunta de defesa na região.

 

A revista, em sua última edição, publicou reportagem em que faz acusações a expoentes do governo Lula de envolvimento com as Farc, ainda que o material seja requentado por ter sido divulgado faz tempo pela Folha de São Paulo e de o material não conter nada mais do que suposições jamais confirmadas, até porque não se encontrou absolutamente nenhuma prova de que o governo brasileiro tenha tido qualquer tipo de contato com a guerrilha colombiana.

 

Traduzi alguns trechos da reportagem da “Cambio” para vocês (abaixo). Leiam que depois comento um pouco mais.

 

 

O computador de Raúl Reyes revela que os vínculos das

Farc com altos funcionários do governo do Brasil, entre

eles cinco ministros, chegaram a níveis escandalosos.

 

O dossiê brasileiro

 

 

Ao entardecer do sábado 19 de julho, na fazenda Hatogrande, a casa presidencial ao norte de Bogotá, o presidente Álvaro Uribe, sorridente e despachado como poucas vezes, não teve dúvidas em oferecer ao seu homólogo brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, um copo de aguardente para mitigar o frio que calava os ossos.

 

A agenda de Lula e Uribe para discussão de acordos bilaterais foi temperada com elogios mútuos e públicos. O presidente Uribe agradeceu ao seu homólogo brasileiro e ao seu governo seis anos de relações “dinâmicas e de confiança”. Sem embargo, em uma reunião privada que tiveram diante de muito poucas testemunhas, Uribe fez a Lula um breve resumo sobre uma série de arquivos que as autoridades colombianas encontraram nos computadores de “Raúl Reyes” que comprometia a cidadãos e funcionários do governo brasileiro com as Farc.

 

Ao contrário do que aconteceu com as informaçõs relacionadas a servidores públicos do governo do equatoriano Rafael Correa e membros desse governo, que o governo colombiano tornou pública, no caso do Brasil as instruções do presidente Uribe foram de não divulgar informações e manejá-las politicamente para não deteriorar as relações comeciais e de cooperação com o governo Lula.

 

O governo Colombiano usou de forma seletiva os arquivos do PC de “Raúl Reyes”. Enquanto com o Equador e a Venezuela os arquivos foram utilizados para pôr em contradição os presidentes Chávez e Correa, hostis a Uribe, com o Brasil o material foi utilizado por baixo da mesa para não comprometer Lula da Silva, quem se mostrou mais hábil e menos hostil à Colômbia que seus colegas venezuelano e equatoriano.

 

Ainda assim, alguns meios de comunicação brasileiros teriam informação parcial sobre uns poucos arquivos e por isso no dia 27 de julho consultaram o ministro da Defesa, Juan Manuel Santos, quem, em uma entrevista ao jornal brasileiro “O Estado de São Paulo”, confirmou que o governo colombiano havia informado a Lula sobre o assunto. “Há uma série de informações de conexões que entregamos ao governo brasileiro para que possa atuar como ache mais apropriado”, disse Santos, porém se abstendo de comentar se havia ou não políticos e funcionários oficiais envolvidos com o grupo hoje encabeçado por “Alfonso Cano” [nota do editor: suposto novo líder das Farc] (...).

 

O resto vocês já sabem, um monte de suposições extraídas do conteúdo do suposto computador do guerrilheiro Raúl Reyes, um dos líderes das Farc morto durante a recente invasão do território equatoriano por tropas de Álvaro Uribe.

 

Quis reproduzir este trecho inicial da matéria para mostrar a vocês a similaridade de estilos entre a Veja e a tal “Cambio”. Aqui no Brasil temos o PIG (Partido da Imprensa Golpista) e lá na Colômbia eles têm o PPG (Partido de la Prensa del Gobierno).

 

Sinceramente? Prefiro o PIG. Imprensa (um poder enorme) e Estado mancomunados é o pior quadro que pode haver para um país. Como vocês vêem, somos até felizes e não sabemos.

 

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 Escrito por Eduardo Guimarães às 13h40
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Análise - debates eleitorais

Debate sobre os debates

 

 

 

 

 

 

E daí, pessoal, como foram, em vossas cidades, os debates entre os candidatos a prefeito que a tevê Bandeirantes exibiu ontem? Ah, você não mora numa das capitais em que houve debate... Bem, você não perdeu muita coisa, ao menos se os outros debates tiverem sido como o de São Paulo.

 

Tudo muito previsível. Geraldo Alckmin e Gilberto Kassab tentaram ressuscitar a questão das taxas irrisórias que Marta Suplicy criou quando foi prefeita, e ela os questionou por aspectos das administrações deles que julgou mais passíveis de críticas. Maluf, como sempre, um cara-de-pau. Soninha bolou um showzinho indo para o debate de bicicleta para ser registrada a imagem de sua chegada pela imprensa e acabou fazendo o caminho errado e não conseguiu dar o golpe publicitário. Ivan Valente, do PSOL, é que fez a imprensa tucana toda estremecer ao perguntar a Alckmin sobre o caso Alstom.

 

Mas não quero me restringir a um debate sobre o qual você poderá obter informações nos jornais, sempre tendo cuidado de confrontar várias versões porque a mídia filtra os fatos e tenta produzir alguma vantagem para Alckmin, no caso de São Paulo. Vantagem, aliás, que não existiu.

 

Este comentário pretende priorizar os formatos dos debates e não o que aconteceu neles. Falo (escrevo) como eleitor, não como comentarista político.

 

Esses debates entre candidatos a cargos eletivos servem muito menos para informar o eleitor sobre o que lhe interessa - ou seja, sobre o que seu candidato fará se vencer a eleição – do que para produzir um show de luta-livre retórica, em que o candidato mais cara-de-pau e de sangue mais frio é o que tem mais condições de “vencer”.

 

Nesse aspecto, o que vimos ontem em São Paulo foi os candidatos Kassab, Alckmin e Maluf negarem o inegável e os protestos dos outros candidatos diante das mentiras dos candidatos de direita ficarem, para o público, como retórica entre debatedores.

 

Kassab, por exemplo, afirmou que foi “absolvido” da ação que responde na Justiça por improbidade administrativa quando foi secretário de Celso Pitta. Alckmin negou que esteja implicado no caso Alstom pela Justiça suíça. Maluf negou ser um candidato que, em vez de currículo, tem ficha corrida, de tantos processos a que responde.

 

Para a emissora que transmitiu o debate, tudo foi lucro. Ver os candidatos se engalfinhando e um irritando o outro e mentindo desbragadamente torna-se, para alguns, um espetáculo divertido. Muito divertido se o que estivesse em jogo não fossem os destinos das nossas cidades e, portanto, a qualidade de vida de cada um de nós.

 

A conclusão a que chegaria alguém que não conhecesse a política paulista e assistisse o debate de ontem seria a de que não há em quem votar, pois todos sofreram acusações pesadas, algumas menos pesadas mas absolutamente injustas, como a que sofreu Marta, acusada de entregar a prefeitura “falida” ao fim de seu mandato,  apesar de que ela já provou na Justiça que deixou recursos e que José Serra, quando assumiu o posto de prefeito de São Paulo, postergou pagamentos para fortalecer sua retórica de que a antecessora teria “quebrado” a cidade. 

 

Como fica a palavra de um contra a do outro, as pessoas acabam decidindo quem diz a verdade através de suas preferências político-ideológicas e da simpatia que sintam por este ou por aquele candidato.

 

Um debate sério teria um corpo técnico a postos  para desmentir mentiras escandalosas dos debatedores como a dita por Kassab, de que teria sido “absolvido” no processo a que responde e que fez com que fosse incluído na tal “lista suja” da AMB, ou a de Alckmin, que negou estar sendo investigado pela Justiça suíça junto com vários outros tucanos vivos e mortos.

 

Agora, falando como cidadão que tem preferências políticas, acho que Marta é a candidata que, numa campanha limpa, é a que se dará melhor. Contra ela não pesam acusações do nível das que pesam sobre um Alckmin ou um Maluf e, ao contrário de Kassab, rejeitado pela grande maioria dos paulistas, deixou a prefeitura com altíssima aprovação em 2004. Soninha e Ivan Valente são aqueles candidatos “folclóricos”, os franco-atiradores. No caso da ex-vereadora do PT, ela não passa de uma franco-atiradora a serviço de tucanos e pefelistas e sua candidatura vem se mostrando um fiasco, pois não está conseguindo tirar votos de Marta.

 

Eu pretendia falar mais sobre a elaboração de um sistema de debates que desmascarasse mentiras e obrigasse os candidatos a explicitarem melhor seus projetos e a defendê-los de críticas, pois debates pré-eleitorais vivem sempre circunscritos a ataques de uns a outros, o que, para todos os candidatos, acaba sendo bom, sobretudo para os que têm maiores chances de vitória, pois podem se comprometer menos com promessas. Contudo, não consegui evitar de dar um mergulho na política de minha cidade. Porém, acho que consegui dar meu recado, não?

 

 

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 Escrito por Eduardo Guimarães às 10h18
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Audiência na internet

A “matéria escura”

da internet

 

 

 

 

 

 

Ontem, o Luiz Carlos Azenha divulgou em seu site o expressivo aumento de “audiência” naquele espaço durante o mês de julho. A reflexão dele provocou-me outra. Fiquei meditando, na noite passada, sobre um dos maiores mistérios que a internet gerou, o mistério da audiência das milhares e milhares de páginas da web.

 

Já tratei deste assunto aqui, mas, neste movimentado mês de julho, em que a audiência cresceu tanto também neste blog, quero meditar de novo sobre o assunto.

 

Tratei dele com vários blogueiros, alguns de renome, e um fenômeno que acontece aqui neste blog parece ser padrão nas páginas da web em que seus autores interagem com o público: a quase totalidade dos que lêem essas páginas interativas simplesmente não interage com quem as produz.

 

Nos blogs, o fenômeno se faz notar bem mais, pois a característica principal desse tipo de página da web é a interatividade entre leitor e blogueiro. Em blogs como o Cidadania ou como o do Luis Nassif, em que se formaram comunidades a partir das discussões ali travadas, ainda se vê maior número de manifestações de leitores. Mas o mais comum ainda é que os blogs apresentem uma fração mínima de comentários diante da maioria silenciosa que não se manifesta.

 

Aqui neste blog temos pessoas que o lêem desde o começo, há quase três anos. E não vou nominá-las, porque são em bom número e citar uma sem citar a outra - ou as outras – seria injusto, pois todas vêm aqui contribuir com informações pertinentes, endereços de notícias, observações instigantes e, freqüentemente, questionadoras do autor da página.

 

O mistério se aprofunda, porém, quando se analisa os números. Os blogs e sites mais conhecidos têm milhares – eu disse milhares! – de leitores. Fico imaginando como seria se todos eles decidissem fazer algum comentário. Seria praticamente impossível que uma, duas ou até três pessoas moderassem esses comentários com a velocidade com que são moderados hoje. Haveria que montar como que um “call center” de comentários.

 

Se você, leitor, se dedicar a pesquisar os arquivos deste blog – inclusive no passado recente –, verá que o máximo de comentários num só post que já foi conseguido aqui foi de menos de 400, e, desse número, há que deduzir pelo menos uns 30%, porque alguns comentaristas se manifestam mais de uma vez no mesmo post.

 

Apesar de cerca de três centenas de pessoas comentarem num blog ser significativo, esse número ainda é infinitezimal diante da audiência mais baixa que tem qualquer blog desses mais conhecidos. Na pior das hipóteses, qualquer um deles deve ter três ou quatro vezes mais leitores do que isso. Em alguns casos, chega-se a ter dez, quinze vezes mais.

 

O Cidadania, por exemplo, tem um número um tanto volátil de leitores. Em momentos como os de convocações de manifestações, como esta última contra o presidente do STF, Gilmar Mendes, ou como na manifestação diante da Folha de São Paulo, no ano passado, ou de grandes catarses políticas, sobretudo quando há campanhas da mídia contra o governo Lula, cheguei a registrar cerca de cinco mil acessos de diferentes pessoas num só dia.

 

Quando a temperatura política baixa, como neste momento, as pessoas perdem o ímpeto de comentar, de se manifestarem. Mas o número de leitores que se abstêm de comentar ainda continua sendo centenas de vezes maior do que o dos que efetivamente deixam alguma impressão sobre o que leram.

 

Gosto de fazer uma comparação entre esse público dos blogs políticos e/ou noticiosos – que, hoje, deve ser um dos públicos que mais comenta, creio eu – e a maioria silenciosa que vota nas eleições. Nunca se sabe exatamente o que vai na cabeça dessas pessoas.

 

Muitas vezes, um bom número de comentários faz pensar que o público concorda, discorda ou está dividido nesta ou naquela questão, mas o fato é que a amostragem dos que comentam diante do todo que lê não é precisa, pois o leitor que se manifesta difere daquele que, por razões variadas, não quer ou não tem vontade de “aparecer” numa discussão, apesar de ler aquele blog diariamente e, por isso, de ter interesse no que ali é publicado.

 

Eu já tinha feito antes uma comparação entre o leitor silencioso e a matéria escura e invisível que os astrônomos e astrofísicos dizem que constitui cerca de 95% do universo. Como o público dos blogs, a matéria visível do universo representa apenas uma fração dele. Os estudiosos do Cosmo só conseguem ver a sombra dessa matéria escura, como os blogueiros só vêem os números dos contadores de acessos de suas páginas.

 

Se eu tivesse meios, ofereceria um prêmio a cada leitor que se identificasse e dissesse o que pensa. Imagino que faria descobertas surpreendentes sobre como a maioria vê este ou aquele assunto. Por isso, estou trabalhando para pôr aqui o recurso de votação, para que vocês possam opinar sobre algum assunto com um simples clique, sem terem que se identificar.

 

As novas tecnologias, tanto na astronomia quanto na sociologia (ciência adequada ao estudo dessas peculiaridades comportamentais das massas), já permitem maiores informações sobre essas “matérias invisíveis” do espaço sideral ou da internet. Na rede, pode-se, por exemplo, detectar de onde vêm os leitores - de que cidades, estados e países –, os números dos IPs de suas máquinas e até o navegador que usam, mas, como na astronomia, não se consegue “ver” o que essas pessoas pensam, o que fazem etc.

 

Aos poucos, no entanto, vou “conhecendo” os leitores. Vocês já devem ter visto muitos comentaristas dizendo aqui que nunca tinham se manifestado, mas que naquele momento decidiram fazer sua primeira manifestação por isto ou por aquilo. Porém, nesse ritmo em que estou conhecendo os silenciosos, morrerei de velhice antes de saber quem são todos.

 

Outro fato instigante diz respeito ao que desencadeia o ímpeto do indivíduo de se manifestar. Noto um movimento meio que de manada nesse ímpeto. Em alguns momentos, um bom número de comentaristas parece mais disposto a se manifestar – ou não. Minha suposição é a de que, depois de alguns períodos em que as pessoas comentam muito, sentem um certo cansaço ou saturação.

 

Também intuo que o sentimento de impotência é o que mais provoca a verve comentadora das pessoas. Vejam esse caso do Gilmar Mendes, em que a sociedade sentiu-se como que de mãos amarradas diante de um desavergonhado e suspeitíssimo favorecimento de um ricaço pela “Lei”. Essas pessoas precisaram de algum espaço para extravasar tal sentimento e o encontraram aqui e em outros blogs que encarnaram esse sentimento, o que gerou milhares de comentários na blogosfera durante o mês de julho.

 

Daí bate como que uma ressaca. Muitas vezes, há um sentimento de frustração, pois aquele ato inaudito de finalmente o “silencioso” romper o próprio “silêncio” acaba parecendo que não deu em nada. É um erro. O número de manifestações de cidadãos em apoio ou repúdio a isto ou àquilo tem um peso político muito maior do que se pensa, sobretudo na internet, que começa a ser levada a sério até pelos grandes meios de comunicação de massas.

 

Gosto de pensar que a sociedade tem seu tempo, as pessoas têm seu tempo, e que o estado de espírito volátil da maioria e a tendência majoritária ao “silêncio” irão diminuir com o passar do tempo, quando ficar claro que num regime democrático a todos é facultado o direito de expressão, e que os “riscos” de se expor, no mais das vezes, são meramente imaginários.

 

 

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 Escrito por Eduardo Guimarães às 11h30
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Ameaça americana

tem até número

 

 

 

 

 

A recriação da Quarta Frota americana suscitou muitos debates e protestos, sobretudo dos países da América do Sul e do Caribe.

 

No começo de julho, o presidente Lula pediu explicações públicas ao governo George Bush sobre por que recriar uma força militar desativada desde 1950 e cujo objetivo de sua criação fora patrulhar o Atlântico Sul durante a Segunda Guerra Mundial. Lula está esperando até agora uma explicação convincente.

 

Aos protestos do governo Lula uniram-se praticamente todos os governos sul-americanos, com a exceção de relevo do governo da Colômbia, presidido por um títere dos americanos.

 

A explicação dos EUA foi lacônica, insuficiente e inverossímil. Segundo o governo Bush, o objetivo da recriação da Quarta Frota foi o de “colaborar com o combate ao narcotráfico e promover interações militares e treinamento bilateral e multinacional”.

 

Ou seja: Bush não explicou nada. Até porque, a pergunta é meio idiota. O que é que porta-avião, aviões de caça e bombardeio, misseis, tropas têm a fazer numa região em que não há emprego desse tipo de armamento? Esses não são armamentos e recursos para combater o crime e ninguém pediu aos EUA para ser “treinado”. Uma força como a da Quarta Frota só serve para guerra entre países.

 

Os EUA não estão em guerra com ninguém na América do Sul ou no Caribe, mas têm desavenças múltiplas com vários governos dessas regiões.

 

Por coincidência, em cerca de dez dias embarco em uma nova viagem de negócios. Vou para o Equador, país no qual acaba de ser aprovada uma nova Constituição considerada “lesiva” aos interesses transnacionais, sobretudo dos EUA. E o presidente do Equador também acaba de pôr os EUA para correr da base que a superpotência mantinha no litoral equatoriano, em Manta. Essa era a única base que os americanos tinham na América do Sul.

 

Mas não é só o equatoriano Rafael Correa que incomoda os americanos aqui na América do Sul. Não preciso falar que ao menos dois outros governantes sul-americanos provocam tanto ou mais o fígado de George Bush. Hugo Chávez, Evo Morales e Rafael Correa, no entanto, não são os únicos que desagradam aos americanos nesta parte do mundo.

 

A retórica rebelde sul-americana arrefece – mas persiste – no Brasil, no Chile, no Peru e no Uruguai, e morre na Colômbia. Mas aumenta de tom na Argentina, na Bolívia, no Equador, no Paraguai e, sobretudo, na Venezuela. Você diria que a América do Sul não vem sendo exatamente “colaborativa” com os interesses americanos de uns tempos para cá?

 

É claro que a Quarta Frota representa uma clara intimidação a todos os países supramencionados. Esses países fazem jogo de cena pedindo explicações ou até se armando, como vem fazendo a Venezuela, acusada de ter intenções “expansionistas” por estar dizendo, faz tempo, que precisa se armar contra uma eventual invasão dos EUA. E, de fato, o armamento comprado por Chávez, segundo especialistas, é totalmente voltado para a defesa interna.

 

Já vimos esse filme. Saddam Hussein tinha forças armadas bilionárias. Seu país vinha de décadas de reforço de seu parque bélico e de treinamento de tropas, até por ter enfrentado guerras dificílimas como a do Golfo ou com o Irã. As forças iraquianas foram dizimadas em semanas pelo poderio bélico americano. Com os EUA, pelo menos em termos de guerra, hoje em dia ninguém pode.

 

E lembremo-nos de que eles já deram uma banana para a ONU quando invadiram o Iraque e não hesitarão em dar outra banana se cismarem de invadir países que bóiam no petróleo que a potência hegemônica não têm, como uma Bolívia, um Equador ou uma Venezuela. Não há, pois, qualquer freio da comunidade das nações que poderá impedir o uso da força militar enviada às nossas portas.

 

Se será usada? Provavelmente não. O poder de dissuadir é exatamente o de não usar o elemento que gera esse poder. A Quarta Frota serve para mostrar aos países rebelados que há um limite para essa rebelião. No caso de uma Venezuela, por exemplo, tal limite seria a interrupção das exportações de petróleo para os EUA (?).

 

Pode-se entoar todo o choro e ranger de dentes que se queira, pois a realidade é uma só: os EUA têm um limite para o dissenso que podem aceitar dos países de seu quintal sul-americano e meios de transformar essa não aceitação em ações efetivas para coibir e até para exterminar o que os desagrada. E, enquanto um tarado como George Bush estiver no poder, os EUA têm também disposição total para usar esses “meios”.

 

Na viagem que farei ao Equador em alguns dias, certamente que terei informações mais claras do que se tem aqui sobre a ameaça americana. Nesses países que estão vivendo processos revolucionários é tamanha a quantidade de informações importantes que aqui no Brasil escasseiam que elas praticamente pulam sobre você nas ruas. Quem estiver por aqui, até lá, vai saber tudinho.

 

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 Escrito por Eduardo Guimarães às 18h46
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Direitos do consumidor

Disciplinar os call centers

 

 

 

 

Interromperei um pouco mais o popular fla-flu entre petistas e tucanos com assunto análogo à crônica sobre gerundismo do post anterior, que alude aos (mal)ditos “call centers”, ou seja, à crueldade compulsória a que se dedicam os atendentes de telemarketing, que, justa ou injustamente, tornaram-se os odiosos portadores de mais uma dessas pragas correlatas à praga do vício idiomático a que aludi.

 

É que o presidente Lula irá sancionar amanhã um decreto que obrigará empresas de vários setores que dispõem de SACs (Serviços de Atendimento ao Consumidor) telefônicos a oferecerem aos clientes duas opções que hoje ficam escondidas no menu de opções que você escuta quando liga para uma empresa de telefonia ou de cartão de crédito, por exemplo: cancelamento do serviço e atendimento por um representante de carne e ossos daquela empresa.

 

Além disso, o tempo máximo de espera para o consumidor ser atendido ficará limitado a 2 minutos, e os serviços de uso continuado, como cartão de crédito ou internet, terão que atender o consumidor nas 24 horas do dia.

 

As empresas atingidas pela medida da União estão fazendo lobbye e dando desculpas absurdas para não terem que prestar atendimento respeitoso aos seus clientes e para que possam continuar inclusive cometendo práticas ilegais como a de dificultarem ou até impedirem consumidores de, por exemplo, cancelarem um serviço de telefonia, de tevê à cabo ou um cartão de crédito, fazendo-os arcar com pagamentos por muito tempo depois de terem decidido abrir mão daquele serviço.

 

A argumentação contra a medida do governo federal apresentada pela associação de classe das empresas atingidas (a ABT – Associação Brasileira de Telesserviços) diz que as medidas seriam “inviáveis economicamente”, que a lei não irá “pegar”, pois seria necessário criar “gigantescos” centros de atendimento, como se não fosse necessário ter um centro de atendimento gigantesco para atender uma clientela gigantesca como são as que usam serviços como tevê a cabo etc.

 

E, é claro, essas empresas já sinalizam com “repasse de custos” ao consumidor, numa clara chantagem contra os que usam seus serviços, uma tentativa de induzi-los a se conformarem com a precariedade dos serviços de atendimento ao consumidor hoje existentes para não terem que pagar mais caro pelos serviços.

 

A argumentação é falaciosa desde que o capitalismo e as tão incensadas “leis do mercado” funcionem, ou seja, as leis da oferta e da procura e da livre concorrência, que, claro, só podem prevalecer quando há concorrência. Vale lembrar que no setor de telefonia, por exemplo, a tão exaltada privatização não ofereceu a muitos um leque de opções adequado, que inibisse abusos como os que a Telefônica pratica em São Paulo, onde há pouco tempo quase toda a cidade ficou sem internet devido ao alto grau de dependência daquela empresa.

 

Mas as empresas mais competentes e de propósitos mais honestos saberão distinguir o nicho de mercado em que consumidores exigirão melhores serviços e relacionamento mais sadio com os provedores desses serviços e estes terminarão por oferecer o que o mercado quer, inclusive no quesito preço.

 

A preocupação do governo federal com essa medida vai ao encontro a antiga demanda de um expressivo contingente da sociedade que se vê explorado e desrespeitado pelas gigantes da telefonia ou do mercado financeiro, entre outros, desde sempre. Mas, como de costume, para uma medida que beneficia a todos dar resultado será preciso que os cidadãos se engajem de forma a apoiar quem quer ajudá-los.

 

A notícia que ora comento está em vários jornais de todo o país. Se muitos enviarem cartas a esses jornais em apoio à medida, se enviarem cartas inclusive às próprias prestadoras de serviço, ao Congresso etc, ajudaremos a fazer “pegar” uma lei que nos beneficiará a todos, sabedores que somos do circo de horrores que são os serviços telefônicos de atendimento ao consumidor. Quem não der bola, certamente irá se lembrar deste texto na próxima vez em que precisar ligar para um “call center” qualquer.

 

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 Escrito por Eduardo Guimarães às 11h30
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Crônica

Para você estar passando

adiante

 

 

 

 

 

 

Faz tempo que venho querendo postar esta crônica preciosa do publicitário Ricardo Freire que encontrei numa coletânea do melhor da crônica nacional do século XX, leitura que me socorreu do tédio numa das viagens que fiz neste ano.

 

Esta crônica é uma súplica por misericórdia a alguém, a qualquer um que tenha piedade do Idioma, vítima do vandalismo do famigerado “telemarketing”, por sua vez vítima de algum engraçadinho que, de acordo com as lendas, resolveu traduzir como o próprio nariz algum manual para call centers.

 

“Para você estar passando adiante” é para você fazer o que o título da crônica propõe: passe adiante este texto, a fim de ajudar as vítimas do “gerundismo”, talvez a maior praga lingüística da história da humanidade. Sobretudo porque tantos parecem achá-la o máximo.

 

Boa leitura.

 

Este artigo foi feito especialmente para que você possa estar recortando e possa estar deixando discretamente sobre a mesa de alguém que não consiga estar falando sem estar espalhando essa praga terrível da comunicação moderna, o futuro do gerúndio.

 

Você pode também estar passando por fax, estar mandando pelo correio ou estar enviando pela internet. O importante é estar garantindo que a pessoa em questão vá estar recebendo esta mensagem, de modo que ela possa estar lendo, quem sabe consiga até mesmo estar se dando conta da maneira como tudo o que ela costuma estar falando deve estar soando nos ouvidos de quem precisa estar escutando.

 

Sinta-se livre para estar fazendo tantas cópias quantas você vá estar achando necessárias, de modo a estar atingindo o maior número de pessoas infectadas por essa epidemia de transmissão oral.

 

Mais do que estar repreendendo ou estar caçoando, o objetivo deste movimento é estar fazendo com que esteja caindo a ficha nas pessoas que costumam estar falando desse jeito sem estar percebendo.

 

Nós temos que estar nos unindo para estar mostrando a nossos interlocutores que, sim!, pode estar existindo uma maneira de estar aprendendo a estar parando de estar falando desse jeito.

 

Até porque, caso contrário, todos nós vamos estar sendo obrigados a estar emigrando para algum lugar onde não vão estar nos obrigando a estar ouvindo frases assim o dia inteirinho.

 

Sinceramente: nossa paciência está estando a ponto de estar estourando. O próximo “Eu vou estar transferindo a sua ligação” que eu vá estar ouvindo pode estar provocando alguma reação violenta da minha parte. Eu não vou estar me responsabilizando pelos meus atos.

 

As pessoas precisam estar entendendo a maneira como esse vício maldito conseguiu estar entrando na linguagem do dia-a-dia.

 

Tudo começou a estar acontecendo quando alguém precisou estar traduzindo manuais de atendimento por telemarketing. Daí a estar pensando que ‘We’ll be sending it tomorrou’ possa estar tendo o mesmo significado que ‘Nós vamos estar mandando isso amanhã’ acabou por estar sendo só um passo.

 

Pouco a pouco a coisa deixou de estar acontecendo apenas no âmbito dos atendentes de telemarketing para estar ganhando os escritórios. Todo o mundo passou a estar marcando reuniões, a estar considerando pedidos e a estar retornando ligações.

 

A gravidade da situação só começou a estar se evidenciando quando o diálogo mais coloquial demonstrou estar sendo invadido inapelavelmente pelo futuro do gerúndio. A primeira pessoa que inventou de estar falando ‘Eu vou tá pensando no seu caso’ sem querer acabou por estar escancarando uma porta para essa infelicidade lingüística estar se instalando nas ruas e estar entrando em nossas vidas.

 

Você certamente já deve ter estado estando a estar ouvindo coisas como ‘O que cê vai tá fazendo domingo?’ ou ‘Quando que cê vai tá viajando pra praia?’ ou ‘Me espera, que eu vou tá te ligando assim que eu chegar em casa’.

 

Deus. O que a gente pode tá fazendo pra que as pessoas tejam entendendo o que esse negócio pode tá provocando no cérebro das novas gerações?

 

A única solução vai estar sendo submeter o futuro do gerúndio à mesma campanha de desmoralização à qual precisaram estar sendo expostos seus coleguinhas contagiosos, como o ‘a nível de’, o ‘enquanto’, o ‘pra se ter uma idéia’ e outros menos votados.

 

A nível de linguagem, enquanto pessoa, o que você acha de tá insistindo em tá falando desse jeito?”.

 

Nota: o gerúndio flexiona o verbo no momento em que a ação está acontecendo ou quando ela já aconteceu. Não se pode dizer que alguém irá “estar fazendo” alguma coisa porque o verbo está no gerúndio e, assim, refere-se a ação presente ou passada, nunca a uma ação futura, que não aconteceu ainda e que pode nem vir a acontecer.

 

Você deve saber disso, pois é leitor voraz. Haja vista em sua diligência em ler este blog. Mas muitos ao seu redor não devem saber. Ajude-os. Passe está crônica adiante.

 

 



 Escrito por Eduardo Guimarães às 23h52
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Análise - eleições em São Paulo

“Paulistocentrismo”

 

 

 

O neologismo acima não é meu e sim do leitor e psicólogo baiano Lucas Jerzy Portela, que, em comentário aqui, criou um adjetivo, “paulistocêntrico”, que transformei em substantivo.

 

Segundo Jerzy Portela, “O PSDB não é sempre neoliberal: o PSDB baiano e parte do mineiro não são. O candidato eleito ao governo da Bahia pelo PSDB chama-se Jacques Wagner e pertence ao partido de número 13. Aqui, o PSDB quer que o PFL se exploda! É anticarlismo intestinal, pancreático. Em 1998, Jutahyzinho, candidato pelo PSDB (com apoio do PT) ao governo, desapoiou abertamente FHC (por causa da proximidade desse com ACM) para apoiar Lula. Cuidado com suas generalizações paulistocêntricas, Eduardo”.

 

Bem, o candidato eleito governador da Bahia não é do PSDB, é do PT, ainda que tenha sido eleito com o apoio do PSDB baiano. Mas vamos em frente.

 

O fato é que o Jerzy tem toda razão: é preciso tomar cuidado com o “paulistocentrismo”. O que seja: nacionalizar a realidade paulista. E não é só na política.

 

Dito isto, apesar da antipatia justificável e justificada que São Paulo despertou no resto do país no decorrer da história, temos que recorrer ao papel desse Estado que deixou de ser paulista para se transformar, por exemplo, no maior Estado nordestino do país, tendo, em alguns casos, mais nordestinos do que em certos Estados do Nordeste.

 

O problema é que esses imigrantes baianos, cearenses, pernambucanos, mineiros, gaúchos, paranaenses, sejam de onde forem, nem todos foram aceitos da mesma forma na sociedade paulista secular, que continua mandando no Estado apesar de ter se reduzido a uma fração dos habitantes de São Paulo por conta de décadas e décadas de imigração incessante e crescente.

 

Não dá, porém, para evitar de aceitar o protagonismo paulista no exercício da governança do Brasil já faz quase duas décadas. Depois dos governos da redemocratização maranhense, alagoano e mineiro, que duraram breves períodos, São Paulo eternizou-se no poder através de lideranças nascidas em outros Estados (FHC e Lula), mas que surgiram e se consolidaram em São Paulo, de onde os conchavos do poder passaram a ser feitos.

 

A mera eleição municipal da capital paulista hoje representa quase que uma prévia de 2010, pois os interesses do candidato mais forte à sucessão de Lula na oposição (José Serra) estão intimamente ligados ao resultado do pleito municipal no maior colégio eleitoral municipal do país, São Paulo.

 

O atual governador paulista elegeu-se prefeito de São Paulo em 2004 e um ano e pouco depois de ter sido eleito sob promessa que fez de permanecer no cargo até o último dia do mandato, abandonou a prefeitura da maior capital do país para disputar o mandato de governador do Estado.

 

O governo Kassab estava nos seus primeiros meses quando Serra elegeu-se governador do Estado. Por conta disso, os paulistas deram um voto de confiança ao tucano, mas ao menos os paulistanos se arrependeram.

 

O atual prefeito fez uma administração medíocre, teleguiada por Serra, e desencadeou um processo de loteamento dos cargos públicos e o ressurgimento de escândalos como os que marcaram o fim do governo Pitta, o de fiscais do comércio ambulante, tendo se rearticulado uma Máfia extinta durante o governo Marta Suplicy, a prefeita que deixou o cargo com mais de 50% de aprovação apesar de não ter sido reeleita no ano em que se articulava a enorme crise política que assolou o PT.

 

Os transportes públicos, a Educação, os programas sociais, tudo isso estagnou-se sob Kassab, que se tornou uma espécie de braço de Serra, tornando São Paulo uma segunda obrigação de seu verdadeiro governante, o governador do Estado.

 

O resultado não poderia ser outro além do de a capital paulista estar hoje num dos piores momentos das últimas décadas. Além disso, a política de Segurança Pública de Serra é trágica. A mídia alardeia “bons resultados”, mas o fato é que na era tucana a violência e a criminalidade explodiram no Estado da Federação que mais recursos tem para combater esses problemas.

 

O PCC, os crimes violentos contra a pessoa, as rebeliões em presídios, tudo hoje é várias vezes pior do que era até 1994. E se há algum movimento de “melhora” em algum quesito da Segurança, é puramente irrelevante diante da magnitude do problema.

 

A baixíssima intenção de voto em Kassab (11%) revela a insatisfação dos paulistanos com a administração da cidade e representa um revés para Serra, que, se não fizer aquele que escolheu para sucedê-lo na prefeitura mostrar-se satisfatório para os eleitores que confiaram em sua escolha, ou seja, os eleitores paulistanos, terá contra si, em 2010, a pecha de ter sido reprovado pelo eleitorado de sua cidade natal, na qual vive.

 

Mesmo se Alckmin se eleger prefeito (do que tenho sérias dúvidas), assim mesmo, apesar de ser do partido de Serra, os paulistanos terão reprovado o substituto que o governador deixou em seu lugar na prefeitura. Não foi por outra razão que Serra, até aqui, vinha apoiando Kassab contra Alckmin, apesar de ter abandonado o barco do prefeito, que já faz água por todos os lados.

 

A questão do “paulistocentrismo” é válida, mas posso garantir que quando priorizo a única eleição deste ano da qual participará (como apoiador explícito) o presidente Lula, não estou sendo “paulistocêntrico”, estou apenas enxergando onde é que está sendo travada a grande luta pelo poder neste momento, e é em São Paulo, por mais que isso não me faça bem ou mal, pois, como eu já disse aqui, a cidade só faz piorar há muito tempo, com São Paulo dando os últimos dois presidentes e tudo.

 

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 Escrito por Eduardo Guimarães às 12h35
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Nota de esclarecimento

Resposta do ombudsman

 

 

Recebi do Carlos Eduardo Lins da Silva, ombudsman da Folha, comentário sobre o post que publiquei aqui no domingo, no qual reproduzi carta que enviei à Folha aludindo a texto do jornalista em sua coluna dominical em que falava de “ódio” dos críticos da mídia. Abaixo, a íntegra do e-mail que recebi do ombudsman.

 

Caro Eduardo:

 

Li no seu blog a carta que você enviou à Folha. Eu afirmei que “alguns críticos” têm ódio. Evidentemente eu não tinha em mente nem você nem a maioria dos leitores que acreditam no grande poder da mídia. Felizmente, quase todos, mas especialmente você, expressam seus legítimos pontos de vista de maneira educada, cordial e cidadã, apesar de muitas vezes bastante enfática.  

 

Tampouco disse que os tais que odeiam são entre os que criticam a Folha por acharem que ela defende os tucanos. Não disse nem que são pessoas que se manifestam contra a Folha. Eu me referia a alguns entre os que de um modo geral acham que os meios de comunicação de massa tradicionais têm grande poder de manipular os cidadãos em assuntos importantes como eleições, por exemplo.

 

Se você tivesse acesso a algumas mensagens que eu tenho recebido, veria que ódio é a palavra que descreve com precisão o sentimento que elas expressam. 

 

Um abraço, 

 

Carlos Eduardo

 

 

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 Escrito por Eduardo Guimarães às 14h07
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Análise - conjuntura política internacional

O que é ruim para os EUA

 

 

 

Faz pouco tempo li um artigo do lingüista americano Noam Chomsky em que ele previa grande dificuldade para Barack Obama se eleger, pois sua condição de negro faria mobilizar-se contra ele toda a direita racista do país, unindo-a com um só objetivo: impedir a eleição do primeiro presidente negro americano através da máquina de difamação do partido republicano.

 

Os necons americanos são os pais dos Reinaldos Azevedos e de seus clones que se espalham pela internet vestindo-se de comentaristas de blogs e sites ou até criando suas páginas para brincar de Azevedo, tentando imitar seu estilo de agressividade difamadora, preconceituosa e intolerante de forma tão idêntica que hoje já é possível ler textos de clones do pitbull da Veja que se pode jurar que foram escritos por ele.

 

O estilo neocon foi bastante discutido no blog do Luis Nassif e levou-o até a criar uma designação para a modalidade brasileira da claque neocon, as abelhas, com a particularidade de que elas existiriam tanto à esquerda quanto à direita do espectro político.

 

Mas o fato é que, na arena política, o Brasil tem hoje o equivalente aos partidos Democrata e Republicano, ainda que este último, por aqui, esteja dividido em duas facções por grau de reacionarismo, enquanto que o partido Democrata brasileiro é uno.

 

O partido Republicano fracionado é formado pelo PSDB e pelo PFL (já expliquei a vocês, novos leitores, que me recuso a chamar o PFL de “democratas”?) e o partido Democrata brasileiro é o PT. Ambas correntes renderam-se (no caso do PT) ou encabeçam (no caso de tucanos e pefelês) o ideário neoliberal, o modelo americano de sociedade excludente.

 

Num país desigual como o Brasil – que, apesar de ser rico, tem péssima distribuição de renda, e que também, mesmo rico, é muito menos rico do que os EUA –, a adoção dessa visão de sociedade em que a pobreza extrema é tolerada gera uma verdadeira catástrofe.

 

Por sorte, os brasileiros não fazem cumprir a lei como fazem os americanos, pois a pobreza gera crimes aqui que nos EUA são punidos com dureza, como, por exemplo, passar cheques sem fundos. Imaginem vocês se fôssemos interpretar a lei com a dureza dos americanos. Aquela lei nova-iorquina que prende de vez o sujeito que é apanhado cometendo o terceiro crime leve conduziria dezenas de milhões às cadeias, gerando uma nação de presidiários dentro da nação brasileira.

 

O que não consigo entender é por que tanta gente e tantos países querem imitar uma sociedade que, do ponto de vista da cidadania, constitui hoje o maior fracasso do mundo.

 

Entre os países muito ricos, os EUA são o que tem maior pobreza e desigualdade. Vejam só que escrevi este texto inspirado num outro do Azenha em que ele reproduz reflexões que fez numa viagem entre Nova Iorque e Washington. No texto, ele relata a exposição da pobreza ianque ao mundo à época do desastre em New Orleans por conta da passagem por lá do furacão Katrina. Aquelas cenas, que parece que os EUA conseguem esconder do mundo na maior parte do tempo, pois só o que se vê sobre o país que se auto-proclama “América” é uma enorme classe média consumista e cheia de dinheiro para torrar em futilidades, mostraram o grande fracasso que é o modelo americano.

 

O modelo de sociedade norte americano, a forma americana de fazer política, as campanhas eleitorais em que a difamação do adversário é a arma principal, movida a escândalos engendrados contra candidatos a cargos eletivos ou contra governantes, só não é igual ao que se vê no Brasil devido ao fato inegável de que nos EUA todos podem ir parar na cadeia, ao contrário do que ocorre aqui até mesmo nas classes mais pobres por falta de condição de se punir qualquer crime com prisão.

 

Mas, no que diz respeito ao modelo econômico, o Brasil, como os EUA, privilegiam os números da economia em detrimento dos números do social, empurrando as chagas sociais com a barriga sob o bom e velho discurso de que o bolo tem que crescer para ser dividido, apesar de que os bolos americano e brasileiro já cresceram dezenas de vezes nos últimos cem anos e continuam sem ser divididos.

 

O modelo de sociedade americano não é bom para os EUA e, parodiando aquela frase estúpida de que o que é bom para os EUA é bom para o Brasil, digo que o que é ruim para os americanos é igualmente ruim para qualquer povo. E o que é ruim na superpotência são seus modelos social e econômico, que, no Brasil, produziram um desastre devido a este país não ter os recursos dos EUA para aliviar o paroxismo da desigualdade como pode fazer o Big Brother nortista com sua economia descomunal.

 

Porém, o que se vê neste momento é que, tal como aqui com Lula, às vezes nem toda difamação da direita americana consegue prevalecer nos processos eleitorais. Barack Obama, à diferença do que pensa Noam Chomsky, vai se firmando num momento psicológico diferente da sociedade americana.

 

O que gerou George Bush, seus falcões e neocons na mídia foi a catarse que o 11 de setembro produziu entre os americanos. Eles de fato entenderam que era preciso exibir ao mundo o poder militar de seu país, a capacidade da potência hegemônica de criar suas próprias leis internacionais e de aplicá-las à revelia da comunidade das nações, enfim, de dizer aos países que decidiram bater de frente com o poderio americano que os EUA ainda detêm o maior poder da Terra e que estavam dispostos a pisotear o direito internacional com ele.

 

Barack Obama chega num momento em que os próprios americanos já ficaram satisfeitos com o que mostraram ao mundo e começam a perceber que os problemas sociais é que entraram na ordem do dia, e que os danos causados pelos falcões e pelos neocons à imagem dos EUA no mundo já ameaçam a própria hegemonia americana, haja vista a busca de tantas nações por diminuir o comércio com o país mais rico do mundo, fugindo da dependência dele.

 

Levará algum tempo, mas o estilo neocon na mídia e o ultraliberalismo acabarão sumindo daqui também. É possível que em São Paulo, por exemplo, que é o berço neocon e ultraliberal brasileiro, a sociedade, na eleição municipal deste ano, mostre que já percebeu como a vida da maioria pobre é pior quando quem governa é a direita, que, no caso, é representada aqui pelo PSDB e pelo PFL.

 

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 Escrito por Eduardo Guimarães às 10h17
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Análise política - eleições em São Paulo

A natureza do escorpião

 

 

 

 

Mais uma vez, a classe política vai se dando conta de que o governador de São Paulo, José Serra, é mesmo alguém que, como dizem por aí, é capaz de pisar no pescoço da mãe para atingir seus objetivos.

 

E o PFL é freguês de Serra, das maquinações do tucano para atingir seus objetivos políticos. Em 2002, o hoje governador tucano, que já naquele tempo diziam ter ascendência sobre um setor da Polícia Federal, usou essa polícia para detonar a candidatura da então candidata pefelista à Presidência da República, Roseana Sarney.

 

Agora, Serra fez de novo. Ele acaba de rifar Gilberto Kassab, o atual prefeito de São Paulo, que, segundo disse neste domingo um dos muitos porta-vozes do tucano na mídia (a colunista da Folha Eliane Cantanhêde), não tem mais chances na disputa pela prefeitura paulistana, pois apareceu na pesquisa com míseros 11% enquanto que Alckmin e Marta têm mais do que o triplo desse percentual.

 

A última pesquisa Datafolha mostrou que Geraldo Alckmin subiu alguns pontinhos e permite supor que essa subida decorreu, sobretudo, do desembarque de parte do eleitorado conservador paulistano das candidaturas de Kassab e de Maluf. Esse desembarque do eleitorado de direita certamente foi gerado pela “ameaça” constituída pela ascensão de Marta Suplicy. Não foi por outra razão que o jornal que trabalha politicamente para Serra, a Folha de São Paulo, passou a detonar o pefelista desde a tal pesquisa.

 

Não tenham dúvidas de uma coisa: a Folha é Serra até debaixo d’água. Ela vai para onde ele for. Suas denúncias baseiam-se nos interesses de Serra. Se passou a atacar Kassab, é porque Serra o descartou e mandou o jornal privilegiar Alckmin.

 

Em sua edição deste domingo, a Folha publica manchete de primeira página anunciando reportagem que afirma que Kassab “usou a prefeitura” para tentar “influir” na última pesquisa Datafolha. Vejam trecho da reportagem:

 

E-mail obtido pela Folha mostra que Gilberto Kassab (DEM) acionou pessoalmente a máquina da prefeitura na tentativa de influir no campo do mais recente Datafolha sobre a sucessão paulistana, no qual aparece em terceiro lugar, com 11%, atrás de Marta Suplicy (PT, 36%) e Geraldo Alckmin (PSDB, 32%).


Os resultados foram divulgados na noite de quinta-feira passada, 24 de julho. Às 19h02 de terça, 23, ao fim do primeiro dos dois dias de campo, Kassab enviou mensagem a 26 subprefeitos pedindo que, no dia seguinte, realizassem "ação" uma vez "identificado o ponto" onde os entrevistadores do instituto abordariam eleitores
(...).

 

O prefeito confirma ter mandado o e-mail, mas nega que o objetivo tenha sido melhorar seu desempenho na pesquisa -na qual recuou dois pontos. Segundo ele, tratou-se de "ação preventiva" para "evitar maldades" (...)

 

No sexta-feira, na Folha impressa, junto com a divulgação da última pesquisa Datafolha, que mostrava a transferência de votos de Kassab para Alckmin, e no portal UOL, durante todo o fim da tarde e durante a noite de quinta, o jornal paulista publicou reportagem que acusou o prefeito de São Paulo de preencher todos os requisitos para integrar a tal “lista suja” da AMB e de ter mandado fazer panfletos semi-apócrifos denunciando Marta Suplicy por integrar a lista. A reportagem, no entanto, omitiu os dez processos que Alckmin responde na Justiça, alguns envolvendo cifras de dezenas de milhões de reais. 

 

 

Panfleto do comando da campanha de Kassab

espalhado pelas ruas de São Paulo depois da

divulgação da tal “lista suja” da AMB

 

 

Diante disso, só me restaria reproduzir a já surrada fábula sobre o Sapo e o Escorpião. Mas decidi poupá-los dela porque, em dias como os de hoje, vocês a lêem ou escutam com tanta freqüência, num mundo em que as “puxadas de tapete” são tão, digamos assim, corriqueiras, que seria até uma crueldade eu escrever de novo os detalhes sobre a natureza do escorpião.

 

 

Que ódio?

 

 

Abaixo, carta que enviei hoje ao Painel do Leitor da Folha de São Paulo e ao ombudsman do jornal, Carlos Eduardo Lins da Silva.

 

Venho acompanhando de muito perto o trabalho de Carlos Eduardo Lins da Silva, ombudsman da Folha, e posso atestar que ele vem se mostrando à altura de substituir o ombudsman anterior, Mário Magalhães.

 

No entanto, devo discordar de um ponto da coluna dele de hoje. Carlos Eduardo atribui "ódio" aos críticos da mídia que afirmam que ela toma partido dos tucanos. Eu, porém, critico a Folha por isso e não a odeio. E posso provar.

 

Apesar de achar que a Folha faz o jogo do PSDB e, mais especificamente, do governador de São Paulo, José Serra, não hesitei, quando do falecimento do doutor Octavio Frias de Oliveira ou do de sua senhora, dona Dagmar, em apresentar publicamente minhas condolências à sua família e ao jornal em cartas publicadas pelo Painel do Leitor.

 

Essa, parece-me, não é atitude de quem sente "ódio".

 

Minhas críticas à mídia - e as da maioria dos que a criticam, quero crer - são puramente institucionais. Quem quiser levá-las para o lado pessoal, está levando sozinho.

 

Eduardo Guimarães, São Paulo

 

 

Sem “peso morto”

 

 

O leitor pernambucano Carlos Henrique Simões da Costa chamou-me a atenção por expressão que usei no post anterior para referir-me a como era o Nordeste até que começassem as políticas públicas para desenvolvê-lo que estão em curso atualmente.

 

A escolha dessas palavras foi ruim e, como bem atesta o Carlos Henrique, produto do velho preconceito que contamina os paulistas em relação ao Nordeste. Ao dizer que teria sido, algum dia, “peso morto”, só fiz mostrar como os preconceitos estão arraigados em nós paulistas desde a infância, de uma forma que muitas vezes até acalentamos alguns mesmo repudiando os preconceitos.

 

Peço mil desculpas a todos os nordestinos deste blog por este cacoete genuinamente paulista, injusto e incorreto.

 



 Escrito por Eduardo Guimarães às 13h31
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