Escrevo da área de embarque do aeroporto Jorge Chávez, em Lima, no Peru. Cheguei aqui às 19:30 hs (hora local, sábado, 21:30 hs. no Brasil), duas horas depois de meu vôo decolar de Guayaquil, no Equador. Aguardo conexão para São Paulo à meia-noite e quinze e ainda são 20:16 hs. Temos tempo para conversar, pois.
Este aeroporto é dos poucos que conheço que oferece, na área de embarque, certas bençãos para gente como eu, blogueiro e fumante, pois tem um “smoking bar”, vejam só, que, além de permitir o hábito maldito, como indica o nome do estabelecimento, ainda oferece conexão sem fio para laptops. É, para mim, o paraíso na Terra, neste momento.
Tudo isso, claro, tem um preço, ou melhor, vários. E bem salgados, para ser econômico e gastronômico nos adjetivos. Cada suco de laranja custa 10 soles, ou cerca de 4 dólares. E uma porção qualquer não sai por menos de 40 soles, ou mais de 15 dólares.
Fumar e blogar saem caro... Já tomei 2 sucos e comi uma porçãozinha sem-vergonha, com meia dúzia de torradinhas para canapés, seis fatias de queijo golda e seis rodelas fininhas de salame, acompanhadas de duas bolotinhas de manteiga. Preço, até agora, 24 dólares, e ainda não são nem nove da noite.
Como vocês já perceberam, estou jogando conversa fora. Mas sejam condescentes comigo: estou pagando caro para fazê-lo. O mínimo que podem fazer por mim, pois, é me darem vossa atenção. Esta noite será beeem longa...
Quero aproveitar a deixa, então, para falar de um outro assunto com vocês.
Na sexta-feira, fiz uma coisa que está me perturbando. Tenho um leitor assíduo, inteligente, cheio de idéias, ultra-informado que posta comentários sucessivos aqui. Às vezes, num só post ele coloca dez, doze comentários. Muitas vezes, nenhum deles versa sobre o assunto do post, mas a maioria deles é interessante.
Naquele dia, acho que fui rude com o Marco Aurélio - agora reflito. Ele não merecia. A importância que ele me dá, gente. Passa aqui várias vezes ao dia, lê tudo que eu escrevo...
Chamei-lhe a atenção porque, naquele dia, foi uma das muitas vezes em que foi responsável por pelo menos um quarto de umas seis dezenas de comentários em um mesmo post.
Agi mal e quero pedir desculpas ao Marco Aurélio, engenheiro de Teresina. Ele é um patrimônio deste blog e eu não tinha o direito de escrever o que escrevi. É que alguns leitores já andaram me enviando e-mails e comentários - que bloqueei - reclamando, mas acho que nem eles têm esse direito. E tem muita gente que curte o que ele escreve.
Peço ao Marco Aurélio, no entanto, que me dê um desconto. As duas últimas semanas foram difíceis, solitárias demais e de muita, muita correria.
Mas, como sempre digo, vou tentar fazer de mais esse limão em minha vida, uma limonada.
Fico me perguntando por que pessoas com tanto a dizer quanto um Marco Aurélio e alguns outros que comentam em profusão, não criam seus blogs. Alguns, sei que criaram. Até os visitei, mas sugiro que tentem melhorar mais o conteúdo e a forma de seus blogs, sobretudo no que tange o idioma. Mas o Marco Aurélio, não. Ele tem muito conteúdo e escreve bem. E o melhor: tem sede de se expressar, como eu.
Se ele criar esse blog, eu coloco o link aqui. Tenho certeza de que conseguirá audiência.
Bem, pessoal, vou dar o fora deste exorbitante “smoking bar". Meu dinheiro acabou junto com a viagem e, se continuar aqui, não terei grana para o táxi quando chegar a São Paulo. E meus cartões bancários, quando viajo deixo com a patroa para o caso de o meu avião... Bem, vocês sabem... Não preciso falar em corda em casa de enforcado.
PS: quando chegar aí no Brasil, dormirei metade do dia, pois ainda não aprendi a dormir em aviões. Portanto, este post é o que terão de mim na maior parte do domingo.
Faz tempo que se supõe que o golpe da “margem de erro” em pesquisas de intenção de voto é aplicado no Brasil, sobretudo quando a pesquisa envolve tucanos e petistas e quando o instituto é o Datafolha, que pertence ao mesmo grupo empresarial que, mais do que trabalhar incansavelmente para favorecer o PSDB, atende às determinações do governador José Serra.
Não faz nem uma semana que a última pesquisa desse instituto sobre a sucessão municipal em São Paulo foi divulgada. Seis dias depois, sai nova pesquisa.
Na edição deste sábado da Folha de São Paulo, a manchete principal de primeira página diz que “Marta lidera” e que “Alckmin pára de cair”.
A nova pesquisa Datafolha aponta queda de dois pontos percentuais nas intenções de voto de Marta, subida de dois pontos de Kassab e que Alckmin permaneceu com o mesmo percentual de seis dias antes.A “margem de erro da pesquisa” é de três pontos percentuais.
O último Datafolha promoveu uma hecatombe na campanha do tucano Geraldo Alckmin. Este despencara, o prefeito Gilberto Kassab crescera alguns poucos pontos percentuais – sem, no entanto, mostrar que teria chance significativa de vencer a eleição – e Marta Suplicy havia disparado.
Em todas as eleições dos últimos anos nas quais petistas e tucanos protagonizaram a disputa mais significativa em nível federal, e nas quais o candidato do PT venceu, a dimensão da vitória sempre acabou sendo maior nas pesquisas de última hora.
Isso se explica pela teoria desses institutos de pesquisa de acordo com a qual as sondagens criariam uma espécie de “efeito manada”, que levaria parte do eleitorado a votar em quem está na frente ou em quem a dinâmica das pesquisas sucessivas mostra que está subindo. Por isso é divulgado sempre quem a população acha que vencerá a eleição.
Uma eventual vitória de Marta Suplicy é considerada como um golpe violento nas pretensões de José Serra de se eleger presidente em 2010. É bom repetir que o governador manda na Folha e, portanto, no Datafolha.
Os institutos de pesquisa brasileiros procuram zelar pelos seus nomes. Temem, acima de tudo, o descrédito. É por isso que, no Brasil, as pesquisas são bem menos falsificadas do que em países vizinhos. Como na Venezuela, por exemplo, em que as pesquisas contrárias ao presidente Hugo Chávez chegam a apresentar diferenças enormes em relação ao resultado da eleição.
Nesse aspecto, no Brasil a “margem de erro” funciona como ferramenta para tentar influir na tendência do eleitorado até a última hora da campanha, quando, então, resultados mais próximos do real são divulgados. Foi assim com Lula nas duas últimas eleições que disputou, por exemplo.
Alckmin, que quando saiu a pesquisa da semana passada tratou de menosprezá-la, passou a dizer, antes da pesquisa divulgada hoje, que “não briga com pesquisas”...
A campanha de Marta Suplicy faria muito bem se tratasse de contratar algum instituto de pesquisa que, à diferença de um Datafolha, por exemplo, não estivesse ligado a grupos políticos e que lhe pareça confiável.
Se o resultado das sondagens desse instituto confirmar os números que vêm sendo divulgados, servirá de alerta para o comando da campanha de Marta, mas acho bem possível que o resultado venha a mostrar um quadro diferente, provavelmente no limite da tal “margem de erro”.
É claro que se uma eventual estratégia de influenciar o eleitorado, da maneira que descrevi acima, não colar, ou seja, se nas próximas sondagens não se verificar uma inversão real da tendência que vinha vigendo até aqui, o Datafolha e assemelhados terão que pular fora desse barco. Mas ninguém garante que o "efeito manada" não ocorrerá.
Como costumam dizer os hispânicos latino-americanos: “Hay que ponerles ojo!”
*
Em cerca de cinco horas embarco do Equador para o Brasil em uma viagem repleta de conexões pela América do Sul. Chego a São Paulo na manhã do próximo domingo. Comentários serão liberados durante essas conexões.
Andou circulando pela internet um e-mail contendo forte crítica a um jornalista carioca devido a nota divulgada por ele em seu blog afirmando que um “golpe de Estado” estaria “em marcha” na Bolívia e que o presidente Evo Morales estaria “acuado na selva”.
Segundo informações comentadas pelo ex-ministro da Casa Civil José Dirceu em nota divulgada em seu blog e repercutida pelo site “Vermelho.org”, o que parece que ocorreu foi que o presidente boliviano foi “impedido [por opositores políticos] de fazer uma escala técnica e barrado em três aeroportos de um departamento (equivalente a Estado, na Bolívia), o de Beni”.
A crítica que recebeu o jornalista carioca foi a de que ele teria “testado hipóteses” ao dizer que um “golpe de Estado” estaria “em marcha” no país vizinho.
Leitores me procuraram por e-mail ou postaram comentários aqui em busca de informações sobre o suposto “golpe”. Daí se tem a dimensão do estrago que a informação mal apurada (?) pode fazer.
A informação veiculada pelo jornalista carioca parece que de fato foi imprecisa, mas seriabom termos em mente que todos os que se arriscam a fazer jornalismo correm esse tipo de risco.
Provavelmente vocês se lembram da “barriga” em que incorreram vários meios de comunicação brasileiros no fim do ano passado. Grandes jornais veicularam apressadamente que Hugo Chávez teria vencido o referendo à reforma constitucional em seu país, e depois descobriu-se que a reforma foi reprovada nas urnas por pequena margem.
Contudo, o jornalista que deu “barriga” não esteve tão longe assim da verdade. Matéria recém-publicada pela “Agencia Boliviana de Información” deu conta de que autoridades aduaneiras bolivianas acabam de apreender um carregamento de “armamento bélico” com destino a Santa Cruz de La Sierra que foi declarado à alfândega como sendo de “equipamentos para motocicletas e lâminas de policarbonato”.
A nota de José Dirceu supramencionada pede repúdio oficial do governo brasileiro à atitude golpista da oposição boliviana de impedir que Morales pousasse com seu avião numa parte do país que governa. O ex-ministro também afirmou que o Brasil deveria declarar oficialmente que não ficará “neutro” diante de um eventual golpe de estado na Bolívia. Além disso, pede que se reflita sobre o que a mídia brasileira noticiaria no caso de Evo Morales ser de direita.
Dirceu tem razão: fosse o presidente da Colômbia, Alvaro Uribe, que tivesse sido impedido de pousar com seu avião em seu país, estaríamos vendo grande estardalhaço na mídia brasileira. Como pede Dirceu, portanto, todos os que sabem como as mídias latino-americanas são golpistas e desonestas deveriam, por exemplo, encher as caixas de correio eletrônico dos jornais de e-mails condenando essa omissão diante do descalabro da oposição boliviana.
Por outro lado, como ex-ministro de Estado Dirceu deve saber do princípio histórico da diplomacia brasileira de não-intervenção em assuntos internos de outros países, se é que ele fala da diplomacia e não das nossas Forças Armadas. No caso de que prevaleça a segunda hipótese, porém, o ex-ministro pode ir tirando seu cavalo da chuva. Podemos nos dar por felizes por nossos militares não terem se aliado (ainda?) à oposição e à mídia golpistas daqui.
De qualquer forma, esse princípio de “não-intervenção” precisa ser, digamos, “flexibilizado” a qualquer preço – e já explico por que.
Três países sul-americanos estão sob ameaça de golpe de estado por parte das oposições aos governos nacionais: Bolívia, Equador e Venezuela. Quem, como eu, viaja freqüentemente a esses países, sabe que seus governos têm apoio irrestrito das forças armadas.
Mas, como tudo nesta vida tem dois ou mais lados, é bom lembrar que, devido à participação dos EUA no golpe de Estado que foi tentado na Venezuela em 2002, por exemplo, pode-se aceitar a hipótese de que a superpotência poderia armar golpistas bolivianos, equatorianos, venezuelanos e até brasileiros, como já fez várias vezes pelo mundo afora.
E como, no Brasil, não estamos suficientemente longe de ver acontecer aqui o mesmo que está acontecendo nos países vizinhos, o presidente Lula deveria pôr as barbas de molho, ouvir Dirceu e declarar oficialmente que seu governo repudia o desrespeito escandaloso à vontade do povo boliviano por um setor minoritário daquela sociedade. Afinal, essa vontade acaba de ser expressa nas urnas por margem esmagadora.
Enquanto Lula não faz o que já deveria ter feito, podemos ir fazendo a nossa parte enchendo as caixas de correio eletrônico do PIG de mensagens de repúdio à sua escandalosa omissão diante de um dos mais graves atentados à democracia de que se tem notícia nesta parte do mundo. Que vocês acham?
Modelo e alvos do protesto
O leitor Gabriel Sitônio, de Recife, fez um pedido que atendo com prazer, para quem concordar com ele. Vejam, abaixo.
Edu, parece pedir demais, mas se você fizesse um modelo da mensagem ou [que informasse] pra quais emails mandar [a carta de protesto], a ação teria melhor alcance
Modelo
Na última quarta-feira, o presidente da Bolívia, Evo Morales, foi impedido por opositores políticos de fazer uma escala técnica com seu avião em três aeroportos de seu país.
O líder boliviano acaba de vencer o referendo revogatório em que colocou seu cargo em jogo. Quase 70% dos bolivianos o reelegeram para o cargo que ocupa.
Fosse Morales de direita, certamente editoriais e articulistas indignados tomariam jornais e telejornais, mas como se trata de um presidente de esquerda, a mídia se acumplicia com os golpistas e não os critica.
Esta mensagem é um repudio ao golpismo cúmplice do Partido da Imprensa Golpista (PIG).
Alvos
Os veículos-alvo do protesto, em princípio, são os de sempre. Mas aqui vão algumas sugestões:
E por aí vai... Mas quem quiser acrescentar sugestão sobre o endereço eletrônico de algum meio de comunicação, deixe comentário que reproduzo aqui na primeira página do blog.
No dia em que índios começarem a obter vitórias sobre representantes do poderoso “agronegócio” na elitizada Justiça brasileira, poderemos dizer que o Brasil começa a se tornar um país civilizado, no qual a Justiça é para todos.
O STF tem agora a chance de limpar um pouco sua imagem emporcalhada pelo favorecimento a figurões corruptos.
A você que acha que esses cidadãos indígenas não valem a preocupação, lembre-se de que uma Justiça que se ajoelha diante do mais forte tampouco lhe serve, pois sempre haverá alguém mais forte do que qualquer um de nós.
Pesquisa do instituto “SP Investigación & Estúdios” mostra possibilidade de vitória esmagadora do “sim” no referendo à nova constituição do Equador, que acontecerá no próximo dia 28 de setembro.
Segundo a pesquisa, realizada entre os dias 22 e 23 de agosto, a intenção de voto no “sim” está em 53%, enquanto que a opção por rejeitar a nova Carta Magna do país está em 23%; votos nulos somam 13% e 11% dos eleitores declaram que pretendem votar em branco.
De acordo com a pesquisa, 63% do eleitorado equatoriano já fez sua opção.
No começo deste mês, o “sim” tinha 47% de preferência, e o não, 29%.
Como eu havia lhes dito na semana passada, o apoio a Rafael Correa é esmagador neste país. Por isso, e pelo que tenho conversado aqui, percebe-se que a aprovação da nova constituição, se ocorrer mesmo, dever-se-á muito mais ao presidente do que ao que o texto constitucional propõe.
Sendo honesto, devo reconhecer que a maioria da população não conhece adequadamente a nova constituição que deverá aprovar. Contudo, quem a rejeita também está indo às urnas movido muito mais pela antipatia ao presidente Correa do que por razões concretas.
Esse é o risco da polarização tresloucada que vige neste país. Não tive tempo de ler adequadamente a proposta da nova constituição, mas, do pouco que li, parece bem sensata. Porém, não se entende as pessoas se entregarem ao apoio ou rejeição da forma como estão se entregando, ou seja, por motivos que nada têm que ver com aqueles que deveriam norteá-las.
A imprensa daqui, que deveria promover um debate sério sobre o assunto, age de forma tão ou mais irresponsável do que apoiadores e detratores do novo texto constitucional, que, de uma forma ou de outra, deverá ser aprovado no mês que vem.
Daí se pode tirar uma idéia do quanto a mídia pode prejudicar um país quando abdica de seus deveres em prol de interesses sectários.
Enquanto isso, no Brasil...
Na coluna de sites indicados por este blog, no link para o site do Doxa (Laboratório de Pesquisas em Comunicação Política e opinião Pública), ligado ao Iuperj, vocês encontrarão interessante pesquisa sobre o comportamento dos jornais de São Paulo e do Rio em relação aos candidatos a prefeito das duas cidades.
Esta minha profissão de caixeiro-viajante é malvada num aspecto que o pretenso cronista que me habita a alma – e que, uma vez mais, fugiu do cativeiro em que tento encerrá-lo – vem relatar à vossa atenção sem o menor pudor.
Jamais se deve maldizer o ganha-pão num mundo e numa época em que tantos querem trabalhar e não podem, mas, às vezes, desabafos devem ser feitos, de modo a atuarem como uma válvula de pressão que, aberta em doses homeopáticas, tem o condão de nos manter eficientes, engrenagens da máquina capitalista que somos.
Vejam a situação na foto acima. Essa é a companhia que tenho tido nos últimos nove dias: quartos de hotel desoladoramente vazios e um laptop. E o pior: ainda me restam mais três dias até voltar ao convívio dos que me são caros...
Não que, aqui ou em qualquer outro país que visito, faltem-me convites para noitadas em inferninhos nos quais meninas tristes vendem seus corpos a homens de negócios maduros – a alguns, inclusive, que, ridículo dos ridículos, já deixaram de ser maduros faz tempo e se encontram na “terceira idade” sem ainda terem se dado conta.
Com seus estômagos protuberantes, exalando álcool até a raiz dos cabelos, os que freqüentam as casas noturnas desses assassinos de sonhos que exploram essas infelizes, a juízo deste queixoso personificam o patético como nada mais consegue.
Saibam, ó vítimas deste “Mr. Hyde” das crônicas, que existem, sim, homens que não se deixam enredar pelo “amor” de aluguel. Ainda mais quando as locadoras são criaturas que há pouco brincavam com bonecas. Assim sendo, peço que acreditem quando lhes digo que quem lhes escreve é um desses homens.
A esta hora, no Lar construído com a luta de uma vida, teria este andarilho os favores impagáveis do amor legítimo da companheira que erigiu consigo o monumento familiar de ambos, formado pelos “tijolinhos” que ambos viram crescer, um a um, a partir do ventre da latifundiária do amor do solitário, sua amada Cristina.
A última e tradicional pesquisa anual da respeitada ONG chilena Latinobarómetro, divulgada no fim do ano passado e que costuma enfocar dois dados políticos cruciais, quais sejam, a inclinação dos latino-americanos pró ou contra a democracia e a popularidade dos governantes da região, apontou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva como o líder mais bem avaliado da América Latina.
De novembro do ano passado para cá, visitei os seguintes países: Angola, Argentina, Bolívia, Chile, Colômbia, Equador, Panamá, Paraguai, Peru e Venezuela.Nessas viagens, pude referendar a informação da Latinobarómetro.
Mas esse, talvez, não seja o dado mais importante. O que descobri nessas viagens, a ONG chilena não detectou. Nessas viagens, meus contatos mais próximos são com empresários, meus clientes, pessoas majoritariamente conservadoras, identificadas com a direita.
Em países como Venezuela, Bolívia ou Equador, nos quais a situação político-ideológica está mais polarizada, ou numa Colômbia, país em que a direita, em confronto com o resto da região, é muito mais popular, descobri que até os conservadores desses países, que estão em pé-de-guerra com a esquerda, têm uma visão benevolente em relação ao líder brasileiro.
O mais impressionante, porém, é que as mídias dos países supramencionados são tão ou mais conservadoras do que as nossas, chegando, algumas delas, a fazer oposição declarada aos governos de esquerda de seus países, enquanto que a nossa tenta disfarçar seu oposicionismo.
Nesse contexto, tive ontem uma dessas experiências – de ouvir ultraconservadores elogiarem Lula em meio a uma de suas tediosas e extensas diatribes contra o governo de esquerda local.
Para que vocês tenham idéia do nível do reacionarismo desinformado dos “meninos” – três irmãos, meus clientes aqui no Equador, que têm um ódio pelo presidente Rafael Correa que chega a assustar –, ficaram teimando comigo que Chávez está fazendo com que famílias venezuelanas com casas maiores dividam-nas com famílias pobres, no âmbito do “comunismo” que estaria implementando na Venezuela e que Correa pretenderia imitar.
Diferentemente do caso que lhes relatei sobre o cliente ultraconservador e racista que me chocou no domingo, porém, eles, apesar de desinformados, são boas pessoas.
Tivemos um happy hour divertidíssimo, descontraído, nos quais pude mandá-los para “aquele lugar” quando disseram a barbaridade à qual me referi acima, sobre a Venezuela.E me ouviram atentamente passar-lhes um “sabão” pelo estado de desinformação em que se encontram. Em suma: Xavier, Bolívar e John são bons homens, ainda que ideologicamente enfermos.
Disseram-me horrores e barbaridades sobre Rafael Correa, Hugo Chávez, Evo Morales, sobre os Kirchner, mas, quando chegamos a Lula, desmancharam-se em elogios: “Ah, pero Lula es diverso de esos comunistas... Ha arreglado a Brasil”
Nos PIG’s de países como este em que estou (Equador), e em outros em que a mídia transformou-se em partido político, vemos os Clóvis Rossis, as Elianes Cantanhêdes ou os Reinaldos Azevedos de lá dizerem que se um Chávez, um Morales ou um Correa fossem como Lula, não haveria problema em serem de esquerda.
Daí virá a ultra-esquerda tupiniquim dizer que Lula agrada até aos reacionários estrangeiros porque virou “neoliberal”. Dirão isso sem se dar conta de que os avanços sociais e econômicos logrados pelo “neoliberalismo” lulista são muito, mas muito maiores do que os conseguidos no Equador, na Venezuela ou em qualquer outra parte da América Latina.
O mais divertido é que a imprensa vem noticiando que até candidatos a prefeito ou a vereador tucanos e pefelês dos grotões estão “colando-se” à imagem de Lula, de uma forma que candidatos petistas estão sendo obrigados a recorrer à Justiça para impedirem seus adversários de direita de usarem o nome do presidente da República.
Não posso deixar de comentar o orgulho de ser brasileiro que tenho sentido em minhas viagens. E ainda mais quando conto aos meus interlocutores (aos poucos que não sabem) a trajetória de um nordestino miserável que veio para o sul do país recomeçar a vida e chegou a presidente da República.
Lula parece que faz mágica, meus amigos.
Mas há um lugar no planeta, hoje, em que a mídia e os cidadãos conservadores, remando contra o mundo inteiro, tentam denegrir o presidente e vivem flertando com a tentação de derrubá-lo. E o mais divertido é que esse lugar exótico é aqui, ou melhor, é aí no Brasil. Não é de matar de rir?
Atualizado às 18:43 hs (Equador) de 26 de agosto de 2008
MARTA NO SPTV
Pretendia nem escrever durante o dia de hoje, e quando escrevesse pretendia fazê-lo sobre outro assunto, mas não me contenho.
Qualificar como ridículo o noticiário da Folha que alude à sucessão municipal paulistana, é pouco. Talvez o termo pudesse ser “surreal”, mas tampouco acho que reflete o tamanho da incoerência da abordagem do jornal sobre o que está acontecendo no processo sucessório paulistano.
No domingo, o jornal publica manchete principal de primeira página em que valoriza a redução da diferença entre Alckmin e Kassab e minimiza a disparada de Marta.
A notícia principal, que é Marta estar próxima de ser eleita em primeiro turno, cede espaço para uma disputa entre um prefeito extremamente mal avaliado, a ponto de, após mais de três anos no governo, ter míseros 14% das intenções de voto, e um político insosso, decadente e sem discurso como Alckmin.
A Folha tenta desviar o foco da subida espetacular de Marta e fazer da disputa Alckmin x Kassab o assunto, como se isso ajudasse um dos dois.
O jornal nem tenta explicar por que a suposta boa avaliação de Kassab não se traduz em votos, pois 14% de intenção de voto contra esses tais 40% de aprovação não tem nada que ver com a campanha de 2004, em que Marta perdeu com mais de 40% dos votos válidos contra uma aprovação de cerca de 50%, ou seja, grosseiramente podemos dizer que Kassab transforma míseros 30% de sua avaliação positiva em votos enquanto que, em 2004, Marta transformou cerca de 90% dessa avaliação em votos.
O mais ridículo é a Folha tentar passar a idéia de que Marta subiu nas pesquisas por deficiência de seus adversários e não por mérito próprio, quando é mais do que óbvio que a população da periferia, grande responsável pela disparada de Marta, começa a comparar o que ela fez quando prefeita e o que fez e faz Kassab.
A Folha está perdida. Agora se voltou para Kassab, daqui a pouco voltar-se-á para Alckmin, se ele esboçar alguma reação. O jornal pensa que seu público é estúpido, que só os luminares do diário têm cérebro e, acima de tudo, perspicácia.
Para ser franco com vocês, minha auto-estima anda meio em baixa. Sobretudo depois do caso que relatei no post anterior.
Apesar do alento que foram vossas palavras de apoio e de compreensão, dois pensamentos conflitantes se apossaram de mim.
Primeiro, ter mobilizado tantos de vocês, amigos leitores, por uma aflição tão pessoal, de certa maneira é constrangedor, pois o que sinto ou deixo de sentir não tem a menor importância para o debate público de que trata este blog.
Depois, porém, refleti sobre a riqueza que é um homem ter todos esses amigos; a maioria virtuais e alguns (poucos, diante de todos os amigos que este blog me deu) que fui sorteado com o privilégio de conhecer em carne e osso.
Foram reflexões tão esplêndidas que li de vocês... Tanta sabedoria, sensatez, que cheguei a sentir vergonha de me entregar daquela maneira.
O que aconteceu no domingo, conforme relatei, me foi como aquele ferimento profundo cuja dor demora um pouco a aparecer e, quando a pessoa a sente, percebe a gravidade do ferimento.
No momento em que tive que me acovardar, por válida que possa ter sido a razão diante do que de grave poderia me resultar – e à minha família – ter reagido às sandices que ouvi daquela família que me recebeu em sua casa, não percebi o dano que o medo de perder meu ganha-pão me causou, mas conforme o dia foi terminando, quando finalmente pus a cabeça no travesseiro, só então entendi o quanto me desmoralizei diante do crítico mais intransigente que tenho, eu mesmo.
Não deveria me justificar, pois, quando escrevi o post anterior, não buscava absolvição. Achei justo me expor às críticas que pensei viriam. Pelo menos eu pagaria um preço por ter agido de forma que julguei errada. Mas quando é que eu poderia supor o que me resultou de minha confissão?
Realmente, a imprevisibilidade do que um número tão expressivo de pessoas, a massa, pode pensar conjuntamente do que se diz, é total.
Esperava que alguém me dissesse sobre a incoerência que é eu criticar jornalistas que se vendem aos seus patrões e depois me vender ao meu cliente e à sua família ao não questioná-los pelo absurdo que é, em pleno século XXI, alguém teorizar sobre inferioridade racial.
Porém, o que vocês me disseram foram conselhos e ponderações que só cabem a amigos do peito dizer – vocês foram condescendentes como só amigos de verdade podem ser.
Está certo que, à diferença dos jornalistas, eu ter me deixado subornar pelo medo de perder o ganha-pão não causará prejuízos à coletividade e, portanto, a comparação entre o que cobro dos jornalistas vendidos e a forma como agi, não é boa. Mas eu não estaria obrigado a repensar minhas críticas, já que o que move os jornalistas que abrem mão de princípios para manterem seus empregos foi o mesmo que me moveu?
Essa questão ainda não está bem resolvida na minha cabeça, mas, devido a vossas ponderações, vou tentar não exagerar no que considero fundamental e saudável para qualquer um, ou seja, na prática sensata e sábia da autocrítica.
Melhor, então, que eu, diante do estupro ético inevitável de que fui vítima, relaxe e aproveite a consciência de como consegui, através de um bloguinho, fazer tantos e tão sábios amigos.
A sensação de apoio, de ter como que um milhão de amigos, de ter como que uma família virtual, medicamento que tem sido tão eficaz para mitigar-me a solidão intensa dos últimos dias, faz de mim um homem muito rico.
Não sei como lhes agradecer... Mas talvez vocês aceitem que eu lhes pague em honestidade. Acho que é isso o que alenta à maioria de nós, sobretudo num veículo de comunicação como este blog, que pretende informar.
Muito obrigado, meus amigos. Muito obrigado mesmo.
*
Estou devendo a vocês um novo post sobre alguma coisa que seja do interesse de todos, mas estou meio cansado. Não fisicamente, mas mentalmente. Mas posso adiantar a vocês que o texto do próximo post já está escrito – em minha cabeça: preciso escrever sobre “Lula, o mago”. E o assunto tem tudo que ver com a promessa que me fiz de só escrever sobre a América Latina enquanto estivesse fora do país.
Tentava dormir, mas não pude. A culpa me atormenta. Ontem, perdi grande parte do respeito que tenho por mim.
Talvez contando aqui para vocês o que fiz comigo mesmo eu possa purgar parte desta sensação de pusilanimidade.
O cliente me esperava no aeroporto de Guayaquil. Temos um negócio entabulado que poderá me ajudar muito.
Levou-me ao hotel para acomodar a bagagem e depois de uma hora e pouco veio me buscar para almoçar consigo e sua família – mulher e filha.
Preciso muito desse negócio, e por ele ouvi calado “idéias” que me repugnam como nada mais consegue me repugnar nesta vida.
Enquanto o cliente milionário, no caminho de sua mansão num condomínio fechado em Guayaquil, falava asneiras político-ideológicas, não vi nada demais em não contestá-lo.
Sua conversa surrada sobre o “esquerdismo” não ter dado certo em lugar nenhum porque prega igualdade e os humanos somos “diferentes” não me obrigava a entabular um debate ideológico, pois tenho que viver.
Durante o lauto almoço, preparado e servido por índias que a mulher do cara, mais do que qualquer outro à mesa, tratava com um desprezo e com uma arrogância repugnantes bem diante dos meus olhos, continuei impassível e, até aí, nada demais – um convidado não teria o direito de protestar, por mais que coubesse fazê-lo.
Mas foi quando a madame e sua bela filha, descendentes de austríacos, “explicaram” as razões pelas quais se orgulham de ser racistas, foi aí que a comida me parou na garganta e o apetite se escafedeu de vez.
Teorias sobre inferioridade racial emporcalharam-me a alma e o silêncio cúmplice em que mergulhei até agora faz com que me sinta um rato.
Ouvi duas criaturas desalmadas verterem toda sua mediocridade em meus ouvidos e calei, miserável e covardemente eu me calei. Por dinheiro.
Peço-lhes perdão por decepcioná-los desta forma. Mas creiam-me: ninguém está mais decepcionado comigo do que eu mesmo.
Em 17 de março, o Movimentos dos Sem Mídia protocolou no Ministério Público Federal representação contra meios de comunicação. Sugiro a releitura do documento. A razão será esclarecida em breve.
EXCELENTÍSSIMO SENHOR DOUTOR PROCURADOR DA REPÚBLICA DO MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL ILMO. SR. DR. COORDENADOR DA TUTELA COLETIVA DA PROCURADORIA DA REPÚBLICA NO ESTADO DE SÃO PAULO
O MOVIMENTO DOS SEM MÍDIA, organização da sociedade civil de direito privado (cópia do Estatuto Social anexa), com objetivo social de defesa de uma mídia livre, plural, ética e responsável, vem, respeitosamente, perante V.Exa., neste ato representado por seu Presidente, com base nos artigos 2º; 3º- incisos I, III, § 3º, letra “c”; e 16, inciso I do seu Estatuto Social, e nos artigos 127, caput; e 129, incisos II e III, e demais aplicáveis à espécie da vigente Constituição da República Federativa do Brasil e da Lei Orgânica do Ministério Público Federal, formular a presente Representação contra a empresa Folha da Manhã S/A, SP; Contra a S.A. O Estado de S. paulo: contra a Editora Abril; contra a Globo comunicação e Participações S/A; contra revista IstoÉ, contra a SA Correio Brasiliense; contra o Jornal do Brasil e contra todos os demais veículos e meios de comunicação que, nos termos da investigação a ser realizada pela D. Autoridade Ministerial Federal incumbida da matéria pela competência legal, tiverem infringido a legislação federal penal e civil vigentes aplicáveis à espécie, pelas razões de fato e de direito que respeitosamente passa a expor:
PRELIMINARMENTE
1.- Após a volta do País à normalidade democrática, alicerçados nos postulados do Estado Democrático de Direito e consagrados pela Constituição Federal de 1988, os cidadãos e as organizações representativas da sociedade civil deixaram a posição de meros espectadores dos fatos da vida nacional, tendo se tornado agentes vivos, participantes, atentos e vigilantes dos interesses maiores da sociedade e da própria Res Publica;
2.- Consideramos que a liberdade de imprensa, tal como garantida pela vigente Carta Magna, é um dos sustentáculos do regime democrático. No entanto, o direito – bem como o dever - dos meios de comunicação de divulgarem informações deve estar sempre lastreado em pressupostos éticos, morais e de compromisso com a verdade dos fatos, pois o imenso poder da dita grande mídia, na era da informação em tempo real em que vivemos, deve ser exercido dentro de parâmetros de responsabilidade, haja vista em que esses meios de comunicação cobrem todo o território nacional e, em conseqüência, o eventual mau uso ou a distorção dos fatos podem gerar gravíssimas conseqüências para a população, como efetivamente pode ter acontecido no caso objeto da presente Representação.
2.1.- Os fatos ora relatados atingiram toda a sociedade e geraram conseqüências em todo o Território Nacional, extrapolando as fronteiras dos Estados membros daFederação, motivo da presente Representação à D. Autoridade Ministerial Federal.
DOS FATOS
3.- No final do mês de dezembro de 2007, com a seqüência dos fatos prosseguindo até o fim de janeiro de 2008, os veículos de comunicação social ora Representados pautaram e colocaram em imensa evidência, em suas publicações e transmissões, relatos e opiniões de forma extremamente alarmantes, sempre em escala crescente, o que acabou disseminando entre a população a crença de que estaria em curso no país uma EPIDEMIA DE FEBRE AMARELA URBANA, evento que não ocorria há mais de sessenta anos. Dessa prática da imprensa decorreu verdadeira histeria social, que se apoderou do cidadão mais humilde até o mais abastado – e, pretensamente, mais bem informado -, num processo em que cada órgão de imprensa parecia querer produzir mais estardalhaço e alarme do que o outro, conforme relatado de forma cronológica nos termos do ANEXO I desta Representação.
4.- No entanto, desde o início da publicação dessa série de matérias na mídia sobre uma suposta epidemia de febre amarela, os Representados parecem não ter buscado informações técnicas adequadas para o fim de esclarecerem e orientarem a população. Os meios de comunicação não informaram adequadamente (no tempo certo, com o devido destaque e em volume de alertas compatível com a torrente de informações que divulgavam sobre a suposta epidemia) os riscos que as pessoas corriam ao se vacinarem sem necessidade, ao se revacinarem ou, ainda, vacinando-se apesar de seus organismos serem incompatíveis com o medicamento.
5.- Essa ação dos órgãos de mídia ora Representados produziu os efeitos previsíveis, criando um clima de pânico generalizado entre a população de todo o País, com milhões de pessoas dos centros urbanos e das áreas rurais acorrendo desesperadas aos postos de saúde e de vacinação para se imunizarem contra um risco de contraírem febre amarela que só existia para uma parcela dessas pessoas, pois a outra parcela que se vacinou não estava nas chamadas áreas de risco, nem iria empreender viagem a tais áreas.
5.1.- É preciso mencionar que, ao tomar a vacina, o indivíduo é inoculado com o vírus atenuado da febre amarela. Em determinadas circunstâncias, portanto, a vacina pode produzir reações adversas graves, podendo levar o paciente a óbito. Por desconhecimento e até por falta de informações da mídia – que, além de difundir pânico em intermináveis manchetes de jornais, telejornais etc., dava espaço a jornalistas que se manifestavam sem base técnica ou conhecimentos médicos, conclamando as pessoas a se vacinarem fossem de onde fossem e antes que fosse tarde (Anexo I) -, certas pessoas chegaram a se vacinar duas, três vezes seguidas para se “garantirem” de que estariam imunizadas. Como se não bastasse, havia um risco adicional na vacinação aleatória, pois a vacina é contra-indicada para algumas pessoas em condições de saúde específicas, tais como recém-nascidos, gestantes ou pessoas com baixa imunidade biológica.
6.- A situação de pânico entre a população, causada pelas informações alarmantes da mídia, chegou a tal ponto que o próprio Ministro de Estado da Saúde, Exmo. Sr. Dr. José Gomes Temporão, viu-se obrigado a convocar rede nacional de rádio e televisão para esclarecer e acalmar a população, informando-a de que não havia NENHUMA EPIDEMIA DE FEBRE AMARELA URBANA OU SILVESTRE EM CURSO NO BRASIL. Essa, então, era a informação oficial, real e que corresponde à verdade dos fatos, ao contrário do que alardeavam os meios de comunicação ora Representados, sendo que alguns deles, de forma extremamente temerária e mesmo irresponsável, chegaram, em seus noticiários, a colocar em dúvida a veracidade do pronunciamento do Ministro de Estado da Saúde (Anexo I).
7.- Um dos indícios a evidenciar que os órgãos de imprensa ora Representados geraram pânico e alarma social, com conseqüências graves à saúde das pessoas e desperdício de dinheiro público, foi o aumento explosivo e estatisticamente comprovado do número dos que se vacinaram contra febre amarela (Anexo I).
8.- Em pouco tempo, enquanto a mídia continuava em sua escalada temerária, fato este detectado e corroborado até pelo próprio Ombudsman de um dos Representados (Anexo I), o número de pessoas que estavam adoecendo por reação adversa à vacina já era similar ao das que padeciam da doença que aquela vacina combate. E o mais trágico é que o alarmismo midiático pode ter causado a morte de ao menos uma pessoa (Anexo I). Trata-se de uma senhora de 79 anos, residente em São Paulo, que não é área de risco da febre amarela. Essa cidadã não pretendia viajar a alguma das áreas de risco, portanto nunca deveria ter-se vacinado. Vacinou-se porque se assustou com o noticiário.
9. - Tragicamente, na competição em que os meios de comunicação mergulharam com o fim aparente de transformarem uma inexistente EPIDEMIA DE FEBRE AMARELA em fato jornalístico, e com objetivos e finalidades ainda desconhecidos, esses órgãos de imprensa ora Representados não tomaram as indispensáveis e necessárias cautelas de alertar e de informar a população dos riscos de reações adversas da vacina de forma adequada. Os Representados somente passaram a ter alguma preocupação com essa providência indispensável depois de semanas de alarmismo, quando o pânico já provocava adoecimento de pessoas que se vacinaram sem necessidade ou mais de uma vez e que tinham organismos incompatíveis com o medicamento. Os órgãos de imprensa Representados passaram a ser ALERTADOS PUBLICAMENTE POR ESPECIALISTAS PREOCUPADOS COM O ALARMA SOCIAL QUE ESTAVA PRODUZINDO CASOS DE ADOECIMENTO POR REAÇÃO ADVERSA À VACINA EM NÚMERO PARECIDO COM O DE CASOS DE FEBRE AMARELA SILVESTRE (Anexo I). Até 22 de fevereiro deste ano, boletim do Ministério da Saúde informava que havia 59 notificações de casos suspeitos de febre amarela silvestre. Desses, 33 foram confirmados, 23 descartados e 3 permanecem sob investigação. Já as reações adversas à vacina, o mesmo boletim informa que foram registrados 52 casos suspeitos. Apesar de ainda não haver confirmação pelo Ministério da Saúde, a coordenadora do Programa Nacional de Imunizações daquele Ministério, Luiza de Marilac Meireles Barbosa, confirmou, em entrevista à jornalista Conceição Lemes (Anexo I), que duas pessoas foram a óbito por reação adversa à vacina, sendo que uma das vítimas, uma senhora de 79 anos de São Paulo, vacinou-se desnecessariamente, pois não precisava viajar a zonas de risco.
10.- Analisando os fatos objetos da presente Representação, conclui-se que a sociedade e suas instituições não podem ficar reféns dos humores, interesses e ações dos veículos de mídia em nosso País. Por isso, os fatos ora trazidos à análise e investigação da D. Autoridade Ministerial Federal, devido à sua extrema gravidade, devem ser tratados de forma exemplar, rigorosa, didática até, para que, no futuro, não voltem a ocorrer. Os órgãos de mídia, vistos por alguns como o Quarto Poder da República, em alguns casos parecem agir de forma a testar a força efetiva de mobilização ou de influência que detêm sobre a sociedade, principalmente sobre as parcelas da população com menores recursos materiais ou intelectuais que lhe possibilite entender - e até se defender - dos efeitos da ação midiática predatória aqui descrita, gerando, não raro, fatos ou situações que não atendem ou refletem os reais e legítimos interesses da sociedade e da democracia, garantidos pelos postulados do Estado Democrático de Direito e sacramentados pela vigente Constituição da República, que devem ser respeitados por todos, pessoas físicas ou jurídicas, de direito público ou privado, pois todos são iguais perante as leis.
DOS PEDIDOS
11.- Por todo o exposto, e com base em matérias jornalísticas impressas e de vídeo anexadas a esta REPRESENTAÇÃO (Anexo I), que foram produzidos pelos veículos aqui representados e outros a serem requisitados pelo órgão, requer-se à D. AUTORIDADE MINISTERIAL FEDERAL que proceda a INVESTIGAÇÃO dos fatos relatados, que, em tese, caracterizariam, s.m.j., crimes previstos na lei nº 5.250/67, em seu artigo 16, perturbação da ordem pública ou alarma social, além de outros possíveis ilícitos previstos na legislação penal, civil e extravagante federal, inclusive a que rege o licenciamento, operação e obrigações legais das concessionárias de meios de comunicação e da vigente Constituição Federal aplicáveis à matéria, a serem devidamente apurados e objetos das medidas judiciais cabíveis no âmbito dessa D. Procuradoria da República. Assim sendo, requer-se à D. Autoridade Ministerial, incumbida pela Constituição da República da defesa da Ordem Jurídica, do Estado Democrático de Direito e dos interesses coletivos, difusos, individuais e indisponíveis da população brasileira, que tome as medidas cabíveis no sentido de:
a) proceder à investigação dos fatos narrados; b) oficiar ao Ministério da Saúde requisitando dados oficiais e estatísticos relativos a ocorrência da doença febre amarela no Brasil, urbana e silvestre, no período dos últimos 10 (dez) anos; a integra do pronunciamento do Ministro da Saúde em cadeia nacional de rádio e televisão noticiada e demais documentos julgados necessários pela D. Autoridade Ministerial; c) promover a eventual responsabilização civil e penal dos envolvidos em ilicitudes, nos termos da legislação federal aplicável e adequada à matéria; d) caracterizada e configurada a hipótese cabível, promover a competente Ação Civil Pública para ressarcimento de todos os danos causados ao Erário Público pelos Representados, em decorrência do acréscimo de vacinação desnecessário na população, depositando os recursos oriundos da condenação em Fundo Especial para Ressarcimento das Vítimas da vacinação indevida e do Ministério da Saúde.