Editorial - convulsão na América Latina

Limite da resignação

 

 

A primeira postagem que fiz neste blog data de 12 de janeiro de 2006. Naquele momento, materializei concepção que vinha fazendo sobre um veículo que chamaria de Cidadania.com.

 

Agi impulsionado por um sentimento de impotência insuportável diante do que grandes meios de comunicação (jornais, tevês, rádios...) vinham fazendo com o país ao criarem uma crise política que já se percebia, em seu limiar, que pretendia abalar a ordem institucional da nação e, se possível, depor, mais uma vez na história da América Latina, um governo de esquerda legitimamente eleito.

 

Durante os primeiros meses, amarguei, neste blog, a sensação terrível de estar me esgoelando de escrever apenas para as paredes, para ninguém, pois um cidadão comum, um mero comerciante, não poderia almejar ser levado a sério nos grandes debates públicos.

 

Aos poucos, no entanto, as pessoas foram chegando. Eu as atraía quando podia. Ia aos blogs corporativos como os do Noblat ou o do Josias de Souza e pedia às pessoas para virem ao Cidadania lerem-me dizer exatamente o contrário do que aqueles blogueiros privilegiados (com a exposição em grandes portais de internet) diziam o quanto queriam, e que eram mentiras e distorções dos fatos literalmente cínicas e debochadas, que transformavam tais fatos das formas mais absurdas de forma a caberem na mentira contada por seus patrões diariamente.

 

Ao fim do primeiro ano do Cidadania, o blog já era lido por centenas de pessoas. Eu acompanhava a evolução dos contadores de acessos, porém, e não entendia por que tantos vinham ler o que eu escrevia mas não se uniam à indignação que eu tentava expulsar de minha alma. Era certo que muitos dos leitores discordavam de mim, mas será que não havia ninguém que concordava comigo e que poderia engrossar meus protestos com seu apoio?

 

No segundo ano do blog, minha indignação e sentimento inaceitável de impotência só faziam aumentar. Alguns abnegados haviam se juntado a mim, então, fazendo questão de comentarem aqui e, juntos, chegamos a cogitar publicação de matérias pagas em jornais, como forma de dizer na mídia o que ela impedia de dizer quem discordasse dela no processo de desmoralização e de pretensa inviabilização do governo Lula.

 

Desistimos daquela idéia em pouco tempo, pois as campanhas de desinformação da mídia fluíam e refluíam, de forma a desorientar ainda mais os críticos da manipulação do noticiário, e acabamos deixando a idéia para lá, até por falta de recursos para colocá-la em prática.

 

No segundo semestre de 2007, porém, em meio a uma das mais insidiosas campanhas midiáticas que já ameaçaram as instituições na história recente do país, campanha que intimidou e coagiu os membros do Supremo Tribunal Federal a aceitar a denúncia do procurador-geral da República no caso do suposto “mensalão” – que, na verdade, tratou-se de financiamento ilegal de campanha de políticos do PT, mas que abrangia todos os partidos, apesar de a mídia esconder -, naquele momento as pessoas pareceram ter se dado conta do tamanho que o monstro midiático havia alcançado e, às centenas, acorreram a este espaço para se colocarem à disposição para uma ação de protesto mais concreta.

 

Criamos uma ONG, o Movimento dos Sem Mídia, e fomos às ruas protestar três vezes (diante da Folha, da Globo e no MASP, em São Paulo, pelo impeachment de Giilmar Mendes). A ONG ainda fez uma representação ao Ministério Público contra os maiores meios de comunicação do país, por campanha deles que hospitalizou e até matou pessoas ao alardear que haveria uma epidemia de febre amarela no país.

 

Essas ações surgidas aqui foram deixando de ser isoladas. Outras manifestações começaram a ocorrer, promovidas por várias associações da sociedade civil, por sindicatos e partidos, todos em protesto contra os grandes meios de comunicação, de uma forma que fez se tornar fato amplamente conhecido hoje que grupos empresariais como as organizações Globo, o grupo Folha, a Editora Abril e vários outros impérios de comunicação, que todos eles haviam se tornado como que armas do grupo político que se opunha ao governo Lula, o consórcio político-partidário formado pelo PSDB, pelo PFL, pelo patético PPS, de Roberto Freire, e que conta com a ajuda dissimulada do PSOL, da ressentida Heloísa Helena.

 

Agora, vejo uma situação se materializando na América Latina que nem em meus pesadelos imaginei que voltaria a ver outra vez na mesma vida, se é que se tem mais de uma vida. Nesse contexto, o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, fez um chamamento aos demais chefes de Estado latino-americanos na última sexta-feira (12/09) que precisa ser destacado. Ele anunciou reunião de presidentes dos países da União de Nações Sul-Americanas (Unasul), que acontecerá na próxima segunda-feira (15/09) em Santiago do Chile. A reunião discutirá a crise na Bolívia.

 

O presidente da Venezuela conversou com os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva, Evo Morales (Bolívia), Cristina de Kirchner (Argentina), Michelle Bachelet (Chile), Fernando Lugo (Paraguai), Rafael Correa (Equador) e com Álvaro Uribe (Colômbia).

 

"Decidimos, na tarde de hoje, nos reunir em Santiago na segunda-feira à tarde, uma reunião extraordinária da Unasul, em busca de ações" para a crise na Bolívia, afirmou o presidente venezuelano.

 

Chávez disse que é preciso "agir a tempo, antes que a Bolívia tenha cinco ou dez mil mortos pela crise e antes que tenham derrubado Morales”. E disse que há um golpe de Estado em andamento. “Estão derrubando Morales debaixo dos nossos narizes e isso vai gerar um impacto terrível, uma catástrofe na América do Sul", prognosticou.

 

Chávez ainda formulou outras ponderações óbvias: "Quem está por trás de tudo isto? Temos um personagem que é presidente dos EUA e que sabe que tem poucos meses no poder. Por isso, está acelerando seus planos para deixar a América Latina como um enxame de abelhas solto, e temos de parar isso".

 

O presidente venezuelano afirmou que na reunião de Santiago serão "tomadas várias decisões", pois “o mundo e os fascistas da Bolívia precisam saber que não vamos aceitar nenhum outro governo que não seja o de Morales”.

 

Enquanto tudo isso acontece, vejo Arnaldo Jabor, no Jornal da Globo, chamando Evo Morales e Chávez de ditadores – no exato momento em que a oposição promove atentados a bomba e manda milicianos dispararem até contra mulheres e crianças camponesas dos grupos de apoio Morales – e o UOL publicando manchete que diz que os oposicionistas bolivianos estão se “refugiando” no Brasil, quando são eles que estão assassinando apoiadores do governo boliviano.

 

Está sendo noticiado pela mídia “alternativa” o genocídio que está sendo promovido pelos governadores da “Meia Lua” boliviana, inimigos de Morales e financiadores e organizadores das milícias que estão impondo o terror no país vizinho, com atentados a bomba e, agora, assassinato de 14 camponeses favoráveis ao governo central. A Agência Carta Maior tem um correspondente lá, Marco Weissheimer, que está transmitindo relatos detalhados do plano engendrado pelo governo Bush e pelos governadores bolivianos revoltosos.

 

Mas a grande mídia continua esbofeteando todo aquele que sabe que o que está acontecendo na Bolívia já ameaça convulsionar o resto da América do Sul. E isso num momento em que a direita do continente vê suas chances eleitorais se esvaindo, como no Brasil, onde o sucesso espetacular da economia tornou o presidente Lula eleitoralmente imbatível, ao menos neste momento, ameaçando os planos da direita brasileira de, em 2010, eleger o governador de São Paulo, José Serra, presidente da República.

 

E não é só Chávez quem diz sobre o risco que correm as democracias latino-americanas por conta do golpismo financiado pelos EUA. Vários artigos e reportagens estão denunciando o mesmo por toda parte. Cada vez menos gente acha ridícula a teoria de que a Quarta Frota americana teria sido recriada por conta de os EUA estarem planejando ministrar sua “democracia” na marra também aqui em seu quintal, na América Latina, a exemplo do que fizeram no Oriente Médio e em tantas outras partes do mundo no decorrer da história.

 

Estou preocupado de verdade. E o que mais me preocupa não é apenas o vislumbre, por mais de relance que ainda seja, de um passado negro nesta parte do mundo, quando a democracia foi estuprada porque os americanos acharam que precisávamos da democracia que eles gostam de receitar para o Terceiro Mundo, uma democracia sem direitos civis, sem eleições, com muita censura, tortura e sumiços de “comunistas”. O que mais me preocupa é o limite da resignação com o falseamento dos fatos pela mídia, que faz parte das campanhas golpistas financiadas pelos americanos nesta parte do mundo.

 

A boa situação econômica do Brasil e a suposta desmoralização da mídia partidarizada e ideologizada geraram um alto limite de resignação na sociedade diante de verdadeiros crimes como está sendo a cobertura jornalística dos grandes veículos sobre a crise na Bolívia. Essa suposta desmoralização, no entanto, está longe de ter retirado das famílias Marinho, Frias, Civita e asseclas o poder de gerarem crises institucionais, haja vista a queda dos policiais que investigaram e prenderam um dos maiores escroques do país na atualidade, Daniel Dantas.

 

Preocupa-me imaginar que limite a sociedade irá impor a essa resignação diante da eterna manipulação americana das realidades latino-americanas, que se faz por meio desses impérios de facínoras que venderam suas gigantescas empresas de comunicação para que o governo americano de turno imponha a elas o noticiário que julga que condiz melhor com os “interesses dos americanos” fora das fronteiras deles. Preocupa-me, pois a Bolívia pode muito bem ser o Brasil amanhã, se aceitarmos o que está sendo feito pelos EUA e pela mídia latino-americana.



 Escrito por Eduardo Guimarães às 14h06
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Vídeo - crise na Bolívia

Evo fala do golpismo

 

 

 Transcrição em português postada às 10:50 hs. de 13 de setembro de 2008

 

 

Decidi transcrever em português a entrevista coletiva concedida por Evo Morales à imprensa de seu país e reproduzida no vídeo acima. Faço isso mais por indignação do que por qualquer outra coisa. Indignação com a distorção dos fatos que todos os meios de comunicação estão fazendo, por ocultarem a dimensão real das ações criminosas da oposição boliviana, a abundância de provas de que os EUA estão envolvidos no levante oposicionista contra Evo e por transformarem o próprio presidente da Bolívia, que tem agido com responsabilidade e serenidade em meio a todo esse caos, no causador dos desatinos oposicionistas de inspiração ianque.

 

Voltarei ao assunto da manipulação midiática sobre a crise na Bolívia. No momento, porém, quero deixar registrado que o trabalho que me dei de transcrever em português o vídeo em questão – o que não chega a ser necessário, pois é compreensível mesmo sem tradução – constitui um ato de protesto como outros que penso em adotar por conta desse noticiário criminoso, mentiroso, canalha a mais não poder que está sendo fabricado pelas organizações Globo, pelo grupo Folha, pelo grupo Estado e por vários outros grandes meios de comunicação que fazem o jogo do golpismo de Washington aqui na América do Sul.

 

O vídeo acima é de entrevista coletiva concedida pelo presidente boliviano, Evo Morales. No vídeo, ele é questionado por dois jornalistas sobre os conflitos no país. A cada um deles dá resposta extensa e serena, e o vídeo termina com uma declaração em tom de resignação e repugnância do primeiro mandatário da Bolívia, eleito e reeleito por enorme maioria de seus compatriotas e que tem grande apoio entre a população dos “departamentos” bolivianos revoltosos (só em Santa Cruz, Morales obteve 42% dos votos no recente referendo revogatório que ocorreu no país), apesar de essa população que o apóia estar sendo oprimida pela violência na região da “Meia Lua”.

 

Começa o vídeo com pergunta de um jornalista a Evo:

 

Jornalista 1 – Queremos saber, presidente, a opinião do governo. Neste momento, o que se vai fazer, presidente? Há bloqueio de estradas, há desabastecimento de gás em várias regiões, estão sendo tomadas instituições públicas em Beni, Pando, há pontos de bloqueio muito importantes em todo o país, um esgotamento quanto ao sistema econômico fundamentalmente para a população... Que irá fazer o governo neste momento, Sr. Presidente?

 

Evo Morales – Desde as sete da manhã estou recebendo informações de distintos ministros... Que têm que ver muito com os conflitos sociais. Também do vice-presidente da República, de que em algumas regiões se levantam bloqueios de caminhos... São bloqueios que não objetivam alguma reivindicação, são estritamente políticos... E se fala de invasões de algumas instituições em Cobija, em Tarija... E o pedido de alguns prefeitos, de alguns comitês cívicos de retirarmos as forças armadas e essa não é só uma ação política, é um golpe civil contra o estado.

 

Recordo perfeitamente: nas últimas ditaduras, os golpes de estado partiam de Trinidad, do oriente boliviano. Sinto que algumas pessoas, com mentalidade ditatorial, golpista, antidemocrática, sobrevivem no oriente boliviano e por isso pedem a retirada das forças armadas para tomarem as instituições.

 

O governo nacional fará respeitarem as instituições do estado. É obrigação do estado... ou do governo, fazer respeitar as instituições do estado... E há uma comissão, que vinha trabalhando e que vai seguir trabalhando para garantir a segurança, as instituições, mas, também, o povo boliviano.

 

Lamento muito que haja grupos como o mal chamado conselho nacional pela democracia. Chego à conclusão que é um conselho nacional da direita, e quando as forças armadas não o obedecem para um golpe militar buscam um golpe civil... contra o estado.

 

O povo julgará, finalmente, porque as agressões, as provocações ao povo já são intoleráveis. Não se quer respeitar o referendo da nova constituição que será promulgada por referendo ou por decreto ou pela lei... É uma conspiração aberta contra o estado e as normas vigentes. Repito: só o povo julgará essas versões que vêm de alguns grupos, de algumas [Morales suspira] autoridades eleitas legalmente – ou legitimamente -, mas também estive revisando algumas informações que repudiam e rechaçam ações que prejudicam os departamentos [estados].

 

No fundo, penso que esses grupos - que são cada vez menores, mas cada vez mais violentos –, se não estão de acordo com a nova constituição, que o expressem nas urnas, não com a violência [tom de perplexidade], com a consciência, que sua consciência defina em vez de apelar para a violência.

 

Vocês sabem que eu fui dirigente sindical por muitos anos e conduzi marchas e protestos, mas todos sempre estiveram de acordo com a maioria do povo boliviano. Fiz tantas vezes marchas em Cochabamba, aqui em La Paz, as praças ficavam pequenas para nossas marchas, o povo da cidade apoiava, não somente pela marcha, mas pelo cultivo de coca e pela recuperação dos recursos naturais [fala da nacionalização do petróleo e derivados pelo estado boliviano], pela mudança de modelo econômico...

 

Esses manifestantes não fazem questionamento do modelo econômico. Nada. Só pedem IDH, IDH [imposto sobre receitas do petróleo cobrado dos estados]. O IDH não está na mão do presidente, está na mão das prefeituras [governo do estado]. E também recebi alguns pedidos de alguns prefeitos que talvez todo IDH fique nas alcaldias [prefeituras]. São pedidos de algumas alcaldias, de algumas organizações...

 

Hoje tenho uma reunião em Cochabamba com os alcaides [prefeitos]. Vamos seguir debatendo. Estamos escutando as propostas dos distintos setores e também de instituições do estado como as alcaldias... Porém, aqui, repito novamente, estão em debate profundo todos os modelos econômicos. Os neoliberais estão promovendo esse tipo de violência porque querem voltar ao governo, mas o povo apóia este processo de mudança que está acontecendo no país, esta revolução democrática e cultural...

 

Jornalista 2 – Presidente...

 

Evo – ...em todo caso, é obrigação do governo trabalhar de maneira conjunta com os distintos setores e regiões do país.

 

Jornalista 2 – Será retomado o diálogo, presidente? Esta situação fica cada vez mais difícil... O senhor está condenando a violência, mas essa declaração não pode gerar mais violência? A oposição diz que quando o senhor promovia bloqueios ninguém lhe impunha um “decreto supremo” [ato do governo que ordenou o fim dos bloqueios e atos de violência]. Por sorte o senhor virou presidente da república, por um lado [a jornalista faz ironia sobre a inversão de papéis de Evo e dos que governavam e, então, ele os incomodava]. E por outro lado, presidente, precisamente contra a violência, que fará o poder executivo quanto à ameaça de cerco de Santa Cruz inclusive por parte dos membros do seu partido, o MAS, no congresso da república.

 

Evo – Alegro-me que você reconheça que é a direita que ataca o governo. Coincidimos, aí. A felicito de verdade, de maneira pública, assim como quero que todos reconheçam que é a direita, de maneira racista, fascista, que ataca o povo boliviano.

 

Eu nunca usei alcaldias ou prefeituras... Certamente alguns companheiros jornalistas, e especialmente os jornais cochabambinos, como a companheira [aponta a jornalista que fez a ironia] sabe muito bem, fazíamos todo um esforço sob um sentimento de um setor e de toda a população. Nossas marchas, nossas mobilizações, jamais foram financiadas nem por alcaldias nem por prefeituras, muito menos pelo governo nacional. Esse é o mais importante. Por isso é importante a consciência do povo.

 

Escutamos, em Trinidad, que a oposição [alude aos governos estaduais e municipais controlados pela oposição] paga 200 bolivianos por dia [cerca de 70 dólares] para agredirem o povo. Que tipo de mobilização é essa? Parece que alguns prefeitos querem mais dinheiro público para pagarem grupos para baterem nas pessoas pobres. O que está acontecendo no país?

 

Quando viajei ao exterior, pedi que se [os prefeitos revoltosos] não querem vir conversar [com o governo central] juntos, que os ministros conversarão com cada um. Contatamos o governo de Tarija... Alguns [emissários do governo central] foram buscar os [governos dos] estados [da “Meia Lua”], porém sem nenhum resultado. Fazemos chamadas telefônicas e eles não atendem as chamadas telefônicas...

 

Quero dizer, como disse nossa companheira jornalista, que a direita trata de sobreviver... com violência.

 



 Escrito por Eduardo Guimarães às 18h28
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Análise - pesquisa Datafolha

A vitória dos pobres

 

 

 

Popularidade de Lula, ano a ano, segundo o Datafolha

 

 

 

Pesquisa Datafolha sobre a popularidade do presidente Luiz Inácio Lula da Silva divulgada hoje contém um dado ainda mais importante do que aquele que está sendo destacado neste momento, de que o presidente, além de ter atingido um nível recorde de aprovação, maior do que o de qualquer outro presidente – inclusive de si mesmo – depois da redemocratização do país, agora é mais aprovado do que rejeitado entre os setores mais ricos da sociedade e nas duas regiões em que sofria maior resistência, no Sul e no Sudeste do país.

 

Mas minha pesquisa  no site do Datafolha  comprovou um fato do qual eu suspeitava, mas que nunca havia verificado: entre os mais escolarizados, Lula nunca foi mais mal do que bem avaliado. Ele só perdia entre os mais ricos, com  renda acima de 10 salários mínimos.

 

Em junho de 2003, primeiro ano do governo Lula, 57% das pessoas com ensino fundamental  qualificavam o presidente da República  como “bom ou ótimo” e 12% das pessoas com esse nível de instrução consideravam-no “ruim ou péssimo”. Já entre os de nível de instrução superior, 40% o consideravam “bom ou ótimo” e 20% o consideravam “ruim ou péssimo”.

 

Durante o auge do escândalo do mensalão, em agosto de 2005, o mesmo Datafolha dizia que 31% entre os com ensino fundamental consideravam o presidente “bom ou ótimo” e o número recorde de 28% o consideravam “ruim ou péssimo”. Entre os mais escolarizados, para minha surpresa descobri que apoiavam mais o presidente do que os menos instruídos, na proporção de 34% de “bom e ótimo”e 24% de “ruim e péssimo”.

 

Naquele momento, porém, quem divergia sobre o governo eram os mais ricos e os mais pobres. Em agosto de 2005, 32% dos que ganhavam até 5 salários mínimos consideravam Lula “bom ou ótimo” e 26% o consideravam “ruim ou péssimo”, enquanto que nos estratos mais ricos, com renda superior a 10 salários mínimos, o percentual dos que consideravam Lula “bom ou ótimo” deixou de ser maior. Apenas 26% consideravam o presidente “bom ou ótimo” e 31% opinavam que era um presidente “ruim ou péssimo”.

 

O que revelam esses dados de mais importante?  Revelam que, pela primeira vez na história, a elite financeira convergiu para a opinião política das massas empobrecidas, enquanto que a história mostra que sempre tinha sido o contrário, com os mais pobres assumindo a opinião política dos mais ricos, como bem mostrava a teoria que a mídia partidarizada alardeava no auge do escândalo do “mensalão”, a tal teoria sobre a “pedra no lago”, através da qual propugnava-se que as notícias sobre a “corrupção” do governo e a conseqüente desaprovação a ele iriam se propagando do “centro” da sociedade (dos setores mais abastados e instruídos) para a “periferia” (os setores mais empobrecidos e incultos).

 

A importância sociológica desse dado é impressionante. Não se pode esquecer de que durante os últimos anos houve uma verdadeira guerra da mídia contra Lula, com supressão da maior parte das opiniões favoráveis ao presidente e com espaço desproporcional nessa mesma mídia para os setores sociais refratários verterem suas idiossincrasias e preconceitos contra o nordestino pobre que virou presidente.

 

Ainda hoje, apesar da popularidade de Lula, é fácil ver como na mídia do Sul e do Sudeste, sobretudo, vige uma ampla maioria de ataques ao presidente. Nos jornais paulistas ou cariocas, por exemplo, se fizermos um apanhado das cartas de leitores veremos que a maioria que fala do presidente, só faz atacá-lo. Num jornal como o Estadão, por exemplo, ou numa revista Veja, chega a ser raro que alguém se manifeste a favor de Lula ou de seu governo.

 

A mídia continua tentando represar um apoio ao presidente da República que já beira a unanimidade. Mesmo nos jornais que dissimulam seu partidarismo, como a Folha, as notícias e críticas contrárias ao presidente ainda são consistente maioria, em clara tentativa midiática de “fabricar” uma opinião pública que inexiste em prol das preferências políticas desses impérios de comunicação.

 

A importância dessa pesquisa reside na inevitável conclusão de que mudanças sociais profundas passaram a ocorrer durante a era Lula, que entrará para história como o período em que o Brasil finalmente se ergueu diante do mundo e os brasileiros diante das elites mesquinhas e sem juízo desta grande nação.



 Escrito por Eduardo Guimarães às 11h19
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Sugestão de leitura

CPI do Sistema Carcerário

 

 

 

  

"Só quem está preso no Brasil é colarinho preto. Mais de 98% [dos presos] são pessoas pobres. Não tiveram emprego formal, são moradores da periferia, famílias desajustadas, a maioria de negros e pardos"

 

 

 

A declaração acima é de autoria do deputado federal Domingos Dutra (PT-MA) em matéria do jornalista Luiz Carlos Azenha publicada no site da revista Carta Capital.

 

O que o deputado petista declarou não é uma opinião, é uma informação. Sim, quem vai preso mesmo no Brasil são os negros pobres. Brancos pobres representam a ínfima minoria, e ricos, se há, pode-se contar nos dedos de uma mão.

 

A matéria em questão versa sobre a CPI do sistema carcerário, que graças ao Azenha descobri que está terminando, e o jornalista se concentrou nas conclusões da Comissão, que revelam um quadro dantesco e que explica bem a situação da segurança pública no Brasil.

 

Para ler a matéria de Luiz Carlos Azenha, clique aqui.



 Escrito por Eduardo Guimarães às 19h03
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Reportagem - crise na Bolívia

“Donde les duele más”

 

 Atualizado às 17:27 hs. de 11 de setembro de 2008

 

 

 

Rubén Costas (esq), "prefeito" de Sta. Cruz, e Branko

Marinkovic (dir), líder do "comitê cívico" de Sta. Cruz 

 

 

 

Escrevo em seguida a uma conversa telefônica que tive com o amigo e cliente boliviano engenheiro Juan Carlos. Diante do que ouvi, venho reportar a conversa a vocês porque o que me foi revelado nela agrega fatos novos ao que se sabe sobre a situação naquele país.

 

Antes, porém, quero falar um pouco sobre o engenheiro Juan Carlos. Descendente de alemães, passou boa parte de sua vida no país de seus antepassados. Contudo, suas raízes com a Bolívia o trouxeram de volta ao seu país natal depois da Segunda Guerra Mundial.

 

Juan Carlos casou-se com uma boliviana e teve filhos mestiços. Montou uma importadora de peças para máquinas agrícolas num país em que a agricultura viceja cada vez mais e ficou muito bem de vida, no mínimo.

 

Meu amigo boliviano é um patrão diferente. Seus funcionários, na maioria índios, são tratados com amizade e respeito. Paga salários acima da média e seus subordinados o reverenciam pela bondade e alegria que transmite.

 

Recorro a esse homem toda vez que preciso de informações ponderadas sobre o que acontece na Bolívia.

 

Espantei-me, nos últimos dias, com o imobilismo do governo Evo Morales diante de um verdadeiro terrorismo de estado que vem sendo promovido pelos governadores da “Meia Lua”, que assumem tranquilamente ser os mentores dos atentados e da implementação de um legítimo estado de sítio na região.

 

Juan Carlos explicou-me, tintim por tintim, o plano encabeçado pelo “prefecto” de Santa Cruz de La Sierra, Rubén Costas, e pelo líder do Comitê Cívico cruzenho, Branko Marinkovic. Vale ressaltar que o que pretendem esses que hoje são os líderes da oposição a Morales é amplamente conhecido e discutido não só em Santa Cruz ou nos outros estados da “Meia Lua”. Todos na Bolívia sabem o que eles pretendem. E até clientes meus que odeiam literalmente Evo Morales admitem que era esse o plano.

 

Em primeiro lugar, não há dúvidas de que o embaixador americano na Bolívia, Philip Goldberg (que acaba de ser expulso do país), tem se reunido com freqüência com os líderes da oposição, e que “confraterniza” abertamente com eles e com outras figuras eminentes que se opõem a Evo Morales.

 

Como na tentativa de golpe de estado na Venezuela em 2002, no processo sedicioso na Bolívia as digitais americanas estão por toda parte.

 

O plano de desestabilização do governo boliviano, porém, não contava com a passividade dele diante dos atentados violentos, da invasão de prédios públicos, da repressão ao direito de ir e vir dos cidadãos sejam  pró ou contra o governo. Os golpistas acharam que Morales mandaria o exército reprimir as milícias dos governos da “Meia Lua” e que nesses choques haveria muitas mortes, que depois seriam vendidas pela mídia como ações de um “governo ditadorial”. No limite, haveria até intervenção americana para “restabelecer a democracia” no país – como no Iraque, lembram-se?

 

A serenidade do governo Morales desarticulou os planos desestabilizadores da oposição de direita. O apoio internacional ao governo constitucional da Bolívia está crescendo e já se caminha para a constituição de uma frente mundial contrária aos atos terroristas dos governos da “Meia Lua”.

 

Os EUA não têm como dizer um A contra Morales. Agindo estritamente dentro da lei, evitando o confronto apesar de ter domínio completo e absoluto sobre as forças armadas – apesar de jornais como a Folha de São Paulo estarem mentindo aos seus leitores dizendo que o apoio das forças armadas bolivianas a Morales seria incerto –, o governo Morales colocou-se acima de qualquer questionamento, e os terroristas de estado estão sendo unanimemente condenados até na mídia brasileira, que tentou esconder as sandices da direita boliviana até onde pôde.

 

Na edição de ontem da Folha de São Paulo, por exemplo, até o “xodó” da imprensa golpista e da direita tupiniquins, o colunista Clóvis Rossi, teve que tentar salvar a cara e se pronunciar às pressas contra as loucuras da direita boliviana.

 

Porém, apesar de essas loucuras estarem provocando baixas consideráveis na popularidade de Costas e Marinkovic – entre outros líderes dos terroristas de estado –, quis saber do engenheiro Juan Carlos aonde vai dar tudo isso.

 

Juan Carlos, com um tom divertido na voz, explicou-me: “no hay por qué preocuparse, mi hijo, pues esta gente que los apoya a los golpistas ya empieza a sentir dolores donde les duele más, o sea, en el bolsillo”.

 

Tradução: “Não há porque se preocupar, meu filho, pois essa gente que apóia os golpistas já começa a sentir dores onde lhes dói mais, ou seja, no bolso”.

 

Essa é a questão: ninguém agüenta mais o cerco às cidades promovido pela oposição a Evo Morales, pois tal cerco está mantendo represada a produção de grãos, leite, carne, óleo comestível etc.

 

Os prejuízos começam a se impor sobretudo aos apoiadores mais tradicionais e convictos do golpismo da elite branca, racista e de direita da “Meia Lua”, os empresários da região. E, como se sabe, o bolso é o “órgão” mais sensível do corpo dos reacionários racistas da direita latino-americana. Em questão de dias, Costas e Marinkovic descobrirão a ampla dimensão dessa “sensibilidade” tão “particular” da direita.

 

 

Conforme noticieihttp://bn.i.uol.com.br/1x1.gif

 

 

11/09/2008 - 15h33

 

Sobe para quatro o número de mortos em confrontos na Bolívia

 

Do UOL Notícias
Em São Paulo

 

O vice-ministro do Interior da Bolívia, Rubén Gamarra, informou à imprensa que quatro pessoas foram mortas em confronto nesta quinta-feira (11) na cidade Porvenir, no departamento (Estado) de Pando, na fronteira entre o país e o Brasil, segundo informações da agência estatal boliviana ABI.

 

As mortes ocorreram no confronto entre grupos de oposição ao presidente, Evo Morales, e camponeses que o apóiam. Segundo Gamarra, os mortos eram um funcionário da prefeitura, um vereador do município de Porvenir e dois camponeses.

Ainda de acordo com a agência estatal, citando uma representante do governo, Nancy Teixeira, os nomes dos mortos são Pedro Oshiro, Emilio Pena, Hernani Uzquiano; o quarto nome não foi divulgado. Nos confrontos, vinte pessoas ficaram feridas e um número não determinado de bolivianos estariam desaparecidos



 Escrito por Eduardo Guimarães às 11h22
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Editorial - política internacional

A reação de Evo Morales

 

 

Venho insistindo há muito tempo no assunto das convulsões políticas e sociais que se espalham pela América Latina porque, como observador compulsório dessas realidades vizinhas à nossa (por dever de ofício), sei que, cedo ou tarde, essas convulsões crescentes acabarão produzindo efeitos aqui no Brasil.

 

O recrudescimento da crise política na Bolívia aos poucos vai se impondo no noticiário da grande imprensa, sobretudo na televisiva, e assim, de repente, as pessoas se lembrarão daqueles que, como eu, há tanto tempo vimos chamando a atenção para a interferência das relações exteriores em nosso cotidiano, sobretudo quando tais relações são com nossos vizinhos.

 

As notícias de atentado a bomba em complexo petrolífero boliviano, em lugar de prenunciar o auge do conflito digo que prenuncia o começo da cobrança de um preço exorbitante pela intolerância e pelo desrespeito à democracia de políticos criminosos daquele país: sangue humano. É esse o preço desse conflito, um preço que ainda não foi cobrado porque o estadista Evo Morales não quer pagar reagindo intempestivamente.

 

É difícil, para quem não teve oportunidade de se embrenhar por um país como a Bolívia – como eu já fiz incontáveis vezes –, entender por que os que são minoria, não têm o poder, não têm armas ou tropas comparáveis às das forças armadas bolivianas, desafiam dessa maneira o estado mesmo sabendo que não teriam como vencer um conflito real se ele se instalasse.

 

A direita boliviana vem falando em guerra civil há anos, e há anos que venho relatando isso neste blog. Durante muito tempo foi bravata de empresários descontentes com medidas redistributivas do governo central, mas a intolerância e a ruptura progressiva de um modelo econômico que propiciou à Bolívia o “troféu pobreza” sul-americano desencadearam, outra vez na América Latina, reação violenta e autoritária dos estratos sociais superiores contra os inferiores.

 

Esses movimentos libertários e reformistas por meio da eleição pela maioria de governantes mais afinados com os interesses majoritários dos países latino-americanos sempre foram sufocados com facilidade e com prestimosa ajuda norte-americana, o que jogou a região em ditaduras militares ferozes, engendradas por Washington.

 

No atual estágio civilizatório da humanidade, porém, aquele tipo de “solução” de décadas passadas que extirpava governos reformistas e distributivistas com facilidade e sob a anuência da comunidade das nações, foi deixando de sê-lo. Solução não é mais. Poder ser método, porém questionável.

 

Mas a interligação eletrônica da humanidade e a própria dinâmica da sedimentação da democracia em grande parte do mundo permitem que hoje a história dos golpes de Estado não seja contada só pelos golpistas, que, em seguida aos golpes bem sucedidos, tratam de censurar tudo que não lhes interessa que seja divulgado.

 

É por conta dessa interligação humana contemporânea que Evo Morales, um estrategista que se revela, estende a corda para os golpistas se enforcarem.

 

Antes de escrever este texto falei por telefone com várias fontes de informação que tenho na Bolívia. Posso lhes adiantar mais algumas coisas.

 

Falei com oposicionistas ferrenhos que não suportam mais o que a oposição está fazendo. Cidadãos comuns estão sendo agredidos pelas milícias dos “prefeitos” de oposição ao governo central. Esses prefeitos já assumiram a autoria e a organização dos ataques e dos infernais bloqueios que interferem com o direito de ir e vir. Em qualquer país, estariam cometendo crimes. E na Bolívia também estão.

 

A redução do fornecimento de gás ao Brasil e os prejuízos milionários causados aos cofres públicos pelos atos de sabotagem, pela intimidação e pela agressão até a cidadãos simpáticos à oposição a Morales já começam a gerar um sentimento de revolta na parte da população que rejeita o governo central, e as notícias sobre os atos ensandecidos daquela oposição já se espalham pelo mundo de forma que já justificam reação coercitiva do estado boliviano.

 

A atitude do presidente Morales de expulsar o embaixador norte-americano é uma demonstração de força, um aviso de que o país tem leis e que as usará para punir os que estão cometendo crimes que são gravíssimos em qualquer país. É como se Morales dissesse aos governadores oposicionistas sediciosos: comecei por um superior de vocês.

 

O próximo passo será responsabilização criminal dos terroristas e inclusive dos seus chefes, os governadores da “Meia Lua”. As provas de que estão organizando os ataques começam a se avolumar. Agressões físicas, sabotagens, roubos, destruição de patrimônio público e já há boatos (sem confirmação) sobre camponeses mortos pelas milícias da direita boliviana.

 

O governo brasileiro e todos os outros governos da região, com a provável exceção do governo da Colômbia, tratarão de condenar a oposição de direita ao governo Morales, e no momento em que as forças armadas tiverem que ser empregadas para fazer cumprir a lei a opinião da maioria das fontes com quem falei hoje é a de que essas leis serão cumpridas de qualquer maneira, no fim.

 

A aposta de Evo Morales é alta, mas se ele vencer essa “mão” do pôquer político terá causado graves danos aos setores minoritários da sociedade boliviana que parecem esperar uma intervenção americana em caso de reação do governo central. Essa intervenção poderá ser extremamente dificultada pela comunidade das nações.

 

Os presidentes Hugo Chávez, da Venezuela, e Rafael Correa, do Equador, já se prontificaram anteriormente a enviar ajuda militar à Bolívia em caso de invasão ou de tentativa de golpe de estado. Chávez diz que “não aceitará” a derrubada de Morales, sobretudo se houver provas de envolvimento americano.

 

No entanto, a maioria das fontes com quem tenho falado vem dizendo que o separatismo seria mais provável do que a tentativa de derrubar o governo, pois a oposição sabe que não tem como assumir o governo da Bolívia numa La Paz que chega a ter mais de oitenta por cento de apoio popular a Morales.

 

O Brasil certamente não aceitará a ruptura institucional que a oposição boliviana parece pretender. No mínimo, um governo ilegítimo, produto de um golpe, ou a tentativa da região da “Meia Lua” de se separar do resto da Bolívia, as duas hipóteses provocariam o não reconhecimento da região como estado autônomo pelo Brasil.

 

Os indignados com o golpismo terrorista da direita racista boliviana podem ter a certeza de que serão redimidos. A reação de Evo Morales virá, cedo ou tarde. Mas virá de forma racional e planejada. A menos que a oposição direitista e os EUA recuem.



 Escrito por Eduardo Guimarães às 20h51
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Análise - política internacional

Brasil poderia virar uma Bolívia

 

 

Milícia da UJC em ação: porretes e caminhonetes

 

Primeiro enumerarei alguns fatos de forma que se tornem pano de fundo para a discussão que proporei em seguida.

 

1 – Em 10 de agosto deste ano, o presidente da Bolívia, Evo Morales, foi ratificado em 95 das 112 províncias do país. Nacionalmente, recebeu 67,41% dos votos, mais ainda que os 53,3% que o  elegeram presidente em 2005. Sua votação cresceu em oito dos nove departamentos  – após 30 meses de governo.  Além disso, foram ratificados os dois governadores do partido do governo, o MAS,  e revogados dois dos governadores oposicionistas.

 

2 - A oposição a Evo Morales passou a ignorar seus apelos por diálogo e decidiu radicalizar e não aceitar o resultado das eleições, apesar de auditadas internacionalmente e declaradas cem por cento limpas e representativas da vontade democrática da maioria do povo boliviano.

 

3 – (Com informações do site “Vermelho”, a partir deste ponto) O método da oposição para a radicalização tem sido a conformação de bandos violentos, a partir do recrutamento de lúmpens e delinqüentes para conformar milícias paramilitares, como por exemplo a União “da Juventude” Cruzenha (a UJC de Santa Cruz). Armada de enormes porretes e circulando em caminhonetes, a UJC dedica-se a ocupar e destruir instalações públicas e postos de arrecadação tributária do governo central, bloquear estradas e postos de fronteira. Chega a atacar fisicamente pobres e camponeses com feições de indígenas das terras altas bolivianas.

 

 Dentre os slogans que animam essas milícias, está: “Terminemos com os 'collas', raça maldita”. "Collas" são os indigenas e mestiços com origem no altiplano e que se espalharam por todo o país, dedicando-se em geral a tarefas agrícolas e ao trabalho de vendedor de rua.


A Embaixada dos EUA está envolvida diretamente na formação destes grupos, segundo denunciou Evo Morales. Patrocina políticoa e materialmente essas milícias essas milícias, através da Usaid (United States Agency for International Development).


“Tenho informações de algumas autoridades, especialmente do Departamento de Santa Cruz, de que há pessoas que trabalham para a embaixada americana e organizam esses grupos”, disse o presidente no último domingo. O embaixador estadunidense, Philip Goldberg – o mesmo que, como embaixador dos EUA na ex-Iugoslávia, operou a crise de Kosovo, há dez anos – circula intensamente pelos departamentos dominados pela oposição, distribuindo apoio político e financeiro.


Numa tentativa de desmoralizar o presidente e forçar uma repressão estatal, as milícias da direita passaram a impedir a própria mobilidade de Evo Morales pelo território boliviano. No último dia 27, em Riberalta (Beni), um desses grupos ocupou o aeroporto da cidade, forçando o presidente boliviano a cruzar o Rio Mamoré de barco até Guajará-Mirim, em Rondônia, para só então voltar a La Paz. Noutro episodio, em 5 de agosto no sul do país, em Tarija, as milícias tomaram o aeroporto e impediram o desembarque dos presidentes Cristina Kirchner (Argentina) e Hugo Chávez (Venezuela), para assinar acordos de cooperação.


A direita se empenha também em regionalizar a crise. Nos últimos dias, as ameaças são as de bloquear a venda de gás a Brasil e Argentina, através da ocupação de instalações da estatal boliviana YPFB.


Seria algo grave: 75% do gás importado pelo Brasil junto à Bolívia abastece a industria paulista. Também foram bloqueados postos de fronteira, como os de San Matias e San Vicente – na divisa de Santa Cruz com o Mato Grosso do Sul – e outro em Beni, perto de Guajará-Mirim, em Rondônia.

 

(...)


Também chamam a atenção as provocações das milícias paramilitares às Forças Armadas. Na última sexta-feira (5), em Cobija (Pando), elas sequestraram um pequeno avião militar, aprisionando por algumas horas um general. Em Trinidad, capital de Beni, há a ameaça de invasão de um quartel do exército. No mesmo departamento a oposição “exige” a saída do comandante militar da região. Em Santa Cruz, forças paramilitares chegaram ao extremo de cercar por todo um dia o Quartel da Polícia. O objetivo dessas provocações  parece claro: provocar uma reação que gere muitos cadáveres visando desestabilizar o governo Evo
(...)


Comento:

 

Recentemente, travei algumas discussões a esse respeito. Muitos acham que estou vendo fantasmas, mas afirmo que o que está acontecendo agora na Bolívia – e que já aconteceu na Venezuela há alguns anos – não é possibilidade distante num país como o nosso.

 

A não aceitação do resultado das urnas ocorre no Brasil sob o mesmo espírito que na Bolívia. A diferença é o nível de radicalização, que tanto por aqui quanto por lá corresponde ao nível de mudanças sociais implementadas por cada governo.

 

Lula foi mais devagar, ciente de que uma crise como essa da Bolívia, transposta para este país, constituir-se-ia numa ruptura democrática de dimensões imprevisíveis. Notem que na Bolívia e na Venezuela as elites golpistas de direita não contam com os mesmos instrumentos de pressão que conta a elite do Brasil.

 

Neste país, a direita limita-se a promover CPIs fajutas para encurralar e tentar paralisar o governo e sua imprensa fica inflando esses “escândalos”, muitos dos quais cem por cento extraídos do nada e que proliferam à revelia de total ausência de provas de existência do suposto delito usado para “alavancá-los”.

 

A diferença fundamental no Brasil e em outros países latino-americanos governados pela esquerda, porém, é a de que por aqui os militares estão do lado dos golpistas de direita, enquanto que numa Bolívia ou numa Venezuela ou num Equador as forças armadas estão do lado da legalidade. Até na Argentina e no Chile, onde os militares também estiveram a serviço do golpismo de direita, eles (os militares) fizeram seu mea-culpa sobre os anos de chumbo e criminosos dos regimes militares naqueles países estão sendo punidos.

 

O que você vê na Bolívia é pinto perto do que aconteceria no Brasil se Lula ousasse o mesmo que um Evo Morales ou um Hugo Chávez em termos de promoção de justiça social e distribuição de riqueza. Por isso, são despropositadas as cobranças que a esquerda mais radical e a mídia cínica fazem ao governo Lula, pois a classe política sabe que se o presidente imitasse seus pares dos países vizinhos o Brasil viraria uma Bolívia do dia para a noite. Até pior. Aliás, provavelmente muito pior.



 Escrito por Eduardo Guimarães às 23h45
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Reportagem - crise na Bolívia

O ‘jeito’ boliviano

 

 

 

Membros da Unión Juvenil Cruceñista (UJC)

preparando-se para atacar durante referendo

da autonomia departamental em Santa Cruz

 

 

 

 

Instigado pelas notícias sobre o que, daqui do Brasil, parece um caos nas relações políticas da Bolívia, onde a oposição ao governo central se encontra em pé-de-guerra contra a nova constituição do país – recentemente aprovada por assembléia nacional constituinte eleita pela maioria dos bolivianos – e a redução no repasse de impostos do governo central para os departamentos (estados), fui procurar uma fonte mais isenta para me informar sobre o assunto, fugindo das notícias das imprensas brasileira e boliviana, sabidamente refratárias ao governo da Bolívia, e das fontes oficiais do governo do país.

 

Após contatos com meus clientes na Bolívia (sou representante de indústrias brasileiras na América Latina e na África), que os tenho no lado do governo e no lado da oposição, vendo que dali seria difícil extrair fatos em lugar de opiniões decidi entrar em contato com fonte que desenvolvi na representação diplomática brasileira em La Paz, ou seja, na embaixada do Brasil na Bolívia.

 

Algumas informações interessantes me foram fornecidas pela fonte, que não quer se identificar.

 

1ª – Nem a Petrobrás, nem o governo brasileiro, nem o governo boliviano, nem a representação diplomática do Brasil na Bolívia têm qualquer temor quanto a possível interrupção do fluxo de gás boliviano para nós. Segundo minha fonte, as instalações dos gasodutos estão fortemente guardadas pelas forças armadas bolivianas e o governo Evo Morales controla completamente essas forças.

 

2ª – Os bloqueios de estradas, invasões de prédios públicos do governo Evo Morales, imposição de “toque de recolher” e outras medidas coercitivas contra as autoridades do governo central e contra os próprios cidadãos, são todas medidas promovidas pelos governos da região conhecida como “Meia Lua”, que inclui os “departamentos” bolivianos de Beni, Pando, Santa Cruz e Tarija.

 

Na região de Puerto Soares, na fronteira com o Brasil, sob ordens do governo local, de oposição a Morales, a fronteira foi fechada. Na região de Tarija, onde estão concentrados os complexos petrolíferos mais importantes, apesar do acosso do governo local as notícias são de que as forças armadas que protegem esses complexos estão preparadas para rechaçar qualquer ataque.

 

3ª – A evolução do conflito é considerada imprevisível. O governo está evitando usar as forças armadas para reprimir as forças dos chefes dos executivos da “Meia Lua” a fim de evitar derramamento de sangue. Porém, minha fonte relata que se as promessas de endurecimento ainda maior dos ataques forem cumpridas não haverá como evitar os choques, pois essas promessas aludem a fechamento das válvulas dos gasodutos que servem ao Brasil e outros países.

 

4ª – Segundo minha fonte na representação diplomática do Brasil em La Paz, porém, os revoltosos não objetivam a derrubada de Morales. Para essa fonte, que tem amplo acesso aos dois lados do conflito, se hoje fosse oferecido o cargo de Morales a qualquer um, essa pessoa sairia correndo. O que estariam querendo os opositores seria impedir que a constituição seja referendada com os artigos relativos à reforma agrária, e que o repasse de verbas do petróleo para os estados seja mantido.

 

5ª – Finalmente, segundo a fonte é preciso tomar cuidado com os informes da Agencia Boliviana de Información, ligada ao governo Morales, porque seria tão tendenciosa quantos os meios de comunicação privados contrários ao presidente. E ressaltou que não devemos, os brasileiros, nos assustar tanto. Segundo me foi informado, “esse é o jeito boliviano de fazer política”, pois o povo desse país seria "muito mais engajado e passional” do que o nosso. Mas frisou que fazer previsões na Bolívia é muito arriscado, sempre.

 



 Escrito por Eduardo Guimarães às 13h20
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Vídeo - pronunciamento de Lula

Papo Cidadão 3

 



 Escrito por Eduardo Guimarães às 21h55
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Artigo - Justiça brasileira

 

Politização do Supremo

 

 

 

Vários leitores têm pedido – e acho este um bom momento – para eu levantar uma discussão que se já viesse sendo travada há mais tempo talvez não tivéssemos chegado a este estado de coisas, no que tange o Supremo Tribunal Federal: é preciso discutir sua politização, oriunda do processo de indicação de seus membros pelo governante de turno.

 

Não sei por que, quando o assunto é muito polêmico, evita-se discuti-lo, como se determinados assuntos fossem proscritos por alguma lei divina. Foi assim com a questão da Lei de Anistia, recentemente, e está sendo assim na discussão que não se trava sobre os juízes de altas instâncias que se portam como cabos eleitorais da corrente política que lhes permitiu serem indicados para ministros da Suprema Corte.

 

Tem sido evidente o comportamento partidarizado dos últimos três presidentes do STF. Ellen Gracie Nortfleeth, Marco Aurélio de Mello e Gilmar Mendes. Nos últimos anos, transformaram a Suprema Corte em braço jurídico do PSDB e do PFL – ou, em última instância, do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.

 

Não se sabe como se comportarão os ministros indicados por Lula, pois devido à lei que estabelece rodízio para a assunção da Presidência da Suprema Corte, ainda não chegou a hora de começarem a assumi-la.

 

Mas mesmo que eles (os ministros do STF indicados por Lula) venham a se comportar como magistrados e não como cabos eleitorais de partidos, isso terá se dado por obra e graça de um governante que, então, terá se mostrado respeitador das instituições, Lula. Mas se seu sucessor ou sucessores decidirem colocar um preposto na mais alta Corte da nação, nada os impedirá. Por outro lado, se os indicados por Lula portarem-se como os indicados por FHC, o atual presidente se converterá em mais um autoritário que terá usado as instituições em benefício próprio.

 

O Estado Democrático de Direito deve ser organizado de forma a coibir ao máximo sua tomada de assalto por membros exclusivos da sociedade. O interesse coletivo precisa se sobrepor ao individual, sempre, e numa nação em que os que representam a Justiça chegam a tal condição para defenderem interesses individuais, nessa situação todos estarão ameaçados, pois o partidarismo visa parte, nunca o todo.

 



 Escrito por Eduardo Guimarães às 14h00
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Análise política - eleição em São Paulo

O monumental fracasso

tucano em São Paulo 

 

 

 

 Estação Sé do metrô paulistano em horário de "pico"

 

 

 

São Paulo sempre foi a cidadela do reacionarismo brasileiro, em que pesem os movimentos surgidos aqui que contribuíram para a democratização do país, dos quais a própria conversão do ex-sindicalista pernambucano Luiz Inácio Lula da Silva no maior líder político da história brasileira contemporânea, é o melhor exemplo.

 

O que sempre atrapalhou muito esta potência econômica – unidade federativa que tem um PIB que supera os de boa parte dos países latino-americanos – foi a coexistência do melhor e do pior da política nacional e um povo multifacetado, oriundo de todas as partes do país, que, ao mesmo tempo em que abriga um setor da sociedade que pensa com seriedade e descortino o Brasil e o mundo, também contém o pior da indigência política e uma compulsão de parte do povo em fazer o jogo da elite em prejuízo próprio.

 

Foi nesse contexto que vicejaram aqui lideranças políticas extremamente danosas, atrasadas e oportunistas, que, por conta do gigantismo paulista, converteram-se em protagonistas da política nacional.

 

Paulo Maluf, Fernando Henrique Cardoso, José Serra, todos são fenômenos paulistas que se projetaram no cenário nacional e foram responsáveis pelo atraso do país em se desenvolver.

 

A era FHC fez o Brasil perder não apenas os fatídicos oito anos de seus dois governos, durante os quais o país endividou-se e perdeu a credibilidade diante do mundo. A conta do descalabro tucano continuou sendo paga durante os primeiros anos do governo Lula.

 

Mas foi no berço dessas lideranças políticas daninhas, São Paulo, que a obra maléfica do PSDB mostrou-se em toda a sua plenitude.

 

O PSDB assumiu o controle do Estado-potência em 1995, depois das desastrosas administrações peemedebistas de Orestes Quércia e Fleury Filho, que dilapidaram os cofres paulistas até ficarem exangues.

 

São Paulo pagou um  preço exorbitante pelos governos estaduais medíocres que elegeu nas últimas duas décadas. E, nos períodos em que a ignorância política paulistana pôs no comando da maior cidade brasileira excrescências administrativas como os governos Maluf, Pitta, Serra e Kassab – que, juntos, já somam 14 anos de administrações irresponsáveis de uma das maiores metrópoles da atualidade –, a cidade tornou-se das piores do planeta para se viver.

 

A capital paulista tem hoje hospitais públicos, escolas, transporte público e segurança pública entre os piores do país e do mundo. Policiais, médicos e professores pior remunerados do que em Estados muito mais pobres da Federação, transporte público anacrônico, tudo isso tornou a vida do paulistano um inferno.

 

Dentre todas essas tragédias geradas, não por falta de recursos – que São Paulo tem mais do que qualquer outro município, inclusive proporcionalmente –, mas por pura incompetência e corrupção, o caos no transporte paulistano se destaca porque, à diferença de problemas como Saúde e Educação, seus efeitos se fazem sentir diariamente, quando os infelizes paulistanos têm que se deslocar durante 5, 6, 7 horas diárias só para trabalhar.

 

Dessa maneira, não causa surpresa matéria que acabo de ler no blog do marido da ex-prefeita Marta Suplicy, Luis Favre, uma matéria que ele extraiu do Estadão e que dá conta de um dado estarrecedor: o metrô paulistano é o mais lotado do mundo.

 

Iniciado em 1975 junto com o metrô de Santiago do Chile, o sistema metropolitano de São Paulo tem hoje cerca de 60 quilômetros para uma cidade de 11 milhões de habitantes, enquanto que o metrô santiaguino, para uma cidade de 5 milhões, tem mais de 80 quilômetros de linhas.

 

A responsabilidade pela administração do metrô paulistano é exclusivamente do governo do Estado. As cobranças eleitoreiras que se vê na mídia tucana de participação da prefeitura paulistana nos investimentos em metrô tenta esconder esse dado: as administrações estaduais do PSDB jogaram os paulistanos no tormento em que vivem devido a um dos piores tráfegos do planeta.

 

Os corredores de ônibus feitos pela administração Marta Suplicy, que permitiam grande fluxo dos ônibus, fazendo com que os que utilizam automóveis tivessem muito menos mobilidade do que os que utilizavam transporte público, foram desarticulados por Kassab, que privilegiou o transporte individual.

 

É nesse contexto que Marta Suplicy vem despontando no quadro eleitoral com enorme força política, numa cidade que teve que pagar o alto preço que mostra a matéria do blog de seu marido para que finalmente seus habitantes comecem a pensar em eleger um governo que se preocupe com São Paulo para além dos bairros “nobres”. Por conta disso, restam-me poucas dúvidas de que Marta será eleita este ano.

 



 Escrito por Eduardo Guimarães às 11h29
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Vídeo - bate-boca no STF

De alentar a alma

 

 

 

Em tempos como os que correm, tenho certeza de que a sugestão do leitor, blogueiro e comerciante de Goiânia Alberto Bilac de Freitas, de admirarmos alguém dizendo poucas e boas para Gilmar Mendes, é uma boa forma de encerrar as postagens do fim de semana.

 

Divirtam-se com a cena de alentar a alma no vídeo acima.

 



 Escrito por Eduardo Guimarães às 19h37
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Testemunho

Longe da ‘Razão Cinica’

 

 

Quero confessar a vocês que estou um pouco angustiado com algumas opiniões que surgiram nos últimos dias, porque referem-se a pessoa que tem me dedicado apoio importante e que sempre me estimulou a repudiar um tipo de comportamento viciado que uma outra amiga que respeito da mesma forma citou como tendo sido teorizado pelo psicanalista Jurandir Freire em “A  Razão Cínica”, teoria que alude ao cinismo do brasileiro contemporâneo em relação a valores e a ideais.

 

Os amigos em questão são o jornalista Luiz Carlos Azenha e a socióloga carioca Vera Pereira.

 

O primeiro escreveu recentemente um artigo em que alude à disposição que há hoje no governo Lula para negociar “qualquer coisa” em prol de consensos políticos, e a segunda, em comentário postado no blog do primeiro, atribuiu a ele essa visão cética quanto ao governo Lula a comportamento que, como eu disse, o psicanalista supra mencionado chamou de “razão cínica”, teoria que você pode conhecer melhor clicando neste link.

 

Não posso falar por jornalistas que têm recebido acusações parecidas com as que passou a receber o Azenha depois do tal artigo, tais como Paulo Henrique Amorim ou Luis Nassif, pois não os conheço direito. Mas, quanto ao Azenha, posso testemunhar coisa diferente.

 

Todos vocês devem se lembrar de quem foi o jornalista que mais batalhou pelo Movimento dos Sem Mídia, que mais lhe abriu espaço e, inclusive, a mim, um cidadão que foge justamente do comportamento cínico teorizado por Jurandir Freire.

 

Além disso, o Azenha, mais de uma vez, me instou a ir mais longe. Certa vez me sugeriu pedir direitos de resposta nas tevês, numa tentativa de conseguir no Brasil o que americanos têm conseguido em seu país para questionar a mídia. Não é, definitivamente, uma postura cínica e cética em relação a ideais.

 

Azenha é justamente a antítese do personagem tão facilmente encontrado atualmente, pintado por Jurandir Freire na tese em questão. Diferindo dos cínicos que desdenham de ideais, insatisfeito com o jornalismo errado que a Globo começou a aumentar de forma desproporcional para impedir a reeleição de Lula, demitiu-se da emissora e foi buscar a sobrevivência em trabalhos free-lancer, que não se caracterizam pela segurança.

 

Se eu não desse este testemunho, estaria me omitindo em dizer coisas que sei em defesa de uma pessoa que está sofrendo acusações que considero injustas, pois trocam toda uma trajetória dessa pessoa por um artigo que ela escreveu e que ou não foi bem elaborado ou não foi bem interpretado, mas que não reflete, de maneira nenhuma, o comportamento de quem já me disse que o que separa o Brasil hoje da escuridão é o presidente Lula.

 

Precisamos tomar cuidado para não elevarmos o nível de patrulhamento a um patamar insustentável. Não é possível que seja preciso fazer verdadeiras profissões de fé no lulismo o tempo todo. E não é porque o lulismo seja mau ou bom, mas porque não deve existir um lulismo. O presidente mesmo já se apresentou como não sendo insubstituível ao negar-se a postular um terceiro mandato...

 

O importante é entendermos que algumas pessoas, por suas trajetórias, deveriam ter algum crédito para não serem desqualificadas na primeira vez em que divergem da opinião majoritária, se é que este é o caso na situação que acabo de comentar.



 Escrito por Eduardo Guimarães às 18h38
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Análise - conjuntura política

O governo Lula

 

 

 

Saiu na Folha Online que das 26 capitais em que haverá eleição para prefeito no mês que vem, em vinte delas os candidatos que lideram as pesquisas pertencem a partidos da base de apoio ao governo Lula, sem falar que nas cidades em que candidatos da oposição estão na frente ainda há possibilidades de reversão dos quadros políticos locais.

 

Mesmo que alguns desses candidatos governistas não venham a se eleger efetivamente,  nenhum analista sério duvida do forte crescimento do número de prefeituras governadas pelo partido do presidente, o PT. E de que a base do governo passará, a partir do ano que vem, a controlar muito mais cidades e capitais do que hoje

 

Parece óbvio dizer que esse crescimento eleitoral dos que se associam à imagem de Lula deve-se ao apoio crescente da sociedade que o presidente da República vem recebendo nos últimos anos, sobretudo do fim do ano passado para cá.

 

É em meio a esse ambiente político vigente que pretendo esclarecer minhas razões para apoiar o governo Lula. Farei isso, inclusive, no contexto de algumas polêmicas que têm ocorrido na internet envolvendo meu nome e minhas razões para esse apoio.

 

As teorias mais conhecidas para explicar os apoios ao governo Lula falam de ingenuidade na classe média e cooptação dos mais pobres por programas sociais.

 

Pelo lado da classe média, dizem que pessoas como eu seriam ingênuas, românticas, que veriam em Lula uma espécie de herói quando o primeiro objetivo dele seria... ele mesmo. E para os pobres, o discurso odioso e padronizado costuma ser o do “Bolsa Esmola” - pela direita.

 

Contudo, o jornalismo sério partilha com o jornalismo de aluguel da direita fundamentalista a teoria da “ingenuidade” da classe média, porque não haveria tanto motivo para entusiasmo em relação ao governo do país, pois o boom econômico do Brasil não seria produto exclusivo de uma administração sensata deste governo. Além disso, este seria um governo que cede em demasia às elites sanguessugas.

 

O ceticismo domina os bons jornalistas, aqueles que procuram se distanciar das paixões políticas criticando os dois lados, governo e oposição, mas ser crítico em relação a todos os políticos não deve se tornar um fim em si mesmo do jornalismo honesto. Ele precisa ir além de uma regra que, como todas, deve ter exceções.

 

De certa forma, o jornalismo deve ser crítico em relação ao poder, sim. O perigo é quando essa máxima é levada ao pé da letra mesmo forçando a barra, buscando razões para criticar um bom governo apenas porque essas críticas devem existir para tornar o jornalismo equânime em relação a todos os políticos.

 

Penso que muitas críticas ao governo Lula são feitas por jornalistas sérios apenas porque eles se sentem mal em não agirem da forma como os manuais jornalísticos pregam que eles ajam.

 

Consigo ver até uma certa beleza nessa vontade de criticar a todos com independência e sem fazer concessões, ainda que, nesse processo, possam ser cometidas injustiças. Mas, como todo excesso, o excesso de zelo pela “independência” jornalística pode resultar em críticas sem maior conteúdo, feitas apenas para cumprir tabela.

 

Esses jornalistas sérios a que me refiro são capazes de enxergar inclusive o golpismo da grande mídia, que tenta derrubar ou inviabilizar o governo Lula para favorecer o PSDB e o PFL. E criticam governos medíocres como o do governador paulista José Serra, o único candidato já definido à sucessão de Lula.

 

O problema é que o golpismo que os jornalistas direitos falam que existe nos cálculos políticos da grande imprensa e da oposição, que acabaram se tornando a mesma coisa, é muito mais ameaçador do que parece. E isso porque a democracia que o Brasil pensa que vige dentro de suas fronteiras pode ser muito mais frágil do que se pensa.

 

Discuti esse ponto na semana passada com o Luiz Carlos Azenha, um dos jornalistas sérios aos quais me referi. Ele discorda frontalmente de mim quando digo que há uma ameaça real à democracia brasileira e que essa ameaça são os militares em conluio com os partidos de direita e com a mídia, como sempre.

 

Segundo o Azenha, um golpe de Estado contra Lula destruiria-nos a economia e isolaria o Brasil internacionalmente. Eu discordo, até porque golpes de Estado podem ser dados de forma a parecerem legais. E é justamente devido ao protagonismo da economia brasileira no cenário internacional que muita coisa poderia ser tolerada pela comunidade das nações, também porque o governo que emergiria do golpe seria muito mais simpático a interesses alienígenas.

 

Vou usar um exemplo polêmico, mas que mostra como se pode derrubar um governo sob acusações sem provas. Fernando Collor de Mello, por exemplo, apesar de eu achar que era culpado dos crimes de que foi acusado, foi obrigado a renunciar para não ser cassado sem que houvesse provas suficientes para condená-lo, por mais que até as carpas do lago da Casa da Dinda soubessem de sua culpa.

 

E notem que os militares, quando até os de patente mais baixa dão declarações públicas desacatando o comandante em chefe das Forças Armadas, o presidente da República, fazem isso como ameaça, como que para lembrar ao governo de esquerda que eles toleram esse governo até um limite que, se ultrapassado, fará com que parem de “tolerar”.

 

Escrevi tudo isso para dizer que certas concessões, esse governo vem tendo que fazer porque a elite daqui não difere da elite da Bolívia, que anda fechando estradas e ocupando prédios públicos, ou da elite da Venezuela, que mandou seqüestrar Hugo Chávez e tentou impor um governo ditatorial, sem congresso nem judiciário.

 

O Brasil não enfrenta dilemas políticos como os que vivem Argentina, Bolívia ou Venezuela, com as conseqüências nefastas para o nosso país que se pode ver nesses países que menciono, porque Lula não força demais a barra, ele sabe retroceder para avançar de novo mais adiante, e isso é confundido com fraqueza e submissão à elite tucano-pefelê-midiática.

 

Por que apóio este governo? Simples: pela mesma razão que a maioria esmagadora da sociedade brasileira o apóia, ou seja, porque ele tem, sim, promovido muitas melhoras.

 

A economia cresce, a desigualdade e a pobreza diminuem, o emprego aumenta, o salário sobe... E eu, que esperei 43 anos (idade que eu tinha quando Lula se elegeu pela primeira vez) para ver este país promover tudo que este governo está promovendo, vou ficar sendo crítico em relação a ele só porque dizem que ceticismo generalizado é o correto? Nem pensar!

 

Claro que tem muita coisa que poderia melhorar neste governo, que tem atitudes que acho que daria para ele tomar e não toma, muitas vezes por ceder além da conta a certos grupos de pressão. O Azenha, por exemplo, diz que por isso não se deve abrir mão de fazer determinadas críticas ao governo. Afinal, ele teria popularidade suficiente para agüentar críticas.

 

Infelizmente, acho que ainda não dá. O poder da mídia e da direita ainda é muito maior do que se pensa. Penso que o governo Lula está muito menos a salvo de ser derrubado do que muitos acreditam. Então, minhas críticas a ele continuam na geladeira.

 

Podem, portanto, dizer-me delirante em vez de ingênuo. Isso eu não sou. Já vi e vivi muita coisa em minha vida. É claro que percebo que há coisas erradas neste governo, como haverá o que criticar sempre em qualquer governo. Contudo, até aqui, que se saiba, os povos elegem homens. Não me lembro de alguma eleição, em qualquer lugar ou época, que tenha sido disputada por anjos.

 

O limite do possível a um governo brasileiro, em termos de distribuição de renda e de apoio aos mais fracos, pode não ter sido alcançado por este governo, mas acho que ele está mais próximo do que já esteve qualquer outro. Tudo o que já foi feito nesses aspectos, foi conseguido sem convulsões sociais como as que vêm ocorrendo nos países latino-americanos governados por homens menos pacientes do que Lula.

 

É preciso derrotar de vez a elite brasileira e acho que essa derrota mais definitiva (ainda que jamais venha a ser totalmente definitiva) será na eleição presidencial de 2010, quando o Brasil deverá dizer outro NÃO a José Serra, a Fernando Henrique Cardoso, às famílias Frias, Civita, Marinho e assemelhadas. Daí eles se darão conta de vez de que o país não aceita mais que dividam o poder entre si e seus amigos, e usando o povo como massa de manobra.

 

 



 Escrito por Eduardo Guimarães às 11h17
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