Conforme relatado em post de sexta-feira passada, houve andamento na representação que o Movimento dos SemMídia fez no Ministério Público Federal contra as Organizações Globo, contra o Grupo Folha, contra o Grupo Estado, contra a Editora Abril, contra a revista IstoÉ, contra o Jornal do Brasil e contra o Jornal Correio Brasiliense por conta de a ONG entender que esses meios de comunicação promoveram crime de alarma social entre o fim de dezembro de 2007 e o fim de janeiro de 2008, difundindo noticiário que fez grandes contingentes de brasileiros acreditarem que haveria uma epidemia de febre amarela no país, o que culminou em adoecimentos e internações hospitalares de pessoas que se vacinaram sem necessidade contra a doença e sofreram reações a ela.
Em junho, a procuradora da República doutora Eugênia Augusta Gonzaga Fávero emitiu um despacho determinando que os meios de comunicação representados fossem notificados do processo investigativo que foi aberto por conta da representação do MSM. Na última sexta-feira, o primeiro-conselheiro da ONG, Antonio Arles, esteve na sede do MPF em São Paulo e extraiu de lá cópias do andamento da investigação, andamento que gerou 99 páginas entre as defesas dos meios de comunicação e os documentos entregues por eles ao MPF, tais como contratos sociais, procurações para advogados e cópias de matérias que publicaram que provariam que, à diferença do que denunciou o MSM, os veículos agiram dentro da ética jornalística ao noticiarem o aumento de casos de febre amarela no país que ocorreu entre o fim do ano passado e o começo deste ano.
Na notificação que os meios de comunicação receberam do MPF, foi-lhes facultado manifestarem-se ou não sobre a denúncia do MSM. Até agora, manifestaram-se no processo a Globo, a Folha de São Paulo e o Estado de São Paulo.
Analisei as defesas apresentadas por esses veículos e formei a convicção de que o MSM deveria voltar a se manifestar ao MPF, comentando as defesas dos veículos representados, ainda que apenas alguns deles, até o momento, tenham se manifestado quanto à investigação de que são objetos.
Apesar de a representação do MSM ao MPF ter previsto as respostas dadas pelos veículos representados que optaram por se manifestar, acredito que, por via das dúvidas, seja preciso ressaltar os pontos em que tais previsões foram feitas. Mas, claro, tudo dependerá do parecer da diretoria jurídica da ONG, à qual delego total confiança.
Não adiantarei os pontos da argumentação que pretendo propor ao MPF antes de ser feita a análise técnico-jurídica das defesas da Globo, da Folha e do Estadão, mas devo adiantar que o pedido que esses veículos fizeram para que o processo fosse arquivado ainda não foi aceito pelo MPF. Este, conforme despacho da procuradora da República doutora Gonzaga Fávero, requisitou ao Ministério da Saúde dados estatísticos sobre a febre amarela no país nas últimas duas décadas. Esses dados, inclusive, mostrarão, a meu juízo, o ineditismo da cobertura deste ano sobre suposta epidemia de febre amarela no país. É preciso ressaltar que é a terceira vez que o MPF pede esses dados ao MS e que, estranhamente, até agora ainda não foi atendido.
Abaixo, reproduzo as páginas iniciais das defesas dos veículos supra mencionados e o despacho da procuradora da República doutora Eugênia Augusta Gonzaga Fávero.
PS: o assunto em tela voltará a ser abordado em breve aqui.
Venho escrevendo há anos que os grandes conglomerados de mídia, em todas as partes do mundo, cumprem, há muito tempo, a missão desonrosa de promover mais a desinformação do que a informação. Tal afirmação pode parecer radical e generalista, mas, se analisarmos fatos recentes da política nacional e internacional, veremos o contorcionismo que os grandes meios de comunicação têm feito para manter o público desinformado. Pincei, pois, três crises políticas a fim de exemplificar minha tese, uma nacional e duas internacionais: a crise do suposto grampo de conversa do presidente do STF, Gilmar Mendes, a da tentativa de golpe na Bolívia e a da expulsão da Venezuela de membros da ONG Human Rights Watch por ordem do presidente Hugo Chávez. Em todos esses casos, os grandes meios de comunicação trataram de omitir e distorcer fatos da maneira mais descarada que se possa imaginar, invertendo totalmente a prioridade jornalística e dando notícias que os incomodam com destaque inaceitavelmente reduzido e a reboque de simples blogs e sites políticos, infinitamente menos estruturados do que os grandes veículos de comunicação, mas que, assim mesmo, conseguiram “furá-los” comgrande facilidade nesses três assuntos.
No caso da suposta gravação ilegal de conversas telefônicas entre o presidente do STF e políticos da oposição ao governo Lula, a mídia tratou de impedir que fosse difundida uma das constatações mais elementares que se pode fazer sobre o assunto, a de que, para levantar tais acusações, do ponto de vista legal seria imperativo apresentar ao menos uma única prova de que o tal “grampo” realmente existiu, e isso jamais aconteceu.
Se você contar a alguém de algum desses países nórdicos de alto estágio civilizatório que uma acusação da gravidade dessa que os inimigos políticos do governo federal fizeram contra ele – sem uma única prova material, diga-se – gerou a queda do comando do órgão de inteligência do país, certamente essa pessoa ficaria perplexa. Imaginem, nos EUA, uma reportagem derrubar o comando da CIA por conta de uma suposta gravação ilegal de uma alta autoridade, sendo que tal gravação não foi ouvida por ninguém além daqueles que denunciaram sua existência. Com tranqüilidade, porém, o presidente da República afastou a cúpula da Abin para “facilitar as investigações”, pois certamente sabia que não provariam nada. Afinal, desde o início ficou claro que tudo se tratava de um factóide que visava manter acuado o governo federal. Tratou-se, pois, de mais uma de muitas estratégias desesperadas de opositores políticos do governo Lula, deixados sem discurso por êxitos econômicos desse governo que ameaçam enterrar as perspectivas oposicionistas de recuperar o poder na sucessão presidencial de 2010.
O noticiário dos grandes meios de comunicação vem fazendo um contorcionismo circense para desinformar a opinião pública sobre o assunto, fazendo-a crer que se avolumam as provas de que o presidente do STF teria sido “grampeado” quando a verdade é a de que, até agora, não surgiu uma única evidência consistente de que isso aconteceu. Para que se possa dimensionar a gravidade da desinformação promovida por grandes jornais, revistas e redes de tevê brasileiros, a afirmação peremptória desses grandes meios de desinformação de que a Abin teria equipamento para fazer escutas telefônicas foi desmontada cabalmente, mas os que tratam de desinformar o público procuram minimizar um fato que deveria ter posto uma pá de cal no assunto.
Como no caso dos grampos, a crise na Bolívia também produziu um noticiário falso como uma nota de 3 reais. Grandes grupos de comunicação trataram de falsear a realidade de uma maneira que beira o fantástico, a ficção. Aliás, o melhor exemplo da desinformação que os grandes conglomerados de mídia vêm promovendo nessa questão não está nem no Brasil. Li uma postagem do blogueiro carioca Mello que me deixou de queixo caído. Tal postagem, a meu ver, constitui-se, talvez, numa das provas mais inquestionáveis de que o mundo está sendo ameaçado por grandes e poderosos meios de desinformação. Segundo o Mello, o jornal espanhol “El País”, cujo grupo empresarial controla vários veículos de comunicação na Bolívia, identificou para seu público uma foto das ações da milícia fascista e racista boliviana auto-intitulada União Juvenil Cruzenha como se os que aparecem na foto fossem seguidores do presidente da Bolívia, Evo Morales, e identificou, também em foto, índios apoiadores do governo boliviano como sendo opositores desse governo.
Pior do que isso foi a ocultação, pelas tevês brasileiras, de vídeo amplamente difundido na internet que mostra o massacre dos camponeses leais a Evo Morales, numa ação comprovadamente promovida pelo governador do estado boliviano de Pando, Leopoldo Fernández, contra quem há uma enormidade de provas de que mandou mesmo promover o massacre. No dia da prisão de Fernández, no entanto, os grandes meios de desinformação diziam que ele havia sido preso por desrespeitar o estado de sítio imposto pelo governo da Bolívia no “departamento” de Pando, quando, na verdade, a principal causa da prisão do governador foram as provas documentais de que ele havia ordenado o massacre de civis. Tal é a quantidade de provas contra Fernández que nem os outros governadores da “Meia Lula” boliviana colocaram sua libertação como pré-condição para negociarem com o governo Evo Morales. Se a prisão do ex-governador de Pando tivesse sido injusta, seria inconcebível que os governadores oposicionistas aceitassem negociar com quem o prendeu, pois se prendeu um deles injustamente é óbvio que todos estariam ameaçados de sofrer o mesmo.
Foi possível encontrar tal análise em qualquer grande meio de comunicação? De maneira nenhuma. Pelo contrário: tevês, grandes jornais e portais de internet tratam de tentar passar ao público a idéia de que o governo Evo Morales prendeu injustamente um oposicionista. E, apesar das evidências, esses veículos alegam (em off) que não podem “tomar partido” de nenhum dos lados, pois a situação estaria “nebulosa” na Bolívia – andei conversando com uma fonte que tenho num grande jornal e essa foi a explicação que recebi para a grande mídia brasileira estar minimizando os crimes contra a humanidade cometidos pelos fascistas da “Meia Lua” boliviana. Essa nebulosidade da situação política em certos países latino-americanos – e tal nebulosidade realmente existe nesses países devido às posições extremadas dos atores envolvidos –, porém, não impediu a mídia de tomar partido, escancaradamente, na questão da medida do presidente da Venezuela, Hugo Chávez, de expulsar, primeiro, o embaixador americano em seu país, e, depois, membros da ONG “Human Rights Watch”, organização financiada pelo governo americano que produziu relatório acusando o governo da Venezuela de ditatorial, em suma.
Para falar da expulsão do embaixador americano por Chávez, primeiro temos que falar da expulsão do embaixador americano por Evo Morales. Todos os grandes meios de comunicação esconderam detalhes importantíssimos do currículo do embaixador dos EUA que o governo boliviano expulsou, como o fato de que o diplomata Philip Goldberg é do “primeiro time” da diplomacia americana e com histórico de envolvimento com separatismos no Leste europeu. E também esconderam a natureza dos encontros desse diplomata com a oposição boliviana e a natureza dos encontros do seu homólogo na Venezuela com a oposição daquele país.
No dia a dia, os cidadãos mais informados, sobretudo os de regiões do país mais conservadoras como São Paulo, Rio, Santa Catarina ou Paraná, podem constatar o expressivo contingente de pessoas supostamente bem informadas que acham que Evo Morales é um ditador e que, como diz o relatório da Human Rights Watch sobre a Venezuela, naquele país vige algum tipo de censura à imprensa. Tanto uma quanto outra afirmações são totalmente descabidas. Conheço muito bem a situação política da Venezuela e a da Bolívia, pois viajo com certa freqüência a esses países e, analista político compulsivo, dedico-me, durante tais incursões que faço, a reunir o maior volume de informações possível sobre os quadros políticos locais.
A liberdade de imprensa na Venezuela é absoluta. Na verdade, a liberdade que havia para falar do governo naquele país, até algum tempo atrás, não era apenas de criticar, mas de insultar e caluniar pesadamente o presidente da República. Afirmo a vocês que, faz alguns anos, estive na Venezuela e assisti, na tevê, programa em que o presidente constitucional do país foi chamado de “pedófilo”, de “homossexual”, de “drogado” etc. Não conheço nenhuma democracia no mundo em que se possa falar assim do governante do país. Diante daquela situação absurda, portanto, o governo venezuelano conseguiu aprovar uma lei que penaliza calúnias e insultos desse jaez. Nada demais. Não foi por outro motivo, pois, que estive na Venezuela faz pouco mais de dois meses e constatei o grande volume de ataques e críticas que Hugo Chávez continua recebendo na mídia. O que acontece na Venezuela, no entanto, é que por lá o governo tem como reagir com a mídia que criou para o Estado para enfrentar a mídia privada. Sendo assim, todas as noites tevês estatais e privadas travam uma verdadeira guerra. A “Globovisión”, por exemplo, que é privada, engalfinha-se com a “Venezolana de Televisión” (VTV) diariamente. Quando estive naquele país, recentemente, a “Globovisión” estava promovendo um cerco à casa de um ministro de Estado, dando-se ao luxo de telefonar para a casa dele durante à noite e colocar a chamada telefônica no ar, em horário nobre, tecendo depois vários comentários desairosos sobre o ministro. E como se não bastasse isso, Chávez, eternamente acusado de manipular eleições apesar dos observadores internacionais que sempre referendaram todas as eleições naquele país, aceitou o resultado do último grande processo eleitoral venezuelano (um plebiscito sobre reforma constitucional) sem qualquer questionamento, apesar ter perdido, enquanto que a oposição a ele jamais aceitou a legitimidade das eleições que perdeu.
Já sobre a Bolívia, a mídia desinforma os brasileiros dizendo que a constituição que Evo Morales quer que seja referendada pelo povo foi “aprovada por constituintes governistas”, como se tal aprovação tivesse sido feita com exclusão da oposição, como se esta tivesse sido impedida de participar do processo constituinte, sendo que, na verdade, essa oposição retirou-se voluntariamente da sessão da assembléia constituinte que aprovou o novo texto constitucional.
Grandes conglomerados de mídia, aqui e em toda parte, constituem-se hoje, como ontem – e como anteontem –, em meios de desinformação, em ferramentas para se fazer prevalecer mentiras, para ocultar fatos essenciais para que o público possa tomar decisões fundamentadas em diversas áreas, sobretudo na área política. Na questão do acesso a informações corretas e amplas sobre questões cruciais, porém, a humanidade apenas começa a sair de uma era medieval, de uma era de trevas no conhecimento que durou milhares de anos, até que surgisse uma ferramenta extraordinária para a Democracia como é a internet, que, ainda que timidamente, começa a soterrar práticas medievais das aristocracias mundiais de impedirem as massas de saberem o que não queriam que soubessem. É o começo do fim da Idade Média na mídia.
Que época para se viver, que privilégio podermos participar dessa revolução humana, dessa superação histórica da escuridão do conhecimento que está acontecendo mundialmente graças à tecnologia, o que mostra que a humanidade continua achando seu caminho para, ao fim de ciclos que às vezes duram séculos e até milênios, ir solucionando seus problemas mais dramáticos.
Em março deste ano, o Movimento dos Sem Mídia - MSM-, organização não-governamental que presido, protocolou no Ministério Público Federal representação contra vários grandes meios de comunicação na qual pediu que a instituição investigasse crime de alarma social que a ONG diz que foi promovido por aqueles meios na questão de uma suposta epidemia de febre amarela no Brasil em janeiro deste ano.
Os meios de comunicação representados ao MPF foram os seguintes: Grupo Folha, Grupo Estado, Organizações Globo, Editora Abril, Correio Brasiliense, Jornal do Brasil e revista IstoÉ.
O último andamento do processo foi em 6 de junho deste ano, quando a procuradora que cuida do caso, doutora Eugênia Fávero, requisitou ao Ministério da Saúde informações estatísticas sobre a febre amarela e sobre o noticiário dos meios de comunicação referentes ao assunto nas últimas duas décadas.
Nesta sexta-feira (19/08), o estudante de História na USP Antonio Arles, membro da diretoria do Movimento dos Sem Mídia, esteve na sede do Ministério Público Federal em São Paulo em busca de novidades sobre o andamento do processo.
Tive uma longa conversa por telefone com o primeiro-conselheiro do MSM. Ele me relatou que há 99 novas páginas acrescentadas ao processo.
Manterei contato com o setor jurídico do MSM na semana que vem, pois há vários dados técnicos no processo que só poderão ser esclarecidos por advogado, mas posso lhes adiantar a essência do que aconteceu.
Os meios de comunicação representados pelo MSM ao MPF foram levantar finalmente a acusação que lhes foi feita e se defenderam anexando cópias de matérias que provariam que eles noticiaram, sim, que haveria risco em se vacinar contra febre amarela e que, portanto, os cidadãos só deveriam se vacinar se fossem viajar a áreas de risco.
Consultarei o setor jurídico do MSM, mas, a meu juízo, essa resposta dada pelos meios de comunicação representados foi prevista na representação original, pois a tese é justamente a de que houve descasamento entre a intensidade de avisos sobre cuidados com a vacina e as notícias que induziam à crença de que haveria uma epidemia de febre amarela no país.
Os meios de comunicação citados, através de seus advogados, juntaram longas defesas ao processo e pediram seu arquivamento, mas, pelo menos até o momento, o MPF não acatou tal pedido, recomendando a continuidade da investigação. Inclusive, o MPF reiterou pedido ao Ministério da Saúde para que envie dados que já tinham sido pedidos há meses e que ainda não foram enviados.
Na próxima semana, os documentos já terão sido analisados tecnicamente e, então, poderei lhes dar outras informações, se for o caso.
Diretor do MSM
Eduardo,
a investigação continuará. A sociedade já teve uma primeira vitória contra os desmandos da grande mídia conservadora, que acha que pode fazer o que bem entende neste nosso País, da maneira que achar mais útil a seus interesses e dos grupos políticos dos quais é aliada, que sabemos quem são.
O fato dos meios de comunicação representados terem que se explicar ao MPF e negar que cometeram um crime federal (alarma social), já deixou muito claro para eles que acabou o tempo em que criavam os factóides que queriam, auto-alimentavam isso por semanas e até meses e, depois, diziam que não tinham feito nada demais.
O tempo de impunidade e irresponsabilidade da grande mídia acabou. A partir de agora eles terão que prestar contas de seus ilícitos e crimes à sociedade.
Nosso MSM foi criado justamente com essa finalidade. Se o rei está nu, o MSM apontará o dedo através do nosso sistema legal e cobrará suas responsabilidades perante o Judiciário, via MPF.
Antonio Donizeti da Costa | São Paulo - SP | Advogado-Diretor Jurídico MSM
Faltavam poucos minutos para as 17 horas de quinta-feira, 18 de setembro, e eu estava a 4 quilômetros do meu destino. Saí do meu escritório às 16h30 para ir dar meu apoio ao ato público em solidariedade ao povo boliviano que aconteceu ontem na avenida Paulista, em São Paulo, em frente ao consulado da Bolívia.
Como moro numa das extremidades da avenida, deixei meu carro na minha garagem e caminhei os seis quarteirões que me separavam do local do ato público. Entre fazer tudo isso, gastei quase uma hora, o que dá a dimensão da dificuldade de locomoção que há hoje nesta cidade.
Fazia um frio intenso, era hora do “rush”, mas, assim mesmo, a centenas de metros do número 1439 da avenida Paulista, onde fica o consulado boliviano, pude divisar as bandeiras de partidos e movimentos sociais como CUT, PSTU, PCdoB, PT, MST, PSOL etc., e ouvir os discursos nos alto-falantes.
Centenas de pessoas se aglomeravam à porta do edifício em que fica o consulado da Bolívia. Diferentemente do que informaram alguns portais de internet como o UOL, a manifestação não atrapalhou o trânsito coisa nenhuma.
Discursos previsíveis foram feitos. Discursaram, entre outros, João Felício, da CUT, Valter Pomar, do PT, e o próprio cônsul boliviano, Jaime Valdívia.
Saí da manifestação quase ao seu fim. Caminhei uns poucos e extensos quarteirões da avenida Paulista para chegar em casa. Passava pelos engravatados, pelos "bichos-grilo" que vendem badulaques, pelas secretárias e office-boys apressados para embarcar em ônibus e metrôs lotados rumo às suas casas.
Enquanto caminhava, refletia comigo sobre como é difícil, no Brasil, fazer alguém ter algum trabalho voluntariamente e por razões que não nos dizem respeito diretamente. Na Argentina, ato similar reuniu dezenas de milhares. Em São Paulo, a maior cidade da América Latina, nem mil pessoas compareceram.
Dizem que o Brasil está mudando para melhor. Acho que está mesmo, mas por força de poucas pessoas. De pessoas como nós, que não representamos nem uma fração do povo brasileiro. Neste país, uma minoria ínfima e heróica sempre trabalhou pelas massas inermes, acomodadas e alienadas. Será que a história nos fará justiça?
Por sugestão e pedidos de vocês, posto aqui o vídeo de entrevista concedida por FHC no ano passado à BBC de Londres.
Impressiona o nível de informações que o jornalista inglês reuniu sobre o Brasil e, mais do que isso, sobre a época em que o entrevistado governou.
A entrevista mostra todas as contradições desse político decadente que é Fernando Henrique Cardoso e também como seria obrigação dos jornalistas brasileiros dos grandes meios de comunicação tratarem o discurso enviesado dessa pessoa, que a entrevista mostra que em termos de desfaçatez nada fica devendo àquele político que, hoje, a imprensa trata com desdém e até com desrespeito, mas que um dia já foi tratado com a mesma complacência pela mídia com que ela hoje trata o ex-presidente: Paulo Maluf.
Essa entrevista teria que ser passada numa tevê brasileira, nem que fosse numa tevê a cabo. Talvez na TV Senado, na TV Câmara... Se dependesse de mim, no entanto, seria passada nas escolas, para que os herdeiros deste país aprendessem como não deve agir um homem público.
Assistam abaixo, em duas partes, entrevista de FHC à BBC de Londres que vários leitores sugeriram que fosse postada e que me penitencio por não tê-la assistido antes, apesar das sugestões que me foram feitas anteriormente para que eu a assistisse.
Para quem não sabe, este que vos escreve é, no fim das contas, um vendedor. A única diferença é a de que, em lugar de procurar e consolidar negócios na região em que vivo, faço isso viajando a outros países. Mas vendedor eu sou. E dizem que sou bom no que faço. Modestamente falando, concordo. Já vendi até livro para quem nunca tinha lido um, quando eu tinha uns dezesseis anos e comecei a trabalhar como vendedor do “Círculo do Livro”.
Bem, do alto desta suposta habilidade na arte da negociação que Deus supostamente me deu, digo-lhes que vi ontem um outro grande vendedor – em todos os sentidos – tentar vender o que nem eu ousaria tentar vender. E não é só pelo senso de responsabilidade de não vender produtos de baixa qualidade. É que é difícil mesmo vender o que o famoso apresentador de tevê Jô Soares tentou vender ontem à noite em seu programa na Globo, no início da madrugada.
Sem sono, o controle remoto da tevê jogou-me no meio de uma entrevista do Gordo com o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso... Aaah, masturbação tucana de madrugada?! Essa eu não perco.
FHC estava contando vantagem sobre momento de intimidade de que ele e sua falecida esposa desfrutaram com quem o ex-presidente chamava de “rainha-mãe”, ou seja, com a rainha da Inglaterra. Tentando ser engraçado, FHC imitava o sotaque inglês afetado da tal “rainha-mãe”.
Logo percebi que havia ali uma tentativa do apresentador de vender FHC. Não àquele público que presenciava o programa e que quando FHC fazia graça produzia gargalhadas que faziam imaginar pessoas rolando de rir pelo chão, mas ao público real que assistia o programa pela tevê.
Além de forçar situações para que o ex-presidente desfilasse seu inglês, seu francês e seu economês, Jô também adiantava várias bolas para ele (FHC) chutar no campo político, com alusões à economia e, num certo momento, até a acusações do grupo político do entrevistado contra o governo Lula.
Ficou lá FHC dizendo que era preciso tomar cuidado com a crise americana, coisa e tal, que era uma crise muito grave e que teria, sim, reflexos aqui dentro, e que por isso era preciso reduzir os gastos do governo (principalmente os gastos sociais, por certo) e, de repente, falaram de gente que costuma “não saber de nada”. E o pior é que o ex-presidente ainda comentou que “nunca esteve entre esses”...
Mas papo vai, papo vem, FHC tratou de lembrar que “políticos cometem erros”. Então, percebendo que supõe-se que ele também os cometeu quando nos governou, passou a dar aquelas explicações fajutas que costuma dar sobre por que errou no câmbio, mas claro que sem lembrar do que seu “erro” custou ao país.
Como se não bastasse, o tucano ainda foi cara-de-pau o suficiente para dizer que jamais teve que afastar um ministro por “questões morais”. Mendonça de Barros que o diga, aliás...
Mas fazer o que, né? A emissora é deles e eles podem fazer a merda que quiserem com ela. Mas precisava o Jô dizer seu famoso bordão “Bem, eu conversei aqui (...)” com o óbvio propósito de chamar o “Aaaahhh!” do público para o ex-presidente - sem, no entanto, obtê-lo - e então dar aquela paradinha ridícula que deu no meio da frase e olhar para a produção do programa para que, após uma eternidade, o “Aaaahhh!” viesse? Foi ridículo. Mais do que eu fui ao perder tempo de sono com “aquilo”.
Descobri, então, que sou melhor vendedor que o Jô. E por uma única razão: é que dependo de resultados para ser pago, enquanto que o Gordo é pago mesmo após uma presumivelmente fracassada tentativa de vender a droga de “produto” que tentou vender para gente que já teve experiência com ele e que, por isso, não o quer nem de graça.
Destaquei alguns pontos que me chamaram atenção na entrevista que o presidente Lula concedeu à TV Brasil e que foi ao ar na noite desta quarta-feira às 22 horas.
Devo dizer que fiquei bastante satisfeito com a forma como a entrevista foi feita. Todos os assuntos do momento foram abordados. Até aquela picuinha sobre cigarro entrou na pauta.
Dos pontos importantes da entrevista:
Crescimento em 2009
Lula diz que poderá se surpreender quem acredita que por conta do aumento dos juros o país terá crescimento bem menor do que o deste ano. E lembra que seu governo está “provando que é possível crescer com inflação caindo”.
Pré-sal
“A única certeza que posso dar é que o petróleo que está no subsolo pertence à União”, disse Lula. Ele afirma que quem venderá o petróleo do pré-sal será o Estado, mas que cogita a possibilidade de recomprar parte da Petrobrás em vez de criar uma estatal de petróleo. Tudo dependerá dos estudos sobre qual dos caminhos é mais conveniente para o país.
Bolívia
Lula disse que se o ex-embaixador americano na Bolívia Philip Goldberg se reuniu mesmo com a oposição oficialmente, seu homólogo boliviano teve toda a razão em expulsá-lo – detalhe: Goldberg se reuniu oficialmente, sim, com o governador de Santa Cruz de La Sierra. E destacou o histórico americano de ingerências em países latino-americanos como evidência de que é verossímil a acusação de Evo Morales.
Grampo da Abin
Segundo o presidente, tudo seria bem mais fácil se a revista que denunciou apresentasse a prova do grampo que diz ter sido feito contra o presidente do STF, mas como ela se recusa a fazê-lo será preciso esperar o fim das investigações para se descobrir o que aconteceu.
Paulo Lacerda
Lula negou que já tenha decidido que o chefe afastado da Abin deixará definitivamente o cargo independentemente dos resultados das investigações, expressou sua profunda admiração e respeito por ele e acrescentou que, se nada for encontrado contra o policial, não haverá por que ele não retornar ao cargo do qual foi afastado apenas para permitir a transparência total de tais investigações.
Dunga
Apontou que o Brasil já perdeu competições importantes com ótimos técnicos como Telê Santana. Para o presidente, faltaria garra aos jogadores que temos.
Terceiro Mandato
Luiz Inácio Lula da Silva disse que tem uma proteção contra a “mosca azul” – aludiu à soberba – e que, por isso, no dia 31 de dezembro de 2010 terminará seu mandato e no dia seguinte estregará a faixa presidencial ao seu sucessor.
Graças à leitora Sofia, socióloga de Belo Horizonte, podemos ver, acima, o vídeo do massacre de camponeses no estado boliviano de Pando .
O vídeo foi difundido pelo “Canal 7” (estatal) da Bolívia. Revela como paramilitares e pistoleiros a serviço do “prefeito” (agora preso) de Pando, Leopoldo Fernández, segundo todos os testemunhos das vítimas sobreviventes do massacre, atiraram contra camponeses que se reuniam para manifestar apoio a Evo Morales.
As imagens mostram como os camponeses se atiraram num rio para tentar salvar suas vidas nadando, porém os assassinos dispararam neles enquanto ainda estavam na água.
“La estão mais índios”, é o que se escuta, ao fundo, no áudio do vídeo em ao menos dois momentos. Quem fala é uma pessoa nas margens do rio Tahuamanu, onde aconteceu a tragédia. Ao mesmo tempo, pode-se ouvir as rajadas de metralhadora.
Aparecem imagens de um cidadão, posteriormente identificado como “médico”, que diz : “Escutem, isso é terrível!, isso é uma escopeta!, estamos atendendo essa gente, de verdade, essa situação passou dos limites!...”
Aí a prova que a mídia está escondendo, tranformando os assassinos da Meia Lua boliviana, os opositores de Evo Morales, em vítimas, mesmo sendo assassinos frios, mentirosos, cínicos ao impensável.
Menos mal que a Bolívia levará provas aos tribunais internacionais e que a Unasul tenha se levantado contra o governo americano, numa demonstração de unidade da região que frustrará os planos de Washington de intervir novamente na América do Sul.
É preciso provar ao mundo o que ocorreu naquele rio em Pando e quem foram os autores de todo esse horror desde a sua primeira origem, distante da Bolívia.
Atos Públicos em solidariedade ao povo boliviano
Ocorrerão, em São Paulo e no Rio, atos públicos de repúdio ao golpe separatista na Bolívia.
Em São Paulo
Amanhã,quinta-feira, dia 18 de setembro, às 17 horas, em frente ao prédio do Consulado da Bolívia: Avenida Paulista, nº 1439
No Rio
Dia 19 de Setembro, sexta-feira, às 16 horas, em frente ao prédio do Consulado da Bolívia: Av. Rui Barbosa, 664 - ap. 101
Comentário: comparecerei ao ato de São Paulo e exorto todos os leitores deste blog que moram em São Paulo e no Rio a que façam o mesmo.
A pedidos, li - e agora me pronuncio - sobre a “grave” denúncia de Luis Nassif envolvendo suposto acordo que teria sido feito entre Lula e a Veja para enterrar a operação Satiagraha, e depois li Paulo Henrique Amorim falando em impeachment de Lula...
Vou ser objetivo com vocês: não concordo com nenhum dos dois jornalistas e acho que nenhum deles tem maiores elementos para pedir que alguém empreste total fé ao que acusam.
Por outro lado, não farei aqui alusões quanto a motivos escusos dos dois. Eles formaram uma suspeição referente a desdobramentos das investigações sobre Daniel Dantas que os leva a crer que se o governo quisesse poderia ignorar o clima político que se formou por conta dos nomes expostos e do que sabe Dantas sobre esses nomes, inclusive sobre a oposição tucano-pefelê e sobre a mídia golpista.
Particularmente, acho que Lula, por mais popular que seja, não pode fazer o que Nassif e PH queriam que ele fizesse. E, por enquanto, a morte de Paulo Lacerda e do delelegado Protógenes, anunciada pelos jornalistas em questão, não ocorreu.
Por enquanto, não vi absolutamente nenhum indício de que o que os dois jornalistas afirmam é a mais pura verdade. Só posso considerar o assunto de impeachment e acordo de Lula justo com a Veja diante de algum elemento concreto que nem Nassif nem PH apresentaram. Fico, pois, em “stand by”.
A esta altura, vocês já devem saber que a mídia já reconhece que as dezenas de mortes ocorridas em Pando na semana passada não foram “confrontos” coisa nenhuma, como essa mesma mídia estava apresentando. E que Leopoldo Fernández, o governador oposicionista do estado boliviano de Pando, já foi preso.
Nas Globos, Folhas, Vejas e Estadões, os veículos tratavam de apresentar a mortandade que está ocorrendo na Bolívia como “confrontos”. Mas nem uma semana depois que denúncias como as deste blogcomeçaram a ser feitas, com especial destaque para sites como Vermelho, Vi o Mundo e Agência Carta Maior, a mídia teve que reconhecer o que estava tentando esconder.
Jornais como a Folha de São Paulo, por exemplo, tiveram que noticiar hoje os fatos, o que mostra como é inútil a mídia tentar esconder o inegável, porque este acaba se impondo por ser o que é, e mostra como essa conduta só desgasta os que a adotam.
Em matéria longa, o jornal paulista – no que deve estar sendo acompanhado por vários outros – relata cobertura de seu enviado especial à região do conflito em Pando, na qual aquele enviado confessa ter assistido vídeo que mostra funcionários do “prefecto” do departamento (Estado), Leopoldo Fernández, atirando contra uma multidão de camponeses que se reuniam para manifestar apoio a Evo Morales.
Os homens de Fernández seguiram homens, mulheres e crianças até que tentassem atravessar um rio a nado, quando os fuzilaram dentro da água mesmo. Trata-se de um crime contra a humanidade, genocídio, uma tragédia sem precedentes há muito tempo nesta parte do mundo, pois pode passar de uma centena (talvez até de mais do que isso) o número de massacrados por um dos golpistas da região da Meia Lua bolivianaque provocaram uma crise na América do Sul como não se via há décadas.
Apresento-lhes, logo abaixo, dois vídeos que precisam ser vistos.
1º
O primeiro, é de um telejornal da Telesur que apresenta pronunciamento do vice-ministro da Coordenação com Movimentos Sociais do governo Evo Morales, Sacha Llorenti, que diz que seu governo não negociará com a oposição a impunidade de Fernández, o “cacique”, ao qual certamente já cabe o epíteto que lhe estou dando agora, de “carniceiro de Pando”. Llorenti ainda afirma que a pena do carniceiro pode chegar a 30 anos.
2º
O segundo vídeo apresenta testemunhos de vítimas sobreviventes do massacre. Mesmo quem não tem conexão por banda larga deveria dar um jeito de assistir esses vídeos. São chocantes e mostram o tamanho da calamidade, da tragédia sem par que acaba de acontecer na Bolívia.
Vejam, apesar de só estar confirmado pouco mais de uma dezena de mortos, há mais de uma centena de desaparecidos que mergulharam no río Tahuamanu para fugir dos mercenários de Fernández. Naquele rio aconteceu o principal massacre daquele dia, no qual nem crianças foram poupadas.
Sei que já me convocam para voltar ao fla-flu tucano-petista, mas, neste momento, não tenho condições. Sou meio esquisito mesmo. Essas atrocidades mexem comigo de uma forma como poucos conseguem imaginar. Só os que convivem comigo sabem como o horror da bestialidade humana me transtorna.
Não posso, ainda, parar de denunciar. Pelo menos até que fique mais evidente que se fará justiça e que a América Latina ficará a salvo dos delírios dos norte-americanos, que em sua sede de poder e dominação continuam impondo o terror pelo mundo afora. Agora, inclusive, aqui no nosso quintal. De novo.
Chefes de Estado reunidos na sede do governo chileno, o Palácio La Moneda
Reproduzo, abaixo, a declaração final da reunião de cúpula da União das Nações Sul-Americanas (Unasul), que teve lugar ontem à tarde em Santiago do Chile.
Os seguintes chefes de Estado participaram da reunião:
Michelle Bachelet (Chile); Cristina Fernández de Kirchner (Argentina); Luiz Inácio Lula da Silva (Brasil); Álvaro Uribe (Colômbia); Rafael Correa (Equador); Fernando Lugo (Paraguai); Tabaré Vázquez (Uruguai), Hugo Chávez (Venezuela) e o presidente Evo Morales (Bolívia).
Além dos presidentes, também participaram da reunião enviados do Suriname e da Guiana, o secretário-geral da Organização dos Estados Americanos (OEA), José Miguel Insulza, e o ministro das relações exteriores do Peru, José Antonio García Belaunde, que foi substituir o presidente Alan García, que não pôde viajar por conta de dispositivo legal de seu país que regula viagens de presidentes ao exterior.
Leiam a declaração final da reunião da Unasul, em que os chefes de Estado presentes adotaram as seguintes deliberações:
1.- Expressam seu mais pleno e decidido respaldo ao governo constitucional do presidente Evo Morales, cujo mandato foi ratificado por uma ampla maioria em recente referendo popular.
2.- Advertem que seus respectivos governos rechaçam energicamente e não reconhecerão qualquer situação que implique em tentativa de golpe civil, ruptura da ordem institucional que comprometa a integridade territorial da República da Bolívia
3.- De acordo com o tópico anterior, e em consideração à grave situação que afeta a república irmã da Bolívia, condenam o ataque às instalações governamentais e à Força Pública por parte de grupos que buscam a desestabilização da democracia boliviana, exigindo a pronta devolução dessas instalações como condição para o início de um processo de diálogo. 4.- Também fazem um chamado a todos os atores políticos e sociais envolvidos a que tomem as medidas necessárias para que cessem imediatamente as ações de violência, intimidação e de desacato às instituições democráticas e à ordem jurídica estabelecida.
5.- Nesse contexto, condenam firmemente o massacre de camponeses no departamento de Pando e respaldam o chamado realizado pelo governo boliviano para que uma comissão da Unasul seja constituída nesse país irmão para realizar uma investigação imparcial que permita estabelecer e esclarecer rapidamente o sucedido e formular recomendações, de maneira a garantir que o sucedido não fique impune.
6.- Instam a todos os membros da sociedade boliviana a preservarem a unidade nacional e a integridade territorial desse país, fundamentos básicos de todo Estado, e rechaçam qualquer tentativa de violar esses princípios.
7.- Fazem um chamado ao diálogo para restabelecer as condições que permitam superar a atual situação e proceder à busca de uma solução sustentável dentro do marco do pleno respeito ao estado de direito e à ordem legal vigente.
8.- Nesse sentido, os presidentes da Unasul concordam em criar uma comissão aberta a todos os seus membros, coordenada pela presidência pro tempore, para acompanhar os trabalhos dessa mesa de diálogo conduzida pelo legítimo governo da Bolívia.
9.- Criam uma comissão de apoio e assitência ao governo da Bolívia em função de seus requerimentos, incluindo recursos humanos especializados.
Comentário: O texto mostra que absolutamente todos os governos da América do Sul manifestam total confiança na versão dos fatos relatada por Evo Morales e lhe dão apoio absoluto contra seus opositores. Além disso, a declaração assume a versão do presidente da Bolívia sobre o massacre de Pando.
Na tarde de 15 de setembro de 2008, segunda-feira, em Santiago do Chile, aconteceu uma reunião de cúpula integrada por todos os chefes de Estado da América do Sul, com exceção do presidente do Peru, Alan García.
A edição do Jornal Nacional do mesmo dia, porém, além de ter jogado quase para seu fim a cobertura do fato mais importante do momento para a América do Sul (onde fica a sede das Organizações Globo), apresentando antes uma extensa e soporífera reportagem sobre a alta do dólar (causada pelos tremores na economia americana), uma reportagem que mostrou bacanas choramingando porque as contas dos gastos que fizeram com cartão de crédito no exterior ficarão mais caras, o telejornal mentiu descaradamente sobre o motivo de o presidente do Peru ter faltado à reunião de cúpula da Unasul.
Fátima Bernardes, parte feminina do casal que "ancora" o JN, afirmou que o presidente da Colômbia, Alvaro Uribe, estava preocupado com possibilidade que veria de o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, dar algum “show” retórico contra os Estados Unidos devido às acusações do próprio venezuelano e do presidente da Bolívia, Evo Morales, de a superpotência estar por trás do levante violento da oposição boliviana. E insinuou que o presidente peruano teria faltado ao encontro de chefes de Estado por isso.
A verdade é bem outra. Alan García não compareceu – e mandou um representante – porque no Peru é preciso autorização do Congresso para o presidente deixar o país e, assim, não houve tempo para o presidente peruano obter tal autorização.
A péssima cobertura do JN sobre a reunião da Unasul desprezou fatos “quentes” como a recusa do conclave de chefes de Estado de permitir que os governadores revoltosos da Bolívia, mentores dos conflitos em curso naquele país, participassem do encontro em Santiago do Chile.
Segundo o porta-voz da decisão da Unasul, o subsecretário de Assuntos Latino-Americanos da Chancelaria argentina, Agustín Colombo Sierra, governadores não podem participar de uma reunião de presidentes.
A razão dessa afasia jornalística em relação à reunião de cúpula da Unasul deve-se ao fato de que ela não deve trazer boas notícias para os golpistas bolivianos e, nesse contexto, para a direita latino-americana, à qual servem as Globos daqui, de lá, de todos os países da região, igualmente infectados por essa praga midiática que teima em decidir o que você, leitor, precisa ou não saber.
Enquanto isso, na Argentina...
Grupos sociais, sindicais, políticos e humanitários saíram nesta segunda-feira às ruas de Buenos Aires para manifestar apoio ao presidente da Bolívia, Evo Morales, que enfrenta uma grave crise política. Manifestantes da oposição e partidários do governo protestam em conflitos espalhados por toda a Bolívia, que já deixaram ao menos 30 mortos e 45 feridos.
Uma passeata, que reuniu milhares de pessoas, saiu do Obelisco e percorreu cerca de 400 metros até a embaixada boliviana. O protesto foi convocado pela Central de Trabalhadores Argentinos (CTA), com o apoio de organizações humanitárias, sociais e grupos de piqueteiros (pobres e desempregados).
Outra passeata, de grupos de esquerda, marchou do Congresso argentino à Embaixada da Bolívia.
"Denunciamos a tentativa de desestabilização da Bolívia, por trás da qual estão poderosos interesses de grupos de investidores estrangeiros e de oligarquias locais. Há a mão do governo dos Estados Unidos", disse o professor Hugo Yasky, líder da CTA.
Os manifestantes entregaram uma declaração de apoio à embaixadora da Bolívia na Argentina, Leonor Lemaitre.
Em Montevidéu, o Parlamento do Mercosul aprovou hoje também, no primeiro dia de sua 8ª Sessão Plenária, uma proposta de declaração de apoio ao governo de Morales.
O documento declara o "firme apoio ao regime institucional da República da Bolívia, incluindo o reconhecimento das autoridades e instituições eleitas pelo povo boliviano".
Com Agências Efe e France Presse
Pergunta: onde estão os movimentos sociais, os partidos, os acadêmicos brasileiros? Será que este povo não tem sangue nas veias?
No fim deste post, veja link para acompanhar a reunião da Unasul
Aos poucos, vão sendo impostas a democracia e a verdade aos seus eternos inimigos nesta parte do mundo, ou seja, aos Estados Unidos, à mídia latino-americana e, sobretudo, aos fascistas bolivianos, que tanto mal estão causando ao povo da Bolívia e à democracia de toda região ao reeditarem um passado de golpismo, de racismo e de ruptura institucional.
Facilitado pela mídia golpista daqui, a maior das mentiras que está sendo contada é a de que o governo de Evo Morales Ayma, com seu “comunismo”, estaria afastando investimentos da Bolívia e fazendo ruir a economia do país.
Nesse contexto, vários leitores deste blog vieram aqui repetir bobagens que leram na imprensa golpista tupiniquim sobre a “piora” que o governo da Bolívia promoveu no país, “afastando investimentos” etc.
A “imprensa” estimula a burrice da sociedade ao dar ampla publicidade a discursos enlatados engendrados nas redações das Folhas, Globos, Vejas e, claro, nos “Comitês Cívicos” dos nazistas da “Meia Lua” boliviana.
Essa gente nada sabe sobre a Bolívia. É provável que nem saiba qual é a capital de fato do país, que, à diferença do que se pensa, não é La Paz e, sim, Sucre; La Paz é a sede do governo boliviano. Isso não impede essas vítimas do mau jornalismo de saírem por aí repetindo as imbecilidades que foram inculcadas em suas cabeças vazias.
Diante desse quadro deprimente de emburrecimento jornalístico coletivo, vale a pena expor alguns fatos sobre os êxitos expressivos que também o governo de esquerda boliviano vem obtendo nos últimos anos, à semelhança dos êxitos que todos os governos progressistas da região vêm obtendo em maior ou menor grau.
Evo Morales foi eleito em dezembro de 2005. O país que passou a governar era, então, o mais pobre da América do Sul, com 60% dos seus 9 milhões de habitantes abaixo da linha da pobreza e 38% em extrema pobreza; desemprego de 12%, com 40% de sub-empregados; renda dos indígenas 40% inferior à renda dos não-indígenas (Fonte: Vi o Mundo)
Apesar de ter a segunda maior reserva de petróleo da América do Sul, a Bolívia ainda é o país mais pobre da região. Não foi por outra razão que Evo nacionalizou o gás e o petróleo e negociou seus preços com o Brasil e a Argentina, pois tais preços eram extremamente baixos. O gás, por exemplo, era vendido por cerca de 3 dólares o metro cúbico, apesar de o preço alternativo – por exemplo, da Rússia – ser 3, 4 vezes mais alto. (Fonte: Folha de São Paulo)
Com a nacionalização do petróleo, a Bolívia passou a lucrar 85% das exportações do produto, que dobraram de 2005 para 2006, chegando a 4,9 bilhões de dólares (Fonte: Vi o Mundo).
Mas o discurso falacioso mais comum que as vítimas da lavagem cerebral midiática gostam de alardear é o de que Evo estaria “afastando investimentos estrangeiros” com seu governo “comunista”.
É mentira. A empresa siderúrgica indiana Jindall Steel & Power, por exemplo, ganhou licitação em 2006 para a explorar a jazida de Mutún, uma das reservas de ferro mais importantes do planeta, que fica no leste da Bolívia. O investimento, até agora, soma 2,5 bilhões de dólares (Fonte: Folha On Line).
É bom informar, também, que a mina de Mutún possui reservas de 40 bilhões de toneladas de ferro, 10 bilhões de magnésio (70% das reservas mundiais) e se achava sub-explorada antes de Evo assumir (Fonte: Folha On Line) .
Outro êxito expressivo do governo da Bolívia foi na questão da dívida externa do país. A queda do endividamento boliviano, que ocorreu já no primeiro ano do governo Evo Morales (2006), decorreu da obtenção de muito maior receita do petróleo, principal fonte de divisas da Bolívia e que era vendido a preço de banana ao Brasil, certamente porque os governos brasileiros anteriores devem ter usado “argumentos” altamente convincente$ para que os governos bolivianos de então aceitassem vender-nos gás por preços tão irrisórios...
Os gráficos abaixo mostram quanto caiu a dívida externa da Bolívia a partir do governo Evo Morales, eleito em 2005 e empossado em 2006 (Fonte: Cia - The World Factbook).
Quero explicar a vocês, finalmente, que, durante a recente crise na Bolívia, dediquei-me tanto ao assunto aqui porque descobri uma coisa. Nos últimos 13 anos venho viajando quase todos os meses pela América Latina. Nesses tantos países, fiz amigos, entrei nas casas das famílias, vi as mazelas e as qualidades desses povos e países e com eles estabeleci uma ligação muito íntima. Em suma, aprendi a amar a região em que está o meu país.
Senti uma dor imensa ao ver sofrer tanto, ao ver ser chacinado por bandidos aquele povo pobre, humilde, que tantas vezes me recebeu como se eu fosse uma celebridade só por ser branco, brasileiro e por me dignar a entrar em suas casas humildes. Os bolivianos são pessoas boas, humanas, com forte senso de solidariedade, humildes ao impensável... Sinto muito por eles, sobretudo pelas vítimas dos reacionários nazistas da “Meia Lua”, uma gente desprezível que, infelizmente, conheço bem, e que explora aqueles índios e os trata como lixo.
Mas parece que as coisas melhoram graças ao apoio decidido dos governos progressistas latino-americanos – e não acreditem na imprensa golpista brasileira quando esta põe em dúvida o apoio de Lula a Evo –, que disseram em alto e bom som aos mentores do golpismo boliviano, os Estados Unidos, que não aceitariam que a potência hegemônica voltasse a promover por aqui sua “democracia” criminosa.
O mundo mudou, a América Latina muda mais do que qualquer outra parte, mas a direita latino-americana, vil, assassina, covarde, golpista e capacho dos americanos ainda não percebeu. Azar dela.
Dos leitores
Charge enviada por Conceição Oliveira
Unasul
Acompanhe, minuto a minuto, a reunião de cúpula da Unasul, em Santiago do Chile, através do site do jornal chileno “El Mercúrio”, clicandoaqui(texto em espanhol)
Cientista político da Uerj fala sobre crise na Bolívia (imperdível).
Diferentemente do que está sendo alardeado pela imprensa brasileira, o presidente da Bolívia, Evo Morales, não mandou prender o governador do “departamento” de Pando só porque este está desafiando o estado de sítio decretado pelo governo central naquele “departamento”. Leopoldo Fernández será preso – espero – porque contratou pistoleiros para emboscarem e matarem dezenas de camponeses apoiadores do governo constitucional da Bolívia que marchavam em protesto contra os atentados praticados a soldo dos governadores de oposição, que estão pagando cerca de 50 reais por dia para que índios mercenários ataquem a maioria pobre e indígena do povo boliviano, maioria que acaba de reeleger Morales por ampla margem. Enquanto isso, esses mesmos governadores ameaçam interromper o diálogo que acabam de iniciar com o governo central “se ocorrerem mais mortes”. Quem diz isso é quem está mandando matar. E a imprensa, em vez de denunciar, ajuda a difundir essa mentira.
Tarde demais
Às 17:34 hs, a Folha On Line publicou a matéria abaixo, depois de todos os grandes portais de internet da mídia golpista passarem o dia escondendo o que esta matéria divulga com enorme atraso e de forma cifrada.
Leopoldo Fernández
O opositor Leopoldo Fernández pediu neste domingo à população local para aceitar o estado de sítio imposto pelo governo. Ele afirmou que não admitirá ser detido, porque considera isso um abuso.
"Pedimos à população, embora repudiando e rejeitando uma decisão desta natureza, que se aceite algo que dói muito, [porque] é preciso fazer os esforços para evitar maiores confrontos", disse Fernández à Efe.
O governador regional disse que permanece em Cobija, a capital de Pando, em sua casa, e convidou o ministro da Presidência, Juan Ramón Quintana, que está na região, a ir ao local para dialogar.
Segundo Fernández, em Cobija reina uma tranqüilidade relativa e tensa depois da incursão realizada esta madrugada pelas Forças Armadas para fazer cumprir o estado de sítio decretado pelo governo de Evo Morales.
"Eu não deixei Cobija, estive trabalhando, vendo como podemos fazer para contribuir para ver como estas decisões desatinadas do governo não nos tragam maiores problemas", disse Fernández.
Ele disse que a incursão militar desta madrugada não teve maiores conseqüências, como se temia, salvo incidentes isolados, e reconheceu que não houve maiores abusos dos militares.
O governo acusa Fernández de ser o responsável pelo "massacre" contra camponeses em um conflito que terminou com pelo menos 30 mortos, embora só 17 tenham sido registrados formalmente, porque o resto dos corpos ainda não foi resgatado dos montes e do rio próximos à zona do conflito. Fernández revidou e responsabilizou o governo pelas mortes.
"O governo está mostrando ao mundo inteiro um genocídio, um massacre, e eu me pergunto por que então não formou uma comissão para fazer uma investigação que estabeleça responsabilidades e se punam culpados", disse Fernández.
Ele qualificou de "um filme" as afirmações do governo de que sicários e narcotraficantes peruanos e brasileiros teriam sido contratados para atuar nos choques, mas reconheceu que há algumas pessoas armadas com as quais não tem ligação alguma.
Fernández anunciou que pediu hoje a representantes das Nações Unidas, da Defensoria pública e da Igreja que tentem uma mediação para que chegue a Cobija uma comissão de investigação, além de imprensa nacional e internacional.
Quintana anunciou sábado à noite que deterá Fernández sob a acusação de desacato ao estado de sítio e porque, em sua opinião, ele organizou os grupos que atacaram os camponeses na última quinta-feira (11).
O jornal boliviano "La Razón" acusou Fernández de também dificultar a questão humanitária e colocar barreiras para a chegada de ajuda ao departamento.
Dos leitores
A Folha é inacreditavel, deu uma página inteira só de declarações do Fernandez e uma linha para o ministro da defesa boliviano.
Chegam da Bolívia cada vez mais notícias, os debates sobre os conflitos no país vão se ampliando e muita gente tem se surpreendido com a dimensão continental que os problemas naquele país estão assumindo. Mas para quem se mantém atento à geopolítica das Américas e do resto do mundo, não há surpresa nenhuma no que está acontecendo. E o pior é que ninguém pode dizer que hoje falta informação para quem quer se manter informado sobre o que acontece no resto do mundo, nas relações entre as nações e, mais do que isso, entre os continentes e entre os blocos econômicos.
Algumas pessoas, porém, demonstram um nível de desinformação absolutamente desumano sobre o que acontece em outras partes do mundo em que conflitos regionais, tanto quanto este de agora na Bolívia, integram um jogo mundial pelo poder que jamais amainou, ainda que tenha sido apregoado o fim da “guerra fria” por aqueles que a teriam vencido, mas que jamais venceram coisa nenhuma porque na guerra comercial que substituiu as grandes guerras a partir dos anos 1980 os Estados Unidos vieram sofrendo consideráveis derrotas onde lhes dói mais, ou seja, no bolso.
A elegante avenida Monsenhor Riveros, no centro de Santa Cruz
A China e demais países asiáticos que crescem e se industrializam em escala geométrica, por exemplo, vêm avançando sobre os interesses comerciais americanos em várias partes do mundo e no próprio mercado ianque, ameaçando a hegemonia econômica dos Estados Unidos no mundo como esta jamais foi ameaçada desde a consolidação da posição hegemônica americana em meados do século passado. Indispostos a aceitar a reação econômica do Oriente à sua “vitória” sobre a União Soviética no fim dos anos 1980, os americanos passaram a apelar para o seu enorme poderio bélico a fim de impor os próprios interesses econômicos no outro lado do mundo, sobretudo na questão do petróleo que lhes falta.
Impressiona-me como essa gente desinformada não quer se informar, mas apenas comprar as “soluções” prontas que a imprensa nacional impinge aos que preferem assimilar visões estereotipadas dos fatos a se aprofundar neles. É espantoso que nos fóruns de discussão na internet tantos simplifiquem a questão boliviana atribuindo tudo que está acontecendo a “destempero do índio boliviano e do bufão venezuelano”, que são os epítetos que a imprensa enlatada usa para estigmatizar Evo Morales e Hugo Chávez.
Barzinho da elite na avenida Monsenhor Riveros, em Santa Cruz
A crise boliviana envolve um intrincado jogo de interesses internacionais. Há um grupo minoritário insatisfeito com Morales por este lhe contrariar interesses paroquiais. Esse grupo ameaça até a outros países. Brasil e Argentina podem ficar sem gás, fonte de energia para o qual não têm alternativa. Só pelos atentados aos gasodutos, se fôssemos americanos já teríamos interferido no conflito. Imaginem vocês se a oposição venezuelana sabotasse o embarque do petróleo para os EUA...
Restaurante El Arriero, um dos redutos da elite branca cruzenha
Mas, para quem conhece um pouco a América Latina, não causa surpresa o que está acontecendo na Bolívia. Desde a segunda semana de abril, quando estive em Santa Cruz, eu vinha dizendo neste blog o que estava acontecendo. Postei várias informações sobre o conflito extraídas do seio do grupo social que está fomentando a sedição no país, os meus clientes cruzenhos, muitos dos quais fazem parte dos Comitês Cívicos que comandam o processo desencadeado na Bolívia sob as bênçãos de Washington.
Tenho uma cliente em Santa Cruz que é amiga do Duston Larsen, filho de um grande latifundiário americano que manda e desmanda por lá. É um jovem de uns dois metros de altura. Já o vi numa festa. Foi eleito “Mister Bolívia”, o correspondente masculino aos concursos de “misses”. A elite cruzenha o transformou no padrão de beleza masculina de um país em que cerca de oitenta por cento do povo é indígena ou descendente de indígena.
Duston Larsen, o “Mister Bolívia”
Cansei-me de ouvir essa cliente falar sobre a “guerra civil”. E quando eu lhe perguntava como é que seu grupo social e étnico enfrentaria essa “guerra” sendo tão minoritário, ela explicava direitinho como os americanos apoiariam a oposição. Ela sabia do que estava falando. Rica e próspera comerciante, participa das festanças nos condomínios fechados de Santa Cruz, que reproduzem ruas residenciais de classe média nos Estados Unidos, onde tudo foi tramado.
Além dos brancos americanos e americanizados, a região da “Meia Lua” também abriga um enorme contingente de menonitas, boa parte holandeses, seguidores de Menno Simons, um sacerdote católico que viveu no século XVI no norte da Holanda. Estima-se que haja milhares de colônias menonitas no oriente boliviano.
Eles vivem encerrados em suas comunidades. Não assistem tevê, alguns nem usam luz elétrica e suas famílias praticamente não se relacionam com o mundo exterior. Os homens andam vestidos todos da mesma forma, com macacões de brim azul marinho, camisas de mangas compridas e chapéus de vaqueiro. As mulheres vestem-se como se estivessem indo a festa caipira.
Prósperos agricultores, eles têm grande peso econômico na sociedade boliviana e também vivem assombrados pelos indígenas e pela ameaça de invasão ou perda de suas terras, muitas das quais adquiridas ilegalmente em passado remoto.
Menonitas comprando provisões em Santa Cruz
Leiam o que escrevi aqui em abril, quando estive na Bolívia, no post Questão agrária é matriz do conflito boliviano:
“(...) o que realmente quer a elite boliviana é frear o processo decidido de reforma agrária que a aprovação da nova constituição (...) deverá desencadear (...) O grande interesse contrariado pelo governo Evo Morales, num país em que as riquezas estão no solo mais do que em qualquer outra parte, é a promessa desse governo (...) de redistribuir terras. Isso fica evidente quando se presta atenção a quem foram os cabeças do referendo separatista de 4 de maio (...) Branco Marinkovic, por exemplo, é líder do Comitê Pró Santa Cruz e principal líder da proposta de ‘autonomia departamental’. Filho de imigrantes iugoslavos, é um dos maiores produtores de óleo de soja da Bolívia e um grande proprietário de terras. (...) Outro que esteve por trás do tal referendo foi Osvaldo Monasterio Añez, empresário de Santa Cruz de la Sierra que é grande criador de gado e produtor de soja. Ele presidiu a Comissão Política Econômica do Senado durante as privatizações bancadas pelo ex-presidente Gonzalo Sánchez de Lozada em seu primeiro mandato, de 1993 a 1997. É dono da rede de tevês Unitel, a equivalente da TV Globo na Bolívia (...)”.
Branko Marinkovic, presidente do “Comitê Cívico” cruzenho
A Bolívia é um país em que a única grande atividade econômica além do petróleo, que está nas mãos do estado, é a agricultura. A terra na Bolívia é muito mais cobiçada do que no Brasil. Seus detentores fazem e farão qualquer coisa para manter latifúndios como os da família Larsen. Inclusive entregar aos americanos o poder de manipular as reservas petrolíferas do país.
Já a qualidade do noticiário brasileiro sobre a crise boliviana é ruim porque ignora todos esses fatos e, assim, fomenta esses idiotas que saem pela internet falando asneiras sobre o que está acontecendo na Bolívia. Estão reduzindo tudo a uma alucinação de Evo Morales e a “destempero” do presidente nas relações com a oposição, quando é ele que tem feito reiteradas tentativas de se aproximar dela.
Num momento em que reservas imensas de petróleo foram descobertas no Brasil, e sabendo o que os americanos são capazes de fazer por petróleo, todos nos tornamos bolivianos, pois se os interesses americanos prevalecerem na Bolívia será dado o primeiro passo para eles implantarem no resto de seu quintal o que vêm implantando no mundo, ou seja, a “democratização petrolífera” de mão única, na direção deles mesmos.