Todos estão perguntando quem venceu o debate de sexta-feira entre os candidatos à presidência dos Estados Unidos. A lógica mandaria que o candidato do partido Democrata, Barack Obama, fosse declarado vencedor por nocaute, devido às razões que enumero abaixo:
1ª – O governo do Partido Republicano, presidido por George Walker Bush, é um desastre sob qualquer ângulo que se olhe, e John McCain, aliado de Bush, endossa suas políticas e é o candidato dele à própria sucessão na presidência dos Estados Unidos.
2ª – O governo Bush é um fracasso estratégico-militar e de credibilidade porque disse que havia armas de destruição em massa no Iraque e não havia.
3ª – O governo Bush é um fracasso porque gasta 10 bilhões de dólares por mês para controlar o Iraque, um pais que, depois de invadido, descobriu-se que não representava ameaça aos EUA.
4ª – O governo Bush é um fracasso porque os EUA tiveram que se converter em babás dos grupos radicais-religiosos que se digladiam desde sempre no Iraque. Se os americanos saírem de lá, só Deus sabe o que os tais grupos fanáticos farão com o país. Saddam Hussein ao menos mantinha a ordem no Iraque.
5ª – O governo Bush é um fracasso porque governa para as camadas mais altas da sociedade americana, porque corta impostos dos ricos e não faz programas sociais para os pobres, mantendo pobreza no país mais rico do mundo, o que constitui o definitivo atestado de óbito do capitalismo.
6ª – O governo Bush é um fracasso porque, sob ele, bancos seculares quebram o tempo todo e o país entra em crise econômica, levando insegurança e medo à sociedade americana, gerando prejuízos aos ricos e piorando as vidas dos pobres.
7 – O governo Bush é um fracasso porque os EUA perderam o respeito do mundo. Quando eu era criança, os americanos eram os mocinhos. Os meninos da minha geração queriam ser americanos. Hoje, os EUA são vistos como os vilões do mundo. Foi o que Obama apontou para um McCain que fazia “cara de parede”.
Para agravar a situação de McCain, ele declarou, pouco antes de explodir de vez a crise econômica nos EUA, que “os fundamentos da economia americana” seriam “sólidos”. Só por isso Obama já deveria ser considerado vencedor antecipado da eleição.
No entanto, estamos discutindo quem venceu um debate ao qual McCain tentou não comparecer, pois sabia de sua situação delicada devido aos fracassos do governo que apóia e do qual é visto como continuidade.
Mesmo que Obama tivesse grave retardo mental, demolir McCain deveria ser como tirar doce de criança devido à situação de fragilidade do pessimamente avaliado governo Bush. Isso só não acontece porque Obama é negro e grande parte da sociedade americana é patologicamente racista, só por isso.
Mas a inclinação do Partido Democrata de arriscar disputar a eleição com um negro num país em grande parte racista me diz que alguma coisa está mudando profundamente na maior potência mundial. E deve estar mudando para melhor.
A sorte dos americanos aumentou, pois essa crise deles pode ser que compense o racismo que persiste no país.
Obama, no debate, tocou num ponto vital: disse que uma de suas principais tarefas será mudar a imagem dos EUA perante o mundo, fazer os garotos de todas as partes voltarem a ter heróis americanos. Repito porque essa é a idéia-força da candidatura de Obama.
Não sei quem venceu o debate para o conjunto do eleitorado americano porque não consigo pensar como pensa essa fatia maluca e racista daquela sociedade. Mas se vocês quiserem saber como acho que os americanos mentalmente sadios viram o debate entre Obama e McCain, acho que deram vitória para o democrata. Resta saber, porém, quantos são os americanos mentalmente sadios.
Dos leitores
Se aqui a gente critica a visão Fla X Flu da luta política, precisa ver lá, nos comentários dos blogs. Parece torcida de luta de boxe. Muita gente decepcionada porque o Obama não desferiu um "punch" decisivo, não ganhou por knock-out no primeiro round, só desferiu alguns jabs e levou outros.
A turma do Obama e a do McCain queriam ver o rival no solo. Mais pra rinha de galos do que pra uma luta memorável como a do Cassius Clay contra o George Foreman. A mesma incompreensão do tempo de maturação da política.
Se o Obama desferisse esse golpe fatal no primeiro round-debate - e olha que o McCain provocou! - perdia a luta, a eleição, num país racista e hipócrita: sobraria a imagem do "angry black man" [negro com raiva] judiando de um "herói de guerra" de 72 anos de idade, quatro vezes atacado por um melanoma, etc. etc.
Acho que o Obama se comportou de maneira serena, não caiu nas armadilhas,e dançou no ringue como o grande bailarino Cassius Clay,sem cair. Para o knock-out tem hora, talvez no último debate, quem sabe.
Obama e McCain estão disputando a eleição para presidente dos Estados Unidos da América do Norte, não da América Latina, nem do Brasil.
Evidente que o eleito tem o compromisso fundamental de defender os interesses do seu país e de proteger os cidadãos americanos, não de defender os interesses políticos e econômicos do Brasil.
Não sou cidadã estadunidense, não voto e minha opinião é irrelevante. Mas, como cidadã do mundo, permito-me preferir o candidato Obama porque, pelo menos, parece ser uma pessoa que se pauta pela racionalidade, um homem que pensa antes de agir, que tende a pesar os vários lados de uma questão antes de decidir, não é um xenófobo, tem boa formação intelectual e uma experiência de vida transcultural.
Só isso já me leva a crer que é mais acessível ao diálogo racional e, em conseqüência, parece-me ser mais confiável em política internacional, que é o que interessa a nós e ao mundo. O resto é problema interno dos americanos, eles lá que debatam.
Vera Pereira | Rio de janeiro, RJ, Brasil | professora aposentada |
Comentário: está certíssima a professora Vera Pereira. Criticar Obama por ele dizer que defenderá os interesses americanos demonstra falta de capacidade de olhar a cena com distanciamento e sensatez. Além disso, sobra o fato de que é difícil duvidar de que Obama seria mais acessível ao diálogo com o resto do mundo, até por ele achar que é preciso “melhorar” a imagem de seu país.
Este texto é dirigido aos políticos brasileiros de direita. Escrevo a Fernando Henrique Cardoso, a José Serra, ao mini ACM, a Artur Virgílio, a Agripino Maia, em suma, àqueles políticos que se opõem ao governo Lula,ao PT, a negros na universidade, ao Bolsa Família etc.
Já havia me dirigido a eles antes neste mesmo sentido de agora, mas faz muito tempo. Hoje, porém, como estou num clima assim meio... “flashback”, aproveito para tentar chamá-los à razão quanto a um assunto que muito lhes interessa: o amor que pensam que a mídia sente por eles.
Desde que comecei a me interessar por política – e isso já faz mais de trinta anos – noto como os meios de comunicação servem sempre a interesses constituídos e como na política não é, nunca foi nem nunca será diferente.
Quando me dirigi outras vezes à classe política no sentido que usarei agora, dizia a políticos como Serra, Alckmin, FHC e assemelhados – dos quais a mídia faz de conta de que gosta devido à conjuntura, ao que têm a oferecer, nunca pelos seus “dotes” – que tampouco interessa a eles que ela tome partido na luta político-partidária
É claro que me refiro aos prazos médio e longo, porque no curto prazo o beneficiado pela mídia, exultante pela “mãozinha” que dela está recebendo, não terá condição de avaliar como essa aliança conjuntural é nefasta a todos (políticos e sociedade), menos a ela mesma.
Agora, um dos políticos mais notoriamente beneficiados pelo jornalismo prostituído – aquele que faz “carinhos” indecentes por dinheiro – está descobrindo, da forma mais dura, que eu tinha razão.
Geraldo Alckmin, ex-governador paulista, foi tratado a pão-de-ló pela mídia quando estava no poder. Seu governo desastroso (Febem, PCC, buraco do Metrô etc) foi poupado de críticas até o último dia em que governou. Porém, agora ele está provando do mesmo remédio que ministrou a Lula em 2006, o amargo “remédio” midiático-eleitoral.
Eu sempre disse aos políticos que acham que a mídia os adora porque são bonitinhos, pelos seus belos olhos, que, no dia em que ambos tivessem interesses divergentes, eles ocupariam o lugar de um Lula no tiro ao alvo midiático antes que pudessem dizer “PIG”.
Vocês que não são paulistas, não têm noção do que a mídia daqui está fazendo com seu ex-queridinho Geraldo Alckmin. Está fazendo picadinho dele para que Kassab dispute com Marta Suplicy a prefeitura de São Paulo no segundo turno. Chega a dar dó dele pelas situações em que ela o está colocando.
Alckmin, que se diz tão religioso, está descobrindo que o amor que a mídia lhe dedicava era produto do seu (nosso) dinheiro, jamais de amor verdadeiro. Está descobrindo que prostitutas como a mídia não amam seus clientes, e que só permanecem ao lado deles enquanto podem pagar pela companhia.
Será que vocês não estão sentindo falta de algum discurso no jornalismo de economia dos grandes meios? Lembram-se daquele papo de que era preciso deixar o mercado financeiro se auto-regulamentar? Lembram-se de como Miriam Leitão, Carlos Alberto Sardemberg, Fernando Henrique Cardoso, aqueles editoriais do Estadão, da Folha etc. previam o futuro com base nas teorias sobre livre mercado etc., etc.? Sumiu tudo.
"A curto prazo [o Brasil] vai ter que voltar [ao FMI], para poder garantir no ano que vem [2004] uma situação confortável. O fundo não é bicho-papão. Eles [o governo] estão vendo agora que não é bicho-papão”.
Vejam vocês o enorme potencial desmoralizador que o passado tem... Fernando Henrique, por exemplo, teve que engolir a previsão sobre o Brasil ter que voltar ao FMI porque depois que Lula chegou ao poder o país não só não voltou a pedir dinheiro àquela instituição como hoje, seis anos depois, pagou todinha a sua divida externa pública.
Saibam que tenho na cabeça vários assuntos que gostaria de transformar em livro, mas tem um desses assuntos que tenho certeza que seria sucesso de vendas. E qualquer um poderia escrever tal livro. Aliás, como não sou egoísta, darei a dica a vocês para o caso de alguém querer escrevê-lo antes de mim: escrevam sobre o que a mídia e os políticos diziam ontem e dizem hoje sobre montes de assuntos, e um sobre o outro.
Querem um exemplo? Alguns adorarão lembrar do que Lula dizia que deveria ser feito no país quando era oposição em comparação com o que faz hoje, mas não farão questão nenhuma de lembrar do que a mídia e a direita diziam que ele faria se chegasse ao poder. Entre outros absurdos, diziam que transformaria o Brasil em Cuba, que ia dividir as casas dos ricos com os pobres, que tomaria a poupança, que desvalorizaria o real, que quebraria o país etc.
São pouquíssimos os que podem olhar para o que previram ontem e se gabarem de que o dito não se torna (muito) escandaloso diante do que realmente aconteceu. E não estou nem contando os economistas, porque se formos verificar suas previsões descobriremos que basta fazer o contrário do que pregam que tudo se resolve...
Quem quiser constatar a indigência das previsões desses analistas econômicos cheios de teorias não deve olhar só as bobagens ditas por agências de classificação de risco estrangeiras, pois desmoralização idêntica de análises começa a ocorrer bem aqui no Brasil por conta das previsões catastróficas sobre o câmbio, nas quais até data para o desastre havia sido marcada.
Resgatem-se as previsões catastrofistas sobre a continuidade da queda do dólar e seus efeitos danosos sobre as contas externas. Escarafunchemos nossas redes neurais para ver se achamos os discursos sobre crise cambial e comparemo-los com o que diz - em essência, excluindo a perfumaria preventiva - o economista da Unicamp Luiz Gonzaga Belluzzo no vídeo acima.
O vídeo trata dos efeitos que a crise americana pode ter no Brasil e sobre os instrumentos que Belluzzo, um dos principais assessores econômicos de Lula, diz que o país tem para enfrentar a crise, mas, obviamente, ressaltando que, se o Armagedon econômico viesse – e dizer que o mundo quebrará ainda é prematuro, no mínimo –, é claro que a situação poderia se complicar.
Devido ao remanejamento comercial exterior do país, hoje o Brasil depende muito menos do seu comércio bilateral com os EUA do que dependia no governo anterior. Além disso, a economia brasileira não embarcou na canoa furada dos créditos podres que fizeram eufóricos os descuidados americanos e europeus.
O problema principal que já nos advém da crise ao Norte do mundo é o do crédito, que reduzindo-se com força descontrolada pode gerar de inflação a recessão aqui dentro. Mas, como venho escrevendo aqui há muito tempo, desde a época do terrorismo na questão cambial, temos instrumentos bastante adequados e diversificados para contornar esse problema.
O Brasil andava justamente trabalhando para reduzir a oferta de crédito. A crise americana pode substituir a política monetária restritiva que estava sendo usada. A alta nos juros pode ser detida ou suavizada – ou até revertida – de acordo com a sintonia fina do Banco Central.
Bancos públicos e privados podem receber ajuda do governo para não reduzirem a oferta de crédito além daquilo que os gestores da economia julguem que deva ser reduzida. Para isso, há instrumentos como o estoque de divisas, como os recursos que já se pensava em destinar ao fundo soberano que o Brasil pensava em constituir, ou reduzir o percentual do recolhimento compulsório dos depósitos a vista nos bancos.
Quanto ao câmbio, notem como Belluzzo confirma a previsão que fiz aqui há alguns meses, de que a tendência de desvalorização do dólar era incerta e imotivada, pois o componente câmbio deve ser o mais volátil na equação econômica dos países. A tendência, agora, é de valorização do dólar devido ao refúgio que aqueles que desdenhavam a moeda americana agora buscam nela.
Cadê a crise cambial? Sumiu, junto com o subprime em que apostaram os mentores de muitos dos analistas que vieram falando bobagens sobre as contas externas do país muito antes da hora. A tendência do dólar, agora, é subir. É por isso que Delfim Neto costuma dizer que quem se acha bem informado sobre o câmbio, está só mal informado.
Mas vejam só que coisa: diziam que não iríamos crescer, fizeram piada com o espetáculo do crescimento citado por Lula, pregaram o desastre no câmbio, trataram de atribuir tudo de bom que acontece no Brasil ao cenário externo, mas:
A – O ritmo de crescimento da economia está tão forte que já começa a deixar de ser espetáculo para virar preocupação;
B – A tendência, agora, é o equilíbrio das contas externas ser facilitado devido à alta do dólar, que já começa a ocorrer em toda parte porque, fraca ou não, é na moeda americana que todos buscam refúgio, sempre, quando há crises econômicas.
C – Gostam de atribuir os êxitos da política econômica de Lula à sorte e à ausência de crises durante seu período governamental em comparação com as crises na Cochinchina que havia no tempo de FHC e que nos causavam pneumonias econômicas, enquanto que aquela que está sendo considerada a maior crise econômica desde 1929 já está aí faz quase um ano e o Brasil continua nadando de braçada. Será, pois, questão de tempo para pararem de usar o discurso de que a boa situação do Brasil se deve ao cenário internacional, restando-lhes aumentar o discurso da “herança bendita” de FHC.
Sem querer me gabar, podem pesquisar o que venho dizendo neste blog desde que começou o catastrofismo midiático, lá atrás, e verão que ao menos estou podendo me dar ao luxuoso luxo de manter meu discurso, enquanto que tantos por aí terão que mudar os seus às pressas.
Crise mundial pode beneficiar Brasil , diz "Financial Times"
25/09/2008 - 08h39
Da BBC Brasil.com
Duas reportagens do jornal "Financial Times" sugerem nesta quinta-feira que a crise econômica mundial pode, paradoxalmente, terminar sendo benéfica para o Brasil.
Os artigos, assinados pelo correspondente do jornal em São Paulo, afirmam que a crise pode funcionar como um controle para o crescimento econômico cujo vigor vinha criando pressões inflacionárias.
Diferentemente de outras épocas, o país está mais preparado para enfrentar as turbulências, dizem as reportagens, que no entanto alertam para os fatores - domésticos - com potencial de criar problemas no futuro.
Quem teve interesse ou tempo ou tecnologia disponível – ou tudo isso junto – para assistir o vídeo acima – ou para assisti-lo por outro meio – e tiver o mais remoto conhecimento sobre relações internacionais, terá constatado como eu constatei a importância, a contundência e a coragem da fala do presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, durante a abertura da 63ª Assembléia Geral da ONU, anteontem.
Nada ficou de fora: dos temas candentes sobre a economia americana ao intervencionismo americano na Bolívia e até as políticas discriminatórias do trânsito de cidadãos do Terceiro Mundo nos países ricos, bem como a defesa firme – e totalmente fundamentada – dos êxitos surpreendentes na administração do Brasil pelo seu atual governo, tudo isso foi citado de forma contundente. Foi um dos discursos mais duros, firmes e fundamentados que o presidente fez.
A repercussão do discurso de Lula na mídia brasileira foi débil e distorcida, porém. Tal fato não deveria surpreender quem acompanha de perto a má vontade patológica da mídia com um governo que conseguiu proezas como a de tornar o Brasil o país que mais atraiu investimentos estrangeiros produtivos na América Latina, com o detalhe de que recebeu cerca de 40% mais desses investimentos do que o segundo colocado, o México.
Ontem, enquanto as bolsas de valores voltavam a mergulhar em pânico pelo mundo afora por conta da relutância do Congresso americano em liberar os tais 700 bilhões de dólares, a Bovespa subia e o dólar permanecia equilibrado, mas nem isso satisfez a imprensa desequilibrada que temos aqui.
Um exemplo da má vontade que impera na grande mídia – escrita, falada e televisionada – pôde ser verificado em editorial de hoje da Folha de São Paulo, que se enreda em previsões sombrias sobre a economia brasileira - como a que teimava em fazer para dizer que o país não cresceria, até ele começar a crescer -, enquanto seus colunistas escancaram uma torcida contra revoltante, ainda que uma torcida num páreo perdido, pois a exuberância da solidez da economia brasileira vem sendo cantada em verso e prosa em toda imprensa internacional há muito tempo e de forma crescente.
Quem tem tido acesso à imprensa internacional sabe do que estou falando. O conservador Wall Street Journal, apesar de não conseguir evitar o cacoete neoliberal de chamar de “populistas” políticas sociais que vêm dando grandes resultados, o jornal se derrete por Lula, reconhecendo-lhe a liderança e protagonismo no cenário internacional e anotando a “reverência” com que foram recebidas suas palavras.
Enquanto isso, aqui no Brasil, os “colonistas” (colunistas colonizados) da imprensa golpista boliviano-venezuelana que infestam as redações dos mais ricos meios de comunicação do país tratam de ridicularizar a importância da solenidade anual de abertura da Assembléia Geral da ONU e chamam de “ladainha” o forte discurso político de Lula, feito num fórum de grande importância política por conta do momento econômica e politicamente turbulento porque passa o mundo. Em que planeta está a cabeça dessa turma?
Por dever profissional, viajo direto ao exterior. Nessas viagens, tenho sentido cada vez mais orgulho de ser brasileiro. Estamos sendo cada vez mais bem vistos no mundo porque o país vai bem, é governado com seriedade e disso vem colhendo resultados que deveriam calar a boca dessa imprensa esquizofrênica. E só não calam porque ela não tem vergonha na cara, apesar de ter esses rios de dinheiro que lhe permitem falar mais alto - por enquanto.
O vídeo acima já se tornou Cult. Foi parar até na propaganda eleitoral do candidato republicano à presidência dos EUA, John MacCain, na qual aparecem os trechos mais contundentes de um comício em que o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, referiu-se aos americanos como “ianques de mierda” e os mandou “al carajo”, chegando a ameaçá-los de não lhes mandar mais petróleo.
A intenção do partido republicano ao apresentar esse momento de extrema veemência política do venezuelano foi a de criticar o candidato democrata, Barack Obama, por ter dito que se reunirá com Chávez se for eleito. A peça publicitária, ao fim, pergunta ao telespectador se ele acha que há o que conversar com alguém como Chávez.
A cena protagonizada pelo presidente da Venezuela me fez lembrar de um filme que vi repetidas vezes durante a vida. “O Rato que Ruge” (1959), comédia deliciosa da Columbia Pictures, que trazia o impagável Peter Sellers fazendo três papéis ao lado da diva Jean Seberg, serve perfeitamente para ilustrar o que o vídeo em questão me fez refletir.
Trata-se da história de um pequeno país em crise financeira que declara guerra aos Estados Unidos. Seus governantes sabem que perderão a guerra e é isso mesmo que pretendem. Depois de vencidos, tramam pedir ajuda para se reerguer aos poderosos americanos e, assim, resolver seus problemas. O país imaginário, então, manda vinte homens armados com arcos e flechas atravessarem o oceano para simularem a invasão. Quando chegam à América, porém, o plano acaba não funcionando, mas de uma maneira incrivelmente inusitada. Achando que um exército de brancaleones não ousaria tanto se não tivesse uma terrível arma secreta, os americanos se rendem.
O que me intriga não é se Chávez é caudilho ou é herói revolucionário; o que não entendo é como pode o chefe de um estado como a Venezuela desafiar uma potência como os EUA de forma tão ousada. A discussão sobre se o venezuelano é anjo ou demônio é interminável e nunca leva a lugar nenhum, e hoje não estou com paciência para polêmicas inúteis, mas essa ousadia intrigante de Chávez deve ser melhor refletida pois pode nos mostrar alguns fatos evidentes que o fla-flu ideológico esconde.
E para começarmos a ver tais fatos precisaremos voltar nossos olhares para o outro lado do Atlântico, para a base russa de Severomorsk, no Ártico, de onde, há poucos dias, saíram poderosos navios de guerra da Rússia em direção à Venezuela, para a realização de exercícios de guerra conjuntos dos dois países. Estão a caminho armas poderosas como o cruzador nuclear “Pedro o Grande”, o destróier “Almirante Chabanenko” e vários navios de escolta.
O que essa notícia revela é digno de nota. Depois do colapso da União Soviética, muita gente foi tomada pela crença de que todo aquele poderio militar desvaneceu da face da Terra, sem se lembrar de que, mais do que tudo, a URSS foi resultado do expansionismo russo.
A ex-superpotência naufragou no cassino globalizado e foi à bancarrota. Por muito tempo depois da queda da União Soviética, as notícias sobre a Rússia se limitavam a mostrar um país mergulhado no caos econômico e na corrupção descontrolada, mas a nação que um dia erigiu a poderosa União das Repúblicas Socialistas Soviéticas se reorganizava e, como seria esperável de um país tão poderoso, com uma economia tão grande e com um poder bélico tão descomunal, certamente veio sonhando com readquirir seu quinhão do protagonismo global.
Estados Unidos e Rússia não têm mais as divergências ideológicas extremadas de outrora, ainda que eu esteja simplificando a questão, mas têm diferenças culturais enormes e, acima de tudo, pretensões hegemônicas fortemente antagônicas.
É aí que Chávez volta à cena. O Leste do mundo nunca viu com bons olhos a supremacia Ocidental. E os Estados Unidos deram ao outro lado do planeta todas as razões para tais sentimentos. O líder venezuelano sabia disso e, como seu país não é uma dessas republiquetas sem importância devido ao tesouro petrolífero enterrado em seu subsolo, sabia que poderia contar com a “solidariedade” de potências militares e econômicas como Rússia e – vejam bem – como a China.
O interesse americano na Venezuela é fundamentalmente petrolífero, mas no mundo multipolar que se desenha o país caribenho começa a despertar também interesse estratégico de outros players globais.
Além disso, iniciativas como a Unasul e a ascensão de governos de viés de esquerda por praticamente toda a América do Sul têm se mostrado elementos eficientes de dissuasão dos delírios bélico-financeiros do atual governo dos EUA, um desafio ao poder deles que não surgia há muito tempo.
Por trás da imagem folclórica de Chávez, uma imagem que facilita sua conversão em mero bufão de república bananeira, está um estrategista político dos melhores, que usa a violência verbal e a contemporização com a mesma habilidade e no timing certo mesmo quando parece agir de forma despropositada, como no vídeo acima.
Ele sabe que o momento o favorece. O governo Bush está fragilizado como nunca por razões óbvias como a eleição e a economia. É o momento perfeito para o próprio Chávez dissuadir o novo governo americano de persistir no combate a moinhos de vento venezuelanos, pois da Venezuela jamais veio alguma ameaça real aos americanos. A desinteligência é entre Bush e Chávez, mais do que tudo. E de fundo ideológico, claro.
É a ideologia, aliás, que gera tantos problemas aos americanos. Principalmente porque eles acham que o mundo só lhes será mais seguro se o fizeram pensar e se organizar como eles. Porém, mesmo com todo o poder que têm, cada vez mais esse mundo se rebela contra eles. É sabendo disso que o “rato” venezuelano “ruge”.
No último dia 18 de setembro, o primeiro-conselheiro da ONG Movimento dos Sem Mídia, Antonio Arles, esteve na sede do Ministério Público Federal verificando o andamento da Representação proposta em março deste ano pela nossa entidade àquele Ministério, e que versava sobre responsabilidade da mídia pela ocorrência de casos de reação adversa à vacina contra a febre amarela ocorridos em janeiro deste ano.
Os seguintes meios de comunicação foram representados ao MPF: Organizações Globo, Grupo Folha, Grupo Estado, Editora Abril, Jornal do Brasil, Correio Brasiliense e Revista IstoÉ.
O que ocorreu desde a protocolização da Representação no Ministério Público Federal e que foi informado por aquele Ministério até a última sexta-feira (18/09), foi o seguinte:
1 – Por determinação da procuradora da República doutora Eugênia Augusta Gonzaga Fávero, foram notificados os meios de comunicação representados de que estavam sendo apontados ao MPF como possíveis promotores de crime de alarma social ao difundirem volume e intensidade de notícias sobre o aumento de ocorrências de casos de febre amarela no país, de forma que tal bombardeio midiático terminou por desencadear corrida da sociedade brasileira em busca de vacinação contra a enfermidade.
Alarmadas pelo noticiário, pessoas que não precisavam se vacinar por não residirem em áreas de risco de se contrair a doença ou por não estarem de viagem a essas áreas vacinaram-se de todas as formas e descontroladamente, o que ao fim de janeiro deste ano já gerava mais casos de internação hospitalar por reação adversa à vacina do que casos de febre amarela propriamente ditos.
Além dos meios de comunicação representados, o Ministério da Saúde foi notificado para que fornecesse à procuradora doutora Gonzaga Fávero dados estatísticos sobre a febre amarela no Brasil referentes às duas últimas décadas, incluindo dados sobre o noticiário quanto ao assunto veiculado no período.
Abaixo, reproduzo a notificação que os meios de comunicação representados e o Ministério da Saúde receberam do Ministério Público Federal em seguida a despacho da doutora Gonzaga Fávero de 24 de junho de 2008.
2 – Notificados o Ministério da Saúde e os meios de comunicação representados, sucederam as notificações respostas de três daqueles meios, o Grupo Estado, o Grupo Folha e as Organizações Globo. Os três pediram arquivamento do processo.
O Ministério da Saúde, porém, até 6 de agosto último não havia enviado os dados requeridos pelo MPF, o que gerou Certidão de funcionária daquele Ministério ao MS no sentido de reiterar o pedido. Reproduzo, abaixo, o informe da funcionária à doutora Gonzaga Fávero.
3 – Finalmente, em despacho de 25 de agosto deste ano a procuradora da República doutora Gonzaga Fávero emitiu despacho negando o pedido de arquivamento do processo administrativo de investigação da Representação do MSM e determinando o enquadramento do prazo investigativo de acordo com resolução daquele Ministério que o torna “indeterminado”, a espera de informações do Ministério da Saúde.
Ao alterar o “status” para processo preparatório, segundo o setor jurídico do Movimento dos Sem Mídia o Ministério Público Federal prepara-se para instaurar inquérito civil, a depender da análise dos dados solicitados ao Ministério da Saúde. Sobre esse ponto, quero discorrer logo depois da reprodução, abaixo, do despacho da doutora Gonzaga Fávero.
Após análise técnico-jurídica do andamento da Representação proposta pelo MSM, e em conjunto com o diretor-jurídico da ONG, doutor Antonio Donizeti, com a analista técnica que nos auxiliou na elaboração da Representação original, a jornalista especializada em Saúde Conceição Lemes, e com o primeiro-secretário da Organização, o estudante de História Antonio Arles, o Movimento dos Sem Mídia voltará a se manifestar no processo junto ao MPF, de maneira a oferecer mais dados referentes à Representação que propôs.
O teor dessa argumentação será informado oportunamente.
Diretor do MSM
Eduardo,
a frase do dia foi tirada de entrevista que você deu ao site do Paulo Henrique Amorim em Março de 2008: "Alguém tem que pôr o guiso nesse gato e nós vamos pôr, porque é a isso que nos propusemos quando criamos essa ONG, o MSM":
1.O Ministério Público Federal recebeu a Representação e, pela seriedade da questão, notificou todos os órgãos da mídia representados a prestarem esclarecimentos sobre a divulgação exacerbada e alarmista dos casos de febre amarela no início deste ano;
2.O Estadão, a Folha e a Rede Globo já se manifestaram;
3.O MPF está aguardando o parecer e dados estatísticos do Ministério da Saúde sobre a febre amarela no País nos últimos 20 anos e os gastos com vacinação em 2008, comparados com anos anteriores
4.A investigação terá duração indeterminada, conforme decisão do MPF, negando o pedido de arquivamento da representação feito por Folha, Estadão e Globo.
A sociedade acompanha atenta e confiante no trabalho do Ministério Público Federal-MPF.
Antonio Donizeti | São Paulo - SP | Advogado | 24/09/2008 12:14
Você está preocupado com a crise econômica americana? Acha que ela pode acabar estourando (também) em suas mãos? Bem, você tem boas razões para se preocupar. A hegemonia americana sempre permitiu que a potência empurrasse seus problemas a outros, ou que colocasse outros em problemas.
Mas essa crise, que analistas conceituados já dizem de gravidade igual à da grande depressão de 1929 – ou pior do que ela –, pode ter vindo em boa hora. Por inexplicável que lhe pareça a afirmação, posso explicá-la facilmente.
Dois problemas sérios da humanidade serão ao menos mais notados por ela graças ao efeito dominó que abala a economia mundial a partir da mal gerenciada economia americana.
E o melhor de tudo é que os efeitos benfazejos que podem advir da crise dos subprime (os créditos podres comprados pelos espertinhos de Wall Street, especialistas em dar conselhos que não seguem) serão para essa mesma humanidade, sobretudo para a esmagadora maioria dela, composta de pobres, os eternos afetados pela liberdade que o neoliberalismo delegou ao grande capital transnacional.
O suspense que imprimi ao anúncio dos benefícios que vejo na crise americana serviu para valorizá-los, porque merecem. Mas vamos a eles.
Por ilógico que pareça a qualquer pessoa minimamente sensata a mera possibilidade de George Bush fazer seu sucessor depois da desastrosa era que ele inaugurou para seu país, o fato é que até que estourasse essa crise econômica havia considerável possibilidade de essa tragédia acontecer. Agora, a possibilidade não deixou de existir, mas diminuiu muito
A tragédia no Iraque persistirá caso o candidato republicano à presidência dos EUA, John McCain, seja eleito. A eventual retirada das tropas americanas prometida por Obama já compensará a crise mundial. E conforme pesquisa quentinha sobre a intenção de voto americana, graças à crise Obama já tem 51% e MacCain, tem 46%.
E tem mais: alguém imagina um Barack Obama interferindo na política interna da Bolívia ou da Venezuela, visando derrubar seus governos? Bem, se MacCain se eleger – ou se se elegesse –, podem acreditar que o golpismo teleguiado ianque continuará infernizando o resto do mundo.
Isso quer dizer que os democratas não defenderão a hegemonia americana no mundo? Claro que não. Mas a história mostra que eles são menos desequilibrados no uso do poderio fantástico dos EUA.
Alguns virão dar exemplos de que os democratas são americanos e, assim, também usam do imperialismo, mas farão isso sem se dar conta de que os republicanos são muito piores nesse quesito, ainda que alguns os julguem menos protecionistas.
Contudo, temos que entender que até já nem estamos fazendo tanta questão do mercado americano, por importante que seja. Fazemos muito mais questão é de que, se não podem nos ajudar, que não nos atrapalhem.
Mas a forma como estourou a crise econômica e o preço que o contribuinte americano irá pagar pela má gestão republicana da economia mais fácil de ser gerida do mundo – devido ao poder que tem de empurrar seus problemas para os outros –, muito provavelmente elegerá Obama.
Pergunta: quanto vale para a humanidade retirar verdadeiros maníacos do controle do maior poder econômico e militar do mundo? Será que vale 700 bilhões de dólares?
Aqui no Brasil, poderemos ter que consumir menos, o crédito poderá escassear, mas isso num contexto em que tudo de que estávamos precisando era reduzir o ritmo da nossa economia, que já começava a invocar os fundamentos da lei da oferta e da procura, gerando inflação.
Mas falei em dois efeitos benfazejos da crise americana e só mencionei um; o outro benefício gerado pelo resultado da falta absoluta de controle sobre o capitalismo que os neoliberais costumam pregar será o desastre que essa liberalidade gerou e que todos estão vendo.
A partir da década de oitenta do século vinte, começou esse “rendez-vous” em que se constituíram os Estados nacionais para desfrute escandaloso de especuladores que flertam com ilegalidade por conta da tal “globalização financeira”, que permitiu estripulias como a do banco dos irmãos Lehman, por exemplo, e de outros “oráculos” econômicos de outrora.
Esse modelo “desregulamentado” será ao menos discutido depois de quase duas décadas sendo vendido ao mundo como panacéia por esses neobobos da imprensa golpista terceiro-mundista e por seus mestres neobobos da imprensa globalizada dos EUA.
É bem provável, agora, que os neobobos tucanos ou republicanos se dêem conta de que vêm defendendo uma bomba atômica, que agora ameaça explodir no colo deles. De maneira que é bem provável que as mídias daqui e de lá passem a permitir o questionamento do modelo capitalista vigente. Até por instinto de autopreservação.
De resto, para nós mesmos, ainda que não se conheça a dimensão que poderá assumir a crise gerada pelas barbeiragens ianques, provavelmente essa dimensão não será suficientemente grande para nos colocar em maiores problemas.
A crise educativa que explodiu nos EUA, explodiu na hora certa. Principalmente para nós, brasileiros, que saltamos do barco neobobo em 2002, a tempo de procurar outros mercados para os nossos produtos, o que agora nos permite a gostosa situação de não ficarmos com as mesmas caras de otários dos sabichões de outrora.
O que está faltando hoje no mundo é as sociedades discutirem mais o conceito de democracia. Por falta dessa discussão é que surgem os piores conflitos internos das nações, porque não se esclarece mais as pessoas sobre o comportamento a que a democracia obriga os democratas convictos.
Antes de abordar o comportamento democrático, porém, é bom explicar a expressão “democrata convicto”, porque esse ainda é um espécime um tanto quanto raro apesar da experiência democrática secular da humanidade.
O democrata entende e aceita os limites de seus direitos tanto quando é partícipe da maioria quanto quando se encontra entre a minoria, e tal compreensão não é fácil de ser atingida. Não é por outra razão que tantos querem direitos ditatoriais quando suas opiniões são majoritárias e até quando são minoritárias.
Há bons exemplos do que digo. No Brasil, por exemplo, os estratos mais altos da pirâmide social não aceitam políticas públicas de um governo eleito pela vontade da maioria. No caso deste país e de todos os outros em que isso acontece, geralmente acontece porque os de cima não aceitam este ou aquele uso de dinheiro público para os de baixo.
Essa divergência da minoria (economicamente poderosa) com o desejo da maioria costuma ser a causa mais freqüente de processos que conduzem a rupturas democráticas, ainda que não seja a única causa.
A divergência entre maioria e minoria é a causa da criação da democracia, sobretudo da democracia representativa. Através dela, apesar de as minorias não poderem fazer prevalecer suas vontades, através dos colegiados de representantes populares podem negociar esta ou aquela política pública de forma que a vontade majoritária se torne o mais palatável possível à minoria.
No entanto, ser democrata nos obriga a aceitar o ônus pesado de ser minoria, pois ser maioria é fácil. Assim, se a negociação com a maioria não for satisfatória e o poder de negociação da minoria tiver se esgotado por inferioridade numérica, o democrata está impedido de não aceitar um resultado insatisfatório de uma negociação.
Voltemos ao Brasil. Aqui, apesar dos estratagemas de manipulação da minoria abastada para tentar impor sua vontade a despeito de sua condição numérica, ainda se acredita que numa situação em que tais estratagemas não funcionem haverá o acatamento à lei. Contudo, muitos têm a sensação de que há um ponto em que certas decisões de um governo da maioria podem não ser aceitas pela minoria privilegiada economicamente.
O que acaba de acontecer na Bolívia é a exacerbação dessa não-aceitação tácita da vontade da maioria que vemos aqui. Na verdade, a sensação à qual me referi acima se materializa na atitude da elite econômica boliviana, mostrando o que pressentimos que pode acontecer no Brasil se o governo implantar aquelas tais políticas que a minoria abastada considere cem por cento “inaceitáveis”.
Ainda no caso boliviano, dois terços da população querem determinadas políticas e um terço não quer. O governo se dispõe a negociar, mas como não se propõe a ceder ao ponto que quer a oposição esta opta por ignorar as leis, as convenções democráticas e partir para o enfrentamento. Estabelece-se, então, uma situação praticamente surreal de ditadura da minoria, ou seja, o que a maioria não impõe pela força da lei a minoria quer impor pela força bruta.
O conceito de democracia é bastante simples. Buscam torná-lo complexo para turvar a compreensão das pessoas quanto ao limite dos direitos das maiorias e das minorias, que é onde residem as convicções democráticas. Trata-se do respeito às regras do jogo, para simplificar.
Também é útil ressaltar que o que turva o entendimento de alguns sobre o conceito de democracia costuma ser a crença em “reforços” artificiais de seus direitos, tais como o poder econômico. Como por muito tempo o dinheiro permitiu materializar vontades da minoria em afronta ao princípio democrático, quando esse poder se mostra insuficiente seus detentores são tomados por uma sensação de violação de seus “direitos”.
Uma boa sugestão para o presidente Evo Morales seria difundir ampla campanha publicitária explicando o conceito de democracia. Mas a sugestão vale para o Brasil, também, onde a compreensão dos limites dos direitos de cada um ainda é precária nos setores menos acostumados à verdadeira democracia, na qual todos têm os mesmos direitos.
O site noticioso do PC do B, o “Vermelho”, publicou um editorial no último dia 9 intitulado “O tamanho do fator São Paulo”, no qual avaliou uma eleição que confrontará antecipadamente os dois projetos político-administrativos de que dispõe hoje o país, o do PSDB e o do PT (em vigor).
Vejam o que disse o editorial do “Vermelho”:
Vistas pelo gabarito nacional, as eleições que ocorrerão daqui a três domingos parecem um passeio do PT e outros partidos da base do governo Lula. Uma grande incógnita permanece, a inquietar o campo de Lula e esperançar a oposição: São Paulo.
(...) em São Paulo a chapa de Lula – Marta Suplicy-Aldo Rebelo, PT-PCdoB – está bem na foto (...) Geraldo Alckmin, do PSDB, (...) está em gradativa queda, e (...) Gilberto Kassab, do DEM, em lenta ascensão (...). Essa vantagem tende a crescer na medida em que os conservadores rivais se engalfinhem entre si para ver quem chega ao segundo turno. (...)
A chapa Marta-Aldo beneficia-se da até agora insanável fratura do campo conservador. Conta com o pico do prestígio de Lula (e o presidente, sabedor do que está em jogo, engajou-se pessoalmente na contenda paulistana) (...)
Mas vale lembrar que a escolha à direita prevaleceu no eleitorado paulistano em ambos os turnos das eleições de 2004 e 2006 (...) Social, política e ideologicamente, o maior colégio eleitoral do país (8,2 milhões de eleitores, mais que a soma do Rio, BH e Salvador) (...)
[Em] 1985 (...) o candidato peemedebista (Fernando Henrique Cardoso, quem diria) liderou todas as pesquisas, inclusive a de boca de urna, e chegou a tirar fotos sentado na cadeira de prefeito. Contados os votos, o conservador ex-presidente Jânio Quadros (PTB) bateu FHC por 3,3% de vantagem. E foi o que bastou: o contrapeso paulistano entortou para a direita a conduta do governo federal e todo o quadro político brasileiro da época.
Uma geração mais tarde, a oposição conservadora [ao governo federal]tenta em São Paulo, com Alckmin ou Kassab, repetir 1985 e ao menos empanar a festa de Lula. As urnas de outubro dirão se logrará a façanha.
Esse seria o “fator” São Paulo, que anteciparia a sucessão presidencial de 2010. Concordo com a tese. E há três cenários possíveis na capital paulista. Contudo, apenas dois deles interessam aos protagonistas da campanha que elegerá o sucessor de Lula daqui a dois anos, Serra e o próprio presidente da República.
O cenário que interessa a Lula é óbvio. A eleição de Marta, numa campanha em que o presidente se esforça para elegê-la, representará o coroamento do prestígio dele no maior colégio eleitoral do país e na “casa” do seu maior adversário, o qual confrontará indiretamente em 2010 e (talvez) diretamente em 2014, José Serra.
Ao governador tucano, único candidato definido (oficiosamente) para disputar a sucessão de Lula até o momento, o resultado que realmente interessa é a eleição daquele que impingiu a São Paulo em 2006 ao romper compromisso público que assumiu de permanecer no cargo de prefeito até o fim deste ano para se candidatar a governador do Estado.
A derrota de Gilberto Kassab, tanto para Alckmin quanto para Marta, representará forte abalo no prestígio de Serra em seu reduto eleitoral. Ainda mais depois dos pesados ataques de Alckmin ao prefeito paulistano, por meio dos quais lhe atacou até a ética ao ressaltar ao eleitorado que Kassab serviu a políticos acusados de corrupção como Paulo Maluf e Celso Pitta, e que atualmente é aliado de outro político que também sempre foi alvo de graves acusações, Orestes Quércia.
Já para Lula, uma eventual vitória de Alckmin representaria o mal menor. A derrota de Kassab - quem, segundo o próprio Serra, teria seguido à risca o programa do governador para a capital paulista – seria derrota do tucano, ainda que uma derrota pessoal e uma vitória do PSDB.
Não é por outra razão que a mídia local vem atacando Alckmin com virulência surpreendente. O jornal tido como o mais tucano do país, a Folha de São Paulo, por exemplo, vem mostrando que nem é tão tucana, que é muito mais serrista, pois tem se esmerado nos ataques a Alckmin.
A preocupação da imprensa paulista em barrar a passagem de Alckmin para o segundo turno, apesar do favorecimento que os ataques dela ao candidato do PSDB ao governo de São Paulo gera para Marta Suplicy, demonstra que essa imprensa está segura de que será fácil vencer Marta no fim, seja quem for o candidato da direita.
E para quem acha que será difícil a composição entre demos e tucanos depois do que Alckmin tem dito de Kassab, engana-se. A mídia abafará tudo o que um disse sobre o outro. A ordem da direita, no segundo turno, será “todos contra Marta” – e, por extensão, contra Lula.
É por isso que faço aqui um vaticínio. Toda a “imparcialidade” que a imprensa de São Paulo está adotando nesta sucessão paulistana tem prazo certo para acabar, a menos que Marta vença no primeiro turno. Do contrário, no dia seguinte ao pleito a ex-prefeita começará a sofrer uma das maiores campanhas de “desconstrução” midiática já vistas.