Contabilizo várias manifestações de leitores pedindo comentário meu sobre Gilmar Mendes e sobre a inversão jurídico-policial que expõe mais a investigações e a questionamentos públicos e jurídicos os que investigaram e denunciaram Daniel Dantas do que ao próprio.
O país realmente corre o risco não só de ver Dantas sair impune, mas de ver punidos o juiz Fausto De Sanctis e o delegado Protógenes Queiróz, por exemplo, por terem ousado “mexer” com o poderoso, com o quase onipotente banqueiro. Enquanto isso, Gilmar Mendes obtém a concordância e a cumplicidade de seus pares no STF com o habeas-corpus criminoso concedido a Dantas na calada da noite (literalmente).
E onde está o governo Lula, enquanto isso? Essa é a pergunta de um bilhão de dólares e pretendo respondê-la neste post.
Primeiro, quero dizer a vocês que estou me cansando do apoio inequívoco e decidido que sempre dei ao PT e a Lula. Não é que eu não reconheça os avanços sociais e econômicos gerados por sua gestão. Reconheço que esses avanços existiram, mas também devo reconhecer que são avanços que podem virar pó se Lula não conseguir fazer seu sucessor.
Há uma diferença importantíssima entre governos como o de Lula e os de seus pares sul-americanos que também vêm promovendo avanços sociais e econômicos em seus países: o nível de avanços logrados, que deriva da ambição e das condições políticas e institucionais de cada país.
Lula diminuiu a pobreza, a desigualdade e pôs a economia nos eixos, mas tudo isso pode evaporar se ele for substituído por um representante da elite branca de direita em 2011.
Para que a desigualdade e a pobreza continuem diminuindo – e precisam continuar diminuindo, porque a redução que houve está longe de ter posto as coisas no seu devido lugar, tendo sido apenas um começo – e para que a economia se mantenha sólida, o país precisa continuar sendo bem governado por pelo menos mais uma década.
A candidatura Serra é um projeto de interrupção da distribuição de renda e de devolução do controle do Estado à exígua elite branca brasileira, insuficiente para lotar um pequeno estádio de futebol. E quando um projeto de país atende a grupo social tão pequeno, o desarranjo sócio-econômico é mera questão de tempo.
Quando um governo trabalha para beneficiar tão poucos, a economia, inclusive, é a primeira vítima. Em seguida, a carestia social trata de aumentar os conflitos entre a larguíssima base da pirâmide e seu topo estreito, com reflexos imediatos na segurança pública.
Isso é o que a elite branca de direita brasileira não entende. Seu projeto de interrupção da distribuição de renda e de volta do saque aos cofres públicos ignora que aquilo que chama de criminalidade é apenas um processo insurrecional da ralé contra a burguesia como tantos outros que a humanidade já viu em todas as partes do mundo durante o curso da história.
Os avanços brasileiros são frágeis porque são tímidos. Comparem-nos com os avanços que conseguiram um Hugo Chávez, um Rafael Correa ou um Evo Morales. E, para comparar, vou lhes descrever o que eles conseguiram, o que poderei fazer porque, por conta de minha profissão, preciso visitar periodicamente os países que esses líderes políticos governam.
Em países como Venezuela, Equador ou Bolívia, apesar dos conflitos que a maior vontade política de seus presidentes gerou, os avanços obtidos são milhões de vezes mais efetivos do que os nossos, com as novas constituições e com os processos de politização da massa empobrecida que essa vontade política implementou.
Alguns de vocês sabem que visitei favelas e outras partes paupérrimas desses países que mencionei. Posso lhes dizer uma diferença monumental entre os pobres brasileiros e os venezuelanos, equatorianos ou bolivianos: a consciência política, a compreensão dos direitos e do poder de promover melhoras sociais e econômicas que tem a política.
O projeto mais ousado de todos, sem dúvida, é o de Hugo Chávez. Ele tratou de incutir consciência política no povo. Fez isso enfrentando as elites internas e seu financiador externo, o governo fascista de George Bush.
Vocês querem saber como o presidente venezuelano fez tudo isso? É simples: junto com programas sociais caríssimos, financiados com os recursos enormes do petróleo daquele país que antes eram doados a uma pequena elite étnica, social e econômica, Chávez estabeleceu núcleos de politização em todas as favelas, em todos os guetos em que vive a maioria empobrecida do povo venezuelano.
Para tanto, o líder político atacou primeiro – e com decisão – um impedimento fortíssimo à conscientização política de seu povo: o analfabetismo. Em poucos anos, assim, a Venezuela conseguiu acabar com essa chaga social – e a ONU confirmou isso.
Hoje, o povo venezuelano é um dos mais politizados do mundo. Qualquer cidadão daquele país, por mais humilde e pouco instruído (formalmente) que seja, entende muito de política e tem noções até de economia. Todos os venezuelanos, do mais rico ao mais pobre, conhecem seus direitos hoje em dia.
Governando há bem menos tempo do que Chávez, os presidentes Morales e Correa estão seguindo os passos do homólogo venezuelano. Dessa maneira, também estão promovendo mudanças profundas em seus países ao aumentarem exponencialmente a cultura política dos povos que governam.
Todos os três líderes, no entanto, tiveram a coragem questionável de se valerem de um certo autoritarismo, de um tipo de voluntarismo e com uma coragem que assustou as elites de países vizinhos como o nosso e até povos de países mais distantes, como os Estados Unidos. E não se pode negar o perigo que representa um líder político usar autoritarismo, por melhores que sejam suas intenções
Chávez, Morales e Correa mostraram, no entanto, que não basta vontade de mudar; é preciso coragem.
Contudo – e já me cansei de dizer isso aqui –, esses países têm uma diferença enorme em relação ao nosso: suas forças armadas.
No Brasil, à diferença de Argentina, Bolívia, Chile, Equador, Paraguai e Venezuela, os militares continuam aliados à elite branca de direita e vivem fazendo ameaças a Lula. Nos outros países mencionados, mudaram de lado, ou seja, foram para o lado da democracia. Apóiam governos eleitos legitimamente, como é obrigação das forças armadas nas democracias.
Não culpo Lula completamente, portanto. A democracia brasileira ainda é uma concessão das elites. Não tenho a menor dúvida – e sei que esse meu ponto de vista é polêmico – de que os militares derrubariam Lula se ele enveredasse pela radicalização da democracia, contrariando interesses poderosos com maior decisão. Chávez, Morales e Correa não têm essa barreira.
Os militares e o Judiciário constituem os últimos bastiões da elite branca de direita ou continuam sendo o poderoso bastião de sempre?
Vejam vocês que a elite branca de direita, que usou ontem e continua usando hoje políticos como José Serra e a mídia corporativa, é a mais poderosa das três Américas e uma das mais poderosas do mundo. Para enfrentá-la não basta vontade. Como já disse, é preciso coragem, uma coragem que falta a Lula e ao PT, e estes são só o que tem a massa empobrecida e negra do Brasil.
Querem que eu fale de Gilmar Mendes? Para que? A questão não é ele, mas os que estão por trás dele. Se ele morresse hoje, outro tomaria seu lugar. A questão toda são os militares, para garantirem a vontade da maioria. Enquanto continuarem golpistas, elitistas e direitistas, este país só conseguirá melhoras frágeis como as que Lula conseguiu.
foto do protocolo da manifestação do MSM no MPF tirada com celular
Cumpre-me informar que hoje, dia 7 de novembro de 2008, a Organização Não Governamental (ONG) que presido, o Movimento dos Sem Mídia, protocolou no Ministério Público Federal de São Paulo nova manifestação àquela instituição no sentido de contestar as defesas dos meios de comunicação por nós representados que se manifestaram no processo (Globo, Estadão e Folha de São Paulo).
Também apresentamos novas evidências que corroboram nossa denúncia e pedimos mais dados ao Ministério da Saúde a fim de reforçar nosso ponto de vista sobre alarmismo que acreditamos que esses e outros meios de comunicação cometeram no começo deste ano ao provocarem corrida inédita de milhões de brasileiros aos postos de vacinação em busca de se imunizarem contra a febre amarela, o que acabou gerando 8 mortes por reação adversa ao medicamento inclusive em pessoas que não precisavam se vacinar e que o fizeram movidas pelo alarmismo da mídia.
Estive pessoalmente na sede do MPF-SP e aproveitei para dar uma olhada no processo. Estadão e Folha reiteraram pedido à instituição que esses e outros veículos fizeram anteriormente. Esses veículos voltaram a pedir que a investigação seja extinta. Fizeram isso porque o MPF negou-lhes o pedido anterior. E, no que depender do MSM, negará este também.
Tenho elementos para acreditar que isso acontecerá, pois nossa ONG agora juntou ao processo relatório do Ministério da Saúde completamente desconhecido do público e que faz comparação entre a cobertura da mídia nos surtos de febre amarela de 2000, de 2003 e de 2008. O material revela a enorme disparidade de tratamento dado pela mídia ao surto de febre amarela deste ano e aos dos anos anteriores.
Devido a problemas que estou tendo com a internet, não será possível reproduzir aqui o relatório original conseguido pela jornalista Conceição Lemes junto ao Ministério da Saúde e fornecido ao MSM. Porém, enviarei o material ao Luiz Carlos Azenha para que, se puder, reproduza a íntegra do material do MS em seu site.
Contudo, na manifestação ao MPF reproduzi a parte do relatório do Ministério da Saúde que trata do principal – a seguir, vocês verão do que se trata. Faltarão aqui apenas gráficos e informações sobre o surto de 2003, mas será possível entender a gravidade do documento. E espero que o Azenha e outros reproduzam o material, porque é de cair o queixo.
Alguns de vocês devem ter notado que, na noite de ontem (quinta-feira), não liberei comentários. Hoje pela manhã havia dezenas deles represados. Isso aconteceu porque estou sem telefone em casa e, portanto, sem internet.
Fui ter esse problema justamente agora, quando estou concluindo a nova manifestação do Movimento dos Sem Mídia ao Ministério Público Federal por conta da representação que nossa ONG fez àquela instituição denunciando a Globo, a Folha, o Estadão, a Veja, a IstoÉ, o Jornal do Brasil e o Correio Brasiliense por crime de alarma social durante a epidemia fajuta de febre amarela que esses meios de comunicação inventaram que havia no Brasil no início deste ano.
Sobre esse assunto, comento que o MSM soltará uma bomba em contestação às defesas que veículos como Globo, Folha e Estadão fizeram ao MPF. Por enquanto, é só o que posso adiantar. Semana que vem revelarei do que se trata.
Mas o assunto aqui é outro. Vocês sabem por que estou sem telefone em casa? É só porque a Telefônica não localiza a conta que paguei, não se interessa em receber cópia do comprovante de pagamento e chega ao ponto de atendentes arrogantes baterem o telefone na minha cara se eu ouso dizer que estão errados – sem ofender, sem gritar, sem destratá-los de forma nenhuma.
Ontem, eu disse à moça do call center da Telefônica que ela não havia lido direito o “protocolo” anterior que havia feito – o 9º protocolo que faço em uma semana – e ela disse, apenas, um “ah, é?!” e desligou o telefone na minha cara depois de eu esperar cerca de 20 minutos para ser atendido.
Recorri, então, à Anatel e comecei a contar minha história. Depois de várias tentativas, consegui uma cristã para ouvir o que eu tinha a dizer e ela, com muita má vontade, registrou minha queixa. Parecia estar dormindo ao telefone.
A arrogância dessas empresas de telefonia, a irresponsabilidade, o desencontro das informações que dão, é impressionante. E a agência incumbida de regular essa palhaçada trata o consumidor como lixo, como chato que não tem o que fazer.
Ainda não resolvi o problema e, portanto, estou sem internet em casa. Tentarei contratar algum outro serviço provisoriamente – como, por exemplo, o 3G, aquela espécie de mouse que a gente conecta no computador para ter sinal de internet –, mas, se não conseguir, a liberação de comentários, durante o fim de semana, poderá atrasar.
Ainda hoje volto a postar. No momento, porém, estou terminando a peça que tentarei protocolar ainda hoje no MPF, mas como dependo do advogado da ONG para pôr os termos jurídicos na folha de rosto da representação e verificar se há alguma impropriedade no que escrevi, talvez não consiga. Estou tentando e não estou conseguindo contato com ele. E, para ajudar, hoje ainda é o rodízio do meu carro.
Enfim, depois não sabem por que os paulistanos sofrem tantos infartos. Junte-se tudo que relatei aos meus afazeres profissionais – aqueles que me pagam as contas – e tem-se aí o quadro propício para um blogueiro, comerciante e ongueiro desta cidade infernal ter um treco e passar desta para uma melhor.
Pedem que eu abandone o tema da eleição do novo presidente dos Estados Unidos e volte à nossa boa e velha política paroquial. Ainda não. A importância do que está acontecendo no mundo é muito maior do que as maquinações politiqueiras que só visam o processo eleitoral de 2010. Maquinações que, por sua vez, são extemporâneas e inúteis. O assunto do momento é a crise internacional e a eleição de Barack Obama importa tanto ao mundo também por isso, porque os EUA são os protagonistas dessa crise.
Mas não é só por isso. A eleição do negro de centro-esquerda de nome muçulmano para gerir o maior poder econômico e militar do planeta pode distender as relações internacionais e, assim, tirar o mundo do estado de guerra em que foi metido por George Bush.
Não é por outra razão que líderes políticos do mundo inteiro – e de todas as ideologias – apoiaram e até pediram a eleição de Obama. Não é por outra razão que multidões foram às ruas comemorar a vitória do candidato democrata em países da Europa, da Ásia, da África e da América Latina.
A eleição de Obama foi uma vitória ideológica da esquerda de todas as partes, mas esta, em parte, parece não entender isso. E, querendo ser mais realista do que o rei, e até por conta de uma certa ingenuidade, trata de fazer o jogo da direita ao relativizar a vitória do negro social-democrata.
Leiam o que um bom contingente de esquerdistas anda dizendo por aí, sobretudo em posts e comentários nos blogs, e vejam o que dizem um Reinaldo Azevedo, uma Miriam Leitão, um Clóvis Rossi etc, etc, etc. Dizem exatamente a mesma coisa, que Obama será uma decepção, que é americano e vai cuidar dos interesses dos americanos e blábláblá, blábláblá e blábláblá. O que é que queriam? Que Obama cuidasse dos interesses dos outros países? Você elegeria um presidente para que governasse visando os interesses de outros países?
Muitos dos que dizem isso defenderam que o Brasil esmagasse a Bolívia por causa do preço do gás. Na eleição de 2006, durante debate entre Lula e Alckmin, o petista chegou a perguntar ao tucano se ele queria que o Brasil invadisse a Bolívia.
Todo mundo critica o imperialismo americano, mas quando há uma disputa com outro país em nosso quintal aparece um monte de gente pedindo que sejamos tão imperialistas quanto os EUA. É uma postura da direita, essa? Sim, mas a esquerda também pretende que os americanos abram mão de seus interesses para nos “ajudar”. Esquecem que os americanos também têm problemas. E não são de agora, inclusive.
Quem assistiu reportagens nas tevês sobre a América empobrecida, sobre os dramas sociais do país mais rico do mundo, sabe do que estou falando. Ricos como são, os EUA têm chagas sociais comparáveis às do Terceiro Mundo em montes de setores. Têm desemprego, têm falta de saúde pública, têm até problemas na educação, como demonstram avaliações internacionais em que os americanos aparecem mal colocados.
Os EUA têm problemas sérios com duas guerras que não podem vencer e que lhes estão custando recursos que faltam internamente no país. O governo Bush, que tratou de governar para os americanos mais ricos reduzindo-lhes os impostos, permitiu que os mais pobres pagassem a conta e não se importou com eles ao usar recursos que poderiam socorrê-los para matar gente do outro lado do mundo.
O imperialismo americano, recrudescido a partir da eleição de Bush, gerou o 11 de setembro. A partir daí, a nação acrescentou ameaça externa aos seus problemas sociais. Desse novo drama nasceu o voto de confiança dado ao governo republicano para que promovesse a odiosa Doutrina Bush de “guerras preventivas” no Oriente Médio e de “guerras frias” na América Latina, contra governantes ideologicamente desafinados com a direita americana.
Obama foi eleito para resolver esses problemas. O povo americano quer ter um sistema de saúde pública, quer empregos, quer parar de gastar com guerras inúteis e que não podem ser vencidas, e quer parar de se meter nos países latino-americanos para tentar derrubar ou eleger governos de acordo com a ideologia do governante.
Vejam aquele comercial da campanha de John McCain que “acusava” Obama de pretender negociar com Hugo Chávez. O eleitorado americano não deu bola. Ou melhor, achou até bom, porque votou em Obama apesar de, confirmando o comercial republicano, ele ter reiterado várias vezes que quer mesmo falar com Chávez, Fidel e com quem mais divergia de Bush, mas quer conversar com seu sucessor. Chávez, aliás, já disse que quer conversar com Obama.
As derrotas militares, econômicas e morais que os americanos vêm sofrendo nos últimos anos acabaram por acordar boa parte da classe média e por mobilizar os excluídos do país, o que acabou elegendo um tipo de político que aquele povo nunca elegeu – à exceção, talvez, de Franklin Delano Roosevelt. Pode-se dizer ao menos que os americanos, em décadas e décadas, não elegeram um presidente tão à esquerda do espectro político.
Líderes mundiais como Luiz Inácio Lula da Silva, Fidel Castro, Hugo Chávez, Gordon Brown, Nicolas Sarkozy, Angela Merkel e tantos outros não apoiaram tão efusivamente a eleição de Obama por nada.
Mas os maiores beneficiados de imediato pela eleição de Obama provavelmente serão os presidentes de esquerda sul-americanos que vêm sendo vítimas do golpismo de inspiração ianque desde o início da década. Isso é reconhecido por analistas americanos de todas as tendências, não é invenção minha. Haverá uma retomada de diálogo entre Estados Unidos, Cuba, Venezuela e Equador no curto prazo, só para ficarmos nos casos mais clamorosos de países que sofreram recentes tentativas de desestabilização política por parte dos americanos.
Perdem países como a Colômbia, que vinha tendo as pretensões políticas de um Alvaro Uribe favorecidas por envio de armas e até de dinheiro dos EUA, inclusive para o governo colombiano promover a recente invasão armada do território do Equador.
Mas quem acredita que Obama continuará a armar golpes de estado numa Venezuela, numa Bolívia ou dando apoio logístico, bélico e financeiro até à invasão de um Equador, é porque não quer enxergar os fatos. Obama foi eleito, também, para pôr fim a isso.
Outra missão importante do novo presidente americano será ajudar a impor regras ao mercado financeiro internacional usando o descomunal peso político e econômico dos EUA.
Não se espera, porém, que Obama comece a violar interesses daqueles que o elegeram, mas o que se vê é gente da esquerda e da direita manifestando "pouca ilusão" com o líder americano porque ele trataria de "defender os interesses americanos como todo presidente americano americano faz". Bem, o Bush, pelo menos, não defendeu os interesses americanos. Pelo contrário, ele os enterrou sob uma montanha de incompetência, de arrogância, de insensatez e até de burrice.
Os interesses dos americanos, em larga medida, são os interesses de todos. Mas só quando se fala dos interesses mais pétreos de uma nação, tais como paz, prosperidade e justiça social. Os interesses conjunturais do comércio, por exemplo, são outra coisa.
A resistência de um país como o Brasil à grave crise que ocorre nos EUA, na Europa e na Ásia mostra que ninguém mais precisa se tornar muito dependente da potência hegemônica. Se não concordarmos com os termos comerciais dos americanos, por exemplo, podemos simplesmente não negociar com eles. Acabou aquela história de que só o comércio com a superpotência pode sustentar um país.
Claro que alguns dirão que não há resistência nenhuma da economia brasileira à crise, pois tal crise já teria chegado aqui. É tanta burrice que não enxergam que enquanto os EUA, a Europa e a Ásia estão demitindo em massa, vendo bancos quebrarem e a recessão se instalar rapidamente, no Brasil o máximo que estamos vendo é alguma escassez de crédito e previsão de crescimento um pouco menor.
Enfim, pessoal, que se entenda que Obama foi eleito presidente dos EUA, não do mundo. Claro que a mídia corporativa latino-americana (na qual a nossa mídia está incluída), derrotada por não poder contar mais com os americanos para fustigar um Hugo Chávez ou um Evo Morales, por exemplo, tratará de apresentar cada medida, cada passo de Obama como prova de que ele é “igual aos outros”, referendando a crença ingênua da esquerda e o discurso mal intencionado da direita.
Porém, se as pessoas souberem manter o senso crítico diante do noticiário e não forem afobadas ao sacarem conclusões instantâneas de qualquer noticiazinha manipulada que apareça, veremos que, no mínimo, o mundo começará a ser pacificado e a justiça social passará a viger mais e a incluir mais nos EUA, até para a sobrevivência e pelo interesse de seu próprio povo.
Muitos ainda não se deram conta da real dimensão da vitória de Barack Obama ontem. Para entendê-la em sua completude, portanto, precisaremos rever a Doutrina Bush, seus objetivos políticos e seus retumbantes fracassos.
Além do belicismo e da irresponsabilidade econômica, os conservadores americanos trouxeram de volta à América Latina o golpismo de direita de outrora, o qual ninguém acreditava que voltaria a atuar nesta parte do mundo.
A doutrina Bush não foi marcada só pelas tais guerras “preventivas” de pretenso combate ao “terrorismo”. Havia pretensão de impedir a ascensão de governantes de esquerda na América Latina. Fracassadas as tentativas de impedir que esses governantes chegassem ao poder – tentativas que se valeram da mídia da região –, voltou a prática americana de tentar desestabilizar e depor governos.
A primeira grande ação desestabilizadora americana do século XXI na América Latina ocorreu na Venezuela em 2002, quando tentativa de golpe de estado, reconhecidamente orquestrada pelo governo Bush, tirou do poder, por dois dias, Hugo Chávez, presidente constitucional daquele país.
Seguiram-se tentativas de desestabilização dos governos do Brasil, em 2005 e 2006 (através de massacrante campanha denuncista da mídia nativa, teleguiada por Bush), e da Bolívia neste ano (através das ações do embaixador americano junto à oposição ao governo Evo Morales).
O que acabou acontecendo, porém, foi que a onda rosa que varre a América do Sul estendeu-se à América Central e, de forma impensável até há pouco tempo, chegou também aos Estados Unidos, até então uma espécie de Disneylândia dos reacionários latino-americanos.
A eleição de Obama é, sim, uma vitória da esquerda possível e viável nos dias de hoje. Aliás, a campanha do republicano John McCain apoiou-se exatamente nessa visão de que o adversário seria “socialista”, na esperança de que ainda fosse possível vender a teoria de que “comunistas” comem criancinhas.
Com a vitória de Obama, acabam os incentivos à mídia latino-americana para atacar governos como o de Lula, Hugo Chávez, Evo Morales, Rafael Correa e outros. Não haverá mais financiamento dos reacionários racistas-midiáticos da “media luna” boliviana ou aos reacionários do mesmo tipo do Sudeste brasileiro.
Projetos de re-endireitar países como o Brasil sofreram duro golpe. Para ficar na política nacional, pode-se dizer que o projeto do PFL e do PSDB de retomar o poder em 2010 sofreu considerável abalo. A mídia, a principal arma da direita de inspiração ianque, perdeu seu maior líder, o governo de ultra-direita de George Bush, governo que teria continuidade através de McCain.
Não se deixem enganar pela rendição da mídia brasileira à vitória brilhante de Obama. Não há alternativa. O mundo está encantado pela vitória do “socialista” americano. A mídia não tem alternativa, a direita brasileira não tem alternativa. Não irão passar recibo da derrota que sofreram.
Mas será maravilhoso ver como os comentários racistas, homofóbicos e ultraconservadores de um Reinaldo Azevedo sairão de moda. O estilo neocon caminha para a mais absoluta decadência. Ser reacionário não será mais ser americanizado.
A vitória de Obama muda todo o quadro geopolítico do continente. A direita das Américas sofreu o golpe mais duro da história. O “liberalismo” americano contaminará o mundo e favorecerá o surgimento de governos “esquerdistas” onde nãoeram “viáveis” devido à discordância americana.
A tensão belicista da era Bush está moribunda e em cerca de dois meses terá sido varrida da face da Terra. Inicia-se uma nova era, de entendimento e distensão, onde os projetos humanistas ganharão novo fôlego.
O mundo amanheceu melhor nesta quarta-feira, 5 de novembro de 2008. Graças a Deus.
Onda iniciada na América do Sul chegou aos EUA, diz Chávez
(Com informações da BBC Brasil)
O presidente da Venezuela, Hugo Chávez, felicitou o democrata Barack Obama pela sua eleição à Casa Branca, defendendo que a "mudança" iniciada com governos de orientação social na América do Sul "está batendo nas portas dos Estados Unidos".
Chávez fez as declarações em um comunicado distribuído pelo Ministério das Relações Exteriores da Venezuela nesta quarta-feira.
"Neste dia de esperança para os americanos, o presidente Hugo Chávez, em nome do povo da Venezuela, expressa sua felicitação ao povo dos Estados Unidos e ao presidente eleito Barack Obama pela importante vitória obtida em eleições que atraíram as expectativas da opinião pública internacional", diz o comunicado.
"A eleição histórica de um afrodescendente para a cabeça da nação mais poderosa do mundo é sintoma de que a mudança de época que nasceu a partir do sul da América pode estar batendo nas portas dos Estados Unidos.
Há menos de dois meses, Chávez e expulsou o embaixador americano em Caracas – e retirou o representante venezuelano dos Estados Unidos –, rompendo relações com Washington em meio a uma violenta troca de acusações.
Na época, o presidente venezuelano se referiu aos integrantes do governo do presidente Bush de "ianques de merda" e disse que só voltaria a reavaliar o reatamento das relações com os EUA quando a Casa Branca tivesse um novo governo.
"Da pátria de Simon Bolívar, estamos convencidos de que chegou a hora de estabelecer novas relações entre nossos países e com nossa região, sobre as bases dos princípios do respeito à soberania, a igualdade e a cooperação verdadeira", disse o comunicado do Ministério venezuelano.
“Não sou negro, sou marrom”, disse Barack Obama, referindo-se à cor da própria pele. Sua afirmação racial, num país em que raça sempre foi determinante da inserção do indivíduo na sociedade, traz embutido todo um simbolismo, uma mensagem à humanidade.
Da união entre uma branca e um negro foi gerado um mulato que, enfim, poderá levar ao poder todos os americanos. Obama materializa – ao menos aparentemente – o sonho americano, um sonho segundo o qual, nos Estados Unidos, todos têm uma chance.
Mas a provável eleição do candidato democrata será bem mais do que isso.
A era Bush fez predominar nas três Américas uma ideologia de inegável cunho racista e conservador. A intolerância étnica, social, política e religiosa dos ultraconservadores americanos começou a emergir através das piadinhas neocons, por exemplo, como que legitimando a intolerância e tripudiando sobre a impotência dos humanistas de toda parte.
Há muitos produtos do preconceito ultraconservador e cristão fundamentalista entre nós. A ojeriza manifesta dos neocons ao homossexualismo, ao aborto, enfim, a consolidação da hegemonia dos dogmas judaico-cristãos de direita lá nos EUA vem sustentando o conservadorismo brasileiro, dando-lhe apoio e valendo-se dele para combater governos latino-americanos considerados “esquerdistas”.
Esses colunistas conservadores dos jornalões e revistões nacionais mostram bem isso. Eles tentam se encaixar no modelito neocon americano sustentado pelo controle republicano do governo mais poderoso do mundo.
O machão conservador-cristão-de-direita avesso a homossexuais, defensor da “moral e dos bons costumes”, da “propriedade”, inimigo figadal do aborto, das pesquisas com células-tronco, anti-ambientalista, anti-esquerdista vem se apoiando no governo Bush.
A paranóia ideológica republicana levou o governo americano a tentar influir politicamente na América Latina, promovendo levantes de opositores alinhados à ideologia republicana nos países da região que elegeram governos de ideologias consideradas “repugnantes” para os neocons americanos.
No Brasil, a mídia segue o modelo imposto por Washington para combater o “comunismo”, que agora também passa a ser associado ao “terrorismo”.
Enquanto armam guerrilhas e promovem tentativas de golpe de Estado em países como Venezuela ou Bolívia, por exemplo, os republicanos se valem de grandes meios de comunicação dos países-alvo para difamarem chefes de Estado vistos como “inaceitáveis”.
Não é à toa a antipatia dissimulada da mídia brasileira por Obama. As “agulhadas” que insinuam que ele promete o que não pode cumprir ou as garantias de que, “para nós”, os republicanos seriam “melhores” porque nos comprariam etanol, ou que seriam “menos protecionistas”, não têm um objetivo prático. Brasileiros não votam para presidente dos EUA. Trata-se, apenas, de combater uma simpatia dos brasileiros pelo candidato democrata que a mídia, preposta dos republicanos, não vê com bons olhos.
Obama tem o peso do mundo sobre seus ombros. Ele concentra uma carga de esperança tão grande que chega a me parecer demais para um só homem. Em seu semblante, porém, consigo ver que pode ter consciência de sua responsabilidade.
A possibilidade que Obama tem de se apresentar para negociar os intermináveis conflitos em que os americanos se meteram, sendo recebido pelos “inimigos” que hoje não têm um canal de comunicação com a potência hegemônica, pode realmente funcionar.
Nesse aspecto, líderes eternamente avessos aos EUA, como Fidel Castro ou Hugo Chávez, já deram indicação de que haverá uma chance de diálogo.
A grande esperança da humanidade é em que Obama, além de ter pele “marrom”, nesse sentido de meio termo faça um governo que equilibre os interesses e disputas entre o Primeiro e o Terceiro mundos. Em última análise, o desequilíbrio desses interesses é o que tem provocado os conflitos dos EUA com o Oriente Médio e com grande parte da América Latina.
Precisamos entender, porém, que os EUA estão elegendo o SEU presidente, cujo primeiro compromisso é governar para os americanos. Não se pode pedir a um governante de um país que se preocupe com o resto do mundo tanto quanto se preocupa com seu povo.
A grande possibilidade embutida na eleição de Obama, no entanto, é a de que ele se disponha a buscar o caminho do meio para atingir o ponto de equilíbrio entre os interesses das nações, se é que esse ponto existe.
Se Obama fizer seu povo entender que deve aceitar um limite para seus interesses, que não se pode querer ganhar tudo o tempo todo, enfim, se ele encontrar o caminho do meio para governar, o mundo, a partir de hoje, pode estar entrando numa era melhor, em que conflitos estúpidos poderão ter fim e na qual a igualdade se tornará objetivo de todos.
Vocês não acreditam? Bem, para mim, meus amigos, a esperança é a última que morre. Ninguém pode viver sem esperança.
O que mais me impressionou na entrevista concedida ao programa Fantástico, da TV Globo, pela menina Nayara Rodrigues Silva, vítima de tentativa de assassinato por parte do psicopata Lindemberg Alves durante seqüestro praticado por este em Santo André (SP), foi o equilíbrio, a serenidade e a clareza de idéias de alguém tão jovem e que passou por trauma tão forte há tão pouco tempo.
O relato de Nayara é contundente e chocante. E o que chocou nesse relato nem foram tanto os detalhes da loucura de Lindemberg. Creio que todos sabem, mais ou menos, como funcionam as mentes doentes desse tipo de criminoso. O que choca é a incompetência, o despreparo e a irresponsabilidade que o Gate exibiu nesse episódio, conforme revelou o relato cristalino da vítima sobrevivente.
Nayara, por obra e graça de um momento de lucidez do psicopata, foi posta por ele em liberdade, o que mostra que havia possibilidade de Lindemberg não ter feito o que fez. Porém, a polícia foi buscá-la em casa para “ajudar na negociação”, segundo a menina relata.
Chegando ao QG montado pela polícia para gerir a crise, Nayara foi trancada numa sala com os comandantes e negociadores da operação. A mãe ficou do lado de fora, mesmo a menina sendo menor de idade. Os políciais orientaram Nayara a ir até a porta do apartamento e estender a mão para dentro dele para trazer para fora a vítima fatal do seqüestro, Eloá.
A mãe da menina Nayara não foi comunicada do que fariam com sua filha nem deu permissão para que fizessem. O pai de Nayara, segundo reportagem publicada pelo Estadão, havia sido expulso do QG da polícia no local - não se sabe se antes ou depois de sua filha ser puxada de volta pelo seqüestrador para dentro do cativeiro, depois de ter conseguido sair de lá.
A negativa de Nayara de que tenha recebido qualquer orientação da polícia para não se deixar levar para dentro do cativeiro e a confirmação clara, segura e insofismável dela de que não houve tiro algum de Lindemberg antes de a polícia ter tentado arrombar (com uma bomba!) a porta coroam esse verdadeiro crime do Gate, um crime que quase custou a vida de uma das vítimas e que matou a outra.
Há notícias, ainda não confirmadas, de que haveria um “gabinete de crise” fora de Santo André. Possivelmente esse gabinete seria no Palácio dos Bandeirantes. De lá, teria havido pressão para o Gate “solucionar” rapidamente o caso, sobretudo por conta do processo eleitoral em curso naquele momento, no qual os interesses do governador José Serra poderiam ser prejudicados.
Lembrei aqui há pouco tempo como a mídia costuma transferir para Lula a culpa de problemas que envolvam órgãos ligados ao governo federal. Um dos casos mais emblemáticos foi a acusação instantânea de jornais, telejornais e de grandes portais de internet ao presidente quando um avião da TAM chocou-se com um prédio no aeroporto de Congonhas, em São Paulo, no ano passado. No dia seguinte, a Folha de São Paulo publicou chamada na capa para artigo que acusava o governo Lula de ter assassinado 200 pessoas.
No mínimo, o governo José Serra deveria ter sido questionado. E não só pelo crime absurdo cometido pelo Gate. O colunismo indignado de sempre deveria agora cobrar do governador a incompetência, a irresponsabilidade, a falta de respeito da sua polícia pelos direitos civis dos pés-rapados daquele conjunto habitacional de Santo André.
O silêncio sobre o assunto na mídia é tão criminoso quanto o que fizeram o Gate, o governador e o próprio Lindemberg. Todos esses tentaram matar Nayara e efetivamente mataram Eloá. Aliás, a mídia tentou matar uma e matou a outra duas vezes, porque, além de estar acobertando o responsável pela polícia criminosa, ainda tratou de passar informações para o seqüestrador pela tevê enquanto o seqüestro estava em andamento.
Serra elogiou Gate no caso Santo André
No dia seguinte ao desfecho da ação trágica da polícia paulista sobre a qual vocês leram acima, o governador de São Paulo, José Serra, defendeu longamente aquela ação.
Vejam, abaixo, o vídeo em que o governador deu tal declaração.
Não acho inteligente e apropriado usar o debate político para demonizar pessoas, por isso tento não particularizar minhas críticas. Prefiro, por exemplo, falar de jornais ou de tevês, como instituições, do que de profissionais da imprensa, ainda que, algumas vezes, isso seja inevitável. Esta é uma daquelas situações. Não posso me calar sobre o trabalho do ombudsman do jornal Folha de São Paulo, Carlos Eduardo Lins da Silva, porque cometi um erro, há alguns meses, ao emprestar minha fé ao seu trabalho. Contudo, dali em diante ele veio trabalhando duro para desmoralizar o voto de confiança que lhe dei, mesmo que não esteja fazendo isso de forma consciente.
Ainda que Lins da Silva, em sua penúltima coluna dominical na Folha, tenha tentado ser crítico em relação à cobertura pró Kassab do jornal no segundo turno, ele mesmo tratou de enfiar no meio da crítica uma teoria do mais alto interesse da mídia, uma teoria que, inclusive, o jornalista também acalenta e que me havia relatado em todas as vezes em que nos encontramos, ou seja, a teoria de que “a mídia não influi em processos eleitorais”. Ele tratou de tentar me convencer de que não haveria um plano deliberado da mídia para influir no processo eleitoral brasileiro, e ainda disse que o Frias Junior, dono da Folha, não seria tucano (?!).
Lins da Silva me cobriu de gentilezas. Além dos almoços no elegante restaurante paulistano “O Gato que Ri” para os quais me convidou – e dos quais nos alternamos no pagamento das contas –, ele chegou até a mencionar meu nome em sua coluna dominical na edição impressa do jornal de 15 de junho deste ano. Vejam o que ele escreveu:
(...) Eduardo Guimarães, um dos mais incisivos críticos da mídia, com quem tenho intensas diferenças de opinião, mas por quem tenho respeito intelectual, diz que um jornal que resolvesse alienar uma parcela dos leitores que vota num partido com o desempenho eleitoral que tem tido o PT no Brasil estaria dando um tiro no pé. É verdade. Por que a Folha o faria? Uma hipótese é que estaria apostando que num futuro governo federal tucano, ela teria tantas vantagens que compensaria o prejuízo da alienação de leitores atual.Aí, entra-se no território das crenças porque é impossível comprovar essa teoria. Eu não acredito nessa possibilidade. Se acreditasse, não teria aceitado o convite para ocupar este cargo e, se um dia vier a crer nela, eu o deixarei (...)
Quase cinco meses depois, o mesmo Lins da Silva continua não vendo intenção deliberada de seu jornal de favorecer o projeto de José Serra de se eleger presidente da República em 2010, ainda que tenha reconhecido, em sua penúltima coluna dominical, que a Folha tomou partido de Kassab no segundo turno. Vejam o trecho dessa afirmação na edição da Folha de 26 de outubro último, dia do segundo turno das eleições municipais de 2008:
(...) Na campanha eleitoral paulistana do primeiro turno de 2008, a Folha fez um bom trabalho. A série DNA Paulistano e as reportagens semanais sobre as propostas para as mais relevantes políticas públicas municipais dos cinco principais candidatos deram ao leitor informação sólida para ajudá-lo a definir sua escolha. O tratamento aos três primeiros colocados nas pesquisas foi razoavelmente justo. O tom crítico prevaleceu em relação às propostas dos três. Ocorreram exageros e injustiças, que apontei na coluna de 5 de outubro, mas nenhum extremamente grave. É uma lástima que todo esse esforço e seus resultados se tenham desmanchado no segundo turno. O debate sobre políticas públicas e projetos de governo se esvaiu no amontoado de textos sobre denúncias e insinuações trocadas entre os candidatos. O equilíbrio editorial dissipou-se. O jornal tendeu claramente para Kassab (...)
Porém, na coluna deste domingo, o mesmo Lins da Silva volta à carga tentando vender uma teoria que vai de encontro ao interesse da mídia por corroborar suas afirmações de que não teria motivos para tomar partido de políticos. Leiam, agora, trechos da mais recente coluna de Lins da Silva, publicada na Folha impressa deste domingo:
AO LONGO da campanha eleitoral, a maioria das mensagens que recebi sobre a cobertura deste jornal a acusava de ser tendenciosa. Assim começa a coluna do dia 19 de outubro do ombudsman do "New York Times" sobre a eleição presidencial americana de 2008: Clark Hoyt relata que muitas das acusações denunciavam o jornal por operar agenda política consciente para ajudar um candidato e destruir o outro. Parece que os ombudsmans estão fadados a ter o mesmo tipo de problema, não importa em que país trabalhem (...).
A partir daí, o ombudsman elenca várias situações e estudos em outras épocas e países para “provar” que a mídia não influi em processos eleitorais, o que torna ainda mais misteriosa sua afirmação de que a mídia brasileira não é tucana, pois se numa coluna Lins da Silva diz que a Folha pendeu para Kassab e depois diz que a mídia não é parcial – até porque, se fosse, não teria poder para eleger ninguém, segundo ele –, por que diabos seu jornal teria “pendido” para o herói sobrevivente da moribunda pefelândia, Kassab?
A contradição do ombudsman não passou despercebida para o editor do caderno “Brasil” da Folha, que trata de política, que escreveu uma “réplica” à coluna em que Lins da Silva acusou o jornal de partidarismo. Vejam:
Carlos Eduardo Lins da Silva não gostou do trabalho da Folha no segundo turno das eleições municipais. Como indicava um dos títulos de sua coluna no domingo passado -"Tudo que é sólido se desmancha no fim"-, o ombudsman considerou que a cobertura descarrilou, comprometendo a isenção do jornal. É uma lástima, disse ele, que o esforço crítico e a ênfase nas propostas dos candidatos, que haviam prevalecido no primeiro turno, tenham se dissipado. No cômputo final, concluiu, Kassab foi favorecido. Durante o primeiro turno, mais de uma vez o ombudsman escreveu que a Folha estava sendo mais crítica em relação a Kassab do que aos demais. "Em parte, é natural, já que ele está no exercício do poder. Mas tem ocorrido exageros injustificáveis", disse ele em 17 de agosto (...)
Pois é... Como vocês vêem, as opiniões erráticas do ombudsman o levam a escrever colunas “independentes” que se chocam com aquelas que ele escreve em maior quantidade e que tentam fazer prevalecer a crença do jornalista em que não há um partidarismo consciente da mídia em prol da direita – e hoje, mais do que tudo, em prol de Serra. Claro que o editor do caderno de política da Folha não resistiu a explorar essas contradições.
O fato é que Lins da Silva fica se apoiando em estudos acadêmicos distantes da realidade brasileira quando se sabe claramente como a mídia consegue influir, sim, na disposição eleitoral de certo público.
O público mais suscetível do país às manipulações da mídia é, sem dúvida, o público paulistano, da capital. Isso por conta de um fenômeno interessante que ocorre aqui. São Paulo é a cidade das bancas de jornal. Elas são uma espécie de instituição aqui. Quem passear pela cidade nas primeiras horas da manhã verá os sucessivos agrupamentos de transeuntes nas esquinas, diante das laterais das bancas de jornal. As pessoas ficam lendo as manchetes do dia – e só elas, tragicamente, pois geralmente dizem uma coisa e as matérias a que remetem dizem outra. Esse manchetismo tem um um efeito bastante forte sobre os paulistanos.
Como será que o eleitorado paulistano formou as convicções desairosas que tem sobre a vida íntima de Marta Suplicy, por exemplo? Será que adivinhou ou será que foi a mídia paulista que martelou informações e opiniões machistas e preconceituosas contra a ex-prefeita durante todo seu mandato à frente da prefeitura de São Paulo? Esse é só um exemplo. A rejeição de Marta foi construída pela mídia paulista ao longo dos anos.
O trabalho do ombudsman vem sendo errático, contraditório, oscilante. Sua “tática” de dar uma no cravo e outra na ferradura tem exposto o jornalista inclusive ao ridículo, como se vê na “réplica” do editor da Folha supra mencionado.
Sei que o Carlos Eduardo – agora uso seus pré-nomes porque mando um recado a ele, como pessoa física – ficou magoado com as críticas que comecei a lhe fazer, porque ele não entendeu o motivo dessas críticas. Afinal, não nos desentendemos nem brigamos. Estou certo de que ele ficou magoado, porque nunca mais nos falamos. É que ele não entende que não posso, não tenho o direito de permitir que alguém numa posição como a sua pratique as contradições que ele vem praticando sem deixar clara minha discordância. Além disso, ele não entende quanto mal está fazendo a si mesmo, à sua credibilidade profissional.
O ombudsman da Folha está precisando urgentemente de um ombudsman para si.