O Instituto Latinobarómetro fica no Chile. É dirigido pela pesquisadora Marta Lagos. O trabalho dessa instituição é especialmente importante porque oferece explicações para fenômenos como o movimento continental latino-americano em direção à esquerda.
Um dos itens pesquisados pelo instituto chileno é a popularidade de líderes mundiais de países ibéricos. No recém-divulgado novo estudo do Latinobarómetro, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva apareceu como o líder mais bem avaliado da América Latina numa disputa (involuntária) entre quase duas dezenas de governantes.
Por outro lado, neste sábado (15/09) uma centena de manifestantes realizou um “cortejo fúnebre” em Washington para anunciar a “morte” do capitalismo. Isso num contexto em que o atual presidente dos Estados Unidos, George Bush, desponta como o presidente mais mal avaliado pelos americanos em toda história.
Já na América do Sul, o governo mais mal avaliado atualmente é o de um político que hoje pode ser identificado à direita do espectro ideológico, o presidente peruano Alan García. Inclusive, o Peru vem sofrendo convulsões sociais devido à manutenção de um modelo neoliberal fundamentalista que quase todo o resto do subcontinente já abandonou.
Outro dado interessante é o de que a Colômbia poderá sofrer uma importante mudança de rota com a vitória de Barack Obama, que já questionou publicamente as perseguições políticas do governo Alvaro Uribe, perseguições que vêm culminando em assassinatos de sindicalistas e opositores do regime colombiano. Sem o apoio americano, a forte popularidade de Uribe pode se esvair em pouco tempo.
Outra coisa que é possível prever sobre a Colômbia é que deverão ser interrompidas algumas “permissões” americanas para ela exercer belicismo com países vizinhos que se tornaram “incômodos” para o governo Bush.
A direita, com sua defesa intransigente do capitalismo e da desigualdade que gera, aos poucos está sendo varrida politicamente do continente americano. Na Europa, a cada dia aumentam de tom as vozes em defesa de mudanças efetivas no sistema capitalista.
Não é por causa disso tudo que elaborei até aqui que estaria realmente decretada a tal ‘morte’ do capitalismo, é claro. Não há, ao menos por enquanto, uma alternativa viável para esse sistema econômico que é também um modelo de organização social com todas as conseqüências boas e más que tem qualquer modelo dessa natureza.
Alguns dirão que só há vantagens no capitalismo e outros dirão que só há deméritos nele, mas uns e outros não estarão levando em conta o impasse que é o que realmente vige hoje no mundo na questão do modelo econômico que deverá prevalecer daqui em diante.
Os eternos defensores do livre mercado se recusam a ‘morrer’ como expoentes de um ideário econômico no qual a humanidade já depositou tanta confiança ao eleger políticos que o defenderam. Esses grupos político-ideológicos, por contarem com máquinas de comunicação em massa, de fato se mostram duros na queda. Contudo, a desidratação do neoliberalismo e até do próprio capitalismo vai se mostrando inexorável. Foi plantada em todo mundo a semente da desconfiança.
O pior cenário para a humanidade nem será o custo da tentativa de manter vivo um ideário perverso e ferido de morte como é o capitalismo em sua configuração vigente. Pior será a tentativa de mudá-lo superficialmente, sem mexer nas profundas distorções que causa, como, por exemplo, a distribuição irracional de renda que gera, uma distribuição injusta que vem incendiando os países do Terceiro Mundo.
Os impasses sociais provocados pelo capitalismo sem freio atingiram com toda força o povo que em todo o mundo, com seu voto, é o que mais tem condições de provocar as mudanças que o sistema capitalista requer. Mas os donos da riqueza concentrada continuarão lutando, através de suas mídias, para que as únicas mudanças que venham a passar sejam aquelas que os protegerão de novos fiascos.
Nesse aspecto, as guerras preventivas da “doutrina Bush” e dos falcões de Washington serão o que penso que o establishment capitalista aceitará que sejam refreadas em decorrência da comprovação de que nem a potência hegemônica tem como arcar com o custo financeiro de tantas guerras, o que limitará o poder de intimidação dos americanos.
É claro que o belicismo continuará na ordem do dia não só nos EUA mas em todos os países ricos, pois é o poderio militar do Primeiro Mundo que, em última instância, sustenta uma desigualdade que vai se acelerando em todo o planeta, com exceção dos países do Terceiro Mundo governados hoje por políticos de viés esquerdista que tratam de combater a desigualdade com dispendiosos programas sociais.
Não há morte do capitalismo, mas ele está gravemente enfermo e só irá recuperar sua capacidade de gerar riquezas se for para mais gente, de forma mais ampla. Não fazê-lo foi aceito até aqui pela humanidade devido à sua crença ingênua em que mais migalhas cairiam da mesa do banquete dos concentradores primordiais da riqueza. Essa passividade diante de um sistema que tantas catástrofes vem gerando, porém, parece estar com os dias contados.
Começa no mundo um debate sobre novos caminhos para a humanidade. Por aqui, esse debate ainda está sendo cerceado (de cima para baixo), mas, como em toda parte, cedo ou tarde ele terá que ser travado aqui também. Até porque, os Estados Unidos, que até então lideraram o modelo econômico imposto ao Brasil no século passado, já começaram a debater.
Sei muito bem que de nada adianta escrever, de nada adianta eu me esgoelar para avisar as pessoas de que a mídia está trabalhando incansavelmente para implantar uma crise econômica no país, mas se eu não escrever acho que pode ser pior. Melhor é que poucas pessoas saibam, mas que passem adiante o que estou dizendo, se acreditarem em mim. Então leiam bem o que escreverei.
Antes de entrar no assunto, porém, quero que vocês vejam, no vídeo acima, a íntegra da edição do Jornal da Globo de ontem - os que tiverem conexão rápida o suficiente para rodar vídeos, claro.
Como o vídeo é da íntegra da edição do telejornal, vocês notarão que a barra de progresso do tempo de gravação está dividida em quatro partes. São os trechos 1 e 4 que nos interessam. Para acessá-los, cliquem no primeiro ou no terceiro segmentos da barra de progresso do vídeo. Depois, continuem lendo daqui. Mas se não tiverem conexão rápida, desprezem estas recomendações e continuem lendo.
Bem, o fato trágico é que sei (repito) que pouco adianta eu ficar me esgoelando aqui sobre a crise econômica, porque também sei que argumentos fundamentados freqüentemente são menos eficientes do que palavras de ordem ou do que frases feitas quando se está no meio de catarses coletivas como essas nas quais a mídia vem mantendo o país desde 2003.
De lá para cá, as Globos, os jornalões e os revistões já conseguiram até matar ou hospitalizar pessoas, como no caso da febre amarela, ou provocarem graves prejuízos econômicos à população, como agora estão conseguindo ao manter alta a desconfiança dos consumidores e dos empresários de uma forma que até a própria mídia reconhece que prejudica a economia.
E quem diz que o noticiário está gerando pânico e retardando a volta do país à normalidade depois do choque nos EUA em meados de setembro, não sou só eu, não. Carlos Alberto Sardemberg, comentarista econômico do Jornal da Globo, afirmou, na edição de ontem (quinta-feira, 13 de novembro) do telejornal, que a crise é muito mais de confiança do que de qualquer outra coisa e que “o diabo não é tão feito assim”, ao menos no Brasil.
Vejam, abaixo, reprodução textual das palavras de Sardemberg na edição de ontem do Jornal da Globo:
Conversei com várias pessoas, de vários setores, que dizem que têm bons negócios, bons empreendimentos e o consumidor fica com medo de tomar empréstimos, de fazer um negócio. Isso aí é o começo de um círculo vicioso, porque as notícias negativas, as notícias de complicação econômica, fazem com que caia a confiança do consumidor e ele evita novos negócios. Não fazendo novos negócios, a economia não anda mesmo... Então, pra que isso se transforme num círculo virtuoso, é preciso que a confiança volte; como é que volta a confiança? Com o passar do tempo, o consumidor vai vendo que a situação não é tão ruim, que o país não entrou em recessão – está crescendo menos, mas não entrou em recessão – etc, etc. Então, tem que dar um tempo, esperar a economia andar, ver que o diabo não é tão feio e aí, assim, a confiança começa a voltar.
Não é que Sardemberg seja dos analistas econômicos que dizem menos bobagens. Reproduzo suas palavras para mostrar que se até ele reconhece que o noticiário está causando pânico – um pânico de uma natureza que agora eu digo que causou até mortes no caso da febre amarela –, é porque o noticiário tem o poder de causar pânico mesmo.
Quantas pessoas conheço que têm dinheiro, estão bem empregadas e têm capacidade de consumo, mas estão postergando compra de carro, de imóveis e de outros bens e serviços simplesmente porque o noticiário as está deixando com medo.
Mas como não causar pânico divulgando reportagens como a que a mesma edição do jornal da Globo (trecho 1 do vídeo acima) divulgou sobre a venda de motos... usadas? Pois é, o jornal trouxe, em tom bombástico, a notícia “alarmante” de que está havendo dificuldade para compra de motos usadas porque as financeiras não estão concedendo crédito para esse tipo de produto...
A mídia não pára de bater nessa tecla. E, assim, a economia vai esfriando, alguns setores vão sendo paralisados, e não por razões concretas mas porque a mídia está pondo em animação suspensa a atividade econômica do país. Enquanto pessoas que têm crédito, dinheiro, empregos e perspectivas paralisarem suas vidas com medo do que dizem que pode vir por aí, dificuldades serão geradas onde não deveriam existir.
"O diabo não é tão feio" como diz Sardemberg, da Globo? Não é mesmo, mas a mídia o está fazendo “tão feio” soterrando qualquer ponderação sobre os fatos com uma avalanche de notícias alarmistas.
Tudo isso porque tanto a queda da atividade econômica quanto um surto de inflação ou uma epidemia de febre amarela urbana servem ao projeto político tucano-pefelê-midiático de retomada do poder em 2010, pois tal projeto não leva em conta se para atingi-lo será preciso quebrar empresas, colocar pais de família no desemprego ou matar alguns incautos.
A notícia que você leu acima foi manchete de primeira página da Folha de São Paulo de ontem, acompanhando a grande divulgação que a mídia deu a medida do governo de José Serra para aumentar o crédito ao mercado de carros novos em São Paulo.
A medida soma-se à do governo federal, que, a exemplo do que estão fazendo vários países, vem incentivando o consumo para combater o estancamento da oferta de crédito pelos bancos privados, decorrente da crise internacional.
A medida do governo federal de oferecer recursos para crédito a fim de substituir os recursos que os bancos estão negando e, assim, evitar uma retração maior da economia, é correta e, inclusive, é papel dos governos nacionais fazerem isso.
Os governos estaduais ou municipais, no entanto, não podem ter pretensão de atuar na macroeconomia. Esses governos até podem tomar medidas de natureza que promova o aumento da atividade econômica, mas devem ser medidas ligadas à atuação básica do Estado, como provedor de Saúde, Educação, Segurança Pública, Habitação etc.
Política macroeconômica – e injetar recursos num setor que se espraia por todos os entes federativos é fazer política macroeconômica – é da competência da União. Ou seja: enquanto o Estado de São Paulo paga os piores salários a policiais no Brasil, enquanto os professores da rede pública estão entre os mais mal pagos, enquanto a Saúde pública paulista é um caos, enquanto o transporte público é uma verdadeira merda em São Paulo, Serra sai por aí brincando de presidente da República.
O “intensivão” tucano-paulista para a Presidência revolta os mais conscientes num Estado que nega recursos para tudo que é básico para o bem estar da população. Trata-se, inclusive, de jogada publicitária, referente ao projeto eleitoral de Serra e da mídia para 2010. Daí o alarde dos meios de comunicação sobre a medida do governo do Estado.
Em verdade vos digo que a vida é composta de fragmentos. São momentos bons, maus e desprovidos de significado. Estes últimos, no entanto, descartamos da memória, e os fragmentos que ficam e que formam o que somos e o que da vida levaremos, são aqueles que nos marcaram de alguma maneira.
Enganam-se, porém, os que crêem que as pedrinhas desse mosaico tão rico e vasto que são nossas lembranças têm que ter todas a mesma densidade. Alguns desses fragmentos são momentos singelos, prosaicos, porém cheios de significação.
Vejam a foto que encima estas palavras. Conversava com a minha senhora na cozinha quando, à porta, minha filha Gabriela apareceu-nos com a irmã caçula, Victoria, e com a sua poodle de estimação. Veio chamando-nos a atenção para os pijamas das duas, que eram iguais – ambos com blusa cor-de-rosa suave e calça cor-de-rosa choque.
A beleza, o simbolismo dessa imagem que ora compartilho com vocês, a calidez daquele momento, esse fragmento precioso de minha vida permanecerá para sempre neste coração, nesta mente, nesta alma. Seguramente ajudará a mitigar aqueles momentos fugazes de dor, de frustração, enfim, os maus momentos que todos temos que carregar junto com os bons.
É por isso que procuro gravar os momentos bons mais profundamente em minha memória, para que, na balança da vida, eles pesem mais do que os maus, para que sobressaiam no mosaico das lembranças.
Escrevi este texto para perpetuar aquele instante tão feliz, que imortalizei numa foto e agora faço o mesmo em palavras. Tal instante será útil quando minha Gabriela deixar o país, no próximo dia 12 de janeiro. Ajudar-me-á a passar um ano inteirinho longe dessa menina tão amada, que tanta falta me fará.
É bom quando a gente escreve as coisas e depois pode olhar para o que escreveu sem ter necessidade de explicar nada. Vejam, por exemplo, o que eu disse lá no começo do auge da crise internacional, ainda no mês de setembro, e notem como não há o que retocar em minhas palavras.
Passou um mês e meio, terminaram as campanhas eleitorais e, como previ, a crise começa a minguar. Vai crescendo o número de analistas da grande mídia que já reconhece que, por aqui, os efeitos da crise não terão tempo de causar maiores estragos nos indicadores econômicos.
Como ainda há quem teime em que a crise definitivamente pegou o país de forma significativa, pois os indicadores que mostram o contrário ainda estão sendo apurados, apesar de que, por números preliminares, já se prevê que não mostrarão nenhum efeito importante, por enquanto reproduzirei o que escrevi em 29 de setembro sobre a crise.
Eu pedia para as pessoas se acalmarem e dizia que aconteceria o que de fato está acontecendo, ou seja, que a crise amainaria e que havia exagero da mídia ao propagar os efeitos que dela adviriam.
Leiam, abaixo, o post em questão, e depois me digam se, à luz dos fatos atuais, cometi alguma impropriedade.
*
Comecei a escrever isto logo depois de sair do meu escritório um sujeito que odeia tanto o Lula, mas tanto, que estava urrando de felicidade porque a bolsa caiu e o dólar subiu, o que aconteceu devido à rejeição do pacote de 700 bilhões de dólares pelo congresso americano. Como é que vocês qualificam alguém com tal mentalidade?
“Agora vai!”, regozijava-se o idiota. “E depois o Lula diz que não seremos afetados pela crise”, comemorou.
Na mídia, nos últimos dias, sucederam-se previsões sombrias para o mundo e especulações satisfeitas sobre quanto a crise americana poderia nos afetar. O tom de torcida pelo pior, é gritante.
“Crescimento cairá a 4%”, diz um comentarista do Estadão; “Cresceremos só 2% no ano que vem”, anseia outro da Folha; “Crise já afeta empresas brasileiras”, compraz-se a Globo.
No momento em que escrevo, a Bovespa cai mais de 9% e o dólar encosta nos 2 reais. O “circuit breaker” da Bolsa foi acionado, ou seja, o pregão foi interrompido por meia hora.O mecanismo costuma ser acionado quando há grandes quedas, para dar tempo aos investidores para que se acalmem, pois esses movimentos bruscos denotam mais o estado de espírito deles do que a realidade.
Imaginem vocês que duas empresas que especularam com câmbio apostando na continuidade da queda da moeda americana, a Sadia e a Aracruz, tiveram perdas com a valorização do dólar.
Foram eventos isolados, mas a mídia, torcendo para o país ter problemas e, assim, diminuírem as perspectivas eleitorais do PT, diagnosticou que os maus negócios especulativos das duas empresas denotavam “tendência”. Mentira. Foram burradas que essas empresas fizeram.
Lembram-se das previsões catastrofistas feitas quando o Brasil recebeu o grau de investimento de agências americanas de classificação de risco? Os mesmos profetas do caos diziam que sofreríamos uma crise cambial em meses, porque o real estava sobrevalorizado.
E agora? O dólar disparou. Isso significa que os problemas de sobrevalorização do real desapareceram? Não, não desapareceram porque o real nunca esteve sobrevalorizado. Sobrevalorização é quando o governo manipula o valor do câmbio, como fazia FHC. Quando é o mercado que regula, o valor é o correto. E, no caso do real, este acompanhava um movimento mundial de valorização diante do dólar. Por que é que, agora, os profetas do Apocalipse estariam certos quanto à chegada do Evento Final?
Querem meu conselho? Não percam o sono por conta de um movimento da economia americana que provocou pânico no mundo inteiro. Até em países paradisíacos do extremo norte europeu, países quase sempre imunes a crises dessa natureza, como uma Bélgica ou uma Islândia, houve convulsões fortes.
O Brasil está mais preparado para enfrentar a crise do que já esteve em qualquer época. Há escassez de crédito internacional para financiar nossas exportações, por exemplo? Há, mas hoje temos um grosso colchão de divisas para investir. Não é como no tempo de FHC, quando os recursos que tínhamos não nos pertenciam e, assim, deixavam o país em questão de horas.
Em 1999, quando o deus mercado decretou a maxidesvalorização do real – que FHC disse que não aconteceria na campanha eleitoral do ano anterior –, em semanas nossas “reservas” derreteram, e estamos falando de uns 30, 40 bilhões de dólares. Só que nem tínhamos reservas, tecnicamente, porque as mantínhamos intocadas ao custo dos dólaresque vinham especular no país.
Ninguém tirará os dólares daqui em horas, e, mesmo que tirasse, temos nossas próprias reservas, que nos permitiriam, em tese, atravessar grande período de turbulências.
Repito: não se apavorem. A mídia quer apenas criar um clima negativo no país visando influir no processo eleitoral, como fez em 2006 com a pilha de dinheiro e o delegado Bruno, que levaram a eleição presidencial para o segundo turno.
Claro que o problema é sério, mas, antes de termos razões concretas para desesperar, os americanos já terão dado tiros em suas cacholas. E essa é a boa nova: enquanto eles pegam pneumonia, poderemos, no máximo, pegar uma gripe forte. Alguma vez você imaginou que isso aconteceria no Brasil?
Fábio Barbosa, presidente da Febraban (Federação Brasileira dos Bancos)
Se você não entendeu a crise econômica internacional da mesma forma que o colunista da Folha de São Paulo Clóvis Rossi confessa, na edição de hoje daquele jornal, que sua categoria profissional não vinha entendendo, apesar de eu já ter explicado do que se trata agora ficou mais fácil para as pessoas entenderem o que se passa por conta de recente entrevista do presidente da Febraban e do Banco Santander no Brasil, Fábio Barbosa.
O presidente da Febraban explicou à Folha exatamente o que é que está acontecendo e vaticinou que a economia brasileira deixará de crescer por causa disso. E o que está acontecendo é que os bancos não querem emprestar à economia a quantidade de dinheiro que ela requer.
Segundo Barbosa, são os créditos de prazo mais longo e com juros especiais que sumiram. O dinheiro sumiu por conta da escassez de crédito internacional e essa escassez foi gerada pelo abalo nas economias dos países em que ficam os bancos que antes supriam demanda por empréstimos maiores, por prazos mais longos e com juros menores.
Segundo Barbosa, as medidas do governo para suprir o crédito que falta não eliminarão por completo a resistência dos bancos nacionais em usarem esses recursos. Os bancos estão se recusando a emprestar o dinheiro do empréstimo compulsório que ficava retido no Banco Central e que o governo liberou parcialmente para suprirem as linhas de crédito que sumiram no exterior.
Ocorre que os recursos do empréstimo compulsório são remunerados pelo governo enquanto estão em seu poder. Porém, o governo, para incentivar – ou, como insinua Barbosa, para forçar – os bancos a emprestarem, retirou a remuneração dos recursos liberados para empréstimos que não estão sendo feitos. Se os bancos não usarem, o dinheiro ficará com o governo sem ser remunerado.
O presidente do mesmo Santander que acaba de anunciar perdas internacionais da ordem de 4 bilhões de dólares por conta de seu envolvimento com os papéis do subprime americano, criou até uma analogia para as pressões que o governo estaria fazendo para que o sistema bancário nacional empreste esses recursos: “caça a boi no pasto”.
A citação alude ao Plano Cruzado, durante o governo José Sarney, quando este mandou a Polícia Federal apreender bois nas fazendas dos criadores de gado que não estavam suprindo a demanda por carne nos centros urbanos devido ao preço do produto, então congelado pelo governo naquele ano de 1986 num patamar que os produtores consideravam insuficiente.
O mesmo estaria acontecendo com o crédito: o governo quer que os bancos emprestem e estes não querem emprestar. Então, o governo faz pressão e o presidente da Febraban diz que não adianta, que estaria acontecendo o mesmo que no Plano Cruzado, um intervencionismo estatal sobre a atividade privada.
Abrir guerra com bancos não é bom negócio nos dias de hoje, quando a solidez destes determina a situação do país. E, como se sabe, o Plano Cruzado terminou em fracasso por causa disso, por causa da queda de braço do governo Sarney com o setor privado, que teimava em desrespeitar o congelamento ou em promover locaute para forçar alta de preços.
O fim do primeiro plano econômico depois da redemocratização foi o grande início da “desregulamentação” irracional dos mercados no Brasil, do escancaramento dos nossos portos, da privataria desbragada, da precarização do mercado de trabalho e de outras tragédias neoliberais que se abateram sobre nós nas décadas de 1980 e 1990.
Há um quê de fatalismo na manifestação do presidente da Febraban. Segundo ele, não haveria o que fazer. A falta de crédito será o fator que diminuirá a atividade econômica no mundo e também no Brasil.
A questão, porém, não é essa. Os bancos brasileiros não querem emprestar porque, seguindo o padrão mundial, estão optando por não correr riscos. Em suma: a economia brasileira, sadia e vigorosa, demanda crédito para continuar crescendo e os bancos, que há tantos anos vêm lucrando horrores, decidem impor um determinado ritmo à economia ao regularem as torneiras de crédito por critérios particulares.
Nessa situação, vê-se o erro que se cometeu no mundo inteiro ao dar ao sistema financeiro internacional – e, portanto, aos sistemas locais – a liberdade que foi dada, e vê-se a dimensão do poder que esse setor acumulou no momento em que ele o usa.
É chegada a hora de o Estado atuar de forma mais decidida. O presidente Lula tem em suas mãos o poder para irrigar a economia e deixar os bancos contando seu dinheiro. Pode usar montes de recursos, tais como as reservas, a execução do orçamento, as obras do PAC, o financiamento da atividade econômica via bancos oficiais...
Só não pode ter medo. É preciso confiar no país. O Estado brasileiro tem todas as condições de assumir o papel de motor do crescimento. Para isso, medidas rápidas e efetivas devem ser tomadas.
Não há que fazer queda de braço com os bancos. É o pretexto de que precisam para mergulharem de vez no projeto político da direita. A solução é mais Estado na economia. E urgentemente. Quando os negócios estiverem a todo vapor, os bancos virão ao mercado por gravidade, pois não rasgam dinheiro.
Mas Lula tem que ser rápido no gatilho. Tem que agir antes que os bancos consigam importar a crise do mundo rico e esfriem artificialmente a economia segurando o crédito num país sadio, numa imitação despropositada e até suspeita do que fazem os bancos de países economicamente enfermos. Lula não pode deixar que bancos sabotem o país.
Mesmo sendo filho, neto, bisneto e tataraneto de paulistas-paulistanos e de imigrantes europeus, atualmente sinto-me mais nordestino do que muito nordestino. Ou melhor: sou candidato a ser, se for aceito pelos meus conterrâneos de alma.
Este blog tem sido riquíssimo para mim em termos de conhecimento sociológico, de conhecimento sobre a alma humana e para saber de onde sopra o vento que infla as velas deste nosso Brasil varonil.
O Nordeste, que já foi o habitat natural, o ambiente propício para vicejarem as forças mais reacionárias, uma região onde o povo sempre se submeteu aos ditames da aristocracia de plantão, progrediu mais nos últimos dez anos do que talvez o Sul maravilha durante os últimos séculos.
Noto que as opiniões mais sensatas, a capacidade de ver mais longe, de perceber o sentido histórico das mudanças por que passam o Brasil e o mundo, hoje, no Brasil, são muito mais disseminadas entre os nordestinos.
Vê-se também a beleza das manifestações de tantos nordestinos visivelmente cultos e instruídos que se expressam com clareza e com descortino. E a liberalidade contemporânea na visão dos costumes, distante do moralismo carola e fundamentalista do Sul e do Sudeste.
E é este o sentido do projeto político em curso hoje nas Américas: o sentido de fazer evoluir regiões que, no passado, constituíram-se em peso para as nações.
Alguns países – e /ou regiões desses países – estão tendo maior sucesso nesse processo de nivelamento regional do desenvolvimento. Esse é o mote do que ocorre hoje no Nordeste brasileiro.
Processos como os dos países que decidiram enfrentar o establishment, o status quo, de forma mais decidida, como Bolívia ou Venezuela, vêm obtendo resultados mais vistosos e perenes, e outros mais comedidos, como os do Chile ou do Brasil, ainda dependem da continuidade para deixarem marca indelével. Mas todos caminham.
Esse processo de redução das assimetrias em que mergulharam as nações é o que está transformando o Nordeste brasileiro numa região que logo, logo terá peso geopolítico para influir mais decisivamente nas políticas e nos rumos do país.
Hoje, a vanguarda do pensamento sócio-político está no Nordeste. E é bom que seja assim. O desnível entre o Sul, o Sudeste e o Centro Oeste ricos e o Norte e o Nordeste pobres, como em todas as partes do mundo impedia o desenvolvimento do país como um todo.
Sempre digo – e não me canso de dizer – que confio no processo civilizatório. Queiram ou não, o mundo é muito mais justo hoje do que era há cem ou há mil anos. Porque está na natureza humana isso, o aprimoramento, o instinto de preservação como espécie.
A espécie humana não dominou o mundo porque é bonitinha, não. Temos, sim, uma ciência intrínseca que nos faz ver conjuntamente, no fim das contas, que o bem comum é o único caminho para a paz e para a prosperidade.
Dirão que sou otimista ou ingênuo. Ou quem sabe idealista... É bobagem. Sou vivido. Já vi o suficiente para me decepcionar, mas também vi o lado bom e belo da vida. Já vi a verdade e a virtude triunfarem. Já vi o mal perder. E já vi que um e outro nunca estão muito bem definidos, ao menos como se pensa.
Então, que vivam o Nordeste, o Norte, o Sul, o Sudeste, o Centro Oeste e até a Cochinchina. Viva a humanidade e sua igualdade inata, aviltada pela ânsia humana em se diferenciar, mas igualmente elevada, por instintos primais, a se perpetuar como espécie, do que decorreu a busca pelo bem comum que a fez dominar o mundo.
Andou rolando por aí uma polêmica sobre similaridades e diferenças entre Barack Obama e Luiz Inácio Lula da Silva. Essa polêmica passou ao largo da questão central, uma questão que, de forma nenhuma, diz respeito às trajetórias de vida dos dois, mas ao que eles representam.
Opõem-se a visão de que Lula e Obama, por suas origens, que supostamente seriam ambas humildes, estariam unidos por uma mesma trajetória, e a visão de que Lula nada teria que ver com Obama, que teria se esforçado e estudado enquanto que Lula, mesmo podendo estudar na idade adulta, teria desprezado os estudos.
No fim, aquela mesma velha visão de que Lula não poderia ser presidente por não ter curso superior resiste bravamente em algumas cabeças, mesmo a despeito de este governo estar se constituindo num dos melhores que o país já teve. Preconceitos, como se vê, são indestrutíveis.
O fato, porém, é que Obama e Lula são vencedores dos sistemas de exclusão social que vigem nos EUA e por aqui - até porque, nosso sistema excludente é baseado no sistema americano.
Obama é culto, estudou em Harvard, nasceu em uma família de classe média e sua mãe era branca, enquanto que Lula, apesar de ser branco, nasceu e cresceu numa pobreza que nos EUA seria considerada miséria. As chances que Obama teve, Lula nunca teve. Se origem pobre for o critério, portanto, a chegada de Lula ao poder constitui um feito muito maior do que o de Obama.
Duvido que Obama tenha passado fome na infância ou que sua família tenha atravessado seu país num pau-de-arara caindo aos pedaços para ir tentar a sorte em algum grande centro urbano, sobretudo porque nos EUA não há regiões miseráveis como as do Nordeste brasileiro.
O que interessa, é o seguinte: as eleições desses dois políticos, Lula e Obama, bem como as de um Evo Morales, de um Fernando Lugo e, em certa medida, até de um Hugo Chávez, constituemrupturas com as "estirpes" que sempre tiveram para si a primazia para governar - primazia derivada, também, de questões étnicas.
A onda rosa sul-americana avança sobre o centro e sobre o norte do continente americano, queiram os conservadores ou não. E a culpa, inclusive, é deles mesmos, que acharam que poderiam manter os povos das Américas no conformismo eterno.
Quando se horrorizam ao ouvirem que Obama é produto do mesmo processo político que originou os outros líderes das Américas supra mencionados, os conservadores continuam demonstrando o quanto estão se distanciando dos sentimentos e aspirações destes povos.
A resistência e as maquinações da elite branca e conservadora que ainda pairam acima das massas nas Américas só adiam o inevitável, ou seja, um processo que, aqui nesta parte do mundo, significará, com séculos de atraso, a nossa Revolução Francesa, a das Américas.
De fato, notem que nunca houve uma ruptura formal com a exclusão neste continente. Ao menos como aconteceu na Europa no século XVIII.
O Welfare State (estado do bem-estar social) europeu derivou do amadurecimento daquelas sociedades por conta dos processos históricos contemporâneos e sucedâneos à Revolução Francesa. O velho continente acabou com a miséria entre os seus. Hoje, a injustiça é com os imigrantes.
As Américas precisam de sua Revolução Francesa, sim. A desigualdade que vige por aqui, é medieval.
Só que a nossa Revolução, ao menos, espera-se que venha sem o Terror que se impôs à homóloga francesa. E se espera que este Terror não venha antes, inclusive. O que ocorrerá se a revolução pacífica continuar sendo sabotada pelo radicalismo da nossa elite a la Marie Antoinette.
Vamos falar a sério sobre os efeitos da crise internacional no Brasil? Gostaria que alguém fosse intelectualmente honesto e que reconhecesse que, como venho dizendo desde o primeiro minuto em que eclodiu a quebra do Lehman Brothers, há algumas semanas, até agora, por aqui, não ocorreu a catástrofe que disseram que haveria.
O que me irrita é esses “especialistas” aventarem irresponsavelmente todas as hipóteses mais macabras que se possa conceber. Vi até alguém dizendo, lá no blog do Luis Nassif, que o tamanho da catástrofe seria de mais de cinqüenta trilhões de dólares, ou seja, do tamanho do PIB mundial.
O pânico que essa palhaçada causou ao país determinou os poucos efeitos que sentimos até agora. O alarmismo na mídia fez estagnar o ímpeto comprador do consumidor e impediu os bancos de continuarem trabalhando normalmente apesar do crédito farto que o governo Lula pôs à disposição do sistema financeiro nacional para que este não interrompesse as linhas de crédito. E foi só.
Enquanto isso, nos Estados Unidos, por exemplo, estão ocorrendo demissões em massa. Lá, como na Europa, inclusive, a recessão até já se instalou (estatística e praticamente). E o pior é que ninguém se pergunta como isso pode estar ocorrendo se a crise explodiu na mídia há apenas algumas semanas.
O que ocorre é que essa crise, na verdade, começou no fim do ano passado – nos EUA e nos demais países ricos, que fique bem claro. Aqui a coisa começou a esquentar há pouco tempo e por conta do pânico mundial e das quedas das bolsas no Brasil e no mundo.
Grande parte dessas quedas, porém, e também a valorização do dólar decorreram de investidores estrangeiros que venderam ações e levaram seus dólares daqui para lá, para os países ricos, para cobrirem posições devido às perdas que tiveram com os problemas no mundo rico.
De resto, não se tem notícia, ao menos por aqui, de queda expressiva de consumo ou de demissões em massa. Pelo contrário: todos os indicadores mostram que o nível de emprego vem crescendo. A produção industrial de setembro também cresceu. Há queda de vendas em setores localizados, apenas. E essas quedas ocorreram devido mais ao pânico do que por razões concretas.
As vendas de carros caíram porque o consumidor está alarmado e porque os bancos, agora, exigem mais cadastro do consumidor para concederem crédito. E eu, por minha vez, me pergunto: será que estavam concedendo crédito de forma irresponsável, até então?
Claro que não. É só paranóia. Os efeitos matemáticos e estatísticos da crise em nosso país, até o momento, não permitem alguém dizer que ocorreu aqui mais do que uma simples marolinha mesmo, sobretudo se compararmos os números do Brasil com os dos países ricos.
Na mídia alarmista, no entanto, enquanto ela continua alarmando, aqui e ali já se vê “especialistas” admitirem que até o começo do ano a crise terá perdido fôlego. Até porque, onde ela tinha que se instalar de forma dramática, já se instalou. E aqui não foi assim. Estamos resistindo. E bem.
Só espero que vocês se lembrem do que escrevi várias vezes aqui sobre o assunto e que continuarei escrevendo, ou seja, que a economia brasileira está sendo muito bem administrada, o país está muito mais sólido e, além de não termos motivos para fazer o jogo da mídia e entrarmos em pânico, temos motivos até para comemorar.