Teoria sociopolítica

O Processo Civilizatório

 

 

 

 

 

Os fins de semana propiciam a reflexão. A desaceleração do ritmo estonteante de nossas vidas nos concede tempo e tranqüilidade para tanto, permitindo-nos contemplar até uma abstração como é pensar no que faz nossa espécie divergir das outras que povoam esta bola de lama interplanetária em que nos encontramos confinados. A calmaria entorpecente me faz pensar numa tendência inata da humanidade de se proteger como espécie, numa tendência que lhe permitiria estabelecer domínio cada vez maior e mais profundo sobre o mundo que a cerca, sobre um mundo em que os horizontes não param de se alargar.

 

A única forma racional e suportável de encarar a realidade tantas vezes tão cruel na qual estamos inseridos é a de tentarmos não fixar demais o olhar no momento específico ou em pessoas específicas e sim no passado, no presente, no futuro e no que certos indivíduos representam acima deles mesmos, pois os indivíduos também deixam de sê-lo quando se tornam símbolos de correntes de pensamentos e dos anseios dos povos.

 

As grandes ondas que modelam o mundo hoje se propagam em velocidade infinitamente superior à que se propagavam outrora. Quantas décadas o Iluminismo levou para contagiar grande parte do mundo desenvolvido com os ideais de liberdade, igualdade e fraternidade?

 

Hoje, em questão de poucos anos vemos o mundo passar por mudanças radicais de pensamento dominante e vigente – o que, por si só, constitui uma mazela humana, por acharmos que sempre precisa haver um pensamento dominante e vigente quando o certo seria que correntes de pensamento pudessem debater em igualdade de condições em busca de consensos. Tragicamente, contudo, o que ocorre hoje é esmagamento de algumas idéias ou correntes de idéias por outras antagônicas e beneficiadas pelos interesses menos representativos da maioria.

 

Como exemplo do que digo, lembro que o mundo passou as duas últimas décadas louvando um deus impiedoso, voraz, tido como onipotente. Um deus sem rosto ou forma contra o qual não adiantaria lutar ou principalmente tentar tolher, pois seria como que uma força da natureza, como o vento ou as marés. Refiro-me, como já deu para vocês perceberem, ao deus Mercado.

 

A crença cega no Mercado como uma espécie de força da Natureza, de uma força capaz de regular sem interferências as relações sócio-econômicas dos povos de forma a produzir, no fim, o bem comum, esboroou-se. O homem está descobrindo, a duras penas, que deixar o Mercado livre para agir da forma como for compelido pelos micro-interesses sectários mais poderosos, termina, isso sim, por atuar contra – em vez de a favor – do bem comum.

 

O efeito predatório dessa última onda de consenso cego da humanidade se propagou como se propagou graças a campanhas publicitárias multibilionárias que venderam ao mundo  um ideário que, analisado à luz do humanismo – esse conceito que tantos rejeitam, mas do qual todos dependem –, constitui uma verdadeira ameaça à proliferação da espécie humana na Terra.

 

O deus Mercado e a crença cega nele devem morrer para que a humanidade sobreviva e cresça como é sua tendência natural. A prevalência do poder onipotente desse deus de dor e misérias vai de encontro à sobrevivência da espécie humana, de uma espécie que depende sempre de ser protegida de predadores mesmo quando estes são o próprio homem, quando são semelhantes que querem fazer prevalecer seus interesses sectários sobre o interesse comum.

 

O Processo Civilizatório renega sistemas que beneficiam a poucos, pois tal Processo significa crescimento da consciência social, ou seja, da consciência de que o interesse de muitos se sobrepõe ao de poucos. A própria etimologia da palavra civilização revela que esse conceito envolve o bem de todos, nunca de poucos:

 

civilizar + -ção, por inf. do fr. civilisation (1721) 'jurisprudência', (1757) 'o que torna os indivíduos mais sociáveis', (1760) 'processo histórico de evolução social e cultural', (1767) 'estado ideal de evolução material, social e cultural para o qual tende a humanidade'; f.hist. 1833 civilisação.

 

Vejam, se Civilização é o “estado ideal de evolução material, social e cultural para o qual tende a humanidade”, o processo que leva à Civilização deve ser no sentido de fazer prevalecer o que é ideal para todos. É por isso que impérios e ditaduras de pessoas, seja em grupos sociais ou através de indivíduos, tendem ao declínio inexorável, pois constituem a negação do conceito civilizador no qual os interesses prevalentes devem ser os do conjunto e não os de suas partes.

 

É por isso que não esmoreço, porque confio no Processo Civilizatório, sei da efemeridade dos indivíduos e das idéias no contexto histórico, de forma que não tenho dúvidas de que esses que hoje sentem-se donos de algum poder onipotente não tardarão em encontrar o desvanecimento desse poder, a impotência e o lugar escuro no canto da história que fica inapelavelmente reservado àqueles que se acreditam acima da espécie a que pertencem.



 Escrito por Eduardo Guimarães às 13h22
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Análise política internacional

Eleições na Venezuela

 

 

 

 

 

 

É bem possível que você não saiba, mas, no próximo domingo, haverá eleições na Venezuela. Os cargos em disputa serão os de governadores e prefeitos de 23 dos 24 estados venezuelanos.

 

A falta de notícias que se vê por aqui sobre tão importante processo eleitoral num país que, além de extremamente importante no contexto geopolítico latino-americano, ainda por cima é fronteiriço com o nosso, deve-se ao fato de que o PSUV (Partido Socialista Unido da Venezuela), partido do presidente Hugo Chávez, deverá dar mais uma surra na oposição de direita neste ano, a exemplo do que o chavismo vem fazendo nos últimos dez anos.

 

Não é por outra razão que a mídia nacional ignora o processo eleitoral venezuelano. E quando noticia, faz como fez a Folha de São Paulo hoje em artigo de seu correspondente em Caracas, Fabiano Maisonnave, um antichavista convicto que vive desancando o presidente da Venezuela em seus relatos na Folha.

 

Aliás, o texto em pauta curiosamente não traz explícito o nome de Maisonnave, traz apenas suas iniciais ao fim do texto e um genérico “Da Redação” no início. Talvez porque é um texto absolutamente partidário, cheio de opiniões e considerações desairosas sobre o partido de Chávez e sobre o próprio.

 

Já no título, a matéria começa fazendo proselitismo político pró-oposição ao dizer que “Chávez usa ameaças para tentar conquistar estado mais rico”. A matéria refere-se ao Estado Zulia, governado hoje pelo opositor derrotado por Chávez na eleição presidencial de 2006, Manuel Rosales.

 

Há, na Venezuela, acusações de corrupção da justiça do país contra ele, inclusive com gravações telefônicas que mostram-no pedindo propina. As mídias daqui e de lá e a oposição de lá dizem que Chávez estaria “ameaçando” o opositor, que disputa a prefeitura de Maracaibo (segunda maior cidade do país).

 

A fúria da Folha – e do resto da sucursal brasileira do grande complexo midiático de direita latino-americano – deve-se ao fato de que, seguindo a tradição venezuelana, está havendo uma guerra de pesquisas no país, em que as pesquisas do lado do governo mostram-no ganhando de lavada o pleito de domingo e as da oposição dobram suas poucas chances no processo – dos dois governos estaduais que a oposição tem hoje, passaria para quatro.

 

O fato é que, no último dia 15 de novembro, saiu uma pesquisa de um instituto norte-americano cujo histórico de acertos inclui o do referendo revogatório de 2004 na Venezuela. O instituto em questão é o “North American Opinion Research INC” e está sediado em Miami.

 

Os números do “North American Opinion” mostram que o PSUV deverá conquistar 21 dos 23 governos estaduais (incluindo o Estado Zulia) e 77% das prefeituras. As pesquisas da oposição são baseadas em institutos que erraram, por exemplo, o resultado do referendo revogatório de 2004, sobre o qual faziam sobressair nas mídias daqui e de lá que Chávez seria deposto. Resultado: ele ganhou de lavada.

 

Você deverá receber pouca informação da mídia corporativa quanto ao processo eleitoral venezuelano. Os resultados mais previsíveis das eleições e dados como a popularidade de 77% detectada pró-Hugo Chávez são indigestos para uma mídia como a nossa, que acha que deve selecionar o que o grande público deve ou não saber e que pensa que pode manipular a realidade quando informar é o único jeito.

 

Nada disso, porém, muda o fato de que, no próximo domingo, deverá haver novo fortalecimento de mais um regime que causa arrepios aos reacionários conservadores latino-americanos. Mais um golpe no atraso da direita na América depois do duro golpe que foram: 1 – a expressiva vitória de Evo Morales não só na re-confirmação de seu mandato, mas na derrota dos golpistas da oposição durante a tentativa de golpe recém-ocorrida na Bolívia; 2 – a eleição de Barack Obama nos EUA.

 

Assim, o continente americano vai atropelando o atraso conservador, as oligarquias raciais da região, enfim, um ideário de dor, fome, miséria, ignorância, violência e autoritarismo que vigeu nesta parte do mundo por séculos e séculos até que começamos, finalmente, a reagir. Vida longa, pois, à revolução democrática e humanista que vai varrendo o atraso e a injustiça da face das três Américas.



 Escrito por Eduardo Guimarães às 10h02
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Crônica

A inconsciência é branca

 

 

 

 

 

É feriado hoje (quinta-feira, 20 de novembro) em São Paulo. Comemora-se o Dia da Consciência negra. Muitos, porém, têm dificuldade de entender o que significa esse conceito intrigante.

 

Para quem nunca sofreu discriminação devido à própria aparência física, é difícil entender essa consciência que os negros precisam ter de que, via de regra, a vida deles é pior devido à cor das próprias peles, ao tipo de cabelo que têm e aos traços de seus próprios rostos.

 

É por isso que se vê dados como o divulgado ontem pelo jornal Folha de São Paulo, de que, em São Paulo, os negros ganham salários bem menores do que os dos brancos.

 

É preciso que os negros tenham consciência disso tanto quanto os brancos, ainda via de regra, são inconscientes dessa realidade.

 

Os principais indicadores sociais dos negros (Saúde, Educação, nível de renda, mortalidade infantil, saneamento básico) mostram que a vida deles é bem pior do que a dos brancos.

 

Para superar esse abismo social que separa os negros e descendentes de negros (que têm visíveis os traços físicos da própria etnia) dos brancos, é preciso que essas vítimas do preconceito enrustido saibam que são discriminadas.

 

Mas como é possível que os que sofrem tal discriminação não saibam que são discriminados?  É possível, porque os que discriminam hoje no Brasil dizem que não fazem o que fazem, que é tudo paranóia dos afro-brasileiros.

 

Em síntese, a estratégia dos racistas brasileiros é a de dizer que os indicadores sociais dos negros são todos piores por culpa deles mesmos. Atribui-se a uma suposta indolência dos negros a razão de sua miséria social.

 

Consciência negra é isso, é perceber que o racismo existe no Brasil e que é muito atuante. De forma que, para superá-lo, os negros precisam se organizar e reivindicar leis para se protegerem da discriminação tácita de que são vítimas cotidianamente.

 

Se você é branco e não se acha vítima de ímpetos racistas, é bom que preste atenção na forma como se relaciona com os negros. O preconceito é muito arraigado em nossa sociedade, sobretudo no Sul e no Sudeste do país. Muitas vezes não nos damos conta de comportamentos impróprios.

 

No dia em que os pais brancos de classes sociais mais altas pararem de se horrorizar diante da hipótese de seus filhos lhes gerarem netos mestiços, no dia em que brancos ricos pararem de criticar o “nível” de certos ambientes (sejam escolares ou de lazer) freqüentados por negros, nesse dia os brancos também terão consciência.

 

Como a inconsciência ainda é branca, a consciência deve ser negra. Com a ajuda de todos os brancos conscientes, é claro.

 

Não me direi à prova de erros, mas posso dizer que faço o possível para ser consciente, e que faço isso me policiando, prestando atenção para ver se não digo uma coisa e faço outra. Racismo se combate todo dia, o tempo todo. Pelo menos enquanto for tão grande tanto por aqui quanto é no resto do mundo.

 



 Escrito por Eduardo Guimarães às 11h33
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Comentário político

O capo e seus políticos,

juízes e mídia

 

 

 

Tenho me interessado pouco pelos ecos da Operação Satiagraha porque me induzem à depressão cívica. Fico assistindo a essas reviravoltas constantes nas investigações e me pergunto como é possível que, num país que se diz civilizado, um mafioso como Daniel Dantas consiga acumular tanto poder a ponto de pôr no banco dos réus o governo, os policiais e os juízes que o investigam. E o que é pior: tudo isso por demanda da mídia.

 

Foi a reação da mídia, logo após a eclosão da Satiagraha, que pôs o delegado Protógenes Queiróz e o Juiz Fausto De Sanctis na berlinda. Colunas virulentas nos jornais de São Paulo e do Rio chegaram ao ponto de insultar o delegado Queiróz, apontando “erros” no processo, “violação de direitos” dos acusados etc.

 

Foi a deixa para o ex-auxiliar de Fernando Henrique Cardoso Gilmar Mendes  – alçado pelo ex-presidente, durante seu governo, à Suprema Corte de Justiça a fim de  atuar como procurador do PSDB – quem fez o primeiro movimento das instituições no sentido de se ajoelharem para o banqueiro mais poderoso do país, Daniel Dantas.

 

Atropelando a norma nesse tipo de processo, o STF, na pessoa de seu presidente, Mendes, despachou um habeas-corpus para Dantas às duas da manhã. Estava dada a senha para as instituições se levantarem em defesa do banqueiro onipotente e onipresente. Daí a mídia saiu a levantar escândalos para fundamentar as queixas de Dantas sobre “abuso de poder”, “Estado policial” e outras baboseiras.

 

A Cúpula do Judiciário, por absoluto corporativismo, em clara postura de acobertamento mútuo entre seus membros, tratou de respaldar o presidente do STF de plantão.

 

Já vi que isso tudo dará em nada além da desmoralização das instituições no Brasil, e na materialização da prova de que quem tem muito dinheiro pode tudo neste país se erigir para si um “sistema de segurança” como o de Daniel Dantas, composto pelos poderes Executivo, Legislativo, Judiciário e, claro, pelo Quarto Poder, pela mídia.

 

Temos um governo que funciona sob concessão dos militares e uma oposição que, em último caso, alia-se à caserna para impedir que a oligarquia de classe social, mesmo fora do poder formalmente, tenha que se submeter ao império da lei e considerar-se igual à ralé mulata pela qual nutre ojeriza.

 

Temos uma afasia cívica de uma sociedade descrente das virtudes da democracia e do Estado de Direito.

 

Temos um país continental para o qual só se pode falar através dos grandes meios de comunicação de massas, um meio ao qual o governo do país até tem acesso, mas hesita em usar.

 

Temos uma perspectiva política dúbia por conta da dúvida que a crise internacional gera quanto à possibilidade de manutenção de um ritmo da economia que possa impedir as raposas conservadoras de voltarem a tomar conta do galinheiro.

 

Como vocês vêem, a frustração que vêm sendo as investigações sobre Daniel Dantas e o desejo frustrado de todo cidadão digno de vê-lo atrás das grades junto com seus cúmplices no Judiciário, no Legislativo, na mídia e até em setores do Poder Executivo, tudo isso leva este cidadão à deprê cívica, à constatação de quão longe ainda estamos de nos tornar um país civilizado.

 



 Escrito por Eduardo Guimarães às 10h21
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Análise política

Pérolas petistas

 

 

 

Como já disse aqui reiteradas vezes, criticar o governo, o PT e sobretudo o próprio Lula hoje em dia, é chover no molhado. É misturar críticas eventualmente fundamentadas – e espero que ninguém ache que não há críticas a fazer  – com as mal-intencionadas e injustas que o presidente e seu grupo político sofrem ininterruptamente na mídia.

 

Porém, levar essa postura ao extremo de recusar fazer certas críticas indispensáveis, que inclusive podem ajudar o país, só para não engrossar a gritaria petefóbica e lulofóbica, pode ser pior.

 

Vejam bem essa situação da economia brasileira diante da crise internacional. A mídia está deitando e rolando em cima da frase de Lula sobre a “marolinha” que seria essa crise no Brasil, assim como deitou e rolou sobre o “relaxa e goza” de Marta Suplicy ou sobre os “aloprados” do presidente.

 

Quando se vê que há problemas localizados na economia, problemas que, diante de um quadro de caos mundial, obviamente preocupam as pessoas, a metáfora sobre a “marolinha” pode ser usada – e vem sendo usada – para vender aos incautos a idéia de irresponsabilidade do presidente diante de um problema tão grave.

 

Quando algumas montadoras de automóveis, que vinham trabalhando a plena capacidade, vêem suas vendas refrearem – e não por falta de interesse do consumidor em comprar-lhes os produtos, mas devido aos bancos não financiarem as operações comerciais por excesso de exigências cadastrais aos consumidores – e então essas indústrias começam a dar férias coletivas e até a fazer algumas dispensas, a metáfora sobre “marolinha” se torna uma piada de humor negro.

 

Olhando no contexto correto, porém, ter-se-á que admitir que a situação do Brasil hoje no cenário mundial, é excelente. As previsões mais catastrofistas para a economia que vi até aqui não traçaram nenhum quadro preocupante como os que se vê pelo mundo afora. Os números e o ritmo de muitos setores da economia chegam a mostrar crescimento de atividade. Com crise e tudo.

 

Claro que há problemas em muitos setores, como o de carros novos ou o da construção civil, mas são setores que já ensaiam reagir e para os quais o governo vem adotando medidas para suprir-lhes as necessidades.

 

Pode-se dizer, e sem ousar muito, que esses setores também têm perspectiva próxima de retomada de um nível melhor de atividade, ainda que não venha a ser o nível anterior, que inclusive as autoridades econômicas já diziam que estava alto demais.

 

Digo a vocês que, ao comparar as desgraças que estão acontecendo nas grandes economias mundiais, com demissões em massa, redução do PIB – vejam, não é desaceleração do crescimento, mas índice NEGATIVO do PIB – e problemas similares até em muitos países ditos “emergentes”– que, inclusive, estão tendo até que recorrer ao FMI –, chego a achar até apropriada a metáfora sobre “marolinha” para a forma como a crise chegou ao Brasil.

 

Vejam bem, estou comparando os efeitos que o resto do mundo JÁ SOFREU com os que o Brasil JÁ SOFREU, e os fatos mostram que uns e outro sofreram de forma bem diferente. Assim, mesmo se a crise por aqui se agravasse – o que acho que não será o caso –, o que aconteceu até agora no mundo e no Brasil são coisas diferentes ao extremo. Negar isso é má fé, pilantragem ou burrice extrema, pois os números e os fatos todos estão aí para quem quiser enxergar.

 

Se não é marolinha, a crise por aqui pode ser até um mar encapelado, mas não mais do que isso. Tsunami arrasa, marolinha nem dá para notar, mas o que estamos sofrendo dá para dizer que não vai nos afogar.

 

Em mar encapelado – que, aliás, é uma metáfora sofrível –, é possível atravessá-lo incólume se o capitão do barco for bom. E o nosso capitão, pelo menos até aqui, tem se mostrado muito bom. Pena que fale demais ou de menos, sempre na hora em que deveria fazer o contrário.

 

Não tem jeito, a crítica precisa ser feita para ver se o PT acorda: essas pérolas petistas só servem para alimentar as imprensas partidárias de São Paulo e do Rio e, em seguida, a oposição, que daí passa a repetir o que a imprensa diz – ou seria o contrário?



 Escrito por Eduardo Guimarães às 11h24
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Crônica

Síndrome da 2ª feira

 

 

 

 

 

 

Há um sem-número de estudos sobre o mau estado de espírito dos povos ocidentais às segundas-feiras. É o dia da semana que todos mais odeiam. Sabe-se até que é nesse dia que mais ocorrem infartos.

 

De fato, a volta à labuta, ter que encarar a realidade de novo depois de ao menos dois dias no alheamento, no doce esquecimento da realidade, numa vã ilusão edênica segundo a qual cada um é dono do seu tempo para sempre, seja para dormir, para passear ou até para trabalhar, se vontade der, é massacrante.

 

Retomar todas aquelas tarefas tediosas do dia a dia, ter que respeitar horários e, o que é pior, ver e ouvir àqueles que você decididamente não tem vontade nenhuma de ver e muito menos de ouvir – não por nada, mas apenas porque não está de bom humor –, pode ser um pesadelo ao qual você se vê arrastar com as mãos crispadas.

 

O dia, por seu turno, também se arrasta. A hora do almoço não chega nunca e, quando chega, você descobre que, depois daquela breve pausa, terá que recomeçar tudo de novo, e que essa tarefa hercúlea perdurará pelos próximos quatro dias e tanto que terá pela frente.

 

Desde o primeiro passo que dá para fora de casa nas manhãs de segunda-feira você já está rejeitando terminantemente papos animados, abraços, apertos de mão e os largos sorrisos. A cara se amarra, o cenho se franze e o olhar se desvia dos outros olhares, erguendo um muro que o preserva da realidade que se materializa ao redor.

 

A tarde vai caindo. É hora de voltar para casa. Em geral, quando essa hora chega as pessoas suspiram, como que lamentando o que tiveram que enfrentar. Quando se ganha à rua, porém, cresce a expectativa de retomada da própria vida, até então anulada pelas imposições do ganha-pão.

 

Em casa, a noite vai chegando ao fim e você hesita em terminá-la indo dormir. Mas já se sente mais preparado para o dia seguinte. Sabe agora que depois de cada um dos próximos quatro dias estará lhe esperando o que acaba de viver, ou seja, o reencontro com o bem mais precioso do ser humano, o reencontro de cada um com a própria liberdade.

 

Que a segunda lhe seja leve. E a terça, a quarta, a quinta...



 Escrito por Eduardo Guimarães às 08h56
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Sugestão de leitura - Saúde Pública

Vítimas da mídia

O caso da febre amarela

 

 

 

 

Antes de entrar no assunto principal deste post, informo que o vídeo acima é da edição do Jornal Nacional de 17 de janeiro deste ano. A reportagem do telejornal da Globo mostra o auge dos efeitos que o bombardeio de notícias alarmistas da mídia – inclusive da própria Globo – na questão da febre amarela provocou, gerando corrida da população em busca de vacinas e pessoas adoecendo por tomarem o medicamento sem necessidade ou além da conta. A reportagem, porém, é falha porque tardia. Os efeitos do noticiário se propagaram nas duas primeiras semanas do ano.

 

Mas vamos ao que interessa. Acaba de ser publicado o trabalho jornalístico mais fundamentado e sério que já li sobre o atípico surto de febre amarela deste ano, que gerou uma catarse coletiva no país e que levou duas dezenas de milhões de pessoas a se vacinarem contra a moléstia, quadruplicando a demanda pelo medicamento e levando mais de duas dezenas de pessoas aos hospitais e ao menos quatro pessoas à morte.

 

O trabalho é da jornalista especializada em Saúde Conceição Lemes, colaboradora efetiva do site de Luiz Carlos Azenha, o Vi o Mundo. Conceição, além disso, tem sido vital para fundamentar a representação que o Movimento dos Sem Mídia protocolou em março deste ano no Ministério Público Federal denunciando o mesmo que a jornalista volta a denunciar em seu artigo em pauta, agora de forma amplamente fundamentada num documento que por certo dará grande fôlego à investigação do MPF.

 

A leitura do artigo de Conceição é primordial para qualquer pessoa, pois os atos praticados pelos grandes meios de comunicação no episódio em tela poderiam ter vitimado qualquer um de nós ou de nossos entes queridos, pois tenho certeza que, como aconteceu comigo, todos conhecemos alguém que, no início deste ano, vacinou-se contra a febre amarela apesar de não morar nem pretender viajar a áreas de risco.

 

Antes do link para o artigo de Conceição, quero destacar duas entre as muitas informações vitais em seu texto.

 

1ª - Em 2003, houve 64 casos de febre amarela silvestre e 23 óbitos; foram aplicadas 5,2 milhões de doses vacinas. Em 2008, 41 casos de febre amarela silvestre e 23 óbitos; 23 casos a menos que em 2003. Porém, foram aplicadas 15,2 milhões de doses de vacinas a mais.

 

2ª - No Brasil, de 2000 a novembro de 2007, havia um total de quatro óbitos associados à vacina da febre amarela. Em apenas um ano – 2008! -- tivemos mais quatro. Dois por conta da mídia, que, sozinha e em curtíssimo espaço de tempo, conseguiu a “proeza” de ser a responsável por 25% de todas as mortes por vacina de febre amarela no País.

 

O texto de Conceição não deixa dúvidas sobre a responsabilidade da mídia em ao menos duas mortes comprovadas de pessoas que não precisavam se vacinar contra a febre amarela e se vacinaram movidas pelo noticiário. Eram pessoas que não tinham razão para se vacinar, mas se assustaram com o noticiário, que não deixou suficientemente claro que as pessoas não deveriam se vacinar se não fossem viajar a áreas de risco porque a vacina pode ser perigosa para alguns.

 

O trabalho da Conceição ao qual me refiro ou a representação que o Movimento dos Sem Mídia propôs ao Ministério Público Federal, essas iniciativas só têm uma preocupação: o seu bem estar, leitor, e o daqueles que lhe são caros. Tenho certeza de que a grande maioria das pessoas conhece alguém que se vacinou contra a febre amarela sem necessidade. Essas pessoas que fizeram isso, todas correram risco de morte.

 

Por que seu vizinho, seu parente, esse conhecido seu que se vacinou sem pretender viajar a alguma área de risco de febre amarela ou sem residir numa dessas áreas, fez isso? Fez porque ficou assustado com o noticiário.

 

Essa pessoa que você conhece poderia ter morrido, como mostram os que morreram ou os que foram parar no hospital por conta de terem tomado a vacina à toa. O fato de você ou alguém que você conhece não terem passado mal com a vacina não quer dizer que amanhã não serão vitimados por outros atos de irresponsabilidade como os que causaram essas tragédias e que, inclusive, fizeram o erário público despender recursos sem razão para pagar pelas 15 milhões de vacinas aplicadas além do normal ou para pagar o tratamento dos que adoeceram por conta do medicamento.

 

Para ler o artigo de Conceição Lemes, clique aqui



 Escrito por Eduardo Guimarães às 14h44
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