Análise política

Lula subestima a direita

 

 

 

Não deveria me surpreender com as tentativas que começam a surgir, aqui e acolá, de responsabilizar Lula pelo desastre em Santa Catarina. Não tem sido diferente em tudo de ruim que vem acontecendo nos últimos anos. A constatação de problemas históricos do país gera críticas de que o presidente não os resolveu todos em quase seis anos de governo.

 

Desastres naturais ou causados pelo homem, desastres do tipo que gera comoção nas sociedades e que em qualquer país civilizado é tratado com consternação e união entre compatriotas, por aqui serve para luta política, para os inimigos do líder político do país tentarem desmoralizá-lo.

 

São críticas ainda difusas e que relutaram em botar a cabeça para fora da toca devido ao absurdo que encerram de quererem responsabilizar pela tragédia em Santa Catarina a esfera de governo mais distante das questões regionais, ou seja, o governo federal.

 

As críticas começam aludindo a “todos” os níveis de governo, mas logo se voltam contra quem “interessa”. Dizem que “não havia mapeamento das áreas de risco”, que a ajuda do governo federal seria “insuficiente” e, finalmente, revelam seu objetivo ao criticarem Lula por ter demorado a visitar essas áreas e por ter ficado pouco tempo na região.

 

Não haveria nada que Lula fizesse sobre essa tragédia – ou em qualquer outra questão – que seria considerado suficiente ou apropriado. Todos os problemas históricos e não-resolvidos do país servem, potencialmente, para atacar o presidente, pois é ele o grande entrave à vitória de José Serra na eleição presidencial de 2010.

 

Teme-se que o candidato indicado por Lula à própria sucessão torne-se imbatível se a popularidade do presidente estiver tão alta daqui a dois anos, pois sabem que São Paulo não é o Brasil e que o apoio que Lula tem hoje no conjunto do país bastaria para ele fazer seu sucessor. Então, não há trégua. Se esse novo ataque irá colar ou não, pouco importa. Atacar é preciso.

 

Irá funcionar? Depende do que se pretende como resultado. Penso que a população brasileira, em sua maior parte, já está meio vacinada contra a tentativa evidente de debitar na conta de Lula qualquer tragédia que aconteça. Contudo, a crítica ficará sempre lá, inscrita nos anais do jornalismo e pronta para ser usada num momento mais propício.

 

Não é de hoje que me recuso a subestimar o poder da mídia. Sei que a impotência diante de sua capacidade de pautar e direcionar o debate público gera em quem enxerga o que ela faz uma espécie de fé mística em que a safadeza não pode triunfar e em que ninguém é tão burro que não enxerga como transformam tudo em motivo para malhar o presidente da República, mas esse é um comportamento que, em certa medida, beira o auto-engano.

 

Há um plano muito esperto em execução no Brasil e na América Latina. O bombardeio incessante contra os líderes progressistas em todo continente deverá perder bastante com a eleição de Barack Obama. Penso que o apoio dos EUA ao golpismo de direita latino-americano deverá ser retirado. Mas o fato de os americanos pararem de fomentar tentativas de ruptura institucional nos países de seu quintal não impedirá as elites locais de continuarem a agir.

 

A grande fragilidade dos países latino-americanos que têm governos progressistas é a de que o que sustenta esses governos são líderes carismáticos que, em alguns anos, deixarão o poder. A grande dúvida é sobre se esses líderes conseguirão fazer com que os processos que desencadearam em seus países prossigam sob sucessores indicados por eles e por seus grupos políticos.

 

Quem sucederá a Lula, a Hugo Chávez ou a Evo Morales? Hoje, ele se confundem com o próprio processo que desencadearam. E seus inimigos políticos vão se travestindo em continuadores de suas obras, só que com “maior competência”, ainda que a aceitação dessa estratégia pelas populações-alvo não tenha sido testada.

 

Em outros países latino-americanos extra-Brasil, porém, os líderes acossados pelas coalizões midiáticas de direita optaram por falar às sociedades. Criaram televisões e rádios e contestam cada ataque que recebem dos meios de comunicação controlados por seus inimigos políticos.

 

Aqui, no entanto, a coisa é bem diferente. A maioria dos brasileiros não conhece o outro lado da moeda de quase todas as grandes acusações da mídia a Lula. Apesar de intuir que todos esses ataques têm alguma coisa que “não bate” e, por isso, continuar apoiando o presidente, essa maioria não sabe o que de fato se passou no caso do mensalão, do “causaéreo”, da febre amarela, do dossiê, da inflação, da crise econômica...

 

O sucesso em manipular a sociedade no caso da crise econômica está sendo tão grande quanto o de alarmar as pessoas no caso da febre amarela. Parte dos problemas na economia deve-se ao medo que a mídia incutiu nas pessoas ao estimulá-las a parar de consumir dizendo que iriam perder seus empregos, apesar de Lula vir dizendo o contrário (timidamente) e de os indicadores econômicos mostrarem que o presidente está certo.

 

O efeito é relativo, claro. Não se pode parar uma máquina gigantesca como o Brasil só porque se quer. Mas estejam certos de que se não tivesse havido estímulo da mídia à paralisação do consumo e dos negócios, o país poderia estar muito melhor.

 

Diante disso, quero reiterar opinião que venho formando nos últimos anos e da qual recuei ou avancei algumas vezes.

 

Penso que Lula – e só ele – deveria reagir. Neste momento, ele deveria mandar um recado claro à sociedade de que tem gente torcendo pela crise e de que os avisos da mídia para que as pessoas parem de consumir poderá prejudicar o país. Além disso, deveria comentar todas as acusações falsas de que foi alvo nos últimos anos – inclusive essa de Santa Catarina – e dizer que a mídia está com seus adversários.

 

É o que fazem Hugo Chávez, Rafael Correa, Evo Morales e até o casal Kirschner. Nos EUA, Barack Obama está propondo medidas para desconcentrar a propriedade dos meios de comunicação. Em parte nenhuma do mundo um governo se deixa espancar pelos adversários como faz o governo Lula.

 

Apesar de ter como contabilizar êxitos em várias áreas, é na política que pairam mais sombras sobre a estratégia lulista. Parafraseando o presidente Lula, quero dizer que estou convencido de que nunca antes neste país uma eventual vitória da direita foi tão perigosa e nunca antes essa corrente política contou com tanto poder para materializar seus desígnios.

 



 Escrito por Eduardo Guimarães às 13h06
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Crônica

Lamento pelo Planeta

 

 

 

Até agora, não escrevi uma única vez sobre a tragédia em Santa Catarina simplesmente porque não sabia o que escrever. O que aconteceu num Estado que todos, quando o citam, lembram de sua beleza, furta-me as palavras. Não tendo o que dizer, pois, resta-me apenas lamentar.

 

Fica difícil dizer algo que ajude as vítimas da tragédia ou mesmo que ajude a prevenir que esta não volte a ocorrer. A fúria da Natureza manifestou-se de forma tão impressionante que ninguém ousou questionar qualquer mortal por não ter tomado medidas para enfrentá-la. Ficou completamente evidente que o poder que se manifestou transcende muitas vezes o do homem.

 

A mídia reproduz até os esforços desesperados dos governos federal, estadual e da sociedade civil para mitigarem a dor das vítimas. O dinheiro público jorra, a solidariedade da sociedade é generosa, farta e célere, mas todos sabem que são apenas esforços humanos contra um poder superior. Somos apenas homens contemplando o Poder da Criação.

 

Todavia, se talvez eu pudesse tentar dizer alguma coisa que importasse e que pudesse fazer sentido, que nos permitisse racionalizar sobre tudo isso, eu diria que a Natureza é poderosa demais, que a Criação é poderosa demais para ser provocada como temos feito.

 

A irracionalidade da busca hedonista do homem emerge em cena com toda a sua exuberância bizarra. Nesse espasmo desvairado de nossos desejos por moldar a realidade ao nosso redor, terminamos explodindo o chão sob nossos pés ao extinguirmos o ar à nossa volta e exaurirmos os recursos naturais nas entranhas do planeta.

 

Quantos, porém, clamarão pela preservação do meio-ambiente de forma muito mais clara, muito mais objetiva e muito mais inteligente do que a minha, mas sem obterem nem um átimo a mais do que eu da atenção dos que poderiam determinar a preservação do planeta?

 

“Mais um texto ecochato”, é o que diriam os senhores da guerra econômica que o planeta trava se lessem o que estou escrevendo, pois lutam uma guerra na qual não há espaço para preocupações com o futuro e na qual só o presente interessa, com todas as suas cifras, dividendos e royalties.

 

Não há como usar o futuro da humanidade para barganhar com os donos do planeta, com os semideuses que decidem quanto, quando e como iremos poluí-lo, saqueá-lo e destruí-lo nessa busca desenfreada por lucros imediatos e palpáveis. O que nos resta, assim, é elevar aos céus este lamento por um planeta que estamos estrangulando, mas que começa a reagir.



 Escrito por Eduardo Guimarães às 11h15
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Crítica à mídia

Pirraça e ‘marolinha’

 

 

 

 

 

 

Não adianta tentar argumentar com crianças pequenas quando elas se atiram ao chão, esperneiam e berram por não quererem ir a algum lugar ou fazer alguma coisa. Tenho 4 filhos (três meninas e um menino) e uma neta de sete anos. Bem sei como a lógica é inútil quando crianças querem impor seus desejos imediatos sobre a realidade. Para os infantes, o mundo tem que se adaptar aos seus desejos. Esse comportamento é da natureza humana, simplesmente, e é popularmente conhecido como pirraça.

 

Admite-se pirraça em crianças. Alguns, como eu, aprenderam a lidar pacientemente com um tipo de comportamento que afeta dez entre dez petizes, mas só quando quem assim atua é petiz; quando marmanjos fazem pirraça, o caso passa à esfera da psiquiatria.

 

A mídia faz pirraça com a crise. Enquanto os dados econômicos mostram, cada vez mais, que o tsunami que atingiu os Estados Unidos, a Europa e a Ásia chegou ao Brasil como mera “marolinha”, jornalões, revistões e todos os outros meios de comunicação premiados com sufixos superlativos tentam fazer o público crer que a crise vai nos pegar e que Lula não sabe o que diz.

 

A charge abaixo foi publicada hoje pela Folha de São Paulo. Reflete perfeitamente a discurseira irresponsável da mídia apesar da montanha de dados que vai se acumulando e mostrando que em outubro, mês em que a mídia se dedicou a dizer que estavam acontecendo “demissões”, “fuga de investimentos”, “paralisia econômica” etc, na verdade a economia bateu recordes, o desemprego recuou, os investimentos – inclusive os estrangeiros – cresceram, enfim, que a crise, aqui, está sendo, de fato, uma “marolinha”. Vejam que absurdo, que mentira:

 

 

 

 

 

Mas, de todos os dados positivos sobre a economia do país, dados que vêm sendo divulgados com enorme parcimônia pela mídia, um deles me pareceu que saiu quase sem querer da boca da imprensa golpista. Foi ontem no Jornal Nacional, no fim do terceiro bloco do programa, no espaço de alguns segundos. Reproduzo, abaixo, a locução textual da apresentadora Fátima Bernardes:

 

As contas do governo melhoraram com a alta da moeda americana. Como o Brasil tem mais aplicações [reservas] em dólares do que dívidas [em dólar], a variação da moeda derrubou a relação entre a dívida pública e o produto interno bruto em outubro para 36,6%, o nível mais baixo em uma década [desde 1998, quando a quebra do Brasil fez a dívida se multiplicar]. Esse índice é o principal indicador da saúde das contas de um país; quanto menor ele for, melhor.

 

Amigos meus daqui do blog e do meu círculo de relações pessoais têm me perguntado, pessoalmente, por telefone e por e-mail, se foi chute quando eu disse, já naquele momento em que as pessoas pensaram que teria explodido a crise, em 15 de setembro último, que o país seria pouco afetado. Agora revelo: não foi chute, foi lógica.

 

No início, espantei-me ao ver até setores da esquerda ceder à conversa fiada da mídia de que seriamos pegos de jeito pela crise. Sem perceber, esses setores se tornaram inocentes úteis ao concordarem com a conversa da mídia de que, se países tão importantes, governados por doutores, foram arrasados economicamente, não seria um país do Terceiro Mundo, governado por um ex-operário sem diploma universitário, que iria resistir.

 

Não sei se a falta de diploma ajuda ou atrapalha Lula, mas, ao dar a decisão final sobre as políticas públicas, ao escolher caminhos que lhe são colocados à frente pelos técnicos das diversas áreas, ao menos na economia o diploma universitário – ou a sua falta – não tem impedido o presidente de tomar as melhores decisões.

 

O dado sobre a relação dívida Vs. PIB é sumamente importante porque mostra a saúde financeira do país. E o melhor é que não foi conseguido com recessão, como sempre foi perseguido pelos antecessores de Lula. Foi conseguido em meio a forte crescimento. Enquanto a mídia gritava que era bobagem acumular tantas reservas, quem tinha informações sobre o que começava a acontecer no mundo rico tratou de pôr as barbas de molho como fez o governo Lula.

 

Não adianta, no entanto, argumentar muito. A crise internacional gerou uma espécie de fetiche no topo da nossa pirâmide social. É quase como se fosse chique entrar em crise junto com países que a direita brasileira sempre quis imitar. E, por pura pirraça, Folhas, Globos, Estados, Vejas e seu exército de zumbis teleguiados na sociedade civil não querem porque não querem aceitar a excelência da administração do Brasil nos últimos quase seis anos. São piores do que crianças pirracentas.



 Escrito por Eduardo Guimarães às 11h04
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Análise política

  A crise e a popularidade

  de Lula

 

 

 

 

 

 

Talvez vocês não tenham notado, mas desde a explosão – ou seria da conscientização mundial? – da crise econômica internacional, enfim, desde a hecatombe ocorrida em 15 de setembro último com a quebra do Lehman Brothers, a venda do Merrill Lynch e a tentativa da seguradora AIG de conseguir empréstimo do governo americano – e isso já tem mais de setenta (!) dias – que não se divulga novos dados sobre a popularidade de Lula.

 

Desde então, num gradiente impressionante de disseminação de pânico nos agentes econômicos, vemos a mídia alardear desgraças múltiplas que se abateriam sobre o país por conta da crise econômica internacional.

 

O alarde sobre contaminação do Brasil pela crise internacional ganhou impulso com declaração pública de Lula de que os efeitos dos problemas nos EUA, na Europa e na Ásia nos atingiriam com a intensidade de uma “marolinha”. A mídia viu aí oportunidade para Lula faturar politicamente com as desgraças no Norte e no Oriente do mundo e decidiu fazer do limão uma limonada “provando” que o presidente teria sido irresponsável.

 

Além disso, o recrudescimento da crise internacional era aguardado com ansiedade pela direita brasileira, por seus jornais, revistas e cadeias de televisão e rádio, pois a resistência da popularidade lulista era debitada por eles a uma inexistente “bonança mundial” que só continuava existindo mesmo nos seus discursos, que por sua vez tinham como fim “explicar” o espantoso crescimento do Brasil – por “explicar”, vale dizer, entenda-se minimizar.

 

O diabo era que o país não se entregava à crise facilmente. Quase um mês depois do fatídico 15 de setembro, paulistanos e cariocas lotaram ruas de comércio varejista às centenas de milhares para comprarem presentes de “Dia das Crianças” para os seus filhos. Contudo, nos setores mais elitizados e, portanto, mais sujeitos aos efeitos da grande imprensa oposicionista, as previsões de desgraças paralisaram esse consumidor de alto poder aquisitivo, que parou de comprar automóveis e imóveis.

 

O vislumbre de lucro político com a crise encantou até mesmo cidadãos comuns que rejeitam o governo Lula e seus inegáveis avanços com um fundamentalismo quase patológico. Conservadores comuns e aqueles ligados à política e à mídia começaram a “comemorar” a crise e a possibilidade de a economia reduzir a euforia da população com o forte aumento do emprego, da renda e com a queda da pobreza e da miséria, fatores que estariam gerando a enorme – e até então crescente – popularidade de Lula.

 

Fica difícil dizer se os problemas surgidos no Brasil até agora foram apenas uma “marolinha”, como disse o presidente, ou se há, de fato, algo preocupante acontecendo na economia do país. Os dados econômicos todos, porém, autorizam afirmar que, até agora, não houve mais do que uma mera “marolinha” em nossa economia. A mídia e a oposição tucano-pefelista, porém, afirmam que os dados que estão aparecendo são os do “retrovisor”, ou seja, seriam dados sobre o passado.

 

Não é bem assim. Dados sobre a expansão do crédito, sobre o nível de emprego, sobre a produção industrial, sobre o investimento estrangeiro e muitos outros já são negativos na maior parte do mundo. No mês de outubro, por exemplo, enquanto nos EUA, na Europa e na Ásia já se constata recessão – e constatar recessão não acontece de um dia para o outro –, no Brasil a economia continuou batendo recordes.

 

De qualquer forma, com ou sem crise já começa a ficar meio estranho que não surja nenhuma pesquisa sobre a popularidade de Lula. É bobagem afirmar, aliás, que esses dados não estão sendo pesquisados. O próprio governo é senhor dos dados sobre a própria popularidade tanto quanto seus adversários, que por sua vez têm nas mãos boa parte dos grandes institutos de pesquisa.

 

A não-divulgação desses dados pode – apenas pode, que fique registrado – dizer respeito a uma eventual resistência da popularidade do presidente da República, até porque não haveria tempo para os efeitos localizados gerados à economia por conta da crise terem promovido pioras significativas na qualidade de vida das pessoas, ainda que seja inegável o sucesso da mídia nessa sua nova disseminação de pânico.

 

Porém, os números da economia fazem crer que mesmo o medo que se instalou no país pode não ter abalado a popularidade de Lula como seus adversários acreditam que ocorrerá ou até que já ocorreu. Resta saber, assim, se a maioria que apoiou a reeleição de Lula e seu projeto para o país apesar de todo bombardeio da mídia em 2004, 2005 e 2006, virar-lhe-á as costas agora por problemas ainda tímidos na economia num contexto em que todos vêem o mundo desabar lá fora.

 

Em minha opinião, há elementos suficientes para fundamentar a teoria de que a mídia pode quebrar a cara de uma vez por todas com sua aposta nesta crise, pois se suas previsões catastróficas não se materializarem de forma a causar estragos consideráveis nas vidas das pessoas ela terá chancelado, sem querer, a afirmação de que Lula é, sim, um bom governante, pois a mesma mídia tem cansado de alardear que “agora, sim, veremos do que ele é capaz, pois, até então, vinha voando em céu de brigadeiro”.

 

Como eu disse acima, já é preciso ficar de olho no tempo que está decorrendo desde a última sondagem sobre a popularidade do presidente da República. Esses números certamente já foram apurados várias vezes nos últimos dois meses. A decisão de divulgá-los costuma obedecer aos interesses políticos de José Serra e de seu grupo político. Diante disso, vejo indícios de que o efeito desmoralizador pretendido pela mídia ainda não foi atingido.

 

Nesse aspecto, vale reproduzir trecho final de comentário feito hoje pelo colunista do jornal Folha de São Paulo Fernando Rodrigues:

 

(...) No Planalto, mesmo vendo a degradação do cenário [econômico], Lula parece comandar um bloco do auto-engano. Repete um mantra sobre a solidez do país. Fará uma propaganda na TV a respeito. Ou o petista enxerga o que ninguém vê ou prepara o país para uma das maiores decepções recentes ao longo do ano de 2009. A ver.

 

Vejam que interessante: a mídia, apesar dos sucessos inegáveis deste governo, continua a subestimá-lo. Lula seria um irresponsável que fica vendendo seu auto-engano. Tratar-se-ia de um alienado que não enxerga um palmo diante do nariz. A burrice é tanta que ainda não aprenderam a não subestimar alguém que vem conduzindo o país de uma forma que o mundo inteiro – e inclusive a imprensa internacional – vem reconhecendo.



 Escrito por Eduardo Guimarães às 11h48
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Política internacional / Economia

Não há ‘calote’ nenhum

do Equador

 Atualizado às 11h08 de 25 de novembro de 2008

 

 

 

A gritaria da mídia conservadora e golpista sobre um tal de “calote” que ela inventou que estaria sendo dado pelo governo do Equador por este recorrer a uma corte internacional para questionar irregularidades na contratação de empréstimo do BNDES pelo país vizinho para que este desse à Odebrecht o contrato de construção da hidrelétrica equatoriana de São Francisco mostra bem o poder dessas grandes empreiteiras brasileiras, historicamente envolvidas em grandes escândalos de corrupção.

 

Se tivéssemos imprensa no Brasil em vez de panfletos da elite reacionária, racista, golpista e ladra, essa imprensa deveria estar nos informando as razões alegadas pelo governo equatoriano não para dar qualquer “calote”, mas para questionar suposto roubo de dinheiro público equatoriano numa obra que está sendo considerada superfaturada, e que, por isso, está sendo questionada.

 

Infelizmente, muitos não entenderão que não haverá “calote” algum se a arbitragem internacional considerar que as queixas do governo equatoriano não procedem, assim como muitos não se dão conta de que o BNDES não fez caridade nenhuma para o Equador ao conceder-lhe o financiamento em questão. O dinheiro foi emprestado porque, em tese, voltaria ao Brasil logo em seguida, já que o governo equatoriano deve – ou deveria – ter repassado os recursos à Odebrecht, uma empresa brasileira.

 

Quem ganhou mais nessa história toda, aliás, foi a Odebrecht, porque ganhou um suculento contrato internacional com dinheiro público dos dois países (Brasil e Equador). E ninguém com um mínimo de bom senso duvidará de que uma empresa com o histórico de envolvimento com corrupção que tem a Odebrecht – tanto quanto várias outras empreiteiras brasileiras, para os quais já se pediu até CPI no Congresso – esteja acima das acusações do presidente Rafael Correa.

  

Delícia de crise

 

Já virou rotina a imprensa meliante daqui destacar que, “apesar da crise”, este ou aquele indicador econômico melhoraram tanto neste ano quanto no mês de outubro, período de auge da histeria local com os problemas econômicos no mundo dito “desenvolvido”.  Desta vez, foi o investimento estrangeiro no Brasil que, em 2008, bateu o recorde dos últimos 60 anos (!!), e que em outubro foi de 3,9 bilhões de dólares com crise e tudo.

 

Como os investidores estrangeiros não lêem a Folha, a Veja ou assistem a Globo, continuam apostando no Brasil pelos fundamentos sólidos de sua economia, fundamentos que a imprensa internacional vive destacando apesar de a nossa imprensa relativizá-los e assombrar o país com problemas que já vieram para o resto do mundo, mas que, para nós, não vieram e não virão, como venho dizendo há mais de dois meses.

 

“Derrota” de Chávez

 

A mídia vem destacando que o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, teria sido “derrotado” nos “centros urbanos mais populosos” na eleição do último domingo. É ridículo. A oposição conseguiu mais três governos estaduais – esperava conseguir mais seis. De 22 estados, Chávez ganhou, “apenas”, 17, e onde perdeu foi por muito pouco.

 

Apesar da queda do petróleo, que afeta fortemente a economia Venezuelana, Chávez demonstra uma força impressionante depois de dez anos no poder. A manipulação dos fatos não muda isso.

  

Dos leitores

 

Eduardo,

 

Permita-me repetir aqui o comentário que ofereci no blog do Nassif. Perdoe o fato de ser meio extenso.

 

Sinceramente, acho que devemos baixar um pouco a bola, tanto do lado dos “nacionalistas” de plantão quanto dos “internacionalistas”. O buraco parece ser mais embaixo.

 

Gostaria de fazer as seguintes ponderações:

 

1-      Não temos informações suficientemente precisas e objetivas sobre o caso. Parece que o financiamento do BNDES foi concedido para a Odebrecht por meio de uma subsidiária equatoriana (Hidropastaza). Neste caso a Min. Dilma tem razão. Quem deve é a Odebrecht e não o governo do Equador.

 

2-      O problema é que, geralmente, este tipo de financiamento é concedido à empresa local, mas exige-se o aval do Tesouro. No caso, o Tesouro equatoriano. E mais: no caso do Equador, é quase certeza que a operação será conduzida no CCR.

 

3-      Se for este o caso, o reembolso é automático, via Bancos Centrais. Não há hipótese de “calote”. O batimento é feito periodicamente pelo Banco Central do Peru e cada país assume seu saldo credor ou devedor com a correspondente cobertura da posição. Possibilidade de o Equador furar o CCR? Zero. Desconheço qualquer precedente. Os defaults anteriores (Brasil, Argentina, etc.) só afetaram, no CCR, as autorizações de reembolso não automáticas.

 

4-      A única hipótese que restaria a Correa seria apelar para algum foro internacional denunciando eventual irregularidade ou lesão. Dizem que foi à CCI em Paris. Mas a CCI é um órgão privado que, dentre outras atribuições, faz mediação entre as partes contratantes, atuando como foro arbitral.

 

5-      Portanto, se a intermediação arbitral da CCI está no contrato, o Equador estaria agindo legitimamente. Não é calote. Caberia à CCI examinar todos os aspectos do contrato, inclusive a tal hipótese das cinzas vulcânicas.

 

6-      Noves fora as análises mais apressadas, parece que o caso é simplesmente de um acionamento de um dispositivo contratual. Eventual decisão da CCI deve ser cumprida. Doa a quem doer. Se o Equador vencer poderá então pleitear o cancelamento das autorizações de reembolso no âmbito do CCR, sem quebrar as regras do convênio. Se perder terá que continuar pagando, sem bufar.

 

Rundfunk | Ponta Grossa - PR | Professor Universitário | 

 



 Escrito por Eduardo Guimarães às 09h47
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Educação e Inclusão Social

Por que defendo as cotas

 

 

 

Faz um bom tempo que não abordo a questão das cotas raciais nas universidades porque depois da divulgação de dados do desempenho dos cotistas a gritaria da direita contra a política afirmativa do governo Lula, refluiu.

 

Todavia, por conta do recente Dia da Consciência Negra alguns dos conservadores colocaram novamente suas cabeças para fora da toca alardeando mentiras como as de que as cotas seriam “racistas” e “humilhantes” para os negros e voltam a alardear mentiras como as que eram ditas antes de os cotistas começarem seus cursos, de que eles causariam “prejuízo acadêmico” às universidades porque seriam inferiores aos não cotistas, que seriam aprovados “por mérito” enquanto que os não-cotistas seriam como que favorecidos “injustamente”.

 

Os negros, porém, apesar de hoje serem mais da metade da população brasileira, antes da política de cotas não chegavam a ocupar 10% do mercado de trabalho para médicos ou dentistas, entre outras profissões.

 

Mas o que interessa aqui é começar desmentindo a velha cantilena da direita sobre “prejuízo acadêmico”. Na internet há fartura de informações sobre o excelente desempenho acadêmico dos alunos cotistas. Escolhi material divulgado em agosto pelo jornal Correio Brasiliense, ao acaso.

 

Reproduzo essa matéria apenas para exemplificar e para refrescar a memória frágil dos conservadores, que querem condenar toda a atual geração de negros brasileiros a jamais chegar ao ensino superior. Para isso, voltam com aquela conversa mole de melhorar o ensino fundamental e o médio, o que nunca foi feito na história do país e que, mesmo se começasse a ser feito suficientemente agora – e todos sabem que governo nenhum resolverá os problemas da Educação pública nem em meia dúzia de mandatos –, só na próxima geração que produziria resultados.

 

 Assim mesmo, ainda que a escola pública fosse excelente, os negros pobres são os que menos têm acesso a bens culturais. Não têm dinheiro para freqüentar teatros, comprar todos os livros que quiserem, irem ao cinema... O projeto dos CEUs, da ex-prefeita paulistana Marta Suplicy, tentava justamente suprir parte desse passivo cultural dos jovens pobres – que, em avassaladora maioria, são invariavelmente negros.

 

Deixo-vos com a matéria do Correio Brasiliense que mostra a beleza do esforço daqueles jovens que agarram com unhas e dentes a chance que este governo lhes deu, mostrando do que são capazes.

 



 Escrito por Eduardo Guimarães às 11h29
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Processo civilizatório

Racismo cordial brasileiro

 

 

 

Cena da novela “Duas Caras”, da Globo

 

 

 

Acredito que o papel principal dos blogs hoje é o de interpretar a notícia, oferecendo ao leitor visões críticas dela, principalmente sobre como é veiculada, e destacando pontos da pauta midiática que o blogueiro julgue merecedores de maior atenção.

 

Nesse aspecto, e devido a essa pasteurização jornalística que torna cada um desses grandes veículos de comunicação cópia dos outros e estes cópias de cada um, o melhor que você tem a fazer para não gastar muito mais tempo e dinheiro do que o necessário com a grande imprensa é escolher algum desses veículos para ir dando uma olhada – para saber o que dizem os conservadores, já que estão aí e são fortes. Fazendo isso, já estará sabendo o que dizem todos.

 

Minha opção, assim, foi a Folha de São Paulo. Mais por seus recursos materiais – que lhe permitem estar em todas as grandes coberturas – do que por seus questionáveis méritos, entre os quais está o menos questionável, de levantar debates que a maioria dos outros veículos rejeita. Isso apesar de sempre tentar direcionar tais debates.

 

Mas, neste domingo, o jornal paulista roubou a cena, a meu ver, ao publicar um caderno inteiro sobre o racismo no qual foram divulgadas algumas informações vitais para o debate sobre o que devemos esperar do Estado em termos de políticas públicas que atuem na difícil – porém não impossível – promoção de uma sociedade mais justa, que elimine ou reduza drasticamente as assimetrias espantosas que ainda encerra em pleno século XXI.

 

O que farei aqui é uma síntese do conteúdo do caderno especial “Racismo Cordial”, que, neste domingo, traz o resultado da repetição, neste ano, de pesquisas de opinião sobre racismo feitas pelo jornal em 1995, primeiro ano do governo Fernando Henrique Cardoso.

 

Um ponto interessante do caderno especial da Folha deste domingo é o de que o material procura vender ao leitor que a relativa diminuição do racismo no Brasil que se vê ocorreu durante um período que vai do primeiro ano do governo FHC até este sexto ano do governo Lula, quando, na verdade, se fôssemos mensurar, ano a ano, a evolução da situação do negro na sociedade que se verifica na confrontação dos dados de 1995 com os de 2008, descobriríamos que a grande maioria dos avanços institucionais dos negros ocorreu durante este governo, como no caso do forte avanço deles sobre carreiras e profissões antes destinadas exclusivamente aos brancos.

 

Contudo, se o mesmo estudo da Folha for feito daqui a dois ou três anos os resultados serão muito mais animadores, pois políticas exclusivas do governo Lula darão ao país, proximamente, uma geração de médicos, dentistas, engenheiros, advogados negros. Estas, aliás, são apenas algumas das profissões em que os negros sempre foram minoria numa proporção absurda, proporção que, aliás, transparece na pesquisa.

 

É preciso, contudo, que fique claro um mérito do material da Folha: esclarece que o negro vitimado pelo preconceito não é apenas aquele de tez bem escura, com todos os traços físicos da etnia negra, mas também, e sobretudo, os mestiços, designados pela metodologia do IBGE e do próprio Estado brasileiro como “pardos”. Aliás, quero lembrar ao leitor que já aludi a esse fato aqui neste blog, de que os descendentes (filhos, netos, bisnetos...) de uniões entre brancos e negros sofrem maior discriminação do que o negro dito “puro”.

 

Não é à tôa que o negro que mais aparece na tevê brasileira – sempre em ridícula minoria diante da legião de brancos de traços europeus que domina a comunicação no país – é aquele “azulão”, apesar de este ser minoria entre os negros brasileiros. O mestiço de negro com branco é ainda mais rejeitado e excluído socialmente do que o negro “legítimo”.

 

É absurdo o percentual de negros – e reitero que, ao dizer negros, refiro-me a negros e pardos, que, de acordo com o IBGE, já são maioria do povo brasileiro – em determinadas profissões considerando-se a representatividade dessa etnia em nossa sociedade. Apesar de serem mais da metade dos brasileiros, em profissões como a de médico ou de dentista os negros e “pardos” representam em torno de 10% do total.

 

 

Outros dados interessantes

 

 

Apesar de na mídia a negação de existência do racismo aparecer em igualdade de condições com a afirmação de que racismo existe e é forte no país, 91% dos brasileiros concordam com a segunda hipótese de que somos, sim, um país racista. Por isso, peço que notem, na foto acima, reprodução de cena da novela da Globo "Duas Caras", que tentou vender ao público a teoria do livro do diretor de jornalismo da Globo, Ali Kamel, de que "não somos racistas".

 

Apesar de manipulação da Folha, sua pesquisa mostra que a maioria de 51% dos brasileiros apóia as cotas nas universidades contra 39% que não apóiam. Para mitigar a importância desse fato, o veículo, que é assumidamente contrário à política afirmativa, inseriu uma pergunta em sua pesquisa: quis saber dos entrevistados se, apesar de necessárias, as cotas não seriam “humilhantes” para os negros. O jornal extraiu uma boa aceitação a essa premissa.

 

Há ótimas entrevistas no caderno especial “Racismo Cordial”, como a do ministro Joaquim Barbosa, o negro indicado por Lula para o STF. Ele revela quanto racismo sofreu até chegar onde chegou e as dificuldades que enfrenta ainda hoje por ser negro.

 

A maioria dos brasileiros (66%) concorda com o fato de que a Justiça brasileira é mais dura com os negros.

 

Para  56% da população, os negros são mais prejudicados socialmente do que os pobres, ou seja, apesar de serem sempre os mais pobres, ser negro dificulta mais a vida do que ser pobre.

 

E, para concluir, um mérito da extensa reportagem da Folha. O jornal revelou que os que concordam com frases racistas como as de que "negro, quando não faz alguma coisa errada na entrada, faz na saída" ou de que "Deus criou raças para que elas não se misturassem", estão entre as pessoas de menor instrução e de mais idade. A matéria demonstrou que as novas gerações são bem menos racistas, o que permite supor um futuro melhor no aspecto da tolerância da sociedade com as suas diferenças.



 Escrito por Eduardo Guimarães às 16h43
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