Crônica
Feliz ano velho
Atualizado às 19h44 de 13 de dezembro de 2008

Vai chegando ao fim um ano que talvez vocês possam me ajudar a decidir se foi bom ou ruim do ponto de vista do interesse público. Aliás, começo a escrever sem saber ainda como classificar 2008. À primeira vista, entretanto, não me parece ter sido um ano muito bom, mesmo que ainda lhe reste alguns dias.
Certo é, porém, que, para o mundo como um todo, o ano, definitivamente, não foi bom – a crise internacional sozinha já dá conta de estragar 2008 para todos os habitantes deste planetinha perdido na galáxia Láctea. Cabe refletir, também, que, para alguns, a volta ao redor do Sol que a Terra está terminando de dar terá sido pior do que para outros.
Talvez os brasileiros pudéssemos nos gabar de estar vendo o mundo já mergulhado e sofrendo os efeitos de uma convulsão econômica de proporções superlativas e inéditas enquanto que o nosso país mesmo, continua debatendo se sofreremos maiores ou menores conseqüências de tal convulsão. E assim, igualmente, poderemos dizer que, apesar dos pesares, do mesmo ponto de vista econômico o Brasil avançou como nunca avançara em período tão curto, batendo sucessivos recordes econômicos e sociais com crise e tudo.
Mas agora, infelizmente, a fim de obter um resultado mais preciso desta equação seremos obrigados a abrir mais os olhos. Teremos que adicionar à equação dose considerável de desgraças genuinamente brasileiras, que se somarão às internacionais.
O ano já começou com uma grave ameaça, que causou pânico, desespero, medo aos brasileiros. Surgiu o boato de que uma desgraça mortal se abatera sobre o país, na forma de uma grave epidemia que não ameaçava havia sessenta anos, uma epidemia de febre amarela em sua versão urbana.
O boato se transformou em noticiário nos meios de comunicação, que o repercutiram à exaustão e, por conta disso, dezenas de nós, brasileiros, acabamos adoecendo, e alguns poucos, inclusive, até morremos. Devido a um simples boato, ainda que amplificado pela mídia. E, para coroar essa tragédia, constata-se que tudo foi à toa, que as pessoas adoeceram e morreram por uso desnecessário e incorreto de uma droga controlada, a vacina contra a febre amarela, e não havia epidemia nenhuma.
Além de problemas menores na política, que fizeram o país perder tempo com denúncias falsas sobre “dossiês” e “grampos”, com o Congresso deixando de se debruçar sobre os problemas que nos afligem para perder-se em politicagem, logo em seguida mais uma desgraça se abate sobre os brasileiros, na forma de um hipotético surto de inflação, da ameaça, amplificada pela mídia, de fim da estabilidade do Real devido a erros de condução da economia que teriam sido cometidos pelo governo.
Mais uma vez, ao menos o humor dos brasileiros foi para o fundo do poço com outro boato igualmente amplificado pelos meios de comunicação, agora sobre mais uma ameaça terrível que estaria retornando.
De novo o país volta a perder tempo, a economia acaba sendo distorcida, seu ritmo se perde, enfim, as atenções se voltam para o lado errado e à toa, pois o “retorno” da inflação não passou de um movimento sazonal dos preços internacionais dos alimentos, preços que depois passam a cair, deixando-nos todos, novamente, com caras de bobos.
Com tanta coisa importante que há para discutir no Brasil, durante o ano o país perde tempo com um voyeurismo doentio sobre o suposto assassinato de uma criança por seus país, revelando com isso os piores instintos das massas, fazendo-nos ver quantos idiotas e desocupados há por aí e que gastam tempo precioso para infernizar a vida dos outros, rir do sofrimento alheio, numa mistura nefasta de exibicionismo com burrice.
Mais algum tempo passa e o Brasil se encanta com uma grande operação policial que teria posto as mãos num mafioso rico e influente, grande empresário e banqueiro, e o vê indo parar atrás das grades. A nação diz a si mesma que alguma coisa está mudando, que os grandes escroques estão deixando de pairar acima da lei, que começamos a ser iguais, todos os brasileiros, mas a cúpula do Poder Judiciário se mobiliza para imunizar e pôr acima da lei o grande capo. Descobrimos que um dos Poderes da República é comandado por alguém que seus próprios pares execram.
Chegam as eleições municipais de 2008. Os resultados delas parecem agradar a todos os lados. Não se poderia dizer que foram boas ou ruins porque fortaleceram ou enfraqueceram este ou aquele grupo político, mas temos que lamentar que um grupo político com um histórico criminoso, um grupo que abriga e abrigou traficantes de drogas, contrabandistas de armas e o que de pior há na política brasileira deixou de ser enterrado de vez eleitoralmente graças à mais importante cidade brasileira, que deu sobrevida ao partido então moribundo no resto do país.
Enfim, chega-se à mãe de todas as desgraças em 2008, a crise internacional. Se o otimista diria que é preciso comemorar a resistência que o Brasil está demonstrando isoladamente num mundo que já se ajoelhou diante da crise, o pessimista pode responder que poderíamos estar sofrendo muito menos se não voltássemos a perder mais tempo, agora paralisando o país apesar de que este ainda não sofreu efeitos maiores daquela crise. Mais uma vez, é a mídia que amarra o desenvolvimento econômico e social do Brasil.
Cheguei até aqui para oferecer a cada um de vocês a oportunidade de refletir se consideram que 2008 nos será um feliz ano velho por ter sido um bom ano ou se por este ano estar acabando. De uma forma ou de outra, desejo a todos um maravilhoso Natal e um feliz, próspero e menos conturbado ano novo, que, para sê-lo, dependerá de cada um de nós, de acordarmos nossos concidadãos para o grande problema que aflige e amarra o Brasil, a “sua” mídia.
Dos leitores expatriados
2008 foi um ano terrível para mim, desde julho. Tudo parou [aqui na Suécia]. Todos os projetos pararam. E nem sabemos quando tudo se recolocará nos trilhos.
Os suecos estão indo para a Noruega em busca de trabalho. Nunca se pensou que se chegaria à esse ponto por estas bandas.
A Suécia, com todas as suas indústrias de ponta (SKF, Volvo, Saab, Electrolux, Ikea, Ericsson), agora está em profunda recessão.
E o que eu vejo no Brasil: pessoas "cansadas" querendo que a crise chegue para que o Lula se "ferre".
Eu vos digo: 2008 foi um ano MA-RA-VI-LHO-SO para vocês aí no Brasil! Chegaram VIVOS e com boa saúde até aqui? Ótimo! Os filhos estão bem? Ótimo! Existiram novos empregos no País? Ótimo!
E pra acabar: essa "nossa" crise por aqui pode ser o que os países emergentes estão esperando há décadas! Não percam essa oportunidade!
Carlos | Estocolmo - Suécia | Retirante |
Escrito por Eduardo Guimarães às 12h56
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Crônica política
Maldita memória

Minha memória sempre foi um de meus maiores problemas. E, ao contrário do que possa parecer, não estou me referindo a falta de memória, mas a excesso dela. É isso mesmo: lembrar das coisas sempre me fez entrar em polêmicas desgastantes. Pode ser desalentador você enxergar as coisas como elas são por se lembrar de como eram.
Quem não tem memória, não enxerga as coisas com clareza. Vejamos, por exemplo, a gritaria da direita, da esquerda e da mídia contra a política monetária do Banco Central, que anteontem manteve a taxa Selic em 13,75%. Esse discurso, na boca da esquerda, ao menos é coerente.
Só não sei se concordo integralmente com ele, pois os números da economia desautorizam a crença em uma desaceleração da economia maior do que aquela da qual o país realmente estava precisando, pois estava num nível de atividade econômica absolutamente insustentável por qualquer parâmetro de medição que se adotasse.
É irritante, porém, ver os mesmos políticos e meios de comunicação que em 2002 chegaram a propor que o Congresso mudasse a Constituição de forma que o presidente do BC tivesse mandato, agora criticarem o presidente por não estar fazendo o que diziam temer que ele fizesse.
Reportagem da Folha de São Paulo de 20/01/2002, por exemplo, relatou que o governo FHC, através do então ministro da Fazenda, Pedro Malan, pediu que o Congresso aprovasse a independência do Banco Central, medida que garantiria a permanência de Armínio Fraga no posto de presidente do BC mesmo se Lula ganhasse a eleição.
Durante o ano inteiro de 2002, os tucanos e a mídia pediram que o BC fosse tirado da área de influência do grupo político que ficou claro que venceria a eleição presidencial. Até depois que Lula derrotou José Serra, a mídia, o PSDB e o PFL bateram na tecla da independência do BC.
Porém, o falatório da direita sobre implantação da tal “independência do BC” por conta do “risco-Lula” não começou no ano em que o petista deu a primeira surra eleitoral no PSDB e em José Serra. Essa conversa vinha de muito longe. Em 16/04/1999, por exemplo, editorial da Folha de São Paulo já defendia a tal independência casuísta afirmando o seguinte sobre ela:
“Trata-se de um preceito fundamental, que deve ser respeitado a ferro e fogo, sob pena de comprometer a estabilidade de preços e a confiança da sociedade no próprio BC”.
Os mesmos políticos do PSDB e do PFL e os mesmos barões da mídia que em 2002 queriam mudar a Constituição para impedir que Lula mandasse o BC baixar os juros se ganhasse a eleição presidencial, criticam-no agora por não interferir nas decisões do Copom.
Como vocês vêem, a (boa) memória pode ser uma maldição, pois leva seus detentores a se exasperarem com as malandragens dos que contam com a amnésia coletiva para venderem-se como arautos do crescimento econômico, quando, na verdade, sempre foram os primeiros a defender e a adotar políticas públicas que fizeram a atividade econômica da era FHC ser, na média, metade da atividade atual.
Só me resta, portanto, perguntar a alguém aí se sabe como fazer para esquecer das coisas, mas sem ter que encher a cara de álcool. É que tenho estômago fraco para bebida... E para caras-de-pau.
Carta ao povo brasileiro
O documento abaixo foi divulgado em 2002 pelo então candidato à Presidência Luiz Inácio Lula da Silva:
O Brasil quer mudar. Mudar para crescer, incluir, pacificar. Mudar para conquistar o desenvolvimento econômico que hoje não temos e a justiça social que tanto almejamos. Há em nosso país uma poderosa vontade popular de encerrar o atual ciclo econômico e político. Se em algum momento, ao longo dos anos 90, o atual modelo conseguiu despertar esperanças de progresso econômico e social, hoje a decepção com os seus resultados é enorme. Oito anos depois, o povo brasileiro faz o balanço e verifica que as promessas fundamentais foram descumpridas e as esperanças frustradas. Nosso povo constata com pesar e indignação que a economia não cresceu e está muito mais vulnerável, a soberania do país ficou em grande parte comprometida, a corrupção continua alta e, principalmente, a crise social e a insegurança tornaram-se assustadoras. O sentimento predominante em todas as classes e em todas as regiões é o de que o atual modelo esgotou-se. Por isso, o país não pode insistir nesse caminho, sob pena de ficar numa estagnação crônica ou até mesmo de sofrer, mais cedo ou mais tarde, um colapso econômico, social e moral. O mais importante, no entanto, é que essa percepção aguda do fracasso do atual modelo não está conduzindo ao desânimo, ao negativismo, nem ao protesto destrutivo. Ao contrário: apesar de todo o sofrimento injusto e desnecessário que é obrigada a suportar, a população está esperançosa, acredita nas possibilidades do país, mostra-se disposta a apoiar e a sustentar um projeto nacional alternativo, que faça o Brasil voltar a crescer, a gerar empregos, a reduzir a criminalidade, a resgatar nossa presença soberana e respeitada no mundo. A sociedade está convencida de que o Brasil continua vulnerável e de que a verdadeira estabilidade precisa ser construída por meio de corajosas e cuidadosas mudanças que os responsáveis pelo atual modelo não querem absolutamente fazer. A nítida preferência popular pelos candidatos de oposição tem esse conteúdo de superação do impasse histórico nacional em que caímos, de correção dos rumos do país. A crescente adesão à nossa candidatura assume cada vez mais o caráter de um movimento em defesa do Brasil, de nossos direitos e anseios fundamentais enquanto nação independente. Lideranças populares, intelectuais, artistas e religiosos dos mais variados matizes ideológicos declaram espontaneamente seu apoio a um projeto de mudança do Brasil. Prefeitos e parlamentares de partidos não coligados com o PT anunciam seu apoio. Parcelas significativas do empresariado vêm somar-se ao nosso projeto. Trata-se de uma vasta coalizão, em muitos aspectos suprapartidária, que busca abrir novos horizontes para o país. O povo brasileiro quer mudar para valer. Recusa qualquer forma de continuísmo, seja ele assumido ou mascarado. Quer trilhar o caminho da redução de nossa vulnerabilidade externa pelo esforço conjugado de exportar mais e de criar um amplo mercado interno de consumo de massas. Quer abrir o caminho de combinar o incremento da atividade econômica com políticas sociais consistentes e criativas. O caminho das reformas estruturais que de fato democratizem e modernizem o país, tornando-o mais justo, eficiente e, ao mesmo tempo, mais competitivo no mercado internacional. O caminho da reforma tributária, que desonere a produção. Da reforma agrária que assegure a paz no campo. Da redução de nossas carências energéticas e de nosso déficit habitacional. Da reforma previdenciária, da reforma trabalhista e de programas prioritários contra a fome e a insegurança pública. O PT e seus parceiros têm plena consciência de que a superação do atual modelo, reclamada enfaticamente pela sociedade, não se fará num passe de mágica, de um dia para o outro. Não há milagres na vida de um povo e de um país. Será necessária uma lúcida e criteriosa transição entre o que temos hoje e aquilo que a sociedade reivindica. O que se desfez ou se deixou de fazer em oito anos não será compensado em oito dias. O novo modelo não poderá ser produto de decisões unilaterais do governo, tal como ocorre hoje, nem será implementado por decreto, de modo voluntarista. Será fruto de uma ampla negociação nacional, que deve conduzir a uma autêntica aliança pelo país, a um novo contrato social, capaz de assegurar o crescimento com estabilidade. Premissa dessa transição será naturalmente o respeito aos contratos e obrigações do país. As recentes turbulências do mercado financeiro devem ser compreendidas nesse contexto de fragilidade do atual modelo e de clamor popular pela sua superação. À parte manobras puramente especulativas, que sem dúvida existem, o que há é uma forte preocupação do mercado financeiro com o mau desempenho da economia e com sua fragilidade atual, gerando temores relativos à capacidade de o país administrar sua dívida interna e externa. É o enorme endividamento público acumulado no governo Fernando Henrique Cardoso que preocupa os investidores. Trata-se de uma crise de confiança na situação econômica do país, cuja responsabilidade primeira é do atual governo. Por mais que o governo insista, o nervosismo dos mercados e a especulação dos últimos dias não nascem das eleições. Nascem, sim, das graves vulnerabilidades estruturais da economia apresentadas pelo governo, de modo totalitário, como o único caminho possível para o Brasil. Na verdade, há diversos países estáveis e competitivos no mundo que adotaram outras alternativas. Não importa a quem a crise beneficia ou prejudica eleitoralmente, pois ela prejudica o Brasil. O que importa é que ela precisa ser evitada, pois causará sofrimento irreparável para a maioria da população. Para evitá-la, é preciso compreender que a margem de manobra da política econômica no curto prazo é pequena. O Banco Central acumulou um conjunto de equívocos que trouxeram perdas às aplicações financeiras de inúmeras famílias. Investidores não especulativos, que precisam de horizontes claros, ficaram intranqüilos. E os especuladores saíram à luz do dia, para pescar em águas turvas. Que segurança o governo tem oferecido à sociedade brasileira? Tentou aproveitar-se da crise para ganhar alguns votos e, mais uma vez, desqualificar as oposições, num momento em que é necessário tranqüilidade e compromisso com o Brasil. Como todos os brasileiros, quero a verdade completa. Acredito que o atual governo colocou o país novamente em um impasse. Lembrem-se todos: em 1998, o governo, para não admitir o fracasso do seu populismo cambial, escondeu uma informação decisiva. A de que o real estava artificialmente valorizado e de que o país estava sujeito a um ataque especulativo de proporções inéditas. Estamos de novo atravessando um cenário semelhante. Substituímos o populismo cambial pela vulnerabilidade da âncora fiscal. O caminho para superar a fragilidade das finanças públicas é aumentar e melhorar a qualidade das exportações e promover uma substituição competitiva de importações no curto prazo. Aqui ganha toda a sua dimensão de uma política dirigida a valorizar o agronegócio e a agricultura familiar. A reforma tributária, a política alfandegária, os investimentos em infra-estrutura e as fontes de financiamento públicas devem ser canalizadas com absoluta prioridade para gerar divisas. Nossa política externa deve ser reorientada para esse imenso desafio de promover nossos interesses comerciais e remover graves obstáculos impostos pelos países mais ricos às nações em desenvolvimento. Estamos conscientes da gravidade da crise econômica. Para resolvê-la, o PT está disposto a dialogar com todos os segmentos da sociedade e com o próprio governo, de modo a evitar que a crise se agrave e traga mais aflição ao povo brasileiro. Superando a nossa vulnerabilidade externa, poderemos reduzir de forma sustentada a taxa de juros. Poderemos recuperar a capacidade de investimento público tão importante para alavancar o crescimento econômico. Esse é o melhor caminho para que os contratos sejam honrados e o país recupere a liberdade de sua política econômica orientada para o desenvolvimento sustentável. Ninguém precisa me ensinar a importância do controle da inflação. Iniciei minha vida sindical indignado com o processo de corrosão do poder de comprar dos salários dos trabalhadores. Quero agora reafirmar esse compromisso histórico com o combate à inflação, mas acompanhado do crescimento, da geração de empregos e da distribuição de renda, construindo um Brasil mais solidário e fraterno, um Brasil de todos. A volta do crescimento é o único remédio para impedir que se perpetue um círculo vicioso entre metas de inflação baixas, juro alto, oscilação cambial brusca e aumento da dívida pública. O atual governo estabeleceu um equilíbrio fiscal precário no país, criando dificuldades para a retomada do crescimento. Com a política de sobrevalorização artificial de nossa moeda no primeiro mandato e com a ausência de políticas industriais de estímulo à capacidade produtiva, o governo não trabalhou como podia para aumentar a competitividade da economia. Exemplo maior foi o fracasso na construção e aprovação de uma reforma tributária que banisse o caráter regressivo e cumulativo dos impostos, fardo insuportável para o setor produtivo e para a exportação brasileira. A questão de fundo é que, para nós, o equilíbrio fiscal não é um fim, mas um meio. Queremos equilíbrio fiscal para crescer e não apenas para prestar contas aos nossos credores. Vamos preservar o superávit primário o quanto for necessário para impedir que a dívida interna aumente e destrua a confiança na capacidade do governo de honrar os seus compromissos. Mas é preciso insistir: só a volta do crescimento pode levar o país a contar com um equilíbrio fiscal consistente e duradouro. A estabilidade, o controle das contas públicas e da inflação são hoje um patrimônio de todos os brasileiros. Não são um bem exclusivo do atual governo, pois foram obtidos com uma grande carga de sacrifícios, especialmente dos mais necessitados. O desenvolvimento de nosso imenso mercado pode revitalizar e impulsionar o conjunto da economia, ampliando de forma decisiva o espaço da pequena e da microempresa, oferecendo ainda bases sólidas par ampliar as exportações. Para esse fim, é fundamentar a criação de uma Secretaria Extraordinária de Comércio Exterior, diretamente vinculada à Presidência da República. Há outro caminho possível. É o caminho do crescimento econômico com estabilidade e responsabilidade social. As mudanças que forem necessárias serão feitas democraticamente, dentro dos marcos institucionais. Vamos ordenar as contas públicas e mantê-las sob controle. Mas, acima de tudo, vamos fazer um Compromisso pela Produção, pelo emprego e por justiça social. O que nos move é a certeza de que o Brasil é bem maior que todas as crises. O país não suporta mais conviver com a idéia de uma terceira década perdidas. O Brasil precisa navegar no mar aberto do desenvolvimento econômico e social. É com essa convicção que chamo todos os que querem o bem do Brasil a se unirem em torno de um programa de mudanças corajosas e responsáveis. Luiz Inácio Lula da Silva São Paulo, 22 de junho de 2002
Escrito por Eduardo Guimarães às 13h04
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Análise econômica
Copom não vê recessão
A crise econômica internacional é tão grave que tem até data de fundação: 14 de setembro de 2008, quando o banco norte-americano Lehman Brothers foi à breca e levou consigo a economia dos Estados Unidos.
No dia 23 do mesmo mês, escrevi o seguinte:
“Aqui no Brasil, [por conta da crise internacional] poderemos ter que consumir menos, o crédito poderá escassear, mas isso num contexto em que tudo de que estávamos precisando era reduzir o ritmo da nossa economia, que já começava a invocar os fundamentos da lei da oferta e da procura, gerando inflação.”
No dia 4 de outubro, durante uma carreata em Santo André devido à campanha eleitoral para prefeitos, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva referiu-se à crise da seguinte forma:
"Ela [a crise] é lá [nos EUA] um tsunami, e aqui vai chegar uma marolinha, que não vai dar nem para esquiar.”
É difícil dizer se devemos considerar ou não a crise uma “marolinha”. Problemas ocorreram, mas os índices econômicos todos referentes à segunda metade de setembro mostram que de fato, naquele momento, a crise não chegara até aqui. E os números do terceiro trimestre do ano estão aí para não me deixarem mentir.
Na verdade, quem assistiu ao Jornal Nacional desta quarta-feira viu até a Globo se rendendo aos fatos, sem falar na onda de “especialistas” que já começam a convergir para o que foi dito no último dia 23 de setembro, conforme mencionado acima.
Na vida real, houve alguns problemas como redução na venda de veículos e na oferta de crédito, que diminuiu e encareceu, mas disso não passou, com exceção de algumas dispensas localizadas na indústria e na redução do faturamento das empresas, eventos que, porém, ainda não geraram nenhuma onda de demissões ou de quebra de empresas e de instituições financeiras.
A mídia, desde meados de setembro, vem desfiando diariamente um rosário de previsões aterradoras sobre desgraças que estariam prestes a se abater sobre o país, mas, no entendimento de “instituiçõezinhas” como a OCDE ou o FMI, a crise não será grave no Brasil, e o fato de este ser o único país de seu porte a não ter entrado em recessão até o momento, a meu ver corrobora a metáfora sobre “marolinha”.
Mas, agora, o Comitê de Política Monetária (Copom) deu a entender que, em sua visão, o país está longe de um processo recessivo, pois vê risco de aumentos de preços devido à subida do dólar, moeda que responde pela formação de muitos preços na economia. Ora, para haver disposição de aumentar os preços é preciso que haja atividade econômica de bom nível, no mínimo. Recessão combina com deflação, não com inflação.
Dirão que os técnicos do BC são um bando de alucinados que quer afundar a economia ao divergir da grande maioria dos países (ricos e pobres), uma maioria que têm reduzido os juros para estimular suas economias.
Pensem comigo: se a economia brasileira continuou crescendo a taxas recordes enquanto as dos outros países mergulhavam em recessão, como aconteceu até setembro, realmente não parece fazer muito sentido adotar a mesma política monetária daqueles que foram parar no fundo do poço. Para mim, é uma questão de lógica pura.
Comentários dos leitores
Nesta quinta-feira, viajarei novamente pelo interior de São Paulo para manter reuniões de negócios. É provável que ocorram atrasos na liberação de comentários.
Escrito por Eduardo Guimarães às 07h17
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Análise econômica
O 4º trimestre de 2008
Atualizado às 19h06 de 10 de dezembro de 2008

Vem aí mais uma aposta emocionante sobre o Brasil. Essa aposta começará a ser dirimida quando for divulgado o crescimento do país neste último trimestre de 2008. O objetivo dela é acertar quanto terá diminuído o ritmo de nossa economia - até então, num patamar chinês de crescimento - a partir de outubro.
Por mais que possa chocá-los a existência de uma torcida para o país ir mal, de forma que nos últimos três meses do ano os números de seu crescimento colaborem com o discurso da tragédia de alguns, não se pode deixar de notar como é auspicioso, para quem enxerga os fatos como eles são,ver que, diante de um quadro mundial de afundamento de todas as economias, o que vige por aqui são tentativas de comprovar aquilo sobre o que há muito mais dúvidas do que está sendo admitido pelos profetas da desgraça, ou seja, que o quarto trimestre deste ano iniciará um ciclo que permitirá a esses “profetas” dizerem que estaremos em recessão.
Entre julho e setembro, o crescimento do PIB brasileiro bateu nos 6,8%. A China, por exemplo, cresceu pouco mais – 9%. O que é pouco dito, no entanto, é que o resto do mundo, na sua quase totalidade, já está em recessão técnica – dois trimestres seguidos de retração do PIB. Na América do Sul, inclusive, só Brasil, Chile e Peru continuam crescendo. Mas a única economia, entre as vinte maiores do mundo, que manteve seu crescimento, foi a brasileira... E, sim, você leu direito, mas faço questão de repetir: a única entre as 20 maiores economias em todo o mundo que cresceu no terceiro trimestre de 2008, foi a nossa.
A grande mídia, capitaneada pela Globo, pela Folha de São Paulo e pela Editora Abril deu a notícia sobre a explosão do PIB brasileiro no terceiro trimestre de 2008 recitando mais a ressalva de que o numero referia-se ao período anterior à crise do que tratando propriamente do assunto. As manchetes dos jornais de hoje trazem a ressalva junto com a notícia. Porém, nas páginas internas desses jornais já se vê colunistas dizendo que o governo Lula poderá “faturar a crise” se “não houver desastre”.
É que todos sabem que nenhum número oficial permite prever de quanto será a desaceleração do PIB brasileiro neste trimestre. Assim como o nosso PIB, de julho a setembro, disparou e os de todos os outros grandes países similares ao Brasil desabaram, não há garantia nenhuma de que a queda que possa ocorrer será tão acentuada quanto estão dizendo aqueles mesmos analistas que previram surtos de inflação, de déficit na balança comercial (já neste ano) ou até de febre amarela.
Eu disse aqui, antes de todo mundo, inclusive do governo Lula, que o novo patamar do dólar auxiliaria as exportações, protegeria um mercado interno que já diziam ameaçado de “desindustrialização” (devido à concorrência dos produtos importados) e, do lado do crescimento, a crise econômica serviria para frear um ritmo que já se mostrava insustentável, pois a indústria brasileira já não dava mais conta de suprir a demanda e a importação do que faltava para o consumo interno já ameaçava o equilíbrio cambial necessário.
Agora, já se vê na mídia gente dizendo a mesma coisa. Hoje, li coluna do analista da Folha de São Paulo Vinicius Torres Freire, no caderno de economia do jornal, dizendo a mesma coisa, ainda que em meio a uma avalanche de outras notícias e opiniões dizendo que entraremos em recessão etc, etc, etc. Vejam só alguns pontos do artigo do jornalista, que contém opiniões completamente isoladas do tom predominante na mídia:
– O Brasil dos seis primeiros anos do governo Lula terá crescido, na média anual, o dobro do registrado durante os anos FHC.
– O muito provável tombo de 2009 terá reflexos econômicos diferentes nas diversas camadas sociais.
– Há [hoje] mais cidadãos pobres um tanto mais protegidos das intempéries econômicas do que havia sob FHC [nota do editor: Um tanto?]
– Apesar das críticas, coisas como o ProUni e eletrificação são percebidas como um progresso.
– Tais benefícios devem parecer, aos mais pobres, a maioria absoluta e qualificada, um sinal do cumprimento do contrato político e social que Lula lembra todos os dias em seus palanques, goste-se ou não do seu populismo.
– O governo Lula ainda tem muito tempo e margem de manobra para reforçar seu capital político. Isso mesmo que o espantoso resultado do PIB seja seguido por quedas duras nos próximos seis meses.
– Os números do crescimento (...) indicam que sabemos muito pouco sobre a economia brasileira.
– O Brasil praticamente entrava em ritmo coreano de crescimento. Mas, na hipótese de não ter havido o desastre mundial de setembro, tal balada era claramente inviável. A demanda doméstica estava contribuindo com mais de oito pontos percentuais para um PIB que crescia a 6,3% anuais.
– Lula estava entre deixar a economia desembestar em direção a um tumulto de fabricação caseira ou teria de segurar o crescimento, o que o BC estava pronto para fazer. Se não vier catástrofe, Lula poderá tirar proveito da crise, pois, como tem feito. O "ajuste" será em parte imposto pela crise mundial, que de fato não é "nossa", e assim poderá ser faturada politicamente [por Lula].
Vocês sabem o que é tudo isso que vocês leram de ninguém mais, ninguém menos do que de um empregado da família Frias? É um seguro, meus amigos. Eles bateram – e continuam batendo – sem parar na tecla do desastre e, conforme os números da economia, diferentemente do que acontece no resto do mundo, teimam em não “colaborar”, eles vão entrando em pânico. Fizeram uma aposta muito alta.
Como ficará a credibilidade desses meios de comunicação – aos quais dei nomes, acima – se, por exemplo, daqui a três meses o país continuar crescendo? E notem que eles mesmos já admitem que isso pode acontecer quando afirmam que “sabemos muito pouco sobre a economia brasileira”. Quantos se lembrarão de como davam o desastre como favas contadas e o desastre, de novo, não veio? Será que as pessoas se lembrarão disso em 2010, quando Frias, Civita ou Marinho tentarem induzi-las a votar em José Serra?
Estadão
"Previsões para 2009 serão revistas para cima"
Entrevista com Armando Castelar, economista.
Para ler, clique aqui
Os PIBs de FHC e de Lula

Escrito por Eduardo Guimarães às 12h40
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Crônica
Veja seus filhos
crescerem

Inicialmente, achei que este texto seria um mero pretexto para dividir com vocês a beleza exuberante de minha amada filha Gabriela, na foto acima. Mas talvez o que eu venha a escrever sirva como reflexão a outros pais.
Muitos de vocês devem ter passado pelo que estou prestes a passar. E muitos sabem o que será que passarei, pois venho comentando há meses que, em 12 de janeiro do ano que se aproxima, essa paixão em carne e ossos que é a Gabi deixará o Brasil por um ano, pois irá estudar na Austrália.
Agora, falta quase nada mais do que um mês para ela viajar. E ontem, particularmente, foi um dia em que não parei de pensar no assunto. Então, sem mais nem menos, topei com essa foto da minha menina no Orkut e me espantei com o que vi. Na verdade, diria que fiquei boquiaberto.
Não sei como isso foi me acontecer. Como foi possível que minha filha se tornasse a mulher que vemos na foto sem que eu percebesse? Terá sido o trabalho? E o pior é que, agora, vejo a segunda das minhas três filhas sair de casa. A primeira, a Carla, já casada, apenas mudou para alguns quilômetros de casa. Mas, pelo menos, vemo-nos o tempo todo.
Minha primogênita também tem uma beleza de encher a alma, que dividirei com vocês oportunamente porque neste momento só consigo pensar na filha que pensamentos sombrios me fizeram cogitar que posso não ver de perto nunca mais.
Deve ser paranóia, claro, mas sendo um fumante de quase cinqüenta anos, um estressado habitante de uma megalópole insana e cruel como é São Paulo, que nos suga a alma diariamente e onde corremos risco de morte em cada esquina, não pude evitar de pensar nessa coisa.
Apesar da alegria da Gabi pelo desafio que abraçou, por um desafio que, como seu pai, tenho o dever de compartilhar, pois certamente lhe propiciará expressivo crescimento como pessoa, tenho tido dificuldade de evitar até um pranto contrito vez por outra, quando penso que eu e ela não poderemos nos beijar, nos abraçar, fazer coisas juntos por tanto tempo.
Mas dói, como dói. Mais do que pensei.
Os dias estão passando e nem estou vendo. E só falta um mês, um mísero mês. Tento, de todas as formas, ver a questão pelo seu lado positivo, mas não estou sendo suficientemente sábio para saber suportar uma dor como essa, a dor da separação de uma filha que nunca, jamais me causou uma só decepção em seus 22 anos de vida e que tem em seus pais seus melhores amigos.
Peço desculpas a vocês por extravasar estes sentimentos. Fiquei sabendo que andaram me chamando de piegas. Pode ser. Não nego que essa situação deixou meus sentimentos à flor da pele...
Esses que falam de pieguice, contudo, certamente devem ser capazes de resistir ao que relatei. Provavelmente separar-se-iam de uma filha tão amada, por um ano inteiro, sem pestanejar. Eu não consigo. E, no mundo de hoje, ter sentimentos parece que virou demérito.
Que se danem. Eu precisava disto. Ficar contendo estes sentimentos tem sido doloroso, ainda que continue doendo mesmo com o texto chegando ao fim. Mas, pelo menos, pude exercitar o orgulho que essa criatura angelical me proporciona e refletir que ela merece ser feliz e crescer, como estou certo que acontecerá depois dessa aventura do outro lado do mundo.
Aliás, comunico que a Gabi criará um blog, cujo tema será sua vida na Austrália e que ajudarei a editar. E, claro, será linkado aqui no Cidadania.
Mas a reflexão que lhes propus no início do texto, é a seguinte: se seus filhos não cresceram ainda, não façam como eu: não permitam que, de repente, tornem-se adultos sem que vocês tenham visto cada centímetro desse crescimento. A sensação de terem perdido alguma coisa sumamente importante em suas vidas, ser-lhes-á insuportável.
Escrito por Eduardo Guimarães às 00h24
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Crônica política
Três patetas
“Em nota conjunta, o PSDB, o DEM e o PPS rebateram às críticas do PT à suposta responsabilidade do governo de Fernando Henrique Cardoso (PSDB) pelos efeitos da crise econômica mundial no Brasil. Reportagem da Folha informa que o tesoureiro do PT, Paulo Ferreira, disse que o governo FHC e o DEM foram os patrocinadores da crise.”
Li a tal “nota conjunta” assinada pelos presidentes do PSDB, do DEM e do PPS. Reproduzirei a íntegra abaixo e depois de cada parágrafo dela, que estarão em itálico, farei meu comentário.
O PT esgotou seu prazo de carência para atribuir ao passado a culpa pelos efeitos da crise econômica. Depois de seis anos do Governo Lula, a legenda do oficialismo surpreende o País com uma dupla incongruência: se o Presidente oficializou a versão, evidentemente falsa, de que o Brasil não sofre os efeitos da crise econômica, como atribuir a onda de desemprego e de forte recesso das atividades produtivas ao "governo anterior"? Como governistas no poder podem culpar o "passado" por uma "realidade" que o seu Presidente nega peremptoriamente?
Primeiro, não entendi uma coisa nesse primeiro parágrafo da tal nota: quando as coisas dão certo, são mérito de FHC – a tal “herança bendita”. Dizem que o PT manteve o modelo tucano. E agora a culpa por uma crise que surgiu bem longe daqui é do PT. Os oposicionistas perguntam como pode o PT “culpar o passado por uma realidade que o Seu presidente nega peremptoriamente”. Que realidade? Que há crise? Quando Lula negou que a crise exista e que o Brasil será afetado? O que Lula disse foi que o país será menos afetado do que outros países. O FMI diz a mesma coisa, a OCDE diz a mesma coisa e dezenas de economistas e instituições ao redor do mundo dizem a mesma coisa.
As manifestações petistas refletem o pânico que vivem em função das reações da população, por eles mesmos expostas detalhadamente na reunião de São Roque (SP). Reconhecem a crescente incapacidade do Governo para enfrentar a crise e indicam que escolheram um perigoso e débil álibi: queixam-se de um passado remoto - o qual denominam "governo anterior" - a que já tiveram tempo suficiente não apenas para superar, mas para revogar e denunciar seus atos, o que jamais fizeram.
Será que as “reações da população” contra o governo Lula a que se refere o triunvirato destro são as “reações” que se viu na última pesquisa Datafolha?
Após seis anos de juros altos, de populismo cambial, de permissividade nos gastos públicos, de escândalos financeiros e corrupção disseminada e acobertada, o PT e o Governo Lula não apenas têm todas as culpas como, em vez de procurar bodes expiratórios remotos, mostram-se incapazes de apresentar à Nação um programa efetivo e transparente de ações do Estado brasileiro para enfrentar os reflexos do quadro de evidente calamidade para o qual caminha a economia mundial e que se agrava a cada dia.
O que mais me chamou atenção nesse parágrafo foi a menção a “populismo cambial”. Os membros do governo que manteve o dólar engessado por decreto por cinco anos (o governo FHC) e que fez o Brasil mergulhar em recessão, desemprego e o endividou até o pescoço agora chamam de “populismo cambial” um sistema de dólar livre em que o governo, inclusive, vinha comprando essa moeda para segurar a cotação. Depois não entendem por que Lula não cai nas pesquisas.
Em vez de convocar as forças vivas da Nação, independentemente e acima das divisões partidárias, para a indispensável mobilização da sociedade, os petistas partem para provocações mesquinhas e facilmente desmoralizadas.
Essa história de “forças vivas da nação” já vi no Equador e na Venezuela, e é uma espécie de fetiche dos reacionários de ultradireita. Aliás, o presidente equatoriano, Rafael Correa, disse que não são forças vivas coisa nenhuma, mas forças “de vivos”, ou seja, de espertalhões que viram minguar sua fonte de moleza com as eleições dos presidentes de esquerda pela América Latina e, agora, até alguém da esquerda possível nos EUA passará a governar o país que manda nesses três patetas reacionários.
O Governo Lula já representa o próprio passado de que reclamam os petistas, que, portanto, atingem a si mesmos.
O papel aceita tudo. Eles acham que já elegeram Serra presidente só porque colocaram o Kassab na prefeitura da cidade mais conservadora do país, onde até o Maluf nadou de braçada durante décadas. Palhaços. Esquecem que Serra ganhou em 2004 e em 2006 a oposição levou uma surra nas urnas. E olhem quem nem em 2002 nem em 2006 Lula tinha tanta popularidade.
Brasília, 8 de dezembro de 2008
Rodrigo Maia (DEM-RJ)
Sérgio Guerra (PSDB-PE)
Roberto Freire (PPS-PE)
De todos os três patetas do atraso, o mais patético é esse Roberto Freire. O cara era comunista. Acho que para deixar de ser comunista e virar aliado da nata da direita brasileira, e ainda por cima depois de velho, é preciso ter desprezo por ideais. É preciso ser um grandíssimo canalha.
Escrito por Eduardo Guimarães às 16h10
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Crônica
Uma aposta

A partir de 1994, do ano em que comecei a enviar faxes de meus pontos de vista a redações de jornais, travei contato com vários jornalistas famosos. Sobretudo depois da chegada da internet ao Brasil, em meados dos anos 1990. Com alguns deles, inclusive, cheguei a manter até uma ou outra aproximação pessoal em eventos em jornais ou em outros de igual caráter cultural, em livrarias, galerias de arte etc. Eram eventos para os quais, àquele tempo, eu tinha... Bem, digamos que para os quais eu tinha paciência.
Nunca nenhum daqueles jornalistas me inspirou vontade de ser seu amigo, ainda que jamais eu tenha acreditado que algum deles se interessaria por manter comigo uma relação de amizade. O primeiro jornalista de renome que conheci e que age como um ser humano e não como um portador da Verdade Suprema é o Luiz Carlos Azenha, que conheci em meados do ano passado. E desde aquele minuto me convenci de que dele eu seria amigo, se ele quisesse.
O Azenha quis se tornar meu amigo. Foi mais uma figura entre outras igualmente memoráveis que este blog me deu como amigos, gente como a minha querida amiga Conceição Lemes, que já liga para a minha mulher e às vezes nem fala comigo, ou como meus estimadíssimos companheiros do MSM Antônio Arles e Antonio Donizeti, ou como a minha caríssima amiga carioca Vera Pereira, de quem centenas de quilômetros me separam. E tantos outros amigos memoráveis, memoráveis.
Mas indo (não tão) direto ao ponto, escrevi este texto porque no primeiro dia útil desta semana recebo ligação do Azenha, com quem não falava havia semanas. É sempre um prazer falar com ele e sempre que ele me liga largo na hora o que estiver fazendo para conversarmos. E são longas conversas. Desta vez, foram mais de duas horas. E ele escreveu um belo texto sobre o que conversamos, como disse ao telefone que faria. O Azenha escreveu:
É muito bom voltar ao Brasil. Só assim posso desfrutar de minhas longas conversas telefônicas com o Eduardo Guimarães, do qual discordo no varejo, mas com o qual concordo no atacado.
Sim, são conversas para se desfrutar. Damo-nos ao luxo de gastar horas falando da conjuntura política e econômica nacional e internacional, de filosofia, de história, fazemos piada, rimos à beça e, agora, fazemos até apostas, como sói fazerem os amigos desde eras imemoriais.
Conversamos sobre o que o Azenha frisou umas dez vezes, em duas horas, que era um processo de retomada do Estado pela elite através do projeto José Serra 2010, e com o que, como ele diz, eu concordo "no atacado".
O pré-sal, aliás, figura como as jóias da coroa nesse jogo, no nosso entendimento recíproco. Uma riqueza incomensurável num mundo em que o petróleo se extingue. Rimos, eu e o Azenha, de "eles" dizerem que a queda no preço do "ouro negro" inviabilizaria a prospecção dessa riqueza sem fim que são as reservas petrolíferas no litoral do Sudeste brasileiro, uma riqueza que se não for parar nas mãos dos abutres da privataria, através da eleição de Serra, poderá tirar legiões de brasileiros da miséria.
Mas eu e o Azenha discordamos no varejo, se é que se pode chamar dessa forma a questão na qual discordamos. Aparentemente não se pode, pois divergimos na questão da crise econômica internacional. Mas não sei bem como ficou essa divergência depois da nossa conversa. Eu não cedi, e acho que o Azenha tampouco. Ele julga que subestimo a crise internacional mais do que seus reflexos no Brasil, que decorreriam da gravidade da crise no mundo.
Trocando em miúdos, apesar de concordar com a boa situação do Brasil diante da crise, o Azenha acha que, devido à sua gravidade no mundo e não aqui, corremos o risco de sofrer muito mais do que eu penso, o que justificaria sua opinião sobre a minha, sobre eu estar subestimando o potencial da crise internacional, por melhores que estejamos (o país) economicamente.
Respondi ao Azenha que não, que entendo perfeitamente a gravidade da crise internacional. Creio que ele viu isso quando eu lhe disse que os EUA mal começaram a sentir os efeitos da onda de demissões e de quebradeiras, pois os efeitos dessas mazelas econômicas vão se sobrepondo e daí começam a estourar novos focos de problemas que ainda serão sentidos.
Mesmo diante de tudo isso, julgo que nada me explicou, até agora, que problemas reais poderemos ter no Brasil além daqueles mais presumíveis diante da forte diminuição na atividade econômica mundial, que afetará as exportações, que, no entanto, num país como este não representam tanto que não possa ser compensado por nosso mercado interno. E isso por conta de um fator que já foi considerado impeditivo ao desenvolvimento do nosso país, mas que hoje acabou se convertendo num ativo, ou seja, o fato de comerciarmos pouco com o mundo diante do tamanho do nosso PIB.
Para não me perder na longa exposição de motivos e de dados que fiz para o Azenha para justificar minha opinião, e até porque eu já lhe tomava o tempo além da conta, propus a ele que voltássemos a conversar sobre o assunto em cem dias, se tanto. Daí chegamos ao consenso de que, se até lá os indicadores econômicos não começarem a apresentar "resultados" - para os golpistas do PSDB, do PFL e da mídia -, ficará claro que eu venci a aposta que meu amigo propôs.
O que apostamos? Pelo que entendi, apostamos nosso conhecimento sobre nós mesmos - cada um sobre si. Se estou incorrendo em auto-engano, quero saber. Mas quero o bônus de que se reconheça que antevi os fatos se o país não vier a apresentar números que autorizem dizer que a crise nos pegou tanto quanto a outros países, inclusive os de fora do clube dos ricos. E não será um bônus magro, pois dificilmente se encontra hoje alguém que fala para bastante gente que se arrisque como estou me arriscando ao prever que o Brasil não apresentará indicadores econômicos significativamente deteriorados nem daqui a cem dias, um momento que alguns dizem que será o auge da "tragédia" pintada pela mídia.
Se o Azenha perder a aposta, estará na companhia da maioria esmagadora dos analistas, que não ousa prognosticar nada peremptoriamente sobre o assunto crise. Não haverá problema nenhum para ele, pois. Eu, porém, acho que se estiver enganado terei que repensar o que digo, pois tem muita gente lendo o que escrevo e não tenho direito de induzir a erro pessoas que podem até tomar alguma decisão importante influenciadas por mim. Por isso topei a aposta com o meu amigão Azenha. Para me conhecer.
Escrito por Eduardo Guimarães às 22h39
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Análise política
Eleição de 2010

Ninguém está entendendo a pressão política que será feita sobre o povo do Brasil pela mídia em 2010 para eleger José Serra presidente da República. Não estamos falando de pressõezinhas como essa para convencer o país de que ele afundará num buraco econômico daqui a algumas semanas, não senhor. Prevejo que sobre nós se abaterá a mãe - e a avó, a bisavó e a tataravó - de todas as campanhas midiáticas de tentativa de indução da vontade popular, e isso ocorrerá em menos de dois anos.
Como vocês já perceberam, estamos falando da eleição do próximo presidente da República, assunto que hoje dominará a discussão política devido à pesquisa Datafolha publicada nesta data pelo principal jornal do império de comunicações da família Frias. O jornal afirma que "Serra amplia vantagem para 2010".
Imagino que essa pesquisa foi feita a fim de sustentar o ânimo da militância de oposição depois da paulada que foi a divulgação do crescimento da aprovação de Lula e para despertar a cobiça do PMDB, porque, num momento em que o governo do país está exatamente no meio de seu mandato, perguntar ao eleitor em quem ele votará daqui a quase dois anos não me parece lá muito científico, ainda que sirva para levantar o debate político sobre o assunto, já que a pesquisa do mesmo instituto que versou sobre a popularidade de Lula também induziu à crença diametralmente oposta da militância governista, à crença em que o presidente caminha para ser o grande eleitor de 2010.
É óbvio que um lado adorou a pesquisa sobre a popularidade de Lula e o outro a pesquisa sobre as incertas chances de Serra daqui a dois anos. A pesquisa sobre Lula, porém, não deveria ser comparada com a pesquisa sobre Serra, pois a primeira diz respeito a fato concreto e presente (a popularidade do petista na condição de governante), enquanto que a segunda versa sobre um quadro eleitoral ainda altamente intangível, mesmo sendo prática antiga da mídia fazer esse tipo de sondagens sobre o futuro distante, pois tais sondagens acabam servindo, sim, para orientar a navegação política.
Na pesquisa Datafolha de hoje, Serra aparece distanciado à frente dos outros candidatos na simulação do primeiro turno da próxima eleição presidencial, à frente de candidatos entre os quais figuram Ciro Gomes e Dilma Rousseff, sendo que o primeiro caiu na pesquisa e a segunda subiu, porém com todos permanecendo distantes do tucano.
No cenário mais provável, Serra subiu de 38% para 41% enquanto Ciro caiu de 20% para 15%. Heloísa Helena manteve seus 14%, e Dilma subiu de 3% para 8%. Como a margem de erro das pesquisas Datafolha costuma ser de 2 pontos percentuais para mais ou para menos, tanto Serra quanto a soma de seus adversários podem ter 39% dos votos, o que configura empate técnico e permite supor que a eleição, se fosse hoje, poderia ser em dois turnos.
A versão da pesquisa publicada pela Folha peca por apresentar números apenas do primeiro turno da eleição presidencial de 2010 - no site do Datafolha, até o momento em que escrevo a pesquisa ainda não apareceu. Assim, a soma dos votos de Dilma, Heloísa Helena e Ciro - soma que, num segundo turno, é mais provável que se concentre no candidato da esquerda, que seria o candidato de Lula - não aparece. Se aparecesse, a vantagem de Serra diminuiria muito e isso não serviria aos propósitos que geraram a pesquisa.
Mas não importa, manipulações a gente sabe que sempre haverá e que, pelo menos nas últimas duas eleições presidenciais, elas não funcionaram. O mais importante - e o mais difícil - é analisar as possibilidades quando se referem a um ponto tão distante do futuro, sobretudo estatisticamente.
Se a soma dos votos que seriam dados a Heloísa Helena, a Ciro e a Dilma já é igual ao percentual que tem o pré-candidato que a mídia tem poupado de críticas e mantido em evidência há muito tempo como o candidato das oposições em 2010, e isso sem Lula dizer um A em favor de quem apoiará para sucedê-lo - lembremo-nos de que as menções do presidente a Dilma ainda são para lá de tímidas -, o que me parece é que as chances de Serra não são lá essas coisas...
Não se pode esquecer esse dado, de que o governador paulista não enfrenta questionamentos de sua administração, sendo blindado pela mídia. Críticas a ele só serão conhecidas do público quando os outros candidatos tiverem acesso à tevê e ao rádio e puderem criticá-lo. E todos sabem que não importa o quanto uma Heloísa Helena da vida xingue o governo Lula. Seus eleitores são ideológicos, acreditam nos discursos demagógicos dela, mas não votariam na direita, que estará toda com Serra em 2010, como não votaram em Alckmin em 2006.
O exercício especulativo da Folha, portanto, é inútil hoje. Não se sabe como estará a economia em 2010. Se estiver bem, se depois de toda essa crise não sofrermos efeitos sérios, o candidato indicado pelo autor da proeza terá uma força enorme.
Hoje, o quadro é totalmente confuso. Todos tentam se confundir com Lula. Serra andou posando ao lado do presidente. Se a pesquisa opusesse Serra e "o candidato de Lula", fosse ele quem fosse, veríamos números diferentes. Aliás, essa é a única pergunta correta a se fazer hoje. Estão opondo uma ilustre desconhecida como Dilma, um político que saiu de cena faz tempo como é Ciro e uma nanica como Heloísa Helena ao incontestável líder político da oposição. Essa pesquisa, em suma, não diz nada mais do que qualquer um poderia prever sem pesquisa nenhuma, que Serra é mais conhecido que a candidata da continuidade e que outros candidatos de pouca expressão.
Outra ilusão dos anti-Lula é a de que o presidente não conseguiu transferir votos na eleição municipal deste ano. Pura bobagem. O crescimento do PT nesta eleição mostra que o presidente transferiu muitos votos. É que pegaram algumas cidades-símbolo - cidades que vêm pecando pelo conservadorismo há muito tempo - e com elas tentaram passar a idéia de que a popularidade do presidente não influiu nas decisões populares de 2008. Os números dizem exatamente o contrário.
Além disso, Lula venceu disparado a última eleição presidencial sem tampouco ter conseguido transferir votos em Sâo Paulo e em outros Estados que têm resistido mais ao PT, e isso também porque os brasileiros gostam de distribuir os cargos, não concentrando muito poder nas mãos de ninguém, ou seja, de nenhum grupo político.
O peso de um presidente com a popularidade de Lula numa eleição em que estará em jogo a continuidade de seu trabalho - e num contexto que poderá ser parecido com o da campanha eleitoral deste ano, contexto em que predominou largamente a continuidade administrativa devido à satisfação da população com a própria vida - torna a pesquisa divulgada hoje pela Folha muito mais um ato de propaganda política do que um estudo científico. Mas serve para mostrar que os democratas deste país devem se levantar para impedir que meia dúzia de magnatas da comunicação determinem quem governará quase 200 milhões de brasileiros a partir de 2011.
Escrito por Eduardo Guimarães às 10h52
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Análise político-econômica
Consumidores órfãos
Atualizado às 18h10 de 7 de dezembro de 2008

A última pesquisa do instituto Datafolha sobre a popularidade do presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi divulgada no último dia 5 de dezembro. A pesquisa anterior do mesmo instituto sobre o mesmo assunto havia sido divulgada em 12 de setembro. Um espaço de 84 dias separou uma pesquisa da outra.
Durante esse período de quase três meses, uma avalanche de notícias ruins se abateu sobre o país devido à crise econômica internacional. Por conta disso, "a oposição tem como líquido e certo que José Serra será presidente da República, crente que a crise econômica irá explodir empresas e empregos e, com eles, os 70% de popularidade de Lula e o palanque de Dilma Rousseff".
Se você, entusiasta do PSDB, do PFL, da imprensa do eixo São Paulo - Rio ou da grande imprensa conservadora de outros Estados estiver achando que estou sendo injusto ao fazer tal afirmação sobre Serra e seu grupo político, saiba que quem fez a afirmação não fui eu, não. Talvez você não tenha percebido, mas a frase que afirma que o governador paulista e seus correligionários torcem pela crise, que torcem para o país ir mal, está entre aspas, e está entre aspas porque não foi dita por mim. A frase é de autoria de um membro do grupo político de Serra, da colunista da Folha de São Paulo Eliane Cantanhêde, casada com o marqueteiro do PSDB.
Serra, porém, conforme reconhece a colunista, deveria pôr as barbas de molho. Ela atribui vários motivos para considerar que a oposição a Lula comemora cedo demais a vitória do tucano sobre Dilma Rousseff, provável candidata de Lula à própria sucessão em 2010.
Cantanhêde explica a resistência da popularidade de Lula sobretudo com aqueles argumentos que a mídia sempre usou, com argumentos que desqualificam o povo. Só que agora, diante do fato de que o presidente está cada vez mais popular também nos segmentos sociais mais ricos e escolarizados - até no Sudeste e no Sul do país, regiões onde ele é mais mal avaliado -, a desqualificação passou a ser do povo brasileiro como um todo, que, na versão da oposição e de seus jornais, revistas, tevês e rádios seria incapaz de enxergar a tragédia que estaria prestes a se abater sobre nós.
Há uma certeza messiânica em todos os grandes meios de comunicação de que a economia sofrerá um forte golpe no ano que vem, com muita gente perdendo o emprego, com empresas quebrando, enfim, com o caos social se implantando e levando o mesmo povo que hoje apóia Lula em maioria tão ampla a optar pelo grupo político que fez oposição tão intransigente a ele e até ao país ao passar os últimos seis anos alardeando desgraças de toda sorte, como surtos de febre amarela e de inflação, desgraças que depois acabaram não ocorrendo.
A visão de que esta crise internacional seria a melhor oportunidade do grupo de Serra de ver o país piorar para o povo querer mudar de rumo vinha crescendo não por conta da crise em si, pois tanto a premissa de que seremos pegos em cheio por essa crise como a de que passaremos por ela sem maiores estragos são extremamente controversas entre os especialistas em economia.
A certeza de que desta vez Lula seria atingido em sua popularidade se deve à crença de que estaria dando certo a estratégia de alarmar a sociedade para ela parar de consumir ou de investir, materializando a crise no país artificialmente, à revelia do que ocorreria se as pessoas não tomassem decisões que afetassem a economia com baixo consumo quando o que ela precisa é de que as pessoas façam o contrário, que continuem consumindo para o mercado interno suprir o que o mercado internacional deixou de prover.
Foi por isso que o Datafolha, além da pesquisa sobre a avaliação do presidente, fez outra pesquisa sobre perspectivas econômicas da sociedade, trabalho que foi publicado na edição de hoje da Folha e que penso que dará outra visão aos agentes econômicos, aos empresários que estão trazendo a crise internacional para dentro de suas empresas ao paralisarem suas compras e investimentos sem razão aparente, confiando apenas no alarmismo da mídia e nas previsões de caráter pessimista.
Vale dizer que a sociedade corre hoje o risco de não encontrar produtos para consumir mais adiante, mesmo querendo. E os números do Datafolha mostram um país animado, descrente da crise e com intenção de continuar tocando sua vida. Os empresários, porém, que certamente foram os mais atingidos pelo alarmismo catastrofista da mídia, se não se prepararem para a onda consumista que vem por aí além de estarem jogando dinheiro fora estarão cavando a própria ruína acreditando na certeza (cada vez mais incerta) da mídia em que a tragédia virá.
Seria bom que o empresariado desse uma olhada nos números do Datafolha que reproduzo a seguir:
- 67% dos brasileiros dizem que suas vidas melhoraram com o governo Lula - dizem isso de um governo que está aí há seis longos anos.
- 78% dizem que esperam que suas vidas melhorem no ano que vem - na pesquisa anterior, feita em 2007, 79% diziam a mesma coisa em relação a 2008.
Só esses dois dados já dão a dimensão de que, se procurados pelos empresários, os consumidores reagirão positivamente comprando-lhes os produtos e serviços, a menos que ocorra uma onda de demissões em massa, o que ninguém previu até agora que ocorrerá. No máximo, as demissões que possam decorrer de problemas reais na economia serão anuladas pelas contratações, mantendo o nível de emprego exatamente onde está.
A pesquisa Datafolha mostra que a disposição do consumidor mudou muito pouco mesmo com todo alarmismo da mídia e mesmo com os fatos concretos que mostram problemas para o país. A campanha da mídia pela retração do consumidor parece não estar funcionando, pelo menos segundo a pesquisa.
A mídia, para variar, afirma que Lula é uma besta, que estimula as pessoas a gastarem num momento em que o país estaria à beira do desastre, mas quem não perdeu a capacidade de raciocinar sozinho haverá de refletir que não precisaria ser "uma besta" para dizer às pessoas uma coisa que se revelará mentirá em questão de semanas, seria preciso ser louco. Lula e toda sua equipe de governo.
No mundo real, sabe-se que haverá desaceleração do crescimento, os números mais aceitos falam de 3% em 2009 contra uns 5% neste ano. Se esse for o cenário, a população sentirá muito pouco os efeitos da crise, não haverá alta do desemprego - ao menos que gere a comoção social pretendida - e o país terá passado pela pior crise em décadas e décadas melhor do que qualquer outro país no mundo inteiro, para que vocês tenham uma idéia do feito que este governo terá logrado.
Se o Brasil não sentir a crise, se se tornar uma ilha de prosperidade num mundo em grave crise, Serra, seus jornais, tevês, revistas e rádios podem dar adeus à eleição dele em 2010. Seria inconcebível que um governante que conseguiu tal feito não conseguisse fazer seu sucessor. O eleitorado não seria louco de ir contra a indicação daquele que fez o país atingir tal grau de sucesso. E, além disso, a mídia brasileira seria desmoralizada de uma forma que levaria a zero sua influência política. Dificilmente a mídia e a oposição ficarão vendo isso acontecer de braços cruzados. Tentarão sabotar o país de todas as formas nos próximos meses.
Também é bom registrar que a pesquisa Datafolha que deu conta do estado de ânimo do consumidor, segundo o próprio instituto de pesquisas contraria várias outras que traçaram quadros bem diferentes para o ânimo da sociedade e para as expectativas do setor empresarial. Pesquisas localizadas vinham dando conta de retração no ânimo dos brasileiros para consumir.
Esta pesquisa deverá influir fortemente no ânimo dos empresários. Possivelmente os fará enxergar que correm o risco absurdo de deixarem órfãos seus clientes em potencial, de deixarem-nos plantados com dinheiro nas mãos querendo comprar e as empresas sem mercadorias ou estrutura para ganharem dinheiro. Espera-se, então, que os empresários estejam à altura da população que compõe o mercado que exploram, e que não sejam burros de acreditar na politicagem da oposição e da mídia. Nem Serra nem a mídia lhes pagarão as contas.
Demissões na Vale
Da Folha Online
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (...) ligou para o presidente da mineradora [Vale], Roger Agnelli, para questionar as 1.300 demissões anunciadas (...), e, com críticas à imprensa, se resumiu a exaltar as contratações que a empresa havia feito antes do agravamento da crise.
"Liguei para o Roger [Agnelli] e disse: Quero saber por quê você mandou 1.300 trabalhadores embora? Qual é a crise? Ele disse: 'Ah presidente, mandei embora 400 que estavam no Canadá, as pessoas foram dispensadas pela inovação tecnológica da empresa, e dispensamos muita gente que trabalhava no escritório' (...).Mas uma coisa que a imprensa não diz é que esse ano a Vale contratou 6.200 funcionários."
Escrito por Eduardo Guimarães às 14h02
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