Alguns chamam de falsidade ideológica, mas prefiro chamar de alquimia, ao menos no caso que venho expor hoje à vossa apreciação no sentido de ir desmontando a farsa que está em curso na imprensa, uma farsa que ameaça a toda a sociedade e que violenta o direito, a verdade, a decência e até o mais comezinho senso de humanidade, pois o que se pretende fazer com o Brasil é sabotá-lo, é destruir empregos, é pôr as vidas das pessoas em risco, não só a vida financeira e social, mas a vida moral e até física, pois períodos de depressão econômica são períodos de instabilidade do país como um todo, com todas as conseqüências mais imprevisíveis que se pode prever para tal tragédia, que, inclusive, pode atingir até seus autores, mesmo que se julguem imunes.
No fim das contas, ao denunciar as armadilhas que os meios de comunicação vêm colocando no caminho dos brasileiros a fim de beneficiar seus prepostos, despachantes que ajudam a eleger e que então se tornam defensores de determinadas e exclusivas classes sociais junto aos poderes da República, ao fazer isso, enfim, estou pregando para que cada um dos que lerem minha tese a repassem a tantos quantos puderem, cada um assumindo a mesma responsabilidade que estou assumindo de oferecer à sociedade uma visão diversa sobre o que está acontecendo.
Mas é preciso que vocês entendam, mais do que tudo, o mecanismo da coisa, para que possam dar exemplos concretos do que está sendo feito e de forma eficiente, de uma forma que deixe claro aos vossos eventuais interlocutores as evidências clamorosas da enganação que está em curso em toda a grande mídia. O que mostrarei agora pode estar em qualquer jornal ou telejornal, impresso ou eletrônico, de qualquer parte do país, a qualquer hora e a toda hora.
É simples, o método deles: simplesmente transformam boas notícias em más na cara dura. Dão a boa notícia sob um rótulo de má notícia e, se alguém questiona, dizem que a boa notícia está lá, na matéria. E quando você argumenta que a manchete e a forma como a notícia a que ela remete são apresentadas de forma a induzir o receptor da notícia a pensar negativamente sobre um fato positivo, dizem que isso vai da interpretação de cada um, dizem que citaram lado positivo da notícia, sim, e é dessa maneira que fogem do fato de que os aspectos positivos do assunto superam largamente um único aspecto negativo.
Como demonstrei no post de sexta-feira (o anterior a este), a mesma notícia pode conter dois lados. Reproduzi aqui duas manchetes do portal UOL que dão dois enfoques para a mesma notícia – um enfoque positivo e outro negativo. O positivo, veiculado no portal logo pela manhã, dizia que o desemprego em novembro havia sido o menor em 6 anos. Eu nem bem havia terminado de escrever o post sobre o assunto quando constatei que a manchete do UOL sobre ele havia sido desfigurada, transformando-se numa notícia ruim, de que o desemprego havia “subido” em novembro, pois aumentara 0,1 ponto percentual e esse número, que em estatística reflete mais estabilidade do que aumento, foi transformado em aumento.
A mesma coisa aconteceu hoje com uma notícia do jornal Folha de São Paulo que poderia – e que deverá – estar no Jornal Nacional, no Estadão, na Veja, na CBN etc, etc. Com variantes no aspecto marginal, aqui e ali, é claro, mas com idéia-força idêntica, pois a matriz dela é a mesma, a fábrica de desinformação reunida sob um mesmo comando, o do governador de São Paulo, José Serra, o despachante que o topo do topo da pirâmide social brasileira, beneficiária maior da desigualdade hors-concours que vige no Brasil, escolheu para retomar para esse estrato social o controle do Estado e, mais do que de qualquer outra coisa, de seus cofres.
Aquele dado sobre o desemprego, a Folha de hoje apresentou da seguinte forma a seus leitores:
“Mercado de trabalho perde vagas às vésperas do Natal”
Não, não é brincadeira, o jornal disse, na manchete, que o desemprego aumentou, e justamente quando ele se mostra o menor em 6 anos para um mês de novembro. E sabem por que? Devido a ter passado de 7,5% para 7,6%, uma diferença de 0,1 p.p. Isso em pleno mês de novembro, no auge da crise internacional, quando a mídia já alardeava demissões uma depois da outra por aqui e com o maior aumento do desemprego em décadas em praticamente todo o mundo. Agora o fato: o desemprego brasileiro, nesse mês, caiu significativamente em relação a 2007, enquanto o mundo mergulhava em recessão.
A manchete induz ao aspecto menos importante da notícia, a uma perda de vagas que não é da véspera de Natal, propriamente, como diz a manchete, pois o dado refere-se a novembro, quando o aumento de vagas temporárias no comércio consolida-se mesmo é em dezembro, e o pânico internacional de setembro e outubro, então em seu auge, obviamente que pode ter retardado um pouco a reação do comércio, que, no entanto, teve um resultado até surpreendente diante do que se prognosticava. Além disso, as previsões do comércio vêm mudando devido a dados como a grande confiança no futuro que os brasileiros revelaram nas pesquisas Datafolha, Ibope e CNT-Sensus sobre a popularidade do governo Lula e de seu titular.
Porém, a reportagem em questão, que na manchete que remetia a ela imprimiu um viés negativo aos números sobre desemprego, trouxe mais boas notícias, mas sempre sob um rótulo de má notícia. Segundo o coordenador da Pesquisa Mensal de Emprego do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), Cimar Azevedo, o mercado de trabalho ainda dá sinais de robustez porque:
• A taxa de desocupação de 7,6% é a menor já registrada em um mês de novembro desde o início da série histórica, em 2002.
• O rendimento médio real dos trabalhadores também apresentou bom desempenho, com alta de 0,9% sobre outubro de 2008 e de 4% sobre novembro de 2007, chegando a R$ 1.273,60.
• O resultado, segundo Azevedo, pode ser explicado pelo fato de a maior parte dos postos de trabalho fechados ter sido de trabalhadores sem carteira assinada, cuja renda equivale a pouco mais da metade da dos trabalhadores formais.
• De outubro para novembro, a queda no número de empregados sem carteira foi de 1,3%. Já o número de vagas com carteira permaneceu quase estável, com pequena variação de -0,2%.
• Apesar dos anúncios recentes de demissões na indústria, a taxa de desocupação de 2008 será menor do que a de 2007, de 9,3%. De janeiro a novembro deste ano, a média está em 8%.
Vejam quantas boas notícias a manchete negativa trouxe. A escolha do viés baseou-se no fator menos importante e significativo da notícia. Tratou-se, pois, de uma verdadeira alquimia ideológica, de uma prática que no jargão policial é qualificada como falsidade ideológica. Só não sei qual é a pena para esse crime prevista no Código Penal, mas penso que deveria ser medida pelo nível de dano que esse tipo de prática causa à sociedade. Neste caso específico, por exemplo, o dano pode ser muito grande se a trapaça jornalística vingar, o que fatalmente acontecerá se não fizermos nada a respeito. Por isso este texto, para que você tambem faça algo a respeito, ou seja, divulgue, divulgue e divulgue. Todo dia, sem parar, exatamente como faz a mídia.
O nível de desemprego nacional em novembro é o menor em 6 anos; passou de 7,5% em outubro para 7,6% um mês depois, conforme o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Em novembro de 2007, a taxa correspondeu a 8,2%
Tomem-se todas as enxurradas de previsões catastrofistas e alarmistas que vem sendo feitas sobre a economia do país desde 15 de setembro deste ano, há mais de 3 meses. Segundo essas previsões, o quarto trimestre de 2008 já iria refletir o desastre que estaria chegando, um desastre que viria para contrariar a crença da maioria massacrante dos brasileiros de que o governo Lula é bom ou ótimo, pois, à diferença do governo anterior, este teria encontrado pela frente “céu de brigadeiro”, enquanto que aquele teria passado por “terríveis crises mundiais”.
Essa previsão, cada vez mais cede lugar a outra nas bocas e penas dos mesmos que verteram as duas – para não dizer que vomitaram. Na nova teoria, montada às pressas, agora a crise não virá por mérito do governo anterior, o de FHC e José Serra. E isso porque os números frios da economia não estão obrigados a colaborar com interesses políticos anti-nacionais que não podem admitir que, em meio à maior crise econômica dos últimos OITENTA ANOS, o Brasil se transforme numa ilha de prosperidade num mundo em depressão.
“Quem é esse baiano para conseguir manter o Brasil acima da crise?”, perguntam aqui em São Paulo. No meu bairro, no Paraíso, bairro que fica na extremidade Sul da eminente avenida Paulista, centro financeiro e urbano da América do Sul, ouve-se isso de qualquer vizinho, com algumas (poucas) exceções. Sabem, é que aqui em São Paulo a elite tem mania de qualificar todo nordestino como “baiano”...
Bem, o “baiano” em questão é o presidente da República. Ele não estudou na USP, no Dante Aligheri ou no São Luis, mas no Senai, junto com milhares e milhares de outros “baianos” que os paulistanos “da gema” maldizem, mas que tiveram que ser “importados” para construírem São Paulo, tocarem suas fábricas, levantarem seus edifícios, viadutos e túneis, construírem seu metrô, limparem suas ruas e até suas casas, serviço este que faziam e continuam fazendo a troco de esmolas e um prato de comida por uma semana de trabalho de, às vezes, sete dias.
Eu creio neste governo e creio na lógica. Mesmo acreditando em Lula quando ele diz que não há motivos para o empresariado demitir e este acaba não demitindo, pelo menos até aqui, exclusivamente por causa da gritaria de CEOs oportunistas dos grandes grupos empresariais que tentam mutilar direitos trabalhistas sem razão fundada em números frios da economia, eu venho me dedicando a buscar uma fonte consistente de problemas para o país e, em vez disso, só encontro fontes de melhora.
A atividade econômica no varejo não deu praticamente bola para a crise. Como a mídia transforma queda na venda de veículos e em alguns outros poucos setores em tendência da economia, ilustrando jornais e telejornais com esses fatos, parece que tudo neste país parou. Mas não está acontecendo isso. Com a população empregada e com dinheiro no bolso, mesmo sem crédito o consumo de vários setores deverá segurar a atividade econômica num patamar bem acima do que o PSDB, o PFL, a Globo, a Folha e a Veja, entre outros, querem.
Poupem e-mails e telefonemas. Não tenho bola de cristal nenhuma, apesar de que, como eu disse, dados do segundo mês do quarto trimestre de 2008 ainda não deram as indicações esperadas de queda na atividade econômica que permitam proclamar, ao fim do primeiro trimestre de 2009, que o país estará em “recessão técnica”. A tão ansiada recessão vai dando tchauzinho para Serras, Marinhos, FHCs, Frias, Civitas e congêneres.
Aliás, esse primeiro dado vital sobre a economia em novembro (sobre o desemprego) me surpreendeu também. Pensei que as dispensas em outubro e novembro alardeadas pela mídia influiriam um pouco nos dados do desemprego, mas a criação de vagas, dado subestimado pela grande maioria dos analistas e ocultado pela mídia, parece que superou as demissões localizadas.
Eles todos (os oráculos da mídia e do mercado financeiro) já erraram grosseiramente. No terceiro trimestre deste ano, chegaram a prever um crescimento de menos de 5%; o resultado foi de 6,8%. Até aqui, portanto, o Copom continua amparado pelos fatos para não afrouxar a política monetária na velocidade pedida, e os oportunistas do empresariado perdem discurso para aumentarem seus lucros diminuindo direitos trabalhistas. Como, inclusive, bem disse o presidente Lula.
Portais invertem manchetes
Alguns minutos depois da manchete do UOL que vocês vêem acima, o portal substituiu por outra, digamos, mais “condizente” com as práticas criminosas de nossa mídia, transformando a boa notícia sobre o menor desemprego em 6 anos em outra que diz que o desemprego “subiu” em novembro, escondendo que diminuiu fortemente em relação a novembro do ano passado. A “subida” é ridiculamente pequena para todo o alarde que se fez sobre o desemprego em novembro. Por ter havido um “aumento” de mísero 0,1 p.p., o mais correto seria dizer que a desocupação ficou estável no mês passado. O portal G1, da Globo, também distorceu a notícia. Daí perdi a paciência para olhar outras manipulações iguais. Esses caras são uns bandidos. Comparem a imagem acima com a outra, abaixo, e vejam só que tremenda sacanagem!
Marolinha
Com informações da Agência Brasil - Em reunião com jornalistas hoje (sexta-feira) pela manhã, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi questionado por um jornalista se tem algum arrependimento por ter declarado que os efeitos da crise chegariam ao Brasil na forma de uma "marolinha" e respondeu que não se arrependeu da frase e que a previsão do seu governo de crescimento de 4% para o ano que vem está mantida. Ele lembrou que, mesmo com a crise internacional, o PIB brasileiro apresentou crescimento de 6,8% no terceiro trimestre deste ano.
Muita gente me pergunta por que nunca entrei para a política nem jamais me aproximei dos seus artesãos. Talvez este texto os ajude a entender por que alguém que praticamente respira política todos os dias nunca quis se meter com ela para além dos comentários e até das pregações contra este ou a favor daquele político – ou contra todos eles, às vezes.
Tenho um problema que me torna, digamos, “desaparelhado” para a atividade política... Ou melhor, tenho dois problemas. O primeiro, é que falo o que penso e, se tiver que parar de fazê-lo, sentir-me-ei uma ameba. E o segundo, é que prefiro as qualidades dos homens – e das mulheres – do que seus defeitos. Sempre que alguém tem os dois, concentro-me nas qualidades primeiro.
O preâmbulo longo não é um mero “nariz de cera”, como os escribas costumam descrever textos sem objetividade, concisão e introduções maiores do que em uma ou duas frases. É porque preciso explicar a razão de ser obrigado a exaltar uma qualidade de alguém que está tão distante de mim tanto política quanto ideológica e socialmente.
Refiro-me a Eliane Cantanhêde, da Folha de São Paulo, uma das jornalistas que mais tenho combatido por conta de sua atuação profissional digna de críticas que vocês todos conhecem muito bem.
Conheci Eliane virtualmente em 2000, quando ela respondeu um email que lhe mandei elogiando seu trabalho na página A2 da Folha. Dali em diante, passamos a trocar e-mails eventualmente, até que, no início de 2001, o jornal convidou-me para um evento comemorativo de seus 80 anos de existência. Ali conheci Eliane pessoalmente.
Outros eventos da Folha e novos contatos pessoais com Eliane. Ela chegou a conhecer minha filha Gabriela num evento no Teatro Folha, no Shopping Pátio Higienópolis, em São Paulo. Depois daquele dia, de conversar com Eliane, a Gabi chegou a cogitar ser jornalista. Ela tinha, então, uns 15 anos e estava terminando o ensino médio.
No fim de 2002, a eleição presidencial brasileira se aproximava, mas eu estava na Venezuela. Recebi, então, um email de Eliane pedindo que telefonasse para ela no Brasil porque tinha um assunto “urgente” para tratar comigo. Não hesitei, atendi seu pedido de imediato.
A jornalista revelou-me que ouvira boatos de que uma greve geral seria deflagrada pela oposição venezuelana na intenção de influir na eleição brasileira, que ocorreria em cerca de uma semana à frente, e me perguntou se teria como investigar isso lá para ela. O que ocorre é que eu havia lhe revelado, numa troca de emails, que tinha clientes ligados à oposição a Hugo Chávez.
Fiz o que Eliane pediu. Fui de Caracas a Valencia com um cliente para participar de uma reunião dos partidos Acción Democrática e Copei, de oposição a Chávez, e descobri o que a jornalista pedira. Pude afiançar a ela, depois, que a tal greve geral oposicionista não ocorreria.
Parei os contatos com Eliane depois que a mídia passou a tentar derrubar o governo Lula. Trocamos algumas farpas e paramos de nos falar. Uns dois anos depois, ela citou meu nome em sua coluna na página A2, chamando-me de crédulo (“Velhinha de Taubaté”) por apoiar Lula e o PT. Era o auge do escândalo do mensalão, mas arranquei da Folha um direito de resposta no Painel do Leitor.
Devo destacar que nunca subestimei ou neguei a inteligência da colunista da Folha. É uma mulher astuta, sagaz e extremamente inteligente. Além disso, tem uma vantagem injusta quando debate com um homem: é bela e tem hipnóticos olhos azuis.
É por isso que, apesar de todo o péssimo trabalho que a jornalista passou a fazer depois que seu marido se envolveu com o PSDB, não posso deixar de louvar sua inteligência, suas qualidades, as quais exibiu fartamente nesse debate com Gilmar Mendes que vocês verão no vídeo acima.
Fico triste, vendo esse vídeo. Por ver como Eliane deixou de ser aquela jornalista ética que não hesitava em criticar a mídia – nos emails que trocávamos, que conservo até hoje – para se transformar numa tenente da imprensa golpista, o que me faz crer que sua atuação brilhante no debate que vocês podem ver no vídeo acima – no qual estraçalhou Gilmar Mendes e deixou o Esgoto e as múmias do Estadão e do Conjur com caras de bobos – não passou de auto-preservação do escândalo que seria se aquele Roda Viva se resumisse à bajulação do juiz de Daniel Dantas.
De uma forma ou de outra, este texto é para agradecer à jornalista por esse show de inteligência e de coragem que ela deu na última segunda-feira. Portanto, Eliane Cantanhêde, considere pago aquele favor que lhe fiz em 2002, ainda que o pagamento não tenha sido intencional.
O que venho combatendo há mais de uma década – e, de três anos para cá, por meio deste blog – são tentativas que vejo de os grupos econômicos que controlam a parte do leão da comunicação no Brasil direcionarem a atenção da sociedade de forma a influírem na formação da opinião dela sobre o que lhe foi informado.
Essas trapaças informativas – ou essa desinformação – produzem efeitos espantosos em grupos sociais que aumentam ou diminuem de amplitude conforme a conjuntura, de uma forma absolutamente imponderável, o que deixa ver a existência ameaçadora de condições propícias para que a manipulação da informação tenha maior ou menor sucesso.
É importante ter em mente – e há variedade de fatos que comprova a premissa a seguir – que quando se pensa que o poder de comunicar o que se quiser está deixando de ser tão grande é que ele mostra quanto pode roubar das pessoas em termos de reflexões necessárias que, inclusive, fundamentam decisões sobre suas próprias vidas, decisões que, sem manipulações das informações que recebemos diariamente, poderiam ser diametralmente diferentes das que efetivamente tomamos.
Mas fiquemos apenas nas altas questões a fim de não nos perdermos no emaranhado cotidiano que nos sufoca. Tratemos, por exemplo, de evidências concretas de como se pode minimizar fatos que têm potencial para se transformarem em grandes polêmicas ou exacerbar outros que, no frigir dos ovos, não têm maior importância.
Vejam só a reunião de Cúpula dos países da América Latina e do Caribe na Bahia. A pobreza da cobertura jornalística brasileira sobre ela revela um verdadeiro roubo das atenções da sociedade sobre um evento para o qual o mundo inteiro voltou os olhos por variadas razões, muitas das quais os grupos políticos, sociais e econômicos que estão por trás dos grandes meios de comunicação brasileiros não querem que a sociedade saiba, ou melhor, que empreste atenção a tais razões.
Poderíamos começar com a análise mais aprofundada que a mídia deu em canais de notícias por cabo aos quais poucos brasileiros têm acesso. É o caso, por exemplo, da Globo News, que apresentou reportagem e entrevista sobre a reunião de cúpula de chefes de estado na Bahia que você pode conferir no vídeo acima.
A reportagem reproduziu discurso de Lula na cúpula dizendo da oportunidade mundialmente reconhecida que a crise está gerando aos países emergentes, sobretudo aos países latino-americanos, de emergirem como atores mais importantes e influentes no cenário internacional. Já a entrevista foi com um acadêmico da PUC carioca, escolhido a dedo pela Globo para dizer o que a emissora queria.
Em certo ponto da entrevista, o tal acadêmico trata de minimizar A PRIMEIRA REUNIÃO DA HISTÓRIA COMPOSTA SÓ DE CHEFES DE ESTADO DA AMÉRICA LATINA E DO CARIBE. Depois, o cara afirma alguma coisa sobre “isolamento” de Hugo Chávez.
Vejam só: dos 33 países da América Latina e do Caribe, só os presidentes da Colômbia, Álvaro Uribe, e do Peru, Alan García, não compareceram à reunião e tampouco compartilharam do apoio conjunto à suspensão do embargo americano a Cuba e das moções de reprovação aos EUA adotadas pelos chefes de Estado presentes. E o que o tal acadêmico faz? Alude, de forma absurda, a um suposto isolamento de Chávez.
Aliás, o acadêmico escolhido pela Globo se omitiu de pôr em pauta, já que a dupla de jornalistas globais certamente não o faria, o que o resto da grande imprensa está tratando com escandalosa discrição. Como a Folha de São Paulo, por exemplo, que deu uma notinha ridiculamente curta sobre um fato que, se tivesse ocorrido na Venezuela de Chávez - ou em qualquer outro país sul-americano (incluindo o nosso) considerado "de esquerda" -, transformar-se-ia em descomunal polêmica.
Dêem só uma olhadinha na notinha escandalosamente discreta que a Folha publicou:
Em sessão extraordinária realizada ontem, a Câmara dos Deputados da Colômbia aprovou projeto de referendo para autorizar o presidente Álvaro Uribe a concorrer a um terceiro mandato em 2014, mas não nas eleições de 2010. O projeto precisa passar pelo Senado. A medida foi aprovada por 86 votos a 0, já que a oposição retirou-se do plenário após o governo convocar a sessão extraordinária, 20 minutos antes do começo do recesso legislativo, que vai até março. Uribe nega apoiar a proposta, mas opositores acusam o governo de atuar nos bastidores.
Hei!, cadê os editoriais e reportagens escandalizados em jornais e telejornais?! Cadê os colunistas da página A2 da Folha?! Cadê a expressão de nojo de Fátima Bernardes?! Só valem quando Lula ou Chávez ameaçam se candidatar a terceiro mandato? Sim, é isso mesmo: quando é da turma deles, o político, se quiser, pode morrer no cargo de presidente ou até de ditador que eles não abrem a boca.
Outra “pequena” amostra da manipulação pode ser vista nas manchetes de primeira página dos jornais e dos sites na internet que noticiam “demissões” em massa sem dizer (nas manchetes, não no conteúdo das matérias) que essas demissões estão ocorrendo no exterior, deixando para quem apenas passa os olhos em tais manchetes a impressão de que aquilo está acontecendo no Brasil.
Informar-se corretamente, hoje em dia, virou tarefa penosa, porque, para traçar um quadro realista dos fatos, é preciso se aprofundar tanto na grande imprensa quanto na imprensa alternativa, na qual, mais do que opiniões, destacam-se aspectos da notícia postos de lado pelos grandes veículos. O mundo está tão perigoso que é preciso tomar cuidado até com as notícias. Chega a dar desânimo.
Vocês viram, não é? Mesmo depois de as pesquisas Datafolha, Sensus e Ibope mostrarem insucesso da mídia em convencer a população de que sua vida irá piorar dramaticamente por conta da crise internacional, a campanha de tevês, rádios, jornais e grandes portais de internet de venda da chegada da ruína econômica do país continua na mesma toada ou até mais intensa.
A cada indicador que mostra alguma mera desaceleração do ritmo de atividade de nossa economia, ritmo que já era considerado insustentável por economistas de todas as tendências, a mídia trata essas reduções de indicadores como “prova” cabal de que ela está certa ao pregar a chegada do desastre e de que o governo Lula está errado ao pregar o contrário.
Nas ruas de comércio e nos shoppings, porém, falar de crise não é apenas proibido, é ridículo. Ontem, minha mulher foi pagar uma conta perto de uma das ruas de comércio mais significativas do país, a rua 25 de março, em São Paulo, e se espantou não apenas com a massa humana que se espremia nas lojas para comprar e pagar, mas com a própria dificuldade que encontrou na rua para se locomover devido às centenas de milhares que ali se espremiam para consumir de tudo e mais um pouco.
Segundo a mídia, a opinião majoritária em todas as classes sociais, em todas as faixas etárias, em todos os níveis de escolaridade e em todas as regiões do país de que estamos resistindo muito bem à crise, melhor do que qualquer outro país, conforme diz Lula, é produto de auto-engano da população, que, sempre segundo a mídia, não quer enxergar o desastre iminente, e produto, também, de mentiras do governo, que estaria induzindo as pessoas a manterem essa “ilusão”.
Claro está que há uma fé meio cega da mídia no desastre. Essa fé deriva de economistas ligados ao PSDB e ao PFL e que têm grande trânsito junto aos meios de comunicação. Eles se acham mais bem informados do que os técnicos do governo que fundamentam o discurso de Lula, ainda que alguns tarados acreditem que ele diz o que diz sobre a crise sem ter base em nada, apenas calcado nos próprios desejos e na ignorância da qual a elite acredita que o presidente sofre.
A sucessão de números da economia que desautorizam a afirmação de que a crise terá efeitos maiores no Brasil, segundo a mídia, não significaria nada, pois a crise teria chegado “agora” e, portanto, os números que têm sido divulgados seriam produto do momento pré-crise, há dois meses e pouco. Esse discurso, no entanto, ignora que o único país do mundo em que a crise chegou tão atrasada teria sido o Brasil, porque em todos os outros países de porte igual ou parecido a crise já chegou faz tempo.
É possível perceber a teoria que a mídia vendeu a uma pequena parcela dos brasileiros que, a despeito dos fatos do mundo ao seu redor, continua pregando a chegada do apocalipse econômico. No último domingo, participei da festa de despedida de minha filha que irá estudar na Austrália. Ali, comecei a conversar sobre a crise e sobre o governo Lula com pessoas da classe média paulistana, talvez a classe social mais refratária ao governo.
O discurso dessas pessoas diante da questão da crise envergonharia a mídia. O discurso do conservador paulistano de classe média é de desqualificar estatísticas de todo tipo, desde a popularidade de Lula até a medição do PIB. Todas as estatísticas seriam forjadas em prol do governo “comunista” que teria o país. Essas pessoas acreditam nos boatos que recitam entre elas como se fossem fatos amplamente conhecidos e inegáveis. Lula é popular em 70%? Ah, eles nunca foram pesquisados por nenhum instituto e, portanto, dizem que a pesquisa é falsa e pronto. Assim não têm que refletir por que a popularidade do presidente é tão alta.
O racismo também está em alta entre a classe média paulistana, a exemplo do que acontece na classe alta. Cheguei a ouvir de duas pessoas da minha idade e do meu bairro que elas se consideram racistas, sim. E “com orgulho”.
Foi-me doloroso ouvir o que ouvi. Confrontadas com a afirmação que lhes fiz no âmbito de uma discussão da política de cotas para negros nas universidades, com a afirmação de que, num futuro próximo, veremos médicos e dentistas negros também em São Paulo, onde não existem esses tipos de profissionais com pele escura, aquelas pessoas afirmaram, sem hesitação ou vergonha, que jamais se submeteriam a um médico ou a um dentista negros.
É chocante o nível de reacionarismo que persiste nas camadas mais altas da sociedade. Preconceitos que eu pensava enterrados afloraram com toda força a partir do governo Lula. A impressão que tenho é a de que tanto preconceito sempre ficou submerso por não haver “necessidade” de externá-lo, já que, neste país, estava tudo dominado. Mas, a partir da reviravolta social promovida por este governo, a elite branca voltou a mostrar suas garras.
A aposta da direita brasileira no potencial da crise para lhe conceder um passaporte de volta ao poder continua forte e, até certo ponto, parece justificada, pois o mundo piora a cada dia. Apesar de, aqui no Brasil, os indicadores mostrarem uma marolinha, com poucas dispensas de trabalhadores – e absolutamente localizadas – e dados sobre atividade econômica que não revelam nenhuma queda considerável, o mundo, por sua vez, mergulha em um abismo do qual ainda não se vê o fundo.
Essa hipótese de o Brasil, sendo governado por alguém como Lula – um ex-operário e retirante nordestino –, ficar imune a uma crise que pegou o mundo inteiro de jeito é inaceitável para a elite branca paulista-paulistana, para os conservadores de direita do quartel-general do atraso social no país (São Paulo), para aqueles que pregam o racismo em pleno século XXI, para essas pessoas que qualquer um que reside num bairro “nobre” da capital paulista conhece às pencas.
Os conservadores paulistas são piores do que os gaúchos, do que os catarinenses ou do que os cariocas. Na verdade, o dinheiro da nação está aqui em São Paulo. É aqui que se encastela a quase totalidade dos bilionários brasileiros, que são os que mandam – ou que pensam que ainda mandam – no país, aqueles que estão – ou que estavam? – acima das leis e das convenções todas da sociedade, sendo-lhes permitido até delinqüir, matar, roubar, estuprar, enfim, fazer qualquer coisa sem medo de responder por tais crimes.
Sinceramente, dá medo. Eu até estava meio inseguro quanto à possibilidade de a mídia e a oposição quererem que o país afunde na crise para terem mais chance de eleger José Serra presidente em 2010, mas depois que, numa conversa com o jornalista Luiz Carlos Azenha, ele me revelou que, tanto quanto eu, não tem dúvida nenhuma de que essa gente afundaria o país para retomar o Estado, tive que me conformar com essa desgraça.
Vocês conseguem mensurar a quantidade de desgraças que se abateria sobre o país se a crise se tornasse o que o PSDB, o PFL, a família Marinho, a família Frias ou a família Civita, entre outros, querem que se torne por aqui? Quantos dramas? Quanto sofrimento haveria? Para essa gente, quanto mais sofrimento houver melhores serão suas chances de voltar ao poder. Vejam só!
Agora, eu lhes pergunto: para alguém que despreza outro ser humano apenas porque sua pele tem mais pigmentação, dessa pessoa pode-se esperar o que? E não duvidem, meus amigos, de que é o racismo, nu e cru, o que está na essência da mentalidade dessa elite doente, dessas pobres pessoas degeneradas pela mentalidade vigente numa classe social que inclusive integro.
A venda da crise econômica pela mídia é hoje a maior ameaça que o Brasil enfrenta. José Serra, os Marinho, os Frias, os Mesquita, os Civita e tantos outros integrantes desse grupo político que ameaça o país com sabotagem de sua economia, visando dividendos políticos, são hoje os grandes inimigos da nação, aqueles que tentam incessantemente induzir as pessoas a pararem de consumir na esperança de que a indústria e o comércio parem e o desemprego aumente, o que provocaria quebras de empresas e mais demissões.
O que José Serra e seu grupo político-midiático (supra mencionado) estão fazendo tem até nome: crime de lesa-pátria. E o pior é que a única punição que se pode imaginar viável para essa gente é a derrota nas urnas, quando, na verdade, a punição mais justa para crime dessa magnitude seria nada mais, na menos do que esses criminosos passarem uma bela temporada na cadeia.
Para aqueles que conservam a capacidade de pensar autonomamente, a entrevista do presidente do STF, Gilmar Mendes, na última segunda-feira, no programa Roda Viva deve ter despertado uma reflexão sobre como chegamos a esse ponto de aquele que preside a mais alta Corte de Justiça agir como militante de partidos políticos e defensor de interesses privados.
Se existe hoje essa situação, ela se deve a uma anomalia institucional de um país que dá a políticos o poder de moldarem o Poder Judiciário de acordo com suas visões de justiça e com seus interesses políticos e até econômicos.
Os dois piores juízes do STF – para ficarmos apenas na Suprema Corte – são Marco Aurélio de Mello e Gilmar Mendes. Ambos são especialistas em soltar escroques.
Mello, indicado por Fernando Collor de Mello, soltou o banqueiro Salvatore Cacciola para que ele fugisse do país depois de roubar suas divisas no âmbito da crise cambial de 1999, entre outros favorecimentos que deu à corrupção do colarinho-branco.
Sobre Mendes há pouco que acrescentar. Para lhe dar um rótulo de libertador de corruptos, fiquemos apenas com Daniel Dantas. Mendes foi indicado para o Supremo por Fernando Henrique Cardoso. Durante os governos FHC, também o Ministério Público Federal foi posto de joelhos diante do Poder Executivo, com a nomeação do então notório “engavetador-geral” da República, Geraldo Brindeiro.
O que ainda resta para tornar o Brasil um país minimamente civilizado é tornar sua Justiça independente e igual para todos. Esse é o grande desafio deste país.
Não adianta, inclusive, Lula ter nomeado juízes independentes para a Suprema Corte ou procuradores-gerais da República honestos e igualmente acima das paixões político-partidárias. Se for sucedido por alguém do grupo de FHC, que aparelhou o Supremo e o MPF, novos juízes como Mendes serão nomeados.
O problema está no sistema de ascensão e eleição para postos chave no Poder Judiciário. Enquanto estiver nas mãos de políticos – e presidentes da República, deputados e senadores são políticos –, continuaremos vendo surgirem aberrações como Mendes e Mello, que continuarão ameaçando a sociedade ao estarem na Corte Suprema do país para defender classes sociais e aliados políticos.
Juízes superiores de cada instância da Justiça, procuradores-gerais da República, os chefes das polícias, todos deveriam ser eleitos pela sociedade para esses cargos. E os candidatos deveriam ser habilitados para disputar com base em seus currículos. Em suma: o Judiciário tem que se tornar eminentemente técnico. É preciso despolitizá-lo a qualquer preço.
A “Roda de Vivos” prometia ser uma pantomima. Todos os entrevistadores escalados para interpelar o presidente do STF eram tidos como nada mais, nada menos do que seus afáveis e colaborativos compadres, o que fazia prever um convescote monótono. Mas não foi nada disso. O programa foi vibrante, graças à inteligência maquiavélica de Eliane Cantanhêde, com a participação coadjuvante de Lilian Witte Fibe, mediadora do programa.
Eliane, para que se tenha uma idéia, vestiu-se inteirinha de vermelho, no melhor estilo Marta Suplicy ou Marisa Letícia Lula da Silva, e foi incisiva, questionadora, sabendo ser irônica, contrapondo-se às figuras esquisitas de um Reinaldo Azevedo ou das lesmas apagadas do Estadão e do Consultor Jurídico, das quais mal lembro os nomes. Ah, Lilian também tentou representar o contraponto, mas não passou da figuração mesmo. Fez uns questionamentos, mas não soube sustentá-los - e tampouco se empenhou muito para fazê-lo.
Mas Eliane fez o circo pegar fogo. Chegou a perguntar a Mendes por que, no STF, preto, pobre e prostituta não têm vez, ou se estarem contra ele (Mendes) tantos juízes, advogados, procuradores do MPF e a opinião pública inteira não revela que algo estranho acontece. Foi no fim do programa e Eliane sustentou com brilhantismo sua argumentação.
Poderia estar elogiando o profissionalismo da jornalista da Folha de São Paulo, mas estou elogiando apenas sua inteligência. Ela, mais do que Witte Fibe e aqueles que devem ter-lhe aceitado a sugestão na tevê do Serra, sabia do papel ridículo que todos fariam se deixassem que Azevedo e as duas outras lesmas ficassem paparicando Mendes o tempo todo.
Tivessem, Eliane ou Lilian, perguntado a Mendes sobre suas relações com o PSDB e com o PFL, se tivessem tocado uma só vez no nome de algum tucano graúdo da mesma forma como se exauriram todos ali de tocar sem parar no nome de Lula, se tivessem feito os questionamentos sobre partidarismo do presidente do STF, se tivessem dito os nomes proibidos de Serra ou de FHC, daí talvez toda a brilhante encenação de Eliane pudesse ser levada a sério.
Era para ser uma pantomina, a Roda de Vivos desta segunda-feira. Mas não foi, não senhor - ou senhora. Ah, mas não foi mesmo Foi apenas mais uma farsa, ainda que um pouco melhor engendrada do que de costume.
Sapatadas em Bush
Aviões de caça de última geração: 350 bilhões de dólares
Tanques de guerra : 87 bilhões de dólares
Mísseis e anti-mísseis : 179 bilhões de dólares
Atirar sapatos no carniceiro de Washington: não tem preço, mesmo sem acertar - e a pena de dois anos de cadeia, saiu quase de graça
A nova pesquisa CNT-Sensus sobre a popularidade do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e de seu governo permite uma reflexão animadora para aqueles que, como eu, vêm cobrando do presidente que ele aumente o tom do debate político com a oposição e que comece a contestar a mídia sobretudo neste momento de crise internacional.
Aliás, a pesquisa em si mostra, mais do que números, uma tendência de fortalecimento das imagens de Lula e de seu governo, e mostra isso no momento em que está a todo vapor um debate político que o presidente decidiu comprar com meios de comunicação na questão da crise.
Desde 15 de setembro deste ano, dia posterior ao anúncio da quebra do banco norte-americano Lehman Brothers, os meios de comunicação vêm tentando fazer prevalecer a teoria de que o Brasil sofrerá os efeitos da crise tanto quanto qualquer outro país, usando como argumentos problemas localizados que ocorreram na nossa economia.
Lula, por sua vez, respondeu à mídia que a crise chegaria ao Brasil como uma “marolinha”. Naquele momento, comprou uma guerra com a mídia, que passou a divulgar ininterruptamente manchetes contendo más notícias na economia do Brasil e do mundo de forma a desdizer o presidente, a mostrar que ali estava a crise que ele minimizara.
Diante do clamor da militância, parece que Lula decidiu encarar a parada com a mídia. Passou a acusar inimigos políticos e até os meios de comunicação de estarem torcendo pela crise. Para tanto, tem usado seus compromissos públicos.
A última vez que Lula enfrentou a mídia, até o momento em que escrevo este texto, foi em discurso que proferiu na sexta-feira passada, quando chamou de “imbecil” quem torce para crise chegar ao Brasil pensando que só o presidente perderia com isso. E atribuiu essa conduta a “comentaristas e articulistas”.
Tanto a pesquisa Datafolha, divulgada há poucos dias, quanto esta pesquisa CNT-Sensus mostram uma tendência. Feitas em períodos diferentes, mostraram que a popularidade do presidente subiu enquanto ele travava esse debate com a mídia e com a oposição. As pesquisas revelam que a população ouviu os dois lados e, em maioria massacrante, em todos os setores sociais, em todos os níveis de instrução, em todas as regiões do país e em todas as faixas etárias escolheu acreditar em Lula.
E essa não é uma opinião apenas minha, mas também do diretor do Instituto Sensus, Ricardo Guedes. Ele afirma, textualmente, que “A popularidade recorde do governo Lula é conseqüência do discurso adotado pelo presidente para tranqüilizar a população em meio à crise econômica” e que “O discurso forte do Lula em termos do preparo do país para a crise faz com que o eleitor lhe dê um voto de crédito”.
A mídia comprou a briga com Lula e ele com ela. Ela diz que haverá desemprego e recessão e Lula diz que não só não haverá nenhum dos dois como ainda cresceremos num nível que, se se configurar real, fará o mundo ter inveja do Brasil.
E tal premissa tem sido confirmada reiteradamente por vários analistas econômicos estrangeiros absolutamente insuspeitos, que afirmam que nem precisaremos crescer os 4% prometidos por Lula para despertarmos a inveja mundial. Se crescermos 2,5% a 3% num mundo em que praticamente todos os países, dos mais ricos aos mais pobres, estão entrando em recessão ou em estagnação, já será uma vitória expressiva deste governo.
As apostas são enormes de ambos os lados, pois as pesquisas Datafolha e Sensus, o noticiário volumoso pregando a crise e os desmentidos de Lula, que acusam esse noticiário de torcer pelo pior, parecem claríssimos para uma população que, segundo o Datafolha, foi atingida pelo noticiário sobre os problemas econômicos numa proporção de 72%.
O Datafolha pesquisou um período e o Sensus outro, mais recente. E os dois períodos mostraram convergência de cada vez mais gente para a tese do presidente, a despeito da propaganda incessante de uma Globo, por exemplo, pregando que a crise nos pegará e que até já está nos pegando.
Pode-se depreender, também, que a população não sente a crise, e isso pode ser explicado pelos números da economia, números que mostram que estamos ainda bem longe de uma redução mais significativa da atividade econômica, no sentido de que sumam empregos e quebrem empresas.
Não está acontecendo nada mais do que redução de negócios no atacado, mas que deverão ser retomados em breve porque a população continua consumindo normalmente, atendendo inclusive a um pedido do presidente da República, que explicou ao povo, em linguagem simples e didática, que, se pararmos de consumir, aí, sim, é que o país entraria em recessão.
O que me anima é constatar que Lula parece estar entendendo que aquela história de “Lulinha paz e amor” pode ter sido muito boa algum dia, mas que não dá mais para ele ficar apanhando calado. E que, como a mídia impede pessoas como nós de protestar, só ele tem como combatê-la, na condição de presidente do país.
Antes tarde do que nunca.
Leitor denuncia pesquisa fajuta do Estadão
Eduardo,
em uma atitude que acho desesperada o site do Estadão está fazendo uma pesquisa que faz a seguinte pergunta ao leitor: "Você aprova o governo do Lula?".
Dadas as caracteristicas dos leitores do Estadão, o não está vencendo. Sugiro a todos a ida ao site para colocar as coisas em seu devido lugar. Eu já votei SIM.
Comentário: É uma tremenda malandragem do Estadão. O site do jornal não informa que é uma pesquisa sem qualquer base científica. Assim, muita gente desinformada pode acabar deduzindo que aquela é a pesquisa verdadeira.