Crônica política

Lula esculhamba mídia

com ‘luvas de pelica’

 

 

 

Nunca folheei um exemplar da revista Piauí. Cheguei a ver um deles – acho que o daquela entrevista com José Dirceu –, mas não me animei a folheá-lo. Há alguns anos, dentre os quase quarenta anos durante os quais venho acompanhando diariamente a imprensa daqui e de toda parte, descobri que você não precisa ler todos os títulos do que, nos últimos tempos, passou a ser chamado de PIG, porque são todos iguais, mas você tem que ler ao menos um deles.

Escolhi um veículo que, a meu ver, congrega tudo de “melhor” e de pior que produz a sombria entidade midiática; esse veículo “melhor” é a Folha de São Paulo, e ela já me basta. Os discursos reacionários mais imbecis e os de conteúdo inverso – dentro de “limites” – podem ser vistos nesse jornal, ainda que com preponderância clara do primeiro tipo de discurso.

Assim, entre as barbaridades que saem no Estadão ou na Veja, as piores acabam saindo na Folha, onde você também pode ler alguma coisa que os veículos menos dissimulados, mas que temem mais o contraditório, jamais publicariam. Além disso, de alguma forma meio doentia é divertido ver a Folha fazer sua ginástica diária para convencer seus leitores de que é “isenta”.

Perdoem-me este nariz-de-cera (introdução longa), que adiou a abordagem do assunto principal, a entrevista de Lula à revista Piauí. É sábado de manhã, minha filha Gabriela viaja na próxima segunda-feira para a Austrália, onde ficará estudando por um ano, e estou tentando não pensar no assunto fazendo uma das poucas coisas que me fazem sentir bem, que é alimentar este blog.

Aqui, dou-me ao luxo de expor meus processos mentais à avaliação crítica do público, com surtos de digressão e tudo. Afinal, estou meio como que um Gilmar Mendes, só que sem a sua canalhice: não estou disputando concurso de popularidade. E muito menos uma lucrativa audiência, porque ninguém me paga para escrever, sendo mais fácil que exista alguém querendo me pagar para parar de fazê-lo.

Bem, o assunto aqui era Lula e sua entrevista à Piauí. Pessoal, o Lula humilhou. Sinceramente, ele fez com que eu me sentisse um bobo por todas as matérias que escrevi aqui exortando-o a xingar a mídia, a “reagir” etc.

Claro que foi exagero eu me sentir assim. No caso da crise econômica, por exemplo, se o presidente não tivesse ido à tevê antes do fim do ano para pedir às pessoas para comprarem, para fazerem “a roda da economia girar”, e se não tivesse denunciado, em seus discursos em compromissos públicos, a torcida da oposição e da mídia pela exacerbação da crise no Brasil, agora essa crise seria mais séria do que está sendo, pois dezembro teria sido mais um mês fraquíssimo na economia, depois de um outubro claudicante e de um novembro de prostração.

A entrevista do presidente à Piauí, em síntese, não passou de uma tentativa da revista de arrancar dele ataques à mídia, mas pareceu-me que de forma a comprazer seus agressores por estarem provocando nele um dos efeitos que lhes compensaria (aos agressores) a ineficácia da estratégia de desmoralizá-lo publicamente: queriam que Lula se mostrasse atingido e magoado, demonstrando falta de tranqüilidade ou algum outro sinal de estar se deixando combalir pelos insultos, deboches e calúnias que saem na grande imprensa escrita, falada, televisada, na internet, no rádio, em telejornais, programas humorísticos, novelas e onde mais se puder imaginar.

Bem, o tal Conti, que o entrevistou, não conseguiu arrancar o que queria. Lula tripudiou, inclusive com palavras que literalmente arrasaram a mídia, sem, no entanto, parecerem duras.

O fato é que li a entrevista e depois ouvi sua gravação em áudio. Traduzindo para o literal as palavras de Lula sobre a imprensa, ditas com uma habilidade quase sobre-humana de suavizar críticas extremamente sérias, o que ele disse foi que:

-- O comportamento manipulador e partidário dos meios de comunicação, é “histórico”, o que ficou claro que foi alusão a um Jango Goulart ou a um Getúlio Vargas.

-- A mídia nunca teve preocupação de fazer coisas “favoráveis” por ele, Lula, em outra alusão clara, só que agora ao seu antecessor Fernando Henrique Cardoso.

-- O cidadão Lula nunca se preocupou muito com a falta de favorecimento da imprensa, por mais que esta pense o contrário.

-- O cidadão Lula acredita, intimamente, na inteligência do público, que saberia discernir tentativas de favorecimento ou má vontade – e má fé – contra o governo.

-- Jornalistas que o criticam parecem achar que suas críticas são recebidas por todo o público como verdade absoluta, e esses jornalistas não acreditam na capacidade de “análise” desse público.

-- A mídia perdeu poder, porque a informação hoje é muito plural, existindo várias alternativas de informação, sobretudo na internet – e, nesse contexto, ressaltou, por duas vezes, o valor dos blogs.

-- A mídia se deixa usar por determinados políticos para “plantarem” nela o que querem ver no noticiário.

-- Essa relação entre políticos e jornalistas é “promíscua”.

-- A mídia inventa “fontes” para divulgar o que lhe interessa

-- A tática da mídia de atribuir ataques e acusações a “fontes” anônimas, é “indigna”

-- O cidadão Lula não lê jornais porque lhe dão “azia”, preferindo receber de assessores só as matérias que forem “importantes”

-- A maior parte do que sai na mídia, não é importante (insinuação)

-- O cidadão Lula “raramente” vê tevê, porque não tem tempo

-- Assistir tevê é perda de tempo (insinuação)

-- A mídia “deforma” a notícia com a própria opinião, sem se importar com o fato como ele é

-- Os empresários do setor de comunicações não são melhores do que os empresários da construção civil, por exemplo, e por isso não recebem nenhum tipo de tratamento especial, mas eles querem que seja diferente (insinuação)

-- A imprensa publica mentiras e não diz que era mentira o que publicou quando se descobre que assim era.

-- Acusação de ser “chapa-branca” é usada para coagir meios de comunicação a não divulgarem fatos positivos sobre o governo

--Nunca foi provada qualquer culpa de José Dirceu, e seu acusador (Roberto Jefferson) foi cassado porque não provou a acusação que fez ao ex-ministro, que, portanto, seria inocente, apesar de a mídia tê-lo condenado com insinuações

-- A mídia só difunde o que dá “Ibope” em detrimento do que é importante, e não promove debate público sobre questões sérias.

-- A mídia trocou gente que entende de economia pelas Mirians Leitão da vida (insinuação)

-- Alegando não querer ser “chapa-branca”, mídia se transforma em “chapa-marrom”

-- Merval Pereira, do Globo, é jornalista de um pensamento só: contra o governo

-- Ali Kamel , usando o Jornal Nacional, tentou impedir a reeleição dele, Lula, em 2006 (insinuação)

-- Globo é o maior anti-Lula – conclusão por depreensão das menções particulares a meios de comunicação

-- Lula não vai às festas da Globo porque a Globo não gosta de Lula e porque este aprendeu a se respeitar, não indo aonde não gostam dele.

-- O governo gasta com publicidade oficial proporcionalmente ao público que tem cada veículo, sendo mentira que investe mais na Caros Amigos ou na Carta Capital, que recebem publicidade do governo tanto quanto os veículos que falam mal dele.

-- Um dos motivos de a mídia não gostar de Lula é porque o governo parou de aplicar mais recursos de publicidade nos grandes veículos do que a audiência que cada um tem, ou seja, ao distribuir a verba de publicidade por critérios técnicos, os que “mamavam” ficaram bravos.

-- O cidadão Lula não julga a imprensa; a história é que irá julgar...

-- Se a mídia acha que atinge Lula, segundo ele ela está enganada. Ele diz que dá muito menos importância a ela do que ela pensa.

Essas foram as críticas mais importantes que Lula fez à mídia numa entrevista que não girou sobre outro assunto. E a maior de todas as esculhambações da mídia nessa entrevista, e que algumas pessoas podem não ter notado, foi o Palácio do Planalto ter gravado a sua íntegra, revelando desconfiança do que a revista Piauí faria com as palavras do presidente.



 Escrito por Eduardo Guimarães às 14h39
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Análise política internacional

Uma proposta para Gaza

 

 

Segundo informações oficiais fornecidas pela agência EFE, em 14 dias de conflito na faixa de Gaza morreram 770 palestinos e 14 israelenses. Por esse cálculo, a cada dia 56 vidas humanas foram ceifadas, em média.

Não se sabe se a virulência do conflito irá diminuir ou aumentar. Se se mantiver no patamar atual, qualquer proposta que fosse pensada para ser analisada daqui a dois dias custaria mais de uma centena de vidas, entre as quais as de um número expressivo de crianças.

A Resolução do Conselho de Segurança da ONU pedindo um cessar-fogo levou dias a fio para sair e foi rejeitada pelos governos do Kadima, através do primeiro-ministro Ehud Olmert, e do Hamas, por meio do alto funcionário do grupo Ayman Taha.

Segundo Israel, a resolução não será aceita porque, só como exemplo, o Hamas teria disparado 20 foguetes sobre seu território apenas nesta sexta-feira. A agência EFE não publicou nenhum desmentido do Hamas. E este, afirmou que não aceita a Resolução da ONU porque não foi consultado sobre ela, que inclusive não contemplaria as “aspirações” de seu povo.

Por outro lado, a agência EFE relata que Israel está sendo acusado por vários crimes de guerra e que a ONU pretende votar moções condenatórias contra esse país. Não há, porém, nenhuma proposta prática de retaliação. E Israel já afirma que irá ignorar qualquer Resolução para que pare de bombardear a faixa de Gaza ou para que de lá retire suas tropas.

Não se tem previsão nenhuma de interrupção do conflito. Não há, na prática, nenhuma resolução de quem quer que seja que impedirá Israel de prosseguir. E o Hamas não demonstra intenção de interromper o disparo de foguetes, rojões, seja lá do que for que esteja atirando sobre o território inimigo.

A única possibilidade que vejo para um possível cessar-fogo pode estar na manifestação do Hamas de que não foi consultado. Só resta a convocação imediata de uma reunião de cúpula entre um negociador de Israel e outro da Palestina, que falem em nome de suas forças militares com os negociadores dos EUA, da ONU ou qualquer outro.

O convite poderia ser levado ao Hamas e a Israel por países considerados seus amigos e distantes da área do conflito. O negociador inicial com os palestinos poderia ser o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, bastante respeitado na região, mas, pelo lado americano, a única solução que vejo é a de se esperar a posse de Barack Obama.

A Resolução da ONU constituirá amparo legal para que Obama trabalhe mais à vontade. E as acusações de crimes de guerra contra Israel lhe darão base legal para falar mais duro com os israelenses.

É a disposição do novo presidente americano o que importará. E mesmo que ninguém queira conceder-lhe qualquer mérito moral, uma iniciativa forte como a que proponho aqui, se bem sucedida, render-lhe-ia enormes dividendos políticos.

Há um único problema em toda a minha proposta: os tais 56 seres humanos que morrerão por dia, em média, até que a tal reunião aconteça, a usarmos a média matemática supra calculada. Até que algo nesse sentido que propus possa acontecer, terão passado pelo menos uns 20 dias. Ou seja: mais de mil homens, mulheres, crianças e idosos serão exterminados.

E o pior é que essa é uma estimativa conservadora, porque com a incursão de Israel nas cidades é possível que o número de mortos passe a aumentar em progressão matemática e até geométrica. E dos dois lados, agora.

Essa contabilidade da morte é útil para fazer as pessoas se lembrarem de que todas as medidas protocolares, por si só de efeito demorado e duvidoso, se não forem acompanhadas de ações práticas não passarão de mera ilusão de que alguém está fazendo alguma coisa para acabar com aquele horror.

Por isso, insisto que alguma medida desesperada e urgente precisa ser tomada já. E a primeira de todas, parece-me que é pedir que algum negociador se reúna com o Hamas urgentemente. Já, se possível. Algum negociador que estiver mais próximo de não ser repudiado por algum dos dois lados.

Quem pudesse sugerir esse nome, daria enorme contribuição para a solução do impasse. Provavelmente os organismos internacionais, a diplomacia, podem chegar a essa pessoa. O que se faz necessário, porém, é fazer esta idéia prosperar, se é que ninguém a teve ou está tendo.

De qualquer maneira, se as pessoas começarem a pensar de forma lógica e prática, esse sentimento pode ser mais útil às vítimas de Gaza do que as execrações e convocações via internet de manifestos, petições e assemelhados, os quais jamais chegarão a lugar algum ou terão qualquer efeito prático.

Gaza precisa de propostas. Mas propostas de verdade. E rápido. O tempo está passando e as pessoas estão morrendo.



 Escrito por Eduardo Guimarães às 14h50
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Crônica política

Propostas para Gaza  

 

 

 

Continuando o mergulho que dei na questão do horror no Oriente Médio, mas de uma forma a encontrar, em algum lugar no fundo disso tudo, um único e tênue pulsar de sensatez, abro este espaço para propostas sobre como parar aquela tragédia.

Imagino que deve haver quem queira que forças internacionais entrem em choque com as forças de Israel para libertar Gaza, como imagino que deve ter quem quer que não se faça nada e se deixe os israelenses exterminar todos os palestinos que puderem até que o Hamas pare de atirar foguetes.

Não conheço propostas intermediárias. Não sei que variantes das duas propostas pode haver como soluções ideais para cada um dos lados.

O que leio aqui e em outros espaços da internet são denúncias contra os israelenses ou contra os palestinos e seus respectivos governos. Propostas aparecem em bem menor proporção, mas aparecem, e giram em torno das duas opções que apontei acima.

Deve haver outras idéias menos, vamos dizer, impraticáveis. E não é que eu seja contra alguma das duas – e sou –, mas é que ninguém bom dos miolos dirá que alguma delas será posta em prática.

País nenhum, organização nenhuma, ninguém atacará Israel em defesa dos palestinos, e estes jamais deixarão de lutar, atirando mísseis, pedras e até sapatos nos invasores, e acho que não farão isso nem se tais invasores se retirarem de volta  para o país deles.

Israel pede que parem os ataques de mísseis e a Palestina pede que lhe abram as fronteiras. Israel diz que se abrir as fronteiras de Gaza, entrarão armas para destruí-lo. Os palestinos dizem que são soberanos e que ninguém tem o direito de controlar seu território. E nenhum dos lados nem sequer cogita avaliar a posição do outro.

Num primeiro momento, poderá prevalecer a lei do mais forte. E, se as discussões persistirem nesse rumo, será assim. No médio e longo prazos, virão as vinganças. O 11 de setembro foi uma delas, ainda que não se saiba a que morticínio israelo-americano se deveu. O Islã terá muito tempo para planejar a vingança que julgará suficientemente mortífera diante do que estão fazendo com suas crianças, mulheres e velhos.

Haverá alguma proposta concreta para mudar isso? Ou alguma esperança?

Barack Obama, já se diz que não fará nada. Até Lula meteram na conversa, e ele, como seu homólogo americano, tampouco fará alguma coisa. Nem Ele vejo cogitarem que Descerá dos Céus para Punir os infiéis que se matam em Seu Santo Nome.

Afinal, quando é que a humanidade parará, por um só minuto, para se lembrar de que, enquanto os discursos brotam de ambos os lados, e cada vez mais indignados, o sangue dos inocentes jorra junto?Quando é que começarão, em vez disso, a brotar propostas concretas e plausíveis sobre como ajudar as vítimas de Gaza?



 Escrito por Eduardo Guimarães às 23h23
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Crônica política

Pensar nos que sofrem

 

Atualizado às 12h47 de 8 de janeiro de 2009

 

Meus filhos André (20), Gabriela (22) e Carla(26), e minha neta, Letícia (7)

 

Desde o primeiro minuto dessa crise no Oriente Médio, tive apenas uma preocupação: o povo palestino e, em alguma medida, o israelense. Nessas situações de crises humanitárias, tento pensar no que eu gostaria que fizessem se eu e minha família estivéssemos naquela situação, vivendo sob bombardeio, sem víveres, sem remédios, sem notícias, com minha família assustada, com mulheres e crianças em pânico, com velhos passando mal...

Penso na minha mulher estirada num canto, chorando um de meus filhos levado pelas bombas, todo estraçalhado, ou minhas filhas encolhidas num canto chorando e, no paroxismo da avaliação do sofrimento alheio, penso num filho ou numa filha em meus braços com a vida arrancada de seu corpo. Em resumo: ponho-me, e aos meus, no lugar dos que sofrem em tragédias como essa na faixa de Gaza.

Penso se essa gente que chora seus mortos e foge desesperada rumo às fronteiras da Palestina – sem, muitas vezes, conseguir fugir –, se é isso mesmo que esses pobres coitados querem, que o Hamas continue desafiando a fúria enlouquecida de Israel.

Leitores me dizem que não existe Hamas, mas o povo palestino. Devo deduzir que isso significa que quem tomou a decisão de manter o disparo de mísseis inócuos contra Israel, fornecendo-lhe a desculpa para atacar, foram os palestinos. Não sei se é isso. Se for, então quero saber o que é que se fará para ajudá-los, diante do que estão sofrendo, porque a constatação incessante de que Israel é um estado terrorista, genocida, assassino, que tem que ser julgado num tribunal internacional junto com Bush, acho que dificilmente ajudará os que estão sendo exterminados.

Neste momento, dada a inflexibilidade de Israel e devido ao poder militar que o país tem, poder que não anima ninguém a enviar tropas à região do conflito – ou do massacre, como queiram – para defender as vítimas do genocídio, fico pensando no que meus filhos e neta (vide foto acima) gostariam que eu fizesse se estivéssemos na situação daquelas famílias em Gaza. Será que eu não iria querer que o Hamas parasse de provocar Israel com seus “rojões”?

Analisei, também, os argumentos dos leitores de que o povo palestino tem direito de lutar, de defender seu país, sua forma de vida, sua soberania etc. Sim, têm razão os que falam desse direito inalienável dos povos à própria soberania sobre suas vidas, seu território. E concordo que todos os povos têm direito a defender essa soberania inclusive lutando. Porém, lutar com mulheres e crianças? Com velhos? Sem armas? Isso não é lutar, é suicídio.

Se Israel usa os “rojões” do Hamas como pretexto para causar essa carnificina – e estou apenas concedendo o mérito a uma hipótese –, por que não retirar-lhe esse pretexto simplesmente parando o disparo dos tais “rojões”? Ou será que não há “rojão” nenhum, que é tudo invenção? Se for isso, não está sendo denunciado convenientemente ao mundo, porque não haveria o que o Hamas – ou os palestinos, como alguns querem – fazer.

O governo Bush usou os “rojões” como argumento para vetar o pedido de cessar-fogo da ONU, anteriormente. Não vi textos acusando a inexistência de mísseis do Hamas sendo disparados sobre Israel. Se não estiver havendo esses disparos, é absurdo que as campanhas todas pró-palestinos não estejam denunciando que Israel inventou os ataques de mísseis do Hamas.

Tudo isso me leva a crer que esses mísseis continuam sendo disparados ao mesmo tempo em que os palestinos de Gaza estão sendo esmagados pela artilharia e agora pelas tropas israelenses. E não sei se as reais vítimas dessa situação, ou seja, as famílias como a minha, estão de acordo com a manutenção do pretexto de Israel pelo Hamas. Pode até ser que apóiem e aí, então, nem imagino o que se possa fazer, já que não dá para contar com aqueles que poderiam achar que já basta o que fizeram, mas que, em meio à carnificina, dizem que estão “só no começo”.

Não sei se me faço entender... Fico me imaginando ali, com aqueles que amo, com essas crianças que vocês vêem acima, com até minha filhinha portadora de paralisia cerebral, que não está na foto, mas que deve ter várias congêneres com problemas como o seu em meio àquele terror todo. Será que eu não estaria dizendo “Façam o que eles quiserem! Vamos fazer qualquer coisa, contanto que parem!”? Será que aquela pobre gente não está dizendo isso e líderes políticos fundamentalistas não escutam?

Se alguém puder me dar garantias de que não é assim, de que as vítimas de tudo aquilo aceitam pagar o preço para “defender a pátria”, preço que inclui filhos, esposas, maridos, pais, mães, então eu me juntarei aos que pedem penas para Israel e para os EUA que jamais virão a não ser através de ataques como o de 11 de setembro de 2001, que matou muitos que nunca cometeram crime nenhum contra os palestinos ou contra quem quer que seja.

 

Hamas deve expor Israel

 

Se for verdade, como disseram leitores aqui, que nem o Hamas parando de atirar mísseis Israel pára de devastar Gaza, o grupo islâmico deve ir a público declarar que irá parar de atirar os mísseis e que nem assim Israel irá parar a chacina. No entanto, declarações dadas nos últimos dias pelo governo israelense foram no sentido de que a suspensão do disparo de mísseis pelo Hamas seria a condição para interromper a carnificina.

Até o momento, o Hamas não declarou uma única vez que suspenderá os ataques. Pelo contrário: todas as declarações divulgadas até o momento foram no sentido de que Israel será derrotado, etc. Com uma simples declaração o Hamas pode fazer até os EUA apoiarem o cessar-fogo, pois o governo americano já declarou ser essa sua condição para apoiar a medida, de que o Hamas pare de disparar mísseis sobre Israel.



 Escrito por Eduardo Guimarães às 10h57
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Análise política internacional

Israel se enterra   

 

 

 

As cenas são indizíveis. O horror se espalha pelas telas de computador e de televisão do mundo, nas páginas dos jornais expostos em bancas, nas capas das revistas, pelos corações e mentes da humanidade inteira, despertando um sentimento de revolta que vai crescendo e que, em muitos casos, já se transformou em ódio. Conheço pessoas que jamais souberam diferenciar quem é quem no Oriente Médio ou que jamais se interessaram por nada sobre aquela região proferindo execrações horrorizadas contra “os judeus”. Esse povo está se transformando no fantasma do mundo, na besta que povoa os pesadelos da humanidade.

Minha neta viu o telejornal e ficou com medo dos israelenses que apareciam com os rostos pintados de negro em seus uniformes militares camuflados, armados até os dentes. Ela tem sete anos e entendeu perfeitamente que eles são os monstros que estão dizimando aquela gente toda estropiada. Horrorizou-se ao ver fotos de crianças da idade dela – e até menores do que ela – amontoadas em carroças como se fossem trouxas de roupa suja.

Por mais que se queira, é difícil para qualquer pessoa mentalmente sadia não sentir vontade de odiar “os judeus”. Qualquer propositura de análise de que os judeus não são todos monstros, mas parte de um complexo jogo de interesses políticos e manipulados em seu pavor diante do cerco de muçulmanos que os odeiam com toda força com que se pode odiar a quem nos destroça as vidas, tal propositura é vista como cumplicidade com o regime assassino israelense.

Pelo mundo, legiões de pessoas de todas as raças, de todos os credos, de todas as classes sociais e até da imprensa – que, constrangida pelo tsunami de indignação, tem que divulgar as imagens e os detalhes sórdidos do morticínio perpetrado por Israel, a quem sempre protegeu –, todas essas multidões saem pelas ruas furiosas, indignadas, horrorizadas, violadas em seu mais profundo senso de humanidade, de decência...

Israel, olimpicamente, ignora tudo, repetindo versões que já se tornaram mantras – sobre os mísseis que o Hamas atira sobre seu país –, e vai cometendo cada vez mais erros, pois luta contra o tempo, haja vista que as eleições se aproximam e aqueles tidos pela maioria da população como suficientemente desumanos para atacarem com mais ferocidade ainda – ou seja, a extrema direita israelense – despontam como claros vencedores, o que obriga os atuais ocupantes do poder a darem declarações frias, impassíveis e a demonstrarem “método” na chacina.

O governo israelense tenta provar ao eleitorado que pode ser mais desumano que a extrema direita e que planejou detidamente os castigos que ora impõe, e trata de fazê-lo rapidamente, não só por conta das eleições, mas também por conta da posse de Barack Obama, no próximo dia 20.

A meu ver, o governo de Israel se aproveita do restinho do governo sanguinário de George W. Bush porque teme que sob Obama não receberá aval para praticar seu estelionato eleitoral sangrento com vistas às próximas eleições. No entanto, o silêncio do novo presidente americano já lhe causou perda de popularidade, pois ninguém mais acredita que ele fará alguma coisa pelos palestinos estropiados até a alma, até porque já se diz que não sobrará nada deles até que Obama assuma o cargo.

Por outro lado, o Hamas vai se tornando o único grande vencedor do massacre – não dá nem para dizer que há guerra, nem mais com os mísseis de festim do grupo radical islâmico, que não conseguem produzir uma única cena de horror entre os israelenses.

Vi, nestes dias, uma reportagem na televisão que mostrava “o sofrimento dos dois lados do conflito”. Acho que foi na Globo. Enquanto as imagens mostravam crianças palestinas empilhadas mortas, com seus rostinhos de anjo, olhos abertos e sem luz, todas dilaceradas, em cenas de cortar o coração mais empedernido, enquanto via as mulheres, crianças, velhos e homens correrem desesperados por ruas em ruínas, um grupo de israelenses corria, sorridente, para um abrigo antiaéreo numa marina de luxo, com restaurantes, etc., à beira de um rio em Israel.

Como, diante desse verdadeiro, legítimo genocídio alguém pode falar dos mísseis que o Hamas continua atirando continuamente sobre Israel? E a total ineficácia dos mísseis do grupo político-militar islâmico ainda se torna outro argumento para confirmar a desproporção entre as forças de um lado e de outro e entre a quantidade de mortes que cada um é capaz de provocar.

Torna-se absolutamente inviável perguntar por que o Hamas não pára de atirar mísseis sobre Israel nem com seu povo sendo esfacelado, pois até já se defende que as forças palestinas continuem lutando.E tampouco alguém consegue perguntar se os palestinos em fuga pelas fronteiras ou se os que tentam fugir e não conseguem não acham melhor se entregarem todos de uma vez aos israelenses, povo e Hamas. Não dá para tirar as cenas de horror da cabeça. Não importa por que o Hamas continua mandando mísseis inócuos sobre Israel. Afinal, pelo menos assim pode-se tentar matar alguns israelenses...

Mas será que o Hamas se entregar não daria pelo menos um tempo ao mundo para se articular, para interromper a matança por um tempo a fim de as partes sentarem-se à mesa de negociação?

Ninguém quer saber desse assunto. Não dá para pensar. O horror das imagens faz corações baterem mais forte, estômagos se contorcerem, as pessoas sentem engulhos. Chega a ser desumano até com os meros e distantes espectadores. Eu mesmo derramei lágrimas diante da cena de três crianças... Bem, foi uma cena terrível, que jamais esquecerei. Apenas lembrar já é doloroso.

Enfim, Israel se enterra a cada dia. E quando Obama assumir, encontrará os corpos fumegando, convocará alguma conferência de paz que dificilmente dará certo, ao menos no momento, e já assumirá o governo daquele país escangalhado pela crise econômica em débito próprio com seu compromisso de campanha de melhorar a imagem de seu país diante do mundo, pois o repúdio aos EUA explodiu junto com o repúdio a Israel. O silêncio que Obama pretendeu estratégico, foi pior do que ter tentado passar a conversa no público, como os políticos sabem tão bem fazer.

Obama só tem uma chance de melhorar sua imagem: terá que enquadrar Israel e até agir de moto próprio para ajudar a transformar a faixa de Gaza num lugar decente e seguro para aquele povo viver. Isso se tiver pretensão de ajudar seu país de alguma forma e de não ver seu governo acabar antes de começar. Aliás, de não expor os EUA à possibilidade de pagar, junto com Israel, o preço desse crime contra a humanidade que está sendo cometido. Aliás, se formos analisar o sentimento do mundo hoje em relação a americanos e israelenses, se ocorresse um outro 11 de setembro, tenho certeza de que bilhões de pessoas pelo mundo afora simplesmente adorariam.

No fim, praticamente todos perdem. Israel, EUA e seus povos fatalmente serão alvo, em algum momento futuro, de algum ataque avassalador. A vingança, naquela parte do mundo, no Oriente Médio, é prato que se come bem frio e bem, bem tarde. Muitas vezes, quando ninguém mais se lembra do que a provocou. Os palestinos, o povo, nem se fale. Ninguém perdeu mais do que eles. Quem pode ter lucrado, até agora, foi o Hamas. Conseguiu, em sua estratégia militar, colocar o planeta inteiro contra Israel. Está vencendo o conflito de lavada.



 Escrito por Eduardo Guimarães às 15h36
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Análise econômica

Números que mentem  

 

 

 

Notícia que saiu ontem em portais de internet da imprensa corporativa (Organizações Globo, Grupo Folha, Grupo Estado etc) e hoje nos seus jornais, trata de manipular números de forma a enganar o leitor, de induzi-lo a crer numa tragédia que teria sido a maior derrocada da economia brasileira nos últimos 13 anos, o que deveria ter provocado uma onda de demissões em massa sem precedentes neste período recente e até em outros.

No meio da tarde de terça-feira, dia 6 de janeiro de 2009, as manchetes dos grandes portais de internet avisavam sobre a maior queda na produção industrial desde 1995, em mais de uma década. A desgraça seria pior do que aquela que se abateu sobre o país em 1999, quando o Brasil quebrou, o desemprego e a inflação explodiram e tivemos que nos socorrer de 40 bilhões de dólares de empréstimos do FMI e dos EUA.

Então, meu caro leitor, se você não fez isso ainda, com esta notícia você pode ir tratando de pôr as barbas de molho, porque o seu emprego já era. Cancele os cartões de crédito da mulher e dos filhos, venda seu carro, troque as lâmpadas de casa. Nada mais de iogurtes, queijos, vinhos ou qualquer outro luxo que lhe apeteça, nem que seja um torresminho e uma gelada. Você, agora, se tornará um ferrado na vida.

Mas talvez você queira pensar melhor... Será que a situação é tão feia quanto dizem as manchetes? “Maior queda na produção industrial desde 1995”... Foi falta de demanda? O que foi que aconteceu?

Andei fuçando nos números do INA (Índice Nacional de Atividade), apurado pelo IBGE. Achei os números no site da Fiesp. Esses números, segundo a entidade, sofreram ajuste sazonal e mostram, de janeiro a outubro de 2008, o comportamento da atividade industrial que costuma haver em cada mês do ano de acordo com os fatores que determinam queda ou aumento na atividade deste ou daquele setor.

A pesquisa abrange os seguintes setores:

Indústrias de Transformação

Fabricação de alimentos e bebidas

Fabricação de produtos têxteis

Fab. de celulose, papel e prod. papel

Edição, impressão e reprod. gravações

Fab. coque, refino comb. nuclear, álcool

Fabricação de produtos químicos

Fab. de artigos borracha e plástico

Fab. produtos minerais não-metálicos

Metalurgia básica

Fab. prod. metalicos - excl. máquinas

Fab. de máquinas e equipamentos

Fab. máq. e equip. escritório e inform.

Fab. máq., aparelhos e mat. elétricos

Fab. mat. eletrônico e equip. comunic.

Fab. veículos automotores

Fab. outros equipamentos de transporte

Fab. móveis, indústrias diversas

Nesses setores todos, o nível de atividade industrial ficou da maneira que vocês vêem abaixo, no acompanhamento mês a mês. Analisem que eu volto logo depois dos números.

 

Período                    Pontuação Variação

janeiro       de 2008   2465,00

fevereiro    de 2008   2495,56  1,24%

março        de 2008   2401,96 -3,75%

abril           de 2008   2517,87  4,83%

maio           de 2008   2446,17 -2,85%

junho          de 2008   2519,69  3,01%

julho           de 2008   2551,65   1,27%

agosto        de 2008   2449,08  -4,02%

setembro    de 2008   2556,67  4,39%

outubro      de 2008   2592,76  1,41%

 

Vocês perceberam, é claro, o sobe e desce do nível atividade. Com esses números, pode-se fazer muitas “brincadeiras” numa planilha do Excel. Por exemplo, pode-se dizer que até outubro a atividade deste ano cresceu 5,53%, segundo o INA. Em novembro, teria havido uma queda maior da atividade industrial, segundo a mídia. Mas tem um detalhe: tal queda se deve não à falta de mercado, de consumidores, mas à falta de crédito.

Não será suficiente, porém, para exterminar o crescimento da economia no quarto trimestre de 2008, porque ainda entra em campo o fator demanda, vendas no comércio, que em dezembro explodiu, com forte crescimento sobre um patamar altíssimo, o de 2007.

Tem-se como fatores determinantes desse fato a retomada de vendas de veículos novos graças à redução do IPI sobre esse produto e a retomada da concessão do crédito pelas instituições financeiras, que todos sabem que aumentou no Brasil por conta de medidas do governo tais como liberação do depósito compulsório dos bancos e abertura de linhas de crédito nos bancos estatais.

O cenário é de franca recuperação da atividade e do crédito. E demissões, que são o que importa para a atividade econômica, têm custo elevado para as empresas num momento em que não se pode prever o que acontecerá com a economia, mas no qual já se percebe reações em vários setores. Não há, portanto, absolutamente nenhum fator lógico em previsões catastróficas sobre a economia. Pelo contrário.

Sugiro, pois, que você não pare de comprar seus queijos e vinhos ou seu torresminho e sua gelada. Não venda seu carro nem deixe de consertá-lo, se estiver com defeito. Compre iogurtes para as crianças. Não deixe ninguém andar com sapato furado. Seu patrão não irá demiti-lo agora, pagando de uma vez vários meses de salário, multa sobre o FGTS etc., se daqui a 3 ou 4 meses tudo estiver normal. O fator determinante de problemas na economia foi falta de crédito, e esse crédito já está retornando. Ninguém nega isso.

Cheguei a ter 40 funcionários na empresa que eu tinha na época do FHC. Sei muito bem que com a tragédia econômica daquela época e tudo, nós empresários éramos obrigados a tentar manter os empregos o máximo possível.

As pessoas precisam entender que é só nas situações limite, quando não há perspectiva nenhuma de retomada da atividade econômica que se põe pais de família na rua. E nem é por bondade, mas por não ser boa prática administrativa pagar 3, 4 meses de salário para um funcionário, ao mandá-lo embora, para depois de 3, 4 meses ter-se que contratar pessoal de novo.

Não creia na crise. Não creia nos números da mídia. Nos números, como em tudo nesta vida, é possível mentir descaradamente falando só a verdade.



 Escrito por Eduardo Guimarães às 17h22
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Denúncia

Buraco expiatório  

 

 

 

Pode não ter sido entendida completamente a razão de eu ter republicado, no post anterior a este, artigo que escrevi em 6 de abril de 2007 sob o título “A verdade sobre o Caos Aéreo”. É natural, porque os não-dotados de capacidade de ler mentes não poderiam saber o que se passava na deste observador dessa palhaçada em que se converteu o jornalismo brasileiro quando ele republicou aquele texto.

Alguns dirão que palhaçada não traduz exatamente o que é que infestou os grandes meios de informação coletiva, pois o que fazem é um atentado à ética, à decência, ao interesse público e, sobretudo, à justiça humana. Já a Justiça de Estado, esta é co-protagonista da comédia, do espetáculo de humor negro que foi o anúncio dos indiciamentos dos responsáveis pelo desabamento de uma rua inteira sobre uma obra do Metrô de São Paulo em janeiro de 2007, há dois anos.

Os jornais de hoje anunciaram que "o Ministério Público Estadual decidiu responsabilizar criminalmente um ex-diretor do Consórcio Via Amarela, um ex-gerente do Metrô de São Paulo e outros 11 técnicos pela cratera que deixou sete mortos na estação Pinheiros da linha 4-amarela, em janeiro de 2007."

Recentemente, os desastres com o avião da Gol, em 2006, e com o da TAM, em 2007, voltaram ao noticiário e provocaram tremendas discussões sobre o governo Lula. Não faltaram, nas Globos, Folhas, Vejas e congêneres as acusações políticas por conta daquelas tragédias.

No momento em que completam dois anos da tragédia que matou “apenas” 7 pessoas num desastre de proporções cataclísmicas como o da rua que afundou em São Paulo sobre a obra da linha 4 do Metrô paulistano só porque pouca gente passava pelo local na hora, achei “interessante” compararmos como os meios de comunicação trataram cada caso ontem e como continuam tratando hoje.

O artigo “A verdade sobre o Caos Aéreo”, publicado originalmente neste blog em 6 de abril de 2007, revela no que se transformou a cobertura de dois acidentes aéreos que ninguém, em sã consciência, à luz dos fatos, hoje, ao menos, pode dizer que foi causado indubitavelmente pelo Estado. Isso, entretanto, como mostra o texto pretérito sobre ao menos um daqueles desastres, não foi entendido pela mídia, que tratou de dar conotação política a eles acusando o governo Lula em detrimento de causas possíveis e muito mais prováveis para tais desastres terem ocorrido.

No caso do acidente com o avião da Gol, em 2006, em plena campanha eleitoral para presidente da República, acidente no qual um jatinho particular bateu num avião de passageiros daquela companhia aérea derrubando-o e matando todos os seus ocupantes, hoje se sabe que é incontestável o que escrevi há quase dois anos, que os pilotos americanos desligaram o transponder, equipamento do jatinho que teria evitado a tragédia, e que essa foi a causa central e determinante do acidente.

Já no caso do avião da TAM que bateu contra um prédio em frente ao aeroporto de Congonhas, em São Paulo, o jornal de maior circulação no país, a Folha de São Paulo, tratou de publicar chamada de capa para artigo que acusava o governo Lula de ter matado as vítimas do acidente. Contudo, hoje se sabe que havia defeito no avião da companhia privadaTAM, que foi responsável única pela tragédia, pois ninguém pode exigir que governo nenhum, de parte nenhuma do mundo, examine cada componente mecânico ou eletrônico de cada avião que levanta e que baixa vôo em seu país, o que torna óbvia a afirmação de que não se pode acusar o governo pela tragédia.

Nos dois casos, a mídia que os transformou em responsabilidade do governo Lula elenca uma série de outros fatores de responsabilidade desse governo que também teriam contribuído para o acidente, apesar de admitir que, mesmo que tais fatores não estivessem presentes, o acidente teria ocorrido da mesma forma. Tais fatores seriam erro dos controladores de vôo, no caso do avião da Gol, pois não avisaram os pilotos do plano de vôo errado, e falta de “grooving” na pista, no caso do avião da TAM. Esses fatores foram apresentados como causas principais na época dos acidentes e continuam sendo apresentados até hoje.

Então chegamos ao presente e vemos que, no caso do buraco do Metrô em São Paulo, em janeiro de 2007, nem na época em que ocorreu e muito menos hoje foi tratado como responsabilidade de governo nenhum, apesar de que, neste caso, a tragédia foi incontestavelmente causada pelo governo de Geraldo Alckmin. Não existiram transponder ou manete para o desastre ocorrer. Ocorreu porque a obra foi malfeita. Ocorreu porque o contrato firmado pelo governo tucano com o Consórcio Via Amarela foi malfeito, porque não previu fiscalização eficiente. Fiscalizar uma obra daquele porte não é o mesmo que checar, peça por peça, cada um dos milhares de aviões que decolam e pousam num país. Por isso, acidentes aéreos por falha no equipamento acontecem em qualquer parte do mundo, mas obras de metrô dificilmente desabam em qualquer parte.

Agora pegam alguns bodes expiatórios enquanto os políticos e empresários responsáveis pela perda de vidas e pelo enorme prejuízo econômico ficam tranquilinhos, sem ninguém ter como acusá-los de nada, justamente porque as mesmas Globos, Folhas e Vejas bloqueiam qualquer acusação ao governo tucano de Geraldo Alckmin e ao consórcio de empreiteiras que fez uma obra malfeita, irresponsável e criminosa sob os olhos displicentes – ou seria corruptos? –daquele mesmo governo que é investigado hoje na Europa por envolvimento fraudulento com um grande grupo privado, a Alstom.

Mas o mais espantoso de tudo isso, nem é o fato de que o governo federal ainda não teve a imagem afetada por canalhices do porte dessa que acabo de relatar. O mais espantoso é o sentimento de indignação que me toma por saber que o grupo político que causou o desastre na obra do Metrô em São Paulo foi beneficiado pela mídia e até por essa Justiça que se limita, no caso claro de negligência do governo do Estado que é o buraco do Alckmin, a não fazer nada contra o titular desse governo, que, aliás, foi beneficiado porque se manteve no poder, já que o manipulável público paulista não se deu conta de tantos outros “buracos” nos sucessivos governos do PSDB no Estado de São Paulo.

O fato é um só: se fosse Lula que tivesse assinado um contrato fraudulento como o do Metrô com a Via Amarela, falariam até em impeachment. Se nos acidentes aéreos não houvesse provas de que seus causadores foram os pilotos do jatinho Legacy e a companhia aérea TAM, haveria mais do que a CPI que houve – e que em São Paulo não houve –, haveria tentativa de derrubar o governo do país.

Quem fará alguma coisa?

Aliás, o que fazer?

Ficará assim mesmo?

Cadê os partidos?

Cadê os sindicatos?

Cadê a sociedade civil?

Agora transformarão em bodes expiatórios só os funcionários do último escalão do Estado e das empreiteiras.

E a Justiça, não fará nada?

Do que é que nós estamos falando aqui, afinal?

Não é de caos institucional no país?

Não é de apropriação das instituições por meia dúzia de políticos de oposição e de empresários, inclusive do setor de comunicações?

O buraco do metrô em São Paulo, em vez de condenar, expiou a culpa de seus autores. Virou um buraco expiatório.



 Escrito por Eduardo Guimarães às 13h18
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Memória do blog

A verdade sobre o

Caos Aéreo

   Escrito por Eduardo Guimarães às 09h30 de 6 de abril de 2007  

 

 

A grande imprensa escrita e a de rádio e televisão tentaram transformar em grave problema estrutural do sistema aeroportuário e do sistema de monitoramento da aviação brasileira um simples movimento grevista de controladores de vôo, que, sem mais nem menos, fez surgir enormes problemas no tráfego aéreo brasileiro a partir de setembro do ano passado, logo após o desastre entre um boeing da Gol e um jatinho Legacy.

Depois do desastre aéreo supra mencionado, donos de meios de comunicação - tais como a família Frias, da Folha de São Paulo, ou a família Marinho, dona das Organizações Globo, bem como outras grandes corporações midiáticas familiares - viram no acidente causado pelo abuso de dois pilotos e de um jornalista norte-americanos, que testavam um jatinho da Embraer modelo Legacy, a oportunidade de criarem uma crise já no início do segundo mandato do presidente Lula.

O que aconteceu no acidente do ano passado foi o seguinte: os pilotos americanos desligaram, em pleno vôo, equipamentos de segurança do jatinho tais como o transponder, que serve para impedir colisão de aeronaves. Não se sabe exatamente qual a causa disso, mas a perícia na caixa-preta do jatinho revelou diálogos em que os pilotos afirmam claramente que desligaram os equipamentos de segurança.

Até o presente momento, depois de seis meses de investigação do acidente, não há um só indício consistente de que algum outro fator que não o desligamento de equipamentos do jatinho Legacy tenha causado a tragédia. Porém, a mídia começou a veicular acusações contra os controladores de tráfego aéreo de que teriam falhado no controle do espaço aéreo em que ocorreu o acidente. Contra a parede, os controladores passaram a dar declarações em"off" de que suas condições de trabalho eram inadequadas, apesar de que tais condições eram as mesmas de sempre sem que nunca tivesse ocorrido problema semelhante. Logo em seguida, os controladores foram procurados por políticos da oposição tucano-pefelista que os insuflaram a começarem um movimento grevista por melhores salários e menor carga de trabalho, o que sempre soa como música para qualquer categoria profissional.

A mídia começou a falar, por exemplo, dos salários dos controladores de vôo. Ganhariam muito mal exercendo uma função vital e o problema foi atribuído ao governo Lula. A mídia fez até comparações com os salários dos controladores de vôos de outros países para comprovar a tese de que o acidente aéreo envolvendo o boeing e o Legacy fora causado por uma inabilidade gerencial do governo federal que rotulou como "apagão aéreo", obviamente visando equiparar o movimento grevista dos controladores de vôo insuflados com o racionamento de energia elétrica imposto pelo governo FHC por falta de investimentos em geração de energia elétrica ao longo de seu mandato de oito anos.

Vejam bem, as condições de trabalho dos controladores de vôo e a estrutura do sistema aeroportuário e dos equipamentos de controle de tráfego aéreo eram as mesmas no tempo de todos os outros governos, mas a culpa pelos baixos salários e pela falta de equipamentos virou obra do atual governo. O mesmo a mídia não faz com os policiais de São Paulo, por exemplo, subordinados a governos do PSDB há mais de doze anos e que ganham entre os piores salários do país no Estado mais rico da federação, e que, a exemplo dos controladores de vôo, também exercem função vital para a sociedade.

Vitimizados pela mídia e insuflados por políticos da oposição tucano-pefelista com os quais passaram a manter reuniões freqüentes, os controladores de vôo começaram a ser induzidos por órgãos de imprensa e oposicionistas a manterem uma interminável "operação tartaruga", que, logo após o acidente aéreo do ano passado, passou a infernizar a vida das classes A e B, que são, majoritariamente, as classes sociais que mais poder de pressão têm. Também insuflados pelo noticiário, madames e doutores começaram a ter ataques histéricos, ditos manifestações de "civismo", em aeroportos, chegando ao ponto de partirem para a violência física e para a depredação.

A maioria das televisões privadas, sobretudo a Rede Globo, passou a manter equipes de cinegrafistas e repórteres a postos nos aeroportos para registrarem qualquer ocorrência. Na falta de atrasos maiores nos vôos, a mídia começou a enfiar outros problemas no tal do "apagão aéreo", depois transformado em "caos aéreo", porque o logotipo criado anteriormente havia se mostrado insuficiente para desgastar a imagem do governo Lula. Problemas climáticos ou até a invasão de uma pista de pousos e decolagens por um animal passaram a integrar o "caos aéreo". E então começaram, vindas "não se sabe" de onde, as sabotagens em equipamentos de aeroportos...

Poucos dias antes da paralisação geral dos controladores de vôo militares ocorrida na última semana de março, esses controladores reuniram-se com políticos do PFL. Poucos dias depois, implantaram um estado de pânico no país justamente num momento em que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva havia embarcado para o exterior. Então, o caos se instalou, de fato, nos aeroportos de todo país, totalmente paralisados por falta de controladores de tráfego aéreo.

Diante de uma situação como aquela, com passageiros partindo para a agressão física de funcionários de companhias aéreas e para depredação de instalações delas nos aeroportos, enfim, pelo verdadeiro caos que se instalou no país com a paralisação quase que total de seu tráfego aéreo, o presidente da República, inteligentemente, acalmou os grevistas prometendo-lhes tudo que queriam a fim de evitar que um processo demorado de negociações se instalasse enquanto o país começava a se incendiar, sobretudo graças às chamadas intranqüilizadoras da mídia insuflando a população a protestar e os grevistas a manterem o estado de greve.

Surpreendida pela reação inesperada de um governo que pensou que seria paralisado pelo seu estratagema, a mídia partiu para a ignorância.

Depois dos controladores de vôo e dos passageiros, a mídia passou a insuflar os comandantes militares contra o governo. Transformou descontentamentos políticos antigos da caserna em incentivo a uma "crise militar", agora também repercutindo que o governo tinha ensejado "quebra de hierarquia" dos sargentos controladores de vôo, numa clara tentativa de criar uma crise institucional no país. Declarações de militares de linha dura e de alta patente contra o governo "comunista" e "esquerdista" de Lula começaram a ser reproduzidas em escalada. Mas agora, com a greve da última semana de março, o governo percebera o que se escondia por trás dos problemas no tráfego aéreo.

Depois de lograr pôr fim, com rapidez recorde, ao movimento paredista, o presidente Lula voltou atrás na promessa de conceder aos controladores de vôo tudo o que quisessem. Uma promessa que logrou impedir que um país continental mergulhasse no caos por falta de aviação civil. O governo passou a bola para os comandantes militares, que conseguiram enquadrar os grevistas porque, após serem atendidos pelo presidente, passaram a ser atacados pela mesma mídia que os vinha afagando e repercutindo as reivindicações e lembrando, sem parar, suas "más condições de trabalho". Foi aí que eles finalmente entenderam que vinham sendo usados.

Na primeira quinta-feira de abril, os controladores de vôo, agora sabedores do ardil engendrado pela oposição e pela mídia e no qual haviam caído, divulgaram uma "nota à sociedade" na qual pediram perdão pelo desatino que cometeram, obviamente convencidos de que foram transformados em instrumentos de grupos políticos. Como por mágica, então, a normalidade voltou aos aeroportos.

A mídia, mais uma vez, ficou inconformada. Os controladores eram a base do "caos aéreo" que ela vinha construindo dia após dia, semana após semana, mês após mês. De repente, mídia e oposição perderam uma massa de manobra que vinha sendo levada para onde quisessem e que mantinha acesa a chama da crise no setor aéreo. Então, passou a dizer que não adiantará os controladores de vôo saírem do estado de greve e abandonarem a "operação tartaruga" que vinham fazendo, porque haveria "outros problemas" no tráfego aéreo brasileiro tais como "overboking" (venda de passagens, pelas companhias aéreas, maior do que o número de assentos nos aviões) e falta - ou obsolescência - de equipamentos. A mídia só não explica por que antes de setembro do ano passado essas deficiências não causavam os problemas que surgiram depois do acidente com o boeing e o Legacy.

É óbvio que a mídia e a oposição conseguiram ao menos uma coisa: enxertando uma crise no setor aéreo, conseguiram impedir o avanço do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) do governo federal, que políticos do PSDB e do PFL (não aceito chamar o PFL de democrata) já dizem que, se der certo, será um golpe fatal em suas pretensões de vencerem a eleição presidencial de 2010.

Tudo o que relatei aqui está sendo censurado. Todos os meios de comunicação de maior alcance - e, portanto, sempre vinculados, de alguma forma, às famílias midiáticas - não permitem nenhuma difusão de idéias que lhes denuncie o papel de incendiários. Assim, a única forma que vejo de contar à sociedade a verdade sobre o "caos aéreo" é se cada um que ler este texto se incumbir de espalhar o que leu. Assim, se você concorda comigo, se sabe que falo a verdade, imprima este texto e distribua onde puder. No trabalho, nas ruas, em qualquer lugar em que lhe seja possível. Podemos derrotar a mídia. Só temos que tomar atitudes em vez de só ficarmos esperneando.

 

    Escrito por Eduardo Guimarães às 09h30 de 6 de abril de 2007 



 Escrito por Eduardo Guimarães às 18h45
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Análise política internacional

Um plano para a paz

 

 

Por mais que pareça megalômano um cidadão comum elucubrar sobre como conter o massacre israelense na faixa de Gaza, andei refletindo sobre uma proposta do regime iraniano que mostra como o principal problema hoje no Oriente Médio é o adesismo de boa parte dos países da região aos interesses ocidentais.

Os países muçulmanos têm manifestado repulsa ao morticínio promovido por Israel, mas duvido de que tomarão medidas para obrigar o consórcio americano-israelita a parar de exterminar vidas inocentes em Gaza.

Vejam só a proposta do general iraniano Mirfeysal Bagherzadeh, que sugeriu que os países muçulmanos cortem o fornecimento de petróleo às nações que apóiam Israel em represália aos ataques aos palestinos, no que foi apoiado pelo porta-voz do Ministério de Relações Exteriores iraniano, Hassan Ghashghavi.

Seria possível que até a Venezuela se juntasse ao boicote, ainda que, fustigado pela queda abrupta e profunda do preço do petróleo, o país de Hugo Chávez talvez não tivesse condições econômicas para tanto.

Mas acredito ser possível que a suspensão de fornecimento de petróleo aos Estados Unidos obrigasse a superpotência a determinar que Israel aceitasse um cessar-fogo.

Restaria, porém, o fato de que o cessar-fogo não poderia ser aceito somente por Israel, tendo que ser aceito também pelo Hamas, que continua atuando como se estivesse vencendo o conflito apesar de os palestinos estarem sendo exterminados com uma velocidade assustadora.

Diante da derrota iminente, porém, não creio que seria difícil os países árabes arrancarem do Hamas a contrapartida para o cessar-fogo israelense, de que pare de atirar mísseis sobre o território inimigo.

Contudo, a comunidade árabe, em boa parte, ou é aliada dos EUA ou não tem interesse, para além da retórica, de se meter com os americanos. Aquele milhão e pouco de palestinos não pode contar com ninguém. A ingerência ocidental no Oriente Médio não é apenas tolerada por grande parte dos países da região, mas desejada em troca dos dólares que fazem a festa de vários daqueles países.

Alguns dirão que os americanos não poderiam ceder a “chantagem”, mas se essa medida de boicote fosse adotada já, na transição do governo americano, este, agora sob Barack Obama, poderia ceder, sim, sob a desculpa de que o que mudou foi a visão do novo governo do país.

Pobres palestinos. Além de prisioneiros de interesses políticos do próprio lado e do lado inimigo, cegos pela ignorância e pelo fundamentalismo ainda apóiam um grupo político que os está usando como buchas de canhão.



 Escrito por Eduardo Guimarães às 11h26
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Nota de esclarecimento

Isenção não tem lado

 

 

Só posso atribuir a uma falha em minha capacidade de me comunicar que minha posição em relação ao jornalismo não seja compreendida em sua completude por ao menos uma parcela dos meus leitores, em que pese que eu acredite – ou que queira acreditar – que a maioria de vocês, inclusive na parte “silenciosa” do leitorado deste blog, compreende o que e por que digo o que digo.

Para os que divergem de mim ideológica e politicamente, é mais confortável atribuir meus pontos de vista a eu ser “petista” e “comunista”. Todavia, é inevitável que minhas opiniões,  EM PARTE E NÃO NO TODO, atraiam ALGUMAS pessoas que concordam com elas porque se coadunam com seus interesses e/ou pensamentos políticos e ideológicos, e não porque as julgam corretas.

Defesas que faço do governo Lula e de seus pares latino-americanos que com ele partilham convicções e práticas administrativas, são confundidas. Não duvido de que UMA PARTE dos que acompanham este blog tem certeza de que meu trabalho aqui tem origem sectária, mesmo que tal entendimento não seja consciente.

Bom seria que todos entendessem por que critico a mídia sem que eu tivesse que explicar. Estaríamos a um passo de um grau mais alto na escala civilizatória. Na falta da situação ideal, devo explicar que o que está no âmago de minhas preocupações é não se poder confiar nas informações que se recebe dos grandes grupos de comunicação de massas.

Alguns pensam – e não são necessariamente os que divergem de mim – que eu gostaria que a mídia defendesse o governo Lula ou seus homólogos latino-americanos, quando, na verdade, o que eu quero é que os fatos sejam tratados como eles são, sem vieses, sem dirigismos, sem tentativas de induzir o público a esta ou àquela conclusão.

Com efeito, se a mídia tratasse a política brasileira e latino-americana com seriedade, eu me tornaria muito mais crítico em relação ao governo e muito menos crítico em relação à oposição, obviamente que dentro do limite do que julgo ser a forma mais correta de governar, que guarda divergências muito mais profundas com a direita do que com a esquerda por estarmos num país injusto e socialmente atrasado.

Sempre digo que, se eu vivesse na Suíça, por exemplo, talvez eu fosse de direita, porque é uma sociedade que já superou suas carências sociais básicas. Já em um país do Terceiro Mundo, ser de direita é uma canalhice, para dizer o mínimo, porque as carências sociais escandalosas desse tipo de sociedade, mais do que injustas, são desumanas, e só a esquerda contempla o equacionamento delas.

O jornalismo não tem que fazer pregações, não tem que induzir ninguém. A função do jornalismo é informar, e apenas isso. O julgamento do que é certo ou errado, melhor ou pior, cabe ao público.

É evidente, porém, que a imprensa pode – e até deve – oferecer opiniões, até para expor quais são as correntes de pensamento das sociedades, mas essas opiniões devem circunscrever-se a espaços bem identificados, jamais se mesclando com a reportagem dos fatos, e sempre que forem expostas devem contemplar todas as correntes de pensamento.

Vejam só essa tragédia no Oriente Médio, como exemplo. Não é papel da imprensa condenar ou absolver algum dos lados, por mais que a conjuntura leve ao repúdio natural das ações israelenses.

Contudo, temos que entender que aqueles povos se atacam com toda a violência, insanidade e insensibilidade possíveis. Assim como Israel despeja bombas sobre civis por estarem no caminho entre o país e as forças militares adversárias, é absurdo acreditar que se os palestinos tivessem tantas armas quanto os israelenses não fariam o mesmo. Ou alguém acha que se as forças estivessem equilibradas os palestinos diriam que ali ou ali não iriam atacar porque atingiriam civis?

Aliás, é bom lembrar que os mísseis caseiros do Hamas são disparados aleatoriamente, sem preocupação com quem irão atingir do lado inimigo. Ou seja, uma ação “justifica” a outra para seus autores.

Isso não significa que não se deve criticar e pressionar o lado mais forte para que contenha o uso do seu poder. É claro que o mundo deve pressionar Israel tanto quanto possa, mas, evidentemente, não se pode deixar de considerar que se o Hamas fosse o mocinho da história ele deveria se afastar da população civil em suas ações, de forma a protegê-la. Não tenho dúvidas que o grupo político-militar está usando a população como escudo.

O horror da mortandade promovida por Israel – e que o Hamas não iguala simplesmente porque não tem como – leva naturalmente as pessoas a se indignarem apenas com um dos lados. E é até bom que seja assim, porque pressiona os mais fortes mesmo que estes não atendam ao clamor público. De qualquer forma, é melhor que sejam pressionados, para que, na falta de senso de humanidade – que nenhum dos lados parece ter – preocupem-se com retaliações que o resto do mundo poderá lhes impor.

Entretanto, não adianta pregarmos isenção da imprensa só até o momento em que ela deixe de nos ser conveniente. O julgamento que se faz de notícias isentas, é subjetivo. Cabe a cada um julgar de acordo com seus valores. Se tivermos os fatos todos e o debate entre cada corrente opinativa for livre e equitativo, ao menos estará garantido que o embate de idéias será justo.

Se amanhã a mídia começasse a massacrar a oposição tucano-pefelê e a endeusar o governo Lula, eu mudaria de lado imediatamente, pois governo sem oposição é um perigo tão grande quanto uma oposição que a mídia fortalece a fim de tentar inviabilizar aquele governo.

Isenção jornalística não pode ter lado, por mais que exista um lado natural para o qual as pessoas acabarão convergindo direcionadas pelo conhecimento dos fatos. Se a mídia chama as forças israelenses de “defensoras”, mas mostra que elas é que estão massacrando, ela se contradiz, e ninguém dirá que não está sendo mostrado que o massacre está ocorrendo e que está sendo perpetrado pelos israelenses.

Estou certo de que minha opinião neste assunto não está agradando. Sobretudo em um blog que tem um público como o deste. Se eu buscasse popularidade fácil, iria me unir à maioria e diria o que é politicamente correto, por mais que o politicamente correto, na questão palestina, não seja o mais honesto a dizer.

O preço que se paga por agir de acordo com aquilo em que se acredita não beneficia imediatamente quem diz, mas beneficia no longo prazo. Tem sido assim com o governo Lula. Quando, no auge da crise do mensalão, a esquerda, envergonhada, ficou entocada, não hesitei nem um minuto em denunciar aqui que o objetivo daquilo tudo era derrubar o governo.

Os leitores mais antigos sabem disso, sabem que a própria esquerda se encolheu e que, naquele momento, eu nadei praticamente sozinho contra a maré. E fiz a mesma coisa quando a mídia começou a alardear que o Brasil afundaria na crise. Basta lerem os comentários aqui a partir de setembro ou verificarem como o resto da blogosfera acedeu à teoria do caos, naquele momento.

Lembro-me de leitores dizendo que vinham aqui para espantar o desânimo que até os blogs mais sérios estavam deixando que se espalhasse. Eu já dizia, naquele momento, que o desânimo e o catastrofismo atendiam aos interesses da mídia e da oposição e trabalhavam contra a economia, pois desanimando os agentes econômicos o país materializaria uma crise que não tinha porque se materializar tão fortemente por aqui.

Estou tão horrorizado e revoltado quanto vocês. Sou um humanista. Quem, em sã consciência, não sabe que Israel está praticando uma carnificina? Mas este texto explica por que digo que não é na condenação única dos que massacram que está a solução desse horror. Se essa explicação ainda não pode ser entendida, paciência. Cedo ou tarde todos me entenderão.



 Escrito por Eduardo Guimarães às 16h03
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Análise política internacional

Cobertura em Gaza e o

silêncio de Obama

 

 

 

 

Pode haver quem critique a grande imprensa tanto quanto eu, mas tenho dúvidas de que alguém critique mais. Há anos incontáveis que venho dedicando horas diárias a denunciar o mau jornalismo. Contudo, a condição que me impus ao criar este blog foi a de ser honesto não apenas com seus leitores, mas principalmente comigo.

Para ser honesto, preciso admitir que a cobertura jornalística da crise em Gaza pelos grandes meios de comunicação tem transmitido os fatos. Essa cobertura tem mostrado a desproporção de forças entre israelenses e palestinos e a mortandade de civis palestinos, um massacre que tem vitimado crianças, mulheres e idosos.

Se você ficou indignado por eu ter dito que a cobertura daquela tragédia tem mostrado os fatos, faça o teste que fiz repetidamente nos últimos dias até chegar a este texto: pergunte a pessoas desprovidas de paixões sobre este assunto – e que se informam apenas pelos grandes veículos – o que está acontecendo no Oriente Médio.

Fiz esse teste com algumas pessoas nas condições acima mencionadas e nenhuma delas deixou de dizer o quanto está horrorizada com o massacre que os israelenses estão promovendo em Gaza.

Claro que quando se diz o que acabo de dizer a quem apóia a causa palestina, essa pessoa dirá que não, que a mídia está tentando fazer com os palestinos o que faz na política latino-americana, sobretudo na política brasileira, ou seja, que está tentando favorecer um dos lados – no caso, o lado israelense. Se disser a quem apóia a causa isralense, ouvirá o mesmo na direção contrária.

Não é que o jornalismo corporativo tenha resolvido se redimir de suas malandragens. O que acontece é que seria impossível esconder os fatos num momento em que os protestos contra o massacre em Gaza se espalham pelos quatro cantos do mundo. E seria uma estupidez e uma ingenuidade querer transformar as vítimas em vilões e vice e versa.

Digo isto porque as paixões nesse caso estão levando algumas pessoas a denunciarem uma manipulação que não está acontecendo. Pode até ser que uma notícia aqui, outra ali, esteja enviesada, mas, no atacado, a grande cobertura jornalística do conflito na Faixa de Gaza está transmitindo os fatos, e o exagero na denunciação de manipulações depõe contra o bom combate que precisa ser travado contra a mídia.

 

O silêncio de Obama

 

O presidente eleito dos Estados Unidos, Barack Obama, fechou-se em copas sobre o conflito no Oriente Médio, intrigando e até decepcionando parcelas da opinião pública mundial que apóiam e que repudiam as ações israelenses, e estimulando a convicção de outras parcelas que vinham dizendo que o futuro presidente estadunidense não ousará mais do que o atual.

E é aí, sim, que a mídia está promovendo manipulações, ao insinuar que o silêncio do presidente eleito denota o que ela profetizou sobre sua gestão, que não mudará nada em relação à gestão Bush.

Cabe a nós, racionalmente – porque torcida não leva a lugar nenhum –, tentarmos entender o significado da recusa de Obama de se pronunciar sobre o conflito israelo-palestino, alegando que ainda é apenas o presidente eleito e não o presidente em exercício dos Estados Unidos.

Obama assume o cargo no próximo dia 20. Não me parece minimamente polêmico afirmar que ele tem consciência das expectativas que sua eleição gerou, e todos sabem que ele mesmo tem estimulado as comparações de sua gestão com a de Franklin Delano Roosevelt e seu New Deal. E, como se sabe, Roosevelt já assumiu, digamos, “botando para quebrar”.

Todos estão vendo, escandalizados, o apoio irrestrito da moribunda gestão Bush à devastação que Israel está promovendo na Faixa de Gaza. Cabe aqui perguntar por que Obama assumiria mimetizando o antecessor já no primeiro assunto grave que pode ser afetado imediatamente pelo governo estadunidense.

Por um lado, há que lembrar que a comunidade judaica é talvez o grupo social mais poderoso dos Estados Unidos. Por outro, não podemos nos esquecer de que essa comunidade está muito mais próxima dos republicanos do que dos democratas, e de que uma das principais missões a que Obama se propôs é a de limpar a imagem de seu país diante do mundo, e tal missão sofreria um grave golpe se já no primeiro momento o novo presidente demonstrasse que seu país continuará ameaçando a humanidade.

Mas o que esse negro de nome árabe pode fazer para mostrar que seu lema de campanha é para valer?

Se Barack Hussein Obama for o homem que penso que é, ele pressionará Israel por um cessar-fogo incondicional e liderará a negociação entre os dois lados. Pessoalmente. De qualquer forma, em cerca de duas semanas saberemos se estou certo ou errado.



 Escrito por Eduardo Guimarães às 00h10
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