Nos próximos dias, pretendo discutir aqui a questão venezuelana. Haverá um plebiscito na Venezuela no próximo dia 15 propondo reeleição ilimitada para o cargo de presidente da República e quero dar-lhes a visão de alguém que conheceu bem de perto o que é a realidade político-social do país.
Antes de começarmos a discutir o assunto, porém, seria bom discutir antes de que Venezuela estamos falando. Se da "ditadura" que a mídia brasileira vende ou se da verdadeira Venezuela, que, apesar de estar numa conjuntura política que leva a excessos de ambos os lados (do governo e da oposição), sofreu uma verdadeira revolução social.
Para evitar que interrompam a discussão questionando dados inquestionáveis sobre os avanços sociais chavistas, escreverei pouco neste post, pois quero que atentem para matéria do G1, o portal de internet das Organizações Globo, que reconhece pontos importantes das transformações chavistas naquele país.
A matéria ainda tenta relativizar políticas sociais mesmo diante do reconhecimento técnico de que os avanços sob Chávez são inegáveis e profundos. Contudo, diante do que dizem especialistas insuspeitos, a matéria global teve que se render ao menos ao fato de que os avanços existiram, de que não são invencionices políticas.
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Da BBC - G1 - 31/01/09 - Em década de Chávez, pobreza caiu na Venezuela
Há dez anos, cerca de 4,8 milhões de venezuelanos viviam em situação de pobreza e a saúde e a educação eram um privilégio. Desde que o presidente Hugo Chávez assumiu o governo, a área social passou a ser prioritária em sua gestão, que contou com o incremento dos preços do petróleo para o financiamento dos projetos sociais. Até mesmo os críticos da política econômica do governo, cuja estrutura continua dependente fundamentalmente da exploração petrolífera, concordam que as condições de vida dos venezuelanos melhoraram sob a administração chavista. "Os setores sociais antes marginalizados e excluídos, realmente saíram da pobreza crítica, estão melhor, ninguém pode negar isso. Os que não comiam nem o suficiente, agora estão comendo", afirmou Domingo Maza Zavala, ex-diretor do Banco Central da Venezuela (BCV).
De acordo com o Instituto Nacional de Estatísticas, em 1999, 20,1% dos venezuelanos viviam na extrema pobreza. Em 2007, o índice havia caído para 9,5%. O número de pobres total no início do governo era de 50,5 % - mais de 11 milhões de venezuelanos. Esse número caiu para 31,5%. De um universo de 26,4 milhões de pessoas, 18,8% dos venezuelanos saíram da linha da pobreza (cálculo realizado com base nos dados oficiais).
Para o historiador norte-americano Steve Ellner, professor da Universidade dos Andes, no Estado de Mérida (Venezuela), entre apostar no desenvolvimento econômico e na industrialização do país ou investir no setor social, Chávez privilegiou o segundo na divisão da renda obtida com o petróleo. "No curto prazo, programas de desenvolvimento econômico teriam dado resultados mais rápidos, mas a prioridade era o social", afirmou.
O relatório da Cepal de 2008, que aponta a diminuição da pobreza na América Latina, indica que os programas sociais foram os responsáveis pela queda no número de pobres na Venezuela. De acordo com uma pesquisa realizada em 2007 pela empresa Datanálisis, nos últimos oito anos o consumo das classes E e D havia aumentado em 22%, impulsionado pelo incremento do salário mínimo (que subiu de US$ 47 em 1999 para US$ 371) e pela ajuda financeira que provém dos programas sociais. Com exceção dos programas relacionados com a saúde, os beneficiários das "missões" (nome dado por Chávez aos programas sociais) recebem uma ajuda média de US$ 100. "Parte dos recursos obtidos com o petróleo foi distribuída por meio desses programas", afirmou o ex-diretor do BCV Maza Zavala.
"Missões"
O "Bairro Adentro" foi um programa social implementado pelo governo em 2003. Esta "missão", que presta atendimento médico básico e familiar nas periferias do país, inaugurou o projeto de cooperação Cuba-Venezuela, que hoje está presente nas áreas de saúde, educação e esporte. Os programais sociais são financiados com a receita excedente do petróleo e contam com estrutura e dinâmicas próprias, que obedecem fundamentalmente às diretrizes da Presidência da República, sem passar pelo filtro dos ministérios.
No entendimento do governo, a estrutura burocrática governamental impediria que os projetos alcançassem, com a velocidade que a conjuntura política exigia, um número considerável da população pobre, que foi e continua sendo a base de apoio do chavismo. "Quando o governo teve que enfrentar a ameaça de perder o referendo (revogatório realizado em 2004), tirou quase que da manga o programa 'Bairro Adentro ', que teve um impacto extraordinário", afirmou à BBC Brasil o sociólogo Edgardo Lander, da Universidade Central da Venezuela. "Agora, as pessoas têm um médico a duas quadras de casa no caso de uma emergência, é uma mudança significativa na qualidade de vida das pessoas", acrescentou.
Lander explica que a crise da saúde pública no país no período anterior a Chávez estava associada a dois fatores principais: a privatização do sistema e a resistência dos profissionais em atuar no setor público, desmantelado nas décadas anteriores, de acordo com o sociólogo. "Para esses médicos, ir a um bairro pobre era o mesmo que ir a uma zona de guerra. Era algo completamente alheio à sua realidade", disse.
Organização
Magaly Perez é coordenadora de um Comitê de Saúde no bairro periférico de 23 de Enero, em Caracas. Os comitês reúnem voluntários da vizinhança onde está instalado o programa "Bairro Adentro", que diagnosticam os problemas de saúde do local e auxiliam na atuação dos médicos cubanos. Perez conta que o trabalho de censo da população do bairro fez com que esses voluntários "tomassem consciência da organização comunitária e da importância de participar para transformar nossa realidade".
De acordo com os moradores do bairro, antes, a única alternativa para a população de baixa renda era enfrentar horas de fila em hospitais para receber algum tipo de atenção. "Antes, morriam pessoas aqui porque não tínhamos assistência médica adequada. Isso mudou com a revolução", afirmou Magaly Perez à BBC Brasil, enquanto anotava a lista dos idosos que participariam do exercício matinal realizado três vezes por semana com o auxílio de um técnico cubano.
"Os cubanos trabalham dia e noite, mas os médicos venezuelanos não, eles são capitalistas e o povo deu as costas a ele. Eles não sobem o morro para socorrer ninguém", afirmou Magaly Perez. Em 1998, havia 1,6 mil médicos atuando no atendimento primário de uma população de 23,4 milhões de pessoas. Atualmente há 19,6 mil para uma população de 7 milhões. Deste total, 14 mil profissionais são cubanos, entre médicos, enfermeiras e técnicos em saúde.
A disputa entre os médicos venezuelanos - que alegam falta de condições e segurança para atuar nas periferias e hospitais públicos - e o governo - que argumenta que o problema é de natureza política - levou a administração chavista a criar um sistema de saúde paralelo, com a ampliação do "Bairro Adentro" em pequenas clínicas especializadas. O resultado da disputa, de acordo com Lander, foi o abandono ainda maior da rede de hospitais públicos. "A rede hospitalar foi abandonada na parte de insumos e atendimentos, os hospitais sofreram um deterioramento grande", afirmou. A quantidade de novas clínicas do "Bairro Adentro", porém, ainda é insuficiente para atender a toda a população, de acordo com a organização não-governamental PROVEA.
Política
Na mesa da sala de espera do pequeno consultório no bairro de 23 de Enero havia um abaixo assinado em apoio à emenda constitucional que irá a referendo em 15 de fevereiro, cuja eventual aprovação colocará fim ao limite para a reeleição aos cargos públicos, entre eles, a Presidência. Uma das senhoras que aguardavam atendimento se antecipou em dar uma explicação: "A saúde aqui não tem ideologia política, muitos que vêm aqui não apóiam o comandante (Chávez), mas, mesmo assim, são beneficiados", afirmou Josefina Rodriguez, de 70 anos.
De acordo com o Ministério da Saúde, a mortalidade infantil também foi combatida na última década, ao passar de 21,4 por cada mil nascidos, em 1998, para 13,7 em 2007. No Brasil, em 2007, o índice era de 24,32 por cada mil nascimentos. O "Bairro Adentro" serviu de modelo para as outras "missões", que abrangem as áreas de educação básica, superior e profissionalizante, de auxílio às mães solteiras, de subsídio alimentar, entre outras.
Em 2005, na metade do governo Chávez, o Ministério de Educação declarou o país "livre de analfabetismo" com a aplicação do método cubano "Yo sí puedo", metodologia aplicada recentemente na Bolívia e em algumas áreas do nordeste do Brasil. De acordo com o governo, 1,6 milhão de adultos foram alfabetizados no período de dois anos. Ainda segundo o governo, 3,4 milhões de pessoas foram graduadas nas "missões" educativas.
Institucionalização
Julio Borges, dirigente do partido de oposição Primeiro Justiça (centro-direita) reconhece que durante o governo Chávez "houve um despertar social muito importante, principalmente entre os mais pobres, com a participação" das pessoas envolvidas com o projeto chavista. Borges, porém, questiona se a estrutura criada para manter as missões poderá ser mantida ao longo do tempo. "É um problema estrutural. As pessoas estão contentes com Chávez porque estão se afogando no mar e as missões são um colete salva-vidas. Mas a pergunta é se um dia elas vão sair do mar", afirmou.
Para a oposição, analistas e inclusive alguns chavistas, a falta de institucionalização nos programas sociais abre o precedente para a corrupção, já que não há um sistema de controle que regule essas atividades e o manejo dos recursos públicos. Em 2008, o orçamento anunciado para as missões foi de US$ 2,6 bilhões. O sociólogo Edgardo Lander avalia que, passado o período de "emergência" para a criação dos programas sociais, o governo deveria institucionalizá-los. "As pessoas não podem viver neste estado de emergência permanentemente e não pode haver essa espécie de militância na gestão pública", afirmou.
Dívida A insegurança continua sendo a principal dívida social do governo, na avaliação de especialistas. A violência é a principal preocupação dos venezuelanos, de acordo com uma pesquisa da empresa Hinterlaces. De acordo com um levantamento do Centro para a Paz e Direitos Humanos da Universidade Central da Venezuela, publicado no relatório da ONG Provea de 2007, em 1998, o índice de homicídios era de 25 por 100 mil habitantes. Em nove anos o número subiu para uma média de 45 mortos por 100 mil pessoas em 2007, com cerca de 13 mil assassinatos no mesmo período.
"Em um governo que pretende impulsionar a democratização da sociedade e favorecer os setores populares, nos damos conta de que são justamente eles os que mais sofrem as conseqüências da insegurança", afirmou Edgardo Lander. "O governo pensa que o problema da segurança é somente estrutural no âmbito da educação e da cultura", acrescentou Lander. O ministro de Relações Exteriores, Nicolas Maduro, ex-presidente do Congresso, admite que um dos principais desafios do governo é combater a criminalidade, sem apontar no entanto, soluções para o problema. "É muito grave que em um país no qual se pretende construir a paz e estabilidade existam esses fenômenos, talvez seja um dos grandes desafios para a próxima década", afirmou.
Guardadas as proporções evidentes, a Globo adotou, faz tempo, uma doutrina em seu telejornalismo que de alguma forma se assemelha à famosa Doutrina Bush, que previa guerras “preventivas”. Todavia, o que caracteriza hoje essa poderosa emissora, que se tornou o que se tornou por ter sido vitaminada pela ditadura militar, remonta a inspiração bem mais longinqua no tempo.
A emissora carioca engajou toda a sua programação no projeto político do PSDB e do PFL de retomarem o governo do país. Para isso, espalhou ataques ao governo Lula e ao PT e blindagem a políticos e partidos aliados por toda sua programação, desde os telejornais até programas humorísticos nos quais ridiculariza a imagem do presidente da República e o apresenta como corrupto.
Alguns dirão que isso não é de agora, mas começo a perceber um certo desespero no comportamento global.
Na semana que chega ao fim, o telejornalismo da Globo entrou num caminho sem volta ao literalmente censurar notícias contrárias aos seus interesses políticos.
No vídeo que vocês vêem acima, edição do Jornal Nacional de seis de fevereiro, pode-se ver reportagem sobre aquele deputado do PFL que tem um castelo medieval não declarado ao imposto de renda e que ocupava a Corregedoria da Câmara. A reportagem simplesmente omitiu a que partido o sujeito pertence.
Na terça-feira, 3 de fevereiro, dia da divulgação da pesquisa CNT-Sensus que revelou disparada na avaliação de Lula, a Globo foi a única emissora do país que não divulgou a notícia.
Agora, diante do escândalo da merenda escolar no governo Kassab, onde sucedem-se denúncias de fornecimento de comida estragada às crianças e ainda em quantidade inferior para cada aluno à que determina a lei, a emissora simplesmente não divulgou nada.
Enquanto isso, Record e Gazeta fizeram extensas reportagens sobre o assunto.
Não assisti os telejornais do SBT, da TV Cultura ou da Band. Quem souber se noticiaram o escândalo da merenda, agradeço se postar a informação aqui nos comentários do blog.
Há também a já famosa propaganda do SBT elogiando Lula e pedindo às pessoas para que não se deixem engolir pela crise.
O fato é que já se pode ver a Globo caminhando para um desejável isolamento ao se manter como linha auxiliar do projeto Serra 2010. A impressão que se tem é a de que a Globo acredita que o que ela não divulgar, não existe. E isso num momento em que já se sabe que ela perdeu 6% de sua audiência para a Record no ano passado.
O que está acontecendo com a Globo? Será possível que não enxerga que mesmo o público mais ingênuo acabará vendo em qualquer outra tevê - ou mesmo em jornais - o que ela censurou?
Quantos terão visto a notícia sobre a popularidade de Lula e à noite, chegando em casa, ao não verem a notícia na Globo acabaram dando razão a quem diz que ela tenta prejudicar o presidente?
Não é à toa que a popularidade de Lula está subindo tanto. Quem, normal dos miolos, pode aceitar uma emissora de tevê que acha que pode escolher o que as pessoas devem ou não saber?
No século XIX, o pensador inglês Lorde Acton disse que o poder corrompe. No decorrer da história, pudemos comprovar esse fato. A tendência dos muito poderosos de abusarem do poder que têm acabou virando consenso.
Mais de cem anos depois num país do hemisfério Sul, vai ficando claro que, além de corromper, o poder parece que também enlouquece.
Tenho tanta coisa para escrever que não sei o que escrever primeiro. E nem sei se tenho lá muita vontade de escrever, porque às vezes acontecem umas coisas que me sugam o ânimo.
Sempre me considerei um homem de esquerda, mas esta, propriamente dita, não se cansa de dar razão ao bordão que diz que ela “Só se une na cadeia”.
Nesse ponto, vou me unir ao senso comum e reconhecer como a direita é mais “profissa”. Vocês não os vêem se atacando publicamente e exigindo ou a volta do regime militar, ou nada. Mas vêem a esquerda querendo que se implante um Estado socialista no Brasil em seis anos (!?).
E tem mais: sem apoio no Congresso, porque a peneira ética esquerdista não deixa passar o PMDB, sem o qual ninguém governa hoje o país, a menos que PT, PSDB e DEM se unissem.
Daí, vemo-nos diante de um quadro em que um governo que ao menos é oriundo da esquerda – para os que acham que se tornou “neoliberal” – vem sendo atacado furiosamente pelos mesmos meios de comunicação que implantaram uma ditadura militar por aqui que durou vinte anos, enquanto a “super” esquerda, que só aceita tudo ou nada, vai ajudando.
Com a esquerda da esquerda, com todos os esquerdistas que deixaram o PT ou pararam de apoiá-lo porque seu governo não segue cada dogma do manual esquerdista, a direita faz a festa.
Posso até ver Heloísa Helena, ACM, Artur Virgílio et caterva celebrando efusivamente entre si alguma derrota do governo. Lembram-se?
Como dizia FHC, “Assim não pode, assim não dá!”
Vejam agora esse caso do Mino Carta. Nem critico o jornalista. Se ele achou que agora era hora para também acusar o governo – como se houvesse falta dessas acusações na praça –, é um direito dele. Não se pode negar a um homem desses o direito de se expressar sem ser massacrado...
Mas notem só o detalhe: vocês sabem quando é que verão um barão da imprensa corporativa, um dono de revista ou jornal da direita, descendo a lenha no Serra? Nunquinha, pessoal. Eles podem até se trucidar, mas discretamente.
Talvez, então, a esquerda precise de um governo de direita para se lembrar do que era o país quando “eles” estavam no poder. Na verdade, o ideal seria um daqueles governos que põem esquerdistas na cadeia, naquele local “aprazível” em que costumam se unir...
Ou será que nem lá, mais?
Perda de comentários
Devido a um golpezinho do UOL que me tomou mais alguns reais por mês para eu poder continuar postando aqui, pois o "espaço" do blog teria acabado, alguns comentários foram perdidos durante as horas em que "excedi" os "megas" que o portal me permitia usar.
Se algum de vocês não encontrar seu comentário publicado, pode postar de novo que, desta vez, se Deus quiser, vai, graças às providência$ que tomei.
Soube, consternado, que o jornalista Mino Carta pretende parar de escrever para o público, tanto em seu blog quanto em sua revista. Não poderia deixar de comentar o assunto devido ao simbolismo inegável que encerra a despedida de um dos poucos nomes eminentes no jornalismo nacional que não aderiram ao jornalismo partidário único que fincou raízes no Brasil.
O primeiro que tenho a dizer é que precisamos todos, os de direita, de esquerda, ateus, crentes, corintianos e palmeirenses, aprender a respeitar a opinião alheia quando esta não concorda com nossas idiossincrasias em cada assunto polêmico de nossas vidas.
De certa forma, solidarizo-me com o jornalista por já ter sentido o que ele sentiu e não agüentou sentir, ou seja, perceber que recebe muitos aplausos de um lado e vaias do outro quando segue o manual político-ideológico dos que lhe têm simpatia. No entanto, no momento em que dissente, deixa de ser o grande Mino, o ético Mino, o competente, cheiroso e gracioso Mino, de quem a retórica aquele grupo opinativo tão generoso aproveitava.
Algumas vezes fujo de um dos paradigmas compulsórios que a esquerda acalenta e logo me aparece alguém do “meu” lado para começar a lembrar “defeitos” meus que encontro parecidíssimos com aqueles que me atribuem os que de mim divergem no mais das vezes, indubitavelmente na ânsia de desqualificar aquilo que digo e de que desgostam.
Há, sim, para sorte de todos nós, uma maioria que tem bom senso de não medir as pessoas pela régua única da coincidência opinativa, mas a minoria é mais ruidosa.
Por outro lado, devo dizer que discordo totalmente de quase todas as razões apresentadas por Mino Carta, o que não implica em qualquer prejuízo ao respeito do qual me sinto devedor para com o jornalista, pois suas razões têm fundamento, nem que seja o de tais razões serem sérias e não de "outras" ($) ordens.
Mino, mais italiano do que brasileiro em alguns aspectos aparentes, pareceu-me que se doeu pelo que dói em cidadãos de países do Primeiro Mundo como ele, ou seja, pelo orgulho pátrio do qual gente como eu tampouco quer abrir mão, pois a reação desvairada do regime de Silvio Berlusconi terminou por nos ofender também, aos brasileiros.
Acredito que Mino permitiu que o coração falasse mais alto no caso Cesare Battisti. Esses povos europeus ou o povo americano são extremamente nacionalistas. Seria impensável a maioria dos italianos dissentirem de seu país num momento em que o vejam desrespeitado de alguma maneira.
Sobre o governo Lula, minha discordância com Mino é até mais ampla. Jornalista honesto, de biografia impecável, inteligência prodigiosa, atribua-se a ele tantos predicados quantos se quiser que endossarei cada um deles, mas o que lhe atrapalha a visão, na minha forma de ver, é a classe social em que está.
Não tenho uma biografia capaz de sequer ficar embaixo da de Mino Carta. A maior parte da minha vida passei correndo atrás de sustentar minha mulher e meus quatro filhos. Levantei-me, caí, levantei-me de novo... Não me sobrava tempo para escrever até há uns 15 anos, mais ou menos. E só comecei a fazê-lo, como que prestando um serviço público, há poucos anos. Mino, por sua vez, é quase uma lenda.
Disse isso aí em cima porque acho que o jornalista, com sua erudição, seus vinhos, sua culinária, sua literatura, sua boa música, em sua ponte aérea entre São Paulo e Milão (?) talvez tenha esquecido que a maioria esmagadora deste povo estava curtindo o país progredir como nunca aconteceu talvez durante toda sua vida.
É pouco, sim. Mas e se querer tudo já, terminar deixando o povão com nada vezes nada, com o desastre da retomada do poder pela direita?
Existe, no Brasil, um Comitê do Golpe funcionando 24 horas por dia, sete dias por semana, trinta dias por mês, 365 dias por ano. Querem frear esses míseros avanços que Lula produziu. E não nos esqueçamos de que por aqui “Eles” dão golpes que funcionam, golpes que não são como na Venezuela ou na Bolívia, que fracassam, porque aqui no Brasil os militares estão do lado da direita golpista, ao menos a cúpula das Forças Armadas.
Quem está aí contorcendo as mãos de medo de perder o emprego e de ver o crescimento frear não quer saber se é o Michel Temer, o Sarney ou o Capeta que está presidindo as Casas do Congresso, quer saber é se agora, justo agora, que vão lhe puxar o tapete.
Não dá para brincar. O sistema presidencialista brasileiro é defeituoso, é quase parlamentarista, em certos aspectos, ainda que exageradamente presidencialista em outros. Sem apoio no Legislativo, ninguém governa. Não dá para negar isso sem incorrer em desonestidade intelectual. Ressalto, porém, que não acho que seja esse o caso de Mino – é um homem sério.
Acho que Mino se rendeu ao fastio da realidade, esquecendo que não há poder que se sustente no Brasil hoje se não se jogar o jogo pelas suas regras, e que esse, inclusive, é o interesse de dezenas de milhões de brasileiros que jamais viram o país ir tão bem, mesmo em crise, e que não querem colocar tudo isso em risco, mesmo sendo pouco.
É um exagero dizer que a marolinha de Lula virou um tsunami. No Brasil não está acontecendo o mesmo que no resto do mundo. Os maremotos estão ocorrendo em toda parte, provocando demissões em massa incessantes e progressivas, quebras de bancos, de empresas tradicionais, com gente sendo despejada nos Estados Unidos da América e engrossando o número crescente de sem-teto no país mais rico do mundo.
Na Europa, potências econômicas como Alemanha, França, Itália, Inglaterra e até a paradisíaca Islândia estão passando por problemas econômicos tão graves quanto os dos americanos, ainda que sem as conseqüências sociais dramáticas da superpotência, tudo devido ao bom e velho Welfare State (estado do bem-estar social europeu).
A Ásia (Japão à frente) vê suas economias derretendo e na América Latina, em países como a Argentina, por exemplo, a crise já erode uma recuperação que mal havia começado.
No Brasil, apesar do dezembro negro no qual, descontado o efeito sazonal, perderam-se umas duas centenas de milhares de empregos e a produção industrial se congelou, aos poucos vai-se percebendo que os problemas que tivemos decorreram de apenas dois fatores, que, mesmo existindo, não nos levam nem perto dos outros países citados em termos de problemas econômicos. Falo da notória paralisação no crédito, claro, mas também de um fator muito menos divulgado, mas absoluta e reconhecidamente presente nessa equação.
Quem me lê pelo menos desde setembro do ano passado sabe que eu disse que a crise poderia atingir o país, como de fato atingiu, mas não de forma tão destrutiva quanto atingiu o resto do mundo. E disse, também, que essa situação melhor do país poderia ser revertida se nós, brasileiros, “comprássemos” a crise, se a importássemos sem necessidade.
As coisas foram um pouco piores do que isso, mas não mudaram uma vírgula do que eu disse antes. Ou seja: mesmo com a crise piorando no resto do mundo e tendo seus efeitos intensificados também por aqui, ninguém honesto negará quantos analistas vêm relatando o efeito psicológico sofrido pelo empresariado brasileiro, que demitiu “preventivamente” em muitos setores mesmo não sentindo os efeitos da crise em seus negócios.
Não se nega que outros que demitiram já tinham sentido os efeitos da crise. Aliás, em meu setor de atividade (autopeças) as vendas congelaram-se no fim do ano passado, sobretudo por cancelamento de pedidos à indústria por medo do comércio quanto à crise, o que fez comerciantes deixarem estoques caírem a zero, ao ponto que neste início de ano várias empresas que demitiram, como as montadoras de carros, não estão conseguindo atender aos pedidos dos consumidores, gerando uma absurda espera na compra de carros no Brasil enquanto que, no resto do mundo, ninguém os está comprando.
A enxurrada de investimentos e ações do governo parece – e eu disse que parece, não que é – que está surtindo efeito.O aspecto psicológico dos agentes econômicos parece ter sido afetado pela pesquisa sobre a popularidade de Lula. Por estranho que possa soar, a idéia do enfraquecimento político dele poderia ter relação com a percepção de enfraquecimento da economia.
É certo que me surpreendeu, como à maioria dos analistas – como se pode ver nos jornais, em várias notícias relatando essa surpresa –, que o desemprego subisse tanto e que a produção industrial caísse tanto em dezembro, mas agora estão mensurando quanto houve de pânico e quanto de razões fundamentadas.
Conforme escrevi várias vezes nos últimos meses, empresários que decidiram “enxugar” seu quadro de funcionários cortando contratações recentes de forma meramente “preventiva” teriam, logo em seguida, que arcar com o custo de demissão sem o benefício da redução na folha de pagamento, porque, ao demitir, paga-se o equivalente a três, quatro meses de salário – ou mais – e, se se tiver que recontratar funcionários em menos tempo que isso, toma-se prejuízo.
E mesmo as empresas que tiveram fortes quedas nas vendas, deveriam ter tido sangue-frio antes de se desesperarem e demitirem. É o caso das montadoras, mas conheço casos idênticos em meu setor de atividade. Se tivessem apenas colocado funcionários em férias coletivas, não seria nada. Mas demitirem por meros dois meses de paralisação nas vendas por falta de crédito a um consumidor que continuava querendo comprar, foi uma verdadeira loucura empresarial.
O fato é que estamos diante de uma encruzilhada. E, graças a Deus, paramos um pouco para pensar antes de escolher o caminho. As medidas fortes do governo, como ameaçar as empresas que demitirem de lhes cortar o acesso ao crédito oficial, e isso num momento em que os governos estão salvando as empresas, parece que deteve um pouco as demissões por aqui, até porque a maioria demitiu numa paulada só, em dezembro.
Mas essa é apenas uma percepção. Lá pelo dia 20 de fevereiro sai o resultado do Caged de janeiro e saberemos para quantos postos de trabalho perdidos se ampliou a crise, pois emprego hoje é o que mede melhor o tamanho da crise aqui ou em qualquer parte.
Um fato inquestionável: a partir dos dados oficiais conhecidos, a alta do desemprego no país, estatisticamente, ainda não refletiu uma crise tão grave. A redução da atividade econômica, sim. Contudo, as vendas no comércio não sentiram nada nem parecido com a queda da produção industrial de 12,4% em dezembro, o que permite supor que, enquanto asindústrias paravam de produzir, o consumidor final não se retraía na mesma medida.
Mas a encruzilhada: temos o caminho de continuar trabalhando, os empresários assumindo sua parcela de responsabilidade e dando ao consumidor a mínima segurança de que não será demitido com a primeira manchete de jornal, e sairemos desta em pouco tempo, mesmo com a crise se agravando lá fora, pois o Brasil depende muito pouco, ainda, de comércio exterior – segundo dados divulgados pela mídia, apenas 14% do PIB é comércio exterior. Nosso mercado interno pode prover uns poucos pontos percentuais que caiam nesse patamar.
Outro caminho é todos continuarem masturbando a crise junto com os meios de comunicação. E que ninguém se engane com o Jornal Nacional de ontem, que, para quem não sabe, depois da pesquisa sobre a aprovação de Lula, que o telejornal escondeu de seu público, sendo o único telejornal do país a não dar a notícia, a edição da última quarta-feira trouxe uma enxurrada de boas notícias. Já no Jornal da Globo, no fim da noite, a masturbação voltou com força total.
A mídia não irá parar. A crise é tudo que resta para eleger Serra. Se o Brasil sair dela, acabou-se o projeto tucano. Os interesses políticos do PSDB se contrapõem ao interesse da nação, hoje, e são o que poderá impedir que a crise vá embora mais rápido. Quem apóia essas práticas está apoiando a sabotagem do país. Será responsável por todas as desgraças que o desemprego, a bancarrota que se quer provocar trarão ao país. Serão todos criminosos, lesa-pátrias.
Que não duvidem, no entanto, esses que torcem contra o Brasil, de que um dia pagarão por seus crimes.
Empresário: proteja-se do terrorismo midiático
por Mauro Carrara
Um terrorista que carrega no cinto uma fieira de bombas pode matar 20, 30, quem sabe 200 pessoas. O terrorista munido de letras infectadas, entretanto, maquiavelicamente destrói milhares de negócios e empreendimentos. Ele leva à falência seu principal fornecedor, afugenta seu parceiro estratégico e, principalmente, espanta seu cliente.
Por trás dos grandes jornais e revistas, instala-se hoje o pior e mais covarde terrorista. Ele instaura o medo, e assim paralisa máquinas, interrompe projetos e baixa as portas do comércio. Ele deturpa, recorta, oculta, edita e espetaculariza a crise internacional. Sua guerra é "biológica". Ele tenta contaminar a tudo e a todos com a desconfiança.
Este é o pior terrorista, o que joga contra você e contra o seu negócio.
O dicionário Aurélio define terrorismo com absoluta clareza:
1) Modo de coagir, ameaçar ou influenciar outras pessoas, ou de impor-lhes a vontade pelo uso sistemático do terror.
Esta tem sido justamente a prática de profissionais lotados nas redações das principais empresas jornalísticas do Rio de Janeiro e de São Paulo, distribuidores de "notícias" para o resto da mídia nacional.
Bombardeio diário
Os sites desses veículos de comunicação têm realizado um bombardeio diário de informações negativas, destinadas a disseminar e ampliar o pessimismo entre os brasileiros.
Perceba: cada número é minuciosamente estudado para que a manchete promova receio e apreensão. Mesmo que determinado setor tenha experimentado crescimento no ano, logo se encontra uma maneira de sensacionalizar algum arrefecimento nos negócios.
Escreve lá o dedicado redator: "esta é a pior taxa de aceleração numa primeira semana de dezembro dos últimos 10 anos no Oeste de Santa Catarina". Ou seja, seleciona-se apenas o que assusta, o que amarra, o que bloqueia.
Este, meu amigo e minha amiga, é o pior terrorista. Ele assassina a Matemática. Ele confunde propositalmente diminuição no ritmo de aceleração com retração. Até setores que crescem passam a figurar na página de más notícias.
Essa campanha diária tem objetivos obscuros. Os terroristas midiáticos tentam parar o Brasil para construir um argumento de contestação política. Ainda que nosso país tenha se mostrado capaz de enfrentar os efeitos da crise internacional, a imprensa brasileira abusa da auxese. Faz com que o cenário pareça muito pior aqui do que lá fora.
A comparação entre sites jornalísticos brasileiros, norte-americanos e europeus é estupefaciente. Faz parecer que a crise é mais destrutiva aqui do que lá.
Ameaça e antídoto
A mídia terrorista tem atingido parcialmente seu intento. Tem imobilizado empreendedores, motivado demissões preventivas, interrompido projetos e assustado o consumidor. O terrorista midiático cria, portanto, um processo de paranóia coletiva, que pouco a pouco, em efeito dominó, derruba o complexo sistema de trocas econômicas.
Em nome de objetivo egoístas e mesquinhos, politicamente particulares, a mídia terrorista está sufocando seu mercado, destruindo seu negócio e assassinando o seu sonho.
O terrorista midiático nunca tem nada a perder. Mercenário de carteira assinada ou free-lancer, ele está sempre seguro. E frequentemente seus atos de sabotagem lhe rendem generosíssimas gratificações.
Em suas linhas de retaguarda, alinham-se os cavaleiros do apocalipse, como os publicitários nizânicos e certa malta de economistas uspeanos. Estes últimos, em suas pavoneações de rádio, atemorizam sistematicamente o cidadão. - Não comprem. Não comprem. Não gastem dinheiro algum – ordenam, do alto da cátedra.
Essa, pois, é a receita para que o próprio cidadão, mais à frente, perca o emprego. E é nessa perversa reação em cadeia que o terrorista midiático aposta todos os dias. Ele conspira para destruir seu negócio, para roubar o emprego de seus clientes e consumidores. Enfim, ele pretende criar dificuldades para você e para sua família.
Jornalismo político e econômico tornou-se uma “ciência” rasteira. Seu objetivo primordial deveria ser o de esmiuçar para o público os meandros da política e da economia. Orientar, não induzir, deveria ser a preocupação dos analistas.
É com muita preocupação que não consigo ver analistas da grande imprensa interpretando correta e honestamente um fato da maior importância como a recente pesquisa CNT-Sensus sobre a popularidade de Lula e de seu governo.
Minha régua para medir jornalistas é a forma como lidam com assuntos considerados “tabu” como a própria imprensa, na condição de vidraça em vez de estilingue.
Nenhum jornalista sério seria capaz de negar que essa pesquisa sobre a popularidade de Lula consistiu num recado do povo aos meios de comunicação, de que não acredita neles. Do contrário, a aprovação de Lula deveria cair, em vez de subir.
Ora, tomemos apenas o intervalo entre 15 de dezembro, data da divulgação da penúltima pesquisa Sensus, e 3 de fevereiro, quando foi divulgada a última pesquisa. Nesse intervalo de tempo, ninguém bom da cabeça (incluindo os mentirosos, que, para mentir nisso, teriam que ser loucos) seria capaz de negar que todos os jornais, tevês, rádios e grandes portais de internet venderam que Lula apenas teria “surfado” na “bonança” econômica internacional que teria vigido até setembro do ano passado, e que agora, tendo ele que administrar de verdade o país, tudo iria piorar.
As previsões sobre a inevitável queda de Lula nas pesquisas estão em todos os jornais, telejornais, rádiojornais, e-jornais etc. Não estou inventando nada. Basta recorrer aos arquivos dos jornais. Em suma: a mídia disse uma coisa, com enorme alarido, ao ponto em que não se podia ligar a tevê sem ver a venda dessa tese, e o governo disse outra.
Pergunto: em quem o povo acreditou? Se a pesquisa Sensus mostrou que mais gente ainda, na proporção de mais de 80% da população, aprova a condução do país pelo presidente Lula, será difícil entender que isso significa que essas pessoas, conscientemente, não acreditam na imprensa?
Será possível que é tão duro, para uma pessoa normal, entender isso? Negar esse fato, para mim, ou é muita burrice ou muita má fé. Se fosse burrice, teria que ser ao ponto de a pessoa nem conseguir amarrar seus sapatos sozinha. Pode haver alguém tão burro, mas não tanta gente burra como as pessoas que se lê nas caixas de comentários dos blogs da grande mídia, por exemplo, negando esse fato.
A imprensa, porém, estimula a burrice. Se eu fosse esses donos de jornais, tevês, rádios, portais de internet etc, ficaria preocupado por ter um público que em enorme parte se mostra tão burro, e me sentiria um estelionatário por permitir que tanta gente junta (por mais que não represente nada, no conjunto da sociedade) acreditasse nas bobagens que se leu nessas caixas de comentários de blog.
Andei lendo essas caixas de comentários. São dezenas de pessoas que, demonstrando não terem a menor idéia do que seja a ciência estatística, dizem que o instituto Sensus entrevistar duas mil pessoas para aferir a opinião de quase 200 milhões era uma farsa.
Essas pessoas literalmente acabaram com a Estatística. Inclusive dizendo que, como nunca foram entrevistadas por um pesquisador, pesquisas não existem. Seus números seriam fabricados em laboratório por indivíduos subservientes ao governo Lula.
Tenham certeza de que os Marinho, Frias, Civita, Mesquita, Cantanhêdes, Rossis, Mervais, Mainardis, Azevedos e congêneres ficariam ruborizados ante tão monumentais abobrinhas. Diriam que estúpidos há dos “dois lados” etc. E é verdade, mas quando o assunto é pesquisa de opinião só se vê direitistas falando essas bobagens.
E não porque são piores, mas porque a mídia os estimula à burrice. Aliás, conta com ela. Essas pessoas fazem o trabalhinho sujo de difundirem dúvidas em seu gueto opinativo, dúvidas de que a realidade é a realidade, de forma a manter a moral desse exíguo contingente social que fala de virtualidades diante de materialidades.
Pode-se questionar se Lula merece ou não merece a aprovação que tem. Ninguém pode dizer que merece só porque é tão popular. Porém, não se pode questionar um fato: a mídia usou tudo o que tinha para desmoralizar Lula, e não conseguiu.
Por que, diante das ironias sobre a “marolinha”, das críticas incessantes de Arnaldos Jabores e outros comentaristas políticos de tevês, rádios e jornais, as pessoas continuam aprovando Lula e seu governo? Como negar que é porque não acreditaram na mídia? Como negar que o povo mandou a ela um recado claro, cristalino?
Este é um daqueles momentos que me fazem querer ouvir, apenas ouvir essas pessoas, no mínimo, alucinadas. Nem quero responder. Digam o que quiserem, os que não entenderam mais este recado popular à direita e aos seus meios de comunicação. Creio que todos queremos saber como funciona esse processo de negação da realidade.
Peço aos que ainda nem se recuperaram da ressaca gerada pelos porres que tomaram para comemorar a alta da aprovação de Lula e de seu governo contra todas as previsões e em pleno agravamento da crise no Brasil que me perdoem por lhes interromper a comemoração, mas a notícia que tenho para lhes dar não é boa e tem que ser dada logo. Se servir de consolo, porém, tampouco é boa para os que encheram a cara para afogar as mágoas por ainda não ter sido desta vez que Lula “se ferrou”.
Cumpre-me, por dever cidadão, trazer-lhes a má nova, porém torcendo para que as lendas sobre mensageiros portadores de más notícias que são sacrificados pela dor que trouxeram não sejam mais do que isso, lendas. Quero, corajosamente, informar que aconteceu o que eu mais temia: a mídia se revoltou com a aprovação recorde de Lula depois de ter se esforçado tanto para desmoralizá-lo, e decidiu partir para o tudo ou nada.
A reação da mídia foi a pior possível e eu já dizia, dias atrás, o medo que tinha de a popularidade de Lula não cair na próxima pesquisa. Eu temia a reação da mídia.
Assisti a cobertura sobre a popularidade de Lula nos telejornais da noite da Gazeta (com a excelente jornalista Maria Lidya Flandoli), da Bandeirantes, da Record, da Globo e da Cultura. De todos, só a Globo não deu a notícia sobre a alta da popularidade de Lula e de seu governo, e só o telejornal da Cultura imprimiu viés político à notícia, ironizando-a e contrapondo-a à análise do presidente da CNI prevendo queda da popularidade presidencial mais adiante.
Contudo, apesar de a manipulação nos telejornais ter se restringido ao cabeça da imprensa golpista (a Globo) e à tevê que os paulistas otários sustentam para Serra fazer política (a TV Cltura), os portais de internet enlouqueceram. UOL, G1 e IG, ao menos, passaram o dia masturbando a crise, a crise e a crise. Fazia uns dois dias que tinham diminuído o bombardeio, mas pareceu-me que ficaram enraivecidos.
Ah, os telejornais também fizeram questão de dar ênfase ao catastrofismo e ao pessimismo, apesar de quase todos terem tratado a pesquisa da popularidade presidencial com sobriedade...
Nas versões dos analistas, será praticamente impossível Lula escapar da queda nas pesquisas se a crise continuar se agravando. Não estou tão certo disso, porque esses analistas desprezam por completo a hipótese de que a sociedade saiba, com todas as letras, que a mídia tenta alarmar os agentes econômicos para agravar a crise e prejudicar Lula. Acho que até o mais ingênuo intui isso.
Mas façamos uma concessão à saudável prática da dúvida ante o incerto e concedamos mérito à teoria sobre a inevitabilidade da queda da popularidade do presidente diante do aprofundamento da crise – com ou sem alarmismo da mídia.
Sem alarmismo, pode-se dizer que a crise está se agravando rapidamente, com forte retração nas exportações e na atividade econômica – e, por extensão, no nível de emprego. Com alarmismo, prefiro postergar a análise, de tão feia.
A mídia não faz concessão às poucas boas notícias que têm surgido, apesar de que todos os que se informam já sabiam em dezembro que janeiro, fevereiro e março produziriam os tão almejados (pela direita midiática) indicadores negativos que finalmente desgastariam a popularidade presidencial. Assim, não se sabe ainda se esses tímidos indicadores de recuperação na atividade econômica se converterão em tendência daqui a algumas semanas.
De qualquer maneira, se esse alarmismo midiático continuar fazendo com que qualquer reação dos agentes econômicos seja postergada, logo, logo talvez essa reação não adiante mais.
É aí que digo que quem brinca com fogo acaba se queimando. Deveriam olhar essa tão almejada crise por um prisma não-político, pois o que acontecerá no campo de visão de quem olhar por esse prisma terá desdobramentos políticos favoráveis ao brincalhão, mas no campo prático os beneficiados pela brincadeira poderão se ver com um abacaxi gigantesco nas mãos, ou seja, uma crise de segurança pública sem precedentes no Brasil.
Essa gente deveria agradecer a Lula. Quem viu o que aconteceu naquela favela paulistana nos últimos dois dias, uma favela tida como a de menor criminalidade no país, deveria agradecer ao presidente por ser essa camada de amortecimento entre as massas empobrecidas e as elites abastadas, pois estas, cada vez menos, estão conseguindo se proteger dos crescentes ataques a condomínios de luxo, por exemplo, a despeito de sistemas sofisticados de segurança, muros altíssimos etc.
A má notícia, pois, é a de que eu acho que essa gente tem razão, que o agravamento da crise pode, sim, derrubar a popularidade de Lula – apesar de que, como já disse, o presidente vem teimando em contrariar a lógica –, mas acho que para a popularidade dele cair até em sua reserva eleitoral, composta pelos mais pobres, terá que haver uma forte insatisfação social, uma forte percepção de piora nas vidas desse segmento tão esmagadoramente majoritário da sociedade que sustentou o presidente nos momentos mais difíceis, e que pode eleger Dilma em 2010.
Sim, a crise, para dar chance a Serra, tem que pegar os mais pobres num país em que as tensões sociais só não se agravam mais devido às “esmolas” que a direita midiática diz que Lula paga a eles para lhes comprar os votos.
Essa gente brinca com fogo porque acha que o aparato repressor do Estado, que sempre manteve a desigualdade hors-concours do Brasil, pode dar conta do recado. Essa gente não olha para Paraisópolis, para o oficial da polícia do Serra que, momentos depois de dizer que “tudo estava e sempre esteve sob controle”, foi baleado na barriga e saiu da favela para o hospital embasbacado com quão pouco controle as forças repressoras do Estado exercem hoje sobre a cidade mais rica e importante do país.
Quem tiver um pouco de memória e se lembrar de 2006 na Tucanolândia – que, para quem não entendeu a piada, é a cidade de São Paulo –, saberá como um bando de criminosos organizados conseguiu pôr a cidade de joelhos, com toque de recolher oficioso, com rajadas de metralhadora diante de civis embasbacados em pleno dia por toda cidade, com os ricaços fugindo de helicóptero até “as coisas voltarem ao normal”.
É por essas, por outras e por mais algumas que eu imploro aos Marinho, aos Civita, aos Frias, aos Mesquita, aos Rossis, aos Mainardis, às Cantanhêdes, aos Azevedos, aos Mervais, aos Bonners e às Fátimas, enfim, a todo o PIG que, pelo amor aos seus filhinhos, netinhos e bisnetinhos, pare com isso!, deixe o jogo político acontecer sozinho, deixe a crise ser combatida pelo governo, pois ela é tão forte que pode pegar todo mundo, nem que seja num semáforo numa noite fria e escura e num futuro não tão distante.
Muitos ficaram surpresos com a disparada de cerca de 4 pontos percentuais na aprovação de Lula e com o crescimento moderado (mas, ainda assim, crescimento em meio a uma grave crise mundial) de quase um ponto na popularidade de seu governo revelados pela 95a pesquisa CNT-Sensus, divulgada na manhã desta terça-feira, 3 de fevereiro de 2009, mas quem lê atentamente o que escrevo e me dá crédito, tanto quanto eu não ficou surpreso e entende perfeitamente por que isso ocorreu.
Se vocês quiserem, posso fazer uma síntese aqui (de novo) das razões pelas quais Lula e seu governo melhoraram a própria popularidade enquanto a mídia diz que o mundo acabou, que Lula só era bom em tempo de bonança etc.
A elite conservadora brasileira não percebe, mas hoje é impossível esconder fatos e opiniões divergentes. Com a internet, todo mundo acaba tendo acesso a tudo, sobretudo quando milhares e milhares de pessoas de todo país saem difundindo alguma coisa.
Com o fenômeno dos blogs, a interpretação dos fatos tomou o lugar de um passado no qual as pessoas não tinham outras opiniões a partir das quais analisarem a notícia. Hoje, se centenas de milhares de pessoas em cada grotão do país que lêem sobre política ou economia sairem com um ponto de vista daqueles que, no passado, a mídia conseguia confinar, todo mundo acaba sabendo dessa opinião - cedo ou tarde.
Graças a esse fenômeno tecno-sociológico que é a internet, hoje se sabe que o Brasil, ainda que esteja sofrendo os efeitos da crise internacional, é o país que menos sofre, o que se traduz, no dia a dia das pessoas, por um número moderado de demissões enquanto que, no resto do mundo, são legiões os demitidos.
As pessoas percebem, por exemplo, que, enquanto no mundo a queda da venda de carros em janeiro de 2009 foi de quase 30%, no Brasil essa queda foi de muito menores 7%, o que fez o analista Joelmir Betting, ontem à noite na Band, dizer que o Brasil está “descolado” da crise mundial. As pessoas, aliás, percebem quando todos os organismos econômicos multilaterais dizem a mesma coisa.
As pessoas conseguem perceber que a mídia exagera ao noticiar a crise e ao criticar o governo quando o mundo inteiro e a maioria do país o elogiam. As pessoas percebem que o noticiário é negativo para elas, pois alarma seus patrões e pode fazê-los optarem por demitir. E empresários ficam zangados com a mídia porque o martelar da crise lhes prejudica os negócios.
As pessoas percebem que a mídia ataca países pobres com regimes igualmente voltados para o povo e fica do lado das grandes potências quando uns e outros têm contenciosos conosco. As pessoas percebem que, numa questão humanitária como a da Palestina, o governo fica do lado dos mais fracos e manda um emissário pressionar a potência genocida que está causando a mortandade de crianças, mulheres e velhos.
As pessoas percebem o governo repreendendo os empresários que até dois, três meses atrás ganharam os tubos e agora, diante da primeira dificuldade, já querem jogar a conta nas costas do povão e, de quebra, surrupiarem direitos trabalhistas.
Alguns não entendem como é que Lula mantém sua popularidade alta e crescendo. Não entendem como é que ele consegue resistir aos ataques de jornais, tevês e rádios, que infestam cada centímetro de nossas vidas com pessimismo e críticas ao governo. Não percebem que, para manter a própria popularidade, um governante só precisa governar para o povo.
Não percam os telejornais hoje
A mídia tem um mal do qual ninguém consegue curá-la: é emocional, pois guiada pelos instintos e idiossincrasias de seus barões. Assim, diante deste monumental fracasso político depois de ter empenhado todas as suas armas para desmoralizar Lula, recairá em mais alarmismo, em mais deformações dos fatos, em mais acusações infundadas, em mais previsões catastrofistas, enfim, em mais do mesmo. E depois fica com essa bocona aberta quando Lula dá um passeio nela.
Ricardo Kotscho: "Troquem de povo"
Ricardo Kotscho, ex-assessor de Lula e hoje colunista do PIG, quero dizer, do IG, passa a ser "linkado" neste blog. Leiam, abaixo, trecho de seu último post nesta data, o qual todos deveriam ler.
(...) Na reta final da campanha de 2006, ao ver a manchete do jornal na banca mostrando Lula subindo na pesquisa do segundo turmo, um vizinho meu, inconformado, comentou:
“Este Lula, só matando..”
Diante desta nova pesquisa, talvez ele chegue a outra conclusão:
Desde logo, começo a semana informando que confirmei informação postada por uma leitora aqui ontem de que na próxima terça-feira sairá nova pesquisa CNT/Sensus sobre a popularidade do presidente Luis Inácio Lula da Silva.
Em paralelo com as eleições no Congresso, esse certamente terá sido o fato político mais importante do ano, até aqui. Após o surto de desemprego em dezembro passado e o início alarmado deste ano, há fortes expectativas da mídia e da oposição de que o presidente da República tenha sofrido a primeira reversão na trajetória de sua popularidade desde dezembro de 2005, quando já acumulava algumas pesquisas em queda, fato revertido no início de 2006 justamente numa pesquisa CNT/Sensus.
Vamos, pois, às conseqüências políticas das possibilidades da pesquisa: O mínimo movimento para baixo que possa ser detectado na popularidade de Lula indicará à mídia que o caminho é continuar alarmando o país, tentando convencê-lo de que o governo Lula só foi “bom” até ser testado numa crise internacional como as que essa mídia diz que caracterizaram a era FHC e impediram-no de ser tão “bom” quanto Lula – ou melhor, por ser “dotô”.
Por outro lado, a estabilidade ou um (supostamente) impensável aumento da popularidade de Lula enfiará a oposição tucano-pefelista e a mídia em forte crise de propostas para viabilizar o projeto “Serra 2010” - as teorias sobre capacidade de transferência de votos de Lula para Dilma Rousseff ganham fôlego quando a popularidade do presidente sobe muito.
Em minha opinião, as possibilidades de estabilidade ou de (supostamente) impensável aumento da popularidade presidencial são melhores do que as de queda, apesar da alta do desemprego verificada em dezembro.
Sempre em minha opinião, a lógica e o bom senso deveriam ter dito à sociedade que algum problema que possa ter havido em nossa economia decorreu de fatores inquestionavelmente externos, e que a economia brasileira, por mérito internacionalmente aceito deste governo, está preparada para enfrentar tal problema como a de nenhum outro país e como nunca ocorreu na história brasileira, de o Brasil ser o país de economia mais sólida do mundo diante de uma crise de proporções planetárias.
Meço pelo que aconteceu comigo: ainda que alguns possam não acreditar, procuro ver as coisas como elas são, repudiando o auto-engano e aceitando adaptar-me aos fatos. De tudo que vi e refleti sobre como este governo está nos conduzindo em meio à crise, declaro, de forma pública e convicta, que passei a sentir orgulho de ser brasileiro, pois finalmente o Brasil tem um governo que lhe dá rumo, o que não tive a oportunidade de presenciar antes em meus 49 anos de vida.
Sou “petista”? Mentira! Não sou filiado a partido nenhum, não tenho contato com ninguém relevante do PT, a não ser alguns meros filiados que conheço; jamais tive relação de qualquer espécie com políticos e ganho minha vida vendendo na América Latina para fábricas de autopeças brasileiras. Não tenho um único motivo para defender este governo a qualquer preço, sobretudo ao preço de minha seriedade e sinceridade para com meus leitores.
O que acho é que este governo é bom, está conduzindo muito bem o país e acho que a maioria dos brasileiros também está vendo isso, e acho que aqueles que passaram a pensar assim a partir do ano passado continuarão pensando assim, porque são justamente aqueles que mais têm condições de se informar e de ver como está o país hoje em meio a um mundo afundado no caos.
Acho, também, que a crise nem passou perto dos setores menos instruídos e informados da população, que são também os setores mais pobres, e por isso nesse setor tampouco deveria ocorrer redução da aprovação ao presidente da República.
Diante disso, não consigo enxergar lógica em que a próxima pesquisa CNT/Sensus, a ser divulgada amanhã, revele queda na popularidade do presidente. E desconfiarei de reduções “dentro da margem de erro”, mas não desconfiarei de aumento, porque, dentro da lógica que me guia, se manipulação houvesse seria inevitavelmente para baixo.
Anotem aí no “bolão”, portanto, a minha aposta: Lula não cai. E vocês, o que acham?
Entenda a aprovação de Lula
A 98ª pesquisa CNT-Sensus abrangeu o período entre 12 e 15 de dezembro de 2008. Verificando-se sua íntegra, descobre-se tendência que poderá se manter na nova pesquisa que será divulgada nesta terça-feira.
Não foi à toa que o “tom” do noticiário em meados de dezembro, quando foi divulgada a pesquisa Sensus anterior à que será divulgada agora, foi no sentido de que, apesar da crise, a população estava vendo boa condução da economia pelo governo em meio a problemas que atingem o mundo todo.
A pesquisa comparou o humor do público em setembro com seu humor em dezembro do ano passado fazendo perguntas sobre:
1 – se o desemprego havia aumentado, diminuído ou estabilizado, e a resposta de que aumentara subira de 16,9% para 28,1%, e de que havia diminuído ou estabilizado caíra de 79,5% para 68,6%
2 – se a renda iria diminuir, estabilizar ou aumentar, e a resposta de que diminuíra aumentou de 19,8% para 23,8%, e a de que havia estabilizado ou aumentado caíra de 78,9% para 74,1%.
3 – se a expectativa (agora falando do futuro) sobre o nível de emprego era de que iria aumentar, diminuir ou estabilizar, e a porcentagem dos que achavam que iria melhorar ou estabilizar caiu de 81,9% para 69,7%, e de que iria diminuir subiu de 11,7% para espantosos 24,4%.
4 – se a expectativa do público era a de que a renda iria aumentar, diminuir ou estabilizar, e os que disseram que iria diminuir aumentaram de 8,8% para 15,1%, e de que iria aumentar caíram de 85% para 69,1%.
Só esses números já dão a idéia do humor da população naquele momento. Diante de respostas como essas, a expectativa mais razoável e lógica seria a de que a avaliação do presidente da República teria que recuar, pois ficou claro que a população havia notado fortemente que o país enfrentava problemas que atingiram sua vida.
Demonstrada a consciência da população de que a situação do país iria piorar, surpreendentemente a aprovação do desempenho de Lula subiu significativamente, de 77,7% pra 80,3%, e a desaprovação caíra de 16,5% para 15,2%.
Não vi elementos, até aqui, para a população mudar de humor, pois a pesquisa anterior do Sensus mostra que muita gente percebeu a piora do cenário econômico interno e mesmo assim continuou aprovando o presidente, obviamente que por achar que estaria conduzindo bem o país em meio à crise.
Serra cai e Lula dispara
Conforme o previsto, a aprovação de Lula disparou neste mês, de 80% para 84% , no auge do alarmismo, e Serra, na pesquisa espontânea sobre intenção de voto para presidente em 2010, caiu de 10,3% para 8,7%, enquanto que Dilma subiu de 1,7% para 2,5%, o que não me causou surpresa nenhuma, porque só um cego não vê que o Brasil está sendo bem administrado em meio à crise e que a mídia e a oposição torcem contra o país e tentam alarmar a população.
Sei que irão me trucidar por dizer isto, mas não concebo a idéia de não ler jornal, de não assistir telejornais, de não deslizar pelos meandros da programação imbecilizante das tevês, de, enfim, não dar mergulhos eventuais em cada parte dessa grande mídia que, queiram os amigos ou não, ainda exerce uma enorme, uma descomunal influência sobre o país.
Como sempre digo, prefiro verdades terríveis a mentiras sem fim. O poder da mídia pode ser uma terrível verdade, mas dizer que esse poder não tem capacidade de transtornar a vida da nação é uma mentira que precisa ter fim, pois, do contrário, esse poder a que me refiro só tenderá a crescer.
Por outro lado, se você for inteligente, se souber usar a lógica, se tiver sensibilidade e sangue-frio suficientes para ver através da indignação que brota ante a mentira, ante o engodo, ante a tentativa de manipular espíritos, poderá extrair daquilo que lhe ofende a consciência os meios para combater essa que é uma anomalia perniciosa de nossa forma de organização social.
Uma coisa é certa: eles (a elite diminuta e conservadora e sua mídia) têm mais informações do que nós (o conjunto da sociedade) sobre muitos setores da realidade contemporânea, ainda que tenhamos informações sobre outros que eles não levarem em conta constitui sua maior fraqueza.
Procuro fazer isso e com foco, responsavelmente. Em vez de sair atirando para tudo quanto é lado, elejo um grupo de veículos poderosos e eminentes (os mais poderosos e eminentes) e os analiso a fundo, de forma a ter conhecimento e autoridade nas minhas críticas.
Não entrarei em digressão escrevendo um rol de meios de comunicação em cada tipo de mídia. Direi que, quando se trata de jornal, escolhi ler o maior em tiragem de exemplares pagos, a Folha, e, de sua leitura, consigo extrair muita informação, até porque o jornal controla um instituto de pesquisas de opinião e de mercado que ostenta os maiores níveis de acerto.
A esta altura, meu leitor médio deve estar bufando e com vontade de me esganar, pois pessoas que dedicam leitura a alguém como eu passaram da fase de ser manipuladas pela mídia, mas, se tivermos o bom senso de ver como a mídia ainda consegue induzir multidões a comportamentos literalmente irracionais, acalmaremo-nos e esperaremos que eu termine de expor minha idéia.
Escrevo sem pressa, para aqueles que gostam de ler e de raciocinar. Assim, depois de tudo isto é que caio no assunto, agora que já lhes preparei o espírito para discutirem comigo, ainda que silenciosamente, a leitura que fiz da Folha de São Paulo do primeiro domingo de fevereiro.
A manchete principal de primeira página diz o que todos estão carecas de saber e que em parte explica por que seria impossível nosso sistema financeiro ter sucumbido à crise que pôs de joelhos o sistema financeiro internacional: “Ganho de banco no país é o mais alto do mundo”.
Pudera, com o spread mais alto do mundo nossos bancos só poderiam ser os mais rentáveis. Onde está a novidade? Na idéia “jamais alardeada à exaustão” de que o governo “popular” de Lula está muito longe de ser “popular”, pois deixa os bancos ganharem aqui o que não ganham em lugar nenhum? Ora, não me façam rir...
Mas onde está a necessidade de repisar acusação feita tantas vezes? Talvez a resposta comece a aparecer no primeiro editorial da Folha na edição do jornal em tela, que trata de brigar contra fenômeno que o veículo vê ocorrer “Nos EUA, no Brasil ou em qualquer outra sociedade”, conforme se vê na última frase do editorial.
A teoria do texto intitulado “Tempo de pacotes” é a de que “ainda que um período recessivo tenda a corroer com rapidez a popularidade de um governante [nota do editor: Ó esperança, és a última que morre], é inegável que o maior risco, no momento, vai na direção oposta. Trata-se de confundi-lo [o governante] com uma espécie de salvador da pátria [A quem se referirá isto, hein?], cujas resoluções antes se comemoram que analisam.
Esperto, o editorialista não foi direto ao ponto, preferindo comer o mingau pelas beiradas, dizendo que a teoria acima refere-se a Barack Obama, que estaria tendo “senso certeiro da simbologia” com as primeiras medidas que tomou, que calaram montes de bocas que haviam reverberado a idéia alucinada de que ele não assumiria tomando medidas de impacto já de saída, depois de uma campanha calcada no lema “change”.
Note-se, porém, que o editorial conclui dizendo que em vez de uma crise muitas vezes desgastar um governante, converte-o em “salvador da pátria” tanto nos EUA quanto no... Brasil.
Bingo!
Podem me dizer apressado, mas eu já venho desconfiando de que a população brasileira viu no noticiário alarmista sobre a crise que ela não é nossa e que o Brasil, além de ter se preparado para ela como nenhum outro país se preparou, está sendo bem conduzido na tormenta.
Logo em seguida, na mesma página A2, vem Clóvis Rossi criticar os defensores do neoliberalismo, que hoje se calam e não são cobrados, e atribuir ao primeiro-ministro britânico, Gordon Brown, acerto em prever que o capitalismo desregulamentado era um risco. Sobre o Brasil, não falou quem combateu a desregulamentação. Tudo isso depois que Lula discursou criticando os arautos da globalização.
De certo, a manchete de primeira página já desqualificava Lula como crítico da desregulamentação porque os bancos brasileiros são os que mais ganham, ainda que a regulamentação brasileira não difira de qualquer outra que há no mundo, nem nos regimes bolivarianos, porque desregulamentar o mercado financeiro deixou de ser ponto de vista para se tornar imposição que até aqui desafiar significava a virtual quebra de um país.
Mas não haveria de ficar por aí, a tese tinha que ser vendida por completo, o que coube à indefectível Eliane Cantanhêde, que na imperdível coluna “Múltiplas personalidades” completa o serviço, mas deixa escapar uma enormidade, o que torna sua coluna deste domingo imperdível, devido ao que reproduzo o texto logo abaixo:
*
“ELIANE CANTANHÊDE
Múltiplas personalidades
PARIS - Há dois Lulas, ou muitos Lulas. O deste momento, de crise nos países ricos e de fórum de países pobres, é o Lula de esquerda, que se vira de costas para Davos e de frente para Belém.
Se fosse hora de crescimento mundial, Lula certamente estaria em Davos com os líderes dos países desenvolvidos, enaltecendo a estabilidade e o ajuste fiscal. Como não é, ficou no Brasil mesmo para se encontrar com Chávez, Evo Morales, Rafael Correa e Fernando Lugo.
Ironizou "o deus mercado" e os ricos, mandando o FMI ensinar a Obama como gerir os EUA. E aproveitou para, apesar dos cortes no Orçamento, prometer mais um milhão de habitações e ampliação do Bolsa Família para os jovens. Ou seja: um olho na crise, outro na sua popularidade hoje e na campanha de Dilma Rousseff amanhã.
Esses dois Lulas, que se alternam entre o Fórum Econômico e o Fórum Social, dividem opiniões. Como ficou claro num encontro de jornalistas sobre América Latina na Espanha, semana passada.
Em almoços e jantares, brasileiros criticavam o "oportunismo" e o lado marqueteiro de Lula, sempre tirando vantagem de tudo - inclusive dos êxitos alheios. Nas reuniões plenárias e mesas redondas, espanhóis, argentinos, venezuelanos, equatorianos... elogiavam a liderança política e o sucesso administrativo do Brasil e de Lula.
De onde, afinal, vem a boa fama de Lula no mundo? De onde os jornalistas internacionais tiram tanta simpatia por ele? Principalmente da imprensa brasileira, que, por exemplo, como tinha de ser, registrou todo o seu falatório e toda a sua desenvoltura no Fórum de Belém.
Isso mostra como as notícias sobre Lula e seu governo têm imenso espaço e repercussão, soterrando as críticas. Tudo o que ele diz, faz, promete e anuncia tem destaque. O resto fica confinado aos espaços de análise e de opinião.
Está explicada, portanto, a azia de Lula com a imprensa: ele chora de barriga cheia, muito cheia.”
*
Francamente, pessoal, sempre vi premeditação na má vontade com que a imprensa brasileira trata Lula, mas essa coluna me abalou tal percepção. A jornalista parece não ter percebido a enormidade que disse.
Eliane simplesmente reconheceu um fato citado por dez entre dez críticos da mídia grande nacional: enquanto é enorme a má vontade com Lula nessa imprensa, no resto do mundo e no Brasil ele se tornou um dos líderes políticos mais admirados.
Eliane, no texto em questão, confessa que não entende por que Lula é tão admirado, já que essa entidade guardiã da verdade suprema do universo, formada pelos jornais e tevês do eixo São Paulo - Rio, detesta o presidente.
Se imprensa, governos e cidadãos do mundo todo, e até a maioria esmagadora dos brasileiros, admiram Lula - penso que pelos resultados de seu governo -, será que o problema não está na imprensa tupiniquim?
Aliás, o texto de Eliane é tão bobo, tão ingênuo, que a poucas páginas dali o ombudsman da Folha, Carlos Eduardo Lins da Silva, com seu estilo de minimizar as graves e reiteradas práticas anti-jornalísticas da Folha, faz um comentário que se choca com o que diz a colunista.
Eliane afirma, na coluna acima reproduzida, que o noticiário é generoso com Lula e que as críticas que se faz a ele ficam confinadas nos espaços destinados a opinião. O ombudsman da Folha, na mesma edição do jornal, mostra como o noticiário não é sempre tão isento assim.
Vejam como suas críticas demolem a teoria de Eliane Cantanhêde sobre isenção do noticiário:
"Carlos Eduardo Lins da Silva – ombudsman da Folha
No dia 24, o jornal acertou ao usar o adjetivo "suposto" em referência ao célebre grampo contra o presidente do STF. Mas, quando o tema era manchete diária, não foi cauteloso. Não demonstrava dúvida sobre o "grampo ilegal". Esse episódio, em que o jornal embarcou acriticamente em informação sem a ter obtido ou comprovado autonomamente, deveria servir para estabelecer determinação pétrea: nenhuma informação exclusiva revelada por outros pode ser considerada verdadeira sem confirmação própria.
*
Na quinta, o jornal deu manchete para a ampliação de R$ 873 milhões em gastos sociais do governo federal. Ressaltou ter ocorrido um dia após cortes no Orçamento de R$ 37 bilhões, que não estiveram na capa de quarta. Se o que envolvia valores maiores não era relevante para a primeira página, por que 3% deles foram manchete? Havia assuntos mais importantes, como os entraves a importações e o pacote econômico de Obama.
*
Na terça, pela segunda vez em poucas semanas, título de submanchete da capa passa a impressão de que números de desemprego se referem ao Brasil, embora sejam internacionais.
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Como vocês vêem, se ficarmos lendo só as notícias de que gostamos, lendo só os articulistas com os quais concordamos, e se ignorarmos gente que é capaz de causar comoção social quando quer, não teremos como saber o que eles sabem.
Agora, por exemplo, com esse falatório sobre crises não derrubarem popularidade de governantes porque eles acabam sendo vistos como “salvadores da pátria”, a manchetona de primeira página, toda essa pantomima nos leva aonde?
Quem vocês acham que é esse governante que o editorial diz que há no Brasil e que a crise, em vez de desmoralizar, elevou ao status de “salvador da pátria”? O que significa isso, que eles têm informações de que Lula, em vez de cair na impopularidade, manteve-se popular ou até tornou-se mais popular?
A mim pareceu isso que acabo de dizer. Eles têm o Datafolha, sabem mais do que nós. E vocês, como entenderam? Não importa. Tenho certeza de que a maioria percebeu por que temos que vigiar a mídia. E com lupa.