sou amigo de Paula – somos contemporâneos de faculdade – e te digo que estamos consternados com toda esta situação.
Primeiro, veio o choque do ocorrido. Depois, e talvez tão grave quanto, essas alegações absurdas que a transformam agora em vilã, não mais em vítima.
Posso te dizer, com toda certeza, que ela não seria nunca capaz de uma coisa dessas.
Ela estava crescendo na vida na Suíça, foi morar lá a convite da empresa em que ela já trabalhava aqui no Brasil, estava de casamento marcado para este ano e, sim, estava grávida. Ela simplesmente não tinha motivação para isso.
Estamos muito indignados com o ocorrido e com essa cobertura tosca da mídia brasileira. Não esperam sequer a defesa de Paula e da família e já começam a condená-la.
Te parabenizo, em nome dos amigos de Paulinha, pelos seus comentários. Sempre muito sóbrios e justos.
Tudo que pedimos, aos brasileiros, é que dêem a Paula ao menos o benefício da dúvida e esperem a sua defesa antes de condená-la.
Forte abraço!
Rodolfo Cabral | Recife | Professor | 14/02/2009 16:31
Outro abraço, Rodolfo. E mande à sua amiga meus votos de pronta recuperação e a minha mais ampla solidariedade
Conheça os acusadores de Paula
Do leitor Roberto Locatelli | São Paulo - SP - Brasil | Empresário |
Eduardo,
saiu no Estadão:
Intolerância contra estrangeiros cresce na Suíça
Considerado famoso por propaganda racista, ultradireitista Partido do Povo Suíço (SVP) é o maior do país
Associated Press
ZURIQUE - De acordo com uma pesquisa divulgada em junho de 2006, um terço dos suíços é declaradamente xenófobo. Doudou Diène, relator especial da ONU para o racismo, afirmou recentemente que o racismo é uma grave questão na Suíça, principalmente porque as autoridades locais não acreditam que o problema seja sério.
Segundo organizações de direitos humanos, a Suíça registrou 113 casos de violência relacionadas ao racismo em 2007, 30% a mais que em 2006. Segundo analistas, isso explica o crescimento do ultradireitista Partido do Povo Suíço (SVP), o mais votado nas eleições de 2007, com 29% dos votos.
Na ocasião, o partido propôs expulsar estrangeiros e proibir que meninas muçulmanas usassem véus. Nos últimos anos, o SVP ganhou espaço com propagandas racistas. Em uma delas, ovelhas brancas chutam para fora da Suíça ovelhas negras. Em outra, o partido afirma que o aumento da criminalidade na Suíça ocorreu por causa da imigração.
Em 2007, o partido conseguiu aprovar uma nova lei de naturalização que submete a aprovação da nacionalidade suíça a uma votação secreta feita pela comunidade onde vive o estrangeiro. A Suíça tem a maior população de imigrantes da Europa. Cerca de 1,5 milhão de pessoas, o equivalente a 25% da população, é de imigrantes.
Um dos maravilhosos cartazes do tal Partido do Povo você pode ver abaixo:
Já me conformei com a certeza de que morrerei sem ver o Brasil ter como responder, por meio da sua imprensa, às imprensas de países do dito Primeiro Mundo que conosco têm algum contencioso. Sendo assim, não me surpreende que também nesse caso da brasileira agredida na Suíça – até prova em contrário, a versão dela é que deveria prevalecer – a mídia "daqui" dobre a espinha ante a mídia e o Estado de lá.
A Suíça, tal como a Itália, é um país que tem muitos argumento$ para convencer esses mercenários que vão para o lado da política que mais lhes intere$$a, mesmo que isso represente comprar a versão que desmoraliza todos os brasileiros espalhados pelo mundo, caracterizando-os como mentirosos capazes dos atos mais absurdos.
Só para ilustrar essa prática hedionda de nossa mídia, sua atitude patética que se contrapõe à união que Estado, mídia e sociedade suíços adotaram contra o que consideraram pernicioso à imagem do país, leiam a nota abjeta do Estadão de hoje que pergunta a uma autoridade brasileira se o Brasil não irá “se desculpar” com a Suíça, fazendo isso antes mesmo de se ter segurança de que não são nacionalismo e interesses políticos que estão fazendo as autoridades policiais suíças transformarem em ré uma moça que, até prova em contrário, é vítima.
Reação precipitada constrange Itamaraty
No Estadão:
A suspeita de fraude colocou em situação delicada a diplomacia brasileira que, antes mesmo de saber o resultado dos exames periciais de Paula Oliveira, deu declarações fortes e ameaçou levar o caso para o Alto Comissariado para Direitos Humanos da ONU.
Ontem, a consulesa-geral do Brasil em Zurique, Vitória Clever, voltou atrás e disse que não tinha motivos para colocar em dúvida as constatações da polícia. "A Suíça foi acusada de racismo e agora vai até o final para dar uma resposta ao Brasil. É uma questão de honra para eles", afirmou.
Cautelosa, ela aponta que, ao sair em defesa da brasileira, o Itamaraty apenas fez o que teria de ser feito. "Nossa política é atender aos cidadãos brasileiros e, de fato, houve um problema em relação à forma como a polícia nos tratou num primeiro momento", disse. Questionada se o Brasil terá de pedir desculpas, Vitória apenas respondeu: "Isso caberá a alta chefia".
O chanceler Celso Amorim havia anunciado que poderia levar o caso à ONU e chamou o encarregado de negócios da Suíça em Brasília para dar explicações. Na quinta-feira, Amorim chegou a mencionar um possível caso de xenofobia.
Na missão do Brasil em Genebra, o sentimento é de que uma eventual confirmação da farsa afetará as relações entre os países. "Poderemos ficar em uma posição bem desconfortável", disse um funcionário.
Nos jornais e telejornais, cheguei a ver manchetes que compraram integralmente a versão suíça de que a brasileira Paula Oliveira “não estava grávida quando foi atacada”, quando o máximo que uma imprensa que se diz brasileira poderia dizer é que acusam a moça de ter mentido com base em uma metodologia ainda não especificada, e que teria detectado que o aborto que ela sofreu teria acontecido “antes” do ataque do qual teria sido vítima.
Apesar de a mídia “brasileira” divulgar as negativas da família de Paula de que tal fato tenha ocorrido – só faltava não divulgar... –, a possibilidade de constranger o Itamaraty (Celso Amorim e o governo Lula) por ter saído imediatamente em defesa da advogada brasileira levou a mídia tupiniquim, colonizada, a pender, salivando, para as teses suíças, de forma a não perder nenhuma chance de tentar desmoralizar o popularíssimo governo Lula.
É óbvio que ninguém pode ter certeza absoluta de nada neste momento, mas o fato de a polícia suíça ter duvidado de Paula antes de qualquer teste, antes de qualquer exame de corpo de delito, bem como o fato de até policiais suíças terem ido pedir desculpas à moça pelo mau atendimento que recebeu da polícia que integram por ela ter sido atendida por policiais masculinos num momento daqueles, e o último fato, de o maior partido político suíço estar na berlinda nesse caso, tudo isso deveria pôr Estado, mídia e sociedade brasileiros ao lado de sua compatriota, pelo menos até prova em contrário.
Mais do que tudo, a conduta novamente antinacional da mídia, só que agora em relação a uma pessoa do topo da nossa pirâmide social, deveria fazer esses brasileiros que apóiam o quinta-colunismo midiático - e que são os brasileiros que mais viajam pelo mundo - a repensarem esse apoio, pois agora fica claro que a mídia não vê nenhuma diferença entre os interesses de seu país e os dos outros países.
A elite fã dessa imprensa golpista, racista, antinacional e mercenária deveria entender que, como no caso da valentia, sempre há alguém mais rico a escolher quando o critério para determinar uma tomada de posição é a riqueza. Amanhã, prezado aristocrata, a vítima da mídia apátrida e quinta-coluna poderá ser você.
O roto (?) e o remendado
Eu tenho que rir... A mídia suíça acusa a brasileira, também injustamente, do mesmo que esta acusa o governo Lula.
E, para não brigar com a sua congênere suíça, a mídia quinta-coluna chega a divulgar manchete mentirosa (portal G1) que diz que o pai da brasileira supostamente agredida "reconhece que não tem como provar" a gravidez da filha, quando o que ele disse, como se vê no corpo da reportagem, é que não tem como provar exclusivamente neste momento, porque ela está hospitalizada e ele não tem acesso aos seus documentos.
Em meio a essa busca desenfreada da mídia por sabotar o país, pelo menos o portal Terra acaba de divulgar matéria da revista IstoÉ que os outros portais ainda escondem no meio da tarde deste sábado e que mostra que empresários e economistas já descartam recessão no primeiro trimestre do ano e vêem até como aceitável a hipótese de o país ter crescido enquanto o mundo afundava.
Devido à volatilidade que a conjuntura geopolítico-econômica imprimiu ao mundo nos últimos cinco meses, começo a sentir maior necessidade de fazer análises sob a ótica econômica.
No ano passado, porém, a conjuntura em voga se estabelecera a partir do ângulo ético-político, com denúncias contra o governo sendo o mote da discussão na grande mídia sob o ponto de vista da transformação de oposicionistas em vítimas de um Estado maculado eticamente sob a égide petista.
A seguir, portanto, analisarei a conjuntura nos setores da vida nacional que importam a todos, porque determinarão que país teremos na década que se avizinha.
Conjuntura política
O primeiro fato da conjuntura política, assim, é a mudança de estratégia da coalizão oposicionista integrada, maiormente, pelos partidos PSDB, DEM e PPS, e pelos veículos de comunicação Globo, Folha de São Paulo, editora Abril e Grupo Estado.
O embate político vinha e continua sendo travado sob o mote que o grupo político com maior poder de difundir seus interesses lhe imprimiu, portanto. E tal grupo é o acima nominado, que se compõe de políticos como José Serra e Fernando Henrique Cardoso em consonância com os interesses e com as visões político-ideológicas das famílias Marinho, Frias, Civita e Mesquita.
Por outro lado, o PT estabeleceu melhor sua aliança com o PMDB e com as outras legendas menores que sempre se apresentam como fiadoras da “governabilidade” e aderem a todos os governos.
Agora, porém, nota-se ao menos uma mudança importante na comunicação no Brasil: o governo Lula parece ter despertado na Rede Record, de Edir Macedo, os melhores pendores jornalísticos, pois a emissora tem dado shows crescentes de isenção, difundindo as críticas mais ácidas ao governo tanto quanto à oposição.
Será leviano dizer que Lula despertou tais ímpetos estritamente jornalísticos na Record com os mesmos “argumentos” que se nota na conjunção de interesses econômicos entre os grandes jornais, revistas, tevês e a oposição ao governo federal. Afinal, este governo também tem tido “dissabores” noticiosos com a emissora em questão.
Ao mesmo tempo, Carta Capital pareceu estremecer sua relação com o governo, nem que seja no campo da amizade entre Mino Carta e Lula, amizade que deu a impressão de ter sido abalada depois do episódio do presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, que a revista disse que deixaria o cargo e acabou não deixando.
Conjuntura econômica
É sob o pano de fundo que acabei de pintar que se compõe o cenário político neste instante. Esse cenário, porém, ainda precisa do componente econômico para se conformar.
Com a intensidade surpreendente que a crise econômica internacional adquiriu no Brasil nos dois últimos meses do ano passado, quando centenas de milhares de empregos e a produção industrial foram aniquilados junto com o crédito numa paulada só, estabeleceu-se uma crença fundamentalista entre o consórcio político-midiático de oposição de que agora a popularidade de Lula cairia, com demissões e maiores dificuldades na economia.
A economia brasileira, porém, também mostra que não esgotou seu estoque de surpresas. A reação dela às medidas do governo já se faz notar até entre os que não desejam que reação ocorra. Nesse ritmo, em sessenta ou noventa dias os analistas terão que reconhecer que a economia do país terá voltado a crescer.
A reação popular à crise foi mais uma grande surpresa dos últimos meses, ao não corresponder às expectativas do consórcio midiático-oposicionista mantendo não apenas alta, mas surpreendentemente crescente a aprovação ao governo Lula e ao seu titular. O consórcio midiático-oposicionista perdeu a batalha da opinião pública de novo, como perdera no campo ético.
Conjuntura pré-eleitoral
No âmbito das projeções quanto à sucessão presidencial de 2010, esse processo eleitoral poderá mudar drasticamente a geopolítica latino-americana se vier a eleger um governo presidido por José Serra, que seria francamente opositor dos governos da Venezuela, da Bolívia, do Equador e do Paraguai, conforme mostram as posições do PSDB e do DEM no Congresso e na mídia.
O quadro atual mostra que José Serra é o único que tem chances reais na eleição, mas mostra que esse cabedal de intenções de votos que detém é extremamente frágil, calcado no recall (lembrança do eleitorado) gerado por décadas de intensa militância política.
Esse patrimônio eleitoral do tucano se assenta no fato de a provável adversária do governador paulista em 2010 ser uma tecnocrata como Dilma Rousseff, totalmente inexperiente em campanhas eleitorais.
A despeito do desequilíbrio em favor de Serra devido à ausência de um nome petista conhecido do eleitorado para disputar a sucessão de Lula, Dilma Rousseff vem sendo beneficiada pelo fenômeno conhecido como transferência de votos, os quais têm vindo de Lula para sua candidata não-oficial e que ainda é fartamente desconhecida do eleitorado.
Um fato inquestionável: apesar da exposição de Dilma Rousseff graças ao PAC, todas as sondagens de uma opinião pública ampliada para além do campo dos leitores de jornais - dessa opinião pública elitizada que constitui uma minoria infinitesimal do conjunto da sociedade - mostram que a grande maioria do eleitorado nem faz idéia de que Lula está apoiando alguém.
É, pois, totalmente imprevisível o quadro eleitoral para 2010. O que se sabe, apenas, é que Serra, no máximo, tem consigo, muito provavelmente, o mesmo patrimônio em votos que tinha em 2002, o que não é pouco, mas tampouco me parece suficiente para elegê-lo.
Conclusões
A indefinição do quadro eleitoral daqui a dois anos gera previsões ufanistas de ambos os lados desse dividido espectro político brasileiro. Uns, porque Serra tem muitas intenções de votos, e outros porque Lula tem muito mais prestígio do que Serra no âmbito do país.
Os primeiros se esquecem de que os descontentes obviamente que ficam mobilizados sob um governo dos contentes, mesmo que na hora da decisão virem minoria, e os segundos se esquecem de que o mundo se encontra sob uma grave crise econômica que pode vir a se abater sobre nós de forma a fazer o que até agora não fez, que foi piorar a vida de um contingente maior de eleitores de forma que o gestor do país possa vir a ser responsabilizado pela situação.
Em minha opinião, neste momento o jogo favorece os anseios petistas. A economia parece estar não apenas resistindo à crise, mas também passando à ofensiva ao ameaçar voltar a crescer em meio a um mundo em bancarrota, o que constituirá um ativo eleitoral inimaginável se vier a ocorrer.
Quanto às tentativas dos grandes meios de comunicação de manipularem a opinião pública em favor da coalizão entre tucanos e democratas, além de agora terem uma Record roendo a corda do que ainda realmente importa, que é a tevê, têm que arcar com uma população que parece estar entendendo perfeitamente o que está acontecendo.
Qualquer análise das pesquisas sobre a aprovação de Lula e de seu governo mostrará que ele é apoiado de forma esmagadoramente majoritária até nos estratos sociais mais ricos e escolarizados.
Há um consenso pró-Lula no país que obviamente é fundado em motivos sólidos, ou seja, em pessoas cultas e bem situadas na vida que apóiam o presidente quase tanto quanto aquelas menos cultas e mais pobres, e isso porque também concluíram que o país está sendo bem administrado, por mais que a mídia, que hoje todos sabem que está do lado da oposição, diga o contrário.
A negação oposicionista-midiática desse fato não é nem estratégia, é pura demonstração de descontrole emocional. Prevejo um acirramento dos ataques ao governo e tentativas de enquadrar a Record. Prevejo surgimento de denúncias contra a emissora de Edir Macedo, que, aliás, não me parecem muito difíceis de conseguir, para ser honesto com meus leitores.
Declaro que nada tenho contra o PAC paulista, programa do governo de São Paulo de combate à crise que será anunciado pelas manchetes principais de todos os maiores jornais do país nesta sexta-feira, apesar de ser um programa paulista, e depois de passar o dia anterior sendo destacado ininterruptamente pelos portais de internet e pelos telejornais. Também quero deixar registrado que escrevo na quinta-feira à noite...
Não rejeito a generosa cobertura publicitária que tal anúncio recebeu - e que ainda receberá muito - da imprensa, porque foi, acima de tudo, a mais legítima adesão do governador José Serra, autor da teoria de que o PAC original “não existe”, a nada mais, nada menos do que àquilo que ele vinha mandando Globos, Folhas e Vejas criticarem sem dó nem piedade, ou seja, ao... PAC (!?).
Serra adotou medidas sobre as quais a imprensa falou menos do que do mero fato de que foram anunciadas. O governador tucano fez isso, obviamente, em reação a nota do PT que atacou a oposição tucano-pefelê por se limitar a pregar o caos em vez de ela também fazer alguma coisa contra a crise nos Estados que governa.
Serra tentou se explicar dizendo que a responsabilidade de combater a crise é do governo federal, mas não quis deixar no ar a idéia de que “o próximo presidente do Brasil” não esteja fazendo outra coisa além de produzir previsões assustadoras para jornais publicarem, de maneira que inventou o “PAC paulista”, programa miraculoso que, ao menos na mídia, logo, logo revelará propriedades mágicas, fazendo cegos voltarem a enxergar e paraplégicos caminharem.
Nada tenho, agora explico, contra a intenção do pré-candidato tucano à Presidência da República de parar de trabalhar com o maxilar contra a crise e começar a trabalhar com aquela caneta do governo estadual que o entorpecido povo paulista deixa em mãos tucanas há 14 anos justamente para eles não precisarem ficar só reclamando.
A iniciativa paulista, mesmo sendo claramente eleitoreira, poderá ser boa mesmo que não cumpra o previsível e dê algum resultado - e não deverá dar, porque, à diferença do PAC federal, feito há mais de dois anos, quando Serra dizia ser um programa “desnecessário”, este “PAC” estadual começa quando a crise, ao menos no Brasil, dá sinais de que está amainando. Mas, pelo menos, Serra terá alguma coisa mais útil para fazer além de ficar escrevendo manchetes para a Globo, para a Folha etc.
No entanto, não estou muito confiante de que o desocupado governador de São Paulo se dedicará um pouco mais a governar e um pouco menos à própria candidatura à Presidência. Sua mente se mostra uma usina de estratégias políticas burras.
Vejam só, abaixo, o que diz o tucano sobre o Bolsa Família, um dos programas sociais mais reconhecidos do mundo e cujos resultados instituições como o IBGE, a FGV, o Ipea, a ONU, o Banco Mundial, o FMI, governos e imprensa estrangeiros elogiam o tempo todo:
"Somos extremamente a favor da transferência de renda, mas através do trabalho. Só transferência de renda não adianta".
Serra quer trabalho aumentando no Brasil? Por que ele não dá uma olhada nos dados do IBGE, da FGV, do IPEA, de todas as instituições daqui e do resto do mundo que mostram a melhora não só do nível de emprego como redução progressiva das desigualdades?
Serra preferirá destacar a queda episódica no emprego para dizer que políticas de geração de emprego não foram adotadas nos últimos anos? A população não acreditará. Talvez a maioria dos paulistas, mas no resto do Brasil essa conversa não cola.
Agora, é aturar a masturbação do “milagroso” PAC paulista até 2010, ao qual a mídia atribuirá a recuperação que a economia brasileira já começa a exibir e que penso que permitirá ao Brasil se destacar no mundo como o primeiro país a superar a crise econômica internacional.
Fica uma dúvida, porém: será que alguém, fora de São Paulo, acreditará na versão que os meios de comunicação tentarão vender, de que foi Serra quem tirou o Brasil da crise?
Estudo do professor da FGV Marcelo Cortes Neri divulgado ontem mostra que a crise não atingiu os mais pobres no Brasil, não lhes diminuiu a renda, não freou a queda da desigualdade e, o que mais impressiona, não impediu que as classes D e E continuassem encolhendo e que seus integrantes continuassem ascendendo à classe C mesmo no período negro de setembro, outubro, novembro e dezembro de 2008.
Nenhum dos grandes jornais (Folha, Estadão e Globo) deu chamada de primeira página para o Estudo da FGV. A cobertura limitou-se a notas escondidas e curtas nas páginas internas. Quanto aos telejornais, alguns tiveram a coragem de não divulgar o Estudo e outros deram pouquíssima importância a informação desse calibre.
O anúncio do Estudo intitulado “Crônica de uma crise anunciada – choques externos e a nova classe média” foi feito pelo professor Neri em entrevista coletiva à imprensa. Estimo que nem o pesquisador imaginava o tratamento pífio que a mídia daria ao seu trabalho.
O vídeo contendo a apresentação do Estudo à imprensa por Neri pode ser assistido clicando aqui, e o Estudo em si pode ser lido na íntegra clicando aqui.
O pesquisador atribui a programas sociais como o Bolsa Família e aos aumentos do salário mínimo os vastos sucessos sociais dos últimos anos do governo Lula, dando destaque para a queda da desigualdade e para o impressionante aumento de mais de 20% da classe C e o forte encolhimento do contingente de pobres e miseráveis nos últimos anos
Mas, em determinado ponto da entrevista de Neri à imprensa, ele faz uma afirmação sobre o PAC, programa governamental que a mídia e a oposição dizem que não existe, que todos os brasileiros precisam conhecer, sobretudo por tal afirmação ter sido proferida por esse pesquisador da FGV que vem atravessando vários governos e que jamais foi acusado por ninguém de partidarismo ou coisa que o valha.
Reproduzo abaixo, textualmente (para quem não tiver conexão rápida para assistir o vídeo acima mencionado), o que o professor Neri disse sobre o PAC:
“(...) O PAC, Programação de Aceleração do Crescimento, é um plano que talvez não fizesse muito sentido quando ele foi lançado como um plano de aceleração do crescimento, porque a economia estava muito aquecida, e hoje em dia é visto quase como um New Deal americano [programa de aquecimento econômico do presidente americano Franklin D. Roosevelt implementado entre 1933 e 1937] numa época em que comparações com a grande depressão americana [de 1929] começam a se tornar mais comuns. Então, é meio como se o Brasil criasse um New Deal antes que a depressão fosse anunciada. Aqueles que acham que o Brasil estava com sorte, alguns anos atrás [conforme diz a imprensa e a oposição para desmerecer o crescimento continuado dos últimos anos], que sorte temos agora, porque é como se tivéssemos um bilhete de loteria, um seguro que não sabíamos que tínhamos (...)”.
Não é à toa que a mídia escondeu o estudo de Neri. Ele mostra que, se estivermos mesmo saindo da crise – e a mídia, seguindo conselho recente de FHC aos tucanos para combaterem as medidas anticrise de Lula, não quer aceitar tal hipótese –, tudo se deve à visão que o presidente teve ao se dedicar tanto ao PAC nos últimos anos enquanto a mídia e a oposição diziam que o programa “não existia”.
O professor Neri conclui elencando vários fatores que permitirão ao Brasil superar a crise antes dos outros países e faz alertas de que as políticas públicas devem continuar na rota do PAC e dos programas sociais, porque, se houver desvios, poderemos perder a chance de sair dessa crise muito maiores do que entramos nela.
Ainda no assunto do complexo de vira-latas do brasileiro.
Hoje pela manhã, conversei pelo Skype com a minha filha Gabriela, que está morando, estudando e (quase) trabalhando (legalmente) em Sydney, na Austrália. O assunto surgiu por parte dela, para minha surpresa. Ela se queixou de estar sentindo constrangimento devido à imagem dos brasileiros naquele país.
Em sua classe, na escola de inglês, ou em qualquer outra parte, minha filha constata que, apesar da simpatia que o Brasil desperta em outros povos, não podemos fugir da imagem de incivilizados que nos caracteriza no Primeiro Mundo, porque, oriundos de um país que seus próprios filhos tratam de detratar quando estão no exterior, conforme revela Gabriela, se nós mesmos nos depreciamos não haveria por que o resto do mundo nos ver de forma diferente.
Sim, meus irmãos e minhas irmãs, minha filhota sente constrangimento, sobretudo em sua classe, na escola. Ela estuda com europeus em geral, com japoneses e com brasileiros, mas, em maioria, seus colegas são de países do Primeiro Mundo. Seu professor, claro, é australiano.
Na visão de Gabriela, à exceção dos brasileiros, todos os outros alunos denotam forte nacionalismo, ou mais, um orgulho de suas nacionalidades que, no dizer de minha filha, “É bonito de ver”.
Infelizmente, para espanto da menina os brasileiros, aonde quer que ela vá, fazem o oposto dos outros povos, pois falam desbragadamente mal do nosso país, destacando sempre tudo que temos de pior, o que faz com que os estrangeiros que conhece lhe façam perguntas sobre nossa prostituição infantil, sobre nossas favelas, sobre nossa miséria, sobre nossa desigualdade...
Nenhum de seus colegas sabia, por exemplo, que Gisele Bündchen é brasileira, para que vocês tenham uma idéia. Segundo Gabriela, o filme Cidade de Deus marcou indelevelmente a imagem do Brasil no exterior. Para nossa tristeza e vergonha, em minha opinião.
É claro que não se pode esconder esse lado do Brasil. Só que, à diferença dos povos desenvolvidos e até de povos sul-americanos nossos vizinhos, como os argentinos, chilenos e uruguaios, não temos orgulho do que temos de bom, com as exceções óbvias de nossos esportes, de nossa música, de nossa sensualidade ou de nossa comida.
Não nos orgulhamos do povo que somos em termos de desenvolvimento cultural, o que não acontece com os povos dos países que tanto admiramos e dos quais parece que nos julgamos inferiores nesse importante aspecto.
Gabriela presenciou, condoída, no último dia 26, o Australian Day, o Dia da Pátria australiano, equivalente ao nosso 7 de setembro. Desde cedo, ela pôde ver pelas ruas o povo enfeitado com as cores e o pavilhão de seu país. Nos rostos, pelos corpos e indumentárias do povo que ora a recebe, a expressão viva do patriotismo, sentimento que, no Brasil, fomos ensinados pelas elites e sua mídia a achar que é bobagem, sinal de atraso.
Mas o que me parece que mais espantou Gabriela foi um sentimento que eu já tinha visto na Europa, o sentimento de respeito dos povos desenvolvidos por seus concidadãos, pelo que significa ser europeu, norte-americano ou australiano, que é um sentimento que o Terceiro Mundo não tem.
Por aqui, espantamo-nos com o Primeiro Mundo, sobretudo com os europeus, por não existir por lá a pobreza, a miséria que há por aqui – o que não significa que pobreza não exista nos países ricos...
Mas o que existe nesses países é um limite a que um europeu aceita ver um seu concidadão chegar em termos de pobreza e de indignidade. Por isso, não se vê, no Primeiro Mundo, famílias inteiras estiradas em calçadas, debaixo de pontes ou sobrevivendo em barracos toscos dependurados em morros insalubres. Ver congêneres em tal situação feriria o orgulho de ser alemão, francês, italiano...
No entanto, no Brasil essa elite de classe média, média alta e rica não entende da mesma forma. Para esse estrato social que amarra, envergonha, pisa e suga o país, há dois Brasis, o deles e o dos “outros”, que são essa gente que se vê abandonada nas esquinas, nos guetos ou nos grotões do país vivendo como animais.
O escândalo da merenda escolar em São Paulo, por exemplo, seria um caso de comoção nacional na Austrália em que está a minha Gabriela. A escola pública, naquele país, é obrigada a ser modelo para a privada. Um prefeito de uma cidade australiana que deixasse servirem comida estragada e em quantidade e qualidade inferiores a crianças, aos que por lá são considerados o futuro do país, esse governante seria metido na cadeia, no mínimo.
No Brasil, temos uma mídia que trata de proteger um crime desses porque os donos dela são membros e artífices da elite nefasta que esmaga a nação, e que é mentora intelectual da pobreza mental e moral que impele brasileiros a dizerem ao resto do mundo, quando o visitam, a seguinte barbaridade: “Não confiem em mim porque sou do Brasil, país que só tem defeitos”.
O que a Gabriela está constatando é o mesmo complexo de vira-latas brasileiro do qual venho lhes falando, só que do tipo exportação. Agora, digam-me uma coisa: vocês conseguem conceber um comportamento mais idiota do que esse?
Sucedem-se os estudos sobre o efeito psicológico da crise internacional no Brasil. São estudos de entidades como Fipe, IBGE, Dieese, sindicatos patronais como a Fiesp e a CNI e outros que mostram piora das expectativas de empresários sobre a economia e que revelam precaução de consumidores atemorizados com o desemprego.
Esses estudos constituem prova inquestionável de que a sociedade importou a crise ao se deixar assustar com um noticiário que vem garantindo a “inevitabilidade” da ocorrência de catástrofes econômicas por aqui.
O processo funcionou com base no soerguimento pela imprensa da antiga baixa auto-estima do brasileiro, aquele complexo de vira-latas que sempre nos fez acreditar que nosso país era inferior aos outros e que agora, portanto, não poderia sofrer menos os efeitos de uma crise dessas.
Creio que a frase mais ouvida dos pregadores da inevitabilidade do mergulho do país no caos econômico foi a de que seria “impossível” o Brasil não ser gravemente afetado pela crise num momento em que se vê as maiores potências mundiais e até os outros países emergentes afundarem todos juntos.
A teoria é de que não podemos, de maneira alguma, ser melhores do que o resto do mundo. Que escândalo! Como é que o Brasil, ainda mais governado por um “despreparado”, poderia se “descolar” de uma desgraça da qual ninguém está escapando? Seria quase uma heresia afirmar tal coisa. Não podemos ser melhores que o resto do mundo e pronto, é o que dizem.
A despeito disso, dados como o crescimento exponencial – e em curtíssimo espaço de tempo – das vendas de carros novos ou o recorde em financiamentos de imóveis pela Caixa Econômica Federal agora em janeiro mostram como o reflexo no Brasil do agravamento da crise mundial a partir de outubro do ano passado – de uma crise que, na verdade, começou no mundo há mais de um ano – encontra maiores explicações na psique social do que em fatores econômicos.
O desemprego, que em dezembro subiu com força, de acordo com o noticiário não mostra continuidade em janeiro, ainda que não tenham sido divulgados os dados oficiais. Antes dos dados do Caged e do IBGE de janeiro, não se tem como afirmar nada, mas o noticiário permite crer que a opção pelas demissões, que muitos empresários fizeram atabalhoadamente em dezembro, constituiu, em grande parte, uma reação emocional ao noticiário alarmista.
A retomada da produção em vários setores a partir de janeiro, como no setor automobilístico, em minha opinião deve ter despertado cautela entre o setor empresarial quanto a demissões precipitadas, ao que se juntaram gestões do governo federal ameaçando empresas que se beneficiam de verbas públicas ou de renúncia fiscal de lhes cortar os benefícios se continuassem a demitir “preventivamente”.
Nesse aspecto, vale a pena elencar aqui a reação proativa do governo em meio à crise, uma reação que inclusive explica parte do resultado surpreendente da última pesquisa sobre a popularidade ascendente e estratosférica do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
A saber, alguns dados sobre essas medidas governamentais que cada vez mais parecem estar surtindo efeito.
1 – O pacote anti-crise do governo federal já ultrapassou a marca dos 200 bilhões de reais, constituindo, para todos os especialistas, a maior intervenção oficial de estímulo econômico da história brasileira.
2 – Em 2009, o BNDES terá disponível para emprestar R$ 76 bilhões a mais do que em 2008, quando emprestou R$ 92 bilhões, ou seja, o banco de fomento federal terá quase 170 bilhões de reais para emprestar neste ano, isto é, 82% a mais do que no ano passado.
3 – O BNDES também usará as reservas internacionais em dólar para emprestar cerca de R$ 50 bilhões a empresas com dívidas em moeda estrangeira contraídas no exterior.
4 – Desde setembro, a liberação pelo governo do recolhimento compulsório dos depósitos à vista nos bancos foi da ordem de R$ 85 bilhões, o que desnuda o argumento do sistema bancário de que é o compulsório que faz subir o spread (taxa de risco), pois enquanto um terço do compulsório foi liberado as taxas de juro de mercado, subiram.
5 – O Banco Central também passou a emprestar a exportadores a fim de suprir a ausência dos recursos que obtinham no exterior para financiamento de suas operações.
6 – O governo postergou o recolhimento dos impostos pelas empresas, de forma a aliviar seus fluxos de caixa.
7 – Os impostos sobre operações financeiras foram reduzidos pelo governo, de forma a baratear o crédito, ainda que os bancos tenham se aproveitado dessas reduções para aumentarem suas margens de lucro.
8 – Reduziu o IPI dos carros novos, o que é considerado o fator que gerou a explosão na venda deles em janeiro, mas que não explica por que um consumidor com medo de perder o emprego resolve consumir se a dívida for uma fração menor, pois quem não tem emprego não pode pagar dívida nenhuma.
9 – O governo cortou impostos incidentes sobre material de construção e aumentou fortemente o subsídio à construção de casas populares.
10 – Foram abertas fartas linhas de crédito governamental para montadoras de veículos, para construtoras e para a agricultura.
11- Bancos oficiais, por ordem do presidente Lula, assumem a dianteira nas quedas dos spreads e das taxas de juro, o que já fez com que a oferta de crédito em meados de fevereiro tenha alcançado os níveis pré-crise. Isso sem falar em forte processo de queda da taxa Selic.
12 – Hoje, em Brasília, Lula recebe prefeitos de todo país no âmbito do lançamento de um plano de repactuação de dívidas dos municípios com a União, com uma espécie de “perdão” a administrações inadimplentes que lhes permitirá contraírem novos empréstimos dos cofres federais.
Além de tudo, destaco as posições firmes das autoridades (sobretudo do presidente Lula e do ministro do Trabalho, Carlos Lupi) no sentido de desmascarar os espertalhões da crise, empresários inescrupulosos (a maioria, composta por grandes empresários) que tentam se aproveitar da situação para retomar a tentativa até então enterrada (devido ao aumento exponencial da oferta de empregos até setembro do ano passado) de surrupiar direitos trabalhistas.
Cada vez mais vozes se levantam contra o alarmismo midiático, o que tem gerado alguma mudança de atitude na mídia, que já começa a reconhecer que os dados sobre o desastre são “contraditórios”.
Quanto à oposição tucano-pefelista, esta parece cada vez mais sem discurso. Ontem, no Jornal Nacional, diante da reportagem sobre medidas do governo para aliviar a situação dos municípios, apareceu-me o senador José Agripino Maia (PFL-RN), aquele que criticou Dilma Rousseff por mentir a torturadores, com a seguinte crítica às medidas governamentais:
“Não são medidas de efeito global sistêmico de combate efetivo à crise de uma forma generalizada”
Entenderam o discurso do homem? Não entenderam? Não se preocupem, ninguém entendeu, porque ele não disse nada. Apenas exerceu o famoso jus esperneandi (direito de espernear) diante de um governo que teima em agir para combater a crise e que, assim, é percebido pela população como um governo que cumpre sua obrigação.
Apesar de tudo, há um setor da sociedade que teve sucesso, até aqui, em vender a idéia de que não podemos nos “descolar” do resto do mundo. Se este está em crise, por que o Brasil seria melhor?
A superação da crise pelo Brasil antes do resto do mundo constituirá uma catástrofe para a oposição. Um pesadelo que pode literalmente enterrar as chances de eleger José Serra em 2010. E o pior para a oposição – e melhor para o país – é que, com alarmismo e complexo de vira-latas e tudo, a economia real vai se erguendo.
Isso acontece porque o nível de renda e de emprego ainda se mantêm praticamente inalterados no Brasil mesmo em meio à hecatombe mundial. Apesar de alguns números feios, se olharmos o nível de atividade econômica sendo retomado e os níveis de emprego e de renda ainda altíssimos - em comparação com o passado -, entenderemos o que acontece.
Cansei de dizer aqui que o Brasil depende muito pouco de comércio exterior, em comparação com outros países, porque tem um enorme mercado interno para o qual pode redirecionar sua produção em caso de crise externa. Essa é a questão.
Tivemos problemas de encolhimento no crédito que dependia de linhas creditícias internacionais, que secaram a partir de setembro do ano passado. Contudo, não temos um sistema bancário quebrado – e nem poderíamos, com os lucros que bancos brasileiros têm em comparação com os dos outros países – e o Brasil chegou à crise montado em enormes reservas internacionais, no menor nível de endividamento público em 60 anos, com a atividade econômica e os níveis de emprego e renda “bombando”...
Dessa maneira, contra esse maldito complexo de vira-latas que já se dissipava no Brasil, num país que vinha recuperando sua auto-estima a passos galopantes, contra esse maldito complexo que tem sido ressuscitado pela imprensa e pela oposição, temos um governo atuante e corajoso, merecedor de minha admiração, da admiração do resto do mundo e, o que é mais importante, da maioria avassaladora dos brasileiros.
Hoje, o país se olha no espelho e gosta do que vê, ainda que ao seu lado exista quem fique dizendo que ele não está tão bem assim, que não é melhor do que ninguém, que na verdade sua boa situação é apenas retórica etc. O maior desafio deste país, portanto, será enterrar de vez esse complexo injustificado e mostrar ao mundo quão promissor é o nosso Brasil.
À luz de fatos recentes, chego à conclusão de que o que acontecerá no Brasil depois de 2010 deve ser objeto de ampla reflexão das forças democráticas que queiram impedir que um virtual desastre aconteça.
Devo informar que procurei olhar com olhos de ver a situação político-institucional brasileira e descobri quanto estamos distantes de alcançar um patamar minimamente edificante na escala de maturidade democrática das nações.
Mesmo que todos saibam que um caso como esse do deputado do castelo sonegado ao fisco que viola direitos trabalhistas de seus empregados é apenas mais um entre tantos outros na nossa trágica crônica política, e que essa é apenas a ponta do iceberg do que existe de podre na política brasileira, quantos não achavam que hoje a situação seria um pouco melhor do que ontem?
E a situação é ainda mais grave do que se pensa.O Congresso inteiro, governo e oposição, deputados, senadores, chefes do Executivo, é óbvio que todos sabiam quem era o tal “Edmar”. De repente, todos eles posam de virgens escandalizadas que meramente descobriram que viviam em confraternização com uma prostituta.
O fato é que hoje no Congresso temos um reduzido contingente de verdadeiros ideólogos de alguma coisa. A maioria daquela casa é ocupada por vigaristas e oportunistas sem ideologia alguma e que vão para onde o vento sopra contanto que enriqueçam nos cargos que ocupam e com as liberações de verbas públicas que intermedeiam entre o Poder Executivo e a iniciativa privada.
O mesmo se reproduz por todas as Casas Legislativas pelo país afora.
Chega-se a um ponto em que as discussões ideológicas que travamos aqui tornam-se cômicas. Enquanto uma maioria de cidadãos honestos com ideais progressistas ou conservadores se insultam em nome da classe política, esta é composta por uma maioria de espertalhões que se candidatam simplesmente para enriquecer, dando uma banana para ideais.
Descobri isso faz décadas, claro, mas num momento em que vejo o país encantado por finalmente estar sendo governado, descubro que estamos mal arrumados, porque o que nos separa da escuridão é muito pouco.
Hoje, o que faz com que o Brasil avance um pouco para o povo de forma que ele apóie com tanto fervor o governo é apenas Lula, que com sua popularidade torna um pouco menos indócil a canalhada que infesta o Executivo, o Legislativo e o Judiciário.
Vejam o caso do PMDB. Desde quando aquilo é um partido? Entrevista de Michel Temer, presidente da Câmara, hoje na Folha revela o que todos sabemos, que o PMDB espera para ver se Lula manterá a popularidade para decidir se ficará ao lado dele e de sua candidata em 2010.
Temer, ao abrir a possibilidade de o PMDB ir para a eleição presidencial com o governo, com a oposição ou com candidatura própria, essa declaração desnuda como o partido não passa de um aglomerado amorfo de interesses sectários e paroquiais que vão para onde o poder estiver, ou seja, onde estiverem os cargos e as verbas.
O DEM, por sua vez, é um reduto de bandidos de todos os tipos, abrigados sob as asas de caciques políticos com influência no Judiciário, e que teve até que mudar de nome, de tão sujo que estava.
Na última década, vimos o ex-PFL abrigando desde traficantes de drogas que serravam seus desafetos ao meio ainda vivos até parlamentares que transportaram dezenas de malas coloridas recheadas de dinheiro em jatinhos. E agora, como se não faltasse mais nada, até descerebrados que constroem castelos medievais, sonegam direitos trabalhistas e enganam o fisco enquanto têm a coragem de ocupar cargos no Congresso como fiscais da ética de seus pares.
Restam o PSDB e o PT como únicos partidos fortes um pouco mais ideológicos, sendo o primeiro o partido do capital transnacional e o segundo da classe trabalhadora e dos movimentos sociais.
Em torno do primeiro, gravitam legendas com direção conservadora de direita e que servem de abrigo a bandidos e oportunistas de todos os tipos, vigaristas que não teriam vez num partido de centro esquerda e que, por isso, procuraram uma de direita. Já em torno do segundo, gravitam legendas de direita cem por cento de aluguel, como o PMDB, o PTB e outras excrescências, e um ou dois pequenos partidos de verdade, com programa e ideologia.
Com exceção do PC do B, do PSOL, do PSTU e até do folclórico PCO, partidos que não aspiram o poder, não há hoje ideologia legítima na política. O país depende de um presidente extremamente carismático e popular para combater a corrupção e fazer políticas públicas de interesse da maioria.
Uma frase de Luiz Carlos Azenha resume o que penso: "Lula é o que nos separa hoje da escuridão. "
A aposta do país hoje está toda centrada na resistência que Lula será capaz de opor à crise internacional e de continuar trabalhando furiosamente, como vem fazendo, para gerar fatos políticos que mostrem à sociedade que o Estado está do seu lado nessa crise. Se o apoio a Lula cair, a escuridão avançará sobre o Brasil como uma praga de gafanhotos.
É bom que todos tenhamos consciência de que este país está dependurado por um fio. A única chance que temos de o Brasil não ser tomado por uma quadrilha em 2011 é a de que Lula se sustente em sua popularidade. E o pior é que popularidade tão alta parece que não tem mais para onde subir, sendo mais provável que caia do que aumente.
Não se pode desprezar, no entanto, o fato de que a resistência da popularidade do presidente diante do sério agravamento da crise no Brasil mostra um nível de consciência popular que poderia dar razão ao presidente quando ele diz que confia no discernimento da população.
Eu, porém, não confio. Basta olharmos o Congresso lamentável que temos para deduzir que a esmagadora maioria vota com os intestinos em vez de votar com o cérebro. Quem é que elege o cara do Castelo e todos os seus pares que, sabendo que convivem com um escroque, permitem que seja encarregado de fiscalizar o comportamento deles?
Como é possível que um partido sem idéias, sem programa, que não passa de eterno coadjuvante do Poder, esteja Ele ocupado por quem for, como é o caso do PMDB, continue crescendo como vem crescendo, ao ponto de se tornar o maior partido do país e de presidir as duas mais importantes Casas Legislativas brasileiras?
Confiar num eleitorado desses me parece uma loucura. E a vocês?
A questão de Lula reside muito mais na blindagem que as campanhas difamatórias que sofre desde que entrou na política lhe concederam. Num momento em que o país está bombando ou que resiste como nenhum outro a uma crise tão impressionante quanto essa que aí está, os adversários dele, sobretudo na imprensa, dizem coisas que ninguém entende, como que esse é “o pior governo da história”.
Duvido que alguém neste país ignore que tevês e jornais não gostam de Lula. E duvido que alguém acredite seriamente nas acusações que a imprensa lhe faz. Nem os direitistas mais empedernidos acreditam em nada, apenas apóiam essas acusações porque a imprensa é a única arma que têm – ou que acham que têm – para tentarem retomar o controle do Estado.
Então, meu amigo leitor, minha amiga leitora, vocês estão nas mãos de Lula, nas mãos que se espera que consigam segurar a aprovação dele nesses patamares, não só para manter o país animado com o futuro, impedindo a crise de se instalar com mais força, mas para impedir as quadrilhas da política de assaltarem com mais sede a arca do tesouro pública.
Agora, que é desanimador você saber que tem uma maioria de canalhas como o tal deputado do castelo ou que apóia bandidos como ele ocupando o Legislativo, é desanimador demais. O país está entregue a gente capaz de vender a mãe por dinheiro, quanto mais ideais políticos. Daí você olha para o Judiciário, cheio de bandidos. Olha para o Executivo, cheio de bandidos. Olha para a imprensa, para as igrejas, para a instituição que quiser, e vê todas cheias de bandidos.
A situação do Brasil hoje é conjuntural. Tudo repousa nas costas de um único homem, que consegue conter apetites e fazer passar migalhas para as massas miseráveis de forma nunca antes conseguida, mas que não passam de migalhas. É muito pouco e é muito frágil o que nos separa da escuridão neste momento.
Foi muito bom a Folha ter exposto, na coluna deste domingo de Mônica Bergamo, as entranhas desse mundinho hipócrita, consumista, fútil e preconceituoso em que chafurda a tão decantada "elite branca" paulistana.
Seus medos patéticos, seu tratamento vulgar do amor e do sexo, seus preconceitos ao chamar descendentes de negros de "baianos", esse apego patologicamente egoísta e insano aos bens materiais e às aparências formam a imagem que essa gente não vê no espelho.
Aplaudo efusivamente essa matéria da Folha porque deixou claríssimo como esse estrato social parasita é patético e exclusivamente dependente de (muito) dinheiro para ser feliz.
As esposas e namoradas desses golden boys da globalização, ora tão depressivos por verem todos os paradigmas nos quais acreditaram toda vida desmoronarem como castelo de cartas, mostram que estão à altura deles e que lhes constituem o merecido castigo.
*
Folha de São Paulo, 7 de fevereiro de 2009 - Caderno Ilustrada - Mônica Bergamo
Crise? Credo!
Quatro mulheres de investidores financeiros se reúnem em um bar em São Paulo e contam ao repórter Paulo Sampaio os efeitos da quebradeira internacional em seu relacionamento conjugal
Elas contam que "foi difícil". A empresária e profissional de marketing Mariana Campos Barbosa Lima, 34, diz que seu marido "head trader" (consultor financeiro) ficou "mudo". O da joalheira Lyna Carbone Jenner, 30, um investidor do ramo imobiliário, passou a tomar antiácido. O namorado da consultora Ana Carolina Almeida, 29, captador de recursos para crédito externo, parou de mandar a "flor mensal". O da estilista Fernanda Almeida, 29, um corretor de títulos de valores mobiliários, repetia: "Você não sabe como eu tô pobre". Em Nova York, a crise econômica levou mulheres de financistas de Wall Street a criar o Daba ("Dating a Banker Anonymous", ou "Namoradas de Banqueiros Anônimas"), um grupo de apoio mútuo às desoladas garotas (leia box).
FOLHA - Como seus maridos e namorados reagiram à crise?
MARIANA BARBOSA - O meu [marido], que fala pelos cotovelos, ficou mudo.
ANA CAROLINA ALMEIDA - O Cris dormia e acordava com a TV na Bloomberg [canal inglês que transmite as variações do mercado internacional]. Começou a tomar remedinho pra dormir, apareceram alguns cabelos brancos.
MARIANA - No Marcelo, teve um agravante: ele perdeu o ânimo. A gente parou de sair. E meu marido é "o incluído social". São três almoços todo sábado. Não que eu não goste de ir, mas a gente vai por algo além do prazer. Ele acha que precisa.
FOLHA - A crise levou a cortar gastos domésticos?
MARIANA - Temos uma regra em casa. Tudo pode faltar, menos a babá.
FOLHA - Houve mudança no tratamento deles com os outros?
ANA - O Cris perdeu aquela alegria. Nas férias, a gente viajou pra dentro do Brasil. Foi um lugarzinho bárbaro, em Santa Catarina. Era mais pra não gastar dinheiro.
MARIANA - Pra não gastar em dólar, né, Aninha?
FOLHA - E o assunto entre eles?
ANA - Os homens se uniram.
MARIANA - O Marcelo nunca foi de entrar em casa falando ao telefone, mas ele simplesmente não esgotava o assunto.
FOLHA - E o humor?
ANA - De primeiro, o Cris até ficou irritado; depois, carente.
FERNANDA ALMEIDA - O meu caso era completamente diferente de tudo o que eu tô ouvindo. Pelo menos em casa, ele dizia: "Vamos evitar esse assunto".
TODAS - Nossa, que maravilha!
MARIANA - Amigas, nossas histórias são café pequeno perto de outras. Tenho uma conhecida que a vida do marido acabou. Ele perdeu dinheiro aplicado da família inteira. Da irmã milionária, do irmão triliardário. Esse cara é mais velho, quase 50, daquela fase que os nossos meninos não pegaram, em que um cara, com 30 anos, já tinha feito US$ 2 milhões.
FOLHA - Mas hoje ainda existe esse negócio de conquistar o primeiro milhão?
MARIANA - Ôpa! A coisa mais comum nesse meio é ouvir: "Como assim, você vai ter um filho antes de fazer o primeiro milhão de dólares?".
FERNANDA - [Séria] É uma ideia muito idiota!
AS OUTRAS - É, mas existe!
MARIANA - Eles falam sério! Te chamam de irresponsável.
FOLHA - E eles têm esse dinheiro?
MARIANA - Têm...têm, têm.
FERNANDA - Mas quem inventou isso? Você faz parte de qual porcentagem do PIB nacional?
MARIANA E ANA - Não, Fernanda, isso é conversa de roda no mercado financeiro.
LYNA JENNER- É papo de menino. É o equivalente a: "Como você não tem uma enfermeira, só uma babá?".
FOLHA - Costuma-se dizer que o investidor do mercado financeiro valoriza o status proporcionado pelo que é caro.
TODAS - Ôpa, sem dúvida!
MARIANA - O carro, o relógio, o sapato.
ANA - Principalmente o carro.
FOLHA - Qual o carro do Cris?
ANA - [Rindo] Ele comprou um Freelander [Land Rover].
LYNA - O Cris [são dois com o mesmo nome] é bem consumista. Sapato, roupa... o carro é uma BM[W].
MARIANA - Quando eu comecei a namorar o Marcelo, achava que ele era milionário. Eu nasci bem, morei em Nova York, mas, mesmo assim, ele me impressionou. Pensei: "Que sorte encontrar um cara lindo, rico...". Ele morava sozinho em um apartamento enorme, de quatro quartos, na Vila Nova Conceição, e era chiquérrimo nos detalhes: na abotoadura, no bico do sapato. Ele sempre diz: "Para alguém colocar o dinheiro comigo, tem que acreditar que eu sou muito rico, muito próspero".
FOLHA - A crise mudou isso?
LYNA - O que mudou foram os planos de comprar uma casa no campo, fazer uma megaviagem pra St. Barths, pra Europa.
FOLHA - Parece mais frustrante ainda para quem costuma planejar o que vai fazer com o dinheiro que ainda não ganhou.
LYNA - A vida continua.
FOLHA - Fora ganhar dinheiro, do que os rapazes gostam?
ANA - O Cris ama vinho. Tem duas adegas, que deram uma boa esvaziada. E, no auge, ele não repôs. Só agora, recentemente.
FOLHA - Como é a casa de um investidor como o Cris?
ANA - Ele mora em um apartamento de homem, no Morumbi. São três quartos, mas ele quebrou um com a sala e tem um escritório.
FOLHA - Fernanda falou pouco...
FERNANDA - Meu namorado não segue esse estereótipo, sapato, relógio. Ele se mudou agora para um apartamento melhor, comprou jipe.
FOLHA - Que jipe?
FERNANDA - Acho que é Santa Cruz... [com expressão de quem pede socorro] ou Veracruz?
MARIANA - Tem os dois.
FERNANDA- Veracruz, então. LYNA - Mais de R$ 100 mil.
FOLHA - O.k., mas como foi então que ele sentiu a perda de dinheiro?
FERNANDA - Ele dizia: "Você não sabe como eu tô pobre!". Eu o animava. Outro dia fomos comer num japonês que é mais carinho e vivia lotado, estava vazio. Mas a gente tava lá.
FOLHA - Ele não é consumista?
FERNANDA - Não, gasta com vinho e comida.
MARIANA - É que o mercado financeiro tem as miniturmas. A do polo, a do golfe...
FOLHA - Você conhece a "miniturma do polo"?
MARIANA - 90% do mercado financeiro faz polo. Na crise, meu marido não jogou nenhuma vez. Custa uma fortuna. Tem que ter sete cavalos. Então, nessas sutilezas é que você sente a crise.
FOLHA - Os especialistas dizem que é comum haver problema sexual em homens que enfrentam crises.
TODAS - Siiiiim [mas ninguém diz que aconteceu consigo].
LYNA - Eu estava de resguardo.
ANA - Eu só vejo o Cris no fim de semana, então não mudou.
FOLHA - Uma amante faz parte do arsenal de status do investidor?
FERNANDA - Claro, de todos. ANA - Eu não penso nisso. MARIANA - Não é coisa de investidor, é de homem.
FOLHA - Recentemente, entrevistei um psicanalista que acredita que os investidores escolhem suas mulheres pensando mais em fazer uma dupla social boa do que no amor.
MARIANA - Rola isso, sim. É até feio falar, mas a ex-namorada do Marcelo era uma "baianinha". Tenho certeza de que o fato de eu ter morado no mundo inteiro, falar línguas, conhecer pessoas o levou a pensar: "Vou ficar com esse fim de mundo [a "baianinha"] ou fazer essa troca?". E me escolheu.
ANA - O Cris tem pavor de mulher feia. Gorda? Não pode ver.
FOLHA - Como enfrentar a crise?
MARIANA - Quando a gente pensava em abrir um vinho de preço exorbitante, o Marcelo dizia: "Não vamos abrir esse, não. Vai que a gente precise vender...".
Todas riem muito.
ANA - É cada coisa louca. A gente ficava imaginando vender o carro e ter que andar num "Unozinho", sei lá, vender a casa, sabe quando você começa a pensar? Vender a mãe pra recuperar o que eu perdi e investir...
Eu, diante do Mercal "Parroquia El Valle”, em Caracas, em 04 de julho de 2008
Dividi em dois posts o assunto do plebiscito sobre emenda à constituição venezuelana que permitirá a este e aos próximos presidentes daquela república candidatarem-se à reeleição quantas vezes quiserem. Fiz isso porque discutir a política daquele país sem discutir as bases de sua situação política atual, que são os avanços sociais conseguidos pelo regime de Hugo Chávez, só serve para jogadas político-ideológicas.
Ao publicar, em primeiro plano nesta discussão (vide post anterior a este), matéria do veículo de comunicação brasileiro que talvez seja o que mais repudia Chávez (a Globo), matéria na qual o veículo reconhece os avanços sociais conseguidos por ele durante a década em que governou a Venezuela, serviu para que não fiquemos perdendo tempo com uma discussão que pessoas como eu, que viram tais avanços ao vivo e à cores, sabem ser perda de tempo.
Contudo, quem espera que eu faça aqui uma defesa apaixonada do modus operandi de Chávez, enganou-se. Este post pretende subsidiar o debate, mas não tem a pretensão de esgotá-lo, pois nem seu autor sabe ao certo se o caminho escolhido pelo presidente da Venezuela é o melhor, o pior ou até mesmo o único.
Muita gente boa que se decepcionou com o governo Lula por não ser socialista o suficiente deveria analisar muito bem o que faz Hugo Chávez. Ele faz tudo que Lula não fez, tanto no enfrentamento das elites de seu país quanto na radicalização da transformação social que está promovendo na Venezuela. Em Chávez não cabe tão bem a acusação feita a Lula de só ter dado migalhas ao povo, como vocês devem ter visto no post anterior.
Todavia, a referida reportagem da BBC, reproduzida pelo G1, comete uma falha primordial, entre outras que comete, ao dizer que Chávez priorizou o social em detrimento do setor produtivo. Não é verdade. Vi, pessoalmente, praticamente todos os grandes importadores de autopeças daquele país dizendo que os investimentos em infra-estrutura e em agricultura haviam provocado um boom econômico. A Venezuela também está desenvolvendo um parque industrial próprio, aos poucos.
Pode-se perguntar, assim, se o nível de transformações sociais benéficas promovido por Chávez é satisfatório àqueles que acusam o governo Lula de ter feito pouco diante do tanto que precisa ser feito em países como este ou como aquele.
Descartemos, para não complicar, as diferenças abissais entre os dois países em todos os campos, desde o econômico até o demográfico, ficando apenas com o campo institucional. A tentativa fracassada de golpe de estado contra Chávez, em 2002, dá a ele uma garantia que Lula não tem, de manutenção da ordem constitucional diante do agravamento das ações de seus opositores. Manutenção esta que diz respeito ao apoio das forças armadas venezuelanas ao governo constitucional do país, com o qual Lula não pode contar.
Peço que seja avaliado o preço que a Venezuela pagou e continua pagando para realizar as transformações sociais mais profundas que logrou, que empalidecem e até envergonham as ditas pífias transformações logradas pelas políticas sociais de Lula, criticadas pelos que não querem ceder anéis para preservar os dedos tanto quanto por aqueles que acham que pelo menos alguns “dedos” devem ser tomados por Lula das elites, a exemplo do que Chávez tem feito.
Estive três vezes na Venezuela nos últimos dois anos. Fui à capital e a vários estados. Participei com clientes de reuniões de partidos políticos de oposição. Subi aos morros no entorno de Caracas para falar com o povo. Entrei em suas casas pobres, porém dignas. Comi com eles, olhei em seus olhos. Fui conhecer de perto as “misiones” chavistas como a “Bairro Adentro”, descrita na reportagem do G1, ou os Mercais, onde o governo vende comida a preços subsidiados.
Não quero ficar enrolando o leitor. As obras são verdadeiras. O povo está satisfeito com Chávez. Ouvi, de cidadãos apartidários nos morros que circundam Caracas, que, quando tentaram dar o golpe de estado de 2002, a tristeza da massa empobrecida pairava no ar e quase podia ser tocada, de tão densa. E saibam que tanto em Caracas quanto no resto do país há muito mais chavistas do que antichavistas.
Contudo, seria mentir dizer que só a elite repudia Chávez. Há pessoas de classe social mais baixa, sim, que são contrárias ou indiferentes a ele. A corrupção na administração pública campeia na Venezuela tanto quanto no Brasil. Talvez até um pouco mais. E posso testemunhar que pessoas de classe média baixa revelaram-me que têm medo de retaliação do governo por não gostarem dele e até citaram-me casos em que pessoas foram retaliadas por, sendo funcionários públicos, recusarem-se a participar de manifestações a favor do governo.
Pelas ruas de Caracas ou de qualquer parte do país, não se anda cem metros sem topar com uma foto de Chávez. Ele simplesmente se apropriou de rádios e tevês públicas para combater rádios e tevês privadas que lhe fazem oposição.
A polícia política de Chávez também é atuante. Não se conhece relatos fundamentados de excessos como prisões arbitrárias, assassinatos ou torturas, mas vi gente do povo (não necessariamente pobre ou rica) manifestando temor da Disip (Direção de Serviços de Inteligência e Prevenção).
Existe um ódio de classe social que paira acima das relações sociais na Venezuela. Aquela sociedade está conflagrada, ainda que de forma fria e latente.
Por outro lado, não há dúvida entre os mais pobres na Venezuela de que a queda de Chávez significaria a retomada do controle das divisas com petróleo de forma a retirar volumes imensos desses recursos que são aplicados no social para fazerem a festa de grandes grupos empresariais nacionais e estrangeiros.
Minha opinião é a de que os pobres venezuelanos têm razão. Essa ânsia desmedida para retirar Chávez do poder que têm as elites venezuelanas, brasileiras etc. , decorre do fato de que essa gente está vendo o dinheiro que sempre foi usado pelo topo da pirâmide social sendo distribuído à base daquela pirâmide. É disso que se trata o conflito político venezuelano, do controle dos recursos do estado.
A continuidade de Chávez no poder é anseio de enorme parte da sociedade venezuelana, porque esta sabe que se a oposição a ele chegar ao poder o fluxo de recursos do petróleo será redirecionado.
A mídia brasileira tem apresentado o plebiscito convocado por Chávez para decidir se ele pode se candidatar mais vezes à reeleiçãocomo um anseio exclusivo do presidente da Venezuela, quando, na verdade, é um anseio popular. Por isso ele hesitou tão pouco e por tão pouco tempo antes de propor o que não conseguiu no fim de 2007.
Como vocês vêem, a “utopia” chavista tem um preço e requer algumas condições de um país para adotá-la que me parece, respectivamente, que o Brasil não deveria querer pagar e que não tem.
Mas essa é só a minha opinião. Talvez não exista outro caminho, não sei. Mas só quero deixar a vocês meu testemunho de que esse processo de redução mais intensa das carências sociais da grande maioria de um povo é traumático e requer decisão e apoio sobretudo das forças armadas, porque as elites beneficiárias da desigualdade, por aqui ou por lá, diante de começarem a perder mais dos anéis que têm nos dedos, vão para o golpe de estado. Disso vocês não tenham dúvida.