Análise política e noticias do Ato do dia 7

Ecos da “ditabranda” 

Vídeo extraído do blog de Luis Nassif

Conforme prometi no post anterior, analiso agora textos de funcionários da Folha de São Paulo que tentaram esvaziar os protestos contra a afirmação do veículo, feita em editorial – significando, portanto, que se trata da opinião do jornal – de que a ditadura brasileira teria sido “branda”, uma “ditabranda”.

Fernando de Barros e Silva, editor do panfleto político-partidário que a Folha chama de “caderno Brasil”, tratou de tentar mostrar que o jornal seria “democrático” ao permitir divergências de sua linha editorial inclusive entre seus empregados.

Marcelo Coelho, que além de colunista da Folha também assina um blog que cheguei a “linkar” aqui no Cidadania, foi na mesma linha de Barros e Silva, de maneira tão similar que tornou ainda mais evidente que os dois textos foram encomendados pelo jornal para tentar escapar da fama de antidemocrático.

Depois de os dois jornalistas fazerem as considerações óbvias sobre o absurdo da propositura da Folha de que a ditadura teria sido “branda”, eles foram para o ataque.

Quem usou mais o espaço do próprio texto para fazer longa ginástica retórica para transformar quem apóia Hugo Chávez em mais antidemocrático do que quem apóia a “ditabranda”, foi Coelho. Barros e Silva limitou-se a atacar os professores Maria Victória Benevides e Fábio Konder Comparato.

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O Rodrigo Vianna, da Record, sacou de sua pasta o livro Ditadura Escancarada, de outro colunista da Folha, Elio Gaspari. Havia uma orelha numa das páginas que levou a trecho do livro em que o jornalista reproduziu a história de que o jornal emprestava seus veículos para a ditadura transportar os que seriam conduzidos a sessões de tortura. Não me contaram, eu vi. Não é invenção da esquerda, pois, o apoio que a Folha deu à ditadura que considera branda. É um fato histórico.

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Retomando. Barros e Silva, em seu texto encomendado, acusa Comparato e Benevides de apoiarem a “ditadura” cubana por não a criticarem, e os acusa também de quererem fazer como faz o regime chinês, que obriga os dissidentes a se ajoelharem em praça pública para pedirem perdão.

Então é assim: a Folha não pode ser acusada de apoiar a ditadura “só” porque disse que foi branda, mas Comparato e Benevides podem sofrer tal acusação por dizerem que a Folha deveria se ajoelhar e pedir perdão aos brasileiros por defender o regime militar.

No fim, quem deu crédito a Barros e Silva acabou achando que apoiadores de ditaduras mesmo são Comparato e Benevides, e que a Folha cometeu apenas um enganozinho inocente.

Mas o texto mais cínico foi o de Marcelo Coelho. Escreveu o mesmo mea-culpa de Barros e Silva, mas só de passagem, dedicando o post em seu blog a esculhambar Hugo Chávez e a vender a teoria de que o venezuelano preside uma ditadura.

Segundo Coelho, o famigerado editorial do último dia 17 “Limites a Chávez” simplesmente “(...) se dedicava a condenar a perpetuidade no poder de Hugo Chávez. Comparava os processos pelos quais de uma aparente democracia se passa a uma ditadura, como na Venezuela, com processos pelos quais a conquista de poder por meio de golpe militar terminou resultando em regimes não tão concentradores de poder como seria de supor (...)”

Como é possível alguém dizer “ditadura” um país em que multidões de oposicionistas saem às ruas para protestar contra o governo, no qual tevês privadas atacam esse governo diuturnamente e onde o exercício do voto é talvez mais freqüente e ilibado do que em qualquer outro país latino-americano?

Coelho deveria dizer isso a Barack Obama, que após a eleição recente na Venezuela afirmou que o país é uma democracia, porque ele avança mais ainda em suas mentiras sobre o país vizinho dizendo que “o regime de Chávez reduz a oposição a menos do que uma aparência”.

Como assim? De que forma Chávez reduziu a oposição a menos do que uma aparência? A oposição Venezuelana é talvez a mais atuante e virulenta da América Latina. Tentou dar um golpe de Estado. Ocupa as tevês e rádios privadas acusando Chávez até de homossexualismo, pedofilia, uso e tráfico de drogas e o que mais se puder imaginar.

Viajo pela América Latina para fechar contratos de exportação para indústrias brasileiras. É disso que vivo. Garanto a vocês que a liberdade de expressão e política na Venezuela é talvez maior do que aqui ou em qualquer outra parte do mundo. Em suma: Coelho mente, e o faz de forma descarada.

E continua mentindo, no tal post. Vejam:

Há pelo menos 30 anos, a “Folha” reprova o autoritarismo. Teve, se não me falha a memória, papel importante na luta contra o regime militar. Se quisesse reabilitar aquele período, teria feito isso explicitamente. Obviamente, não teria nenhum interesse em fazê-lo, e não teria nenhuma razão se o fizesse.

Mas é muita cara-de-pau, não? Esse sujeito deveria ler o livro do colega Elio Gaspari, que diz, textualmente, que a Folha colaborou com a ditadura e com a tortura e os assassinatos.

Coelho não me parece tão jovem assim para não saber que a Folha e todos os outros grandes jornais e até as tevês da época pediram, exigiram e insuflaram o golpe de 1964. Há arquivos no jornal dele que mostram isso, meu Deus! Como alguém pode ser tão cínico?

Depois, o sujeito ainda afirma que “Clóvis Rossi, Fernando Barros e Silva, Eliane Cantanhede, Ruy Castro, Carlos Heitor Cony, Marcos Nobre, Fernando Gabeira, Janio de Freitas” são contrapesos de esquerda aos articulistas de direita do jornal.

Essa lista pode conter qualquer coisa, menos alguém de esquerda. Dois deles são casados com figuras de expressão da oposição conservadora e se dedicam a atacar Lula diariamente e há anos, inclusive qualificando seus programas sociais como “esmolas”. Clóvis Rossi virou amigão do mega especulador George Soros. Quanta cara-de-pau, meu Deus! É de revirar o estômago.

E, não satisfeito, Coelho ainda chuta os que lhe deram apoio quando Reinaldo Azevedo começou a atacá-lo daquele jeitinho que só o pistoleiro da Veja sabe fazer, elaborando trocadilhos com o nome do homem etc.

Gostei muito de uma coluna de Coelho em que ele analisava os neocons e por isso “linkey” seu blog aqui. Fiz isso até em solidariedade, porque ele escreveu um texto correto sobre o assunto e por isso passou a ser alvo dos ataques baixos de Azevedo. Porém, como se vê, fui apressado e ingênuo. O sujeito é um contorcionista intelectual, um Reinaldo Azevedo com verniz civilizatório.

Coelho finaliza dizendo que “Chávez, Fidel Castro e o MST” são "ditaduras." Nunca vi uma ditadura que dá ao povo o direito de apeá-la do poder promovendo eleições limpas e livres, reconhecidas pelo mundo inteiro como tais, ou ditaduras que se deixam fuzilar por pistoleiros no campo.

Quanto a Fidel, pode-se dizer que seu regime tem um quê de ditatorial, sim, por cercear direitos civis, mas pelo menos nem Comparato nem Benevides colaboraram com a ditadura cubana, nem emprestando veículos para transportar gente que ia ser torturada ou que havia sido torturada nem de qualquer outra forma.

No fim, a Folha mostrou que ditatorial mesmo é ela, pois reservou a si o direito de criticar seu editorial, negando espaço adequado a outros para contestá-la, permitindo só umas notinhas em sua seção de leitores contanto que não tocassem no ponto que tocou o livro de Elio Gaspari, sobre seu colaboracionismo com a ditadura.

 

Mentiras no Esgoto

 

“Conheço” Reinaldo Azevedo. Há alguns anos, troquei muitos e-mails com ele, no tempo em que era empregado e depois dono da finada revista Primeira Leitura, de Luiz Carlos Mendonça de Barros, defenestrado do governo FHC por envolvimento no escândalo da privatização do sistema Telebrás.

Trata-se de um homem que baseia seu trabalho de pistolagem intelectual em mentiras. Por isso ele bloqueia críticas, porque num debate aberto fica sem argumentos rapidamente. Sei disso porque debati várias vezes com ele por e-mail.

Vejam o que o mitômano da Veja escreveu sobre o Ato Público contra a Folha que propus aqui:

Grupos de esquerda, liderados por petistas, querem fazer um ato público em apoio a Maria Victoria Benevides, aquela militante do PT, também professora da USP, que teve um chilique ao ler a palavra “ditabranda”, num editorial da Folha, para designar o regime militar brasileiro.”

Não sei se lidero alguma coisa sobre esse Ato do dia 7 próximo. Ou melhor, não lidero nada, apenas propus o ato e trato de difundi-lo.

Só que nunca fui petista. Nunca fui filiado a partido nenhum. Não tenho contato nenhum com políticos ou partidos. Sou um vendedor de autopeças. E o ato não é em desagravo a Benevides, mas contra a Folha pelo neologismo “ditabranda” e pela tentativa do jornal de revisão histórica, ainda que o desagravo aos intelectuais esteja na agenda. Contudo, nada disso impediu esse vendedor de mentiras de me caluniar.

Não que ser petista seja insulto. Se eu não tivesse essa dificuldade que tenho para me submeter a regras de corporações – o que me fez virar trabalhador autônomo – talvez até me filiasse, mas dizer que sou o que não sou me revolta muito. Esse sujeito não vale o que come.

 

Documento do Ato do dia 7

 

Neste fim de semana escreverei o documento do Movimento dos Sem Mídia que será lido no Ato Público de protesto contra a Folha de São Paulo. Depois de ler esse documento, proporei aos presentes que seja dada voz sobretudo às vítimas da ditadura que anunciaram que participarão do Ato.

Como faço sempre que promovo algum ato público, publicarei o documento aqui com antecedência para que possa ser emendado por sugestões dos leitores.

Contudo, peço àqueles que não tiverem suas sugestões contempladas que entendam que precisa haver um critério de alguém, porque é impossível atender a todos. Assim, todas as eventuais sugestões serão analisadas, mas provavelmente nem todas poderão ser contempladas.



 Escrito por Eduardo Guimarães às 13h17
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Crônica política

Folha tenta reverter gafe

e ainda sair no lucro


 


Dizem que a esperteza, quando é muito grande, acaba engolindo o espertalhão. A Folha se acha muito esperta, como vocês verão a seguir.

Depois de o jornal ter se dado conta da enorme bobagem que cometeu ao escrever um editorial em que transformava a democracia incontestável da Venezuela em ditadura e a ditadura incontestável que vigeu no Brasil entre 1964 e 1985 em "ditabranda", tentou minimizar aquela barbaridade e atacar os que a criticaram.

Dois textos de funcionários da Folha publicados nesta semana tentam, por meio do mais deslavado contorcionismo retórico, fazer a mágica acima descrita.

Um dos textos, saiu na segunda-feira na edição impressa do jornal. Foi escrito pelo editor de Brasil do jornal, Fernando de Barros e Silva, e o outro texto saiu ontem. É  do colunista Marcelo Coelho em seu blog.

Por conta do segundo texto, retirei daqui o link para o blog de Coelho. Ao lerem, vocês entenderão por que.

Estou no interior de São Paulo a trabalho e não terei como escrever o que é preciso sobre os dois textos agora. Contudo, deixo-os aqui para que vocês leiam e reflitam. Amanhã, sábado, publicarei resposta a eles.

Fiquem, pela ordem, com Fernando de Barros e Silva e, em seguida, com Marcelo Coelho. Amanhã eu volto, mas os comentários serão liberados conforme eu for encontrando sinal de internet para o laptop.

 

*


Fernando de Barros e Silva na Folha

 

24 de fevereiro


Ditadura, por favor


CERTAMENTE não é a primeira vez que um colunista da casa diverge de uma posição expressa pelo jornal emeditorial. Mas é a primeira vez que este colunista se sente compelido a tornar pública sua discordância, inclusive em nome do que aprendeu durante 20 anos nesta Folha. O mundo mudou um bocado, mas "ditabranda" é demais.


O argumento de que, comparada a outras instaladas na América Latina, a ditadura brasileira apresentou "níveis baixos de violência política e institucional" parece servir, hoje, para atenuar a percepção dos danos daquele regime de exceção, e não para compreendê-lo melhor.


O que pretende ser um avanço analítico parece, mais do que um erro, um sintoma de regressão.


Algumas matam mais, outras menos, mas toda ditadura é igualmente repugnante. Devemos agora contar cadáveres para medir níveis de afabilidade ou criar algum ranking entre regimes bárbaros?


Por essa lógica, chega-se à conclusão absurda de que o holocausto nazista não passou de um "genolight" perto do extermínio de 20 milhões promovido por Stálin.


Ora, se é verdade que o aparelho repressivo brasileiro produziu menos vítimas do que o chileno ou o argentino, isso se deu porque a esquerda armada daqui era menos organizada e foi mais facilmente dizimada, não porque nossos militares tenham sido "brandos".


Quando a tortura se transforma em política de Estado, como de fato ocorreu após o AI-5, o que se tem é a "ditadura escancarada", para falar como Elio Gaspari. Seria um equívoco de mau gosto associar qualquer tipo de "brandura" até mesmo ao que Gaspari chamou de "ditadura envergonhada", quando o regime, entre 64 e 68, ainda convivia com clarões de liberdade, circunscritos à cultura.


Brandos ou duros, o fato é que os regimes autoritários só mobilizam a indignação de grande parte da esquerda quando não vêm acompanhados da retórica igualitarista.


Muitos intelectuais se assanham agora com a tirania por etapas que Chávez vai impondo à Venezuela sob a gosma ideológica da revolução bolivariana. Isso para não lembrar o fascínio que o regime moribundo mas terrível de Fidel Castro ainda exerce sobre figurões e figurinhas da esquerda nativa.


É bem sintomático, aliás, que, ao protestar contra a "ditabranda" em carta à Folha, o professor Fábio Konder Comparato, guardião do "devido respeito à pessoa humana", tenha condenado os autores do neologismo a ficar "de joelhos em praça pública" para "pedir perdão ao povo brasileiro".


Que coisa. Era assim, obrigando suas vítimas a ajoelhar em praça pública, submetendo-as à autêntica "tortura chinesa", que a polícia política maoísta punia desvios ideológicos durante a Revolução Cultural. Quem sabe, como a "ditabranda", seja só um palpite infeliz.


*


Marcelo Coelho em seu blog


26/02/2009


"Ditabranda"


Acho que “ditabranda” é com certeza um termo infeliz. Não há ditadura branda na ótica de um prisioneiro torturado, como o foram muitos no Brasil.


O termo, empregado num editorial da “Folha”, não deveria ter sido utilizado. Será que eu, no posto de diretor de redação, teria vetado o termo no texto? Talvez sim. Mas poderia ter dado pouca importância à palavra, uma vez que se inscrevia numa linha concreta de raciocínio.


O texto completo do editorial se dedicava a condenar a perpetuidade no poder de Hugo Chávez. Comparava os processos pelos quais de uma aparente democracia se passa a uma ditadura, como na Venezuela, com processos pelos quais a conquista de poder por meio de golpe militar terminou resultando em regimes não tão concentradores de poder como seria de supor.


O jogo entre “ditabranda” e sua contrapartida oculta, a “democradura”, estava implícito no editorial: com tudo para ser uma ditadura militar absoluta, o regime de 64 manteve as aparências de um espaço para o PMDB. Com tudo para ser um normalíssimo sistema democrático, o regime de Chávez reduz a oposição a menos do que uma aparência, afirmando-se orgulhosamente como uma democracia, enquanto acelera o personalismo providencial de uma figura tosca.


Eis que surgem mil protestos contra o uso do termo “ditabranda” no editorial. Foi um erro, não nego. Mas não há verdade nenhuma quando se diz que o editorial pretendia fazer a revisão histórica do regime de 64.


Há pelo menos 30 anos, a “Folha” reprova o autoritarismo. Teve, se não me falha a memória, papel importante na luta contra o regime militar. Se quisesse reabilitar aquele período, teria feito isso explicitamente. Obviamente, não teria nenhum interesse em fazê-lo, e não teria nenhuma razão se o fizesse.


O que me parece errado nos protestos contra o uso de “ditabranda” pela “Folha” é que se tomou um erro do editorialista como se fosse sinal de coisa que não existe.


Não existe vontade nem interesse da “Folha” em reabilitar a ditadura. Existe, por outro lado, muito interesse de parte dos críticos em defender Hugo Chávez.


Mais do que isso, os protestos contra a “ditabranda” expressam uma queixa mais antiga da esquerda: “A Folha ficou de direita!” A mera presença de César Maia entre os articulistas já pareceu, a parcela dos leitores, sinal de que a “Folha” cultiva cada vez mais os Coutinhos e Pondés. O grito de protesto da esquerda estava engasgado há tempos, e o apoio que obtive ao criticá-los, há algumas semanas, foi sinal disso.


Acontece que, se fizermos a conta, João Pereira Coutinho e Luiz Felipe Pondé estão cercados de Clóvis Rossi, Fernando Barros e Silva, Eliane Cantanhede, Ruy Castro, Carlos Heitor Cony, Marcos Nobre, Fernando Gabeira, Janio de Freitas e este que vos fala, grupo insuspeito de afinidades com a direita. Há Oderbrecht e Delfim, além de Sarney, pesando no outro lado da balança. Será que desequilibrou em favor da direita? Culpa em parte minha, então. Trato de me regenerar nos próximos artigos.


Veio então a carta de Fábio Konder Comparato, dedo em riste contra a pessoa do diretor de Redação, Otavio Frias Filho, chamando-o ao pelourinho em praça pública. O diretor de Redação reagiu chamando de cínica essa conclamação prosecutória. Konder Comparato excedeu-se, num gênero jacobino que contrasta com toda a retórica democrática em torno da liberdade de expressão. Tratava-se de defender Chávez, mais do que acreditar na tese de que a “Folha” teria passado a apoiar a ditadura. A resposta de Otavio a Comparato quis denunciar essa hipocrisia, essa indignação postiça, chamando-a de cínica.


O resultado, para a “Folha”, foi ruim em termos de imagem e de relações públicas. É óbvio que a “Folha” não passou a gostar das ditaduras ou das ditabrandas. É óbvio que não quer romper com a esquerda. A esquerda, entretanto, há tempos quer romper com a Folha, por bons ou maus motivos. Não sei o que ganha com isso. Sei o que quer preservar nessa atitude: sua adesão a Chávez, a Fidel Castro, ao MST.


Não sei qual ditadura, dentre as três, prefiro: com certeza, eis regimes diante dos quais haverá alternativas bem mais “brandas”. Não que 1964 esteja entre elas. Mas gostaria de saber por que razão, entre a Folha e a esquerda, existem tantos atritos em torno do termo “ditadura”. Será que não estamos de acordo quanto ao que significa “democracia”?



 Escrito por Eduardo Guimarães às 12h32
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Crônica política

Burrice política

 

                   Atualizado às 20h11m de 26 de fevereiro de 2009                  

 

 

 

 

Recebi um e-mail que me deixou estupefato. Depois de ler, concluí que se tratou da maior prova de burrice política que posso conceber.  

Apesar do tema do ato público que este blog está promovendo (vide os dois posts anteriores a este), eu não poderia deixar de comentar esse absurdo que relato a seguir.

O e-mail trazia acusações descabidas e uma fotomontagem do governador José Serra caracterizado como nada mais, nada menos do que o... diabo.

Vou lhes contar uma coisa: isso é o que se pode chamar, literalmente, de demonização de alguém. E o termo demonização foi criado para caracterizar o ato de uma ou várias pessoas tentarem desmoralizar outra (s), geralmente de forma injusta.

Qualquer um pode ser mostrado como o diabo. Podem fazer a mesma fotomontagem com Dilma Rousseff, com Lula, com qualquer um. Por isso é injusto fazê-lo, e é por isso que quem faz se desmoraliza.

Que moral teria alguém que faz isso para depois criticar o Josias de Souza, blogueiro da Folha de São Paulo, por ter chamado Dilma e Marta Suplicy de vadias e vagabundas numa... fotomontagem?

Não é por aí, gente. Vamos mostrar que somos melhores que eles, e tentemos convencer esses que trabalham para provar o contrário de que estão agindo como burros, para dizer o mínimo.

 

Ato público contra a Folha de São Paulo

 

Peço ao leitor deste post que verifique os dois posts anteriores, porque anunciam e dão maiores informações sobre ato público que ocorrerá dia 7 de março próximo, sábado, às dez horas da manhã, diante do jornal Folha de São Paulo.

O ato ocorrerá em protesto contra editorial daquele meio de comunicação que afirmou que a ditadura militar brasileira foi “branda”, e de uma forma que constitui insulto às vítimas daquela ditadura e legítima ameaça ao conceito de democracia.

 

Professores da USP  irão ao Ato do dia 7 na Folha

 

Edu, três professores do DH/USP já declararam seu apoio ao ato:

Prof. Dr. Francisco de Assis Queiroz

Prof.ª Dr.ª Íris Kantor

Prof.ª Dr.ª Marlene Suano (esta através de comentário no Blog)

Forte abraço.

Antonio Arles
1º Secretário - Movimento dos Sem Mídia

 

 

 

Azenha: Benevides irá ao Ato do dia 7

 

A historiadora Maria Vitória Benevides [insultada pela Redação da Folha de São Paulo no Painel do Leitor] confirmou à jornalista Conceição Lemes que vai comparecer ao ato de repúdio ao jornal Folha de S. Paulo, que está sendo organizado pelo blogueiro Eduardo Guimarães.



 Escrito por Eduardo Guimarães às 18h33
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Data do protesto contra a Folha de São Paulo

 

Protesto contra ditabranda

 Atualizado às 21h03m de 25 de fevereiro de 2009 

 

 

Charge de Carlos Latuff

 

 

Diante do resultado do post anterior, acredito que já temos um bom número de pessoas dispostas a participar do ato público diante do jornal Folha de São Paulo para protestar contra a difusão daquele veículo do absurdo de que a ditadura militar que vigeu no Brasil entre 1964 e 1985 teria sido uma “ditabranda”.

Antes de prosseguir no anúncio do dia e da hora em que ocorrerá o ato de protesto, porém, desejo fazer algumas considerações.

Esta é uma iniciativa que não pretende nem precisa reunir uma grande multidão para protestar contra essa perniciosa revisão histórica de um fato que, a meu juízo, deveria equiparar-se ao Holocausto nazista, o qual, em vários países do mundo, não pode ser negado por força de lei, sob pena de o autor da negativa ser enquadrado em acusação criminal.

Ainda assim, entre o número dos que confirmaram que participarão do ato e dos acompanhantes que pretendem levar consigo, já temos perto de 40 pessoas. Contudo, acabamos de receber um comentário  de leitor aqui no blog que promete  ser importante para o número de manifestantes. Vejam:

 

Pode contar com a adesão do Fórum Permanente de Ex Presos e Perseguidos Políticos de São Paulo ao ato em repúdio à Folha e em solidariedade aos professores. É só comunicar a data e hora.  Abs.
Maurice Politi | Sao Paulo, SP, Brasil | Administrador  |  25/02/2009 15:26

*

Companheiros, Consultando alguns membros da Diretoria do Sindicato dos Trabalhadores dos Correios de São Paulo foi consensual a importância e necessidade de participarmos deste Ato contra estes filhotes da ditadura alojados no comando do PIG. Estaremos mobilizando trabalhadores da nossa base, inclusive publicando no Jornal de nosso Sindicato, que começa a circular na próxima terça-feira. Um abraço. PS. Qual será a participação efetiva dos partidos, centrais sindicais, etc?
Arnaldo de Salvo Júnior | São Paulo | Assessor Sindical/Sind. Correios | 10 |  25/02/2009 18:11

 

Também já temos notícias de que professores da USP e da Unicamp estariam se mobilizando para aderir. Além disso, há menção ao protesto em texto de Altamiro Borges, no site Vermelho, e, segundo informações do Altamiro por telefone, o site irá publicar uma chamada em destaque nesta quinta-feira. E, finalmente, o site do jornalista Luiz Carlos Azenha também deverá divulgar.

O que importa, entretanto, nem é quantos seremos. O importante é deixar claro que não se aceitará nunca mais silenciar ou aceitar revisões históricas sobre os anos de chumbo. Há que exigir respeito às vítimas da ditadura.

Na falta do ideal, que seria reabrir processos e punir torturadores, estupradores e assassinos do regime militar, ao menos o país tem que reconhecer essa chaga em nossa história incontestavelmente, visando que, através do conhecimento dos horrores pretéritos, estes nunca mais aconteçam.

 

Dia e hora do ato público na Folha de São Paulo

 

Com base nas manifestações dos leitores e de outras sondagens que fiz, acredito que o dia mais cômodo para a maioria dos manifestantes será sábado, dia 7 de março, às 10 horas da manhã. O local será diante da Sede do jornal Folha de São Paulo, na rua Barão de Limeira, no centro de São Paulo, região servida por linhas de metrô, de ônibus e, portanto, de fácil acesso.

Informo, ainda, que todos os leitores que se manifestaram aqui dispondo-se a participar do protesto receberão e-mail meu confirmando dia, hora e colocando-me à disposição para maiores informações.

 

Comentários de adesão ao ato público

 

Algumas pessoas de São Paulo que comentaram o post anterior, que propôs a realização do protesto, não foram consideradas porque, apesar de se manifestarem favoravelmente, não deixaram claro se pretendem participar ou não.

Só serão considerados os que deixarem claro que virão ou que pretendem vir. Estou elaborando algum material para os manifestantes e farei isso com base nos apoios decididos e explícitos.

Peço, pois, a todos os que decidirem apoiar esta iniciativa que sejam claros e sucintos, na medida do possível, ao manifestarem seu apoio e sua intenção de engrossar a manifestação com sua presença.

Este post será eventualmente atualizado com novas informações assim que eu as tiver.  A partir de sábado, retomarei postagens de outros temas, mas sem esquecer do protesto do próximo dia 7.

 

Liberação de comentários

 

Como tenho vários compromissos profissionais nesta quinta-feira, poderá haver atraso na liberação de comentários.



 Escrito por Eduardo Guimarães às 17h35
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Proposição de ato público

 

Quando os bons se calam

 Atualizado às 15h17m de 24 de fevereiro de 2009

 

 

 

 

 

 

No último dia 17 de fevereiro, ao ler o editorial criminoso do jornal Folha de São Paulo “Limites a Chávez”, texto venenoso, indigno, mentiroso, que tentou reescrever a história recente do Brasil ao qualificar como “brando” (‘ditabranda’) o regime odioso, assassino e covarde que vigeu neste país entre 1964 e 1985, a primeira coisa que me veio à mente foram as palavras imortais do doutor Martin Luther King:

 

O que me preocupa não são os gritos dos maus, é o silêncio dos bons

 

Sempre fui avesso ao maniqueísmo, mas há dois períodos na história recente deste país em que o bem e o mal se estabeleceram em dois lados bem definidos. O primeiro período foi o da ditadura militar que pisoteou esta Pátria por mais de vinte anos, e o segundo é hoje, quando outra ditadura, de mentalidade tão cruel e debochada quanto a anterior, estabeleceu-se de uma forma nunca vista antes.

A ditadura a que me refiro é a da mídia, uma ditadura que tem sido tão perniciosa quanto a anterior, apesar de que, em lugar das torturas, dos estupros, dos assassinatos e da censura que sua antecessora praticou, viola hoje a Nação por meio do último daqueles métodos que acabo de enumerar, o de calar as vozes dissonantes valendo-se do poder econômico que amealhou no período ditatorial explícito.

Não gastarei vosso tempo enumerando os horrores da primeira ou da segunda ditaduras, pois muitos fizeram isso bem melhor do que eu faria. Tampouco relembrarei o que tantos de vocês têm relembrado sobre o papel colaboracionista desempenhado pelo jornal paulista durante os anos de chumbo.

Venho a vocês pedir que reflitam sobre as palavras de Luther King, ainda que muitos achem que, ao fazerem abaixo-assinados, enviarem e-mails, escreverem artigos, estão fazendo o que o ativista do movimento negro americano preconizou décadas atrás.  

Não estão. Ou melhor: não estamos. Nossos textos não são o que pediu o líder imortal do movimento negro estadunidense. Ele pediu que combatêssemos o silêncio, e este só pode ser combatido com palavras e ações verdadeiras, corajosas, não as que tomamos no conforto de nossas poltronas, diante de nossos computadores.

Há cerca de um ano e meio – em setembro de 2007 –, através do blog que criei para combater a ditadura midiática, o Cidadania.com, ofereci aos seus leitores a chance de passarmos da inação à reação indo protestar diante da mesma Folha de São Paulo, daquele tentáculo da ditadura vigente que considero o mais perigoso, pois se esconde sob uma máscara democrática e plural, máscara que retirou brevemente ao publicar o editorial em tela, mas que recolocou em seguida no afã de continuar ludibriando a sociedade.

Naquele setembro de 2007, após a convocação do ato público diante da sede do jornal entusiasta da ditadura militar a fim de protestar contra os abusos da mídia e daquele jornal em particular, outros blogs e sites uniram-se ao meu blog e, juntos, conseguimos levar duas centenas de cidadãos para diante da sede da Folha de São Paulo. Foi no dia 15 daquele mês, um sábado, às dez horas da manhã.

 

Nasce o Movimento dos Sem Mídia - 15/09/2007

 

Daquele ato público nasceu a ONG Movimento dos Sem Mídia, que atualmente presido e que depois representaria no Ministério Público Federal contra a Folha, a Globo, o Estadão, a Veja e outros tentáculos da ditadura midiocrática por conta da promoção de alarma social no âmbito de uma “epidemia” fictícia de febre amarela que terminou por fazer com que mais gente adoecesse por conta de uso desnecessário e incorreto da vacina contra a moléstia do que por febre amarela propriamente dita, gerando, inclusive, ao menos duas mortes.

Vislumbro novamente vontade dos setores pensantes da sociedade de cobrarem caro do jornal da família Frias a bofetada que este desferiu nos rostos dos torturados, dos assassinados, dos desaparecidos, dos que foram silenciados, intimidados, levados à bancarrota, impedidos de trabalhar, enfim, daqueles para os quais a ditadura foi tudo, menos branda.

No último sábado (21/02), a Folha de São Paulo voltou a debochar do país ao publicar, em sua seção de cartas de leitores, manifestação de alguém que, possivelmente a mando do jornal, tripudiou dos indignados com a absurda “ditabranda” prevendo que, “como sempre”, estes limitar-se-iam a fazer abaixo-assinados, e insinuando que é só isso o que “a esquerda” sabe fazer.

Acho muito pouco os e-mails, os artigos, os abaixo-assinados. Dizer que todo aquele horror, que tantas vidas destroçou com a colaboração inconteste da mesma Folha de São Paulo, foi “brando”, não pode ficar por isso mesmo, ou seja, pelas manifestações escritas e publicadas só na internet. Devemos romper o silêncio e dizer nossa indignação diante daquele tentáculo da ditadura, ao vivo e à cores.

Se, como em setembro de 2007, todos os indignados decidirem transformar sua indignação em reação unindo-se a esta ruptura do silêncio de que falava Luther King, estarei à frente e ao lado dessa reação.

Não precisamos de manifestações de apoio, mas de engajamento. Precisamos que vocês que se indignaram e que não querem silenciar se comprometam a participar do protesto, se preciso adiando viagens à praia, consultas médicas, festa na escola dos filhos, visita a parentes no interior, seja lá o que for, e que se engajem na dura missão de convencer outros a ir consigo.

Podem usar este texto, podem escrever os vossos, podem fazer como quiserem, contanto que façam.

Durante esta semana, manterei este texto em evidência no blog Cidadania (http://edu.guim.blog.uol.com.br), de forma que, como em 2007 e em 2008 (quando outros atos públicos foram convocados, como o que ocorreu no Masp, em São Paulo, para protestar contra o presidente do STF, Gilmar Mendes), viabilize a organização dos manifestantes até que outros blogs e sites unam-se a nós.

Senti-me na obrigação de fazer este chamamento, este alerta. Posso não ser atendido desta vez, como já aconteceu em outras, mas jamais me acusarei, diante do espelho, de silenciar enquanto os artífices da neo ditadura gritam.

Se quiserem garantir o mesmo para si, conto com vossos comentários aqui se comprometendo a participarem e deixando vossos e-mails (que garanto que não serão divulgados) para contato, e acompanhando, através do blog Cidadania – ou em outros que porventura adiram –, as notícias sobre data e hora de ato público de repúdio diante da sede da Folha de São Paulo, data e hora que serão definidas durante os próximos dias.

Não silenciem. Dêem sentido aos vossos protestos indignados. Assumam vossa responsabilidade de Cidadãos. Vosso país precisa de vocês.

 

Folha debocha dos indignados

 

Folha de São Paulo - 21 de fevereiro de 2009 

Painel do Leitor

"Em relação à "Nota da Redação" em resposta às cartas do senhor Comparato e da senhora Benevides, advirto a Folha de que, apesar de correta, a referida nota despertará a fúria da militância esquerdista. Logo a Redação receberá mais um exemplar da mais profícua produção intelectual da esquerda brasileira: os abaixo-assinados."

EDMAR DAMASCENO FONSECA (Belo Horizonte, MG)

 

Dia e hora do ato público

 

Quero pedir vossas opiniões sobre qual a melhor data para a manifestação. Em princípio, pensei no primeiro sábado de março, às 10 horas da manhã. Alguns amigos da blogosfera sugeriram que seja no começo da noite durante a semana, digamos umas 19 horas. De qualquer forma, será na semana que vem.

Já fiz alguns contatos e na quinta-feira importantes blogs e sites começarão a difundir a manifestação junto com o Cidadania.

Quero cumprimentar aqueles que já se dispuseram a ir. Vocês são verdadeiros cidadãos.

Não tenho grandes expectativas em termos de número. Se conseguíssemos reunir as duas centenas de pessoas que foram à manifestação na Folha em 2007 ou na do Masp no ano passado, estaria de ótimo tamanho. Mas mesmo que não consigamos reunir tanta gente, o importante é a qualidade dos manifestantes, não a quantidade.

Se quiséssemos fazer número, seria só recorrer a comunidades carentes etc. Há muitos meio$ de levar essas pessoas a esse tipo de ato. O PSDB é craque nisso. No entanto, o que queremos são pessoas conscientes do que será feito, e que estarão lá por entenderem o que está em jogo hoje no Brasil.

Peço a todos que se dispuseram a ir se manifestar, que, durante os próximos dez dias, não descuidem de vir aqui se inteirar sobre o andamento das coisas.

Em nome da democracia, cumprimento a todos os que estão apoiando esta iniciativa cidadã.



 Escrito por Eduardo Guimarães às 00h17
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Conto

Uma história de Carnaval

 

 

 

Não era necessariamente feio, mas tampouco era bonito. Comum é o adjetivo que melhor lhe descreveria a aparência. Magérrimo, estatura média e óculos. O cu-de-ferro (hoje, dizem "nerd") cuspido e escarrado. E esses não eram, nunca foram e continuam não sendo atributos físicos coincidentes com o gosto das garotas.

Seu problema com elas, porém, nem era ausência de cabelos longos e parafinados ou de uma camiseta "Hang Ten" cobrindo um torso vigoroso numa época em que todos os garotos de 14 anos eram “surfistas”. O que o mantinha um “boca virgem”, era a timidez.

Nos bailinhos dos idos de 1974, que se alternavam a cada fim de semana entre os imponentes prédios residenciais das alamedas dos Jardins paulistanos, lá pelo fim da noite, quando os casaizinhos começavam os “amassos”, ele se esgueirava para fora do salão para não ser visto sozinho.

Por isso não ia a bailinhos, ou melhor, evitava ir. Às vezes, porém, os amigos o intimavam a acompanhá-los. Queriam ajudá-lo. Compadeciam-se de seu sofrimento.

Mas o que ele mais detestava mesmo, era o Carnaval. Enquanto os garotos e as garotas se amarfanhavam no salão, ele procurava entabular conversa com os pais de alguém – naquele tempo, adolescentes iam a bailes de Carnaval acompanhados dos pais. E, na falta destes, ficava escorando alguma coluna até que, sentindo-se alvo de olhares de estranhamento dos foliões, ia embora.

*

Naquela manhã de fevereiro, seu melhor amigo, o Mexerica, um rapaz ruivo e cheio de sardas, muito popular com as garotas, irrompeu pela porta de seu quarto na primeira hora da manhã literalmente ordenando que se levantasse, porque sabia como fazer para ele deixar de ser “boca virgem”.

-- Sabe onde há um baile de Carnaval onde você não terá que mexer um dedo para dar uns amassos?

-- Sei, sim: nos seus sonhos. E me deixa dormir, vai...

-- Nada disso. Você vai viajar com a gente.

-- Com a gente quem, meu?!

-- Comigo e com a minha família, porra! Não tinha te falado que a gente ia passar o Carnaval em Rio Preto? “Vambora”, meu! Nós vamos ficar na casa da minha tia Lucélia.

-- Ah, e Rio Preto tem meninas ninfomaníacas que irão me agarrar, é?

-- Isso mesmo. Você só precisa ser de São Paulo. Vão te disputar no tapa, meu!

Ele resistiu bravamente, em seu conformismo com a inadequação que acreditava ter para os prazeres mundanos. Estaria mais seguro com seus livros e pincéis. Ao menos não humilharia a si mesmo em público.

Mexerica, porém, era uma daquelas pessoas que não aceita não como resposta, e lá foram eles, no carro da família do amigo, rumo a Rio Preto, o suposto Éden dos “bocas virgens”.

*

A casa de tia Lucélia era um sobrado amplo, com um jardim muito bem cuidado na frente e uma varanda agradabilíssima, com cadeiras de vime e um balanço de dois lugares. Viviam ali a tia e o tio do amigo dele com a prima do rapaz, Cláudia, e o irmão, que depois ficou sabendo que estava estudando nos Estados Unidos.

A prima do amigo dele os esperava à porta da casa. Era uma beleza de menina. Ele ficou perturbado. Ela tinha olhos azuis oceânicos que quase ofuscavam o resto de seu belo rosto e até seu corpinho perfeito. E quando ele conheceu a tia Lucélia, pôde entender por que a filha era tão bonita. Era uma versão mais madura da Claudinha, mas muito mais bonita. Os mesmos olhos azuis, o mesmo cabelo loiro, mas num corpo de mulher feita que insinuava que os atributos da filha só teriam a ganhar com o passar dos anos.

*

As horas passaram voando, por mais que ele quisesse parar o tempo. E agora não apenas pelo medo de ter que passar a noite num baile de Carnaval tentando mostrar às pessoas que estava se divertindo conversando com adultos. É que a prima de seu amigo, durante a tarde, tinha lhe dado uma atenção que não se lembrava da última vez em que alguma garota tinha dado. Não seria difícil se apaixonar à primeira vista por Cláudia nem que fosse experiente com as “mulheres” como seu amigo Mexerica. Sendo tão só, tão tímido e tão “feio”, a atenção dela exerceu um efeito devastador sobre ele.

Tia Lucélia, porém, bateu à porta do quarto dos garotos para apressá-los, dizendo que a irmã e o cunhado estavam impacientes porque os deixariam no baile e iriam com o carro a outro baile só de adultos. Que se apressassem. E que não se animassem muito, porque ela e o tio do Mexerica é que “tomariam conta” deles.

*

O salão cheio, as garotas pintadas, com suas fantasias sumárias de índias, de odaliscas e outras de caráter indefinido, o ritmo carnavalesco ensurdecedor, as gargalhadas, tudo aquilo o oprimia. Sentia-se um peixe fora d’água.

Tia Lucélia notou. Aproximou-se dele, enquanto adentravam o baile carnavalesco, e perguntou-lhe o que tinha, mas ele fez que não ouviu.

Já no salão, depois de a mãe de Cláudia chamá-la de lado, a garota veio até ele perguntar se não queria ir com ela “lá no meião”. A ela ele não negaria nada. Assentiu, meneando a cabeça afirmativamente. 

No meio dos foliões, ela lhe pediu que a enlaçasse pela cintura para “tomarem o trenzinho” em que casais abraçados circulavam pelo salão aos pulinhos. Quando seus dedos mal tocaram a pele quente e macia da menina, a excitação foi tanta que ele pensou que teria um orgasmo ali mesmo.

Mais tarde, no intervalo do baile, na mesa com tia Lucélia e tio Wagner, ele tomou coragem e pediu à mocinha que fossem até o terraço. Ela já havia aceitado, mas não chegaram a ir. O pior aconteceu.

Era um garoto alto, forte, daquele tipo que ele não era, o tipo do qual as garotas gostavam. E Cláudia, de cara feia, antes de cumprimentar o rapaz já foi dizendo que pensou que ele não vinha mais...

Era o namorado dela.

*

Tio Wagner era um homem de ótima aparência. Com a tia Lucélia, fazia um par que ele considerou muito bonito. Sentiu inveja do tio do amigo. Mais até do que do namorado de Cláudia, pois a mãe dela era talvez a mulher mais bonita que ele já vira.

*

Enquanto Cláudia e o namorado dirigiam-se ao terraço, logo depois de a garota ter se desculpado explicando que precisava conversar com o rapaz, tio Wagner levantou-se e com tia Lucélia travou um diálogo evidentemente ríspido, ainda que não se escutasse o que diziam. Mas o gestual dizia tudo.

O rápido e ríspido diálogo travou-se com tio Wagner em pé e tia Lucélia, sentada. Em seguida, o marido a deixou e tomou o rumo da saída do baile.

Ele se aproximou de tia Lucélia para socorrer-se de alguma companhia em meio à folia de que os “normais” desfrutavam. E, desta vez, não seria torturante ficar conversando com um adulto em meio a um baile de adolescentes, porque aquela mulher era um evento a contemplar.

A tia do amigo parecia muito triste e nervosa. Ele perguntou se estava bem e ela disse que sim, que não se preocupasse com ela e que fosse se divertir.

Os olhos de Lucélia. Aqueles olhos sobrenaturais estavam úmidos e já começavam a borrar a maquiagem.

Ele respondeu que não, que preferia ficar ali com ela, que não quis, de início, aceitar-lhe a companhia, que ele era jovem e não tinha que ficar pajeando uma “coroa”.

-- Não, não ficarei pajeando não, dona Lucélia. Quero mesmo ficar com a senhora...

-- Tá, então, mas só se me chamar de Lucélia.

-- A senhora... Você é quem sabe, Lucélia.

-- Você é tímido, não?

-- Sou. Dá pra perceber desse jeito?

-- Dá, sim. Eu tive um namorado como você. Quem me dera ter me casado com ele...

*

A noite passou tão depressa que ele nem sentiu. Amaldiçoou o tempo, que só passava rápido quando ele não queria.

Logo, estavam em casa e todos foram dormir sem mais delongas, que o dia clarearia logo. Ele, porém, não conseguia dormir. Levantou-se de cueca mesmo e foi à varanda da casa fumar enquanto o sono não o convidava. O tio Wagner ainda não tinha chegado.

*

Ele se perdia na contemplação do luar esplendoroso naquele céu tão límpido do interior, tão límpido que chegava a ser ofensivo. Aquele luar que na cidade grande era mais do que improvável, era impossível.

De repente, ouviu, atrás de si, a porta de vidro deslizar sobre os caixilhos. Voltou-se assustado, já se dando conta de que estava de cueca. Era tia Lucélia.

Ficou paralisado, sem saber o que dizer, cobrindo-se com as mãos.

-- Que bobagem, menino... Eu tenho um filho. Relaxe.

-- Ah, por favor, desculpe, eu não queria incomodar ninguém...

-- Você está sem sono, né? Vem aqui sentar comigo no balanço. Vamos conversar que também não tenho sono.

Lucélia vestia um peignoir de seda prateado. Ao sentar-se, as pernas ficaram expostas até a altura das coxas. Ele ficou boquiaberto com a beleza daquelas pernas torneadas. Ficou ali em pé, imóvel. Ela sorriu, dando tapinhas no lugar ao seu lado no balanço branco de metal.

Depois de hesitar até o ponto em que se sentiu um bobo, sentou-se ao lado da bela tia Lucélia. Ela segurou-lhe o queixo e, aproximando-se dele até que seus corpos se tocassem, sussurrou-lhe no ouvido:

-- Meu marido é um canalha que me trai o tempo todo e você é um bom garoto, sensível, inteligente, e um dia fará uma mulher muito feliz. Hoje, porém, é a minha vez. Serei feliz dando a você um presente.

Enquanto sussurrava no ouvido dele, conduziu sua mão ao seio direito. Naquele dia, ele não perdeu apenas a timidez, mas a virgindade. E não só a da boca.

 

***

 

Ombudsman da Folha sofre

 

22 de fevereiro de 2009

 

Por Carlos Eduardo Lins da Silva

 

Já me referi aqui ao escopo do trabalho do ombudsman, que não abarca as opiniões publicadas pelo jornal, em editoriais, colunas ou artigos.

O ombudsman se atém aos aspectos técnicos, factuais, comprováveis, verificáveis. Opinião é como religião, time de futebol, convicção ideológica: cada um tem a sua e nenhuma é melhor que outra.

Mas, talvez porque, como ensinava Spencer, a opinião é determinada em última análise pelos sentimentos, não pelo intelecto, ela mobiliza manifestação de muitos leitores.

Esta semana, duas motivaram pelo menos 115 mensagens. Sem entrar no seu mérito opinativo, vou tratar de ambas.

Um post de blog do Folha Online trazia no título as palavras vadias e vagabundas acima de foto em que apareciam Marta Suplicy e Dilma Rousseff. Pareceu-me uma insinuação de mau gosto e insultuosa.

Um editorial com referência ao regime militar brasileiro provocou cartas publicadas no "Painel do Leitor". Resposta da Redação a duas delas na sexta foge do padrão de cordialidade que julgo essencial o jornal manter com seus leitores.



 Escrito por Eduardo Guimarães às 03h14
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