Vem sendo comentado a “boca pequena” na blogosfera – e com insuficiente atenção – matérias jornalísticas críticas ao PSDB exibidas em veículos de comunicação que há mais de seis anos primam por reprimir qualquer crítica mais contundente àquele partido enquanto atacam sem parar o governo Lula.
Há pouco tempo, a revista Veja publicou matéria relativamente crítica sobre os escândalos do governo do Rio Grande do Sul, atualmente sob a administração Yeda Crusius. Foi uma surpresa. Não havia lembrança recente de qualquer matéria negativa a um governo tucano naquela publicação.
Claro que o escândalo no governo gaúcho não foi capa da revista como acontece com qualquer denuncia menor contra o governo federal, seu partido e sua base de sustentação no Congresso, que, naquela revista, viram matéria principal independentemente da importância ou do momento político. Mas foi matéria ampla e crítica.
Agora, surge um segundo episódio significativo. Não que, aqui e ali, a Globo não deixe escapar alguma crítica fugaz ao PSDB ou ao PFL, mas esse novo episódio de crítica inédita à direita aconteceu num feudo tucano antigo, o programa do Jô Soares, mais especificamente no quadro “Meninas do Jô” apresentado no programa da última quarta-feira.
O vídeo acima reproduz praticamente todo o programa. São 21 minutos e 36 segundos de exibição. Vale a pena assistir. Não pela qualidade rasa das análises, pela obviedade de argumentos ou pela hipocrisia costumeiras, também desta vez presentes naquela “mesa redonda” ridícula que nunca passou de um circo abordando temas sérios. Vale assistir pelo ineditismo da escolha política de críticas ao PSDB e, pasmem, a José Serra.
O programa começou como quase sempre começa nas quartas-feiras, ou seja, apresentando “gafes” de petistas (do senador Aloísio Mercadante e, claro, de Lula). Mas, se notarem bem, antes de gastar minutos preciosos com os atacados de sempre o apresentador-humorista mais politizado da atualidade anuncia “algumas gafes bem interessantes essa semana”.
Anotem aí que o apresentador disse “algumas”. Logo, logo a palavra ganhará compreensão sobre o por que de seu uso.
A primeira “gafe” apresentada, a partir dali, seria a do presidente Lula durante discurso que fez recentemente a empresários na Turquia, quando se referiu como “turcos” a libaneses e a outros povos daquela região que emigraram para o Brasil no século passado.
Em seguida, como de costume, Jô colocou uma das “meninas” para descer a lenha no presidente Lula pela “gafe” e para se espantar com o “tamanho” dela. E, como no mais das vezes, a escolhida foi Lucia Hippolito. Ficaram, pelo menos, uns 20% do tempo do programa ridicularizando o presidente.
Os que ali se disseram no propósito de “comentar os fatos políticos mais relevantes do momento”, porém, não acharam válido comentar uma notícia que talvez nem pudessem comentar por ordem superior, pois a Globo não noticiou que Lula ganhou o Prêmio da Paz da Unesco e que o presidente é considerado candidato em potencial ao Prêmio Nobel da Paz deste ano, pois quem ganha aquela premiação da ONU costuma ser o próximo ganhador do Prêmio atribuído anualmente em Oslo, na Noruega.
Em seguida, a bancada, sempre sob o comando de Jô, engatou a marcha da repetição dos argumentos do PSDB sobre a CPI da Petrobrás, sempre com o assentimento do resto da bancada por meio de meneares afirmativos de cabeça e muxoxos concordantes.
No entanto, um surpreendente contraponto partiu de uma nova componente da bancada de “meninas”, a jornalista Flávia Oliveira, do portal UOL, jornalista que vem se destacando naquele programa por “quebrar” as análises rasas das colegas e do apresentador do programa com outras mais embasadas e, a meu ver, constrangedoramente “envergonhadas” – mas, ainda assim, muito melhores.
Sobre o argumento absurdo do PSDB de que “até agora” não se estaria vendo “prejuízos” à Petrobrás por conta da CPI – como se fosse possível constatar algum prejuízo à empresa tão cedo, antes mesmo de a comissão iniciar seus trabalhos –, Flávia argumentou que esse prejuízo poderia surgir quando começassem “(...) Esses fatos novos, essas... Esse apetite por denúncias. E, aí, o risco de a CPI sair da objetividade (...)”.
Foi inédito. Apesar da esmagadora maioria que recitava o discurso da oposição, esse laivo de bom senso nunca tinha sido visto assim, opondo-se àquelas análises “rasas” que mencionei. Sempre que se trata de referendar o que dizem tucanos e pefelês e de atacar o PT e Lula, o consenso é geral.
A malhação do Judas petista e da base aliada do governo prevaleceu por mais uns 20% do programa.
Finalmente, Jô muda de assunto. Em tom galhofeiro, pede exibição de foto da governadora Yeda Crusius sendo resgatada por um PM de palanque que, com alto simbolismo, ruiu com ela em cima durante comício que fazia recentemente em seu Estado.
Tudo era armação, no entanto. Mero pretexto para o Jô chamar a controvertida governadora gaúcha de “bonitona” e para dizerem que ela “ganhou sobrevida”, ou seja, que não estão conseguindo responsabilizá-la por falcatruas das quais está sendo acusada.
Mais uma vez, os extensos ataques ao governo Lula, ao seu partido, à sua base de apoio e ao seu titular cederam espaço a alguns segundos de crítica branda a um governante tucano.
Voltam à carga contra o governo. A vítima, agora, é Lula – de novo. A jornalista Ana Maria Tahan afirma que “ele quer ser presidente da Petrobras”. Outras dizem que ele acha que o presidente da empresa é muito poderoso, e logo concordam que realmente é verdade. Muitos devem ter acreditado que Lula falou sério quando disse que quando saísse do governo iria querer presidir a Petrobrás.
Mais um átimo e todos, apresentador e “meninas”, entoam um coro: “Alguém precisa pôr um freio na Petrobrás!”.
Percebendo o que tinham feito (dado argumentos aos que acusam sua corrente política de querer privatizar a empresa), começam a tecer loas à Petrobrás destacando-lhe a importância na área da cultura, os investimentos em pesquisa e tecnologia etc.
Até ali o programa foi típico, com exceção das tímidas intervenções da jornalista Flávia Oliveira, que, conforme eu disse acima, estava sempre tentando trazer alguma profundidade ao festival de platitudes sobre economia e petróleo que se desenrolava de forma tediosa.
Foi então que, para minha surpresa, vi um fato inédito. Quase pedindo desculpas ao “querido” governador José Serra, Jô Soares apresentou aquele vídeo que virou hit na internet, no qual o tucano diz, com todas as letras, que a gripe suína se espalhava devido “aos espirros dos porquinhos”.
O constrangimento foi geral. As “meninas” exibiram sorrisos amarelos e o Gordo chamou os comerciais.
Mas o que quer dizer tudo isso? É óbvio que a mídia está tentando ganhar musculatura de credibilidade. Com inserções tímidas de alguns questionamentos a tucanos, e até cometendo a suprema ousadia de expor alguma das “gafes” de Serra, a imprensa deste tenta se credenciar como analista política séria num momento em que todos, sejam de onde forem, sendo politizados ou não, já associam Globos, Folhas e Vejas ao governador paulista.
Há que convir que a estratégia dificulta as críticas e denúncias de partidarismo e adesismo da grande mídia ao projeto Serra 2010. Eles podem dizer, por exemplo: “Ah, mas houve esta ou aquela crítica naquele programa tal ou tal, naquela matéria A ou B”.
Bem, como sempre, trato aqui de combater as farsas midiáticas dando a vocês o argumento mais simples para explicar tramas complexas. É preciso quantificar as críticas a uns e a outros e denunciar a diferença de tratamento. E é mais difícil, assim. Só a repetição vigorosa do argumento de que é preciso quantificar e diferenciar as críticas fará com que seja possível discutir essa diferença.
Contudo, ao passar a criticar de alguma forma Serra e o PSDB a mídia ganha musculatura retórica. Estava muito fácil mostrar às pessoas que ela não fazia crítica nenhuma, porque não fazia. Sobre a crítica menos intensa e freqüente aos tucanos, agora eles poderão dizer que é porque estes políticos produzem menos escândalos, quando se sabe que a produção de escândalos tucanos e pefelês é interminável.
Daí haverá que listar a quantidade de escândalos abafados ou ignorados, como o da Alstom, o da merenda escolar estragada e reduzida na prefeitura de São Paulo, o buraco do metrô, as doações de dinheiro público paulista a Folhas, Vejas e Globos, e etc., etc., etc. e tal.
É uma batalha dura. A blogosfera, que poderia travar esse debate em profundidade e apresentar o contraponto a essa farsa, ainda tem muito pouca visibilidade mesmo na internet, onde os grandes portais ficam com a parte do leão dos internautas, parte composta, esmagadoramente, de pessoas de baixa politização.
É por isso que volto a lhes dizer que meu objetivo, neste momento, está mais voltado para criar alguma estratégia que dará visibilidade nacional a essa blogosfera. E essa “estratégia” já está em criação. Aliás, posso lhes dizer que está em fase bem avançada. Infelizmente, não posso lhes dizer o que é, ainda.
Nos últimos anos, tenho me alternado entre apoiar e rejeitar um terceiro mandatopara o presidente Lula. De quase um ano para cá, porém, formei opinião de que o Brasil não poderia continuar dependendo tanto de um só homem.
Se hoje Lula tivesse uma síncope e caísse duro, toda a luta de mais de duas décadas do PT e da esquerda moderada para eleger um governo popular simplesmente viraria pó. Não haveria transferência de votos para Dilma e a mídia transformaria Serra na reencarnação de Lula na Terra.
De alguns dias para cá, a base aliada de Lula na Câmara dos Deputados soltou um balão de ensaio: um Projeto de Emenda Constitucional que permitiria ao presidente da República disputar a eleição presidencial do ano que vem.
Eu poderia usar o seguinte argumento para defender a possibilidade de o presidente da República disputar nas urnas um terceiro mandato:
“Uma eventual emenda de reeleição evidentemente não muda a lei para manter um governante. Ela apenas permite que ele se recandidate. Entre a candidatura e a renovação do mandato estará sempre o democrático e o inquestionável veredicto das urnas.”
Vocês concordam com a premissa supra mencionada? Se o povo quer, que mal que tem? Trata-se do “inquestionável veredicto das urnas”, não é? E, afinal de contas, não se está propondo a prorrogação do mandato de Lula – ele disputaria uma eleição; quem não quisesse votar nele, seria só não votar.
Ah, vocês não concordam? Pensando bem, nem eu. O erro nesse argumento é o seguinte: não é democrático propor uma mudança nas regras do jogo depois que ele começa. Ou seja: Lula não poderia se beneficiar de uma alteração na Constituição encomendada exclusivamente para favorecê-lo.
Vocês dirão que o Eduardo não concorda, mas elaborou o argumento. Não, não elaborei. Eu simplesmente estou repetindo o que Folhas, Vejas, Globos e congêneres diziam quando o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso propôs a emenda à Constituição que lhe permitiu candidatar-se à reeleição em 1998.
Para isso, usei trecho de editorial em defesa da reeleição de FHC publicado pelo jornal Folha de São Paulo em 5 de janeiro de 1996, ano anterior àquele em que aquela emenda foi aprovada com amplo apoio de todos os grandes meios de comunicação, do PSDB e do então PFL, hoje DEM.
Essa gente toda mudou de idéia sobre a reeleição. O presidente Lula não mudou. E nem eu. Cheguei a cogitar apoiar o terceiro mandato, mas julguei antidemocrático – pelas razões expostas acima – e desisti da idéia.
Contudo, há uma situação na qual eu apoiaria o terceiro mandato. Para explicar que situação é essa, reproduzo post do blogueiro da Folha de São Paulo Josias de Souza publicado hoje:
A principal preocupação de Lula e dos operadores políticos do governo na CPI da Petrobras atende pelo nome de Dilma Rousseff. Antes de virar chefe da Casa Civil, Dilma respondeu pela pasta das Minas e Energia (2003-2005), de cujo organograma pende a Petrobras. Depois da transferência para o Planalto, a ministra manteve-se na presidência do Conselho de Administração da estatal, posto que assumira em janeiro de 2003. O governo receia que um dos objetivos da oposição seja arrastar o nome de Dilma para os arredores do “palco” da CPI.
Além de providenciar um escudo para a ministra-candidata, os governistas armam uma contraofensiva. Concentram-se na era tucana de FHC. Nesta quarta (27), em entrevista à rádio CBN, o senador João Pedro (PT-AM), membro da CPI, trouxe aos holofotes a sigla P-36. Vem a ser a plataforma marítima da Petrobras que afundou em março de 2001, sob FHC. Antes de ir a pique, a P-36 produzia 80 mil barris de petróleo por dia. Inutilizada, impôs à estatal perdas diárias de até US$ 1,3 milhão.
Para o petista João Pedro, a CPI não pode perder a oportunidade de “investigar” o ocorrido. Como que sentindo o cheiro de queimado, a cúpula da oposição reuniu-se na tarde desta quarta, em Brasília. Participaram do encontro: os presidentes do PSDB, Sérgio Guerra; e do DEM, Rodrigo Maia; além de líderes tucanos, ‘demos’ e do PPS. O tema central da reunião foi a CPI. A despeito dos temores do governo, o nome de Dilma não foi à mesa. Decidiu-se:
1. Rebater com mais ênfase a “falácia” petista de que a oposição tramou a CPI para enfraquecer a Petrobras e estimular a sua privatização;
2. Responder à tentativa do governo de “abafar” a apuração de malfeitos. Como? Realizando uma “investigação paralela”.
A oposição deseja montar um time de técnicos especializados na área petrolífera. Gente que entenda de Petrobras. De resto, fará um levantamento de processos abertos contra a Petrobras nos tribunais do país. Como se vê, a investigação “isenta” e “serena” que o governo cobrava e que a oposição prometia, vai ganhando um indisfarçável contorno político-eleitoral.
Coitadinho do Josias, não? Vocês não morrem de pena dele? Só ele não sabia que a CPI da Petrobrás tinha “contorno político-eleitoral”, e agora finge que reclama.
Tirando da frente essa cara-de-pau do blogueiro misógino da Folha – aquele que costuma pôr fotos de Marta Suplicy e de Dilma Rousseff em seu blog encimadas pelas “doces” palavras “vadias” e “vagabundas” –, vamos em frente.
Se José Serra pretende fazer com Dilma o que fez com Roseana Sarney e Ciro Gomes em 2002, tudo muda. E essa CPI da Petrobrás escancara a evidente intenção do tucano de fazer. Ele é meio dono do PSDB e do PFL hoje. Está por trás de tudo, em minha opinião.
Querem derrubar Dilma para que Serra dispute praticamente sozinho a eleição do ano que vem, ou seja, contra algum candidato improvisado pelo governo ou só contra candidatos como Ciro Gomes ou Heloísa Helena.
Se Serra e sua mídia não conseguirem, não se fala mais nisso. Mas se nos próximos meses, por algum acaso, eles conseguirem derrubar a candidatura Dilma com algum factóide que a fará perder votos e que depois jamais será provado na Justiça, então viro partidário do terceiro mandato desde criancinha.
Acho que essa é a mensagem do PT ao PSDB e ao PFL: se pretendem ser espertos inviabilizando a candidatura Dilma, se acharem que vão vencê-la sem disputar a eleição com ela, então tomarão um Lula 3.0 pela frente. É simples assim.
PEC do 3º mandato depende de uma só adesão
A notícia que vocês lerão a seguir encontrei no UOL hoje cedo, por volta das sete horas. Fui dormir por volta da uma e não estava lá, o que deixa ver que o portal do Grupo Folha passou a madrugada de plantão, em contato com a oposição. Leiam meu comentário logo em seguida.
Deputados do DEM e do PSDB retiraram as assinaturas na noite desta quinta-feira da PEC (proposta de emenda constitucional) do terceiro mandato e suspenderam a tramitação da proposta na Câmara. Ao todo foram 13 parlamentares da oposição que recuaram: cinco tucanos e oito democratas. Das 194 assinaturas recolhidas pelo deputado Jackson Barreto (PMDB-SE), autor da PEC, apenas 183 foram reconhecidas como válidas pela Secretaria Geral da Câmara. Como os cinco tucanos e os oito do DEM retiraram as assinaturas, a proposta tem agora o apoio de 170 parlamentares -- um a menos que o número mínimo necessário para poder tramitar na Casa. [...]
O tom triunfal da manchete do UOL dizendo que a PEC da re-reeleição foi "derrubada" esconde várias coisas:
1- Que onze pefelês assinaram a proposta de um peemedebista na Câmara e que só oito retiraram assinaturas.
2- Que há petistas que não assinaram o documento. Ou seja: se houver necessidade, pode-se conseguir facilmente o número de assinaturas para recolocar a proposta em tramitação.
3- Que a oposição está tendo dificuldade para impedir que seus membros se entusiasmem com o presidente Lula.
Apesar de tantas boas notícias que o Brasil vem colecionando nos últimos anos em termos de prestígio internacional, o portal UOL noticiou em destaque nesta quinta-feira a condenação da Anistia Internacional a aspecto da mentalidade brasileira que nos envergonha diante do mundo.
A manchete do UOL é clara: “Segundo Anistia, Brasil acha que direitos humanos são ‘para bandidos’ ”, o que equivale a dizer que, num mundo no qual direitos humanos e proteção ao meio ambiente se tornam preocupação crescente, este país se vê denegrido ao mergulhar no obscurantismo desse que é o mais característico bordão reacionário.
O criador desse bordão alucinado que contaminou enorme parte da sociedade brasileira e que a induziu a acreditar que se deve usar métodos desumanos para combater o crime foi Paulo Salim Maluf, símbolo vivo da política de Segurança do Estado vigente durante a ditadura militar.
A imprensa brasileira trabalhou duro durante décadas para vender essa teoria que a mundialmente conceituada ONG Anistia Internacional está denunciando. Abaixo, trechos da matéria sobre a denúncia internacional da mentalidade atrasada e desumana que contamina grande parcela do povo brasileiro.
[...] Violência em áreas rurais e contra povos indígenas. Grupos de parapoliciais e traficantes que dividem domínio de cidade. Todos esses casos tiveram exemplos ocorridos de forma sistemática no Brasil em 2008, segundo o Relatório Anual da Anistia Internacional (organização não governamental que luta por direitos humanos), divulgado nesta quinta-feira, em Londres (à 1h, horário de Brasília).
Em entrevista ao UOL Notícias, o coordenador da Anistia Internacional para assuntos brasileiros, o britânico Tim Cahill, "existe um conceito infeliz no Brasil que é que os direitos humanos só defendem bandidos".
Para Cahill, esse conceito de que só "bandidos" são beneficiados "é popularizado e utilizado por pessoas que tem interesse em mantê-lo". Com isso, várias ações governamentais no Brasil acabam sendo executadas para satisfazer àqueles que não acreditam nos direitos humanos.
[...]
Em São Paulo, também houve redução na quantidade de homicídios, mas o número de pessoas mortas por policiais militares, assim como no Rio, aumentou. De janeiro a setembro de 2008, a polícia paulista matou 353 pessoas.
"A ocupação de Paraisópolis por 90 dias não trouxe elementos de Estado, não garante segurança em longo prazo. Eles não fazem planos com outros departamentos como saúde e educação. Essas medidas são pura publicidade. O governo quer mostrar que está fazendo alguma coisa", diz.
[...]
Para a Anistia Internacional, as expulsões forçadas no campo, na maioria das vezes praticadas por empresas de segurança privadas irregulares ou insuficientemente regularizadas, contratadas por proprietários de terras, e a tentativa de criminalizar os movimentos que apoiam as pessoas sem terra continuaram a ocorrer em 2008.
No Rio Grande do Sul, promotores e policiais militares montaram um dossiê com diversas alegações contra integrantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Milícias armadas ilegais continuaram a atacar trabalhadores sem terra no Paraná [...]
Vocês notarão que tudo que foi denunciado pela Anistia Internacional é caro à imprensa brasileira, que trata de disseminar abertamente essas teses contra os sem-terra e a favor de ações como a do governador José Serra na favela paulistana de Paraisópolis, donde sucederam-se relatos de violações dos direitos civis da população autóctone.
E o que é pior: o autor daqueles desmandos é forte candidato a se eleger presidente da República no ano que vem.
Mais trágico ainda é que essa mesma mídia tratará de convencer os brasileiros de que a Anistia Internacional é uma organização de “petralhas” internacionais sem importância, representatividade e seriedade, quando a verdade é que se trata de uma organização de renome mundial, altamente respeitada sobretudo no mundo desenvolvido.
Assim, não o governo, mas o povo brasileiro vai passando ao mundo uma imagem de burrice, de atraso, de intolerância, enfim, de um povo que não se respeita ao desrespeitar-se de cima para baixo, ou seja, das classes altas para as baixas, as quais reagem desencadeando a guerra civil que se vê crescer em nossos centros urbanos, no campo, em toda parte.
Na raiz dessa política burra e desumana estão os governos estaduais, responsáveis pelas polícias e pelo sistema carcerário. Estados que, por força da Constituição, têm autonomia para permitir que suas forças policiais sejam contaminadas pela corrupção e pela violência e que seu sistema prisional seja comparável aos das piores ditaduras de todos os tempos.
Para completar, essa mídia aliada de grupos políticos ultraconservadores trata de manter acesa a chama de intolerância contra os sem-terra, contra a massa miserável que cai no crime, em favor de ações policiais fascistas como a de Paraisópolis e contrária a distribuição de renda e a políticas sociais que esses grandes meios de comunicação chamam de “esmolas”.
Preocupa lembrar que o país está ameaçado de ver um dos artífices desse estado de coisas se tornar o primeiro mandatário do país no ano que vem, o que faria o Brasil mergulhar ainda mais fundo nesse abismo conceitual obscurantista que repudia um princípio que deveria ser consenso em qualquer parte, o princípio de que humanos devem defender os direitos humanos.
O post publicado aqui ontem gerou um fato que me surpreendeu de uma maneira que jamais supus que poderia ocorrer. Recebi uma informação que interessa a todos vocês que trafegam por este “universo” virtual da política e do jornalismo que eu disse ontem aqui ser “praticamente invisível”, e é minha obrigação divulgar essa informação.
Havia um problema para divulgá-la, porém. É que a informação foi obtida de uma fonte oficial que não quer se identificar. Contudo, nada me foi dito a respeito de não divulgar o que me foi dito. O que me foi pedido, apenas, foi sigilo quanto à fonte.
São algumas dezenas de milhares de pessoas – e não mais do que isso – que trafegam pela blogosfera, a qual, em seu conceito original, remete a blogs independentes das grandes corporações de mídia.
Como blogueiro, posso afirmar que enorme parte desse público se sente abandonada e ignorada não apenas pela mídia corporativa, mas, inclusive, pelas autoridades federais, pelo governo do país, pois tais autoridades priorizam exclusivamente os grandes meios de comunicação ao prestarem contas de suas atividades, e as autoridades estaduais e municipais, sejam petistas, tucanas ou o que for, seguem o mesmo caminho.
A novidade que lhes revelo aqui, em primeira mão, é a de que não só o governo Lula como a oposição estão mais do que atentos à blogosfera. E, para minha surpresa, também a este blog (?!).
Descobri, por exemplo, que a matéria que publiquei aqui no domingo sobre o apoio que a mídia deu à emenda constitucional da reeleição proposta por Fernando Henrique Cardoso em 1997 em benefício próprio – um apoio que a mesma mídia nega hoje a proposta similar para Lula – teria tido uma repercussão “imensa” entre a classe política.
Sendo assim, fiquei sabendo que o governo federal pretende reconhecer a “legitimidade” da blogosfera em termos de também lhe prestar contas, em alguma medida, ainda que não seja como presta contas, por exemplo, à mídia corporativa, pois essa blogosfera seria representativa de um importante segmento pensante da sociedade.
Fui informado de que essa visão do governo ficará clara no âmbito da Conferência Nacional de Comunicação, no fim do ano. Desta maneira, recomendo que prestem atenção a fatos vindouros que irão corroborar esta informação que lhes dou agora com muito prazer e, até, com uma certa dose de emoção.
Cinema no Cidadania
Reproduzo, abaixo, e-mail e vídeo que recebi do cineasta Peter Cordenonsi, que passa a ter divulgado aqui no blog o link para seu site “Primeiro Filme”.
Caro Eduardo,
aqui está o novo fragmento do filme, este falando sobre a Petrobrás.
O seu blog ainda rende muitas visitas ao primeiro filme. Muito obrigado pela postagem.
Gostaria de usar imagens da manifestação que você está organizando em São Paulo, se você puder disponibilizar alguma.
Peço para que você poste [o vídeo] no Cidadania.com, para continuar a corrente que você, corretamente, começou: "A União Faz a Força".
Neste novo fragmento, estão algumas imagens da manifestação que aconteceu no Rio de Janeiro, na última quinta-feira, que contou com mais de 5 mil manifestantes.
Este filme faz parte da campanha do petróleo, que conta com dezenas de entidades. Um filme em defesa do Brasil.
Estou submerso, abaixo da camada de sal, com a edição deste filme, pois são mais de 30 horas de material e 35 entrevistados. Aos poucos irei soltando fragmentos e em breve o filme estará nas ruas.
Conto com a mídia alternativa, de jornalistas independentes e de blogueiros como você para colocar este documentário na rede, já que se depender dos grandes meios de comunicação ficará restrito a poucos.
Enfim, o novo fragmento do filme em defesa do pré-sal.
Fragmento sobre a Petrobrás do filme documentário "O Petróleo Tem Que Ser Nosso - Última Fronteira". Os entrevistados falam da importância, da tentativa de privatização e da descoberta do pré-sal pela Petrobras, patrimônio do povo brasileiro. Um filme em defesa do Brasil.
Por favor, use o mesmo link ou incorpore da minha página para que possa acumular os acessos.
Direção: Peter Cordenonsi - direção de produção: Vera Moderno - direção de fotografia: Tiago Scorza - som direto: Thiago Sobral - direção musical: José Henrique Nogueira - arranjos: David Ganc - pesquisa: Gisele Rodrigues - projeto gráfico: Substancia 4 - promoção: Sindipetro-RJ e Aepet - Rio de Janeiro, Brasil, 2009®
Israel "aceita" anti-semita na Unesco, segundo o Esgoto
É isso mesmo: por alguma razão meio misteriosa, o governo israelense, segundo o Esgoto, não é que "apóia" a candidatadura do egípcio Farouk Hosni à diretoria-geral da Unesco. O governo isralensese simplesmente "retirou o veto" a Hosni. Ou seja: aceitou que a ONU coloque em cargo tão representativo alguém que discriminaria aquele país e até, quem sabe, proporia o extermínio de sua cultura através de recomendação de queima de seus livros. E por que o governo israelense aceitou tal barbaridade? Simples: porque alguém disse a esse pirado que o governo de Israel não representa seu povo; quem fala pelo povo judeu é o Esgoto, segundo ele mesmo.
Faz alguns meses, convenci minha filha primogênita a estudar jornalismo. Ontem, porém, fui compelido a refletir sobre se agi bem ao fazer isso. É que conversei com um jornalista conhecido e empregado numa grande corporação midiática... Não mencionarei nomes, contudo, por razões que se tornarão óbvias no decorrer do texto.
No âmbito de uma conversa sobre a realidade política brasileira, ficou claro a mim – e creio que também a ele, mas de uma forma que talvez nunca tivesse lhe ocorrido – como a sua profissão, hoje em dia, assumiu uma feição desalentadora.
Foi aí que pensei na minha filha. Eu a estimulei a estudar para se tornar uma profissional que terá que se submeter ao que, para alguém como eu, talvez seja a maior das torturas, a torturante submissão intelectual.
Analisamos juntos, eu e esse profissional tarimbado em mídia corporativa, quais os “predicados” que deve reunir um jornalista para “se dar bem” atualmente, pois os tempos em que jornalistas podiam trilhar sua profissão com brio e seriedade e subir na carreira, parecem terminados.
Em primeiro lugar, não basta o jornalista aspirante a crescer na carreira bajular os barões da mídia, os quais detêm todos os bons empregos. Há que ser convincente. E tem que demonstrar que poderá ser útil, ou seja, que será capaz de defender aquele ideário de seu empregador.
Ao ter que mostrar que defenderá com brilhantismo aqueles interesses, o profissional se violará moralmente, de certa forma, pois saberá que seu valor não estará em saber exercer sua profissão, mas em saber exercê-la daquela única forma que seu empregador quer. Se sair da linha, portanto, estará fora.
Com o entrelaçamento das relações entre os barões da mídia que foi se processando nas últimas duas décadas, acabou aquela história de um grande veículo contratar algum jornalista que “se queimou” em outro.
Há uma espécie de lista negra na qual, se um jornalista for inscrito, terá que procurar outra profissão para trabalhar ou se limitar a empregos mal pagos em assessorias de imprensa e congêneres.
O jornalista, assim, já entra fragilizado na profissão. Jovem, terá que trilhar um longo caminho de submissão intelectual e em formulação de provas de que poderá defender as idéias de seus empregadores e dos amigos deles. E não em provar que é capaz de fazer bom jornalismo.
Notem bem, há grandes nomes no jornalismo, ainda, mas são jornalistas de outras gerações. Essa garotada que está aí se esfalfando nas redações nem cogita fazer o que fizeram alguns jornalistas de renome que deram pontapés nas bundas dos barões midiáticos que os empregavam.
E a minha filha, como fica? Bem, ela é casada, tem uma filha de oito anos, o marido é um rapaz maravilhoso e irá ampará-la para sempre, tenho certeza. E isso é muito bom, porque, bem provavelmente, se ela seguir os ideais do pai talvez venha a ter dificuldades como essas que relatei acima.
Ou não, se a sociedade se engajar, se entender como esses profissionais são importantes para ela, para qualquer sociedade, pois vivemos numa época em que, cada vez mais, informação é tudo. E isso só acontecerá se essa sociedade entender e pressionar a imprensa, se a fizer entender que o consumidor de jornalismo contemporâneo mudou.
A questão, no entanto, é saber até que ponto esse consumidor mudou e em que velocidade ele está mudando.
É nesse aspecto que a internet pode contribuir. Os blogs independentes como este, ao desnudarem as mazelas do jornalismo – como fiz no post do último domingo, no qual demonstrei que os jornais que hoje são contrários ao terceiro mandato de Lula defenderam a reeleição para FHC – alertam algumas pessoas que jamais pensariam que um grande veículo daquele pudesse cometer aquilo que está sendo revelado.
Todavia, são poucas pessoas. O grande problema, como eu disse ao jornalista que mencionei no início do texto, é que a blogosfera ainda é praticamente invisível. Estamos, aqui ou no Esgoto (para vocês terem uma idéia da amplitude do espectro da coisa), pregando para convertidos. Quem vem aqui ou vai lá já tem opinião formada, ao menos em política.
O cidadão comum, como eu e aquele jornalista consensuamos, não vai além do UOL, do IG ou similares. Ou seja: dos grandes portais. Dá uma passada de olhos, lê até algumas matérias sobre política e economia e sai de opinião formada, ou melhor, malformada.
Essa é a esmagadora maioria do público consumidor de notícias que se informa pela internet, um público muito mais preparado intelectualmente.
O desafio, daqui em diante, será tornar a blogosfera independente muito maior do que ela é, muito mais visível. Mas como, se até os petistas que apanham sem parar da mídia corporativa, quando ela lhes abre espaço se derretem todos?
Vocês já imaginaram o presidente Lula dando entrevista a um dos blogueiros-jornalistas independentes? Nem falo de mim, que não sou do ramo. Falo de todos esses jornalistas de renome que hoje atuam na blogosfera e que podem esperar sentados por uma entrevista de um figurão do governo.
Esse governo e sua base de apoio preferem correr para os braços da Globo, da Folha etc. Até à Veja eles dão entrevistas. E alguns dão entrevistas à imprensa golpista que colocam todo o governo ou os partidos de sua base em maus lençóis, como se não bastasse.
Subestimar o poder dessa hidra peçonhenta que é a mídia corporativa, portanto, é bobagem. Bem como superestimar a força (crescente) da blogosfera. O grande desafio dela hoje é se fazer enxergar.
Há gente pensando em como fazer isso, e eu sou uma dessas pessoas. Talvez por não ser jornalista e por não ter ambições nessa carreira além da de escrever meu blog do jeito que eu quiser, possa ser útil à blogosfera profissionalizada no jornalismo.Gosto de ter idéias e de vê-las vicejar. Até mesmo se só eu souber que sou o autor daquele viço.
Nada disso, porém, minimiza o que ainda passa o jornalista contemporâneo. Ter que cuidar de cada opinião que profere, e não para não dizer barbaridades mas para não deixar ver qualquer discordância da linha de pensamento uníssona do patronato, é um drama. E isso tem que mudar a qualquer preço. Só não sei como... Ainda.
Começando a saber
Como eu disse acima, ainda não sabia como fazer para mudar a situação que acabo de descrever no post que antecede este comentário. Todavia, num dia como o de hoje, dedicado exclusivamente à militância político-cidadã, começo a engendrar... Começo a saber o que disse que não sabia. Aguardem.
Como a mídia se desmoraliza
Vocês viram como a mídia bateu no governo Lula por ter apoiado o nome do egípcio Farouk Hosni à diretoria-geral da Unesco. Acusaram-no de anti-semita por declarações que teria dado sobre queimar livros judeus. O governo, portanto, estaria apoiando um racista - e, o que é pior, em detrimento de uma candidatura brasileira.
Para variar, a mídia se pôs a papagaiar uma tese da oposição tucano-pefelê. Ela só não esperava, no entanto, que o revés fosse tão massacrante por ter acreditado não só na oposição, mas em diplomata de carreira que serviu ao governo FHC, Celso Lafer. Israel acaba de declarar apoio à condidatura do egípcio, exatamente como o Brasil.
Volume de crédito no país este mês acaba de ser anunciado pelo BC. O número cresceu mais de vinte por cento em relação ao mesmo período no ano passado. Os juros estão em queda livre, puxados para baixo pela concorrência dos bancos oficiais, que, sob determinação de Lula, reduziram os juros e açularam a concorrência interbancária. A inadimplência quase não subiu em relação a 2008.
Segundo informações da agência AFP, “os presidentes de Equador e Venezuela, Rafael Correa e Hugo Chávez, vão propor à União de Nações Sul-Americanas (Unasul) a criação de um órgão regional que defenda os governos dos abusos da imprensa".
Já Correa chamou a imprensa de seu país de "corrupta e instrumento da oligarquia”.
Chávez garantiu que o Equador "conta com todo o apoio da Venezuela em sua luta contra este fenômeno que se aproxima da loucura do fascismo, de forma aberta, descarada e cínica".
Um dos maiores inimigos da América Latina é a imprensa, segundo Correa, pois seria “comprometida com os poderes que sempre dominaram a região” .
O equatoriano também afirmou que “Temos que enfrentar e derrotar este poder tão grande e tão impune", e deu a receita de como fazer isso: "Com leis mais fortes, que punam tanto a desinformação, como a má fé e a corrupção".
Atuando nessa linha de pensamento, o presidente do Equador anunciou “uma drástica auditoria sobre as freqüências concedidas pelo Estado aos meios de comunicação”.
Na Venezuela, a polícia deu uma batida na casa de Guillermo Zuloaga, presidente da televisão Globovisión, veículo aliado da oposição ao governo e que o presidente do país chamou de "terrorista que viola a Constituição e incita ao ódio". A operação encontrou diversos carros de luxo sem documentos.
É verdade que as tevês na Venezuela e no Equador – e também na Bolívia, não devemos nos esquecer –, acima de todos os outros meios de comunicação, agem de forma mais desabrida do que no Brasil.
Como conheço muito de perto todos esses países, vi nas tevês deles convocações da população para protestar contra o governo. Peças publicitárias são veiculadas instigando as pessoas a saírem às ruas, onde acabam acontecendo confrontos entre governistas e anti-governistas.
Contudo, no Brasil, não estamos muito distantes disso. De acusações baseadas em documentos falsos contra uma ministra de Estado publicadas na primeira página de um grande jornal a envolvimento desse jornal e de uma grande revista semanal com banqueiros acusados, processados e condenados por corrupção, temos aí uma organização criminosa.
Claro que, enquanto na Venezuela, no Equador e na Bolívia as forças armadas são legalistas, no Brasil, através das declarações freqüentes de chefes militares feitas de forma pública, o governo de centro-esquerda do país é constantemente ameaçado de levante golpista das forças armadas.
Estou cada vez mais convicto, portanto, de que, enquanto o Brasil não enfrentar essa questão, não haverá jeito. Os grandes interesses continuarão mantendo os governos contra a parede. Falam tanto que Lula deixa os banqueiros ganharem, mas tentasse ele diminuir-lhes o lucro e seria derrubado em semanas.
As forças armadas ainda são as grandes fiadoras da exclusão social e da concentração de renda no país. Isso por força da cúpula dessas forças. Não se sabe, porém, se as tropas contemporâneas atuariam em consonância com o comando militar...
Esses comandantes já são idosos e oriundos do regime de 1964, em boa maioria. Alguns já estão passando à reserva, outros estão morrendo, mas, enquanto ainda contaminarem as forças armadas, sempre irá pairar a dúvida sobre se poderiam contar com os efetivos militares.
Na Venezuela, por exemplo, durante a tentativa de golpe de 2002 a cúpula das forças armadas estava mancomunada com as tevês Globovisión, RCTV e Venevizión, entre outras, bem como com a Fedecámaras (a Fiesp venezuelana), com os partidos Acción Democrática, Copei e com outros partidos menores e alguns sindicatos.
O que aconteceu foi que as tropas se recusaram a obedecer a ordem do comando militar, o qual acabou preso, e o então presidente da Fedecámaras, Pedro Carmona, fugiu do país para não ser preso também. As tevês, porém, apesar de terem confessado no ar sua participação no golpe quando pensaram que ele tinha dado certo, continuam impunes até hoje.
Por incrível que pareça, a liberdade de imprensa, que deveria ser liberdade de opinião e de pensamento, transformou-se em pretexto para censurar essas liberdades. Hoje no Brasil, por exemplo, cinco mil pessoas saem à rua numa das maiores cidades do país e o direito da população de ter essa informação é sumariamente cassado por concessões públicas que são as tevês.
Uma inimiga política do dono da Folha de São Paulo tem publicada contra ela na primeira página do jornal um documento falso acusando-a de ter cometido crimes e ninguém paga por isso. A maior empresa brasileira, a Petrobras, foi acusada ontem, pela mesma Folha, de ter mandado matar um cidadão que a questionava na Justiça.
A atuação da Folha de São Paulo já virou criminosa faz tempo. Ao lado da Veja, que ainda tem histórico de crimes muito menor, por mais que ainda seja extenso.
Folha e Veja são hoje veículos que produzem notícia. São parte da notícia. E parte do jogo político. Há vários indícios de envolvimento delas ao menos com um criminoso condenado, Daniel Dantas.
No Brasil, portanto, a situação é pior. Além das forças armadas, a cúpula do Judiciário também está contaminada por aliados do mesmo criminoso condenado. O governador paulista tem parentes envolvidos com esse criminoso. Enfim, crime organizado e instituições estão fundidos no Brasil.
Tudo isso me leva a uma opinião: não dá para fazer uma omelete sem quebrar os ovos. Assim, com meias palavras, com meias medidas, será difícil civilizar o Brasil. Já está na hora de elegermos um líder mais forte, mais ousado, mais destemido do que Lula.
Chamem de “populista”, do que quiserem. No resto da América Latina, os povos já estão elegendo líderes dispostos a enfrentar o sistema de opressão e exclusão social desenvolvido por essa casta étnica indo-européia.
E o pior é que estamos falando de grupelhos de descendentes de europeus que enriqueceram à sombra do Estado, sobretudo durante a ditadura militar, e montaram aparatos de comunicação enormes que fazem a diferença na condução dos países latino-americanos. E o fato é que tudo, hoje em dia, está centrado na comunicação.
No Brasil, a única iniciativa na questão da comunicação foi a criação da tevê Brasil e a convocação da tal Conferência Nacional de Comunicação, que, segundo informações recentes, já está meio que dominada pelos grandes grupos midiáticos.
Em minha opinião, o Brasil precisa eleger um líder forte, disposto a enfrentar esse monstrengo político-econômico-étnico-regional-midiático-militar. Poderia ser Dilma Rousseff, sim. Se o Brasil conseguir elegê-la, pode ser que, no poder, ela se mostre mais corajosa do que Lula.
Ou poderia ser um Ciro Gomes, também. A meu ver, ele tem mais o perfil de líder do qual o Brasil precisa. O problema é que não dá mais tempo de construir sua candidatura. Ou dá?
Além disso, o brasileiro tem medo de eleger líderes fortes, brigadores. Está na nossa cultura pacifista. Contudo, pacifista só quando se trata de nos levantar como povo, pois somos um dos países mais violentos do mundo.
Enfim, tudo isto não é nada mais do que um desabafo. Lendo os jornais, vendo os telejornais, percebendo o governo acuado o tempo todo enquanto, nos países vizinhos, os governos tomam a ofensiva, a gente acaba ficando meio “down”.
É que o caminho, no Brasil, é muito mais longo do que nos outros países. Até porque, nossa cultura é a de tentar fazer omeletes sem quebrar os ovos.
Em defesa da Petrobrás
Acabo de conversar com João Antonio Moraes, da FUP, e recebi informações que divulgo abaixo.
Foram marcadas as seguintes manifestações
Hoje (terça-feira) em Natal
Em Curitiba no dia 2/6
Em Brasília no dia 3/6
Em Manaus no dia 11/6.
Em São Paulo, o ato não ocorrerá mais na quinta-feira. Segundo Moraes, as centrais querem que o ato seja “grandioso”. Assim, a data da manifestação na avenida Paulista será fechada na próxima sexta-feira.
Se eu fosse essa entidade sem rosto, sem religião, sem ideologia, sem caráter, sem partido, sem inteligência, sem responsabilidade que chamam de povo, ficaria muito ofendido.
Ninguém respeita o povo.
O povo é burro.
O povo não sabe votar.
O povo é imoral.
O povo é desonesto.
O povo não gosta de trabalhar.
O povo só pensa em Carnaval.
O povo só pensa em futebol.
O povo só pensa mulher pelada.
O povo é porco.
O povo é atrasado.
O povo só sabe fazer filhos.
O povo só gosta de porcaria.
O povo é irresponsável.
O povo é ingênuo.
O povo se ilude.
O povo tem preconceito.
O povo não enxerga.
Coitado do povo. Mentem e ele acredita. Pisoteiam-no e ele aceita. Insultam-no e ele concorda. Roubam-no e ele não vê. Educam-no e ele não aprende.
Com um povo tão ruim, tão ingênuo, tão corrompido, porém, será que este país já não deveria ter afundado?
Desde que nascemos somos ensinados a não gostar de nós mesmos. Os exemplos de como somos inferiores são despejados sobre nós o tempo inteiro há tanto tempo que temos do brasileiro conceito muito pior do que qualquer outro povo tem.
Quem vê o Brasil de fora, exalta.
Admiram nossa comida.
Nossa música.
Nossas mulheres.
Nossa afetuosidade.
Nossa pujança.
Nossas indústrias
Nossas cidades.
Nosso futebol.
Nossas praias.
Nossas montanhas.
Nossas planícies
Nossa fé.
Recusamo-nos a nos ver como um só povo. Nenhum de nós confia no coletivo. Tememos as decisões do povo. Ele é sempre incapaz, previsível, manipulável.
Talvez a resposta a esse misterioso mau conceito que fazemos de nós esteja no tamanho e na diversidade do Brasil. Há vários países dentro de um só. Diferenças abissais nos separam de Norte a Sul, de leste a Oeste.
O povo do Sudeste não entende o do Nordeste que não entende o do Sul que, por sua vez, tampouco entende o do Norte. E vice e versa.
Ao mesmo tempo, quando escolhemos os governos do país geralmente votamos igual de Norte a Sul, de Leste a Oeste, com escassas exceções. Abraçamos as mesmas crenças religiosas em várias e distintas classes sociais e regiões. Gostamos dos mesmos esportes e das mesmas músicas.
São poucos os que se sentem melhor fora do Brasil do que estando nele. E nem esses do topo da pirâmide, quando alardeiam seu apreço por culturas estrangeiras, falam sério, pois, do contrário, não voltariam sempre para cá, sobretudo para contar como foi bom ter ido até lá.
Um dia, o povo acabará se gostando. Quando este país progredir até onde pode, quando estiver civilizado, orgulhar-nos-emos de nós mesmos como fazem os outros povos.
Precisamos, porém, de motivos para gostar de nós. E esses motivos têm aparecido mais, de uns anos para cá. Os que gostam mais do exterior do que daqui dizem que não há tais motivos, mas, no fundo, todos sabem que há.
O Brasil é rico.
Industrializado.
Está vencendo uma crise que faz o mundo se ajoelhar.
E nos trata bem. Em nenhuma outra parte nos tratam tão bem, pois, apesar de este povo ser tão desprezado, ainda é e sempre será o nosso povo. Sejamos mais generosos com ele, pois.
Dêem vosso voto de confiança a este povo, que ele saberá o que fazer quando chegar a hora.
Diante de fatos novos desencadeados a partir da exitosa manifestação das centrais sindicais no Rio e da convocação de ato público para esta quinta-feira, 28 de maio, na avenida Paulista, em São Paulo, tenho um assunto a discutir aqui. A partir de contatos com lideranças sindicais, tenho uma opinião a apresentar.
É evidente e inegável a grande capacidade de mobilização demonstrada pelas centrais sindicais, sobretudo por aquelas entidades ligadas diretamente à própria Petrobrás, como a FUP (Federação Única dos Petroleiros), a CUT e outros.
Nesse contexto, analisando os boletins da oposição tucana, boletins que quem divulga hoje em primeira mão é sempre o jornal Folha de São Paulo, podemos concluir que a CPI da Petrobrás já foi reconhecida por José Serra como um tiro no pé dado por essa oposição.
Leiam, abaixo, o que diz o colunista Fernando de Barros e Silva, do jornal supra mencionado, em sua edição desta segunda-feira, no texto intitulado “A Petrobrás é nossa”.
Não se deve esperar muito da CPI da Petrobras. Isso só não vale para a turma do PMDB, que já vislumbrou nela mais uma oportunidade de furar o fundo do poço da moralidade.
A investigação pouco promete, mas não por falta de assunto. O noticiário exibe uma profusão de coisas obscuras, ou claras demais, à espera de análise séria. Mas seriedade é o que falta hoje ao Congresso.
Não é só o ambiente rebaixado da Casa que contamina e desmoraliza a CPI antes mesmo de seu início. Nos últimos dez dias, desde que o Senado aprovou o requerimento, houve uma inversão de papéis: a oposição foi acuada e age como se estivesse intimidada diante do governo. Só está faltando vir a público se desculpar pelos transtornos causados a Lula e ao PT.
A pusilanimidade da tucanada deixou o Planalto à vontade para montar uma operação de guerra a fim de blindar a galinha dos ovos de ouro. Ministros se juntaram em coro ao próprio Lula para dizer que a CPI é um crime de lesa-pátria. Sindicalistas, petistas e barnabés abraçaram o prédio da empresa no Rio, gritando palavras de ordem contra sua privatização -algo que não está absolutamente em jogo.
O terrorismo retórico orquestrado pelo Planalto tem duas faces: de um lado, recorre ao jargão empresarial para sugerir que os negócios da Petrobras serão afetados; de outro, apela ao sentimento nacionalista, numa espécie de evocação do fantasma de Getúlio Vargas.
Eis, nessa mistura de rendição às razões do mercado com arremedo de getulismo, uma imagem sintética e fiel do governo Lula.
Mas o varguismo mimetizado pelo PT não se limita à reciclagem do bordão "o petróleo é nosso". Não é só uma questão de imaginário, mas também de método. A verdadeira inspiração getulista do segundo mandato está materializada na máquina de propaganda oficial, sob os cuidados de Franklin Martins. A reação à CPI é só um aviso do que ela é capaz contra os que se atrevem a atazanar a vida do comissariado.
É inacreditável como todos eles dizem a mesma coisa, como estão integrados. Ontem, de Reinaldo Azevedo a Ricardo Noblat todos entoaram a mesma ladainha. Fica difícil não notar que obedecem todos a uma mesma voz de comando, que lhes dita o que devem dizer.
Mas eles têm razão numa coisa: o governo Lula mostrou os dentes, deu-lhes a dica de que, se acham que vão nadar de braçada, estão muito enganados. De que haverá quem se levante contra eles, sim.
Conversei, nesta segunda-feira, com membros da coordenação dos atos públicos das centrais sindicais e, em minha opinião, é hora de somar, não de dividir. As centrais demonstram um plano de ação que tem avançado com velocidade surpreendente. Sabem o que estão fazendo. Têm estrutura, recursos financeiros, enfim, tudo que o MSM não tem.
Diante disso, o melhor que acho que o Movimento dos Sem Mídia pode fazer, agora, é não atrapalhar e inclusive tentar ajudar a mobilizar as pessoas para esse ato.
Por outro lado, também levarei aos organizadores desses atos a proposta de que é preciso reagir contra essa história de que essa movimentação da sociedade organizada tem ligação com financiamentos da Petrobrás a ONGs, a sindicatos e a movimentos sociais.
Estamos numa situação em que a mídia assumiu definitivamente o discurso da oposição. Deixá-la continuar posando como relatadora isenta dos fatos chega a ser de uma ingenuidade atroz. É hora, aliás, de ir para cima dessa mídia, de dizer à sociedade que ela participa das tramóias para privatizar a Petrobrás, e se ninguém mais fizer isso o MSM fará, até porque as tramóias midiáticas são seu foco de atuação.
De uma forma ou de outra, cuidando do imediato, quero aqui propor a vocês, em nome do Movimento dos Sem Mídia, que todos aqueles que têm apoiado nosso Movimento em seus atos públicos, essas pessoas continuarão apoiando se comparecerem ao ato em defesa da Petrobrás que acontecerá na avenida paulista na próxima quinta-feira.
Ainda hoje deverei dar mais detalhes sobre local e hora do ato. Deve haver até alguma coisa já por aí... Como já disse, hoje cedo estive em contato com uma liderança sindical e fui informado de que as centrais estavam reunidas naquele momento discutindo os detalhes finais da manifestação.
O importante, porém, é sabermos que haverá esse ato em São Paulo, em que dia haverá o ato e em que parte de São Paulo ele ocorrerá. E saber, acima de tudo, que quem puder fazer esse esforço de comparecer, por certo estará dando conseqüência à sua discordância do que estão tentando fazer com o país.
Penso que esses atos dessas centrais e movimentos sociais chegam num momento importante, e todos os que querem impedir que interrompam o processo de franco desenvolvimento econômico e social que vive o país deveriam aderir como pudessem e com seu melhor esforço.
Vamos nos manifestar, então, na avenida Paulista, meus caros. Vamos dar conseqüência à nossa opinião e ao nosso inconformismo. Vamos, finalmente, fazer-nos ouvir por muitos. Quebremos a censura que a mídia nos impõe, escondendo a indignação de nós, cidadãos comuns, que mesmo não estando organizados como os sindicatos e os movimentos sociais adotamos esta iniciativa que é o Movimento dos Sem Mídia para fazer a nossa parte.
Eles poderão distorcer ou esconder de novo o que será feito. Em algumas tevês e jornais, provavelmente na maioria da mídia, haverá censura. Mas haverá também veículos que furem o bloqueio, como a Record fez durante o ato no Rio.
Além disso, aqueles que estiverem na avenida Paulista naquela hora – e que serão milhares e milhares, muitos mais do que no Rio – verão que a mídia está ocultando notícias da população. No Rio, muita gente já comenta que a Globo escondeu o ato em defesa da Petrobrás e questiona por que a emissora fez isso.
Como sempre prego aqui, temos que ter foco e união. Então, todos à Paulista na quinta-feira. Eu e o megafone do Movimento dos Sem Mídia certamente estaremos lá, prontos a aderir e a apoiar a mobilização em defesa da maior e mais importante empresa brasileira, empresa da qual nós, brasileiros, detemos o controle acionário.
Vocês devem – ou deveriam – estar pela tampa com a imprensa golpista do eixo São Paulo-Rio com essa história que ela não pára de masturbar sobre o “risco à democracia” que estaria contido na intenção supostamente oculta de Lula de fazer aprovar de alguma maneira no Congresso (via PEC) proposta que lhe permita conseguir um terceiro mandato para si.
Apesar das reiteradas negativas do presidente, a imprensa não se satisfaz. Acha que é pouco ele dizer que não disputará terceiro mandato nenhum. Não diz claramente o que ele deveria fazer, mas explica uma vez e outra e mais outra quão danoso seria para a democracia mudar as regras do jogo com este em andamento, ou seja, permitir que um presidente altere a Constituição para poder disputar um novo mandato.
Essa ojeriza da imprensa a mudança constitucional que permita a um governante disputar mandatos consecutivos nas urnas também se manifestou estrepitosamente durante o processo recentemente ocorrido na Venezuela, no qual o presidente Hugo Chávez conseguiu o direito de disputar novas reeleições.
Atado a esta maldita memória que me tortura, porém, sou tomado de acessos de gastrite cada vez que leio ou escuto os empregadinhos das famílias Marinho, Frias, Civita e Mesquita – bem como seus penduricalhos no resto da mídia – vituperarem contra mudança das regras do jogo com ele em andamento. Sofro o diabo com essa conversa fiada.
Sabem por que? É que me lembro do que essa mesma mídia dizia à época em que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso mudou a Constituição – inclusive por meio de compra de votos de deputados para votarem com o governo – a fim de poder se candidatar à reeleição.
Jornais como Folha de São Paulo, O Estado de São Paulo e O Globo, entre outros, defendiam apaixonadamente a possibilidade de FHC recandidatar-se sob a mesma mudança das regras do jogo que agora esses veículos dizem ser “atentado à democracia”. E a justificativa era a vontade popular, que agora esses órgãos de imprensa dizem que não importa e que não mais justifica mudança constitucional.
Em 5 de janeiro de 1996, por exemplo, editorial da Folha intitulado“Reeleição Popular” propugnava nesse sentido. Vejam, abaixo, que “gracinha”.
“O apoio de três em cada quatro brasileiros à possibilidade da reeleição para o próximo presidente e futuros governadores e prefeitos mostra que a população vê com bons olhos a chance de renovar os mandatos que vem a se mostrar bons governantes. (...)
O argumento de que a reeleição ensejaria o uso eleitoral da máquina administrativa pelo mandatário – o candidato parece engajado. Afinal, esquece ingenuamente que a ‘máquina’ pode ser igualmente utilizada – como lamentavelmente ocorre amiúde – em prol do candidato de situação, mesmo que não seja ele o mandatário.
Uma eventual emenda de reeleição, ademais, evidentemente não muda a lei para manter um governante. Ela apenas permite que ele se recandidate. Entre a candidatura e a renovação do mandato estará sempre o democrático e o inquestionável veredicto das urnas.”
Hoje, a mesma Folha de São Paulo não quer nem ouvir falar em projetos de lei sobre a realização de um plebiscito para perguntar ao povo se Lula pode ou não disputar um terceiro mandato, mas quando quem governava era FHC e era ele quem desejava mudar a Constituição para poder disputar um novo mandato, o jornal tinha outra opinião.
Leiam, abaixo, trecho do editorial da Folha de 9 de janeiro de 1997 intitulado, mui adequadamente, como “Casuísmo explícito”. Mas só leiam se tiverem estômago forte.
“Esta Folha há muito considera justo o direito de os governantes, inclusive os atuais, disputarem a reeleição. Mas a abrangência da questão, a total ausência de debates esclarecedores e a clara manipulação do tema, visando benefícios meramente eleitorais, tornam cada vez mais indispensáveis que o assunto venha a ser examinado em fóruns amplos e, em seguida, apreciado em plebiscito nacional”
Já o jornal carioca O Globo não queria perder muito tempo com o assunto. Em editorial de 26 de janeiro de 1997 intitulado “O preço da demora”, pedia que se aprovasse logo a emenda da reeleição de FHC para não atrapalhar seu magnífico projeto de nação, que dois anos depois quebraria de novo o Brasil e o faria peregrinar pelos organismos multilaterais de pires na mão.
Leiam e chorem.
“(...). Para essas mudanças são fundamentais as reformas estruturais em andamento: delas dependem a revisão da ação do Estado, enquanto os mecanismos de mercado se tornam cada vez mais presentes no cotidiano dos brasileiros.
Tudo isso está suspenso, enquanto se debate a emenda da reeleição. Trata-se de uma questão política duplamente importante do ponto de vista econômico. Por um lado, a aprovação do direito de reeleição na prática significa a ampliação do horizonte das reformas; por outro lado, é um problemas que deve ser resolvido com rapidez, para que a classe política, o Executivo e o Congresso voltem a se concentrar na agenda das reformas.”
Como vocês vêem, a mídia só engana os desmemoriados, pois o passado dela a condena. Infelizmente, porém, desmemoriados, ao menos no Brasil, costumam ser maioria. E aqueles que, como eu, têm memória, que se danem.
Ontem e hoje
Vocês leram, no primeiro editorial da Folha reproduzido acima, o que o jornal achava ontem de mudar a constituição para que o presidente de turno possa disputar a reeleição. A Folha apoiava, como todo o resto da mídia. Dizia ser direito da população reeleger umgoverno do qual estava gostando etc. Agora, o discurso mudou, porque mudou a corrente político-ideológica que governa.
Vale a pena ler, abaixo, editorial recente da Folha, do último dia 22, curiosamente intitulado “casuímo sem fim”, que mostra como o jornal muda de opinião sempre de acordo com a própria conveniência, o que mostra como essa gente não tem um pingo de seriedade, sendo apenas um bando de gangsters, de mercenários pagos para defender interesses de grupos políticos e econômicos.
“(...) Retomam-se as especulações e as iniciativas em torno de uma terceira candidatura consecutiva para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (...) Mas a confirmação dos índices de popularidade de um presidente, que referendos desse tipo tendem a refletir, em nada se confunde com a prática institucional de qualquer democracia digna desse nome.
Trata-se de assegurar um mínimo de alternância no poder, de respeitar as regras básicas do jogo político e de evitar que ele se torne refém da figura providencial de líderes personalistas. (...)
Se há muito a aprimorar no sistema político brasileiro, certamente o calendário sucessório e o dispositivo da reeleição não fazem parte do que interessa discutir. Que se cogite de mudá-los, conforme a conveniência deste ou daquele político, é um sinal de imaturidade que não condiz com o estado já alcançado pelas instituições do país, mais de 20 anos após a Carta democrática.”
Comentário :
Precisamos espalhar este texto. As pessoas precisam saber que, ontem, essa mesma mídia que hoje repudia mudar a Constituição de forma que Lula possa se submeter a escrutínio da vontade popular, defendeu processo idêntico em 1997 porque o beneficiário era FHC, o qual apoiava e apóia.
Ajudem-me a espalhar este post por onde puderem. Imprimam e levem uma cópia com vocês por aí. Quando ouvirem alguém falando que o jornal A ou B está denunciando que Lula quer violar a democracia, blabblablá, etc e tal, tirem o papel do bolso e ponham o burro no seu lugar.