Crônica política

Serra presidente (trailer)

 

 Atualizado às 14h55m de 8 de agosto de 2009 

 

 

 

 

Este post servirá àqueles que ainda não tenham entendido – e que queiram entender – quão nefasto poderia ser um governo nacional presidido por José Serra em termos de fiscalização e de cobranças da sociedade, o que conferiria a tal governo todas as condições para se tornar mais um dos muitos que o Brasil já teve que maltrataram sem dó a maioria de seu povo.

Sempre digo que a grande vantagem de este país ter elegido Lula seu presidente é a de que seu governo foi o mais cobrado e investigado que já vi em meus 49 anos de vida. Aliás, acho até que boa parte dos feitos mundialmente reconhecidos deste governo se deve à fiscalização e à cobrança exageradas e até fanáticas que sofreu desde seu primeiro minuto de existência.

A liderança da oposição vem sendo exercida pela imprensa desde 2003. Ao menos no Brasil, a cobrança e a fiscalização do governo Lula por ela tem sido alguma coisa que tampouco jamais vi em minha vida.

Não que eu ache necessariamente ruim até a fiscalização exagerada e fanática da imprensa ao governo Lula, que lhe nega qualquer mérito e transforma em escândalo qualquer deslize, quando não inventa deslizes. Se esse tratamento fosse para todos, inclusive para Serra – caso se elegesse presidente da República –, este país melhoraria muito e em pouco tempo.

Reportagens do telejornal mais visto do país, porém, mostram que, no caso de Serra ser eleito presidente, terá suas medidas apoiadas e sua fiscalização atenuada a um ponto que o converterá numa verdadeira ditadura imune ao controle da sociedade.

As longas reportagens laudatórias à nova lei que regulamenta o fumo no Estado de São Paulo – reportagens que, via de regra, praticamente enterraram qualquer discordância (e há muitas) da lei e tacharam os fumantes, no mínimo, como fracos de caráter – invadiram todos os grandes jornais e os telejornais, sem falar em todo o resto dos grandes veículos de mídia.

Fizeram até “contagem regressiva” para a lei entrar em vigor e impuseram o assunto ao país inteiro. Nunca tinha visto uma política pública de um governo estadual ser martelada durante tanto tempo, ganhado tanta repercussão como foi a lei paulista sobre o fumo que acaba de entrar em vigor. No fim, no principal telejornal do país, em horário nobre, a pièce de résistance da adulação global, na forma de pronunciamento de auto-promoção feito pelo próprio Serra.

O vídeo abaixo (do Jornal Nacional da última sexta-feira) mostra tudo isso.

 

 

Em contrapartida, o mesmo Jornal Nacional teve que tratar também de um escândalo que já começa a crescer descontroladamente no exterior, mas que, no Brasil, é sempre tratado com afazia pela imprensa e só é comentado por ela quando não tem jeito mesmo.

Trata-se do escândalo Alstom, do pagamento de propinas da multinacional aos governos de São Paulo desde a gestão Mário Covas até, no mínimo, a gestão Alckmin, apesar de haver no governo Serra pessoas envolvidas nesse escândalo, e sem que a imprensa cobre uma única vez o governador paulista por manter essas pessoas no governo.

Abaixo, o segundo vídeo que complementa este trailer do que seria uma Presidência da República exercida por Serra.

 

 

Como se vê, a reportagem fala uma única vez, entre dentes, o nome do partido envolvido, poupa o governo Alckmin, jogando toda culpa no defunto Mário Covas, e ignora que tem gente no governo Serra envolvida nesse escândalo. Sem falar de contratos suspeitos vigendo, etc.

Portanto, se você quiser ter um governo que poderá roubar, impor políticas abusivas ou polêmicas sem questionamento e ser tão incompetente quanto consiga sem ser criticado por ninguém ao menos na grande imprensa – parte da qual funciona sob concessão pública –, vote em Serra no ano que vem. E depois não reclame.

 

 

Minha posição sobre Marina Silva

 

 

Marina Silva é uma das pessoas públicas mais sérias deste país. Gostei muito das respostas dela à belíssma repórter da Carta Capital Phydia de Athayde - jornalista à qual, inclusive, dei uma entrevista no ano passado, relativa a reportagem que Phydia fez sobre a blogosfera - em reportagem da revista reproduzida pelo sempre imperdível site de Luiz Carlos Azenha.

A única coisa que atrapalha Marina é o partido pelo qual dizem que ela se candidataria. Se optasse por um partido de verdade em vez do Partido Verde, agremiação que não constituísse hoje mais do que mera linha auxiliar dos moribundos neocons tupiniquins (PSDB e PFL), até consideraria meu voto nela.

Não que eu não goste de Dilma. Acho uma mulher de valor, competente e preparada. Todavia, penso o mesmo de Marina Silva.

Aliás, seria uma opção por um menor apego à "realpolitik" como o do governo Lula, que gera discordâncias muitas vezes fundamentadas, ainda que algumas sejam absolutamente injustas.

Agora, ouvi um boato de que Marina poderia sair como vice de José Serra. Tal hipótese, se virasse fato, seria não apenas um erro político fatal da senadora petista, mas a virtual destruição de sua biografia.

Não acredito nisso. Ao olhar Marina nos olhos, vejo uma mulher de valor, com cada um dos predicados necessários para liderar o país depois de nada mais, nada menos do que de um estadista como Lula. Mas é claro que eu, como qualquer ser humano, já me enganei antes sobre caracteres de pessoas. Redondamente.



 Escrito por Eduardo Guimarães às 13h08
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Crõnica

Começou com o cigarro

 

 

 

 

 

 

Tudo começou com a decisão do Estado de proibir que pessoas fumassem em qualquer lugar que não fosse a rua ou as suas próprias casas. Entendeu-se que aqueles que não fumavam não eram obrigados a respirar a fumaça dos que fumavam.

Sob essa premissa, mesmo que se tratasse de local aberto, não sendo a via pública ou a residência do indivíduo, ele não poderia fumar.

O primeiro passo talvez nem tenha sido esse. Foi quando decidiram que as pessoas não poderiam fumar também na via pública que acho que foi dado o fatídico passo que nos separava do horror que sobreveio.

Não foi pelo desvio da atenção do problema que realmente importava, que era a permissão tácita do Estado para que se fumasse crack na Cracolândia enquanto se proibia o uso de tabaco nos shoppings. Esse foi um efeito colateral.

O grande passo fatal foi dado ao proibirem que um cidadão acendesse seu cigarro na rua...

Os programas policialescos na tevê passaram a mostrar pessoas sendo presas por espargirem sua fumaça pecaminosa em lugares por onde passariam outras que não cometiam o ato destruidor de caracteres que era fumar. Os fumantes já não conseguiam nem emprego.

Já o segundo passo, foi o entendimento da sociedade de que tudo que um fazia e que incomodava a outros deveria ser banido e criminalizado.

O terceiro passo, até então foi o mais grave de todos. Passaram a considerar que contatos físicos “com fins sexuais” agrediam as outras pessoas. O beijo “de língua” ou “francês”, ou melhor, aquele “amasso” bem dado, ocorrendo num ônibus, por exemplo, penalizava as partes, sobretudo se não fosse um casal de um homem e uma mulher.

Os gordos foram o quarto passo. Num ônibus ou avião, ninguém era obrigado a ficar espremido durante toda a viagem por conta de o outro ao lado ter dimensões corporais “exageradas” que invadissem seu espaço. Acima de determinado peso, portanto, decidiu-se que a pessoa seria obrigada a comprar duas passagens.

Todavia, como no transporte público, por exemplo, não adiantava o sujeito comprar duas passagens porque incomodava do mesmo jeito, obrigaram os gordos a usarem um transporte só para eles, com assentos maiores.

Quando disseram que era segregação, responderam que os gordos tinham transporte de melhor qualidade e tão ou mais freqüente do que o transporte público para pessoas ditas “normais”. Nada disseram sobre gordos serem considerados “anormais”.

Claro que os hospitais públicos passaram a não atender gratuitamente fumantes e gordos (estes, caso não provassem que tentaram emagrecer) se estivessem sofrendo de doenças ligadas ao fumo ou à obesidade.

Depois, decidiram que os pais também responderiam pelos crimes de filhos menores de idade, pouco importando se se tratasse do filho de um milionário ou de um miserável favelado. A lei, afinal, era “para todos”.

Em seguida, inventaram que, para o cidadão tirar o título de eleitor, teria que ter um mínimo de conhecimento sobre o que fosse política, pois eleitor desinformado prejudicaria o resto da sociedade, de forma que passaram a exigir uma prova de “conhecimentos políticos” para se tirar o título de eleitor.

Eu concordei com a proibição do cigarro nos restaurantes, nas casas noturnas e até em lugares arejados. E muito mais quando proibiram que se fumasse na rua, porque as bitucas de cigarro e o incômodo aos não-fumantes persistiam.

E me mantive neutro quando vieram as outras proibições. Não era gordo nem me agarrava em público com a minha mulher. Meus filhos jamais delinqüiriam. E sempre fui muito informado sobre política.

O problema é que, agora, estão querendo legislar também sofre a flatulência em lugares fechados (como elevadores), e eu tenho problemas de flatulência. Sobretudo depois de uma bela feijoada.



 Escrito por Eduardo Guimarães às 19h55
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Manifesto

Acorda, PT!

 

Atualizado às 18h21m de 7 de agosto de 2009

 

 

 

 

O vídeo acima é de um comentário de Alexandre Garcia no telejornal da Globo Bom Dia Brasil desta sexta-feira.

Para quem não conseguiu assistir – provavelmente por não ter banda larga para acessar a internet, o que impede a utilização plena desse que é o mais importante e completo meio de comunicação da atualidade –, transcrevo, abaixo, seu conteúdo.

 

Aproveitando as observações do senador Demóstenes Torres, poderia se dizer que quando os senadores olham para cima, não veem apenas muitos telhados de vidro, mas também veem, lá em cima, o fundo do poço.

A cada dia se deteriora mais a situação, confirmando as previsões de que a permanência do senador Sarney na presidência da Casa torna mais incontrolável a catástrofe do Senado, a generalização da falta de decoro. Tanta coisa poderia aproveitar a carona dos contêineres de lixo que estão voltando para a Inglaterra.

Como vimos, se depender do Conselho de Ética, Sarney não deixa a presidência do Senado. Se depender do plenário, se depender do PMDB, se depender do próprio Sarney, ele não sai. Só sai se a pressão pública lhe for insuportável.

Quanto ao apoio do governo, parece estar havendo uma indecisão. O presidente Lula já teria constatado prejuízo para o PT e queda de aprovação pessoal por causa das ligações com Sarney, Collor e Renan.

A propósito, lembrando o que disse Collor na segunda-feira para Pedro Simon, sobre engolir palavras, vale pensar sobre as palavras que disseram, há anos, Sarney, Collor e Lula, uns dos outros. Como será que as digerem agora?

 

Enquanto isso, o que faz o PT? Simplesmente ameaça dar vitória à mídia e à oposição na questão de Sarney.

E a mídia, já faz cerca de uma semana, continua anunciando pesquisas (que ninguém jamais viu) que denotariam queda da aprovação de Lula por apoiar Sarney, conforme previ que aconteceria muito antes de começar a acontecer.

No dia 24 de julho, divulguei no Twitter que recebera informações de que haveria um complô para divulgar pesquisas de opinião falsificadas que denotariam o que vai no parágrafo anterior.

O complô envolveria o Ibope (Carlos Augusto Montenegro, que surge na cena política agora depois de prever que Serra será o novo presidente), o Datafolha (Frias e seu jornal), a Globo, o Estadão, a Veja, FHC e Serra, primordialmente.

Enquanto isso, o senador acreano Tião Vianna e o paulista Aloizio Mercadante têm criado embaraços para o governo, feito o jogo da mídia, e justo no momento em que ela realiza a que talvez seja sua maior ofensiva contra Lula desde o mensalão.

É por essas e por outras que anuncio aqui que, se o PT permitir a queda de Sarney, pode esquecer meu voto nas eleições do ano que vem. Não votarei num partido que ajuda a sabotar o governo que apóio.

 

#AcordaPT

 

Ajude a difundir a tag #AcordaPT no Twitter (clique aqui ) e pela blogosfera (usando o link deste post).

 

Se só o que interessa é a matemática

 

O PT vem demonstrando que se reduziu a fazer cálculos políticos que lhe resultem em menores danos ao assumir posições.

Quando titubeia na questão de Sarney, no entanto, deveria entender que ajudar a oposição a sabotar o governo Lula no Senado lhe pesará mais do que apoiar o político que sustentou o partido nestes anos todos.

Os que exigem a cabeça de Sarney não são eleitores do PT nem de Lula. Se o PT fizer o que exigem, continuarão não sendo eleitores do partido, somente.

Em contrapartida, os eleitores do PT, calados e esbofeteados pela mídia, que censura suas opiniões de que o que estão fazendo no Senado é tentar sabotar o final deste governo, certamente não perdoarão o partido.

Se só o que interessa ao PT é a matemática eleitoral, o partido está mal na matéria.

 



 Escrito por Eduardo Guimarães às 11h46
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Crônica política

Eles perderam o juízo

 

 

 

 

 

 

A nota que você acaba de ler acima mostra que os barões da mídia enlouqueceram de vez. O mesmo Carlos Augusto Montenegro que há várias semanas disse que Serra já estaria eleito presidente da República (a eleição acontece no ano que vem), agora entra de cabeça na política.

Ele não é um colunista (ou “colonista”, como prefere Paulo Henrique Amorim) ou um blogueiro qualquer. É presidente de um dos mais famosos institutos de pesquisa de opinião pública do país. Qualquer sombra de parcialidade de sua parte é uma catástrofe – para ele e seu instituto.

Repito: na boca de Montenegro, qualquer opinião política, pró ou contra este ou aquele político ou partido, deveria descredenciar seu autor. Aliás, a mínima relação dele com políticos já seria um fator de comprometimento.

E o que Montenegro me faz? Entra de cabeça na política, com declarações inverossímeis, facciosas e, assim, absolutamente incompatíveis com o dirigente de uma instituição que vive do reconhecimento de sua isenção.

Ficou todo mundo louco, na mídia. Quanto mais grosseiras são suas tentativas de vender os interesses de políticos ideologicamente alinhados com ela, mais ela cria outras “estratégias” da mesmíssima natureza.

Enquanto isso, todos os grandes meios de comunicação tomaram partido abertamente na disputa no Senado. Todos os dias atacam Lula de alguma maneira. Discordâncias dessas opiniões praticamente sumiram naqueles meios. A mesmíssima estratégia de 2005, 2006, 2007 e 2008. É incrível.

Claro que não se pode nunca querer fazer previsões sobre alguma coisa tão volátil como a opinião pública – e não me refiro à opinião publicada, mas à pública mesmo, àquela que só costuma se manifestar politicamente nas eleições. Contudo, para haver essa guinada seria preciso que houvesse um motivo.

A opinião pública (a verdadeira) não tem motivos para dar guinada alguma. Está vendo o país passar pela crise à francesa e já se distanciar dela. O real forte recomeça a financiar o consumo. A inflação e os juros em queda livre. Mudar para que?

Daí o desespero do tudo ou nada...

Agora, transformar o presidente de um instituto de pesquisas sobre política em ator político? Será que essa gente enlouqueceu de vez?



 Escrito por Eduardo Guimarães às 00h24
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Análise política

“Recortes de jornal”

 

 

 

 

 

 

Quem não assistiu à defesa do senador José Sarney no plenário do Senado e à deliberação do presidente do Conselho de Ética da Casa, senador Paulo Duque (PMDB-RJ), ontem, terá maior dificuldade para entender o que relatarei a seguir.

Mesmo entre aqueles que assistiram, talvez alguns não tenham conseguido assimilar completamente o importante passo que foi dado por aquela Casa no sentido de impedir a manutenção de um poder da imprensa que a sociedade não pode aceitar que seja delegado a um grupo social tão restrito.

Durante os últimos anos, um esquema político poderoso se assenhorou de uma prerrogativa que, nas democracias, só pode ser concedida ao eleitorado, ou seja, a prerrogativa de eleger ou derrubar políticos e de, através de pressão diária e sufocante, alterar, de forma antidemocrática, o controle de instâncias do Poder de Estado, seja no Legislativo ou no Executivo.

Só para ficarmos no Poder Legislativo, nos últimos anos a imprensa conseguiu derrubar presidentes das duas casas do Congresso até com relativa facilidade. Mas tal demonstração de poder midiático abrangeu até o Poder Judiciário (vide o caso da “faca no pescoço” do STF para aceitar a denúncia do MPF contra os envolvidos no “mensalão”).

Ontem, o senador carioca Paulo Duque, presidente do Conselho de Ética do Senado, leu – e também fez com que lessem por ele – as decisões que tomou de arquivar quatro das onze representações de partidos e de senadores contra Sarney. E foi um show.

Em todas as representações que analisou, o autor repetiu e repetiu à exaustão que elas se basearam meramente em “recortes de jornal” ou em “notícias de jornal” sem maiores fundamentações probatórias ou simples indicação de fatos detalhados, bem como em outros procedimentos ineptos que buscariam produzir factóides que, por sua vez, visariam favorecer a grupos políticos nas eleições do ano que vem.  

Aliado à defesa veemente que Sarney fez de si mesmo na tribuna do Senado, esse fato mostra a tomada de decisão de boa parte da classe política de não conceder mais à imprensa um poder dessa magnitude, um poder que, nas palavras do senador Duque, se fosse concedido a ela obrigaria a instituição a se embrenhar num tortuoso e permanente processo de caça às bruxas.

A imprensa brasileira sempre demonizou “os políticos” por essa exclusiva razão, para poder, depois – ou na hora “certa” –, ungir alguns e amaldiçoar a outros.

É por isso, também, que o país se manteve atrasado por tanto tempo, pois a classe política acabou se tornando refém de meios de comunicação que, a partir de determinado porte, passam a ter poder para fazer prevalecer interesses de exíguos grupos sociais e econômicos ao usurparem o papel de intérpretes “da opinião pública”.

Essa situação não deixa de ser lamentável. Até pelo desprestígio da imprensa que estamos vendo ocorrer. A credibilidade dela, em boa medida, é necessária. Sobretudo se um dia a sociedade tiver que enfrentar (toc, toc, toc) um governo autoritário, por exemplo.  

Em suma: é danoso para a democracia a banalização da denúncia e a conseqüente confusão que a sociedade acaba fazendo sobre os políticos ao achar que são todos iguais, pois fica-se nessas acusações de parte a parte e a imprensa, excedendo-se na defesa de uns e nas críticas histéricas a outros, mostra até ao mais ingênuo que ela mesma tem interesses naquela disputa.

As demonstrações explícitas de partidarismo da imprensa já se revelam notadas apesar da dissimulação inútil e malfeita dos que as praticam. Em uma Globo, por exemplo, o mais ingênuo pode notar os apresentadores de telejornais ou de programas de análise política virarem como que advogados da mesma oposição que elegeu Sarney presidente do Senado há alguns meses e que só agora foi descobrir que ele não presta.

Porém, de alguma forma, pode ser que esse processo de fulanização da culpa pelos tais atos secretos na pessoa de José Sarney acabe se voltando contra quem o desencadeou.

Até agora, a imprensa mantinha o poder de derrubar presidentes das Casas do Congresso, como fez com Severino Cavalcanti ou com Renan Calheiros. É esse poder que o Senado está retirando dela ao desobedecê-la não degolando Sarney.

Nos próximos anos, portanto, veremos quão freqüente se tornará o uso da expressão “recortes de jornal”. Para o bem e, também, para o mal.



 Escrito por Eduardo Guimarães às 00h05
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Análise política

O escândalo da merenda

 

 

 

 

 

Surgiu um escândalo com potencial para agitar a política nacional no ano que vem. E, por razões que logo ficarão claras, surgiu na imprensa ligada ao governo paulista. 

Houve anúncio repentino de reviravolta numa investigação do Ministério Público Estadual que, até aqui, vinha sendo mantida em sigilo por essa imprensa, tendo repercussão apenas na blogosfera e na tevê Record.

Em 5 de fevereiro deste ano, aquela emissora divulgou no Jornal da Record matéria dando conta de ameaça alimentar contra os estudantes do ensino fundamental nas escolas da prefeitura paulista. Segundo aquela notícia, as investigações e as denúncias de país, professores e alunos restringiam-se àquele momento, às duas últimas administrações (Kassab e Serra).

Se você não puder assistir ao vídeo acima (contendo a denúncia do Jornal da Record) será uma pena, mas pode ter algumas informações sobre o caso clicando aqui.

Mas, nesta quarta-feira, na Folha de São Paulo, o assunto tomou outros rumos. Segundo a reportagem, a prefeita Marta Suplicy foi citada na ação do MPE. O esquema de propinas pagas por empresas fornecedoras da merenda de baixa qualidade para as crianças da rede pública paulistana teria começado na gestão da ex-prefeita.

Apesar de fazer denúncias que condenam as gestões de José Serra e de Marta Suplicy (o inquérito cita dois ex-prefeitos que lidaram com a merenda escolar privatizada e só há dois nessa condição – Marta e Serra), o MPE não cita o ex-prefeito tucano.

Some-se a isso que não se sabe de uma só acusação de baixa qualidade da merenda durante a gestão Marta, enquanto que, contra a gestão Kassab, há até reportagem da Record mostrando a baixa qualidade do que estava sendo servido às crianças (assista ao vídeo acima). Além disso, jamais o MPE  questionou a merenda durante a gestão Marta, mas questionou várias vezes – antes de abrir a ação – durante a gestão Kassab.

A ação em pauta terá seguimento na Justiça – ao menos é o que aparenta. Parece lógico prever manobras no altamente politizado MP paulista, que jamais incomodou governos tucanos e que é um dos paradigmas da dominação do PSDB sobre as instituições de São Paulo.

Contudo, se o MPE insistir na ação, os fatos falarão por si, pois a situação em São Paulo é escandalosa. Se uma CPI for aberta – a base de Kassab tem bloqueado CPIs sobre o assunto na Câmara Municipal –, o prejuízo ao prefeito não será só para ele, mas, sobretudo, para Serra, que estará em plena campanha presidencial.

Mesmo que Marta fosse envolvida – e acho que a inclusão dela na ação foi apenas uma forma de tornar “palatável” a aceitação da denúncia –, ela não será candidata a nada mais do que deputada federal no ano que vem, se chegar a se candidatar a alguma coisa.

Claro que a mídia tentaria ligar Marta a Dilma e a Lula, mas, em compensação, Serra seria um dos próprios investigados. E, contra ele, há bastante o que investigar, segundo diz a própria denúncia do MP tucano. Deve haver mesmo, portanto.



 Escrito por Eduardo Guimarães às 10h16
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Crônica política

Collor sabe

 

 

 

 

 

 

As palavras do primeiro presidente legitimamente eleito depois da ditadura militar (que renunciou ao mandato para não ser cassado), Fernando Collor de Mello, na segunda-feira, no Senado, contêm uma lição que essas forças políticas que imaginam que o caminho que estão tomando as levará a algum lugar fazem questão de não aprender.

Collor soltou alguns aperitivos de tudo que esse verdadeiro arquivo vivo das relações de bastidores do poder com a mídia tem para revelar. Afinal, ele já foi um dos ungidos pelos barões midiáticos – quando enfrentou Lula nas urnas, em 1989. Muito foi aprendido ali.

Não me deixo enganar pelo que Collor está pretendendo. Ele sabe muito bem do inconformismo crescente da sociedade com as manipulações grosseiras da mídia. Sabe que esse setor social pode resgatar sua imagem.

A mim não resgata. Não acredito que este Collor seja tão melhor do que aquele que foi um dia. Faltam-me provas. O que vejo é que o ex-caçador de marajás decidiu uma manobra que não tem por que temer, pois ninguém neste país conseguirá condená-lo pelas acusações que lhe foram feitas, até porque muitas vestais midiáticas acostaram-se com ele um dia, trocando segredos de “alcova”.

Contudo, Collor tem, sim, instrumentos para se redimir dos esquemas dos quais participou. Isso se disser tudo que sabe e se aceitar sua responsabilidade naqueles fatos. Isso se disser, com todas as letras, os detalhes que disse que sabe sobre as relações da mídia com políticos que conjunturalmente ela decide apoiar, mas que, amanhã, poderá converter em alvos.

Sarney, Collor, todos foram muito úteis aos Frias, aos Marinho, aos Civita et caterva. Hoje, não são mais. Amanhã, Serra, FHC, Jereissati e tantos outros que, hoje, por uma eventualidade, estão do lado “certo”, também poderão deixar de ser.

Cada vez mais os políticos estão entendendo isso. E a sociedade, que certamente apoiaria um jornalismo de ética não-seletiva, tampouco apoiará esses meios de comunicação.

Eu, por exemplo, apoiaria vigorosamente a mídia se ela usasse para os bandidos da oposição os mesmos métodos que usa para os da situação, contanto que usasse a denúncia com responsabilidade e não para assassinar reputações de desafetos sem dispor de nada mais do que meras suposições.

Não apóio o que a mídia faz porque faz pela metade ou sem justificativa, e faz só contra políticos que, inocentes ou culpados, sejam de um único lado, poupando aqueles contra os quais pesa tanto quanto pesa contra estes.

Quanto a Collor, ele pode ter feito tudo o que fez, mas nunca conseguiram condená-lo. Foram ineptos, provavelmente. A mídia, inclusive, foi conivente com ele. Mas, pelo que sei, ele pagou pelos seus erros. Talvez não tenha pago tudo que deveria, mas o preço que lhe impuseram sem o amparo correspondente de provas, certamente fez jus ao que se poderia exigir em termos de punição.

Se ele mudou tanto assim? Não sei. Para mim, continua sendo um político no qual jamais votaria, a menos que dissesse tudo que diz que sabe sobre a mídia (25 casos escandalosos) e sobre aqueles que se envolveram na grande farsa que foi sua eleição em 1989.

Contudo, acho um absurdo que todos esses que no mínimo votaram em Collor em 1989 venham agora cobrar de Lula, vítima do ex-presidente e dos que o apoiaram naquele ano, que num evento público despreze um senador legitimamente eleito pelo voto popular.

Se eu fosse Fernando Collor, se tivesse feito tudo que ele fez e tivesse essa oportunidade de me redimir, não pensaria duas vezes. Ele ganharia meu respeito se contasse ao Brasil os detalhes das construções e desconstruções midiáticas de reputações de políticos. Seria de um didatismo inédito na história democrática de nossa jovem nação.



 Escrito por Eduardo Guimarães às 12h27
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Análise política

O salto brasileiro

 

 

 

 

 

 

Depois de assistir ao arranca rabo no Senado e na mídia nesta segunda-feira, concluí que, infelizmente, chegamos a um ponto em que só nos resta o apego, com unhas e dentes, à democracia.

Por mais de seis anos, temos visto os interesses políticos da oposição ao governo Lula tentando dificultar a administração do país. E até agora, justamente num momento em que o país de todos nós luta desesperadamente para resistir à maior crise econômica que o mundo viu em quase um século.

Duvido de que mais do que um grupo social absolutamente minoritário queira que o país vá mal só para beneficiar certos grupos políticos. Duvido de que esse show que a mídia produziu no Legislativo esteja sendo visto pela maioria dos brasileiros como mais do que uma briga que não interessa ao país, que o faz perder tempo e energia com uma cruzada moralista que não levará a lugar nenhum, pois é em benefício de uns sobre os quais pesa tanto quanto pesa sobre outros. E, finalmente, duvido de que a maioria vá achar nos oposicionistas maiores virtudes do que nos situacionistas.

Sarney ou Quércia? Renan Calheiros ou Arthur Virgílio? Collor ou Agripino Maia? Ah, Pedro Simon, é? Aquele que se cala sobre as estripulias de Yeda Crusius em seu Estado enquanto faz cobranças éticas a Sarney? Sei, sei...

O brasileiro está vendo o país ir bem. A sociedade sabe, no fundo, ainda que intuitivamente, que o Brasil está se preparando para dar um salto rumo a um novo patamar social.

Este, porém, ainda é um país em que é necessário fazer um programa social que leve luz elétrica “para todos”. O Brasil ainda precisa dar alguns trocados para que famílias inteiras não corram risco alimentar. E o momento que se avizinha pode nos fazer superar esse estágio ainda rudimentar de nosso desenvolvimento.

Afinal de contas, este país é muito mais do que essa classe média alta indignada que chama programas sociais de “esmola” e que nega o racismo e a falta de oportunidades para a maioria, como a mísera oportunidade de gente do povo simplesmente cursar uma universidade.

O que o brasileiro quer não é esse espetáculo patético que a mídia forja e empurra por sua goela abaixo noite após noite, durante meses a fio, bramindo seu mantra alucinado na vã esperança de estar hipnotizando uma nação já tão calejada por suas promessas caso elegesse seus indicados.  

Queremos dar esse salto adiante. Queremos progredir. Não queremos que o Brasil vá mal só para que políticos representantes de uma elite racial, econômica e regional impeçam a melhor distribuição de oportunidades neste país.

E esta é uma oportunidade única. O Brasil está vivendo uma confluência de fatores positivos poucas vezes vista. Parece que tudo conspira a nosso favor.

A riqueza petrolífera ao alcance de nossas mãos, o desenvolvimento econômico às nossas portas, massas humanas melhorando de classe social, o mercado de trabalho mostrando vigor e reagindo enquanto, no resto do mundo, regride, e a credibilidade e a admiração do mundo diante de nossa diplomacia, de nossas posições políticas...

Mas o fato é que, para que tudo isso, novamente, não seja jogado na lata de lixo da história, é preciso que, desta vez, não se entregue o pais àqueles que lhe dilapidaram as riquezas durante toda a sua história e que, agora, salivam diante das riquezas que o país começa a acumular.

E nem falo apenas de riquezas palpáveis, mas de riquezas tecnológicas, culturais, enfim, da riqueza civilizatória que o Brasil está construindo por força de decisões políticas corretas que tomou mesmo sob o combate cerrado dos que mantiveram este país atrasado e pobre durante tanto tempo.

Assim, para dar esse salto, será preciso que apelemos para o último recurso de um povo, que é a democracia, sistema político em que, independentemente de quem pode falar mais alto, pagar a propaganda mais cara, ocupar todos os espaços mais visíveis para se manifestar, a decisão final sempre caberá à maioria.

Como aconteceu em 2002, em 2006 e como acredito firmemente que acontecerá agora, o brasileiro, consciente do salto que seu país está prestes a dar, terá juízo e não se deixará enganar por aqueles que o enganaram por tantos séculos, até há tão pouco tempo. Por mais alto que gritem, por mais vozes que pensem que calam.



 Escrito por Eduardo Guimarães às 00h05
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Denúncia

Operação Pandemia

 

 

 

 

 

Sensacional esta sugestão do leitor Brivaldo, programador de Recife. Fundamentado. Verossímil. Não deixe de assistir.  



 Escrito por Eduardo Guimarães às 22h58
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Resgate da história nacional

A herança de FHC

 

 

 

 

 

 

Na semana passada, fui e voltei de ônibus ao interior de São Paulo – há anos que deixei de viajar sozinho de carro. Na volta, sentei-me ao lado de um distinto sexagenário com o qual logo entabulei conversa.

Meu interlocutor identificou-se como um dos dois subprefeitos de Araraquara e presidente do PPS naquela cidade. Não tardou, obviamente, para abordarmos a política, porém sem que eu dissesse mais sobre minhas opiniões, pois as dele é que passaram a me interessar, pois não perco chance de deixar essa gente se enredar no próprio discurso.

Deixei que o sujeito desfiasse seu previsível rosário de chavões sobre “corrupção” do governo Lula e, em seguida, passei a lhe fazer provocações sobre a governança do país, perguntando se ele achava que o discurso da “ética” seria capaz, no ano que vem, de desmoralizar um governo que tem apresentado resultados tão exitosos na economia.

Como também era previsível, o sujeito recitou todo o besteirol sobre FHC ser o detentor dos méritos pelos êxitos econômicos do país. Quando perguntado sobre o que fundamentaria tal alegação, falou do “fim” da inflação proporcionado pelo Plano Real, da Lei de Responsabilidade Fiscal e do “saneamento do sistema bancário”, que seriam responsáveis por o Brasil estar resistindo à crise econômica.

Quando lhe perguntei se os problemas do país também eram de responsabilidade do governo anterior ou se a divisão de responsabilidades seria do que é bom para o governo anterior e do que é ruim para este governo, o homem ficou embatucado.

Mas o que surpreendeu mesmo o político – e que constatei que ele não sabia – foi quando lhe expliquei sobre a bobagem que era atribuir ao Proer a responsabilidade pela quase imunidade que o país tem demonstrado diante da crise econômica internacional.

O pepessista, ocupando um cargo político tão importante, surpreendeu-me ao demonstrar não saber por que foi feito o Proer. E nem sabia – ou se lembrava - de que sua implantação começou em 1995.

Por conta daquele episódio, decidi escrever uma série de artigos sobre a herança de FHC que demonstrará o quanto ela dificultou a reordenação da economia brasileira pelo governo Lula.

Comecemos, então, pelo Proer, atualmente vendido pela imprensa oposicionista como responsável maior pela resistência do Brasil à crise.

É absurda a teoria de que um programa de socorro ao sistema bancário brasileiro implantado há quase quinze anos seja responsável por esse sistema estar resistindo hoje à crise financeira internacional.

Em primeiro lugar, há que explicar que o Proer foi criado porque, com a derrubada brutal e brusca da inflação em 1994, desapareceu aquela que então era a maior fonte de receita dos bancos.

As instituições financeiras lucravam abusivamente com a inflação porque não recompensavam a quase totalidade de seus clientes pela perda diária do valor do dinheiro depositado.

Quem tinha dinheiro suficiente para fazer aplicações financeiras numa época em que a inflação chegou a 30% ao mês, perdia menos – porém perdia, pois a remuneração das aplicações era muito inferior à inflação real e ao que era cobrado pelos bancos quando emprestavam dinheiro. A maioria absoluta das pessoas, porém, deixava salários e outras fontes de renda parados em conta corrente.

O sujeito recebia seu salário no início do mês e, a cada dia em que o dinheiro permanecia parado em sua conta corrente, o banco aplicava o valor sem pagar um centavo ao seu dono.

Essa conversa mole sobre FHC ter “saneado” o sistema bancário, portanto, é uma falácia que tenta induzir a sociedade a acreditar que, ao assumir a Presidência, o tucano encontrou um sistema bancário falido. O fato, porém, é que o sistema bancário se viu naquela situação porque o Plano Real foi implantado às pressas por conta das eleições de 1994.

Antes do Real, os bancos lucravam absurdamente, tanto ou mais do que hoje. Mas como se acomodaram com a receita inflacionária e permitiram que ela se transformasse em fonte praticamente única de lucros, com a derrubada da inflação a banca tupiniquim se viu em maus lençóis.

Dali em diante, FHC permitiu aos bancos cobrarem as tarifas extorsivas que cobram até hoje, de forma a compensar a perda de lucratividade com a receita inflacionária.

Não houve “saneamento” algum do sistema bancário e, sim, um programa emergencial – e caro – para corrigir um dos muitos erros que seriam cometidos nos anos seguintes, como a manutenção do real sobrevalorizado até as eleições de 1998, o que constituiu o maior estelionato eleitoral da história brasileira.

Mas essa é outra história, que ficará para os próximos capítulos que escreverei sobre a herança maldita de FHC.



 Escrito por Eduardo Guimarães às 15h11
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