Análise política

Histórica encruzilhada

 Atualizado às 10h58m de 27 de setembro de 2009 


 

 

Exulto de muitas formas por estar vivendo em uma época em que a humanidade chegou a uma encruzilhada de caráter histórico que pode mantê-la no atraso em que foi mantida durante o século XX ou impulsioná-la rumo a uma era de paz e prosperidade sem precedentes.

Essa era poderia ter começado no século passado não fosse o mundo pós Revolução Industrial ter se atirado numa competição insana pelo capital e num hedonismo degenerado. Tais escolhas humanas restringiram os benefícios tecnológicos espantosos que o homem pôde extrair do salto único no conhecimento que havia dado até então.

A humanidade produziu conhecimento para acabar com todas as suas misérias. Hoje, há condições tecnológicas e econômicas para acabar com o sofrimento atroz que vitima parcela absurdamente ampla de nossa espécie.

Só não há vontade, pois persiste a crença de que é possível manter a maioria de nós no século XIX enquanto diminutos contingentes sociais e étnicos desfrutam das delícias do mundo moderno.

O capitalismo atingiu seu grau máximo de perversidade e insensibilidade ao produzir o neoliberalismo e seu desprezo definitivo pelo gênero humano, deformidade intelectual e moral que o embasa e fundamenta.

O neoliberalismo de Ronald Reagan e Margareth Tatcher vendeu ao mundo que era preciso que os pobres sofressem para que atingissem o paraíso capitalista. Viveriam mal por conta de efeitos retardados de um socialismo que parcela ínfima da humanidade havia experimentado de forma incompleta e deformada por injunções políticas. A humanidade caiu no conto dos únicos (e poucos) que em alguma medida seriam prejudicados por experiências socialistas.

A ausência de experiência socialista, pois, é o que impede que a humanidade abrace tal experiência, pois os exemplos de que a doutrina socialista pode ser exitosa só serão produzidos se for tão experimentada quanto foi o capitalismo, o que os detentores do capital jamais permitiram.

A crise econômica internacional que se abateu sobre a humanidade – e muito mais justamente sobre aqueles que acreditavam que eram os beneficiários daquele verdadeiro sistema de organização social deformado – estabeleceu uma espécie de interlúdio que essa mesma humanidade poderá destinar à reflexão.

Outras janelas de oportunidades como esta que se apresenta neste momento surgiram não apenas para o Brasil, mas para a humanidade. Esta, porém, não as aproveitou, enganada por aparatos de propaganda dos interesses das aristocracias e por toda força militar e repressiva que o dinheiro podia comprar.

Politicamente, apesar da esmagadora força econômica e do poder avassalador de comunicação das oligarquias raciais, sociais e regionais que dominam o mundo, governos populares espalham-se por seus quatro cantos.

O processo está em curso também na América Latina, região na qual grupos de comunicação das três Américas, controlados pelos mesmos grupos sociais, étnicos e políticos que sempre deram as cartas, declararam guerra àqueles governantes que vêm promovendo distribuição de renda e redução da pobreza como nenhum de seus antecessores. Mas a guerra já não é tão desigual e não está sendo fácil vencê-los.

No passado, quando não havia jeito, os Estados Unidos vinham em socorro das elites regionais organizando e até influindo em golpes de Estado contra governos populares com projetos distributivistas de renda e de oportunidades. O modelo da nova comunidade internacional, porém, já não aceita mais as quebras institucionais em países “rebeldes”.

É disso que se trata, por exemplo, nessa crise em Honduras. As oligarquias às quais me refiro, valendo-se do velho método de seus aparatos de comunicação e de seus brucutus, já começam a falhar. Não que nunca tivessem falhado, mas agora falham em proporções continentais ou ao menos impondo um preço ao golpismo.

O golpe em Honduras está tendo um alto preço para o país, para a economia e, inclusive, para os mais ricos, que, obviamente, estão percebendo que a ralé oprimida agora pode reagir, a despeito de todo o seu aparato militar, devido à não aceitação, pela comunidade internacional, de rupturas institucionais.

É questão de tempo até que o isolamento dos golpistas hondurenhos surta efeito. Se se comportarem e não fizerem nenhuma tolice como invadir a embaixada do Brasil, continuarão sangrando até que o apoio a eles reflua ao nível em que correrão risco de irem parar num cárcere ou mesmo no cemitério.

Tal equação comporta e exige considerarmos a chegada de Barack Obama ao poder e a impotência que foi se apoderando daquela mentalidade degenerada dos poderosos americanos, que numa exibição de irracionalidade ousaram pôr alguém como George Walker Bush no controle do poder entre os poderes durante o acender das luzes do século XXI.

É óbvio que Obama ainda não fez tudo que se gostaria – e, provavelmente, irá demorar muito a fazer, se é que terá poder para fazer algum dia. Afinal, governar um país esmagado pela maior crise econômica em quase um século reduz bastante o poder de um governante. Mas o mundo reage à crise...

Nesse mundo novo que se desenha, uma grande democracia como a brasileira poderá assumir posição de liderança jamais imaginada para um país como o nosso apesar de previsões da segunda metade do século passado de que ainda seriamos o “país do futuro”.

Enfim, esse futuro chegou e o que a humanidade encontra nele é uma encruzilhada. Se a tênue ruptura na hegemonia das comunicações (a internet) for suficiente, é possível que desta vez tomemos o atalho certo.

O homem pode começar a trilhar o caminho para uma era de paz e prosperidade jamais sonhada. É possível. Acredito piamente que é possível porque dar esse passo de gigante só depende de cada um nós simplesmente também acreditar que pode ser dado.

 

 

Boletim médico de Victoria – 26/09 – 11h54m

 

 

Victoria passou a noite sem febre e, pela manhã, tampouco teve. Suas vias respiratórias amanheceram descongestionadas. Revela sinais de debilidade e de cansaço. Na sexta-feira, apesar de amanhecer nessas condições, à tarde ela teve piora, que durou até o começo da madrugada, depois refluindo. As próximas horas serão importantes.



Boletim médico de Victoria  26/09  23h16m



Victoria passou a tarde de sábado também sem febre, como de madrugada e de manhã. À noite, porém, voltou a ter febre e o peito fechado. Foi a primeira vez que passou tantas horas sem febre.



Boletim médico de Victoria  27/09  10h58m

 


Pelo terceiro dia consecutivo, Victoria passou a madrugada e a manhã sem febre. Ontem (sábado), pela primeira vez passou também a tarde sem febre, que voltou à noite. A expectativa é de que não volte também à noite. De qualquer maneira, recebi a notícia de que o laboratório do hospital isolou o organismo que se instalou no pulmão da criança. Em tese, é questão de tempo para ela se restabelecer.



 Escrito por Eduardo Guimarães às 12h01
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Denúncia

  Tevês e jornais mentem para

  justificar ações de golpistas 

 Atualizado às 18h23m de 25 de setembro de 2009 




Devido à gravidade do que relatarei, interrompi retiro dos temas políticos que me impus nos últimos dias por conta de grave problema de saúde em família. E o que passo a relatar e a denunciar a seguir, constitui ameaça à democracia em todo continente americano. O tema: os conflitos político-institucionais em Honduras.

Espero que este texto – e outros como este, que estão sendo escritos à farta – seja distribuído – e/ou tenha seus argumentos usados – pelos brasileiros que realmente crêem na democracia, pois o que direi vem sendo repetido por jornalistas, acadêmicos, políticos, diplomatas, cientistas políticos etc.

Ontem (5ª feira), na Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados, dois parlamentares, os deputados Chico Alencar (PSOL-RJ) e Pedro Wilson (PT-GO), produziram excelentes análises sobre a tentativa dissimulada de televisões e jornais ligados à oposição ao governo Lula de coonestarem o golpe de Estado em Honduras. Inclusive citaram a Globo nominalmente.

Em verdade, a direita das três Américas, com seus jornais e tevês, uniu-se para envolver os povos da região numa farsa, tentando vender a idéia de que existe qualquer resquício de legalidade no golpe de Estado contra o presidente constitucional de Honduras, Manuel Zelaya.

Apesar de chegarem até a chamar os golpistas de golpistas, esses meios de comunicação mentem e omitem informações sem parar. Antes de dizer como, porém, quero nominar os principais veículos de comunicação e partidos políticos mentirosos.

Os envolvidos nessa farsa têm à frente a Globo, a Folha de São Paulo, o Estadão, a Editora Abril, o PSDB e o PFL. Pelo lado da imprensa, são jornais, rádios, tevês, revistas e portais de internet que integram o que se convencionou chamar de mídia e que atravessou o século passado defendendo e praticando o golpismo de direita enquanto condenava o de esquerda.

Ao dizer que Zelaya foi preso no meio da noite em sua cama com sua mulher e deportado de Honduras junto da família sob a mira de armas porque propôs um plebiscito para conseguir um novo mandato presidencial, o aparato de propaganda política supra mencionado mente de forma descarada.

Zelaya jamais fez tal proposta. O que ele propôs foi uma Assembléia Nacional Constituinte. Dizer que a finalidade dessa proposição era conseguir um novo mandato é uma farsa, pois afirmam como verdade o que não passa de suposição dos golpistas.

Além disso, mesmo que o plebiscito proposto por Zelaya fosse mesmo tentativa de conseguir novo mandato, e como a constituição hondurenha proíbe, haveria que abrir um processo legal contra o presidente. Em país democrático algum se aceitaria uma pena sumária e sem direito de defesa como a que os golpistas impuseram a ele.

A cada vez que você, leitor, ler ou escutar essa mentira, se for um democrata deve dizer isso que acabo de dizer a quem estiver por perto. Deve dizer que aquela tevê ou aquele jornal mentem. Não se cale, não se omita. Defenda a verdade.

Denuncie que os golpistas criminosos de Honduras atacam a tiros manifestações pró Zelaya enquanto organizam passeata da elite econômica e racial de Honduras  de apoio ao golpe, passeata que desfila por Tegucigalpa protegida pelas mesmas forças de repressão que atacam camponeses, favelados, trabalhadores e estudantes que lutam pela democracia.

Não há hipótese, portanto, de a comunidade internacional permitir que o golpe em Honduras tenha sucesso, sobretudo por meio da eleição ilegal que os golpistas pretendem fazer em novembro próximo, eleição que obviamente será um jogo de cartas marcadas, pois um povo ameaçado por toque de recolher e repressão de forças militares não poderá votar livremente.

Evidentemente os golpistas não aceitarão acordo nenhum. Se perderem o poder, os sucessivos crimes que vêm cometendo acabarão sendo investigados e punidos, cedo ou tarde. Qualquer tentativa de acordo com eles esbarrará em seu instinto de auto-preservação.

É chegada a hora, pois, de se começar a pensar numa ação militar da ONU para prender os golpistas hondurenhos não só pelo golpe, mas pelas seguidas violações de direitos humanos que estão praticando, que, certamente, serão comprovadas pela comissão daquela Organização que deverá aportar em breve em Honduras para investigar denúncias sobre essas violações.

Os democratas brasileiros devemos atentar para o seguinte fato: os jornais e tevês supra mencionados, bem como os de outros países das Américas que sofreram golpes militares no século passado, já incentivaram e depois deram sustentação a golpes de Estado e violações de direitos humanos valendo-se de  “argumentos” falaciosos como esse que voltam a vender para justificar a ação criminosa dos golpistas hondurenhos.

Globos, Folhas, Vejas, Estadões e comparsas tentam fazer prevalecer a idéia de que golpes de Estado podem ser justificáveis porque, obviamente, ainda não desistiram de seus pendores golpistas de antanho. Só a denúncia incessante poderá impedi-los de enganar a população e fazê-los refletir que as Américas não mais aceitarão golpes de Estado como os que sempre apoiaram.

Democratas que têm voz, como o presidente Lula, devem nos ajudar mais a denunciar. Os deputados federais do PSOL e do PT supra mencionados disseram o que precisa ser dito da forma como deve ser dito. Tomara que alguém sopre ao ouvido presidencial o que disseram.

 

 

Boletim médico de Victoria – 25/09 – 11h50m

 

 

Minha filha Victoria (10) passou a noite e a manhã desta sexta-feira sem febre. É a primeira vez que isso acontece desde que foi internada na UTI, passar tanto tempo sem febre. Além disso, agora não quer parar de sorrir. E eu de chorar... de felicidade



Boletim médico de Victoria – 25/09 – 16h17m



Na tarde desta sexta-feira , a febre retornou – mais de 38 graus.

A sonda nasal, que vai até o estômago e que é por onde Victoria se alimenta, entupiu e teve que ser passada de novo por sua narina direita.

Na manhã de hoje, pela segunda vez os antibióticos foram trocados

 

 

Boletim médico de Victoria  25/09  18h23m

 

 

A equipe médica da UTI pediátrica do hospital Santa Catarina marcou uma reunião comigo e com minha mulher na próxima terça-feira, às 11 horas. Não sei o assunto

 



 Escrito por Eduardo Guimarães às 11h53
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Comunicado

O blogueiro salvará o homem

 Atualizado às 20h33m de 24 de setembro de 2009 


 

 

Descubro, nos últimos dias, que existem dois Eduardos Guimarães, o blogueiro e o homem. O primeiro, é indestrutível, inabalável, lúcido e feroz, quando necessário; o segundo, não. É frágil, falível, atormentado por medos e seduzido por paixões.

A situação de minha filha, digo-lhes com pureza d’alma, está cada vez mais preocupante, para mim. É duro dizer. Para mim, para minha família e até para vocês, mas, até agora, é o que sinto. Tenho a certeza de que todos devemos nos preparar para enfrentar o que der e o que vier pela frente.

Não disse a ninguém de meu convívio pessoal o que estou dizendo aqui, agora. Não tenho coragem. Espero que eventualmente leiam. Até lá, pensarei em como dizer. Se alguém ler antes, será melhor - para mim e para quem ler.

A febre não baixa. Victoria até parece estar respirando melhor, mas a febre não baixa. E, quando se pensa que está em ritmo de queda, sobe acima do pico anterior, que, muitas vezes, vem decrescendo e, de repente, volta a subir numa dança impiedosa, para quem acompanha.

Provavelmente, não preciso dizer isso para ninguém que está acompanhando de perto o que está acontecendo – eu, minha mulher e minha filha Carla. Faltam meu filho André e a irmã dele que está na Austrália, a Gabriela.

Enfim, o fato é que, se eu continuar querendo me abster da vida enquanto minha filha não melhorar poderei prejudicar a mim, à minha família e, com o perdão da pretensão, até ao meu país por deixar de fazer o que tenho feito aqui e que julgo importante, pois, do contrário, não faria, muito menos com o ardor com que venho fazendo há anos.

De maneira que, a partir do próximo sábado, volto a postar sobre os temas do blog. Minha Victoria, mesmo que comece a melhorar consistentemente agora, já, ainda terá que permanecer no hospital por mais uns dez ou quinze dias. Depois da UTI, irá para o quarto. Só de lá terá alta.

Se eu não trabalhar direito até lá, se não blogar, enfim, se não retomar minha vida, todos acabaremos perdendo. Acabarei me destruindo. Estive, pois, sendo fraco. É hora de reagir. Nesta hora, o blogueiro salvará o homem.

 

 

Os dramas ao lado

 

 

Já lhes contei aqui a história da família que, sem plano de saúde, internou uma menina de 13 anos na UTI do hospital em que minha filha está internada e não tinha recursos para pagar a conta. A paciente deixou a UTI e já está no quarto. A família, evangélica, conseguiu doações na igreja que freqüenta e poderá pagar a conta.

Hoje, tomei contato com outro drama inacreditável. O pai, um negro alto, parecendo uma pessoa próspera, inclusive. Seu filho de quatro anos está internado há dois anos na UTI em que está a minha filha. O garoto está em coma, desde então.

O drama não precisaria de mais nenhum ingrediente, mas tem. Pode parecer inacreditável, mas depois da internação e do prolongamento da situação do menino, sua mãe o abandonou e ao pai, que hoje luta sozinho ao lado do filho, com ajuda de familiares.

Não existe lugar melhor no mundo para a gente abrir os olhos para a grande verdade humana de nossa condição mortal do que este lugar do qual escrevo neste momento. Pelo resto de minha vida, a cada vez que eu começar a sentir pena de mim mesmo, lembrar-me-ei desta epopéia que, com minha família, estou vivendo. 



 Escrito por Eduardo Guimarães às 17h05
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Compromisso do autor


Quando ela sorrir

 Atualizado às 13h54m de 23 de setembro de 2009 

 


 

Passei a última noite com a Victoria no hospital. Finalmente consegui que a mãe dela concordasse em se deixar render por mim. Estava com a menina desde terça-feira da semana passada, com dois intervalos de duas noites em que, então, dormiu em casa.

Ninguém dorme na UTI de um hospital. O dia já amanhece e não preguei o olho. Dessa maneira, tive todo o tempo do mundo para refletir.

Tomei consciência de um fato sobre a minha filha que vinha me escapando: ela só está bem quando sorri. Nesses momentos, é capaz até de gargalhar se provocada com paciência, e para fazê-la sorrir eu costumo ter toda paciência do mundo, pois seu sorriso recompensa qualquer esforço.

Não é porque se trata de minha filha que lhes digo que toda esta corrente positivista formada em torno dela ser-nos-á recompensada quando eu postar aqui uma foto – e quem sabe até um vídeo – de nossa menina sorrindo.

Na noite de ontem, após tentativa fracassada de fazê-la se alimentar pela boca, desanimei. A febre também voltava a subir, lentamente. A menina chorava. Decidi tirar a mente de um processo que se repete uma e outra vez. Fui navegar na internet em busca de notícias.

Fiquei impressionado, sobretudo com uma determinada cobertura da Globo. Há muito sobre o qual sinto uma compulsão quase incontrolável de me pronunciar.

Eis, então, que Victoria, pela primeira vez nos últimos dias, pára de gemer, levanta a cabeça e olha em volta. Dirige-me, então, aquele seu olhar 43 que me faz largar o que estiver fazendo e apertá-la nos braços, beijando-lhe as bochechas, a testa, as pálpebras, o nariz, a boquinha...

Pareceu-me tão consciente e serena que me aproximei, comecei a cantar música de que gosta (“Carinhoso”, de Pixinguinha) e, como por mágica, minha filha deu um esboço de sorriso, daqueles amarelinhos que sempre dá quando começa a sair das crises. Foi um quase-sorriso.

Preciso voltar logo a comentar assuntos de interesse público, pois coisas muito sérias estão acontecendo e minha omissão me inquieta. Mas, com minha filha neste estado, não consigo fazê-lo. Falta-me vontade.

Desta maneira, assumo um compromisso com vocês. Quando Victoria sorrir de verdade, estará em franca recuperação. Nesse momento, prometo voltar a postar sobre os temas habituais e também postar a imagem do sorriso luminoso de minha filha.



Solidariedade da blogosfera



Do blog de Miguel do Rosário:

 

Eu costumo falar muito de história por aqui, citando gregos, romanos, procurando resgatar as raízes ocidentais do que chamamos cidadania. Mas nada me ensinou tanto como o exemplo do blogueiro Eduardo Guimarães, com sua generosidade, seu talento e sua coragem.

Nem precisava saber nada de história para aprender o significado de cidadania, bastava conhecer o combativo blog do Eduardo, o que mostra como a humanidade renasce, inteira, quase do zero, a cada geração, trazendo, nos lugares mais recônditos e mais sagrados do espírito, os conhecimentos necessários para esta eterna e maravilhosa reinvenção da espécie.

Mas a nossa vida, justamente pela posse de uma consciência tão aguda sobre a existência, o amor e a liberdade, flerta com a dor e a perplexidade de uma forma que nos levaria à loucura senão tivéssemos inventado deuses para nos confortar.

A nossa racionalidade soçobra perante a tragédia, e existe também um motivo forte para isso - é que existe uma forma de inteligência muito acima da razão. Possuímos uma intuição mais poderosa que qualquer racionalidade, e o pensamento em Deus é uma forma de disciplinarmos essa intuição e a aplicarmos à vida. Não por outra razão, a maioria dos filósofos sempre trabalhou com a idéia de Deus.

Esse post é uma tentativa canhestra de expressar minha mais profunda solidariedade a Eduardo, que vive o momento mais difícil na existência de um homem, que é o temor de perder um filho, ou filha.

Quero igualmente participar, com minha fé nesta inteligência superior, presente em nós mesmos, fonte de infinita força, capaz de salvar vidas e vencer a morte, na corrente de orações em prol da menina Victoria, filha de Eduardo, que está lutando para superar uma crise de pneumonia, conforme o aflito pai nos relata.

Eu nunca passei por nada similar. A única experiência próxima a essa dor foi quando meu pai sofreu um infarte e passou algumas semanas numa UTI. Mas não quero falar sobre isso agora. Lembro disso apenas porque, na época, escrevi um poema, dentro do ônibus que me levava ao hospital onde ele se encontrava.

Desafortunadamente, perdi esse texto, mas recordo-me que era inspirado num belíssimo poema de Dylan Thomas, o qual, portanto, reproduzo abaixo, dedicando-o à menina Victória, a seu corajoso pai, Eduardo Guimarães, e a toda sua família. É um poema de luta, que o poeta escreveu para seu pai amado. Uma declaração de guerra à morte. Eu acho bonito porque a nossa vida é mesmo uma eterna luta.

A menina Victória está lutando; do jeito dela, demonstra uma coragem incomparável, única. Esse tipo de luta, tão humana, está presente nos milhões de seres humanos que lutam encarniçadamente contra a morte, todos os dias. Nem sempre vencendo, mas quase sempre dando mostras de uma dignidade e uma valentia que poucos "saudáveis" possuem.

Prezado Eduardo, sinta-se abraçado e amparado por todos os leitores deste blog, e tenha certeza de que torcemos fervorosamente pela recuperação de sua filha.

Cordialmente.

Abaixo o poema, na tradução de Ivan Junqueira.


NÃO ENTRES NESSA NOITE ACOLHEDORA COM DOÇURA

 

Tradução: Ivan Junqueira

 

Não entres nessa noite acolhedora com doçura, Pois a velhice deveria arder e delirar ao fim do dia; Odeia, odeia a luz cujo esplendor já não fulgura.

Embora os sábios, ao morrer, saibam que a treva lhes perdura, Porque suas palavras não garfaram a centelha esguia, Eles não entram nessa noite acolhedora com doçura.

Os bons que, após o último aceno, choram pela alvura Com que seus frágeis atos bailariam numa verde baía Odeiam, odeiam a luz cujo esplendor já não fulgura.

Os loucos que abraçaram e louvaram o sol na etérea altura E aprendem, tarde demais, como o afligiram em sua travessia. Não entram nessa noite acolhedora com doçura.

Os graves, em seu fim, ao ver com um olhar que os transfigura Quanto a retina cega, qual fugaz meteoro, se alegraria, Odeiam, odeiam a luz cujo esplendor já não fulgura.

E a ti, meu pai, te imploro agora, lá na cúpula obscura, Que me abençoes e maldigas com a tua lágrima bravia. Não entres nessa noite acolhedora com doçura, Odeia, odeia a luz cujo esplendor já não fulgura.



 Escrito por Eduardo Guimarães às 07h52
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Crônica de uma família brasileira

 

A luta de Victoria

 Atualizado às 19h53m de 22 de setembro de 2009 

 




 

O ponto alto de meus sete últimos dias tem sido vir aqui me abrir com vocês. Penso o dia inteiro, sobretudo nos piores momentos, nas palavras lindas que me têm escrito. E ontem foi o dia, desses sete, em que mais ansiei por este momento, pois não foi fácil atravessá-lo.

O que me tem permitido manter a racionalidade tem sido poder colocar em palavra escrita as coisas que estão acontecendo. E sob os augúrios de vossa generosidade, uso dessa permissão para relatar a luta que Victoria trava pela vida.

Ela trava uma luta encarniçada contra a pneumonia, o diagnóstico que dela fizeram na noite de ontem. Em seu caso, uma doença que já não assusta tanto se agravou sobremaneira mesmo a criança estando no hospital.

Ela está internada na UTI cumprem hoje sete dias, como já disse. Do primeiro dia para cá, piorou. Seu pulmão esquerdo congestionou-se mais.

Tive pneumonia. Era um marmanjo de oitenta quilos e quinze anos mais jovem. Como sofri. Victoria nem pesa trinta e já estava debilitada quando adoeceu, sobretudo pela paralisia cerebral que trouxe consigo ao nascer.

O inimigo, insidioso e covarde, apunhalou o corpinho de Victoria com suas agulhas de aço deixando-a coberta de hematomas dos pés à cabeça, devido a tentativas malsucedidas de lhe pinçar uma veia para administração intravenosa de antibióticos, soro etc.

O inimigo é ardiloso. Escondeu cada veia de Victoria sob sua pele alva e macia de uma forma absolutamente indetectável. Agora, os magos de branco propõem perfurar sua jugular com um cateter, e a alternativa seria ela não receber antibióticos novos que me prometeram que liquidará com o monstro.

Procedimento invasivo, eventualmente poderá não ter sucesso. Será feito na manhã desta terça-feira por uma cirurgiã, porque a pediatra não se sentiu habilitada a tanto. E se esse procedimento tampouco vingar, haverá que abrir a pele de Victoria para pinçar diretamente uma veia.

Minha Victoria, como uma valquíria cavalgando seu corcel alado, enfrenta cada golpe inclemente da besta que a fustiga, impiedosa e covardemente, a cada minuto, a cada grau da febre que sobe, a cada gemido que deixa escapar entre um inspirar e um expirar.

E nós que apoiamos a menina guerreira, aqui, impotentes, tendo que assistir imóveis a sua luta desigual contra fera tão ameaçadora, e estando ela tão ferida e privada até de ar para recobrar o fôlego entre um golpe e outro.

Essa é a luta que trava Victoria, e um round decisivo dessa luta será travado nesta terça-feira pela manhã. Não sei a hora ao certo e não estarei perto dela quando chegar, pois trabalhar é preciso. Só poderei torcer de longe, como vocês. 


 

 

Boletim médico – 14h46m – 22 de setembro

 

 

O procedimento para inserção de um cateter em Victoria teve êxito. Ela também conseguiu comer um potinho de gelatina, mas o resto da refeição teve que fazer por sonda. A febre também persiste.

 

 

A Família Guimarães

 

 

Sei que muitas pessoas novas têm vindo aqui, as quais não conhecem minha família. Quero dividi-la com essas pessoas também, como já fiz com os leitores mais antigos. O vídeo abaixo, pois, foi feito por minha Filha Gabriela, de 23 anos, que está estudando em Sydney, na Austrália. Ela o fez antes de partir, em janeiro deste ano. É a nossa história.

 


 

 

Boletim médico – 19h53m – 22 de setembro

 

 

Persistem o quadro febril e a insuficiência respiratória. Na tarde desta terça-feira, porém, Victoria se alimentou melhor pela boca. Segundo o pediatra de plantão, seu quadro é “tratável”, e o que ele me disse que acha que complicou esse quadro teria sido o fato de a bactéria ter sido subestimada e, assim, combatida com antibiótico “fraco”. Agora, com antibiótico que o médico qualificou como “pesado”, a febre tenderia a ceder durante esta quarta-feira. As condições para Victoria deixar a UTI são a febre ceder e a menina conseguir se alimentar suficientemente pela boca.



 Escrito por Eduardo Guimarães às 01h58
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Esclarecimento

Manual de sobrevivência

 Atualizado às 14h46m de 21 de setembro de 2009 


 

 

Andei refletindo que seria bom vir aqui esclarecer algumas coisas sobre as postagens neste blog enquanto durar a crise de saúde de minha filha Victoria.

Devo explicar que estou encontrando dificuldade para retomar os temas dos quais trata naturalmente este espaço, e, inclusive, estou aqui para discorrer sobre tal premissa, ou seja, sobre do que, enfim, o blog trata.

Sobre o titulo desta postagem, mais adiante vocês entenderão...

Tenho tido tempo até excessivo para ler e me informar, condição primeira para alguém se pôr a tratar dos assuntos que costumo tratar. Mas não é o que basta para continuar escrevendo aqui como se nada estivesse acontecendo.

O problema reside em minha capacidade de julgamento, que avalio que se encontra comprometida, e esse é o primeiro passo para que eu possa eventualmente cometer injustiças nas análises que comumente faço de temas polêmicos.

Como se não bastasse, apesar desse fato maravilhoso de críticos ácidos de meu trabalho terem vindo se solidarizar comigo e com a minha família de uma forma absolutamente emocionante, há sempre aquele tipo de ser humano que não respeita nada.

Acreditem se quiserem: veio gente me atacar com palavras sobre minha filha que nem o próprio diabo seria capaz de proferir.

Não me sinto em condições, neste momento, de enfrentar uma coisa dessas. A saúde da Victoria, pois, está tendo sucesso onde alguns vêm falhando reiteradamente há anos: calou-me sobre política.

Além disso, não consigo pensar em mais nada além da saúde da minha bebê. Não enquanto ela estiver em cima daquela cama com fios e tubos enfiados em si por tudo quanto é lado.

Porém, ao mesmo tempo sinto esta compulsão quase patológica por escrever. Disse esses dias a uma amiga do coração na esfera do voluntariado, alguém que não parou de me ligar para saber da Victoria, que não concebo mais minha vida sem isto aqui.

Como, então, conciliar as coisas?

A resposta é evidente. Continuarei fazendo o que sempre fiz no Cidadania, menos nas questões políticas. Continuarei tentando fazer deste espaço o difusor de condutas dignas, decentes, tolerantes, honestas e humanas.

Uma forma de ser útil à sociedade enquanto eu e minha família estivermos passando por essa situação tão dolorosa poderia ser eu tentar me manter como deve se manter todo aquele que passa por situações deste jaez, que nos afetam a alma de forma tão profunda.

Quero ser suficientemente forte e lúcido para não permitir que a amargura se converta em egoísmo e paute minhas ações, opiniões e sentimentos. Quero mostrar que devemos usar sempre, em qualquer situação, a característica que permitiu à nossa espécie sobrepujar as outras na seleção natural: quero ser racional ao máximo que possa.

Este blog, assim, enquanto minha filha continuar naquela UTI, converte-se em um manual de sobrevivência do homem contemporâneo diante das misérias humanas que nos ameaçam a todos a cada dia de nossas vidas.

É importante, por exemplo, mantermos a capacidade de olhar para os lados e ver que, por piores que sejam os nossos problemas, sempre há alguém em situação pior.

Algumas vezes, tenho me perguntado o óbvio: por que a Victoria, uma criança tão frágil quanto uma flor, sofrer tanto? Respondo-me com outra pergunta: por que não a família Guimarães, se todos estamos sujeitos aos rigores e caprichos da natureza?

Nestes momentos, pode-se crescer. Podemos nos tornar mais tolerantes, mais humanos e até mesmo mais decentes. Há que saber aproveitá-los.

 

 

Boletim médico



Nesta segunda-feira pela manhã, a equipe médica da UTI pediátrica do hospital Santa Catarina, sob resultados de exames refeitos em busca de explicação para a renitência da febre de Victoria, concluíram que se agravou a infecção pulmonar que a acomete e prejudica sua capacidade respiratória.

Victoria, agora, está respirando por meio de balão de oxigênio. A febre persiste.

 


Prece por Victoria

 

 

Em um mundo em que a fé humana é colocada tanto à prova, creio plenamente em Vós

Busco, muitas vezes sem sucesso, pautar minha vida pela Vossa Vontade

Sou só um homem falível, imperfeito, ignorante diante da Vossa Onisciência

Sou fraco, volúvel, mesquinho muitas vezes, como todos nós, Teus filhos, somos em algum momento

Mas tento, ó Pai Eterno, manter-me à tona neste mar de imperfeições humanas

Ao menos tento, em um mundo e numa época em que cada vez menos de nós tentam

Por esta vida voltada para a busca de realizar a Tua Vontade onipotente, imploro

Imploro por uma inocente dos pecados de seus pais

Imploro pelo sorriso dela

Imploro pelo olhar que aquele sorriso radiante incendeia

Imploro pelos bons sentimentos que ela desencadeia em todos ao redor de si

Imploro pela vida de minha filha Victoria, ó Deus de Amor



 Escrito por Eduardo Guimarães às 01h25
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Crônica

Uma noite no hospital

 

 

 

Ela dorme ao meu lado – eu numa poltrona reclinável, e ela no leito acoplado a uma parafernália de fios e monitores montada em uma estrutura em formato de meta de jogo de futebol.

A parafernália lhe capta os sinais vitais enquanto produz uma sinfonia de bips, zumbidos eletrônicos e o som ininterrupto de ar comprimido sendo expelido em direção ao seu rosto por uma mangueira de plástico translúcido.

Assisto a um filme, ou tento. As imagens dançam na tela de plasma de 42 polegadas, mas não consigo interpretá-las. Além de estar com a mente mergulhada em pensamentos, a sinfonia eletrônica encobre o volume quase inaudível da tevê.

A enfermeira entra e gagueja que terá que aspirar outra vez as vias aéreas de minha filha. Não suportarei ver de novo. Melhor deixá-la fazer seu trabalho sem distraí-la com a aflição que aquele procedimento, já faz dias, acarreta-me a cada vez que assisto.

Deixo o sétimo dos nove quartos da UTI pediátrica do hospital Santa Catarina. Caminho mais rápido pelo corredor a fim de não ouvir o som do aspirador que tanto desconforto e choro causará à Victoria.

Apressado, puxo a porta pesada, larga, de folha dupla e a prova de ruídos daquela ala. Escapo dali antes que seja tarde.

Olhando para os sapatos, passo a caminhar pelos longos corredores assépticos e pintados com um silêncio que, no momento, parece-me absoluto como o do vácuo do espaço sideral.

Sem notar, deixo a dolorosa ala da UTI pediátrica e ingresso em outro corredor todo colorido, alegre, com arranjos florais na porta de cada quarto e nomes próprios nos enfeites também coloridos afixados nessas portas.

 Um dos enfeites diz assim: “Ufa, ainda bem que nasci corintiano”. Abaixo, o brasão do clube de futebol.

Agora sei onde estou e percebo a ironia atroz do que acaba de acontecer. Passei de um corredor onde a dor castiga pais e filhos para outro onde abunda a alegria de país pela chegada de filhos recém nascidos.

Ocorre-me que aquela pode ser uma metáfora para a vida. Alegria e sofrimento separados por alguns poucos passos.

De repente, a alegria daqueles pais torna-se insuportavelmente desagradável e decido descer para fumar em meio à ventania, aos roncos de motores e aos fachos ofuscantes de luz que banham o calçadão da avenida Paulista.

O saguão do hospital poderia ser o de algum hotel de cinco estrelas. A numerosa família que praticamente acampa ali há dias continua lá, falando alto, comendo, comendo e comendo sem parar, com os homens numa rodinha e as mulheres na outra. Parece que estão numa festa.

No calçadão da Paulista encontro mais alguns deles rindo, comendo e fumando. Afasto-me. Caminho em direção à extremidade sul da avenida depois de ficar dando voltas em torno de mim mesmo na tentativa de acender o cigarro em meio àquela ventania.

Vou aspirando fumaça e deixando a mente divagar. Pé ante pé. Estou de manga de camisa e nem sinto o vento frio que os carros zunindo pela avenida só fazem aumentar.

Daí vejo o grupo de rapazes e garotas passando garrafa de alguma coisa de mão em mão, rindo alto, soltando gritos guturais, todos meio cambaleantes. Eles vêm em minha direção, sendo precedidos pelo forte cheiro da maconha que fumam enquanto bebem.

Resolvo retornar à porta do hospital. Acabo o cigarro e entro.

Sinto que estou tendo uma premonição. Apresso o passo até o elevador. Do primeiro ao sétimo andar, fantasio uma tragédia ocorrida enquanto me ausentei do quarto. E me preocupo sobre como explicarei ao resto da família que a deixei sozinha quando “aquilo” aconteceu...

Pego o avental descartável da pilha deles na ante-sala da UTI, visto de qualquer jeito, lavo as mãos, puxo de novo a porta pesada e larga de folha dupla e avanço pelos cerca de dez metros que me separam do quarto sete.

A porta do quarto está escancarada e os bips e zumbidos continuam do mesmo jeito. Aproximo-me e minha bebê de dez anos continua adormecida, sugando sua chupeta e gemendo baixinho toda vez que respira.

São duas e meia da manhã. Ela está bem, ou melhor, está como a deixei. Minha fantasia não passou disso mesmo. Deixei-me suar frio e ofegar à toa. E a minha noite no hospital apenas começou. 



 Escrito por Eduardo Guimarães às 02h46
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