Este texto, dirijo àqueles que, à diferença de pessoas como eu, semearam o que agora todaesta sociedade colhe, mas que, hipócritas, tentam fazer crer que o que acontece hoje da Rocinha a Heliópolis, da Barra da Tijuca aos Jardins, começou agora.
Eu vos acuso de não terem sensibilidade social, de quererem se locupletar à custa da miséria de legiões de brasileiros que mal e porcamente sobrevivem nos guetos onde vós os segregastes, à custa dos que não têm escolas para que seus filhos tenham uma chance na vida, porque, quando governantes fazem boas escolas para o povo, dizeis que são “caras”.
Eu vos acuso de exigirem dos governantes que, em vez de a prisões que recuperem essa meninada perdida, mandem os infratores, ainda imberbes, para masmorras onde se tornarão profissionais do crime, feras enlouquecidas, e vos acuso de só prenderem os pobres, sobretudo os pobres e os pretos e, mais ainda, os pobres, pretos e nordestinos.
Eu vos acuso de sustentarem o tráfico de drogas deixando, por omissão, que vossos filhos e filhas, mimados e sem valores, passem pelas bordas das favelas e comprem o veneno que os levará até a agredir trabalhadoras pobres, a queimarem mendigos vivos, a desembestarem pelas ruas com as máquinas infernais que lhes foram doadas por seus papais e mamães tão amorosos.
Eu vos acuso de combaterem com unhas e dentes cada mínima tentativa de direcionar uma fração irrisória de vossas fortunas para o sustento (físico e espiritual) dos miseráveis, e de fazerem isso em um dos dez países de maior concentração de renda do mundo.
Eu vos acuso de pregarem o ódio racial chamando os nordestinos de “baianos” em São Paulo e de “paraíbas” no Rio, mesmo esse indivíduo não sendo da Bahia ou da Paraíba, contanto que tenha traços de negro mais acentuados. Eu vos acuso, pois, de racismo.
E eu vos acuso de negarem o racismo ao escreverem livros dizendo que vós não sois racistas, pois, como sabeis, são raros os negros e mestiços que admitem em vossos palácios e festas.
E vos acuso, por fim, de quererem calar os que vos acusam ao monopolizarem a comunicação de massas, e de terem conseguido fazê-lo completamente por toda a história até que surgisse a internet e não pudessem mais impor censura total.
Por todas essas acusações é que vos digo: vejam só o que fizeram com o Rio, com São Paulo, com Porto Alegre, com Recife, com o país todo ao negarem aos mais pobres a mais tênue esperança de vencer na vida apesar de condição social, cor da pele e região do país.
Agora, colheis o que plantastes. Não reclamai, portanto.
FHC diz que governo tem mais "fariseus do que cristãos"
BRENO COSTA da Agência Folha, em Belo Horizonte
O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso afirmou hoje, em Belo Horizonte, que a aliança montada pelo governo de Luiz Inácio Lula da Silva parece possuir "mais fariseus do que cristãos", em referência a declarações do presidente dadas à Folha ontem.
Na ocasião, Lula falou que, no Brasil, "Jesus teria de chamar Judas para fazer coalizão". Segundo o tucano, "pessoas atrasadas" na política sempre existirão e elas "não podem ser jogadas fora, fazem parte do jogo".
FHC disse, porém, nunca ter feito aliança com "Judas". "O ruim é quando você faz alianças espúrias, quando são feitas não para um programa para a eleição, mas depois da eleição e para ganhar votos no Congresso. E, quando chega o momento, parece que tem mais fariseus do que cristãos. Aí fica difícil, inverte a lógica. Em vez de puxar o atraso para melhorar, você que é puxado pelo atraso. Isso não aconteceu comigo", afirmou.
O ex-presidente disse ter estabelecido a coalizão de sustentação de seu governo (1995-2002) antes das eleições, com "um partido que era um grande partido [PFL, atual DEM]".
ONTEM - 14 de agosto de 1998
FOLHA DE SÃO PAULO
Editorial
MONTAGEM REAL
Há em São Paulo um outdoor político inusitado. No centro está Fernando Henrique Cardoso, candidato à reeleição; à direita de quem olha, Paulo Salim Maluf, candidato ao governo do Estado; na ponta esquerda, Luiz Carlos Santos, ex-quercista, ex-ministro de FHC e atual vice de Maluf pelo PFL, o seu novo partido, coligado com o PPB em São Paulo. Além desse outdoor, peça que faz parte da campanha malufista, há um outro, em que FHC está ao lado de seu candidato oficial, o tucano Mário Covas, adversário histórico de Maluf.
Nos dois painéis, tem-se a impressão de que as imagens são montadas. Mas, também nos dois casos, essas presumíveis montagens têm um fundamento real. O tucano FHC é apoiado por Maluf, que abdicou de sua candidatura à Presidência depois de uma série de entendimentos com o presidente que lhe garantiram lugar de destaque na aliança visando à reeleição. Esse acordo compromete a eficácia do apoio oficial do presidente a Covas, além de diluir as diferenças partidárias no jogo político.
Esse estranho encontro entre políticos de trajetórias em larga medida antagônicas é sem dúvida um sintoma de uma confusão político-ideológica que tem âmbito mundial e, em última análise, está ligada a mudanças no panorama da economia global. No entanto, no caso brasileiro, ela é, mais diretamente, reflexo da situação político-econômica que adveio com a estabilização e se relaciona à continuidade do projeto político de quem a conduziu. É resultado da estratégia do presidente -formar alianças de "a" a "z"-, tecida em função de sua reeleição, em prejuízo de compromissos históricos ou de identidades partidárias.
O candidato do PT à Presidência, Luiz Inácio Lula da Silva, mostrou inclinação semelhante quando disse, recentemente, que não pediria "atestado ideológico" a Orestes Quércia, caso este resolvesse apoiá-lo. "Se ele quiser me apoiar, pode me apoiar". Coligações e arranjos são constitutivos da política, sobretudo em períodos eleitorais. Tornam-se suspeitos, para dizer o mínimo, quando em nome do consenso a própria política degenera numa espécie de vale-tudo.
Victoria parece cada vez mais fraca. Há momentos em que me assusto. Não sei se rezar adianta, se corrente de pensamento positivo pode mesmo ajudar, mas, como não sei, peço a quem puder que faça, pois tudo o que eu puder tentar por ela, tentarei. E se posso contar com as orações e os pensamentos positivos de vocês, conforme a aflição do momento estes chamamentos fazem com que eu sinta que estou tomando alguma uma atitude, que estou burlando a impotência.
A CÂMARA MUNICIPAL DE SÃO PAULO convocou a CONFERÊNCIA MUNICIPAL DA CIDADE DE SÃO PAULO, a ser realizada nos dias 06 e 07 de Novembro de 2009, sob a coordenação conjunta da Comissão de Administração Pública da Câmara Municipal de São Paulo e da Comissão Paulistana Pró-Conferência, que será formada na proporção de 1/3 (um terço) de representantes da Câmara Municipal de São Paulo e do Poder Público e 2/3 da Sociedade Civil empresarial e não empresarial, destinada à preparação da 1a. Conferência Estadual e da 1a. Conferência Nacional de Comunicação - CONFECOM, a ser realizada em Dezembro de 2009 em Brasília - DF.
A publicação convocando a Conferência Municipal da Cidade de São Paulo, preparatória da Conferência Estadual e da 1a. CONFECOM consta no Diário Oficial do Município de 23/10/2009, página 177.
Sempre que escrevo sobre São Paulo faço questão de dizer que sou paulista, paulistano, nascido na avenida Paulista, na maternidade Pro Matre paulista, filho, neto, bisneto e tataraneto (no mínimo) de paulistas da capital.
Amo São Paulo. Não saberia viver em outro lugar. A confusão cosmopolita, o acesso a tudo o que há de mais moderno ao alcance de uma caminhada (pelo menos para quem, como eu, vive num dos poucos bairros ainda privilegiados da capital de meu Estado).
O Paulista é um povo bom. Sofrido, apenas, mas intrinsecamente bom. É que temos medo até de nossas sombras. E padecemos de um mal terrível: a ilusão que a elite dos Jardins vendeu a esta sociedade de que seríamos “locomotiva” de alguma coisa, como se fosse razoável um país deste tamanho ser puxado por um só dos seus entes federativos.
Essa ilusão de que seríamos mais trabalhadores ou qualquer outra coisa mais do que compatriotas de outros Estados fundamenta-se, sobretudo, na política, pois a riqueza paulista acaba produzindo aspirantes a governar o país com mais chances do que os de fora de São Paulo.
É por essa razão que há uma mobilização paulista em torno de um político que o povo de meu Estado acha que nos manterá, os paulistas, liderando alguma coisa, e esse político é José Serra, nosso governador.
E essa mobilização foi desencadeada a partir de uma esmagadora campanha publicitária de Serra em horário nobre em todas as tevês sintonizadas em meu Estado, em outdoors, no metrô paulista de uma forma avassaladora, e prometendo o que é um insulto para uma cidade no estado da capital paulista, ou seja, uma linha menos ridícula de metrô para daqui a três anos. Até lá, ficaremos com a malha metroviária trágica que começa a colapsar todos os dias.
Ver propagandas como essa no vídeo acima passou a me embrulhar o estomago não apenas porque, de uns tempos para cá, tenho sido usuário mais assíduo do metrô, mas porque vejo essa farra publicitária feita enquanto acusam Lula de estar se promovendo por passar uma noite em cabana à beira do rio São Francisco.
Mas o pior de tudo é ver como Serra faz os paulistas-paulistanos, ao menos, de completos idiotas. Ele inventou um miraculoso “plano de embarque” para conduzir como gado as multidões que se espremem nos vagões e plataformas transbordantes de pessoas. E diz que isso deve ficar sem qualquer alívio por mais TRÊS ANOS!
São Paulo está mobilizado para transformar esse homem em presidente da República, mas São Paulo, graças a Deus, não é o Brasil. Os que ficam se achando todo-poderosos divulgando até pesquisas manipuladas e mentindo descaradamente na televisão, irão descobrir que quem ri por último, sempre ri muito melhor.
Como vocês leram no texto subjacente a este, logo abaixo neste mesmo post, a noite da última quarta-feira me foi bastante difícil. E vim aqui extravasar. Foi preciso, porque o dia seguinte seria ainda mais duro.
Minha filha piorou muito. Não descreverei os detalhes. O importante é dizer a vocês que continuo de pé e pronto a, dentro do possível, direcionar minha mente a assuntos elevados e de interesse comum à sociedade, de forma a tentar impor a razão sobre a emoção, esta sempre uma péssima conselheira nos momentos que requerem racionalidade.
Gostaria de oferecer algo mais aqui e agora para discutirmos, mas ainda terei que deglutir por algumas horas – não sei quantas – estes sentimentos e este cansaço mental. Mas faço questão de escrever. Ajuda-me pôr a mente nos temas complexos dos quais se trata aqui em vez de ficar pensando no que não devo...
Volto assim que o espírito serenar-se o suficiente para que eu consiga refletir comedidamente sobre tudo aquilo que sempre requer reflexão de todos por ser de interesse público, e que excede os nossos dramas individuais.
Por que ?
Na noite desta quarta-feira visitei minha filha caçula no hospital. É estranho dizer isso – “visitei”. Victoria tem apenas onze anos e não vivemos separados. Mas, como a irmã que se casou ou a que foi viver na Austrália, me deixou.
Encontrei-a cercada de enfermeiras. Eu e minha mulher. Nós a deixamos sozinha durante o dia, indo ter com ela somente à noite. A menina passou mal o dia inteiro. Estava com olheiras e respiração ofegante, meio desfalecida, com febre. E devolveu do estômago não imagino o quê.
Não agüento mais vê-la sofrer. E não entendo. Já estou ficando velho. A ordem natural das coisas é que os mais velhos vão primeiro. Nenhum pai pode sobreviver a um filho. É desumano. Nenhum homem ou mulher merece tal sofrimento.
Onde buscar fé num momento como este? Como acreditar em alguma coisa vivendo um drama dessa monta, tão injusto?
Não sei mais o que fazer ou pensar. Um procedimento atrás do outro, uma expectativa depois da outra vão sendo frustrados. E lá se vão 37 dias de internação. E minha filha lá, melhorando um pouco, dando-nos esperança, para, no minuto seguinte, decair.
Penso se não é injusto me revoltar. Culpar algum ser superior. Mas haverá tal ser para culpar? Um Deus de amor permitiria a um inocente pagar com tanto sofrimento havendo tantos culpados (entre os quais devo estar incluso) a punir?
Tenta-se ter fé, mas começa a ficar difícil. E é aí que tudo se complica, porque sem fé, sem esperança, não é possível viver. Não haverá como agüentar tudo isso se a esperança me abandonar.
Como diria FHC, “assim não pode, assim não dá”. Já Lula, diria que “nunca antes na história deste país” tão poucos tentaram tanto trair a boa fé de tantos divulgando pesquisas que jamais serão confirmadas simplesmente porque jamais existiram.
Há poucas semanas, suposta pesquisa Ibope supostamente encomendada pelo PMDB foi supostamente noticiada pelos jornalões e pelos blogs corporativos dando conta de suposta derrocada da candidatura Dilma e suposta disparada da candidatura Serra.
Segundo as análises da imprensa pró Serra sobre uma pesquisa Ibope jamais registrada na Justiça Eleitoral, essa sondagem estaria sendo usada pela parte tucana do PMDB para demover a parte petista de se aliar formalmente à candidatura Dilma.
Dias depois, pesquisas registradas na Justiça Eleitoral, inclusive do Ibope, mostraram quadro bem diferente, com Serra e Dilma caindo um pouco cada um. E o PMDB parece não ter dado bola ao suposto boato, pois fechou a aliança que tanto tentaram impedir.
Agora voltam os boatos sobre pesquisas favoráveis a Serra, que depois virarão notas de jornal e posts em blogs pistoleiros. Coluna da jornalista Monica Bergamo na Folha de São Paulo dá conta de outra pesquisa “fantasma” do Ibope. Vejam abaixo.
FOLHA DE SÃO PAULO, 21 de outubro de 2009
Caderno “Ilustrada”
Coluna de Monica Bergamo
TERMÔMETRO
O PSDB encomendou pesquisa ao Ibope que mostra José Serra (PSDB) retornando ao patamar de 41%, contra 35% da pesquisa anterior feita pelo instituto, que mostrava o tucano em queda. No campo governista, uma oscilação simbólica: Dilma Rousseff (PT-RS), com 17% (tinha 15%), volta a aparecer na frente de Ciro Gomes, com 16% (tinha 17%). Marina Silva (PV-AC) tem 9%.
Fraudes em pesquisas, desmentidas pelas eleições, aconteceram na Venezuela em 2004 e em vários outros países que elegeram e reelegeram presidentes inimigos dos grandes meios de comunicação. No Brasil, tenho forte desconfiança sobre pesquisas divulgadas no final de 2005.
Contudo, as pesquisas desmoralizadas costumam ser registradas. Para não terem que ver pesquisas oficiais desmentidas, agora deram de soltar boatos em jornais sobre as pesquisas que eles querem. Essa é meio nova, eu acho.
Mas será que ninguém do PT vai meter ao menos uma representação nesses caras?
Noblat dá detalhes da pesquisa
O blog do Noblat deu detalhes da pesquisa antes de confirmação oficial e detalhes sobre a metodologia ou da divulgação da íntegra do material. É preciso atenção para saber se a divulgação atende a legislação eleitoral. No mês passado, esse e outros blogueiros de Serra noticiaram pesquisas que posteriormente não se confirmaram da forma como foram anunciadas.
No próximo domingo, embarco para uma viagem de duas semanas à Argentina, começando por Buenos Aires e passando por Córdoba, Rosário, Santa fé e Mendoza.
É um momento difícil para viajar. Minha filha Victoria continua entrevada naquela UTI (completam-se 36 dias nesta quarta-feira), a febre vai e volta e, a rigor, ela está na mesma que quando foi internada em meados de setembro. Todavia, há que ganhar a vida...
Enfim, volto à Argentina depois de alguns anos. Afastei-me daquele mercado devido a problemas sérios de recebimento dos pagamentos de negócios que tive com importadores do país durante a crise do “Corralito” em 2001/2002.
A despeito disso, a principal indústria que represento tem sido bastante assediada pelos argentinos de alguns meses para cá, e os negócios estão surgindo. E, como a Argentina acabou saindo do sistema financeiro internacional pelo calote que deu no mundo no início da década, eles agora pagam antecipado quase tudo que compram do exterior.
Por outro lado, a economia do país continua inconstante e inconfiável. Eles têm que manter o dólar valorizado por conta da necessidade de conseguirem divisas para financiar importações, pagar dívidas etc., de maneira que, no último ano, o peso continuou perdendo valor (hoje, está a $ 3,83 por dólar) e a inflação constatável no dia a dia vai preocupando e gerando desconfiança dos índices oficiais.
Politicamente, para variar a Argentina continua instável. A sucessão de Néstor Kirchner por sua mulher Cristina me parece constituir um processo um tanto quanto bizarro (Néstor é visto como eminência parda do atual governo) e que estaria descontentando a maioria da população, segundo pesquisas.
Essa, pelo menos, é a versão que se tem por aqui via a grande imprensa de lá, que, como a daqui, está em guerra com o governo. Tais fatos, portanto, só poderão ser apurados por alguém que, como eu, atravessará o país e conversará com as pessoas no tempo livre entre os negócios.
Abaixo, reproduzo análise sobre a Argentina de “especialistas do mercado”, texto que vem circulando entre exportadores brasileiros e sobre o qual só poderei formar opinião nas próximas duas semanas.
Argentina dará novo calote até 2011, prevê gestor
Brasil Econômico - Por Lester Pimentel / Bloomberg News
A Argentina será obrigada a dar o calote até 2011, a não ser que o governo chegue a um acordo com os investidores que detêm US$ 20 bilhões em bônus e que ficaram de fora da última oferta de reestruturação, disse a Stone Harbor Investment Partners. A presidente Cristina Fernández de Kirchner está negociando os termos de um acordo, do qual o governo precisa para voltar a ter acesso aos mercados internacionais de capital.
O país perdeu esse acesso em 2001, quando deixou de fazer os pagamentos sobre US$ 95 bilhões em títulos. Desde então, a Argentina depende dos mercados locais e de empréstimos da Venezuela para atender as suas necessidades de financiamento, e confiscou cerca de US$ 24 bilhões de ativos de fundos de pensão no ano passado, para compensar a queda na receita fiscal.
Os argentinos "têm que arrumar as coisas - eles precisam fazer isso agora", disse Jim Craige, gestor de US$ 10 bilhões de títulos dos mercados emergentes na Stone Harbor de Nova York e proprietário de papéis argentinos, inclusive de um pouco dos títulos não-honrados.
Os credit-default swaps (CDS) da Argentina também indicam o temor dos investidores. Os operadores exigem 1,7 ponto percentual a mais para proteger os papéis da dívida do país contra o calote durante dois anos do que durante um, mais do que o 1,35 ponto percentual exigido há dois meses, e a maior diferença entre os países latino-americanos, segundo mostram dados compilados pela CMA Datavision.
A diferença entre os CDS de um e dois anos para os títulos da Venezuela - o país cujo custo da tomada de empréstimos está mais próximo do da Argentina na região - é de 0,26 ponto percentual. Um ponto-base é igual a 0,01 ponto percentual, que equivale a US$ 1.000 por ano de um contrato para proteger US$ 10 milhões em dívida mobiliária. Os CDS pagam ao comprador o valor de face no caso de o tomador dar o calote, em troca dos ativos subjacentes ou do equivalente em dinheiro.
Este blogueiro, a Globo, a Folha, a Veja, o Estadão, o PSDB, o PFL e os penduricalhos deles concordamos em ao menos um ponto: o Brasil ainda não é tudo isso que muitos – provavelmente a maioria - pensam que é. Divergimos, porém, quanto à causa.
A direita das três Américas (que, cada vez mais, age como uma só) não acredita no povo da região. Acha-o composto de uma gente deplorável, irrecuperável, burra. Assim, para lidar com a maioria que escolhe governos, aposta no logro, na mentira, na censura, na violência, na intolerância e na burrice. Já a esquerda, no mínimo pensa com a cabeça – com exceção da ultra-esquerda, que pensa com os intestinos – e acredita que este povo pode se levantar.
O problema é que a mentalidade dessa corrente político-ideológica reacionária, desonesta e apátrida se entranhou de tal forma na alma dos povos americanos que o despertar do transe ideológico conservador só começou a ocorrer de verdade no fim do século passado.
Eu diria que o despertar das Américas começou pela Venezuela com a eleição de Hugo Chávez no apagar das luzes do século XX. E antes que cabelos se arrepiem, inclusive entre a centro-esquerda, explico que nem foi por causa dele que esse processo começou ali.
O despertar venezuelano foi desencadeado por um povo farto de ver as riquezas de seu país beneficiarem exclusivamente essa casta étnica indo-européia que dominou as Américas desde o Descobrimento.
Alguns poucos anos mais tarde, esse processo se repetiria no Brasil com a eleição de Lula. Desorientado sobre para onde correr depois de ver as promessas de Fernando Henrique Cardoso se transformarem num dos mais duros períodos da história moderna do país, os brasileiros lançaram mão do que restava de opção na política: Lula.
Deu certo. Não porque Lula e sua equipe sejam uns gênios, mas porque, ao respeitar a inteligência da população e ambicionar um lugar na história – em vez de alguns iates, aviões e propriedades imobiliárias – este governo tomou as decisões certas.
Todo governante tem, sobre a mesa, um leque de opções que vai da contemplação dos interesses mais poderosos (e minoritários), opção que lhe concede aquela paz política dos cemitérios, até a contemplação dos interesses da maioria, o que pode lhe custar até a governabilidade por descontentar os que têm o poder de impor suas vozes sobre todas as outras.
O Brasil ainda não é tudo isso, conforme disse lá em cima, porque não se sabe se realmente entendeu que caminho tomar em 2002, reafirmou a opção em 2006 e será capaz de manter esse caminho em 2010 ou se, como diz a mídia, os brasileiros ficaram hipnotizados pelos belos olhos de Lula.
A eleição presidencial do ano que vem, pois, constituirá o teste definitivo para o Brasil, uma espécie de vestibular político cujo resultado poderá condizer com o papel que ocupamos hoje no mundo e impedir os que mantiveram o país ancorado até o século passado de voltarem a lesar o interesse nacional para forjarem algumas poucas e gigantescas fortunas com suas privatarias e a manutenção da opressão étnico-regional-social.
Não adianta ficarmos ansiosos. Estamos vivendo um processo histórico, um momento ímpar na história deste país. Espera-se que este povo esteja à altura do desafio que se lhe apresenta, mas é preciso entender que ainda temos carências culturais enormes que podem nos travar no meio do caminho...
Temos, porém, os indícios de 2002 e de 2006, ainda que tenhamos os de 2004 e de 2008, quando a direita entreguista e punguista conseguiu se manter viva conquistando governos mais “importantes” que os conseguidos pela esquerda.
Particularmente, penso que estamos prontos. Acho que insultos à inteligência de qualquer ser racional como foi o reaquecimento do factóide Lina Vieira não produzirão nada, pois o Brasil já os rejeitou contra Lula em 2002 e em 2006. E o melhor é que, com o desmoronamento dessa estratégia no ano que vem, a direita terá que se reciclar.
Quem tem algum resquício de massa cinzenta pulsando dentro do crânio – e um mínimo de senso de Justiça – certamente sentiu engulhos ao assistir o Jornal da Gazeta de segunda-feira.
Mesmo aquele telejornal sendo famoso pelo partidarismo, conseguiu me surpreender durante os comentários que a âncora Maria Lydia Flandoli e o comentarista político Mauro Chaves (Estadão) fizeram da cassação dos mandatos de 13 vereadores da base de apoio de Gilberto Kassab na Câmara Municipal de São Paulo.
Os vereadores paulistanos foram cassados porque receberam doação ilegal da Associação Imobiliária Brasileira (AIB).
O que me escandalizou foi Maria Lýdia e Chaves, pasmem!, defenderem os cassados, minimizando o crime eleitoral deles. Justo esses dois, que tanto moralismo têm vertido na questão de Sarney por acusações como a de ele ter conseguido um emprego para o namorado da neta no Senado.
Ficaram lá, aqueles dois caras-de-pau, desmanchando-se de dó dos vereadores, dizendo que a pena teria sido “desproporcional” e insinuando que a Justiça Eleitoral deveria, isso sim, ter ido para cima de Lula e de Dilma Rousseff por “usarem a máquina do Estado para se promoverem eleitoralmente”.
Fui entender por que tanta preocupação com a vereança malandra do PSDB e do PFL ao acessar o R7, único grande portal de internet que não escondeu que Kassab também corre o risco de perder o mandato por também ter recebido dinheiro da AIB, ainda mais em um momento no qual até governadores de Estado estão sofrendo essa pena.
A preocupação com o mandato de Kassab é tanta que os dois pseudo jornalistas de José Serra nem ousaram tirar uma casquinha de Marta Suplicy, o boneco de Judas da mídia, pois ela também recebeu dinheiro daquela associação e pode ficar inelegível.
Para os dois fantoches do tucanismo pefelento abrirem mão de atacar Marta também contribuiu o fato de Geraldo Alckmin, a grande aposta da direita paulista para manter o governo do Estado de São Paulo nas mãos do PSDB e do PFL, também ter recebido doação ilegal da AIB.
Tomara que a Justiça Eleitoral faça como fez com os governadores recentemente cassados e retome o mandato de Kassabe torne Alckmin e Marta inelegíveis. Mesmo que as doações da AIB tivessem ficado dentro da lei, já seria um escândalo esses políticos receberem dinheiro de uma entidade que tantos interesses deve ter a defender numa cidade como São Paulo.
A penalização desses políticos graúdos é vital para que todos os outros comecem a levar a sério as leis que regulam as doações eleitorais. E que reflitam que não podem receber dinheiro de quem tanto podem ajudar quando se elegem.
Se a nova ofensiva contra a candidatura Dilma no último fim de semana é o melhor que o governador José Serra e seus jornais, revistas, tevês e rádios conseguem fazer a esta altura do campeonato, já às portas do ano eleitoral de 2010, acho que os partidários da ministra-chefe da Casa Civil já podem começar a comemorar.
Enquanto o governo Lula faz o efeito da crise internacional no Brasil ser mesmo uma marolinha, faz um programa habitacional que já produziu quase 400 mil contratos, faz a maior criação de empregos formais do mundo em plena crise, faz o Brasil sediar a Copa do Mundo de 2014 e a Olimpíada de 2016 e dá ao país um prestígio internacional jamais visto, o que é que Serra, através de seus meios de propaganda, oferece?
A maioria dos paulistas pode não enxergar, mas a piora progressiva da qualidade de vida em São Paulo, o aumento da criminalidade, o caos no trânsito da capital do Estado, os salários miseráveis de professores, policiais e médicos paulistas e um dos mais baixos desempenhos da Educação no país são percebidos cada vez mais pelo resto dos brasileiros.
Enquanto São Paulo cresce timidamente, o Nordeste cresce a taxas chinesas. E, enquanto o presidente Lula vai dando emprego, renda, moradias, acesso de todos ao ensino superior e uma credibilidade e prestígio inéditos ao país, a oposição oferece Lina Vieira e suas acusações absurdas, que dão seqüência à idéia "brilhante" do governador paulista de carimbar na pré-candidata do PT a pecha de “mentirosa”.
O que mais impressiona é que a mentira de Lina é tão mambembe, mas tão mambembe que já caiu por terra antes mesmo de ser posta de pé, pois, no depoimento da ex-secretária da Receita ao Senado em agosto último, ela afirmou que viajou a São Paulo no dia do tal encontro com Dilma em Brasília (9 de outubro de 2008).
Há que perguntar, também, por que tanto trabalho para difamar uma pré-candidata que a mídia tem dito que estaria “caindo” nas pesquisas e que seria um fiasco eleitoral no ano que vem...
A resposta é muito simples: primeiro que as pesquisas não mostram nada disso. Dilma permaneceu estável e Serra é que tem caído. Em segundo lugar, simplesmente metade do eleitorado brasileiro, a parte mais pobre e menos informada da população, ainda não faz nem idéia de que o presidente que apóia com tanto vigor escolheu alguém para apoiar na eleição presidencial do ano que vem.
Não tendo encontrado nada no passado de Dilma para atacá-la, Serra manda seus jornais, revistas e tevês criarem o que denunciar, um factóide talhado para agir na mentalidade majoritária – mas não única – do povo de São Paulo, o único Estado em que o serrismo-midiático tem parte tão significativa da população sob controle mental.
Algumas vezes, nos últimos anos, fiz prognósticos temerários (na época em que foram feitos), como o de que Lula passaria como um trator sobre a mídia e a oposição em 2006 ou o de que a crise financeira internacional no Brasil seria mesmo uma marolinha. Agora, faço outro desses prognósticos: Dilma já ganhou a eleição presidencial do ano que vem.