Fora do país há uma semana, só agora tomei conhecimento do caso da estudante de uma universidade paulista que, por usar um vestido considerado “curto demais” pelos colegas, foi agredida verbalmente pelos gritos histéricos de centenas deles enquanto saía do local escoltada pela polícia (?!!) como se fosse uma criminosa.
A imagem que vocês vêem acima, tem cerca de 50 anos. É dos anos 1960. Mesmo naquela época, o episódio nessa universidade desse Estado incompreensível em que se converteu São Paulo, seria difícil de acontecer. E o vestido da moça da foto é mais curto do que o da garota agredida meio século depois da “invenção” da minissaia.
Não sei o que está acontecendo com São Paulo. Será que a decadência econômica diante de Estados que progridem e crescem muito mais, como os do Nordeste, está enlouquecendo parcela tão expressiva da população paulista? Duvido que em qualquer outra parte do Brasil acontecesse coisa semelhante.
São Paulo vem regredindo politicamente, culturalmente e economicamente. Elegemos um governador e um prefeito que estão destruindo o Estado e sua capital. A vida não pára de piorar em São Paulo, e o povo se mostra incapaz de enxergar que é só em São Paulo.
Os paulistas estão assumindo a vanguarda do atraso nacional em todos os sentidos. Uma maioria descerebrada, manipulada por meios de comunicação como fantoche, idolatra cada vez mais políticos, jornalistas e apresentadores de tevê que se dedicam a insuflar mentalidades como as desses moços e moças que cometeram essa barbaridade.
Quando se vê, pelo Brasil afora, meia dúzia de filhinhos de papai espancarem empregadas domésticas, atearem fogo em mendigos adormecidos nas ruas, espancarem homossexuais até a morte, sabe-se que são exceções que podem ser encontradas em qualquer parte do mundo.
Todavia, quando se assiste ao vídeo dessa moça sendo atacada por centenas de vozes – de colegas da universidade e até de professores (!!) –, percebe-se que essa mentalidade não é exceção. Praticamente a universidade toda, com as honrosas exceções que se está vendo, compactuou com aquela barbaridade.
Claro que, diante da loucura que geraram, os reacionários mais notórios se assustam e tentam parecer indignados. Mas o que aconteceu na tal Uniban é produto da mentalidade deles.
O vírus reacionário paulista é uma ameaça. Não se pode deixar que se espalhe pelo país. Essa doença político-midiática que está infectando São Paulo precisa ser contida com o único remédio para esse tipo de enfermidade: doses cavalares de democracia.
Mais da mentalidade paulista
No dia 10 de outubro de 2008, Jarbas Rezende, 25, José Eduardo, 18, e alguns amigos foram a uma festa no Centro Acadêmico de Medicina Veterinária da USP.
No desenrolar da festa, o casal gay resolveu dançar em cima de um palco. Estavam dançando e resolveram se beijar. O DJ parou a música, acendeu as luzes e começou apontar os rapazes dizendo para pararem.
Após a atitude do DJ, presidente do Centro Acadêmico de Medicina Veterinária da USP, todos presentes o apoiaram.
Segundo os estudantes que se beijaram, dois homens grandes os puxaram com violência e os colocaram para fora. Jarbas conta ainda que, além dele e de Eduardo, os amigos também foram expulsos e alguns que tentaram defendê-los foram ameaçados de agressão.
Em seu relato, Jarbas diz que, mesmo sofrendo tal discriminação não pôde contar com a ajuda da Guarda da USP. "A polícia demorou muito para aparecer, foram omissos".
No momento em que foram expulsos da festa, os meninos disseram que iam chamar a polícia. Para a surpresa de ambos, pessoas presentes no evento falaram que se o casal chamasse a polícia eles seriam denunciados por "atentado ao pudor".
*
Há alguns anos, a ex-prefeita Marta Suplicy separou-se do senador Eduardo Suplicy e se casou de novo. Qualquer um que more em São Paulo sabe que passou a ser qualificada como "vagabunda" e jamais ganhou outra eleição. Qualquer um da capital paulista sabe que a causa foi, como mulher, Marta ter ousado refazer a própria vida com outro homem.
Direita paulista se assume
Para quem acha que exagero:
Observação: infelizmente, o pateta que gravou o vídeo acima deve ter tido tantos problemas pelas bobagens que disse que retirou o vídeo do ar. Ele dizia que os animais que atacaram a garota da Uniban eram "revolucionários", que quem a estava defendendo eram os "comunistas" e outras barbaridades do gênero. E deve ter se assustado com a quantidade de exibições de sua obra estúpida. Quando coloquei aqui, o vídeo tinha algumas dezenas. No fim do dia desta postagem, chegaram a milhares.
Não quererei erigir-me um portento de virtudes por cumprir a pena a que nos condenou a todos o Pecado Original, mas não resisto a outro pecado, capital, o da vaidade, com o qual o triunfo no ganha-pão ora me seduz.
Ao fim deste dia, triunfei. Ganhei o pão, para mim e para os meus, com o suor do rosto de que fala o Livro Sagrado dos cristãos.
A você, leitor, pode parecer pouco. Todavia, para aquele que, como este que escreve, leva a alma dilacerada pela dor indizível de ter que assistir, impotente, ao sofrimento físico de uma filha ainda impúbere, qualquer alento é bem vindo.
Dizem os sábios das ciências econômicas da dificuldade de vender ao estrangeiro, oriunda das paridades e disparidades cambiais que encarecem os produtos brasileiros. E ela existe, sim. Mas neste dia que termina tardio, provei que não é intransponível.
O segredo do bom negociante é a persistência, virtude que a este vosso servo jamais faltou, seja no exercício de seus deveres de cidadania, seja no desempenho do oficio que abraçou.
Por esta possibilidade de poder suar-me as faces para ganhar o pão que me sacia e aos meus, agradeço. Quantos não foram agraciados com a persistência ou com a inteligência necessárias à superação dos obstáculos...
Os caprichos do destino são dolorosos, mas são estes momentos de saciedade do espírito que nos permitem superar os desertos de recompensas e alegrias que somos obrigados a cruzar tantas vezes em nossas breves vidas.
Obrigado, meu Deus.
Interlúdio justificável
Em quase quatro anos, poucas vezes deixei de atualizar este blog por mais de 24 horas. Esta é uma dessas vezes.
Estou na cidade argentina de Junin, a 300 quilômetros de Buenos Aires. Vim de ônibus - uma viagem de quase cinco horas - porque não há opção aérea para vir até aqui.
Estou morto de cansaço. Por conta disso, só postarei de novo no domingo.
Em Buenos Aires há quatro dias, ainda não havia ousado tratar do governo de Cristina de Kirchner por absoluta falta de informações. No entanto, obtive tais informações e, portanto, vamos ao trabalho.
Confesso que, mesmo tal governo sendo de esquerda – e sendo eu um esquerdista –, sempre achei estranho que Néstor Kirchner tivesse indicado sua mulher para sucedê-lo – parecia-me coisa de “república bananeira”. Além disso, a queda expressiva da popularidade dela me parecia impossível que não se devesse a erros administrativos graves que teria cometido.
Nesta quarta-feira, porém, tive oportunidade de me aprofundar mais no assunto. Não posso dizer que mudei de opinião – até porque, não tinha uma opinião sólida –, mas, pelo menos, posso afirmar que a queda de popularidade da presidente argentina não me parece ter uma razão concreta, podendo realmente derivar de mero bombardeio midiático do estilo que sofre Lula.
O primeiro fator que fez com que me aproximasse dessas conclusões foi não ter recebido uma só resposta satisfatória para a questão que sempre faço a pessoas de várias classes sociais dos países que visito: “O que este governo modificou em sua vida, para melhor ou para pior?”.
Nenhum dos críticos veementes do casal Kirchner (que são indiscutível maioria na Argentina, pois cerca de dois terços dos argentinos votaram contra o governo nas últimas eleições legislativas) com os quais conversei soube me explicar racionalmente por que não gosta do governo deles – e não tenho dúvidas de que Cristina governa com seu marido.
A história sobre inflação ascendente não é bem assim. Desde que estive neste país em 2006, o dólar se valorizou fortemente em relação ao peso – de quase três pesos para quase quatro por dólar –, o que explica um aumento da inflação no período.
Contudo, não há nada parecido com o processo inflacionário exacerbado – e supostamente mascarado pelo governo – que dizem que há neste país. Comparei recibos de despesas de minha última viagem com os desta e percebi que algumas coisas ficaram mais baratas, inclusive.
A economia argentina cresceu a taxas chinesas no governo de Néstor. Com a crise financeira internacional, porém, o país perdeu crescimento, claro, como nós, brasileiros, também perdemos, mas está se recuperando e deve crescer mais ou menos como o Brasil neste ano. Então por que a rejeição à presidente Kirchner aumentou tanto?
A razão mais freqüente que ouço está na briga que ela comprou com o agronegócio e as políticas consideradas como “persecutórias” de seus opositores na mídia e entre parte do empresariado, que, como no Brasil, aliaram-se aos políticos de direita, de oposição ao governo federal.
Escrevo depois de passar a tarde toda com um cliente, um próspero empresário argentino que, surpreendentemente, declarou-se de esquerda e apoiador deste governo devido a políticas sociais que considera exitosas - tratamos de negócios por uma hora e de política por mais de três horas. Ele me fez entender muita coisa por meio de argumentos plenamente verossímeis.
Apesar de parecer antidemocrático um presidente colocar sua mulher em seu lugar, isso foi feito através de uma eleição legítima. Além disso, o povo queria a continuidade do governo Kirchner, pois ele havia tirado o país da bancarrota. Cristina, portanto, foi uma exigência popular.
A perda de popularidade de Cristina parece ser resultado de uma amalgamação entre a crise econômica e o bombardeio midiático a seu governo, que, à diferença do bombardeio que sofre Lula, não deriva de preconceito – esse bombardeio só começou quando ela desafiou o agronegócio ao aumentar os impostos das exportações de produtos agrícolas.
E por que a presidente argentina aumentou esses impostos? Foi devido ao aumento expressivo do lucro dos produtores rurais gerado pela alta do dólar e pela valorização internacional das commodities. Estavam ganhando os tubos e o governo entendeu que deviam dividir algo com o conjunto da sociedade. Além disso, estavam começando a deixar faltar produtos internamente para exportarem.
Não se compreende, assim, por que o povo argentino, que foi beneficiado por esses impostos maiores dos produtos agrícolas destinados à exportação – tais impostos reverteram-se para programas sociais –, pôs-se ao lado de ruralistas espertalhões que não quiseram dividir com o país os ganhos muito maiores que passaram a auferir.
O que impressiona mais, porém, é a similaridade dos métodos das mídias argentina e brasileira. É possível que o PIG brasileiro esteja dando aulas ao argentino. Só que, como os Kirchner receberam a Argentina muito mais debilitada do que Lula recebeu o Brasil em 2002, a crise bateu muito mais forte neste país. Por conta disso, o arsenal midiático vem sendo muito mais eficiente por aqui.
Mas há uma forma de Cristina se recuperar, apesar de que governará os dois anos restantes de seu mandato com um Congresso hostil, em que a oposição terá maioria.
Conforme relatei recentemente, Lula é um ídolo para os argentinos. Se viesse até aqui apoiar Cristina explicitamente, com toda certeza a aprovação a ela melhoraria, o que seria bom para este povo, porque a vitaminada oposição político-midiática irá sabotar a Argentina para se apresentar como salvação em 2011, ano de eleição presidencial.
Nós, brasileiros, trazemos na memória uma impressão desse grande povo argentino que deixou de corresponder à realidade há muito tempo, o mito de seu exacerbado orgulho. Pode ter sido verdade, mas num passado distante. A Argentina sofreu tanto nas últimas décadas que, hoje, o que se percebe por aqui é uma tremenda baixa auto-estima.
Nos últimos quase trinta anos, os argentinos vêm sofrendo humilhações sucessivas que fizeram com que perdessem totalmente o orgulho acerbo de seu país que, em minha opinião, não só era justificável antigamente como continuaria sendo até hoje, se persistisse.
A primeira grande humilhação desse período foi a derrota acachapante para a Grã Bretanha na Guerra das Malvinas. Depois, vieram os anos de surtos inflacionários que praticamente destruíram a economia do país, culminando com a crise do “corralito” do início deste século.
Enquanto que ontem esse povo falava maravilhas de si, hoje é difícil encontrar um argentino que não maldiga seu país e seu povo, o que, a meu ver, é injustificável, pois se trata de um povo culto, com o segundo melhor padrão de vida da América Latina – o Chile tirou deles o primeiro lugar no ranking do IDH.
E vou lhes dizer, eles nos tratam, aos brasileiros, como irmãos. Pelo menos é o que sinto. Admiram nosso país. E os vejo humildes, mais até do que deveriam, ainda que humildade nunca seja demais.
Hoje, porém, sou obrigado a tecer loas à gastronomia deste país, com suas carnes, doces e vinhos... Em três dias de intensa gastronomia portenha, devo ter ganhado uns bons quilinhos extras. Con mucho gusto.
Tigre
Reproduzo para vocês, abaixo, algumas imagens da belíssima Tigre, cidadezinha da grande Buenos Aires a cerca de 20 quilômetros do Obelisco, marco do centro da região urbana. E este povo ainda reclama da vida...
Nada como uma viagem de trabalho fora do país para a gente ver o que significa ser brasileiro hoje em dia. Aqui em Buenos Aires, por exemplo, jamais recebi um tratamento de VIP (Very Important Person) como o que me deram desde os clientes até o recepcionista do hotel.
De domingo – quando cheguei à Argentina – até agora, garanto que ouvi de todos aqueles com quem conversei se não havia uma forma de nós, brasileiros, doarmos a eles nosso presidente da República, pois acreditam que só um Lula para dar jeito no país deles como, segundo dizem, ele deu no nosso.
Além disso, espantam-se com a força de nossa economia e não se cansam de falar da gigantesca promessa que é o Brasil contemporâneo.
Devo reconhecer, porém, que, do mais pobre ao mais rico, não encontrei ninguém satisfeito com o governo de Cristina Fernandéz de Kirchner. Mesmo entre seus auto-declarados eleitores. E as razões são as mesmas pelas quais muitos venezuelanos, por exemplo, estão insatisfeitos com Hugo Chávez, apesar de este ter muito mais apoio interno que a presidente argentina.
Outro dado interessante é o de que, apesar de as pessoas (mesmo as de direita) estarem insatisfeitas com Kirchner, reconhecem que o monopólio de meios de comunicação, sobretudo o do grupo Clarín, é realmente abusivo.
O problema é que a disposição para brigar da presidente Kirchner ou do presidente Chávez são condutas consideradas danosas à sociedade. E é aí que Lula ganha pontos mesmo entre a direita argentina. Eles reconhecem que sua tolerância com seus críticos midiáticos é o melhor para um país.
Os argentinos dizem que o sucesso do governo Lula se deve, em boa parte, ao seu espírito democrático de aceitar as críticas loucas (o termo foi usado pelos argentinos com os quais conversei) dos meios de comunicação brasileiros.
Nunca senti tanto orgulho de ser brasileiro quanto nos últimos dois dias.
Sábado à noite (24/10/2009, próximo à meia noite), Sistema Brasileiro de Televisão (SBT). Na tela, Sílvio Santos, José Serra, Gilberto Kassab e “aspones”. O dono do SBT faz elogios rasgados ao governador e ao prefeito, os quais, nas palavras do próprio Kassab, formam “a dupla que governa bem São Paulo”. Serra, por sua vez, diz que é “tão bom cantor quanto governador”.
Entre elogios e auto-elogios, o homem do baú e os chefes dos Executivos municipal e estadual paulistas ocupam minutos infindáveis daquela concessão pública para fazerem escancarada campanha eleitoral. No dia seguinte (este domingo), acesso o site do jornal Folha de São Paulo e vejo, de cara, três ou quatro textos sobre a “campanha eleitoral” que Lula e Dilma estariam fazendo.
Todo dia é isso. Globo, SBT, Bandeirantes, TV Gazeta, CBN, Eldorado, Folha, Estadão, Veja, O Globo, UOL, IG, Terra, G1... Em todos esses veículos, acusações a Lula e a Dilma de que estariam fazendo campanha eleitoral. Não se vê uma só dessas acusações a Serra.
Jamais vi na TV tão acintoso uso eleitoral de uma concessão pública para promover dois políticos como vi no SBT ontem à noite. Em minha opinião, aquilo constitui motivo mais do que suficiente para que o PT, ao menos, tome uma atitude. Silvio Santos prometeu ali ser um dos mais engajados cabos eleitorais de Serra no ano que vem. Só que o SBT não é dele, é concessão pública...
A única forma de fazer com que a imprensa admita que Serra está usando os cofres públicos, as concessões públicas e, numa estranha aliança, a mídia privada para fazer campanha eleitoral antecipada, será o PT fazer uma queixa à Justiça eleitoral, como fazem, direto, o PSDB e o DEM, e por razões muito menos concretas.
Desde Argentina
Em algumas horas, embarco para Buenos Aires. Permanecerei duas semanas na Argentina. O próximo post será escrito da capital daquele país.