Apesar do título, este não é, propriamente, um texto sobre Caetano Veloso. Até porque, este não é um blog musical, mas político, e esse excelente artista, como se viu nessa meia dúzia de grosserias que disse sobre o presidente Lula, nada tem a dizer sobre o tema.
Discordo de cada palavra do que disse Caetano, mas gosto de sua música. Eu já o escutava cantar quando era um garoto e isso faz muuuito tempo. Sobre o homem, porém, não tenho nada muito importante a dizer.
Durante a ditadura, ele foi um folclórico como tantos outros do "tropicalismo" que coexistiram com ela e a enfrentaram com cabelos longos e trejeitos andróginos que açulavam a homofobia ditatorial, de maneira que não vou condená-lo ou defendê-lo por isso.
Outra coisa foram as reações dos simpatizantes de Lula e de seu governo contra a diatribe de Caetano contra o presidente, o qual chamou de “analfabeto”. Espantaram-me essas reações.
Cometerei uma pequena inconfidência neste post, mas é por uma boa causa. E como citarei só o milagre sem citar o santo, acho que não farei mal a ninguém. Além do que, revelar o fato terá um efeito didático.
O fato: fui procurado por pessoas interessadas em organizar um protesto contra Caetano pelas agressões que fez ao presidente da República. Envolveria até quebrar seus discos no ato público.
No dia em que eu começasse a organizar protestos contra pessoas que manifestaram suas opiniões, imediatamente pensaria em me tratar. Mas, provavelmente, estaria sendo duro demais comigo mesmo. Tal disposição seria explicável.
Em situação normal, ter esse tipo de idéia faria com que eu pensasse até mal de seu proponente. Contudo, quando se vive uma situação em que um artista famoso faz um ataque bobinho desses sem que os veículos de comunicação que publicaram tal ataque dêem espaço para alguém dizer exatamente o oposto, aí fomentam-se idéias como essa de se fazer um ataque até à obra de Caetano, além de ao próprio.
Quem propôs essa idéia, diante de meu alerta de que seria ridículo logo se deu conta de que sua propositura não tinha lógica. Houve sensatez. Contudo, fico um pouco assustado com o nível de radicalização de ambos os lados.
É inadmissível que o presidente da República seja tratado da forma que foi por Caetano, mas só do ponto de vista da boa educação. Ser mal educado não é crime, e organizar protestos públicos contra gente grossa, é burrice. Não é o mesmo que protestar contra uma instituição como uma Folha de São Paulo ou contra um juiz da Suprema Corte, que, nessa condição, não representa uma pessoa, mas um Poder.
Só posso lamentar que a falta de equilíbrio da imprensa provoque nos prejudicados um estado de ânimo um tanto quanto irracional e, nos beneficiados, uma atitude olímpica de se sentirem no direito de dizer qualquer asneira por saberem que não serão contestados.
Nesses momentos, sinto que meu sonho de viver num país em que eleições fossem tratadas com seriedade – focando no que realmente importa em vez de em baixarias –, ainda está longe de se concretizar.
Colunista do Grupo Folha diverge da linha “oficial”
Por Kennedy Alencar, na Folha Online
O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso fez novo movimento para assumir a linha de frente da oposição ao governo Luiz Inácio Lula da Silva. Em artigo no último domingo (01/11), nos jornais "O Globo" e "O Estado de S. Paulo" desceu a lenha em Lula com elegância e vigor.
Segundo FHC, o petista comete "transgressões cotidianas". Atropela a lei e os "bons costumes". Faz uma aliança de natureza política autoritária, unificando sob verbas públicas os interesses do Estado, de sindicatos, dos movimentos sociais, dos fundos de pensão e das grandes empresas. Alerta para o risco de subperonismo. E sapeca um novo conceito político-sociológico: "autoritarismo popular".
Em meio a uma oposição sem discurso, com potenciais candidatos ao Palácio do Planalto que não desejam atacar Lula, FHC cumpre o papel de tentar desgastar um presidente, que, com sua alta popularidade, tentará eleger como sucessora a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff.
FHC, porém, esquece o passado. No seu governo, os fundos de pensão das estatais foram usados politicamente para a formação de consórcios privados que arremataram empresas públicas. O Estado, naqueles anos, atuou no limite da irresponsabilidade, como disse Ricardo Sérgio de Oliveira, ex-diretor da área internacional do Banco do Brasil que ficou muito rico nos anos FHC.
A Força Sindical, hoje nos colos de Lula, era massa de manobra do PSDB. A aliança com o PFL, hoje DEM, não difere muito da firmada pelo PT com o PMDB, em nome de um realismo político que sacrifica a ética. No estilo de governar, FHC e Lula se parecem, com algumas nuances.
O petista é mais desabrido ao abraçar figuras de biografias suspeitas?
Sim.
Mas o tucano nomeou um procurador-geral da República que ficou conhecido como engavetador-geral da República.
O procurador-geral é o único que pode pedir abertura de investigação e de processo penal contra o presidente da República. FHC não se arriscou com as seguidas nomeações de Geraldo Brindeiro. Lula escolheu o mais votado da categoria. E viu um deles denunciar a existência de uma organização criminosa em seu governo.
Houve tentações no governo Lula, mas ele nunca cruzou a linha que separa a democracia do autoritarismo. Quando tentou, a sociedade reagiu. Já o tucano mudou, com apoio popular, a regra eleitoral no meio do jogo, obtendo a possibilidade de disputar a reeleição em 1998.
Resumindo: FHC exagerou. E, quando isso acontece, costuma ser bom para o atacado.
O tucano parece que está chateado com o eleitor que votou democraticamente em Lula, um presidente que tem seguido à risca o que prometeu. "Autoritarismo popular" soa meio golpista e demófobo. Não é algo à altura do ex-presidente.
Há que prestar atenção a um fato político que poderá dar uma chacoalhada na mídia daquelas de fazê-la perder o rumo.
Durante meses a fio, do início do agravamento da crise, em setembro do ano passado, até meados do segundo trimestre deste ano, Sardembergs e Leitões garantiram na tevê recessão no Brasil em 2009. Além de centenas de editoriais, artigos etc.
O crescimento de 2009 poderá criar enorme barriga da mídia. Pode haver um crescimento espantoso do país neste ano, como demonstra a notícia do Jornal de Brasília, abaixo.
Mantega diz que Brasil deverá ter crescimento anualizado acima de 8% no terceiro trimestre
Jornal de Brasília - 06/11/2009
O Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro deverá crescer acima de 8% no terceiro simestre deste ano, considerando os dados anualizados.
A previsão foi feita pelo ministro da Fazenda, Guido Mantega, hoje (5) em Londres, ao participar do seminário Investindo no Brasil, promovido pelos jornais Financial Times e Valor Econômico.
Os dados oficiais do PIB no terceiro trimesttre serão divulgados nos próximos dias pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
O ministro lembrou que no segundo trimestre a economia já havia registrado um crescimento anualizado de 7,8%. Para Mantega, o atual nível de recuperação indica uma previsão de crescimento da economia na casa de 5% em 2010.
Durante o seminário Investindo no Brasil, o ministro da Fazenda fez uma análise da atual situação da economia brasileira.
Oito por cento é crescimento chinês. Uma das pré-condições para um crescimento vigoroso em 2009, obviamente que dentro do contexto de uma crise como essa, era o Brasil chegar a esta época do ano com crescimento como o que está se vendo.
Quem quiser se divertir com as explicações de Sardembergs e Leitões para o fracasso de seus vaticínios, que fique atento. Eles dirão, agora, que aquilo que diziam ser impossível agora dever-se-á ao que teria sido plantado na era FHC.
Todavia, há um manancial inesgotável de textos muito bem assinados e publicados e de vídeos em arquivos na internet que darão material para governistas gozarem da cara da oposição até o fim da campanha eleitoral do ano que vem.
Aliás, falando em FHC, o governo deve estar rezando para que continue exercitando a mandíbula. Sobretudo ao dar palpites sobre economia. FHC refresca a memória dos brasileiros.
A distância dela torna o reencontro um alento a que poucas vezes prestou atenção como desta vez. É bom voltar para casa, mas é melhor voltar para ela, para aquela da qual, sempre que se separa, sente um vazio que só o reencontro logra preencher.
Uma vez ouviu que Deus fez a mulher da costela do homem e que o vazio deixado ali sempre faria com que os homens buscassem incansavelmente a parte que lhes fora extraída e sem a qual não têm como viver e se realizar.
É por isso que os homens perseguem as mulheres, para encontrarem a parte que lhes falta da alma, para preencherem esse vazio árido que elas lhes deixam por dentro e que lateja até que estejam juntos.
Encontraram-se, pois, e, antes de mais nada, examinaram-se. Cada detalhe. Cada ruga que nasce, cada fio branco de cabelo que irrompe ainda timidamente, cada arquear ou franzir de sombrancelhas, cada tremor dos lábios, cada fuga e mergulho dos olhares.
Procuram sinais de dor um no outro. Dor física, num primeiro momento, e dor n’alma depois. Encontram ao menos um deles. Preocupam-se. Alisam-se os cabelos, entrelaçam as bocas, fundem-se num abraço impetuoso.
Palavras sobre os filhos maiores e sobre a neta, primeiro. Depois, bem depois de um longo silêncio, sobre ela, a caçula, que, doentinha, faz com que seu estado de saúde seja o ponto aonde ambos queriam chegar desde o primeiro olhar do reencontro.
E, finalmente, a volta do silêncio, mas também do alento da união das metades, da sensação de completude sem a qual não mais lhes seria possível viver.
Faz tempo que não dou notícias da Victoria às centenas de “tios” que ela conquistou entre o leitorado deste blog, os quais gosto de pensar que, com pensamento positivo, preces, eventuais visitas à minha filha no hospital e ligações diárias em busca de informações, têm-na ajudado, o que me impõe o compromisso de lhes dar informações periódicas sobre sua saúde.
Nesta quinta-feira, faz 46 dias que minha filha foi internada na UTI. A rigor, não houve progresso nem piora relevantes. O mais inquietante é o prolongamento da situação.
Victoria continua com o pulmão esquerdo parcialmente tomado por atelectasia pulmonar, com forte secreção nas vias respiratórias – o que obriga a dezenas de aspirações por dia –, crises convulsivas periódicas e uma febre intermitente em intervalos de poucos dias.
No momento, o diagnóstico feito e a estratégia de tratamento dos médicos são, respectivamente, aspiração de alimentos e de saliva pelo pulmão durante o processo rotineiro de deglutição e realização de gastrostomia (colocação cirúrgica de válvula no abdome para alimentação parenteral) e extração das glândulas salivares.
Contudo, como a febre voltou, tais procedimentos cirúrgicos foram adiados até que a equipe médica julgue que Victoria tem condições físicas de agüentar bem sua realização, sem riscos maiores. Não há estimativa de quando tais condições serão atingidas, por enquanto.
Segundo a equipe médica do Hospital Santa Catarina, as chances de sucesso desses procedimentos resumem-se, principalmente, à aceitação da válvula para alimentação parenteral pelo organismo de minha filha - haveria um “pequeno” risco de rejeição da prótese estomacal.
Depois das críticas ao ‘subperonismo’ petista, tucano evita polêmica
De Adauri Antunes Barbosa:
Depois de fazer pesadas críticas ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva e ao seu governo, falando inclusive em "subperonismo", o ex-presidente Fernando Henrique (PSDB) ontem evitou polêmica e ainda admitiu que a popularidade do petista poderá transferir votos para a candidatura da ministra Dilma Rousseff à Presidência.
— Um dos candidatos da oposição tem por volta de 40%. A candidata do governo tem por volta de 15%, 16%. Já teve mais e caiu. O presidente Lula tem 65%, 70%. (Dizem que) O presidente não transfere (votos). Como não transfere? Já transferiu 15%. Ela não tinha nada, zero. Ele transferiu e pode transferir mais — afirmou, durante o seminário "O Brasil pós-crise: uma agenda para a próxima década, promovido ontem pelo Instituto Fernando Henrique Cardoso (iFHC).
Para ele, a campanha de 2010 deve levar o eleitor ao futuro e não ao passado. A oposição, aconselhou, deve criar horizonte e "não discutir número".
— Na política você tem que criar um horizonte e despertar confiança, não é discutir número. Isso depende do personagem. Depende do desempenho. Mesmo com os dados que dei, que são verdadeiros, isso não assegura a vitória porque vai depender do desempenho. Mas o contrário também é verdadeiro. Você ter o apoio de alguém que tem muito voto não assegura a vitória. Depende do desempenho e da capacidade de haver, não é transferência de voto, é identidade de percepção da pessoa. Este é igual àquele. Aí você pode ter. E é raro ter transferência — disse o tucano.
Minha opinião
O consórcio tucano-pefelê-midiático passou as duas últimas eleições presidenciais tentando fazer valer a estratégia de induzir amnésia na sociedade. Tanto em 2002 quanto em 2006 a estratégia foi a mesma. Lembram-se daquela história de Serra em 2002 de que não deveríamos “Olhar no retrovisor”?
Eles não querem discutir privatizações, não querem discutir o que fizeram quando estiveram no poder, não querem discutir a oposição que fizeram nestes anos todos ao Bolsa Famíla, ao Prouni, ao PAC, às medidas do governo de gastar em plena crise econômica, enfim, só querem discutir “como o governo Lula é ruim”.
Não sei, não, mas acho que essa insistente estratégia da oposição midiática de querer tratar a sociedade como se tivesse um controle remoto social que lhe permitisse avançar ou retroceder nos assuntos de acordo com sua vontade e conveniência, tem tudo para não funcionar. De novo.
O que me espanta na Folha, na Globo, na Veja e no Estadão, acima dos outros tentáculos do tucanismo, é a crença dessas empresas de que precisam escrever editoriais como Capitalismo Tutelado, da Folha deste 5 de novembro, sendo que todos já sabem, quando FHC ou Serra fazem um ataque ao governo Lula, de que lado estes veículos ficarão.
Em qualquer país que tivesse imprensa em vez de partidos políticos travestidos de imprensa, no mínimo dever-se-ia analisar o governo Lula tanto por seus resultados quando pela comparação com o governo de seus críticos. Mas, no Brasil, sabe-se de antemão o que a imprensa dirá sobre tudo que se refira à política, pois, em mais de sete anos, ela comprou cada uma das teses oposicionistas.
Os números de um estudo relativo ao posicionamento político da grande imprensa durante o atual governo e durante o governo anterior falará por si só no sentido de mostrar que ela não passa de um apendice do PSDB. Por isso esse estudo está tendo que ser feito e terá que ser largamente divulgado, na hora certa. Quero garantir que será.
Eduardo Guimarães
Editorial da Folha de São Paulo de 5/11/2009
Capitalismo tutelado
FHC diz que governo Lula estimula bloco de poder burocrático-corporativo; embora exagerada, sua crítica faz sentido
O EX-PRESIDENTE Fernando Henrique Cardoso provocou um debate relevante acerca do novo "bloco de poder" que estaria sendo alimentado sob o patrocínio do governo Lula, com traços autoritários e consequências nefastas para o país. Em longo artigo publicado no domingo pelos jornais "O Estado de S. Paulo" e "O Globo", o tucano começa por chamar a atenção para as "transgressões cotidianas, o discricionarismo das decisões, o atropelo, se não da lei, dos bons costumes" por parte do seu sucessor ou do governo petista.
FHC faz um inventário de atitudes e exemplos condenáveis de Lula e nelas detecta um DNA que "pode levar o país, devagarzinho, sem que se perceba, a amoldar-se a um estilo de política e a uma forma de relacionamento entre Estado, economia e sociedade que pouco têm a ver com nosso ideais democráticos".
O cerne da crítica de Fernando Henrique se volta para o que chama de "poder burocrático-corporativo" estimulado por este governo: aliança entre Estado, sindicatos, movimentos sociais, fundos de pensão e grandes empresas, "cada vez mais fundidos nos altos-fornos do Tesouro".
"Com ajudinha do BNDES, então", ironiza o tucano, "tudo fica perfeito". Diante de partidos desmoralizados e da satisfação popular com a economia, que favorecem a liderança autoritária e personalista, estariam lançadas as bases do que FHC chama de "subperonismo" -alusão a Juan Domingo Perón (1893-1974), o caudilho que governou a Argentina em três ocasiões.
O ex-presidente carrega nas tintas, como seria de esperar de um líder oposicionista, e peca por exagero ao descrever a configuração do atual governo. Sua análise, contudo, ilumina os piores aspectos do lulismo.
Vale ressaltar que a participação do BNDES nas privatizações e a ingerência política nos fundos de pensão estatais tiveram início no governo FHC. Mas a verdade é que o problema mudou de escala.
Este é um governo que vem estimulando de modo sistemático, como se fosse uma diretriz, a aliança entre algumas das maiores empresas privadas e grupos de interesse aninhados no Estado e no partido. O assédio recente do Planalto sobre os investimentos e rumos da Vale é um exemplo disso. A viabilização da compra da Brasil Telecom pela Oi/Telemar, que demandou mudanças legais e dinheiro do Banco do Brasil e do BNDES, é outro.
A participação do Estado na economia brasileira ainda é excessiva. Na relação divulgada recentemente das cem maiores empresas do país, dois terços são de capital nacional ou misto -e, entre essas, metade são estatais ou tem o governo como acionista de peso, via BNDES. Um governo menos tentacular e corporativo e mais orientado para as necessidades reais da população é o que se deveria buscar. Não é para isso que aponta o lulismo.
O balão de ensaio que vem sendo soltado pela mídia sobre uma possível desistência de Serra de se candidatar a presidente no ano que vem, é balela. Não resta à oposição outra alternativa que não seja a de pelo menos fazer com que o governador de São Paulo puxe votos para o consórcio tucano-pefelê-pepessista.
A eleição do ano que vem será diferente das outras eleições federais, sobretudo num aspecto: os dois lados tratarão de tentar eleger grandes bancadas nas duas casas do Congresso.
O governo Lula descuidou de sua base parlamentar em 2002 e em 2006, acuado pela mídia nas duas vezes – mais na segunda do que na primeira. Ou seja: mídia, PSDB e PFL conseguiram obrigar a coalizão governista a focar esforços na manutenção do Palácio do Planalto.
Desta vez, a mídia nem sonha em atacar a ética dos adversários de Serra. Sabe que o povo estará pensando com o bolso. Ano que vem, o país estará com a economia bombando (7% ao ano?), o real estará forte e dando poder de compra à população, os jovens estarão conseguindo empregos como nunca enquanto mais pobres escalarão ainda mais a pirâmide social.
Isso sem falar do moral alto. Acabo de voltar da Argentina – dez dias em Buenos Aires. O povo está com a auto-estima no chão. As pessoas andam de cara amarrada nas ruas. O mesmo acontece por toda parte do mundo. Menos no Brasil. O brasileiro está feliz e esperançoso. Até FHC reconheceu isso nesse artigo publicado no Zero Hora que ganhou tanto destaque.
Mas nem por isso a oposição pode abrir mão de tentar manter-se forte ao menos no Congresso. Se minguar, se a base de apoio parlamentar num eventual governo Dilma for sólida como a de Lula nunca foi, PSDB e PFL acabarão se tornando um PP de terno e gravata, ou coisa que o valha.
Por tudo isso, acho que essa conversinha de que Serra irá disputar a própria sucessão ao Bandeirantes, é furada. Só não vê quem não quer – ou quem acredita em Papai Noel.
Mídia e Serra querem tirar este da linha de fogo. E nem é tanto da artilharia da blogosfera, que ainda não assusta. É da artilharia de Lula. O presidente andou esboçando perda de paciência com a mídia do governador paulista e, por tabela, com o próprio.
Um Lula batendo em Serra do alto de 80% de aprovação, batendo talvez até nominalmente – apesar de que Lula não é disso, preferindo a ironia –, assusta o tucano bem mais do que assusta à sua mídia, que se limita a cumprir sua “obrigação” de fazer propaganda dele através da tentativa de desmoralização dos seus adversários ou fazendo insinuações de boas políticas dele e ocultação de seus muitos erros e até de suas ações antiéticas.
Tira-se o tucano da artilharia e tranqüiliza-se mais a máquina de Lula, o qual é a própria locomotiva de tudo. Ano que vem, para perder ou ganhar, pois, a candidatura do governador de São Paulo será inevitável. Uma candidatura Aécio faria o PSDB encolher.
A oposição se encolhe e a mídia lhe dá provas de lealdade mantendo o bombardeios a Lula e Dilma, mas quem manda mesmo é o capo careca da Mooca, e ele está assustado.
Contudo, há o fator orgulho. Depois de tantas gozações, de tanto tripudiar sobre a esquerda desde 2004, 2005, a direita e seus jornais, revistas, tevês, rádios e portais de internet deixarão o fígado falar mais alto.
Vejam só a manutenção de FHC vivo e falante. É pura picuinha. A melhor coisa (para Serra) seria ele sumir do mapa, mas o consórcio tucano-pefelê-midiático parece preferir a morte a admitir que o ex-presidente foi um desastre para o país, pelo menos na opinião dos brasileiros.
Todo império cai pela mesma razão: arrogância. Ou, se preferirem um dito mais popular, todo peixe morre pela boca – e pelo fígado. A direita acha que quem tem o poder (ao menos de falar mais alto) “de facto”, tem que manter o nariz empinado, desdenhando dos opositores.
Mas eles subestimam Lula, prioritariamente. É um fator psicológico. Não conseguem admitir que ele seja mais esperto. Querem ser mais espertos e querem fazer isso como rolo compressor. Não admitem não poderem manipular o jogo transformando seu discurso em discurso “de consenso” através do bloqueio do discurso adversário.
O presidente já está provando que sua estratégia – que eu mesmo questionei muitas vezes aqui – é correta. Bom cabrito não berra.
Pretendia voltar ao Brasil no sábado, mas, talvez por ser bom vendedor – ou por ter muita sorte –, “estourei a boca do balão” em minhas vendas neste país – foi, de longe, a missão comercial mais rentável e exitosa que fiz neste ano, com dólar em queda livre e tudo – e, assim, decidi antecipar minha volta para esta quarta-feira, 4 de novembro.
Já fiz tudo o que tinha que fazer na Argentina e, além disso, estou tremendamente ansioso para ver minha filha Victoria, internada na UTI do hospital Santa Catarina, em São Paulo, há 45 dias. Além do que, fico achando que minha família pode estar querendo me poupar de alguma coisa para não atrapalhar minha atividade profissional. Essa ansiedade está me pondo maluco.
Mas não poderia ir sem aproveitar para registrar alguns flagrantes que captei do cotidiano buenairense durante caminhada que fiz pelo centro da Capital Federal argentina.
Peguei o metrô na estação Carlos Gardel, cuja entrada fica a poucos metros da porta de meu hotel, na avenida Corrientes, ao lado do shopping Abasto, e desci na estação Florida. Dei uma caminhada pelo calçadão da antológica rua do centro de Buenos Aires, onde presenciei o quase linchamento de um batedor de carteiras.
Enquanto caminhava, fui advertido por três pessoas, cada uma em ponto diferente do trajeto, para o perigo de andar com uma câmera por ali, perigo que poderia me render um furto ou até um assalto.
A tensão e o mau humor pairam nas ruas, no comércio, em toda parte desta cidade. Os argentinos não estão bem com seu país. Mais uma vez. Não sei o que acontece por aqui. Parece uma maldição que os persegue. Quando as coisas começam a melhorar para eles, afundam de novo.
Volto a postar no fim da tarde ou no começo da noite desta quarta-feira, já daí do Brasil.
Comentário do leitor Tomas, vendedor de Niterói, caiu como uma luva neste post que eu estava planejando para permanecer em primeiro plano entre segunda e terça-feira – sim, planejo a maioria dos meus posts às vezes com dias de antecedência. Ao comentário, pois:
Mas o que fazer? Os órgãos de imprensa mais lidos e comentados são o Estadão, a Folha, a Globo e a Veja. O que deveríamos ler? Pode-se discordar desses veículos, mas a leitura dos mesmos é muito importante. Até para se fazer mau juízo deles. Caso contrário, sobra o que para escrever? Noventa por cento das matérias deste blog – e de todos os blogs da internet - dizem respeito a eles.
Pois é, certamente a maioria de vocês pode não gostar, mas o vendedor do Rio tem toda razão – e não vai aí qualquer tipo de corporativismo de categoria profissional, se é que vocês me entendem.
Como negar que, mesmo batendo todo dia nesses veículos citados pelo leitor, são eles que fazem o favor de dar assunto a mim, ao Azenha, ao Rodrigo Vianna, ao PH e a toda a blogosfera? Que faríamos sem eles, aliás?
Realmente eles são importantes, como diz o leitor. Não pela qualidade de seu jornalismo, mas pela capacidade deles de criarem crises e de gerarem pautas. E isso porque são verdadeiros impérios de comunicação.
Aí, dirão seus admiradores – e papagaios – que, se são grandes, é porque são competentes etc., etc. Bobagem. São grandes e ricos – o que lhes dá recursos para gerarem de pautas a crises políticas – porque foram vitaminados pelo regime militar brasileiro, para o qual prestaram relevantes “serviços”.
Tomemos o exemplo dessa crise em Honduras. Como nenhum blog ou qualquer outro meio de comunicação da imprensa alternativa tem recursos financeiros para mandar um correspondente para lá para fazer um contraponto decente ao que relata a imprensa golpista tupiniquim, temos que nos limitar a desmontar as defesas veladas que os veículos supra mencionados fizeram dos golpistas hondurenhos.
Todo este nariz-de-cera (introdução longa a um assunto) serve para tentar responder à questão formulada pelo meu congênere de profissão, o carioca Tomas, sobre o que fazer se só quem gera pautas no Brasil são Globos, Folhas, Vejas e Estadões.
No post anterior, vocês viram o que fazer. Além de tudo que mudou no Brasil nos últimos anos (para melhor), agora há um veículo de comunicação com porte e dinheiro para se opor ao PIG, a TV Record.
Confesso, porém, que não me sinto confortável com uma “imprensa do Lula”. Não é porque o Serra tem a imprensa dele que eu acho que o presidente tem que ter a sua. Imprensa boa, para mim, não seria de ninguém.
Contudo, não posso negar que, pelo andar da carruagem, na próxima eleição presidencial haverá, como nunca antes na história deste país, uma tevê “do Lula”.
E vale dizer que tremo só de pensar que o presidente pode estar comprando o apoio da tevê do Bispo assim como Serra e FHC, em minha opinião, compraram os apoios de Marinhos, Frias, Civitas e Mesquitas – ou seja, com dinheiro público.
Porém, é inegável que, no ano que vem, a luta eleitoral entre o projeto da direita, encarnado por Serra, e o da esquerda, que então será defendido pela dupla Lula-Dilma, será equilibrada como nunca aconteceu depois do fim da ditadura militar.
A matéria da Record no post anterior (que chega a denunciar a ficha falsa da Dilma publicada pela Folha em sua capa) mostra que a esquerda poderá ter um grande e rico meio de comunicação ao seu lado, ainda que Serra venha a ter todos os outros mega impérios de comunicação do seu.
Isso sem falar no tempo de tevê para propaganda eleitoral “gratuita”, que Dilma deverá ter muito mais do que o despachante careca do PIG graças, primordialmente, à aliança entre PT e PMDB.
Diante disto tudo, só posso imitar o Paulo Henrique Amorim e dizer “Bye, bye, Serra 2010”. Afinal, não dá para jogar limpo com quem chuta os “países baixos” do adversário, enfia dedo no olho etc.
PS: em termos de geração de pautas, o post anterior foi uma combinação de pauta da Folha com outra da Record. Já é um grande avanço, vocês não acham?
De todos os veículos de comunicação que compõem o aparato de propaganda da direita brasileira, provavelmente a Folha de São Paulo é o mais embriagado, o que menos consegue enxergar o que está acontecendo no país. Aliás, o porre do jornal é tão grande que ele não consegue enxergar nem o que acontece consigo mesmo.
A hemorragia de leitores que a Folha sofre parece não lhe dizer nada, como não diz aos outros veículos que se transformaram em partidos políticos.
Talvez isso aconteça porque ter público não seja o objetivo desses jornais, tevês, revistas, rádios e portais de internet. Talvez porque a sobrevivência deles há muito tenha deixado de depender dos resultados comerciais que obtêm...
Publicando falsificações contra uma ministra de Estado em sua primeira página, por exemplo, a Folha acha que “cola” sua alegada “isenção”. E para “provar” como tem tido sucesso em ludibriar seu público, publicou, em sua edição de ontem, a matéria abaixo, a qual comento logo em seguida.
Leitor elogia noticiário da Folha sobre eleição
Entre aqueles que acompanham reportagens e artigos sobre a sucessão presidencial, 86% aprovam a cobertura do jornal
Maioria dos leitores avalia que a Folha dedica ao tema o espaço adequado e não favorece nem prejudica nenhum dos candidatos
DA REDAÇÃO
A pouco menos de um ano das eleições, o leitor da Folha aprova a cobertura que o jornal vem fazendo sobre o assunto. Pesquisa realizada pelo instituto Datafolha mostra que 61% dos leitores estão acompanhando reportagens e/ou artigos sobre a sucessão presidencial. Destes, 86% dizem que a cobertura do jornal até agora foi ótima ou boa, contra 2% que a consideram ruim ou péssima. Para 12%, ela tem sido regular.
A pesquisa foi feita por telefone, entre os dias 19 e 20 de outubro, com 350 leitores do jornal que moram na Grande São Paulo (capital e região metropolitana). A margem de erro é de cinco pontos percentuais. (...)
Questionados a respeito de sua intenção de voto para presidente da República, sem que lhes seja apresentada qualquer relação de nomes, 20% respondem espontaneamente que pretendem votar em José Serra (PSDB), atual governador de São Paulo. Marina Silva, senadora pelo PV do Acre e ex-ministra do Meio Ambiente do governo Lula, aparece com 6%. Está tecnicamente empatada com a pré-candidata do PT, ministra Dilma Rousseff, com 3%. Os resultados entre os leitores diferem dos obtidos em São Paulo na pesquisa Datafolha realizada em agosto, tendo como base toda a população.
Serra, naquela pesquisa, era citado espontaneamente por 8%. Para 75% dos leitores do jornal que acompanham o noticiário eleitoral, a cobertura não está favorecendo nenhum pré candidato. Dilma Rousseff está sendo favorecida na opinião de 8% dos leitores, enquanto 3% consideram que Serra é favorecido pela cobertura do jornal. Para 85% dos leitores, a cobertura não prejudica nenhuma das candidaturas.
Governo Lula
A cobertura em relação ao governo Lula é considerada "crítica na medida certa" por 68% dos entrevistados e "menos crítica que o necessário" por 17% deles. Para 48% dos leitores, a gestão de Lula é ótima ou boa. Entre a população paulistana, essa era a avaliação de 60% das pessoas em agosto, segundo o Datafolha.
A maioria dos leitores (66%) também considera que a cobertura sobre o governo José Serra em São Paulo é "crítica na medida certa". Outros 21% consideram a cobertura "menos crítica que o necessário".
(...)
A embriaguês da Folha salta aos olhos quando se assiste à matéria da tevê Record lá em cima. A pesquisa que o jornal exibiu em triunfo ontem mostra apenas que, depois da sangria de leitores que sofreu, ainda assim restam alguns descontentes, os quais, em breve, deverão aumentar ainda mais a queda de tiragem.
A pesquisa foi feita com assinantes e só quem paga para ler um jornal é quem gosta dele – quem não gosta, deixa de assinar. Surpreende, portanto, que a cobertura política da Folha não seja aprovada por 100% dos seus leitores tucanos. Sua situação de credibilidade está bem pior do que eu pensava.