Nunca na vida estive tão convencido sobre de que lado ficar em uma disputa – e sobre por que escolher um dos lados. Sendo assim, volto a este blog para tentar convencer leitores que buscam a verdade dos fatos a igualmente abraçarem este ponto de vista.
Entre os leitores silenciosos, essa maioria impressionante de pessoas que vem aqui todos os dias e jamais se manifesta, acredito que muitos não opinam por falta de uma opinião completamente formada.
A estes, quero pedir que reflitam sobre o que acho que acontece hoje na política brasileira. E o que acho que acontece é que nunca os mocinhos e os bandidos estiveram tão claramente caracterizados. E olhem que não é fácil, porque dificilmente algum dos lados pode ser considerado “mocinho” na política.
No momento, porém, acho mais do que lícito dizer que um dos lados age corretamente e o outro, de forma criminosa.
Há uma injustiça revoltante nesse processo de acusação incessante a um governo tão cheio de êxitos para exibir como é o governo Lula e de acobertamento irrestrito de um governo tão cheio de falhas inexploradas como é o governo de José Serra.
A melhor forma de se constatar a diferença de tratamento dos dois governos, neste momento, é ler os jornais.
Hoje, por exemplo, veio a público o desabamento de uma obra do Rodoanel que circunda São Paulo. O desastre aconteceu no trecho que cruza a rodovia Régis Bittencourt. Vigas pesando toneladas desabaram sobre os veículos na pista. Há gente gravemente ferida.
O assunto foi manchete de primeira página dos dois maiores jornais paulistas, mas sem acusações e decretações de culpa do governo do Estado. Nada de editoriais e artigos furibundos. Bastou uma declaração de Serra de que tudo será apurado. Em dois ou três dias a mídia abandonará o assunto, se demorar tanto.
Quem se lembra do desastre com o avião da TAM, quando chegou a sair matéria de primeira página dizendo que Lula assassinara 200 passageiros, nota a sobriedade das manchetes sobre desastre em obra de um governo aliado da imprensa.
No caso recente do apagão, por falta de luz em boa parte do país durante no máximo três horas, coisa que jamais acontecera neste governo, foi produzido muito mais material “jornalístico” de acusação e deboche do que nos oito meses do racionamento de energia e arrocho ao bolso do consumidor no fim do governo FHC.
A mentira e a injustiça transformaram-se em rotina. Fabricam fatos e até documentos falsos, alarmam a população provocando problemas gravíssimos de saúde pública e na economia, acobertam escândalos de corrupção contra políticos oposicionistas. Agindo assim, retardam o progresso do país, que mesmo com sabotagens teima em resistir.
Não tenho a menor dúvida de que, na eleição do ano que vem, o bem e o mal se confrontarão. A injustiça e a justiça, a verdade e a mentira, a sinceridade e a dissimulação, o certo e o errado, enfim.
Declaro, portanto, que, como cidadão desvinculado de grupos de interesses políticos e partidários – ou de qualquer outro tipo –, por meios próprios e sem querer nada em troca trabalharei como puder para impedir que José Serra se eleja presidente da República.
Já que José Serra teima em mandar a Globo, a Folha, a Veja, o Estadão e os penduricalhos destes tentarem enfiar na cabeça das pessoas que o blecaute de terça-feira é igual aos oito meses de racionamento draconiano de energia elétrica com o qual o governo Fernando Henrique Cardoso torturou o país, vamos às comparações para descobrir se é tudo mesmo tão igual como dizem o governador tucano e sua mídia.
Apagão de FHC (2001 e 2002)
O país teve que economizar 20% de energia elétrica durante o período do racionamento. Se os brasileiros não tivessem conseguido economizar, teriam ocorrido cortes periódicos e programados de energia elétrica nas cidades.
O plano atingiu 35% dos consumidores residenciais do Sudeste e o Centro-Oeste e 87,9% dos consumidores do Nordeste, além do comércio e da indústria
COMO ERAM AS PENALIDADES
Só era obrigado a economizar 20% quem tinha conta mensal acima de 100 kWh.
Quem consumia entre 101 kWh e 200 kWh não pagava multa, mas tinha que economizar 20% para não ter a energia cortada.
Quem consumia acima de 200 kWh por mês ficava sujeito a corte e multa.
As contas de luz acima de 200 kWh mês eram sobretaxadas mesmo que o consumo estivesse dentro da cota.
MULTA VARIAVA DE 50% A 200%
Os consumidores que não reduziam o consumo pagavam tarifas de 50% a 200% mais caras pela energia que ultrapassava a cota.
Todo consumo entre 201 kWh e 500 kWh era sobretaxado em 50%, mesmo que o consumidor economizasse os 20%
A parcela acima de 501 kWh tinha uma sobretaxa de 200%.
QUEM ULTRAPASSAVA COTA FICAVA NO BREU POR ATÉ 6 DIAS
Quem descumpria as cotas de racionamento estava sujeito a um corte de energia de três dias no primeiro mês e seis dias em caso de reincidência.
Para saber qual foi a cota para junho de 2001, no início do racionamento, o consumidor teve que calcular a média do que tinha consumido em maio, junho e julho de 2000 e cortar 20%.
AS COTAS PARA A INDÚSTRIA E COMÉRCIO
Indústria e comércio com rede de baixa tensão tiveram que reduzir o consumo para 80% do consumo médio dos meses de maio, junho e julho do ano passado.
Indústria e comércio de alta tensão tiveram a meta calculada em função do nível de tensão e do setor da empresa. Para esse grupo, a meta de redução variava de 75% a 85%. A média também era calculada com base nos consumos dos meses de maio, junho e julho de 2000.
O consumidor rural teve que reduzir em 10% o consumo médio de energia a partir do dia 1º de junho de 2001, na comparação com os meses de maio a julho do ano anterior.
“Apagão” de Lula (10/11/2009)
Falta de luz por períodos que variaram de quinze minutos a três horas.
Poucas vezes este país se viu tão necessitado de uma atitude de um presidente da República quanto se vê neste momento. E a atitude em questão é a de o primeiro mandatário ir à televisão, em rede nacional, e desmentir a enorme farsa montada pela mídia por conta de uma falha no sistema elétrico nacional.
Depois de tentar vender ao país epidemias, desastres econômicos, caos aéreos, dossiês e fichas policiais falsas, agora a mídia tenta vender uma crise de energia elétrica que, até prova em contrário, não existe.
Nunca faltarão “especialistas” dispostos a dizer o que a mídia quer em troca de uns minutinhos na tevê, mas o fato é que a maioria dos que entendem do traçado considera o sistema de geração e transmissão de energia brasileiro altamente confiável e modelar para outros países.
Por todos os critérios, este governo tem feito um trabalho excepcional num país que recebeu sem energia para crescer. Obras enormes de geração de energia foram construídas. A capacidade brasileira de geração e distribuição constitui-se inclusive no principal fator que tem permitido ao Brasil crescer o que vem crescendo.
Hoje, pode-se estar consumindo talvez o dobro de energia que se consumia há uma década e há fôlego para continuarmos crescendo, tanto na geração quanto na distribuição.
No entanto, as tevês comerciais abertas (com exceção da tevê Record), as rádios ligadas a grupos de comunicação, os grandes portais de internet, os grandes jornais de circulação nacional todos mergulharam numa crise histérica e desandaram a repetir o mantra de que o governo cometeu “erros” e que a situação da energia no Brasil seria “grave”.
Não posso dizer que é mentira ou verdade, mas quando a oposição e a mídia responsabilizam a pré-candidata do PT à presidência da República, a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, pela falta de luz durante a madrugada de terça para quarta-feira, não dá para levar essa gente a sério.
Há dois dias que cerca de 90% dos telejornais foram tomados pelo assunto apagão. Os portais de internet não falam de outro assunto. No momento em que escrevo, assisto à Globo News. Estou diante da tevê e do computador há quase duas horas e o assunto não muda, e a emissora sempre acusando o governo e dando razão à oposição.
O fato é que os brasileiros estão sendo submetidos a uma verdadeira lavagem cerebral, estão sendo alarmados, e vocês se lembram do efeito do alarmismo midiático sobre a economia no fim do ano passado e os resultados que esse alarmismo teve sobre o emprego e a produção.
A onda foi a mesma: avassaladora. Até entre a imprensa alternativa houve quem desse razão à mídia e a suas premonições de caos econômico. E agora o peso da cobertura histérica do “apagão” faz até gente séria e experiente entrar, de novo, na onda “mata-e-esfola-Lula-e-Dilma”. A sociedade, mais uma vez, está sendo alarmada.
Cabe, pois, ao presidente Lula ir à tevê e lembrar as previsões sobre caos econômico e outras previsões alarmantes que não se confirmaram, de forma a fazer as pessoas raciocinarem diante da lavagem cerebral midiática e não tomarem atitudes intempestivas como as que fizeram o desemprego disparar no Brasil no fim do ano passado.
Os procedimentos cirúrgicos de gastrostomia e de retirada das glândulas salivares aos quais minha filha Victoria foi submetida entre as onze da manhã e as quatro e meia da tarde desta quinta-feira tiveram pleno êxito, segundo a equipe médica do hospital Santa Catarina.
Victoria chegou ao seu quarto na UTI semi-desacordada e choramingando. Nos lados esquerdo e direito da parte superior do pescoço, próximo às mandíbulas, dois curativos do tamanho de uma caixa de fósforos cada um. No lado posterior esquerdo de seu dorso, na altura do umbigo, um curativo maior e um tubo plástico ou de borracha saindo.
Alivia o sucesso das operações, mas os sofrimentos pelos quais ela tem passado nos cortam os corações em uma infinidade de pedaços. Não sei quem sofre mais, se Victoria, minhas filhas, meu filho ou eu, mas acho que a resposta é a minha mulher. Aquilo tem sido sofrimento...
Enfim, cada um com seus problemas. O meu não é maior ou menor do que o de ninguém. Apenas estou desabafando.
Mas também pensei algo de útil: como deveria ser pior no tempo em que a ciência ainda não sabia solucionar esse problema de aspiração de saliva, água e alimentos pelos pulmões de crianças portadoras de paralisia cerebral. Na certa muitas morriam estupidamente.
Bem, foi melhor assim. A alimentação por sonda parenteral fará Victoria engordar. Ela estava melhor, já vinha sorrindo bastante. Agora teremos apenas que passar esse pós operatório com as lágrimas dela, que mais parecem punhais em nossos peitos compungidos.
Mas Victoria vencerá essa luta desigual. Não tenho mais dúvidas. Isso é o que posso lhes dizer sobre minha filha. E acho que é bem melhor do que poderia ser, apesar dos pesares.
É verdade que metade do país ficar às escuras durante período que variou de alguns minutos a cerca de quatro horas é um fato que precisa ser esclarecido tanto quanto foi tantas outras vezes durante o governo Lula, quando tentaram, uma e outra vez, exatamente como agora, jogar nas costas deste governo a culpa por um novo desastre de planejamento e fiscalização igual ao desastre ocorrido durante a privataria tucana do setor elétrico.
Nunca colou. E agora tampouco irá colar simplesmente porque a fórmula é sempre a mesma, de tentar fazer as pessoas acreditarem que alguns minutos ou horas de blecaute equivaleriam a quase um ano de racionamento de energia elétrica e arrocho no bolso dos consumidores.
A mídia veio com fúria. A Globo News não teve outro assunto o dia inteiro. Os âncoras dos telejornais com cenhos franzidos e lábios apertados comunicavam que acontecera num só dia o que aconteceu no Brasil entre 1999 e 2002 (cerca de TRÊS anos).
Como foi fartamente explicado, apesar de o sistema de segurança contra algum efeito dominó na distribuição de energia elétrica ter titubeado, até que surja prova em contrário nada autoriza dizer que esse sistema é frágil. Pode não voltar a acontecer por anos. Pode mesmo ter sido uma fatalidade. E pode não ser...
Se não for, se um problema houver, haverá todo tempo do mundo para culpar o governo e cobrar explicações. Mas a pressa é muito grande. É preciso explorar ao máximo o ocorrido enquanto está fresco na memória das pessoas. Com sorte, algumas menos dotadas intelectualmente virão a introjetar a idéia de que houve um apagão no governo Lula. A aposta é na burrice.
E, para refrescar a memória de vocês – e “deles” –, reproduzo, abaixo, artigo de Luciano Martins Costa no Observatório da Imprensa. E lhes dou um conselho: dêem uma olhadinha na data.
*
Por Luciano Martins Costa no Observatório da Imprensa em 10/1/2008
Comentário para o programa radiofônico do Observatório da Imprensa de 10/1/2008
Os grandes jornais brasileiros trazem na quinta-feira (10/1) uma cobertura desigual sobre a questão da energia. Enquanto o Estado de S.Paulo e a Folha destacam declarações do ministro interino das Minas e Energia, o Globo afirma que só a ocorrência de chuvas ainda em janeiro poderia evitar a necessidade de racionamento. A imprensa já fala em "apagão".
Os jornais dividiram o assunto entre suas seções de Política e Economia, o que ajuda o leitor a entender melhor o assunto, mas deram destaque exagerado ao aspecto político. O Estadão, por exemplo, aposta que existe uma "crise elétrica" e que ela põe em risco a entrega do Ministério das Minas e Energia ao peemedebista Edison Lobão, apadrinhado do senador José Sarney.
Embora tenha maior destaque, a questão política tem pouco valor para os leitores – cansados de saber que, com ou sem crise, Sarney vai manter sua quota de protegidos no governo. Aliás, em qualquer governo.
Corte no consumo
A Folha e o Globo também se prenderam exageradamente ao desentendimento entre o ministro interino e o presidente da Agência Nacional de Energia Elétrica. O presidente da Aneel havia afirmado que não é impossível a necessidade de racionamento ainda neste ano, e foi desmentido pelo ministro.
Apesar disso, o tom geral do noticiário é alarmista. A palavra "apagão" aparece em todos os jornais, invocando o fantasma de 2001, quando o Brasil passou por um racionamento compulsório que durou até fevereiro de 2002.
Na ocasião, os maiores reservatórios do sistema interligado nacional estavam se esvaziando rapidamente e havia insuficiente investimento em geração e distribuição de energia. Durante a crise de 2001, a imprensa substituiu sabiamente o noticiário alarmista por recomendações técnicas, e a população brasileira aderiu a uma campanha de economia, cortando em média 20% no consumo de eletricidade.
Um dos resultados mais evidentes foi o quase desaparecimento do freezer de uso doméstico. Durante o racionamento, as famílias descobriram que o freezer gasta muita energia e se tornou menos útil porque, com a queda da inflação, não é mais necessário estocar alimentos. Segundo a Eletrobrás, 23% dos domicílios brasileiros ainda possuem freezer, mas 25% deles estão desligados desde 2001.
TV desligada
A imprensa bem que podia se antecipar a qualquer possibilidade de crise e começar já a informar a população sobre como economizar energia. A primeira medida recomendada é substituir o chuveiro elétrico ou fazer um uso mais racional dele. A segunda é desligar a televisão de vez em quando. Mais de 97% dos lares brasileiros possuem um aparelho de TV, que costuma permanecer ligado de manhã até à noite, mesmo sem ninguém diante dele. Difícil vai ser convencer as emissoras de televisão a recomendar que a televisão seja desligada.
As cirurgias de Victoria
Peço aos amigos vossas preces e/ou torcidas por minha filha Victoria, que, nesta quinta-feira, às dez horas da manhã, será submetida a duas cirurgias: uma para colocação de válvula no estômago para alimentação parenteral, e outra para retirada de suas glândulas salivares.
Fiquei impressionado com a eficiência da imprensa. Às três da manhã, quando a energia elétrica retornou, havia montes de matérias nos portais de internet sobre um “apagão” que se abateu sobre vários Estados do Sul e do Sudeste no fim da noite de ontem. E os jornais todos saem hoje com matérias amplas sobre o assunto.
Detalhe: a falta de luz começou depois das 22 horas, muito próximo do fechamento das edições do principais jornais do país, que mostraram-se incrivelmente mobilizados para coberturas tão emergenciais. Pareceu até haver um esquema de “cobertura” muito bem montado.
O termo “apagão”, que foi o que vi no G1 e no UOL, deverá ser generalizado e explorado à farta pela mídia. Ela tentará vincular um episódio isolado e desencadeado por causa desconhecida ao racionamento de energia que ocorreu no fim do governo Fernando Henrique Cardoso devido a falta de investimentos em geração de energia naquela época.
A exploração de um episódio isolado, porém, terá vida curta... Mas será que terá mesmo? E se o episódio não for isolado e outros apagões misteriosos voltarem a ocorrer?
Chama atenção, assim, como os portais da grande mídia parecem ter organizado um plantão especial nas redações de ontem para hoje. Há uma fartura de informações em matérias longas que, repito, parecem ter precisado de um poderoso aparato jornalístico para ser produzidas
A colunista Eliane Cantanhêde, da Folha de São Paulo, por exemplo, em plena madrugada produziu uma conversinha sobre “empurra-empurra entre Itaipu e Furnas”. Eu poderia jurar que a matéria estava pronta quando acabou a luz em metade do país.
Aí entra em cena informação divulgada pelo jornal paraguaio ‘ABC Color’ de que a primeira peça que caiu no dominó elétrico seria... de São Paulo.
Claro que tudo pode não passar de teoria conspiratória minha, mas é bom ficarmos atentos. Já imaginaram que maravilha seria, para certos grupos políticos, se outros episódios como esse continuassem acorrendo? Haveria como dizer, no ano que vem, que Lula também produziu um apagão como o do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.
É por isso que quero recomendar ao menos ao Ministério das Minas e Energia que investigue a fundo as causas desse apagão supostamente desencadeado em São Paulo. Acredito que alguns políticos são capazes de “pisar no pescoço” de qualquer um que ameace o sucesso de seus projetos políticos, como sempre diz Ciro Gomes.
Aliás, bom mesmo seria pôr a Polícia Federal na parada. Sabotadores de linhas de transmissão podem ser contratados e poderiam agir com facilidade num país como o nosso. Sucessivos cortes de energia são tudo o que certa oposição descerebrada poderia querer no momento em que afunda nos próprios dejetos.
Pesquisa Vox Populi divulgada no telejornal da TV Bandeirantes na noite desta terça-feira (10/11) mostra queda de 4% de José Serra e alta das intenções de voto de 4% de Dilma Rousseff em relação a pesquisa daquele instituto divulgada no começo do mês na revista Veja.
O cenário mais provável desta nova pesquisa ficou assim:
José Serra – 36% (tinha 40%)
Dilma Rousseff – 19% (tinha 15%)
Ciro Gomes– 13%
Heloisa Helena – 6%
Marina Silva – 3%
José Serra e Marina Silva têm 11% de rejeição; Dilma tem 12%.
Impressiona como Marina Silva construiu rejeição tão alta em tão pouco tempo. Deixar-se utilizar pela direita certamente está repercutindo entre seu eleitorado historicamente de esquerda.
E o mais importante. O Vox Populi perguntou quantos já fizeram sua escolha eleitoral, dado que nenhuma pesquisa tinha mostrado claramente. Vejam o resultado:
Já decidiu em quem votar - 33%
Não decidiu, mas tem uma idéia - 12%
Não decidiu e não sabe em quem votará - 55%.
Essas pesquisas são uma enorme bobagem a esta altura do campeonato. O país não pensa em eleições. Está satisfeito com Lula. Ano que vem, quando tiver que pensar o que fará sem ele, não tenho dúvida de que irá querer saber quem ele indicará para continuar sua obra.
Por outro lado, é preciso entender o contexto dessa pesquisa e ver como na dança das simulações os resultados deste ou daquele candidato podem oscilar sem que se possa, neste momento, ter muita certeza de nada além de que o governo Lula terá um candidato fortíssimo no ano que vem.
E quanto aos que perguntam se haveria tempo para Dilma reverter o quadro, acho que deveriam perguntar se daria tempo para Serra ou Aécio reverterem um ano brilhante para o Brasil como 2010 se configura. Achar que um país nessa situação e com um governo tão amplamente aprovado terá dificuldades sérias para fazer seu sucessor me parece meio inexplicável.
Essas pesquisas, até o momento, resumem-se a instrumentos de cooptação de apoios entre os partidos, sobretudo o PMDB. Não dizem nada sobre o futuro. O que diz sobre o futuro é a situação do país e, sobretudo, da economia.
Não há uma só área da vida nacional em que um quase ufanismo não salte aos olhos. O Brasil abre os olhos e se enxerga como em cinqüenta anos de vida não me lembro de ter se enxergado.
Tenho uma convicção praticamente inabalável de que o Brasil está pronto para levar um projeto de desenvolvimento concreto até o fim. Estivemos sempre esperando por isso. Foi assim com Collor, com FHC e com Lula. Só deu certo com este. Mas com todos eles acreditamos que o país poderia decolar.
Essa pesquisa deve funcionar como café quente e forte para despertar a oposição tucano-pefelista de sua embriaguez midiática
Alonga-se o caso da estudante da Uniban devido a uma postura estarrecedora não da direção da instituição, mas dos alunos, daquela massa humana que por pouco não estuprou e surrou a moça no dia dos fatos – provavelmente, graças à chegada da polícia.
O assunto não morreu porque os alunos vêm dando entrevistas sem mostrar arrependimento. Poderiam reconhecer o erro e receber Geisy com um pedido de desculpas. Fariam bonito, demonstrariam generosidade. Mas não, preferem o orgulho burro que cada vez os afunda mais.
Alguns deles, e as pessoas que os apóiam, porém, fazem pior do que o conjunto daquela horda misógina que atacou Geisy Arruda. Ao criticarem-na, atribuindo-lhe a culpa primordial pelo ataque que sofreu, emulam o argumento com que todo estuprador procura justificar os ataques às suas vítimas.
O que aconteceu na Uniban, no último dia 22, convencionou-se chamar de “bullying”, termo inglês utilizado para descrever atos de violência física ou psicológica praticados por um indivíduo ou grupo de indivíduos com o objetivo de intimidar ou agredir outro indivíduo – ou grupo de indivíduos – incapaz de se defender.
Todavia, entendo que esse caso do vestido cor-de-rosa assemelha-se mais a um estupro, sobretudo pelas justificativas dos agressores e de seus simpatizantes assumidos e dissimulados, de que Geisy “pediu por aquilo” devido à sua forma de se vestir e de andar.
Nunca ocorre a essa gente que a sensualidade muitas vezes é tão pulsante naquela pessoa que ela não a exala de forma completamente premeditada, ainda que nada faça para contê-la. Jamais lhes ocorre que ser sensual não é um convite a qualquer um para fazer sexo. Sensualidade é como a beleza, a feiúra, a bondade ou a maldade: faz parte do indivíduo.
É assim, porém, que os estupradores se defendem. “Ela pediu por aquilo com suas roupas indecentes, com seu rebolado insinuante, com suas gargalhadas altas, com seu rosto pintado, com sua forma de tratar os homens...”.
Não, ela NÃO pediu. Não poderia. Essa é uma ilação. Uma conclusão própria baseada nas próprias convicções de quem a formulou. É cinismo, falta de caráter, autoritarismo, insensibilidade, egoísmo, uma arrogância sem par querer definir o que o outro sente ou pensa, ainda mais sem conhecê-lo.
Estupro deve ser o crime social mais antigo de todos e a humanidade não consegue eliminá-lo. O caso do vestido cor-de-rosa explica por quê.
Imagine a cena: a ministra-chefe da Casa Civil, administradora de fato das obras do Programa de Aceleração do Crescimento, do governo federal, aparece em uma peça publicitária no intervalo do Jornal Nacional.
A trilha sonora, ao fundo, é apoteótica. As imagens das obras do PAC são grandiosas e a locução, grandiloqüente. E o locutor é ninguém mais, ninguém menos do que a própria ministra, que, na primeira pessoa do plural, conta como eles (ela) estão fazendo aquela obra magnífica e quanto o eleitor irá ganhar com ela.
No dia seguinte, Folha, Globos, Veja, Estadão, TV Bandeirantes, TV Gazeta, Rádio CBN e tantos outros repercutem as queixas da oposição. O presidente do Supremo Tribunal Federal diz que a ministra está fazendo propaganda ilegal etc. Os editoriais indignam-se com o uso de dinheiro público para Dilma fazer campanha eleitoral.
A única parte disso que acabo de descrever que não aconteceu foi a ministra estrelar uma peça publicitária sobre as obras do governo que integra. O resto, aconteceu tudo. E por uma participação em vistoria de obras do governo Lula que nem foi produzida em peça publicitária e veiculada em horário nobre na tevê.
Por outro lado, temos José Serra, que aparece em propaganda na tevê paga com o dinheiro da paulistada. Todo santo dia. Em horário nobre. Durante longos minutos, no intervalo dos telejornais, o governador de São Paulo aparece exaltando a própria obra. Só não há meios de comunicação ou Gilmar Mendes criticando.
Aí está a situação que vivemos. Um pré-candidato à Presidência consegue silêncio absoluto da mídia sobre uso da máquina para se promover e a adversária dele não consegue menos barulho sobre seu suposto uso da máquina nem quando está de férias.
Não sei como é que pode. E o PT não dá um pio. Limita-se a ficar se explicando sobre eventos de que Lula e Dilma participam lá no meio do nada sem qualquer cobertura de tevê e muito menos de equipe de filmagem paga com dinheiro público. E se há tevê, é para serem criticados até cansar.
Pouco me importa se mesmo com tudo isso Serra perder a eleição do ano que vem. O que me incomoda é o PT não fazer nada, o Ministério Público Eleitoral não fazer nada e, sobretudo, a imprensa não dar um pio.
Poucos assuntos esquentaram tanto a galera quanto esse caso da Uniban e o massacre moral que praticou contra a estudante Geisy Arruda. Li vários textos interessantes, que abordaram desde os aspectos mais tétricos do que fizeram com a moça quanto o que ela fará com a fama conquistada – se posará para a Playboy ou se estreará algum programa infantil na Globo, onde poderá exibir seus dotes físicos para crianças pequenas, grandes e até para as da terceira idade.
O que chama a atenção até da imprensa internacional nesse caso é o surto moralista numa sociedade conhecida por exibir mulheres completamente nuas na tevê no Carnaval. Chamam atenção os que se escandalizam com três centímetros a mais de coxa e com o rebolar de uma jovem. Pergunta-se como coexistem com os festejos carnavalescos por quatro dias ao ano.
A mim não importa o que Geisy fará com a fama, com o papel de namoradinha – e que namoradinha! – do Brasil, se é que fará. Em minha opinião, se ela puder transformar esse limão numa limonada, acharei até justo. Não só porque ela precisa e tem direito tanto quanto qualquer BBB da vida, mas porque teve a coragem de expor essa safadeza dessa universidade sem-vergonha, hipócrita, dirigida por gente que toca uma universidade como se fosse a venda da esquina, onde “o cliente sempre tem razão”.
Outras se recolheriam, sumiriam no nada de onde vieram com medo da exposição e dos advogados da poderosa universidade. Por enfrentar tudo o que está enfrentando – ataques à sua honra por mentirosos que não hesitaram em inventar que ela começou a mostrar as “partes íntimas” para todos –, Geisy poderá ajudar a que se faça na questão da absurda discriminação contra a mulher que se viu o que a comunidade internacional está fazendo com Honduras ao não permitir que os golpistas se dêem bem.
Os trogloditas de todas as idades e posições da Uniban também não podem se dar bem. E os trogloditas metidos a machões que quiseram filmar por baixo da saia da garota ainda estão tendo que agüentar a fama não de homossexuais por a instituição em que estudam estar sendo chamada de “Unibambi”, pois o homossexual masculino adora mulheres, torna-se amigo delas, muitas vezes o melhor. A fama é de misóginos, de homens que odeiam as mulheres a ponto de fazerem o que fizeram com Geisy.
E é muito bom que seja assim. E muito melhor ainda que a imprensa esteja cumprindo seu papel. Há que pressionar para impedir que a conduta desses energúmenos tenha sucesso. Todos temos irmãs, mães, filhas, netas. Nenhum de nós quer correr o risco de vê-las sendo chamadas de “putas” e de “vagabundas” – ou até sofrendo ameaça de estupro – por algum palhaço achar que aquela roupa dela revela mais do que deveria.
Por tudo isso é que quero agradecer a Geisy e fazer votos de que toda essa barbaridade pela qual ela está passando possa ao menos resultar em um emprego melhor do que aquele que tem na vendinha próxima de sua casa, onde trabalha honestamente segundo depoimentos do patrão, dos vizinhos, dos amigos e de sua família, os quais garantem, todos, ser ela uma moça “de família”. Não sei o que é moça “de família”, mas sei que, com sua coragem, Geisy ajudou muito as mulheres.
Como pai de três filhos crescidos e já independentes, posso dizer da experiência contemporânea de vários de nós que temos filhos criados e que nos descobrimos de mentalidade muito mais aberta e tolerante do que a deles.
Quando eu era jovem, nossos pais e avós chocavam-se com a mudança dos costumes que se processava em nível planetário, com o sexo livre, a pílula anticoncepcional, as drogas e a minissaia, definida como o símbolo da moda "Swinging London" na década de 1960.
Nos anos 1970, chocavam nossos longos cabelos numa sociedade que até então imitava a moda americana do cabelo “escovinha”. O símbolo de paz e amor, as pulseiras e adereços de couro, a moda hippie, enfim, e a maconha, a heroína e o LSD.
Éramos contestadores do Status Quo, pedíamos justiça social, tínhamos ideais. Jovens abastados viravam as costas para as benesses da herança natural e se dedicavam a causas políticas voltadas para o bem comum. Éramos românticos.
Nossos filhos, porém, por vezes chegam a lembrar nossos avós em termos de insensibilidade social e de um pragmatismo cínico e descompromissado com a sociedade que aquela geração que a geração que hoje se encontra entre os 50 e 70 anos tanto chocou e desafiou.
O cinismo, que era característica dos mais velhos, daqueles que agiam em público de uma forma e em privado de outra, tornou-se característica dos jovens. Nós, no meu tempo, chocávamos por expor à luz do dia o que era feito às ocultas.
Essa reversão social, essa deficiência de caráter de uma geração parece ter origem na superproteção, na concessão por nós, pais e avós, de tudo que nos foi negado. Sobretudo em termos de bens materiais, os quais tínhamos que conquistar mesmo nas camadas mais abastadas.
Diante do fato consumado, mergulho num fosso de preocupação e algo de horror diante do que pode vir da geração que ainda irá nascer desses que descobrimos ter criado para serem aqueles que desafiamos quando os jovens éramos nós.
Algumas pessoas ainda não entenderam do que se tratou o episódio de assédio moral e ameaça física na Uniban e a verdadeira ameaça que o ocorrido representa à sociedade, sem falar no papel ridículo a que o episódio em São Paulo submeteu o Brasil diante do mundo.
Justamente pela incapacidade de compreensão de um setor da sociedade sobre como é absurdo o caso do vestido cor-de-rosa é que a reação da sociedade deve ser veemente e rápida. Por sorte, é nesse sentido que parece que as coisas estão caminhando.
Aliás, vale ressaltar que esta é uma daquelas poucas vezes em que parece estar surgindo um consenso mínimo entre segmentos geralmente antagônicos de todos os setores da vida nacional. E a mídia tem feito seu papel de forma adequada, a meu ver.
Abaixo, notícia que mostra que não haverá paralisia diante da ameaça da Uniban ao país.
MEC cobra Uniban por expulsão de aluna
New York Times e Guardian noticiam punição a estudante assediada por vestir saia curta
LISANDRA PARAGUASSÚ - O Estado de S. Paulo
O Ministério da Educação vai pedir explicações à Universidade Bandeirante (Uniban) sobre a expulsão da estudante Geisy Arruda, de 20 anos, que foi perseguida, encurralada e xingada por um grande grupo de alunos no câmpus de São Bernardo porque usava um vestido curto. A secretária de Ensino Superior do MEC, Maria Paula Dallari, afirmou que a instituição será notificada nesta semana, em processo de supervisão especial que pode ser aberto a qualquer momento após denúncia. A ministra Nilcéa Freire informou que a Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres também cobrará explicações da Uniban.
O caso virou notícia em sites de grandes jornais do exterior, como The New York Times (http://bit.ly/31daOF) e Guardian (http://bit.ly/1zhMFO). O jornal inglês deu maior destaque à expulsão de Geisy em sua home page. O americano usou um texto da agência Reuters que ironiza o fato de a expulsão da universitária ter ocorrido num país conhecido por seus "minúsculos biquínis".
"Uma universidade tem uma obrigação educacional que precisa estar presente em todos os momentos. É um local não apenas de convivência, mas de formação de valores. Esse caso me parece ter um forte caráter de gênero”, disse Maria Paula. “O MEC tem o dever de pedir explicações. Seria a mesma coisa em um caso de racismo.”
A secretária ressalta que todas as informações que teve até agora vieram das reportagens e da nota paga publicada pela Uniban. Por isso, não pode adiantar quais medidas poderiam ser tomadas. Isso será feito depois de ouvir a instituição.
No entanto, Maria Paula alerta que duas coisas chamam a atenção no caso. A primeira é a qualificação da atitude da aluna, que revela preconceito de gênero. A Uniban alega que a estudante usava roupas curtas e tinha atitudes provocativas, que teria resultado em uma “reação coletiva de defesa do ambiente escolar”. O segundo ponto é o fato de haver diferentes tipos de punição: a expulsão de Geisy, vítima das agressões, e apenas uma suspensão dos alunos que provocaram o tumulto. “Diante do mesmo problema, há duas punições de gravidade diferente. Por que não houve então igual tratamento?”, pergunta a secretária.
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A ministra Nilcéa condenou a decisão de expulsar a universitária e disse que a atitude da escola de demonstra "absoluta intolerância e discriminação". "Isso é um absurdo. A estudante passou de vítima a ré. Se a universidade acha que deve estabelecer padrões de vestimenta adequados, deve avisar a seus alunos claramente quais são esses padrões", disse a ministra à 'Agência Brasil' antes de participar do seminário seminário A Mulher e a Mídia.
Segundo a ministra, a ouvidoria da SPM já havia solicitado à Uniban explicações sobre o caso, inclusive perguntando quais medidas teriam sido tomadas contra os estudantes que hostilizaram a moça. Nesta segunda-feira, 9, a SPM deve publicar nova nota condenando a medida e provocando outros órgãos de governo como o Ministério Público Federal (MPF) e o MEC a se posicionarem.
As cerca de 300 participantes do seminário A Mulher e a Mídia decidiram divulgar, ainda neste domingo, moção de repúdio à Uniban pela expulsão da estudante. A decisão da Uniban também foi reprovada pela deputada federal Luiza Erundina (PSB-SP), uma das participantes do seminário. Segundo a deputada, a expulsão de Geisy não se justifica e parte de um "moralismo idiota". "Mesmo que ela fosse uma prostituta, qual seria o problema da roupa? Temos que ter tolerância com a decisão e postura de cada um", afirmou Erundina.
A socióloga e diretora do Instituto Patrícia Galvão, Fátima Pacheco, discordou da decisão e questionou o argumento da universidade de que a aluna "teria tido uma postura incompatível com o ambiente acadêmico", conforme diz a nota da Uniban. "Ela não infringiu nada. Ela estava vestida do jeito que gosta, da maneira que acha adequado para seu o corpo e a interpretação do abuso, da falta de etiqueta é uma interpretação que não tem sentido"’, disse Patrícia. "É uma reação à mulher e à autonomia sobre o seu corpo. Não se faz isso com rapazes sem camisa, com cueca para fora ou calças rasgadas", completou a socióloga.
Para a psicóloga Rachel Moreno, do Observatório da Mulher, a reação dos estudantes e da universidade refletem posições contraditórias e "hipócritas" da sociedade em relação à mulher. "Por um lado, a nossa cultura diz que a mulher tem que ser valorizar o corpo, afinal de contas, tem que ser bonita, tem ser gostosa e tem que se mostrar. Por outro lado, a mulher é punida quando assume tudo isso com tranqüilidade."
O Movimento Feminista de São Paulo prepara manifestação nesta segunda-feira, às 18 horas, em frente da Uniban. Na convocação, o movimento pede que as manifestantes compareçam usando minissaias ou vestidos curtos.
O episódio do ataque à aluna da universidade paulista Uniban e a subseqüente punição da agredida pela instituição de ensino caíram-me perfeitamente para entender por que devo me animar com a escolha de Dilma Rousseff para suceder Lula. O Brasil é um país que ainda mal chega à idade moderna no que diz respeito a conquista de direitos às mulheres equitativos aos dos homens.
A mulher ganha menos do que o homem. Não importa o quanto ela seja mais competente, ela ganha ganha menos porque ganha menos. Há zilhões de estudos que comprovam o que digo. Só não há explicação aceitável.
A mulher, enfim, não tem poder. Também porque as mulheres são ínfima minoria na atividade política, por exemplo, e, não tendo poder, não conseguem mudar a situação do próprio gênero.
A mulher tampouco tem a mesma liberdade sexual do homem. Mulher não pode gostar apenas de sexo, tem que ter sexo só no casamento e para procriar. E, de uma vez que se case, da parte dela tem que ser “para sempre”. Trair, então, só é perdoável para os homens.
Neste domingo, ironicamente a Folha de São Paulo publica reportagem que mostra a situação da mulher desde a base até o topo da pirâmide social brasileira. A matéria revela que as mulheres não conseguem chegar aos topos das carreiras executivas nas grandes empresas instaladas no Brasil.
“As cem maiores empresas do Brasil ostentam números impressionantes:
US$ 552 bilhões em vendas,
US$ 30 bilhões de lucro,
1,236 milhão de funcionários em 2008.
E nenhuma mulher na presidência, segundo levantamento da Folha realizado a partir dos cálculos da Fipecafi (Fundação Instituto de Pesquisas Contábeis, Atuariais e Financeiras) para o anuário ‘Melhores & Maiores’, da revista ‘Exame’.
Nos EUA, entre as cem maiores companhias pelo ranking da revista ‘Fortune’, há seis mulheres na presidência (...).”
Entre a geração anterior de mulheres ainda há muitas que se contentam com isso, pois entendem-se inferiores (como espécime) aos homens. Mas gosto de acreditar que a geração que se prepara para assumir a direção do país não pensa assim, ainda que exemplos de jovens que vivem com a cabeça no passado não parem de surgir.
É nesse momento que no Brasil, onde o gênero feminino é bem superior, numericamente, ao gênero masculino, é possível que uma mulher chegue ao poder antes mesmo de as mulheres terem representação equitativa entre a classe política.
Esta era a motivação que eu precisava para comprar de vez a candidatura Dilma Rousseff à Presidência da República. O que fizeram com a jovem Geisy Arruda foi muito grave, mas ainda mais grave foi o que fizeram com TODAS as mulheres, que, a partir de agora, estão muito mais sujeitas a ataques de energúmenos como os alunos, professores e donos da Uniban se simplesmente não gostarem do que estiverem vestindo.
As mulheres precisam do poder. E confio que saberão usá-lo. Não me conformo em viver numa sociedade injusta, seja a injustiça com raça, credo, gênero ou preferência sexual. Uma sociedade injusta com uns pode vir a ser injusta com todos, eventualmente. Dessa maneira, eleger uma mulher presidente da República me parece mais do que oportuno.
A seguir, reproduzo e comento cada tópico da nota da Uniban publicada nos grandes jornais paulistas deste domingo 8 de novembro. No texto, a instituição divulga a expulsão da estudante Geisy Arruda e os “motivos” que levaram a tal decisão.
RESPONSABILIDADE EDUCACIONAL
A educação se faz com atitude e não com complacência
A Uniban começa confundindo tolerância com complacência. Tolerância com o diverso, com o particular, com o direito de uma pessoa ser o que é contanto que não agrida ninguém, e quem sentiu-se agredido pelo vestido cor-de-rosa de Geisy não pode sair às ruas, pois moças de vinte anos vestem-se assim.
A Universidade Bandeirantes – UNIBAN BRASIL - dirige-se ao público e, especialmente, à sua comunidade para divulgar o resultado da sindicância no campus de São Bernardo do Campo sobre o episódio ocorrido no dia 22 de outubro, fartamente exibido na internet e divulgado por veículos de comunicação.
A sindicância consoante com o Regimento Interno nos termos do artigo 216, parágrafo 5, e do artigo 207 da Constituição Federal, colheu depoimentos de alunos e alunas, professores, funcionários e da estudante envolvida, além de analisar vídeos e imagens divulgadas.
A Uniban terá que apresentar esses documentos num processo por danos morais e concorrência para o crime violento que deverá ser aberto contra si, pois endossou atitudes que, mais adiante, serão descritas.
Os fatos:
Foi apurado que a aluna tem freqüentado as dependências da unidade em trajes inadequados, indicando uma postura incompatível com o ambiente da universidade, e, apesar de alertada, não modificou seu comportamento.
Não se pode proibir uma moça de usar um vestido como aquele que deflagrou tudo isso. Só se ela fosse à universidade de lingerie ou nua, para agirem desse jeito. É um vestido absolutamente normal, um palmo e tanto acima do joelho. Todos viram a peça de roupa na tevê e nos jornais.
A sindicância apurou que, no dia da ocorrência dos fatos, a aluna fez um percurso maior do que o habitual aumentando sua exposição e ensejando, de forma explícita, os apelos de alunos que se manifestavam em relação à sua postura, chegando, inclusive, a posar para fotos.
Onde é que nós estamos, afinal? No Oriente Médio? Num país em que a nudez e a semi-nudez fazem parte do cotidiano? Será Geisy a única brasileira a usar um vestido um pouco mais curto dentro de uma universidade? O que é que está acontecendo? Como podem tratar assim uma cidadã, uma moça que pagava para freqüentar aquela instituição?
Novamente, a aluna optou por um percurso maior ao se dirigir ao toalete, o que alimentou a curiosidade e o interesse de mais alunos e alunas, tendo início, então, uma aglomeração em frente ao local.
Depoimentos de colegas indicam que, no interior do toalete feminino, a aluna se negou a complementar sua vestimenta para desfazer o clima que se havia criado.
Foi constatado que a atitude provocativa da aluna, no dia 22 de outubro, buscou chamar a atenção para si por conta de gestos e modos de se expressar, o que resultou numa reação coletiva de defesa do ambiente escolar.
Vamos definir, pois, o que a Uniban chama de “reação coletiva de defesa do ambiente escolar”. Aquelas bestas-feras chamavam a menina de “puta”, “vagabunda”, pediam que a jogassem para eles para estuprarem-na, chutavam as portas da sala de aula na qual ela se refugiou... É disso que a Uniban fala?
Em seu depoimento perante a comissão, a aluna demonstrou um comportamento instável, que oscilava entre a euforia e o desinteresse, e estava acompanhada de dois advogados e uma estagiária vinculados a uma rede de televisão.
Parece-me que setecentos – SE-TE-CEN-TOS – marmanjos e marmanjas gritando palavrões e sugerindo agressão à jovem Geisy de forma que a polícia teve que ser chamada para garantir sua segurança não é alguma coisa que acontece todos os dias numa universidade de qualquer parte do mundo, o que justifica plenamente os advogados e os repórteres de televisão.
Decisão do Conselho Superior da Universidade:
Diante de todos os fatos apurados pela comissão de sindicância, o Conselho Superior, amparado pelo relatório apresentado e nos termos do Regimento Interno, decidiu, com base no Capítulo IV – Regime Disciplinar, artigos 215 e seguintes:
1 – Desligar a aluna Geisy Villa Nova Arruda do quadro discente da Instituição, em razão do flagrante desrespeito aos princípios éticos, à dignidade acadêmica e à moralidade;
É a ética do estupro, a da Uniban. Do Estupro físico e moral.
2 – Suspender das atividades acadêmicas, temporariamente, os alunos envolvidos e devidamente identificados no incidente ocorrido no dia 22 de outubro.
Vou considerar isso uma premiação que os envolvidos provavelmente irão adorar, podendo viajar à praia por alguns dias. A premiação da selvageria e da ignorância.
A UNIBAN reafirma seu compromisso com a responsabilidade social e a promoção dos valores que regem uma instituição de ensino superior, expressando sua posição de apoio aos seus 60 mil alunos injustamente aviltados.
A moça é insultada e escorraçada por seu vestido deixar suas pernas um pouco mais à mostra de uma forma como no meu tempo de adolescente, nos anos 1970, consideraria completamente “careta”, e os “aviltados” foram os que a agrediram por terem visto alguns centímetros a mais de suas pernas.
Nesse sentido, cabe aqui registrar o estranhamento da UNIBAN diante do comportamente da mídia que, uma vez mais, perde a oportunidade de contribuir para um debate sério e equilibrado sobre temas fundamentais como ética, juventude e universidade.
De novo, a Uniban revela todo seu autismo. Não consegue enxergar o ineditismo e a falta de justificativas lógicas do que se passou em seu campus. A cobertura midiática só serve para evidenciar como o senso comum se choca com tal demonstração de atraso e de hipocrisia de jovens que não têm condições de dar lições de moral a ninguém.
Para tanto, convida seus alunos e alunas, professores, funcionários, a comunidade e a mídia para um ciclo de seminários sobre cidadania em data a ser oportunamente informada.
E que nenhuma convidada compareça com saia acima dos joelhos, que a brigada da moral da Uniban estará a postos.
Universidade Bandeirante – UNIBAN BRASIL
A mulher-objeto de SP
Agora é oficial: se você é mulher e mora em São Paulo, saiba que, nesta terra de hipocrisia sem fim, você é nada mais, nada menos do que um objeto, um ser que deve medir cada palavra, cada gesto, cada decisão sobre a própria vida pela ótica hipócrita do homem, que só exige comportamento "recatado" das mulheres nos intervalos de suas caçadas sexuais.
A universidade Uniban expulsou a estudante de turismo Geisy Arruda por sua "sindicância interna" ter concluído que a moça foi a culpada por setecentos alunos terem-na hostilizado aos gritos e lhe ameaçado a integridade física. A instituição justificou dessa forma sua decisão em nota publicada neste domingo em jornais paulistas. Geisy seria provocante demais.
Numa sociedade como a paulista, esse moralismo chega ao pior ridículo. Dêem uma voltinha pelas imediações dessas universidades particulares de São Paulo e encontrarão meninas e meninos usando drogas e até fazendo sexo nos carros. Em seguida, os que fazem e os que não fazem isso entram em aula e se escandalizam com o jeito da menina andar e com o comprimento de seu vestido.
O fato é que as setecentas famílias dos setecentes energúmenos que protagonizaram as cenas de horror que vocês viram há poucos dias devem ter caído matando na direção da Uniban ameaçando tirarem seus filhos coletivamente de lá se a cabeça da Maria Madalena paulistana não lhes fosse entregue.
Mas o moralismo de atirarem a primeira pedra nas roupas de Geisy, na sensualidade de Geisy, é efeito, não causa. Ser mulher, em São Paulo, é não ter direitos como os dos homens.
Cabe agora, portanto, não só ao Judiciário, mas acho que até ao Ministério da Educação reparar esse absurdo. E tem que ser logo, pois a própria nota da Uniban divulgada neste domingo nos jornais paulistas serve de confissão de culpa de violação de cláusula pétrea da Constituição brasileira.