Vários fatores estão gerando suspeita sobre a pesquisa Datafolha feita de afogadilho na quinta e na sexta-feira e publicada hoje, começando pela pressa e pelo sigilo que envolveram a sua realização.
O próximo fator que salta aos olhos é a conveniência dessa sondagem para o governador José Serra, notoriamente o candidato a presidente da família Frias, dona do grupo Folha, justamente na véspera de seu afastamento do governo do Estado e do lançamento da sua candidatura.
O terceiro fator está contido na análise do diretor do Datafolha, Mauro Paulino, na Folha, valendo-se da platitude de que “pesquisas são flagrantes do momento” e que podem mudar, pois parece plantar uma “explicação” para o previsível desmentido dessa pesquisa por outros institutos
O último fator, tão subjetivo quanto os anteriores, é o de que estamos falando de um instituto de pesquisas de opinião que pertence à Folha de São Paulo, aquele jornal que não hesitou em publicar, em sua primeira página, falsificação grosseira de ficha policial da grande adversária de Serra.
A pesquisa tenta se justificar exacerbando os pontos mais frágeis da ministra Dilma Rousseff, como a maior dificuldade dela entre as pessoas do mesmo sexo e do Sul do país, arrematando com as propagandas de Serra na TV e sua intensa incursão nos programas de auditório, ou com ele ter admitido que é candidato e por estar chovendo menos em São Paulo.
Nada explica, porém, que, tão repentina e intensamente, as mulheres e o Sul do país tenham descoberto que amam Serra. Duvido de que uma declaração dele de que é candidato ou acontecerem um pouco menos desastres em São Paulo lhe permitiriam angariar cerca de 7,5 milhões de votos (cada ponto percentual vale 1,5 milhão) tão rapidamente.
A pesquisa Datafolha é de uma conveniência inacreditável para Serra. Ele deve ser o político mais sortudo do mundo. Esses números serão usados para ajudar a fechar apoios políticos à sua candidatura e a soterrar resistências dentro do seu partido e entre seus aliados externos.
Finalmente, concluo que essa manipulação escandalosa permitirá ver até que ponto o PT está preparado para enfrentar uma campanha desse nível. Se o partido, de uma forma ou de outra, não encomendar pesquisas com celeridade, permitindo, assim, que o factóide surta efeito, será preocupante.
Por outro lado, se o PT mostrar que está antenado e disposto a enfrentar a guerra eleitoral que se avizinha, a Folha e seu grupo político poderão descobrir que fizeram uma aposta muito alta ao falsificarem uma pesquisa de forma tão grosseira.
E por que o Datafolha foi a campo
Há um outro fator que torna ainda mais estranha a pesquisa Datafolha divulgada neste sábado. Para entendê-lo, vejamos a freqüência com que o instituto de pesquisas tem ido a campo para a avaliar a sucessão presidencial.
As últimas três sondagens aconteceram de 14 a 18 de dezembro de 2009, de 24 a 25 de fevereiro de 2010 e, surpresa!, meros 30 dias depois. E, à diferença de suas pesquisas anteriores, não houve divulgação de que esta ocorreria.
Por que o Datafolha foi a campo tão rápida, sigilosa e inesperadamente? Terá alguma coisa que ver com o lançamento iminente da candidatura Serra, aquela que eu dizia, de novo na contramão da maioria, que era inexorável?
Toda vez que começo a escrever tento me convencer de que, daquela vez, conseguirei contornar um fenômeno que vem se mostrando inexorável e que venho tentando entender no decorrer destes quatro anos em que estou blogueiro. Como evitar, em temas polêmicos, que uma parcela dos leitores leia o que não escrevi?
Por exemplo: se eu disser que o julgamento dos Nardoni está sendo injusto haverá quem diga que os estou defendendo, apesar de que simplesmente estou manifestando meu inconformismo com a forma como o casal está sendo julgado.
É óbvio que as evidências são muito fortes e que os réus não conseguiram oferecer uma única versão minimamente crível para o que aconteceu com uma criança que estava sob sua guarda. Só esse fato já seria suficiente para colocá-los em um nível de desvantagem difícil de ser revertido. Não existe, pois, a menor necessidade desse massacre.
Há pouco, enquanto começava a escrever, assistia, pela Globo News, a entrevista coletiva do defensor dos Nardoni, o advogado Roberto Podval. Uma multidão de jornalistas o bombardeava não só com perguntas, mas com agressões verbais. E ressaltemos que não estamos falando da massa histérica que cerca o local do julgamento e que chegou a agredir o advogado fisicamente.
Nessa entrevista, os jornalistas debatiam com Podval de uma forma inacreditável. Não consegui entender o que pretendiam tirar dele, que suava e se exasperava e dizia uma grande verdade que venho dizendo aqui, de que essas pessoas que estão pedindo condenação sumária dos Nardoni se arriscam a um dia serem vítimas de uma Justiça que pode ser coagida a julgar desta ou daquela forma.
Não importa se os Nardoni são culpados ou inocentes. O que importa é que, mesmo sendo culpados, têm direito a um julgamento justo, o que não é possível quando o público só falta levar pipoca e refrigerante ao “espetáculo” do seu linchamento.
Esse julgamento está sendo perda de tempo. Os Nardoni já estão condenados. Inclusive devem merecer a condenação da qual é certo que não conseguirão escapar, mas não serão só eles as vítimas desse processo legal farsesco. A Justiça será a principal vítima.
Da forma como esse julgamento está transcorrendo, tenho a impressão de que haverá boas chances de ser anulado posteriormente, talvez até favorecendo os réus e lhes facultando impunidade.
O julgamento deveria, obrigatoriamente, transcorrer em serenidade, mas se converteu em linchamento. E não será linchando que se fará justiça. Um processo como esse tem que ser livre de pressões aleatórias, midiáticas e de turbas, pois julgamentos justos são a base de um Estado Democrático de Direito que está sendo pisoteado.
Fanatismo e irracionalidade
Do portal IG
26/03 - 15h42m
Pelo terceiro dia seguido os manifestantes que estão de plantão em frente ao Fórum de Santana, em São Paulo, pedindo a condenação do casal Nardoni, protagonizaram cenas de violência e intolerância. A polícia havia prometido reforçar o policiamento no local, mas nada fez até o momento.
Apenas nesta sexta-feira, três casos de agressão foram registrados ao fórum, onde é realizado o julgamento de Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá, acusados da morte de Isabella. No último deles, o tenente coronel Ricardo de Souza orientou que o estudante Igor Silva fosse embora, pois "não tem condições de garantir a segurança dele". Igor foi agredido com socos e pontapés por ter defendido a inocência do casal Nardoni.
Assim como o estudante, minutos antes, o microempresário Marco Antonio de Souza, que foi ao fórum para acompanhar a mulher, também foi agredido. Ao comentar que ninguém ainda provou que Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá são culpados, também levou socos e pontapés, inclusive de mulheres. Uma senhora, aparentando 50 anos, deu um soco no rosto do microempresário.
Souza tentou se refugiar dentro do fórum. O tenente coronel Ricardo de Souza quis colocá-lo para fora e só mudou de ideia ao ser avisado por jornalistas que o microempresário estava sendo agredido. Um dos agressores, o estudante Robson da Silva de Moraes, chegou a ameaçá-lo na frente do comandante da PM. "Se vier tumultuar aqui, o bagulho vai ficar ruim."
Um pastor evangélico, identificado apenas como Adenildo, também sofreu agressões nesta sexta-feira. Expulso a tapas e empurrões da frente do fórum por defender o perdão aos réus, precisou de escolta policial para escapar de dezenas de pessoas que o agrediam e o ameaçavam física e verbalmente.
São cinco os casos de agressão até agora em frente ao fórum. Na quarta-feira, um manifestante tentou dar um chute no advogado de defesa do casal, Roberto Podval. Na quinta, Rodolfo Gouveia Lima, operador de telemarketing, precisou de escolta policial após ser agredido.
Adenildo chegou ao fórum por volta do meio-dia. Com um evangelho na mão, iniciou sua pregação. "Quem nunca errou? Apontem aqui quem nunca cometeu um erro na vida. Pode ter até algum ladrão aqui nessa multidão pedindo justiça."
No início, os manifestantes apenas observavam espantados a coragem do pastor de defender o casal, mas aos poucos passaram do espanto para hostilidade e agressões físicas.
Ster Silvano Filante, que trabalha como acompanhante de idosos, mas está na porta do fórum desde segunda-feira, grudou com as duas mãos na lapela do terno do pastor e passou a ameaçá-lo. O gesto dela desencadeou uma onda de agressões por parte de outros manifestantes. O carroceiro Evanderson dos Santos jogou um copo de água em Adenildo.
Uma turma de cerca de 20 pessoas começou a empurrá-lo e persegui-lo para longe do fórum. A polícia demorou agir e, quando chegou ao local, se limitou a tentar tirar Adenildo daquela situação. Em momento algum tomou qualquer atitude contra os agressores – a exemplo do que já tinha feito com advogado e o operador de telemarketing. As hostilidades só pararam quando o pastor foi levado para dentro do quartel da PM que fica atrás do fórum.
"Eu não queria agredir. Só queria que ele me ouvisse, mas ele se recusava a me ouvir", justificou Ster. "Esse cara vem aqui dizer que Deus perdoa, ninguém aqui quer o perdão de Deus. A gente quer cadeia para os assassinos. Para mim, ele deve ter recebido alguma coisa dos Nardoni", acusou Evanderson.
Além de pedir a punição do casal Nardoni, os manifestantes aproveitam o julgamento para defender causas como redução da maioridade penal, adoção da prisão perpétua e a pena de morte.
O artista plástico Israel de Jesus, conhecido como Tesourinha e autor de inúmeros grafites no centro da cidade, passou mal e foi levado para o hospital da Vila Nova Cachoeirinha com quadro de desidratação. Tesourinha estava na porta do fórum desde segunda-feira. Ele passou as noites na calçada e, segundo policiais que o atenderam, não comia nada desde quinta-feira à tarde.
Linchamento literal
Do Portal Uol
26/03 - 20h15m
"Ora, ora, ora! O júri é aqui fora!” Esse é um dos gritos de guerra entoados pelo grupo de curiosos que, junto ao portão do Fórum de Santana, na zona norte de São Paulo, acompanha o julgamento do casal Nardoni nesta sexta-feira (26).
A poucas horas do veredicto sobre o futuro de Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá, acusados de assassinar Isabella Nardoni, morta em 2008 aos 5 anos de idade, cerca de 200 pessoas gritavam pedindo o linchamento dos réus. “Pega lá, pega lá, pega lá! Pega lá para nóis linchar!”, repetiam em coro.
A reportagem do UOL Notícias presenciou um garoto de cerca 10 anos de idade gritando “Vamos arrancar o pescoço desse desgraçado!”
Um dia triste para São Paulo
Do Portal G1
26/03 - 22h41m
Com o número de populares aumentando gradualmente em frente ao Fórum de Santana, na Avenida Engenheiro Caetano Alavares, na Zona Norte de São Paulo, à medida em que se aproxima o veredicto do julgamento do casal Nardoni, acusados da morte da menina Isabella, na noite desta sexta-feira (26) o coronel Ricardo de Souza, responsável pela segurança do local, admitiu que deverá pedir reforço no número de policiais. No momento, 34 policiais militares estão no fórum, cuidando da segurança. Segundo ele, mais oito homens da Rocam estão se dirigindo ao local. E, se for preciso, mais reforços se integrarão ao efetivo que está no fórum nas próximas horas.
Fanatismo facilita recursoda defesa dos Nardoni
Do portal G1
27/03 - 00h41m
Segundo a assessoria de imprensa do Tribunal de Justiça de São Paulo, a defesa do casal Nardoni já entrou com recurso contra a condenação pela morte da menina Isabella Nardoni, em 29 de março de 2008.
Publicado em 25 de março de 2010 em O Estado de São Paulo
Desde o dia 14 de março, domingo retrasado, este jornal circula com novo projeto gráfico. O redesenho foi lançado numa edição histórica, com uma tiragem que ultrapassou meio milhão de exemplares, e vários artigos esmiuçaram os fundamentos da mudança na paginação. Mas, entre as análises sobre estética e legibilidade, uma notícia passou sem chamar a atenção: justamente a que reportava o juízo que o cidadão brasileiro faz da sua própria imprensa. A quantas anda a credibilidade do jornalismo?
Sobre o tema da credibilidade, essa edição do dia 14 trouxe uma reportagem esclarecedora, assinada por Daniel Bramatti: 91% acham que mídia é arma anticorrupção. A partir de uma pesquisa que o Instituto Análise realizou especialmente para o Estado, a matéria mostrou que o conceito dos jornais no Brasil é positivo e, mais que isso, está associado ao combate à corrupção. Ótimo. Sinal de que o público entende que os jornais existem para fiscalizar o poder. Mas a mesma pesquisa apontou um senão: aos olhos de um quarto dos entrevistados, a imprensa não é tão apartidária quanto deveria ser.
Comecemos pelo lado bom dos resultados. Metade do público afirma que quem mais apura os casos de corrupção no País são os jornalistas. Isso significa que, do ponto de vista dos entrevistados, se outras instituições falham, pelo menos a imprensa dá o alarme e vai atrás. Para 88%, a maioria das "denúncias" feitas nas reportagens acaba se provando verdadeira. Coerentemente, nada menos que 97% são a favor de que a imprensa investigue e divulgue casos e suspeitas de corrupção e 92% são contrários a qualquer censura.
Agora o lado preocupante. Quando perguntados se os órgãos jornalísticos são equilibrados nas "denúncias" que fazem, apenas 69% consideram que sim. Para 24%, o jornalismo pátrio é tendencioso (outros 7% não opinaram). Temos aí uma luz amarela. Numa pesquisa como essa, em que os índices de aprovação ficam na casa dos 90%, um contingente de 24% de desconfiados não é nada irrisório.
Antes de prosseguirmos, faço um esclarecimento. O leitor há de ter notado que venho usando a palavra denúncia sempre entre aspas. Explico-me. O termo "denúncia", que a pesquisa adotou sem maiores reservas, é impreciso e pode apequenar o papel da imprensa. Denúncia quer dizer acusação. Se o jornalismo for visto como tribuna acusatória, será péssimo para os jornais, para os leitores e para a democracia.
Não é tão difícil de entender por quê. Na Justiça, quem faz denúncia é o Ministério Público. Os advogados cuidam da defesa. Assim, quando acolhe uma denúncia, o Judiciário acolhe também uma defesa. O julgamento só virá depois que os dois lados se manifestarem. Por analogia, se a imprensa se ocupasse apenas de "denúncias", teríamos de inventar uma segunda imprensa para fazer as vezes dos advogados de defesa e ainda uma terceira, à qual caberia julgar. Portanto, não há muito sentido em supor que o jornalismo deva sair denunciando gente por aí. Não é para isso que ele serve.
A imprensa não tem - nem poderia ter - a função de acusar quem quer que seja. Ela não é o Ministério Público. O que ela pode pretender de melhor é apurar livremente os fatos. Ela investiga irregularidades na conduta das autoridades, por certo - mas não acusa, não defende nem julga. Se informar devidamente, terá cumprido o seu papel com dignidade: terá oferecido ao cidadão os elementos necessários para que ele forme sua própria opinião.
É verdade que, por vezes, as evidências de corrupção são tão clamorosas que a mera publicação de uma reportagem, por mais sóbria que seja, assume ares de denúncia contundente. Tudo bem, isso acontece, mas, aí, quem acusa são os fatos, não o jornalista. Repórteres não existem para fazer "denúncias". A finalidade do seu trabalho é fazer reportagem.
Voltemos, então, aos 24% que entendem que o nosso jornalismo é parcial. É bem verdade que, na sua rotina, a imprensa deve mesmo ser mais dura com o governo do que com aqueles que não exercem funções públicas, mas isso não significa que ela deva ser feroz contra o governo e dócil com a oposição. Se uma parte do público sente que ela peca por esse tipo de desequilíbrio, algo vai mal. Se 24% dos entrevistados afirmam que os jornais resvalam no partidarismo, algo realmente vai mal.
Quanto a isso não há margem para dúvidas. O modo como a pergunta foi feita aos entrevistados foi explícito, direto. Antes de formular a questão, o pesquisador citava "o mensalão do PT, a corrupção de Sarney e do Senado, os gastos secretos de cartões de crédito da Presidência, o mensalão do DEM no DF, e o mensalão de Minas, que envolveu um senador do PSDB". Só depois, indagava: "Você acha que a imprensa só faz denúncias contra um lado ou denuncia todo mundo, como o PT, o PSDB, o DEM, o PMDB, etc.?"
Foi a esse estímulo que os entrevistados reagiram. Foi a partir disso que um quarto deles se manifestou insatisfeito com o partidarismo das notícias que recebe.
Enfim, a pesquisa do Instituto Análise trouxe boas novas para os jornalistas, dando conta de que o público aprecia e valoriza os jornais. Mas trouxe também este recado muito claro: o princípio do apartidarismo talvez venha sendo negligenciado.
Os responsáveis pela condução dos veículos jornalísticos deveriam olhar para esse recado com mais rigor. Vivemos um momento delicado, em que muitos procuram desqualificar a instituição da imprensa como se ela não passasse de um aparelho sob controle da oposição. Os editores, se estiverem conscientes, não darão pretextos e muito menos argumentos aos profetas da polarização. Imprensa informa: não faz denúncia nem faz campanha. Quanto mais os cidadãos estiverem convencidos disso, melhor.
Comentário do blog
Faltou o articulista dizer que só será bom os cidadãos estarem convencidos de que a mídia é isenta se isso for verdade.
Na última quarta-feira, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva criticou a cobertura da imprensa ao seu governo. Alguns dias antes, disse que “editoriais” dos grandes jornais atacando-o seriam escritos por “falsos democratas”.
Nesta quinta-feira, os alvos das críticas presidenciais reagiram. O tom deles é de acusação ao presidente por ele supostamente pretender calar a imprensa. Um exemplo desse tom veio do jornal Folha de São Paulo no editorial “Devaneio autocrático”, o qual reproduzo em itálico e vou comentando ponto por ponto.
Devaneio autocrático
A DEMOCRACIA, numa definição de manual, é um sistema de governo no qual o povo exerce a soberania e elege seus dirigentes por meio de eleições periódicas; é um regime em que estão asseguradas as liberdades de associação e de expressão. Todos esses princípios estão plasmados na Constituição de 1988 – ela própria uma conquista democrática.
Por que definir para o leitor o sentido da democracia? A intenção, claro, é a de apontar alguma ameaça a esses preceitos contida nas críticas do presidente Lula à imprensa supra mencionadas.
Isso tudo é óbvio. Mas quem impele a repisá-lo é o presidente da República. Na versão de Luiz Inácio Lula da Silva, a democracia muito frequentemente – e cada vez mais – surge como se fosse uma concessão da sua vontade. Ele não parece tratá-la como valor, mas como capricho.
Espera-se, neste ponto, que se reproduza o ponto do discurso do presidente em que trata a democracia como concessão sua. Vejamos, a seguir, as palavras de Lula das quais o editorial reclama.
O vezo autoritário do mandatário se torna flagrante quando o que está em questão é a divergência de opinião ou o compromisso com a liberdade de imprensa. Lula não tolera ser criticado e convive mal com esforços de fiscalização de seu governo. Ontem, numa cerimônia, ele disse:
"Acabei de inaugurar 2.000 casas, não sai uma nota. Caiu um barraco, tem manchete. É uma predileção pela desgraça. É triste quando a pessoa tem dois olhos bons e não quer enxergar. Quando a pessoa tem direito de escrever a coisa certa e escreve a coisa errada. É triste, melancólico, para um governo republicano como o nosso".
Quero saber em que “manual de democracia” (a expressão é da Folha) está escrito que um governante não pode reclamar da imprensa.
Para ameaçar a liberdade de expressão, um governante tem que fazer mais do que falar: ele tem que agir. Contudo, uma das associações internacionais que esse jornal apóia, a Associação Internacional de Radiodifusão, premiou o presidente no ano passado justamente por ele jamais ter tomado qualquer medida contra seus críticos na imprensa.
Detalhe: quem entregou o prêmio a Lula foi ninguém mais, ninguém menos do que o Presidente da Abert, Daniel Pimentel Slavieiro, segundo o Jornal da Globo.
E o editorial prossegue:
Talvez seja o caso de mencionar os mensaleiros, os aloprados, o "roçado de escândalos" da aliança com o PMDB. Ou, ainda, os benefícios pouco ortodoxos concedidos com dinheiro público a algumas empresas que este governo elegeu para implementar sua versão de "capitalismo de Estado". Nada disso compõe um figurino "republicano".
Bem, talvez também seja o caso de o jornal mencionar os escândalos do grupo político que apóia furtivamente, integrado pelo PSDB, pelo DEM e pelo PPS, tendo como figuras de proa o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e o governador José Serra.
E o jornal apóia esse grupo, ainda que sem admitir, porque, nos últimos sete anos e tanto, esse veículo e seus pares apoiaram todas as posições oposicionistas contra as situacionistas, em termos federais.
Mensure-se quantas vezes o setor da imprensa que a Folha integra ficou do lado do governo e quantas ficou ao lado da oposição e se comprovará o que digo. Por isso, nunca se viu e nunca se verá uma acusação a Serra de não vestir o tal figurino “republicano”, pois seu governo, cheio de escândalos e acusações da oposição, não deve ter recebido um milésimo das críticas diárias e sistemáticas que são feitas ao governo Lula, apesar de governar o Estado em que o jornal está sediado.
O que mais impressiona, porém, é o raciocínio embutido na seguinte frase de Lula: "É triste quando a pessoa tem o direito de escrever a coisa certa e escreve a coisa errada". É uma afirmação tosca, sem dúvida, mas antes disso autocrática. Não faz sentido no contexto da democracia.
A imprensa tem de ser livre, inclusive para errar – e responder por isso perante seu público ou à Justiça, sempre que for o caso. Essa liberdade atende sobretudo ao direito do cidadão de ter acesso a informações.
Ok, a imprensa tem que ser livre. E onde foi que ela deixou de ser livre? Por acaso Lula tomou alguma medida contra a imprensa? Deixou de lhe dar verbas oficiais? Pediu a cabeça de algum jornalista, como faz um certo governador de Estado muito ao gosto da Folha? A resposta é não. Lula apenas criticou os seus críticos como é direito até do mais humilde cidadão fazer.
Lula disse ainda que "setores da imprensa" deveriam olhar para pesquisas de opinião antes de tirar conclusões sobre ações públicas de seu governo. Em alguns casos, como o desta Folha, as pesquisas são realizadas pelas mesmas empresas cujo trabalho Lula busca desqualificar.
Será que o fato de a Folha ter um instituto de pesquisa que dá boas notícias para Lula, talvez até para não divergir criminosamente de outras sondagens e se desmoralizar, dá ao jornal o direito de não admitir que aquele que critica tanto e com tanta virulência critique igualmente a quem o criticou? Se alguém quer calar alguém, não me parece que seja o presidente da República.
Tampouco é verdadeira sua afirmação de que avanços sociais ou do país obtidos neste governo não tenham sido noticiados. Foram – e de maneira exaustiva.
O problema é outro. Recentemente, o presidente da República agrediu os valores democráticos ao equiparar os presos políticos de Cuba aos presos comuns do Brasil – e endossar os crimes de uma ditadura.
Agora, ao criticar mais uma vez a imprensa, comporta-se como quem aspira à unanimidade – algo que está longe de ser um padrão democrático.
Como diriam FHC e Serra, além do “nhenhenhém” e do “trololó” ideológicos sobre Cuba, que nada têm que ver com a conversa por se tratarem de opinião do jornal e não de paradigmas universalmente aceitos, pergunta-se por que Lula aspira à unanimidade ao criticar quem o critica e a imprensa não, se ela faz a mesma coisa que ele?
O que essa imprensa quer é que Lula apanhe calado. Não aceitar que o presidente opine sobre quem opina sobre ele é o único devaneio autocrático que se pode encontrar nessa questão.
Já foram escritos milhares de artigos sobre o comportamento dos grandes meios de comunicação em relação ao governo Lula. Análises abalizadas procuram, há quase oito anos, mostrar, em argumentações intrincadas, como aqueles meios se negam a reconhecer o que essa maioria impressionante dos brasileiros enxerga, uma maioria que abrange cada segmento social, do mais instruído e rico ao mais pobre e inculto.
Fiquei surpreso, pois, com uma das famosas metáforas do presidente Lula proferida ontem em um seu discurso. Com um punhado de palavras, ele resumiu, de forma genial, como essas empresas de comunicação – e os políticos por trás delas – agem nessa guerra política sem quartel que travam a cada dia, há tanto tempo, visando desmerecer o sucesso que este país está alcançando.
A metáfora, na verdade, é também uma piada. Mas a imagem é genial. Resume, como jamais vi, a essência dessa atitude literalmente infantil ordenada pelos donos desses impérios de comunicação a jornalistas intelectualmente domesticados pelas raras oportunidades de subir na carreira bajulando o patrão que existem hoje na imprensa brasileira.
Divirtam-se, abaixo, com essa metáfora maravilhosa do genial Luiz Inácio Lula da Silva. De longe, o maior cronista do Brasil na atualidade.
Uma vez eu parei numa padaria – Marisa ficou no carro, eu fui comprar um pão. Cheguei lá, pedi o pão e perguntei: ‘Quanto que é?’
O cidadão do caixa falou assim pra mim: ‘Nossa, você parece o Lula! A voz do Lula...’
E um cidadão, que estava atrás de mim, falou: ‘mas não é o Lula, porque eu conheço o Lula. O Lula é mais alto, é mais moreno’.
E eu ali, na frente de um cara querendo me conhecer, e o cidadão desaforado, atrás, dizendo: ‘Não é o Lula’.
Eu fui obrigado a pegar a minha identidade e mostrar pro companheiro: ‘Companheiro, eu sou o Lula’. E ele falou: ‘É, mas não parece’.
É assim que determinados setores da imprensa se comportam (...)
Acabo de ter uma percepção do quadro político que vai se formando e esse quadro aponta para uma verdadeira demolição eleitoral da oposição ao governo Lula nas eleições deste ano. Os indícios que tenho colhido em meus negócios mostram um furacão eleitoral se aproximando, formado por uma situação de euforia econômica que se apodera do país.
Hoje pela manhã, estive com dois jovens industriais. São irmãos, a segunda geração de uma empresa familiar com 45 anos de atividade. Descendentes de italianos e residentes em um dos redutos mais conservadores de São Paulo, o bairro da Móoca, são capitalistas convictos que integram fielmente o perfil do eleitor do PSDB hoje, de forte inclinação direitista, inclusive ao ponto de poder ser qualificado de direita e não meramente de centro-direita.
Com esses empresários, você tem o pacote completo da direita mais radical paulista-paulistana, oriunda de famílias antigas na região, de forte perfil conservador e proprietárias de sólidos negócios, além da situação econômica bastante consolidada e confortável. Chamam o Bolsa Família de “assistencialista”, acham que a corrupção explodiu no país, são contrários às cotas para negros etc.
Evito de conversar sobre política com empresários com os quais tenho negócios. Adotei essa regra faz muito tempo. Desde os anos 1990. Porém, nunca deixo de dizer minhas posições em relação ao que acho que deve ser feito no Brasil. Sempre digo que um país tão desigual não vai para frente e, aliás, a classe empresarial paulista, em boa medida, concorda com essa premissa.
O que varia são as visões dos empresários sobre como se deve fazer para resolver esses problemas. A maioria acha que há que “ensinar a pescar em vez de dar o peixe”. Trata-se do velho chavão da direita para dizer que não quer distribuir renda de jeito nenhum, que os pobres é que devem se virar e produzirem a própria renda.
Mas não se pode negar que esses empresários específicos que menciono descendem de uma família de imigrantes italianos que veio para o Brasil com uma mão na frente e outra atrás e enriqueceu trabalhando duro, passando por dificuldades imensas, e que são pessoas honestíssimas, cumpridoras de seus deveres e dos mínimos detalhes dos acordos que fazem.
Foi por isso que me surpreendi quando, em nossa reunião desta quarta-feira, entoaram, com maior ênfase, uma melodia doce para estes ouvidos progressistas, uma cantiga que venho ouvindo dos vários empresários com os quais tenho contato, sendo alguns de empresas de maior porte.
A situação do negócio deles que me relataram, repito, não é a primeira que vejo parecida, mas foi exposta de uma forma absolutamente eufórica. Estão implantando o terceiro turno na fábrica de 140 funcionários porque as vendas não param de crescer. E dizem que não conseguem mais contratar ninguém pagando menos de mil reais por mês. Nem para faxina.
Vários empresários já me relataram falta de mão-de-obra, sobretudo um pouco mais especializada, como torneiros mecânicos, vendedores, técnicos de informática, auxiliares contábeis etc. Há previsão de que, nos próximos meses, os salários a oferecer terão que aumentar. O empresariado terá que começar a disputar empregados a tapa.
Aí vem a surpresa, pois. Um dos empresários que mencionei me disse hoje, diante do irmão, que tinha uma “boa notícia” para mim, de que seria “obrigado a votar em Dilma”. Fiquei surpreso. Perguntei por que essa seria uma “boa notícia” exclusivamente para mim. Ele me respondeu que já tinha percebido que sou “petista”.
Sem dizer que sim, nem que não, perguntei por que ele seria “obrigado” a votar em Dilma. Respondeu-me que não dava pra arriscar o processo de crescimento “violento” que vige na economia, que não dava para arriscar mudar uma rota que está lhe enchendo os bolsos de dinheiro e que, apesar de não gostar deste governo, já não daria mais para mudar de rota porque sabe-se lá o que pode mudar na economia se quem se diz o oposto deste governo vencer a eleição.
Esse, pois, é o fenômeno que acho que passará a crescer com muita força nos próximos meses. Se se puder tomar o meus segmento de atividade como parâmetro, penso que, na hora de digitar o número do candidato na urna eletrônica, o que pesará, para o eleitor, será a intenção de manter tudo como está, porque tudo está indo bem para cada vez mais gente hoje, em todas as classes sociais e regiões do país.
Com a sensação de segurança e de euforia econômica, com o poder aquisitivo que não pára de aumentar, com os negócios indo de vento em popa, acontecerá com o eleitorado brasileiro o mesmo que aconteceu durante a votação no Congresso nacional da entrada da Venezuela no Mercosul.
Apesar dos discursos inflamados contra Hugo Chávez e contra a inserção da Venezuela no acordo de livre comércio do Cone Sul, os que pagam a conta do festim ideológico da direita, os empresários, disseram a tucanos e demos que poderiam discursar o quanto quisessem, mas não ao ponto de impedir que faturem a montanha de dinheiro que a adesão do país lhes propiciaria.
Não há ideologia ou preconceito que resista a dinheiro no bolso. Sendo este governo de “comunistas” (como diz a direita mais exaltada) ou não, fica valendo aquela boa e velha máxima de que, “pagando bem, que mal tem?”.
Quando expus completamente o estado de saúde de minha filha Victoria pela primeira vez aqui, em 16 de setembro do ano passado, perguntei-me se estava agindo certo. Foi um desabafo, apenas. Mas centenas de pessoas deixaram sua solidariedade em comentários e aquilo me fez bem, me deu forças.
Posteriormente, a exposição de um problema mais sério de saúde que passou a fustigar a menina a partir daquela data e que dura até hoje acabou desembocando em uma queixa que, lá por volta do segundo mês de sua primeira internação neste período de sua piora, fiz contra o hospital em que ela estava.
Daquele momento em diante, descobri que gritar contra o que está errado em uma instituição de saúde, se a pessoa tiver como gritar mais alto, pode influir na disposição dessas instituições de fazerem o que devem. Pelo menos no caso das instituições privadas, que prezam o nome que têm porque cobram caro dos seus clientes.
Para encurtar a história, quero lhes garantir que hoje agradeço por ter exposto aqui a saúde de minha filha. Essa exposição já ajudou muito ao provocar pressão sobre quem precisava ser pressionado.
Além disso, há a corrente de pensamentos positivos e, agora, o compromisso que tenho com vocês de dar informações sobre o estado de saúde de Victoria.
Ela continua internada, mas está melhorzinha. Ainda tem diarréia e o peito está muito cheio, mas não tem febre e a gastrostomia parou de infeccionar e vazar. Melhorando sua capacidade respiratória, creio que poderá ter alta. Além disso, está prestes a ter um “home care” pago pelo convênio.
Não é uma boa notícia ela precisar de atendimento médico ininterrupto a domicílio. Infelizmente. Contudo, já estamos preparados para isso há algum tempo. Victoria, enfim, é uma criança com uma doença muito grave. Não poderia ser mais grave, apesar de haver dúvida de que a Sindrome de Rett seja degenerativa...
Mas vamos adiante porque, por mais dolorosa que seja essa questão, acho que ficar chorando sobre leite derramado não ajudará. Deixem-me explicar o que é gastrostomia, então, pois imagino que muita gente não saiba.
A Victoria não consegue deglutir corretamente. Por conta disso, saliva, líquidos e alimentos sólidos, durante o processo de deglutição oral, acabavam passando fragmentos dessas substâncias para os pulmões da criança.
A solução, para esse caso, é perfurar o abdome do paciente e introduzir uma sonda por onde alimentação pastosa passará a ser injetada diretamente no estômago, abolindo a alimentação por via oral.
Essa situação pode ter “cura”, mas depende de continuadas e numerosas sessões de fonoaudiologia que o convênio relutava em cobrir.
Como estamos gastando muito com fisioterapia motora para evitar escoliose e encurtamento de uma das pernas que se pronuncia progressivamente, com a alimentação enteral industrializada, que é caríssima, com o plano de saúde e com um monte de outras coisas, as sessões de fisioterapia respiratória e de fonoaudiologia estavam sendo feitas aquém do necessário.
O dinheiro que dizem que o Lula me paga deve estar pingando fora de lugar, aliás, porque nunca lhe vi a cor. Mas eu o dispenso, porque da minha filha cuido eu do jeito que eu puder e que Deus quiser.
Parece, porém, que o convênio finalmente entendeu que estava fazendo uma economia “porca” com a saúde de minha filha e, agora, está se dispondo a fornecer um “home care” a ela, pois não pode mais ficar sem certos cuidados. Além disso, o convênio economizará as fortunas que acaba gastando depois com as suas longas – e agora previsíveis – internações.
Até aí, dirão vocês, é uma boa notícia. Em termos. Vitoria terá o atendimento completo que não estava tendo, mas ela passar a precisar, ininterruptamente, daquilo que não precisava, definitivamente não é uma boa notícia.
Enfim, a situação está aí e lamúrias não ajudarão a minha filha. Ela precisa de país serenos e cerebrais, capazes de buscar alternativas e de travarem a luta que é, neste país, ter uma criança tão doente quanto é Victoria Guimarães, para quem o Estado não dá – e nunca deu – absolutamente nada.
Alguns leitores estão relatando que não estão enxergando o link para os comentários e não é a primeira vez.
Abaixo, o último comentário nesse sentido.
Edu,
seus dois posts de hoje não têm espaço para comentários. Aparece apenas: envie este post. Algum problema técnico?
Graciliano | Taubaté - SP | jornalista
Às vezes esse problema começa a ocorrer com mais freqüência, inexplicavelmente. Mas pode ser resolvido clicando com o mouse sobre a página do blog e depois pressionando a tecla F5. Às vezes, é preciso repetir a operação para o link da janela de comentários funcionar.
O site do PT publicou nota do cineasta, jornalista e blogueiro Maurício Caleirodenunciando campanha contra o partido desencadeada na mídia após evento público do Instituto Millenium que congregou os donos dos grandes meios de comunicação alinhados com a candidatura do governador José Serra à Presidência da República e os seus colunistas mais radicalizados em prol desse projeto eleitoral.
O texto denuncia os últimos ataques ao PT desferidos pelos jornais Folha de São Paulo e O Globo, pela revista Veja e pela TV Globo em seu Jornal Nacional como sendo conseqüências do que foi acertado pelos presentes àquele evento supra mencionado. E como o site do partido publicou o texto, supõe-se que partilha da visão do autor.
O que não se compreende, porém, são as reações do PT ao que considera uma campanha desonesta, eleitoreira e cheia de falsidades contra si. Penso que tanto o partido quanto os seus expoentes devem decidir se aceitam apanhar praticamente calados, reagindo eventualmente em textos em seu site que ninguém lê, ou se desencadeiam uma campanha de denunciação do que dizem que está acontecendo.
Não é segredo para ninguém que este blogueiro compartilha esse diagnóstico do Partido dos Trabalhadores e de ninguém mais, ninguém menos do que do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que também vive fazendo insinuações sobre essa campanha eleitoreira dos expoentes do Instituto Millenium contra seu governo, contra seu partido, contra sua candidata à sua sucessão e até contra si mesmo. É importante deixar isso claro.
Dito isso, digo também que se aquilo que o PT e o presidente Lula dizem que está acontecendo realmente acontece – e acontece mesmo –, são fatos muito graves, até porque concessões públicas estão sendo usadas com finalidade político-eleitoral num processo que envolve calúnia e difamação.
Há, pois, várias ilegalidades sendo cometidas pelos veículos citados e por muitos outros não citados. Manter a reação a tais ilegalidades somente no discurso e sem divulgação adequada à sociedade gera uma situação esdrúxula na qual as vítimas desse processo acumpliciam-se com seus algozes, pois deveriam ter iniciado, há muito tempo, uma campanha pública para denunciar o que denunciam de forma absolutamente pífia.
O Partido dos Trabalhadores e o presidente da República tiveram e terão direito a ocupar rádios e televisões para fazer essa denuncia de forma adequada. Se não aproveitaram o espaço que tiveram, estão cada vez mais obrigados a aproveitarem o que terão. Não há estratégia eleitoral que justifique a leniência com o que vai configurando um emaranhado de ilegalidades dessas empresas de comunicação.
O Brasil tem direito a uma campanha eleitoral limpa. Denúncias vazias e sem provas apresentadas com destaque até em concessões públicas contra os políticos adversários dessas empresas de comunicação constituem, a meu ver, crimes eleitorais e uma afronta à sociedade brasileira. Se o PT, seus candidatos e seus detentores de mandatos políticos não reagem à altura, vão endossando as acusações que recebem.
Leitores solidários
Flavia Fernandes é uma moça de pouco mais de trinta anos que leu sobre o drama de minha filha Victoria no Twitter, acessou este blog, emocionou-se com a história da menina e me pediu para ir vê-la no hospital em que está internada há oito dias. Passei-lhe o telefone de minha mulher e elas combinaram a visita da Flávia.
Essa é uma das várias manifestações de solidariedade que eu e minha família recebemos dos leitores deste blog e que desejo dividir com todos. Abaixo, portanto, reproduzo parte do relato e deixo o link para quem quiser visitar e ler até o fim o texto cheio de calor humano no blog da jovem leitora e amiga Flavia Fernandes.
Quarta-feira passada (...) recebi a notícia de uma criança que está hospitalizada com sérios problemas de saúde e portadora de síndrome de rett. A Victória tem 11 anos e a doença se desenvolveu quando ela completou 1 aninho de vida.
Mandei uma mensagem de apoio ao seu pai, que me agradeceu e passou seu número de telefone pra que eu pudesse fazer contato. Na quinta-feira pela manhã, liguei pra saber notícias da menina.
Falei com sua mãe. Senti, na voz dela, uma força digna de uma mãe mesmo, mas senti também a necessidade de ir ter com ela uma conversa, levar um sorriso, um abraço sincero e uma palavra de apoio.
À noite fiz a visita. Ao chegar lá, encontro uma mãe forte, determinada, que luta pela filha e que vive em função dela. Emocionei-me ao conhecê-la. Mulher de fibra como todas as grandes mulheres!
Mas o melhor aconteceu com a pequena Victória. Aproximei-me da cama e comecei a conversar com ela. Falei do quanto é linda, cheia de luz e fiz carinho em seu rosto. Ela então ergueu o bracinho e quando peguei na mão dela, segurou a minha com força (...)
Para ler a crônica de Flavia na íntegra, clique aqui
Começa hoje um espetáculo, dirão alguns. A mídia está induzindo, dirão outros. Como disse anteriormente, porém, o que menos tenho, em relação a esse caso, é certeza de alguma coisa. Até gostaria de ter, pois é angustiante e o país precisa tratar dele tanto quanto a mídia está noticiando, pois quem estará no banco dos réus não será o casal Nardoni, mas, sim, a grande vítima de tudo isso, que tinha apenas cinco anos, que era só uma criança indefesa .
Isabella será julgada para que se saiba se teremos a verdade sobre sua morte ou se, meramente, haverá vingança da sociedade, que precisa extravasar-se para que o desejo de punição a qualquer preço a quem cometa tal barbaridade, seja satisfeito.
Não devemos, porém, contentarmo-nos com a punição e pronto. Precisamos de mais. Precisamos de evidências que nos deixem seguros de que puniremos o assassino – ou OS assassinos – de Isabella. Se, ao fim do juízo, tivermos dúvidas sobre se foi outra pessoa que atacou Isabella ou sobre se ela se lastimou por medo de alguma coisa, por medo de apanhar mais da madrasta, por exemplo, atirando-se pela janela, será trágico.
Digamos, só para exemplificar, que a madrasta bateu em Isabella e ela, apavorada, correu para o quarto, em fuga, e conseguiu cortar a tela da janela para tentar escapar de uma surra. Claro que deve haver como desmontar essa versão, mas, talvez, de forma meramente presumida, não havendo certeza de cem por cento sobre o que de fato aconteceu.
E ter-se-ia que avaliar se, por ter assustado a criança a tal ponto, Anna Carolina Jatobá não seria mesmo a responsável indireta por sua morte, o que acho que não é a mesma coisa que assassinar, por mais que seja uma conduta irresponsável que não saberia exatamente como punir ou mesmo se punir, pois adultos podem assustar crianças facilmente.
O que me preocupa é que o que aconteceu com Isabella não seja totalmente esclarecido, mas claro que me preocupa que inocentes paguem, ou que alguém pague por ter feito alguma coisa que não foi matar, mas ferir, praticar violência “disciplinar” contra uma criança além do razoável, ou não saber tratar uma criança.
Não há dúvida de que é mais fácil punir. A sensação de Justiça feita, compensará. Desde que exista convicção realmente forte que induza à crença de que será Justiça o que estará sendo feito.
A dúvida, por outro lado, encerrará o risco de o verdadeiro criminoso ter saído impune ou de nos vingarmos por uma reação mortalmente desesperada de uma criança, causada por uma conduta inadequadamente severa de seus guardiões no momento de sua morte.
Não afirmo nada, apenas digo que a dúvida me incomoda. Apenas isso. Gostaria de ter menos dúvidas ao fim desse processo que tem início hoje. Espero, então, ter ficado tranqüilo de que o juízo foi dos assassinos de Isabella e não da fatalidade que aconteceu com a garota. Se os Nardoni forem punidos por terem sido maus guardiões, que isso seja feito às claras. E, se forem considerados inocentes, que Deus nos ajude
.Do Leitor
O que me espanta, neste caso, é a total ausência de emoção. Não há sentimento de culpa, magistralmente descrito por Dostoievsky em Crime e Castigo. Porém, a história contada pelo casal é um pouco difícil de acreditar. Eles vão ser julgados. Terão seus direitos respeitados. Vamos aguardar.
Seu post pede justiça. Concordo. Mas, quando penso nesta palavra, me vem o caso Sandra Gomide. Não houve justiça neste caso. Mesmo sendo absurdamente comprovado.
Hoje a Justiça começou a ouvir o mineiro que assassinou a ex-mulher dentro do salão de beleza. Um caso comprovado, semelhante ao de Pimenta Neves-Sandra Gomide. Terá o mesmo desfecho? O caso Pimenta Neves é um dos maiores absurdos que já vi na vida.
Que a Justiça atue no julgamento do casal Nardoni, pois não atuou no caso Pimenta Neves.
Luiz Fernando Mendes de Santana | Rio de Janeiro, Brasil | Eng. Mecânico
Resposta:
Se os Nardoni fossem tão eminentes quanto o Pimenta Neves, certamente conseguiriam uma confortável prisão domiciliar. Com muito menos evidências, porém, estão pagamendo antecipadamente pelo crime.
Ou seja: um crime sobre o qual não resta dúvida está sendo relevado, enquanto outro sobre o qual restam dúvidas está sendo punido tanto quanto seria possível antes de estar tão completamente comprovado.
Sinto que algo está fora do lugar, nessa questão. Nem que seja a classificação de brasileiros diante da Justiça.
O julgamento iminente do casal Nardoni, acusado de autoria da morte da menina Isabela na noite do dia 29 de março de 2008, constitui um desafio. Como fazer justiça, nesse caso, sem levar em conta o “clamor público”?
E por que é preciso que esse “clamor” não interfira no julgamento? Simplesmente porque uma sociedade civilizada não pode linchar ninguém.
Sendo franco, não tenho qualquer certeza ou elementos que me inclinem para qualquer conclusão. O que sei sobre o assunto – e já li muito sobre ele – me parece insuficiente para condenar ou absolver.
Só o que consegui concluir, até o momento, é que pesam muitas dúvidas sobre esse caso, apesar de evidências razoáveis contrárias ao casal.
Juridicamente, porém, há um princípio consagrado em casos como esse, em que há dúvida igualmente razoável: “In dubio pro reo”. O verbete a que essa expressão em latim remete na Wikipédia, diz o seguinte:
“In dubio pro reo é uma expressão latina que significa, literalmente, ‘na dúvida, a favor do réu’. Ela expressa o princípio jurídico da presunção da inocência, que diz que, em caso de dúvida (por exemplo, insuficiência de provas), se favorecerá o réu.
É um dos pilares do Direito penal e está intimamente ligada ao princípio da legalidade.
O princípio (...) aplica-se sempre que se caracterizar uma situação de prova dúbia, pois a dúvida, em relação à existência ou não de determinado fato, deve ser resolvida em favor do imputado”
Confesso que me assusta a mera hipótese de esse casal ser inocente, ainda que, aparentemente, seja inverossímil sua versão do ocorrido naquela noite fatídica. Assim mesmo, sempre digo que é preferível inocentar mil culpados a punir um inocente.
Por outro lado, a hipótese de se devolver ao convívio social gente capaz de trucidar uma criança de cinco anos, chega a ser pior do que a alternativa. Como a sociedade pode correr um risco dessa monta?
Eis um impasse impermeável à ideologia política e sobre o qual não consigo formar uma opinião consistente. Se alguém tiver alguma coisa realmente convincente a dizer, faria um grande favor à sociedade se dissesse o que é.
O sol já vai se pondo quando saio do hospital em que estou acompanhando minha filha Victoria a fim de fazer a primeira refeição do dia, que adquiriria na banca de jornal em frente – um pacote de salgadinhos e um refrigerante.
Deparo com a capa de uma revista “Plástica & Beleza” (acima) e fico encantado. Vejam só o que aquele linchamento que fizeram com a garota Geyse Arruda fez pela vida dela. Um ato de vilania, de maldade pura, transformou essa moça em uma Cinderela.
É porque este povo repudia linchamentos como o de Geize ou como o que fizeram a vida inteira contra Lula e agora fazem contra Dilma Rousseff. Energúmenos como os da Uniban ou como os dessa imprensa golpista colheram ecolherão exatamente o oposto do que pretendiam e do que pretendem.
Vendo jornais e revistas deste domingo ou de qualquer outro dia, é sempre a mesma coisa: linchamento de Dilma ou de Lula. Não há um só dia – um só! – em que esses meios de comunicação não os acusem de alguma coisa. E no caso de Lula, isso vem desde o fim dos anos 1980.
Vendo as manchetes difamatórias nas capas do Estadão, da Veja, da Folha, do Globo, da IstoÉ etc. do fim de semana, vejo também, naquela banca, o progresso que essa menina conseguiu na vida, passando de balconista de vendinha a celebridade que está ganhando rios de dinheiro.
Já Lula, virou presidente da República. Apesar de ter demorado mais porque dependia de virar consenso entre a maioria, o que aconteceu com ele foi exatamente o mesmo que aconteceu com Geyse.
Ninguém gosta de covardia, e o bombardeio difamatório contra essa menina ou contra o presidente Lula e, agora, contra a ministra Dilma terminará onde sempre termina esse tipo de malvadeza, na lata de lixo da história. Tenho uma crença inabalável nisso.
Não precisam acreditar em mim. Outubro logo estará aí. Depois vocês me contam.
Confesso que fiquei surpreso ao ser informado sobre o que se passou com a minha mulher e com a minha filha Victoria no hospital da semana passada para cá, durante minha ausência do país. Prefiro, porém, não entrar em detalhes, ainda.
O que posso dizer, neste momento, é que acabo de formar a convicção de que a saúde privada, no Brasil, vive, de uma forma geral, uma situação quase tão insustentável quanto a pública.
Desta maneira, por o caos na saúde pública ser amplamente conhecido, tratarei da saúde privada, especificamente dos convênios médicos e desses shoppings centers disfarçados de hospitais autoproclamados “de referência”.
Um dos problemas está na formação filosófica dos profissionais da saúde – ou na falta dessa formação. A situação é preocupante. A postura deles, com poucas exceções, está longe de ser meramente aceitável.
Quando vejo a postura revoltante dessa categoria até em hospitais da elite, lembro-me dos vários casos escabrosos envolvendo estudantes de medicina que se vê a toda hora na imprensa. Um dia, estudantes degenerados se tornam médicos e é aí que o problema se torna sério.
Na caríssima rede privada, os hospitais parecem centros comerciais. São movidos só a dinheiro. Se você é um usuário de plano de saúde, a sensação que tem é a de que está ali de favor. A única forma de ser tratado de forma adequada é pagando os preços exorbitantes que cobram.
Escrevo do quarto de hospital em que a Victoria está. Ficarei velando por ela até segunda-feira pela manhã. Minha mulher estava acabada. O que ela passou até a minha filha ser internada, é revoltante. Ainda contarei os detalhes.
Tento me conter para não escrever mais do que devo, ao menos neste momento. Mas o que minha família me contou pessoalmente e que não havia me contado durante minha viagem para me poupar, fez meu sangue ferver.
Mas, agora, estou aqui. Não são mais uma mulher indefesa e seus filhos jovens e inexperientes que estão com Victoria, sou eu. E quem me conhece sabe que não me calo diante de abusos. Sei me comunicar muito bem e não hesito em fazê-lo.
Um leitor comentou, em outro post, sobre o que deve acontecer com usuários da horrorosa saúde deste país que não têm condições de lutar pelos seus direitos. Muita gente morre, fica inválida, passa por sofrimentos dignos de filmes de terror por não ter como reagir.
A saúde brasileira precisa ser passada a limpo. De ponta a ponta, de conceito em conceito, em cada etapa. Note-se que com os recursos que tenho, que não são tantos (porque não sou rico) mas são muito mais do que tem a grande maioria, temo pela vida de Victoria. Imaginem o resto.
Minha família e eu passamos quase três meses com a menina na UTI no fim do ano passado e mais dez dias em janeiro. Vejo a situação dela ir piorando a cada dia e acho que isso poderia ser impedido. Não estou satisfeito com o que estou vendo.
Na saúde privada, tudo se resume a quanto dinheiro se tem, a autorizações de convênios para qualquer procedimento um pouco mais complexo, tudo devido a uma visão dos empresários da saúde de que gerem uma linha de montagem em que cada paciente não passa de um número.
Em internações por planos de saúde, o que importa é a quantidade. Como os convênios não remuneram médicos e hospitais como eles querem, a fila tem que andar. E quantos não ficam pelo caminho...
Do leitor
Pessoas que estudam o fazem na expectativa de ganhar dinheiro, muito dinheiro. Com a Medicina não é diferente.
Na cidade em que moro, médicos ostentam carrões e mansões. Nada contra carrões e mansões. Apenas deveriam colocar a vida do ser humano em primeiro lugar.
Em novembro de 2007, meu pai, aos 73 anos, foi levado ao Pronto Socorro Municipal, às 19h00 do dia 16, com hemorragia estomacal. Conseguiram vaga para internação às 13h00 do dia 17 num hospital de Piracicaba. Às 15h00 (segundo o médico) ele faleceu. Vítima, em primeiro lugar, da hemorragia e, em segundo lugar, da pobreza.
No Brasil, o dinheiro vale muito mais do que a vida. Creio que o meu pai tenha sido transferido já morto. Apenas o levaram a Piracicaba para não dizerem que não tentaram salvá-lo.
Duas horas depois que conseguiram a tal vaga de internação, o corpo do Sr. Yves Ribeiro já estava na funerária, cujos donos também gostam muito de dinheiro.
Roberto Ribeiro | Rio das Pedras - SP - Brasil | Adm. de Empresas